Maio 30, 2004
"O" problema da Educação?
Cerca de um mês antes da prova de aferição os meus alunos fizeram durante várias aulas, e na sala de aula, um trabalho de grupo; seguiu-se uma aula em que o trabalho foi discutido e corrigido perante todos.
Naquela prova saiu uma pergunta que eu tinha incluído no trabalho de grupo, mas com um âmbito muito mais alargado e mais complicado.
Tenho duas turmas de 9º ano, uma boa e outra mais fraca, 23+25 = 48 alunos. Quantos responderam ou responderam correctamente à pergunta da prova? Nenhum!!
Temos aqui um problema grave, como estão a ver.
Não culpo o professor porque eu sou o professor e eu sei que "dei" aquela matéria seguindo o cânone actual das Ciências da Educação (o qual, aliás, considero correcto e do qual sou defensor)
Não culpo os alunos porque é absurdo culpar 100% dos alunos do que quer que seja.
Não, o problema é mais vasto e penso que não se restringe à prestação pessoal do indivíduo A ou B, seja ele aluno ou professor.
Portanto, que temos um problema , eu sei que temos. Não sei é onde, e confesso que nem sequer sei muito bem qual é o problema (porque alguns saber a resposta sabiam; ora, não se lembraram, não compreenderam a pergunta, ou o quê? Eles também não me souberam responder).
Na minha busca lanço uma hipótese (quem se lembrar de mais, por favor acrescente aqui nos “comments”):
Actualmente o cérebro dos miúdos não tem tempo para assimilar e para interiorizar o conhecimento, ou seja, não tem tempo para transformar o conhecimento em saber.
Quando o cérebro pode começar a fazer este trabalho novas vagas de estímulos e de informação (da escola e de fora da escola) lhe vão chegando, acabando tudo numa avalanche da qual se a pessoa sair com vida, isto é, com sanidade mental, já não será mau.
Então o cérebro (se isto for biológico) ou eles mesmos (se for psicológico) “desligam”.
(0) comments
Naquela prova saiu uma pergunta que eu tinha incluído no trabalho de grupo, mas com um âmbito muito mais alargado e mais complicado.
Tenho duas turmas de 9º ano, uma boa e outra mais fraca, 23+25 = 48 alunos. Quantos responderam ou responderam correctamente à pergunta da prova? Nenhum!!
Temos aqui um problema grave, como estão a ver.
Não culpo o professor porque eu sou o professor e eu sei que "dei" aquela matéria seguindo o cânone actual das Ciências da Educação (o qual, aliás, considero correcto e do qual sou defensor)
Não culpo os alunos porque é absurdo culpar 100% dos alunos do que quer que seja.
Não, o problema é mais vasto e penso que não se restringe à prestação pessoal do indivíduo A ou B, seja ele aluno ou professor.
Portanto, que temos um problema , eu sei que temos. Não sei é onde, e confesso que nem sequer sei muito bem qual é o problema (porque alguns saber a resposta sabiam; ora, não se lembraram, não compreenderam a pergunta, ou o quê? Eles também não me souberam responder).
Na minha busca lanço uma hipótese (quem se lembrar de mais, por favor acrescente aqui nos “comments”):
Actualmente o cérebro dos miúdos não tem tempo para assimilar e para interiorizar o conhecimento, ou seja, não tem tempo para transformar o conhecimento em saber.
Quando o cérebro pode começar a fazer este trabalho novas vagas de estímulos e de informação (da escola e de fora da escola) lhe vão chegando, acabando tudo numa avalanche da qual se a pessoa sair com vida, isto é, com sanidade mental, já não será mau.
Então o cérebro (se isto for biológico) ou eles mesmos (se for psicológico) “desligam”.
Maio 24, 2004
Faz vertigens pensar:
Abro a torneira, sinto a água a correr... e há milhões de pessoas que não têm acesso a água potável nenhuma.
Acordo o meu filho, vejo o seu primeiro sorriso da manhã... e há milhões de pessoas que não vêem nada disto porque morrem 2 milhões de crianças todos os dias apenas por não terem sido imunizadas com vacinas.
Saio de casa... e há milhões de pessoas que não saem de casa nenhuma porque não a têm nem nunca a vão ter.
Tomo um café, pago 0,80€... e há milhões de pessoas que é com este dinheiro que vão ter de sobreviver hoje o dia todo.
Páro aqui... mas a morte continua desvairada lá fora.
