Fevereiro 28, 2009
Ser Professor até ao fim
Sabemos hoje que Hitler nada teria conseguido sem a colaboração dos funcionários públicos.
Temos assim o pequeno funcionário, peça de uma imensa engrenagem (peça porque perfeitamente substituível), na qual cada injustiça era apresentada como um sacrifício necessário para a Alemanha sair da crise (em que cada injustiça não era vista como tal pela opinião publicada na altura, note-se).
Com a táctica dos pequenos passos a enredarem-se uns pelos outros, mais o recurso ao medo, os nazis conseguiram que as pessoas fizessem o que não aceitariam fazer em condições normais.
E, nestas condições, poucos desses funcionários conseguiram ser suficientemente lúcidos e corajosos para se oporem ao sistema ou para dele sairem.
O problema que aqui se me põe para já é este:
Como conseguir distinguir a linha que separa o que é ainda eticamente aceitável, do que configura já a prática de um crime?
Ou:
Como saber aquilo que os nossos descendentes vão identificar claramente como um crime, votando-nos a nós, que dele participámos e o alimentámos, à condenação e ao desprezo?
Mas no estado actual da Educação no nosso país este problema de identificação põe-se?
Na minha opinião, não, realmente não.
Porque sei, cada vez com mais convicção, que já está a ser cometido por este governo um Crime de proporções incalculáveis sobre esta geração de jovens e sobre o futuro deste país.
(Só o facto de o sistema não ter meios para pôr cobro aos que impedem os alunos mais pobres e mais trabalhadores de poderem estar em segurança na escola e de aí poderem aprender, para mim já é crime bastante)
Então, nestas condições, como deve actuar este "pequeno funcionário" que é o professor da escola pública?
Eu sei.
Primeiro, recusar-se a colaborar em tudo o que estiver ao seu alcance, desde que não prejudique ainda mais os alunos.
O que já é bastante.
Mas a verdade é que, no fim, não há outra alternativa, nada mais lhe resta fazer senão sair desta engrenagem, numa recusa, agora total, de alimentar este Crime, ou de sequer fazer parte dele.
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Temos assim o pequeno funcionário, peça de uma imensa engrenagem (peça porque perfeitamente substituível), na qual cada injustiça era apresentada como um sacrifício necessário para a Alemanha sair da crise (em que cada injustiça não era vista como tal pela opinião publicada na altura, note-se).
Com a táctica dos pequenos passos a enredarem-se uns pelos outros, mais o recurso ao medo, os nazis conseguiram que as pessoas fizessem o que não aceitariam fazer em condições normais.
E, nestas condições, poucos desses funcionários conseguiram ser suficientemente lúcidos e corajosos para se oporem ao sistema ou para dele sairem.
O problema que aqui se me põe para já é este:
Como conseguir distinguir a linha que separa o que é ainda eticamente aceitável, do que configura já a prática de um crime?
Ou:
Como saber aquilo que os nossos descendentes vão identificar claramente como um crime, votando-nos a nós, que dele participámos e o alimentámos, à condenação e ao desprezo?
Mas no estado actual da Educação no nosso país este problema de identificação põe-se?
Na minha opinião, não, realmente não.
Porque sei, cada vez com mais convicção, que já está a ser cometido por este governo um Crime de proporções incalculáveis sobre esta geração de jovens e sobre o futuro deste país.
(Só o facto de o sistema não ter meios para pôr cobro aos que impedem os alunos mais pobres e mais trabalhadores de poderem estar em segurança na escola e de aí poderem aprender, para mim já é crime bastante)
Então, nestas condições, como deve actuar este "pequeno funcionário" que é o professor da escola pública?
Eu sei.
Primeiro, recusar-se a colaborar em tudo o que estiver ao seu alcance, desde que não prejudique ainda mais os alunos.
O que já é bastante.
Mas a verdade é que, no fim, não há outra alternativa, nada mais lhe resta fazer senão sair desta engrenagem, numa recusa, agora total, de alimentar este Crime, ou de sequer fazer parte dele.
Etiquetas: Escola, Resistir, Valores
Fevereiro 13, 2009
Objectivos Individuais (3)
Era até ao dia 10. Não entreguei: eu e mais meia dúzia de professores.
