Numa das minhas turmas existe desde o aluno que pergunta:
"Pedir desculpa? Para quê? O que é que se ganha com isso?"
até à aluna que escreve o seguinte poema matemático:
"Senhor rectângulo, pensei um dia
que nunca mais o decifraria.
Rosto tão longo
e voz tão sombria."
Gostaria de ter um comentário inteligente acerca disto, mas não tenho.
A vida. Tão pouco e tão tanto. (...) E todavia eu sei que "isto" nasceu para o silêncio sem fim... (Vergílio Ferreira)
segunda-feira, maio 30, 2005
domingo, maio 29, 2005
Gandhi
Retorno sempre a ele.
Creio já ter dito que ele é o único ser humano a quem eu concedo o estatuto de herói.
Gandhi constrói uma ponte única entre Buda e Cristo. De Buda, a reflexão, o estudo e a decisão consciente para agir com sabedoria e alcançar estados de consciência mais elevados. De Cristo, o combate contra a injustiça, a defesa dos mais fracos, uma atitude perante os outros absolutamente original e plena de amor.
A busca da verdade implica necessariamente a não violência e o amor.
A violência perturba o corpo e os sentidos, tornando impossível uma procura objectiva da verdade. E destrói o amor.
O amor é condição, que pode não ser suficiente, mas é absolutamente necessária para compreender os outros, o mundo, a vida, ou seja para nos aproximarmos da verdade.
Entenda-se a não violência, não como uma atitude passiva de simples evitamento de atitudes agressivas, mas como uma postura activa de nunca desistir de lutar pelo que consideramos justo, só que com métodos não violentos.
Creio que foi Einstein que disse que um dia iríamos perguntar-nos como é pôde alguma vez existir uma pessoa assim. Suspeito mais que o esquecimento e o menosprezo irão acabar por pôr de lado tudo o que a Gandhi se refere.
Creio já ter dito que ele é o único ser humano a quem eu concedo o estatuto de herói.
Gandhi constrói uma ponte única entre Buda e Cristo. De Buda, a reflexão, o estudo e a decisão consciente para agir com sabedoria e alcançar estados de consciência mais elevados. De Cristo, o combate contra a injustiça, a defesa dos mais fracos, uma atitude perante os outros absolutamente original e plena de amor.
A busca da verdade implica necessariamente a não violência e o amor.
A violência perturba o corpo e os sentidos, tornando impossível uma procura objectiva da verdade. E destrói o amor.
O amor é condição, que pode não ser suficiente, mas é absolutamente necessária para compreender os outros, o mundo, a vida, ou seja para nos aproximarmos da verdade.
Entenda-se a não violência, não como uma atitude passiva de simples evitamento de atitudes agressivas, mas como uma postura activa de nunca desistir de lutar pelo que consideramos justo, só que com métodos não violentos.
Creio que foi Einstein que disse que um dia iríamos perguntar-nos como é pôde alguma vez existir uma pessoa assim. Suspeito mais que o esquecimento e o menosprezo irão acabar por pôr de lado tudo o que a Gandhi se refere.
De volta!
Há muito tempo que aqui não venho.
Nenhuma ideia interessante, nenhum livro inesquecível, nada para dizer.
Acrescido a isto diversas anomalias físicas e psíquicas: insónias terríveis, distúrbios alimentares, alergias diversas, oscilações pronunciadas de humor.
Ontem fui ao meu médico, um médico muito especial. Disse-me:
Nós somos corpo e mente. Às vezes não conseguimos estar bem de espírito porque o mau funcionamento do corpo afecta a mente. Outras vezes é a mente que, por estar mal, gera diversas afecções no corpo. Segundo ele, enquadro-me nesta última situação (há um ano atrás estive na outra, tomei medicamentos e foi-me oferecida a oportunidade de uma nova vida). Receitou-me um programa de exercícios de respiração e de meditação, e lançou-me o desafio: fazer este programa duas vezes por dia durante 15 dias e depois voltar lá. Ele garantiu-me que eu não precisaria de voltar.