(0) comments
Acordo o meu filho, vejo o seu primeiro sorriso da manhã... e há milhões de pessoas que não vêem nada disto porque morrem 2 milhões de crianças todos os dias apenas por não terem sido imunizadas com vacinas.
Saio de casa... e há milhões de pessoas que não saem de casa nenhuma porque não a têm nem nunca a vão ter.
Tomo um café, pago 0,80€... e há milhões de pessoas que é com este dinheiro que vão ter de sobreviver hoje o dia todo.
Páro aqui... mas a morte continua desvairada lá fora.
Maio 21, 2004
Causas do stress nos professores
"(...) apenas 16 por cento da população mostra níveis elevados ou muito elevados de bem-estar social quando o que está em causa é a crença positiva na natureza humana e a confiança nos outros.
Recorde-se, a propósito, que os portugueses estão entre os mais desconfiados da Europa. Quase um quarto dos inquiridos avaliou o seu nível de confiança nas pessoas entre 0 e 2, numa escala que vai até 10 valores." (Público, 19/5/2004, p.32)
Eu sempre achei que a maior causa de stress entre os professores não eram as condições de trabalho, nem o salário, nem a indisciplina, nem nada dessas coisas, mas sim a relação com os colegas que está muito longe de ser de confiança, como a multiplicidade de sindicatos existentes no sector o revela.
Numa sociedade em que ainda imperam as estratégias da intimidação, da distanciação em relação ao sofrimento dos outros, em que o Estado cada vez mais “desprotege” as pessoas que mais precisam de protecção, a falta de suporte emocional a que estamos tão sujeitos neste país (e para o qual também cada um de nós contribui) só pode dar como resultado os resultados indicados acima, mais a solidão e o sofrimento consequente que não cabem em nenhuma estatística.
(0) comments
Recorde-se, a propósito, que os portugueses estão entre os mais desconfiados da Europa. Quase um quarto dos inquiridos avaliou o seu nível de confiança nas pessoas entre 0 e 2, numa escala que vai até 10 valores." (Público, 19/5/2004, p.32)
Eu sempre achei que a maior causa de stress entre os professores não eram as condições de trabalho, nem o salário, nem a indisciplina, nem nada dessas coisas, mas sim a relação com os colegas que está muito longe de ser de confiança, como a multiplicidade de sindicatos existentes no sector o revela.
Numa sociedade em que ainda imperam as estratégias da intimidação, da distanciação em relação ao sofrimento dos outros, em que o Estado cada vez mais “desprotege” as pessoas que mais precisam de protecção, a falta de suporte emocional a que estamos tão sujeitos neste país (e para o qual também cada um de nós contribui) só pode dar como resultado os resultados indicados acima, mais a solidão e o sofrimento consequente que não cabem em nenhuma estatística.
Maio 16, 2004
Uma pergunta à infância
A quem se choca com a absoluta satisfação que os soldados americanos revelam nas fotos das torturas no Iraque:
tentem imaginar como é que eles terão sido tratados na sua infância... Não é difícil imaginar, pois não?
(1) comments
tentem imaginar como é que eles terão sido tratados na sua infância... Não é difícil imaginar, pois não?
Os pobres são culpados de quê?
A pobreza é como uma doença ou como uma depressão grave:
sem ajuda especializada (e, portanto, sem dinheiro entre outras coisas) não é possível curá-la.
E, não o esqueçamos, a pobreza é mesmo uma doença do corpo social.
(0) comments
sem ajuda especializada (e, portanto, sem dinheiro entre outras coisas) não é possível curá-la.
E, não o esqueçamos, a pobreza é mesmo uma doença do corpo social.
Maio 12, 2004
A insensatez de uma opção pela guerra
A propósito da guerra no Iraque, é exemplo de falta de um mínimo de senso esperar :
- que da guerra nasça logo a paz, qualquer paz (“De tigres não nascem cordeiros”, Gandhi);
- que da ordem de matar o inimigo nasça a obediência ao respeito pelos direitos humanos desse inimigo;
- que não seja considerado bárbaro filmar a matança de mulheres, velhos e crianças com bombas, mas que o seja filmar uma execução de um só homem com uma única faca.
(0) comments
- que da guerra nasça logo a paz, qualquer paz (“De tigres não nascem cordeiros”, Gandhi);
- que da ordem de matar o inimigo nasça a obediência ao respeito pelos direitos humanos desse inimigo;
- que não seja considerado bárbaro filmar a matança de mulheres, velhos e crianças com bombas, mas que o seja filmar uma execução de um só homem com uma única faca.