Três coisas me impressionaram até ao momento.
Uma, o medo que domina actualmente tantos professores. Numa democracia alegadamente europeia. É certo que alguns utilizam o pretexto do medo para disfarçar a sua ganância, ou a sua comodidade, ou simplesmente a sua demissão de pensar pela sua própria cabeça. Mas a maioria sente inegavelmente medo. Medo. Bem como vergonha por sentirem medo, por se submeterem a ele, por enfim quebrarem perante o poder que, por todos os meios, tem tentado diminui-los e destruir-lhes a sua fibra moral. Professores, titulares, professores no último escalão e até sindicalistas: todos.
Outra, a completa ausência dos jovens. Eles são a garantia da evolução das sociedades, são eles que asseguram a sua renovação mantendo-as, portanto, vivas. São eles que, desde sempre, se colocaram na primeira linha da contestação à tirania e à prepotência. Onde estão eles? Estarão paralisados pelo medo? Estarão apáticos? Será que criámos uma geração de conformistas?
Finalmente, o esquecimento. Hoje vejo as pessoas a rirem-se, a conversarem. Como se nada tivesse acontecido, como se nada se tivesse passado. Cento e tal professores agem em perfeita contradição com aquilo que acreditam (acreditaram?). Desistem de lutar na primeira acção positiva que podiam empreender, submetem-se a um poder grosseiro e boçal. E fingem que nada aconteceu? Transformam tudo isto num simples incidente negligenciável?
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Três coisas me impressionaram até ao momento.
Uma, o medo que domina actualmente tantos professores. Numa democracia alegadamente europeia. É certo que alguns utilizam o pretexto do medo para disfarçar a sua ganância, ou a sua comodidade, ou simplesmente a sua demissão de pensar pela sua própria cabeça. Mas a maioria sente inegavelmente medo. Medo. Bem como vergonha por sentirem medo, por se submeterem a ele, por enfim quebrarem perante o poder que, por todos os meios, tem tentado diminui-los e destruir-lhes a sua fibra moral. Professores, titulares, professores no último escalão e até sindicalistas: todos.
Outra, a completa ausência dos jovens. Eles são a garantia da evolução das sociedades, são eles que asseguram a sua renovação mantendo-as, portanto, vivas. São eles que, desde sempre, se colocaram na primeira linha da contestação à tirania e à prepotência. Onde estão eles? Estarão paralisados pelo medo? Estarão apáticos? Será que criámos uma geração de conformistas?
Finalmente, o esquecimento. Hoje vejo as pessoas a rirem-se, a conversarem. Como se nada tivesse acontecido, como se nada se tivesse passado. Cento e tal professores agem em perfeita contradição com aquilo que acreditam (acreditaram?). Desistem de lutar na primeira acção positiva que podiam empreender, submetem-se a um poder grosseiro e boçal. E fingem que nada aconteceu? Transformam tudo isto num simples incidente negligenciável?
Etiquetas: Escola, Resistir, Valores
Fevereiro 03, 2009
Contra a avaliação
Razões por que estou contra:
1 - Porque acho a competição danosa para a educação (tal como o acham a esmagadora maioria dos países europeus, incluindo a Filândia). Pense-se nos pais: é bom estarem em competição ou é melhor a colaboração quando se trata de educar os seus filhos?
2 - Porque acho eticamente abominável e profundamente desmoralizador a existência de quotas para professores muito bons ou excelentes. É matar a vontade e o respeito por se tentar fazer o melhor.
3 - Porque despreza os que cumprem as suas obrigações, só não penalizando os classificados com Bom ou mais.
4 - Porque é um desastre para o país e para o seu futuro uma avaliação baseada nos resultados dos alunos (que foi abandonada temporariamente e com justificações apenas de simplificação burocrática). É como premiar os fiscais de obras pelo número de obras aprovadas, ou polícias pela ausência de multa: é um absurdo estúpido.
5 - Porque me recuso a pactuar com manobras indecentes e inescrupulosas por parte do governo: ameaças, chantagens, intimidação aos mais fracos e desprotegidos, atribuição de privilégios especiais a certos grupos de professores (mostrando assim o quão pouco acreditam no próprio modelo que dizem defender).