Vim para casa, tive mais um distúrbio alimentar e senti-me miserável. Mas antes de me deitar fiz a meditação. E dormi 9 horas seguidas!
E hoje? Hoje fiz o programa de manhã e à hora do almoço. Tive um distúrbio alimentar, mas consegui trabalhar: limpar a casa de banho e a cozinha, passar a ferro e arrumar quartos, coisas que já não fazia há uns tempos. Vamos ver.
Entretanto, vejo que o meu último post tem 8 comentários, um recorde que me deixa sem jeito. Aqui fica o meu agradecimento, companheiros da web!
Nenhuma ideia interessante, nenhum livro inesquecível, nada para dizer.
Acrescido a isto diversas anomalias físicas e psíquicas: insónias terríveis, distúrbios alimentares, alergias diversas, oscilações pronunciadas de humor.
Ontem fui ao meu médico, um médico muito especial. Disse-me:
Nós somos corpo e mente. Às vezes não conseguimos estar bem de espírito porque o mau funcionamento do corpo afecta a mente. Outras vezes é a mente que, por estar mal, gera diversas afecções no corpo. Segundo ele, enquadro-me nesta última situação (há um ano atrás estive na outra, tomei medicamentos e foi-me oferecida a oportunidade de uma nova vida). Receitou-me um programa de exercícios de respiração e de meditação, e lançou-me o desafio: fazer este programa duas vezes por dia durante 15 dias e depois voltar lá. Ele garantiu-me que eu não precisaria de voltar.
Vim para casa, tive mais um distúrbio alimentar e senti-me miserável. Mas antes de me deitar fiz a meditação. E dormi 9 horas seguidas!
E hoje? Hoje fiz o programa de manhã e à hora do almoço. Tive um distúrbio alimentar, mas consegui trabalhar: limpar a casa de banho e a cozinha, passar a ferro e arrumar quartos, coisas que já não fazia há uns tempos. Vamos ver.
Entretanto, vejo que o meu último post tem 8 comentários, um recorde que me deixa sem jeito. Aqui fica o meu agradecimento, companheiros da web!
domingo, maio 08, 2005
Política
Já repararam que eu nunca falo de política?
Enquanto fazia a barba estava a recordar-me de uma anedota lida há uns dias atrás na Reader's Digest e sentia que esta explicava, esclarecia qualquer coisa de mim mas não sabia o quê. E então percebi. A anedota primeiro:
"Dois bêbados caminham ao longo da linha de caminho de ferro. Passados alguns quilómetros, um deles diz, "Estes degraus estão a matar-me."
"Não são os degraus o maior problema", responde o companheiro."São os corrimões que estão muito baixos."" (Reader's Digest, September 2004, nº 989)
Bom, oiço os políticos, leio o que eles dizem e sinto que estão tão ao lado das coisas como estes dois. Ou estarei eu? Não sei realmente, sei é que o seu mundo e o mundo de que falam está cada vez mais distante do meu, para mim é um mundo que vai perdendo sentido e significado, que pouco me diz e do qual vou tendo cada vez menos para dizer.
(Como uma ave agoirenta, paira no meu espírito aquela frase que lamento não me lembrar de quem é: enquanto tu não te ocupas da política, a política ocupa-se de ti...)
Enquanto fazia a barba estava a recordar-me de uma anedota lida há uns dias atrás na Reader's Digest e sentia que esta explicava, esclarecia qualquer coisa de mim mas não sabia o quê. E então percebi. A anedota primeiro:
"Dois bêbados caminham ao longo da linha de caminho de ferro. Passados alguns quilómetros, um deles diz, "Estes degraus estão a matar-me."
"Não são os degraus o maior problema", responde o companheiro."São os corrimões que estão muito baixos."" (Reader's Digest, September 2004, nº 989)
Bom, oiço os políticos, leio o que eles dizem e sinto que estão tão ao lado das coisas como estes dois. Ou estarei eu? Não sei realmente, sei é que o seu mundo e o mundo de que falam está cada vez mais distante do meu, para mim é um mundo que vai perdendo sentido e significado, que pouco me diz e do qual vou tendo cada vez menos para dizer.