Que resposta à violência?
E se maltratarem ou matarem o meu filho? Respeito por eles? Não deverei antes matar quem matou?
Primeira resposta: sim, devo. Sei, no entanto, que estou a alimentar uma guerra infinita (será necessário recordar o exemplo de palestinianos e israelitas?)
Segunda resposta: não, não devo.
Porque sou um ser humano que sabe que a única possibilidade de paz entre mim e o outro, em mim e no outro, surge não pela vingança mas pelo perdão.
Porque, ao perdoar, não destruo pessoas, culpadas ou inocentes, destruo um elo de uma cadeia de violência e de dor a que eu e o outro estávamos presos.
E é nessa pausa que o perdão concede, às vezes infinitesimal é certo, que o princípio de uma paz autêntica pode surgir.
(0) comments
Primeira resposta: sim, devo. Sei, no entanto, que estou a alimentar uma guerra infinita (será necessário recordar o exemplo de palestinianos e israelitas?)
Segunda resposta: não, não devo.
Porque sou um ser humano que sabe que a única possibilidade de paz entre mim e o outro, em mim e no outro, surge não pela vingança mas pelo perdão.
Porque, ao perdoar, não destruo pessoas, culpadas ou inocentes, destruo um elo de uma cadeia de violência e de dor a que eu e o outro estávamos presos.
E é nessa pausa que o perdão concede, às vezes infinitesimal é certo, que o princípio de uma paz autêntica pode surgir.
Maio 09, 2004
Tolerância vs. respeito
Devemos ser tolerantes com os outros.
Devemos? Tolerantes com a violência (por exemplo, a que é exercida sobre crianças e mulheres por razões religiosas ou outras) ou, para simplificar, tolerantes com aqueles que o não são?
É por causa das contradições que são geradas pela palavra tolerância que eu prefiro o conceito de "respeito".
Primeiro, porque só falamos de tolerância em relação aos outros, pessoalmente ninguém admite gostar de ser "tolerado". O que faz suspeitar que tolerar não será uma coisa tão boa assim.
Segundo, porque se a essência da minha relação com os outros for o respeito e, dentro deste, o respeito pelos mais fracos, pelos que sofrem sem defesa, então aquelas contradições desaparecem.
(0) comments
Devemos? Tolerantes com a violência (por exemplo, a que é exercida sobre crianças e mulheres por razões religiosas ou outras) ou, para simplificar, tolerantes com aqueles que o não são?
É por causa das contradições que são geradas pela palavra tolerância que eu prefiro o conceito de "respeito".
Primeiro, porque só falamos de tolerância em relação aos outros, pessoalmente ninguém admite gostar de ser "tolerado". O que faz suspeitar que tolerar não será uma coisa tão boa assim.
Segundo, porque se a essência da minha relação com os outros for o respeito e, dentro deste, o respeito pelos mais fracos, pelos que sofrem sem defesa, então aquelas contradições desaparecem.
Maio 04, 2004
Paul Celan
Oiço os sons da guerra infinita entre israelitas e palestinianos, uma guerra onde a palavra perdão é praticamente inaudível.
Sei da violência que se abate sobre as crianças em tempos de crise e cujo choro se mantém também inaudível.
Vejo e ouço o riso de todos os crápulas nesse espelho da nossa vileza que é a televisão.
E tanta, tanta gente que morre em sofrimento, seja com fome, seja com Sida, seja com armas, seja com nada e morre, morre sem um grito.
E lembro-me de Paul Celan:
"Se viesse,
se viesse um homem
se viesse um homem ao mundo, hoje, com
a barba de luz dos
patriarcas: só poderia,
se falasse deste
tempo, só
poderia
balbuciar balbuciar
sempre sempre
só só."
(0) comments
Sei da violência que se abate sobre as crianças em tempos de crise e cujo choro se mantém também inaudível.
Vejo e ouço o riso de todos os crápulas nesse espelho da nossa vileza que é a televisão.
E tanta, tanta gente que morre em sofrimento, seja com fome, seja com Sida, seja com armas, seja com nada e morre, morre sem um grito.
E lembro-me de Paul Celan:
"Se viesse,
se viesse um homem
se viesse um homem ao mundo, hoje, com
a barba de luz dos
patriarcas: só poderia,
se falasse deste
tempo, só
poderia
balbuciar balbuciar
sempre sempre
só só."