6 - Porque decidi recusar-me a condicionar as minhas escolhas éticas ao medo do que eles me possam fazer. Deste modo, livremente, posso desobedecer a ordens que só causam mal, o que representa agora uma tarefa de carácter cívico e de cidadania que transcende a mera esfera pessoal. Ainda por cima, sei que o Governo fica impotente se ninguém lhe obedecer - é uma luta que, ao contrário de muitas outras, tem o sucesso garantido... desde que não se obedeça ao medo.
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1 - Porque acho a competição danosa para a educação (tal como o acham a esmagadora maioria dos países europeus, incluindo a Filândia). Pense-se nos pais: é bom estarem em competição ou é melhor a colaboração quando se trata de educar os seus filhos?
2 - Porque acho eticamente abominável e profundamente desmoralizador a existência de quotas para professores muito bons ou excelentes. É matar a vontade e o respeito por se tentar fazer o melhor.
3 - Porque despreza os que cumprem as suas obrigações, só não penalizando os classificados com Bom ou mais.
4 - Porque é um desastre para o país e para o seu futuro uma avaliação baseada nos resultados dos alunos (que foi abandonada temporariamente e com justificações apenas de simplificação burocrática). É como premiar os fiscais de obras pelo número de obras aprovadas, ou polícias pela ausência de multa: é um absurdo estúpido.
5 - Porque me recuso a pactuar com manobras indecentes e inescrupulosas por parte do governo: ameaças, chantagens, intimidação aos mais fracos e desprotegidos, atribuição de privilégios especiais a certos grupos de professores (mostrando assim o quão pouco acreditam no próprio modelo que dizem defender).
6 - Porque decidi recusar-me a condicionar as minhas escolhas éticas ao medo do que eles me possam fazer. Deste modo, livremente, posso desobedecer a ordens que só causam mal, o que representa agora uma tarefa de carácter cívico e de cidadania que transcende a mera esfera pessoal. Ainda por cima, sei que o Governo fica impotente se ninguém lhe obedecer - é uma luta que, ao contrário de muitas outras, tem o sucesso garantido... desde que não se obedeça ao medo.
Etiquetas: Escola, Resistir, Valores
Fevereiro 01, 2009
Objectivos Individuais (2)
A partir do momento em que decidi não entregar os o.i., tornou-se-me irrelevante saber se somos muitos ou poucos.
Eu decidi agir não me submetendo ao medo e à prepotência, ou seja, decidi ser livre e coerente com a minha consciência. Em suma, decidi ser totalmente responsável pelos meus actos nesta matéria: não aceitar donos.
E como eu me sinto bem comigo mesmo por ter tomado esta decisão!
Não o esqueço: somos 120 000! Muitos podem ter medo, vacilar, desistir, etc, mas eu sei que eles não concordam com nada do que este m.e. lhes manda fazer com o sentido de destruir a Escola Pública. Isso me basta para não me sentir sozinho.
Felizmente também sei que há muitos professores que acreditam o suficiente em si próprios e no seu próprio julgamento para não cederem.
Ah, e estar em tal companhia é bom, é mesmo muito bom!
Nota: estou no 8º escalão e, provavelmente, daqui nunca sairei.
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Eu decidi agir não me submetendo ao medo e à prepotência, ou seja, decidi ser livre e coerente com a minha consciência. Em suma, decidi ser totalmente responsável pelos meus actos nesta matéria: não aceitar donos.
E como eu me sinto bem comigo mesmo por ter tomado esta decisão!
Não o esqueço: somos 120 000! Muitos podem ter medo, vacilar, desistir, etc, mas eu sei que eles não concordam com nada do que este m.e. lhes manda fazer com o sentido de destruir a Escola Pública. Isso me basta para não me sentir sozinho.
Felizmente também sei que há muitos professores que acreditam o suficiente em si próprios e no seu próprio julgamento para não cederem.
Ah, e estar em tal companhia é bom, é mesmo muito bom!
Nota: estou no 8º escalão e, provavelmente, daqui nunca sairei.
Etiquetas: Escola, Resistir, Valores