(Como uma ave agoirenta, paira no meu espírito aquela frase que lamento não me lembrar de quem é: enquanto tu não te ocupas da política, a política ocupa-se de ti...)
sábado, maio 07, 2005
Este conselho num blog...
Não resisto. Aqui fica, para os que não leram o JL (nº 901), um conselho árabe citado por Fernando Campos:
"Nunca fales de ti.
Se disseres bem, ninguém te acredita.
Se disseres mal, acreditarão em mais do que possas dizer."
"Nunca fales de ti.
Se disseres bem, ninguém te acredita.
Se disseres mal, acreditarão em mais do que possas dizer."
Praxes (2)
Ter-me-ei excedido no post anterior? Principalmente no uso das palavras "nazi" e "escória"? Não tenho a certeza, mas penso que não, se considerarmos que esta realidade retratada por essas palavras não é a situação acabada que elas podem representar mas é já um seu embrião .
Sou contra todo o tipo de praxes. Porque são, na sua esmagadora maioria, um veículo para a execução de actos brutais e/ou humilhantes sobre pessoas que pouca defesa têm face à barbárie. Não foi por acaso que o 25 de Abril acabou com elas na altura.
Sou contra, como sou contra que se maltrate crianças. Até pode ser benéfica para a criança uma palmada (como sabem não concordo, mas não vou discuti-lo aqui outra vez); mas há a hipótese de abusos? Há. Logo é proibido por lei aos professores, pais, familiares, etc, maltratá-las seja de que modo for e em que circunstâncias for.
A mesma coisa devia servir para as praxes.
Sou contra todo o tipo de praxes. Porque são, na sua esmagadora maioria, um veículo para a execução de actos brutais e/ou humilhantes sobre pessoas que pouca defesa têm face à barbárie. Não foi por acaso que o 25 de Abril acabou com elas na altura.
Sou contra, como sou contra que se maltrate crianças. Até pode ser benéfica para a criança uma palmada (como sabem não concordo, mas não vou discuti-lo aqui outra vez); mas há a hipótese de abusos? Há. Logo é proibido por lei aos professores, pais, familiares, etc, maltratá-las seja de que modo for e em que circunstâncias for.
A mesma coisa devia servir para as praxes.
terça-feira, maio 03, 2005
Praxes académicas... nazis? Sim!
Uma amiga minha foi ao Porto assistir à Queima das Fitas. As cerimónias públicas metiam uma praxe académica que consistia em dar bengaladas nos desgraçados dos estudantes. O material que os carrascos (parece que lá os chamam de veteranos) usavam era transportado não pelos próprios mas por estudantes a que chamavam de escravos(as)... Note-se: o sobrinho dessa minha amiga teve que receber tratamento médico por ter ficado com a cabeça esfolada e inchada.
Algumas considerações:
Primeira: aos que se espantam com o surgimento do nazismo na Alemanha eu aconselho a irem assistir a praxes académicas, ou a ouvirem quem foi vítima delas, para perceberem que o nazismo como atitude está em todo o lado!
A segunda é uma pergunta: em que é que estas praxes, mesmo as mais soft e consideradas muito “divertidas”, contribuem para dignificar a pessoa humana? (Esta pergunta é retórica: não tentem sequer explicar-me!)
Finalmente: as bengaladas foram dadas na presença e com o assentimento de professores da universidade (parece que o senado da dita aprovou esta violência). Nenhum teve a coragem de se levantar e dizer basta. Nenhum teve a humanidade de defender os seus alunos da barbárie. Nenhum pode ser olhado, chamado e considerado como professor. Na verdade eu tenho vergonha de, por ser professor, poder ser confundido com esta escória!
Algumas considerações:
Primeira: aos que se espantam com o surgimento do nazismo na Alemanha eu aconselho a irem assistir a praxes académicas, ou a ouvirem quem foi vítima delas, para perceberem que o nazismo como atitude está em todo o lado!
A segunda é uma pergunta: em que é que estas praxes, mesmo as mais soft e consideradas muito “divertidas”, contribuem para dignificar a pessoa humana? (Esta pergunta é retórica: não tentem sequer explicar-me!)
Finalmente: as bengaladas foram dadas na presença e com o assentimento de professores da universidade (parece que o senado da dita aprovou esta violência). Nenhum teve a coragem de se levantar e dizer basta. Nenhum teve a humanidade de defender os seus alunos da barbárie. Nenhum pode ser olhado, chamado e considerado como professor. Na verdade eu tenho vergonha de, por ser professor, poder ser confundido com esta escória!
quarta-feira, abril 27, 2005
Feira do Livro na Gulbenkian
Desde ontem até dia 6 de Maio (se não me engano), das 12h às 22h, estão na Gulbenkian (edifício principal) numa feira do livro todas as suas edições.
Para professores e estudantes os preços são substancialmente mais baixos.
Comprei "Cartas a Lucílio" de Séneca.
Para professores e estudantes os preços são substancialmente mais baixos.
Comprei "Cartas a Lucílio" de Séneca.
sábado, abril 23, 2005
R.E.M. and lyrics
Não páro de ouvir Electron Blue dos REM. Não sei o que Michael diz.
Quase nunca sei o que as letras das canções dizem. Apanho aqui e ali uma palavra e não quero saber de mais, pelo menos enquanto a canção abala todo o meu ser, como esta agora. Assim, a canção ocupa todo um espaço de sonho e de expansão sem limites e não me desilude. Porque as canções são quase sempre muito maiores que as respectivas letras.
Nunca me hei-de esquecer da imensa desilusão que tive ao saber do que tratavam algumas das áreas de D.Giovanni: como é que algo que apontava para dimensões trágicas e míticas da existência (era o que eu sentia ao ouvir) podia ter letras tão fúteis?
Deste modo só me interesso logo pelas letras de cantores que não me desiludem. E nestas condições, na verdade só me lembro de um: Leonard Cohen.
Quase nunca sei o que as letras das canções dizem. Apanho aqui e ali uma palavra e não quero saber de mais, pelo menos enquanto a canção abala todo o meu ser, como esta agora. Assim, a canção ocupa todo um espaço de sonho e de expansão sem limites e não me desilude. Porque as canções são quase sempre muito maiores que as respectivas letras.
Nunca me hei-de esquecer da imensa desilusão que tive ao saber do que tratavam algumas das áreas de D.Giovanni: como é que algo que apontava para dimensões trágicas e míticas da existência (era o que eu sentia ao ouvir) podia ter letras tão fúteis?
Deste modo só me interesso logo pelas letras de cantores que não me desiludem. E nestas condições, na verdade só me lembro de um: Leonard Cohen.
Hoje é o Dia Mundial do Livro
Vou comemorá-lo passando para aqui um belíssimo poema de Rainer Maria Rilke a Lou Andreas-Salomé:
II
Como um lenço ante o hálito acumulado,
não: como se aperta contra uma ferida
da qual a vida toda, num só jorro,
quer sair, assim te apertei a mim: vi
que te avermelhavas de mim. Quem é que exprime
o que aconteceu? Recuperámos tudo
para que não houvera tempo. Amadurei estranhamente
em cada impulso de juventude não-vivida,
e tu, amada, tiveste uma qualquer
ferocíssima infância sobre o meu coração.
(Paulo Quintela, Obras Completas, III, Traduções II, Fundação Calouste Gulbenkian, 1998, p. 247)
II
Como um lenço ante o hálito acumulado,
não: como se aperta contra uma ferida
da qual a vida toda, num só jorro,
quer sair, assim te apertei a mim: vi
que te avermelhavas de mim. Quem é que exprime
o que aconteceu? Recuperámos tudo
para que não houvera tempo. Amadurei estranhamente
em cada impulso de juventude não-vivida,
e tu, amada, tiveste uma qualquer
ferocíssima infância sobre o meu coração.
(Paulo Quintela, Obras Completas, III, Traduções II, Fundação Calouste Gulbenkian, 1998, p. 247)
sexta-feira, abril 22, 2005
Dia Mundial do Livro
A propósito de amanhã ser o Dia Mundial do Livro, no Amor e Ócio pedem-nos para sugerir um livro que tenhamos gostado de ler. Lá o fiz. Mas é uma tarefa dificílima, principalmente para quem já leu uns milhares deles. Mais fácil é falar de autores e aqui estão os "meus": Vergílio Ferreira, Arno Gruen, António Ramos Rosa, António Alçada Baptista, Karen Blixen, Mia Couto, Luís Sepúlveda, Lawrence Durrell, Erri De Luca, Eduardo Prado Coelho, Christa Wolf, Ray Bradbury, James Herriot,...
Mas se eu tivesse que escolher qual o livro que imprimiu a marca mais profunda na minha vida não teria dúvidas em apontar "A Loucura da Normalidade" de Arno Gruen, Assírio e Alvim.
E o livro que mais amei? Também sem dúvidas: "Cântico Final" de Vergílio Ferreira, Bertrand.
E o primeiro livro que me despertou para a literatura? Lembro-me perfeitamente: "De Profundis" de Oscar Wilde.
E páro por aqui, embora me apetecesse falar infinitamente dos livros que infinitamente habitaram o meu espírito durante quase toda a minha vida. Nem é para não chatear, é simplesmente porque me faltam as palavras onde sobra a emoção. E, portanto, para não ser injusto.
Mas se eu tivesse que escolher qual o livro que imprimiu a marca mais profunda na minha vida não teria dúvidas em apontar "A Loucura da Normalidade" de Arno Gruen, Assírio e Alvim.
E o livro que mais amei? Também sem dúvidas: "Cântico Final" de Vergílio Ferreira, Bertrand.
E o primeiro livro que me despertou para a literatura? Lembro-me perfeitamente: "De Profundis" de Oscar Wilde.
E páro por aqui, embora me apetecesse falar infinitamente dos livros que infinitamente habitaram o meu espírito durante quase toda a minha vida. Nem é para não chatear, é simplesmente porque me faltam as palavras onde sobra a emoção. E, portanto, para não ser injusto.
domingo, abril 10, 2005
O Tecido do Outono e António Alçada Baptista
Um escritor pode modificar a maneira de olhar para a vida de um leitor? Ou pode mesmo provocar alterações na vida desse leitor dado que este passa a fazer novas opções depois de ler um livro seu? A resposta é definitivamente sim a ambas as perguntas. E o livro é:
"O Tecido do Outono" de António Alçada Baptista, Editorial Presença.
Do amor, do casamento, da liberdade, da plenitude de corpos e de almas, da procura disto tudo e de paz, da idade e de tanta coisa mais!!... Um livro verdadeiramente extraordinário! É um livro tão gigantesco, embora com apenas 183 páginas de letra grande, que tenho dificuldade em dizer mais. Para além de que é um livro tão revolucionário que vou ser obrigado a fazer mais releituras para que surta efeito sobre a minha vida, para integrar em mim o que ali é novo e ao qual, escusado é dizer, tudo em mim diz sim, sim. Uma das epígrafes felizes deste livro é de São João Evangelista: Aquilo que somos, ainda não aconteceu. Todo este livro é um hino a encorajar-nos. Por favor não deixem de o ler.
"O Tecido do Outono" de António Alçada Baptista, Editorial Presença.
Do amor, do casamento, da liberdade, da plenitude de corpos e de almas, da procura disto tudo e de paz, da idade e de tanta coisa mais!!... Um livro verdadeiramente extraordinário! É um livro tão gigantesco, embora com apenas 183 páginas de letra grande, que tenho dificuldade em dizer mais. Para além de que é um livro tão revolucionário que vou ser obrigado a fazer mais releituras para que surta efeito sobre a minha vida, para integrar em mim o que ali é novo e ao qual, escusado é dizer, tudo em mim diz sim, sim. Uma das epígrafes felizes deste livro é de São João Evangelista: Aquilo que somos, ainda não aconteceu. Todo este livro é um hino a encorajar-nos. Por favor não deixem de o ler.
Há tanto tempo que eu aqui não vinha! Por razão nenhuma especial: apenas porque não tenho absolutamente nada para dizer, há uma lassidão de espírito que adormecu a minha verve criativa.
Mas agora quero deixar aqui qualquer coisa de jeito! E de que falamos quando nada temos para dizer? Do que outros falaram ou fizeram, claro! É sobre isso que hoje vou aqui escrever: do que outros disseram, ou mais exactamente, escreveram.
"Greguerías", de Ramón Gómez de la Serna, Assírio & Alvim:
Segundo o autor a "greguería = humor + metáfora"; é portanto algo difícil de dizer o que é... mas é brilhante, atinge-nos de e por onde menos esperamos. Aqui vão duas para aguçar o apetite:
"Onde o tempo e a poeira mais se unem é nas bibliotecas." (p.15)
"No primeiro eléctrico da manhã ainda há sonhos do dia anterior." (p.49) Apetece-me continuar:
"Na noite gelada cicatrizam todos os charcos."(p.59)
Não tenho razão? Portanto, comprem o livro!
"Pai (uma antologia literária)", 101 noites:
Sim, prenda do 19 de Março! Normalmente não consigo aderir a antologias. Para mim é uma espécie de zapping em que no fim acaba por pouco ficar. Não foi diferente desta vez: divertiu-me medianamente, mas deixou um rasto pouco duradouro.
"A Chuva Pasmada", Mia Couto, Caminho:
Dói sempre ler Mia Couto, mas dói de prazer, prazer para a inteligência e prazer para a sensibilidade. Mais um livro construído em variações à volta da tristeza e da alegria, nunca se sabendo onde acaba uma e começa a outra. Conta a história de pessoas que a meio do livro já não sabemos se somos nós ou não. Vejamos:
"Eu já sabia: a única história com final feliz é aquela que não tem fim." (p.37)
Nada há a acrescentar, apenas que leiam.
"O mar por cima", Possidónio Cachapa, Oficina do Livro:
Não é a maturidade de um autor, mas é alguém que escreve com aquilo que nós sentimos. Começa em vários lugares, mas depois percebemos que são vários tempos que acabam por se (des)encontrar numa história de amor triste. Gostei muito de ler.
"A Razão do Azul", Eduardo Prado Coelho, edições Quasi:
EPC é o escritor que eu conheço que de longe melhor pensa o lado mais luminoso do que sentimos. É sempre um fascínio ler um livro seu. Este é constituído por pequenos ensaios que brilham até ao insuportável dentro de nós. Um exemplo menor (porque vou cometer um crime que é retirar algumas frases do contexto):
"(...)Porque cada livro é sempre a promessa de uma palavra definitiva - não a última, mas a primeira. (...)" (p.19)
A primeira a partir da qual não há outra possibilidade senão ser-se feliz! E este livro é bem mais do que uma simples promessa, garanto-vos!
Bom, agora vou almoçar. É que o próximo livro de que ia falar encheu-me de tal modo que eu ainda nem sei bem o que vou dizer; por isso faço aqui uma pausa.
Mas agora quero deixar aqui qualquer coisa de jeito! E de que falamos quando nada temos para dizer? Do que outros falaram ou fizeram, claro! É sobre isso que hoje vou aqui escrever: do que outros disseram, ou mais exactamente, escreveram.
"Greguerías", de Ramón Gómez de la Serna, Assírio & Alvim:
Segundo o autor a "greguería = humor + metáfora"; é portanto algo difícil de dizer o que é... mas é brilhante, atinge-nos de e por onde menos esperamos. Aqui vão duas para aguçar o apetite:
"Onde o tempo e a poeira mais se unem é nas bibliotecas." (p.15)
"No primeiro eléctrico da manhã ainda há sonhos do dia anterior." (p.49) Apetece-me continuar:
"Na noite gelada cicatrizam todos os charcos."(p.59)
Não tenho razão? Portanto, comprem o livro!
"Pai (uma antologia literária)", 101 noites:
Sim, prenda do 19 de Março! Normalmente não consigo aderir a antologias. Para mim é uma espécie de zapping em que no fim acaba por pouco ficar. Não foi diferente desta vez: divertiu-me medianamente, mas deixou um rasto pouco duradouro.
"A Chuva Pasmada", Mia Couto, Caminho:
Dói sempre ler Mia Couto, mas dói de prazer, prazer para a inteligência e prazer para a sensibilidade. Mais um livro construído em variações à volta da tristeza e da alegria, nunca se sabendo onde acaba uma e começa a outra. Conta a história de pessoas que a meio do livro já não sabemos se somos nós ou não. Vejamos:
"Eu já sabia: a única história com final feliz é aquela que não tem fim." (p.37)
Nada há a acrescentar, apenas que leiam.
"O mar por cima", Possidónio Cachapa, Oficina do Livro:
Não é a maturidade de um autor, mas é alguém que escreve com aquilo que nós sentimos. Começa em vários lugares, mas depois percebemos que são vários tempos que acabam por se (des)encontrar numa história de amor triste. Gostei muito de ler.
"A Razão do Azul", Eduardo Prado Coelho, edições Quasi:
EPC é o escritor que eu conheço que de longe melhor pensa o lado mais luminoso do que sentimos. É sempre um fascínio ler um livro seu. Este é constituído por pequenos ensaios que brilham até ao insuportável dentro de nós. Um exemplo menor (porque vou cometer um crime que é retirar algumas frases do contexto):
"(...)Porque cada livro é sempre a promessa de uma palavra definitiva - não a última, mas a primeira. (...)" (p.19)
A primeira a partir da qual não há outra possibilidade senão ser-se feliz! E este livro é bem mais do que uma simples promessa, garanto-vos!
Bom, agora vou almoçar. É que o próximo livro de que ia falar encheu-me de tal modo que eu ainda nem sei bem o que vou dizer; por isso faço aqui uma pausa.
domingo, março 20, 2005
Obrigado, Crazy Jo!
Crazy Blog Spot está mesmo bonito, gosto mesmo de lá ir, luminoso e colorido como o seu sorriso, como o é a vida!
"Mais vale convencer..."
Ando há que tempos para pôr aqui esta frase que penso ser de Gandhi:
"Mais vale convencer do que vencer.
Porque, quando vencemos, arranjamos um inimigo.
Quando convencemos, conseguimos um aliado."
Brilhante, não é? Penso que ninguém discordará. A não ser depois em dois aspectos:
O que é mais fácil? Vencer ou convencer? (Porque mais rápido parece ser o vencer, embora mais eficaz pareça ser o convencer - como se comprova na sala de aula...)
Os meios usados e as consequências que surgem quando se opta pelo vencer justificam ou não os fins que se pretendem atingir? (Sim, estamos todos a pensar no Iraque e nos milhares e milhares de mortos, e também nas ditaduras sejam de esquerda ou de direita...)
"Mais vale convencer do que vencer.
Porque, quando vencemos, arranjamos um inimigo.
Quando convencemos, conseguimos um aliado."
Brilhante, não é? Penso que ninguém discordará. A não ser depois em dois aspectos:
O que é mais fácil? Vencer ou convencer? (Porque mais rápido parece ser o vencer, embora mais eficaz pareça ser o convencer - como se comprova na sala de aula...)
Os meios usados e as consequências que surgem quando se opta pelo vencer justificam ou não os fins que se pretendem atingir? (Sim, estamos todos a pensar no Iraque e nos milhares e milhares de mortos, e também nas ditaduras sejam de esquerda ou de direita...)
Dia Internacional da Mulher
A acabar o período das avaliações e estou de volta. Com atraso, porque queria muito escrever no Dia Internacional da Mulher. Não consegui, mas vou passar para escrito (condensado) o que procurei transmitir aos meus alunos.
"O Dia Internacional da Mulher existe e é terrivelmente necessário que exista para lembrar às pessoas que há infinitamente mais mulheres que homens :
- a serem vítimas de violência doméstica e de violência social (exemplo desta? A mutilação genital feminina). Nota: sobre o tema mais geral da violência sobre todas as pessoas, não apenas sobre as mulheres, recomendo o site português Violencia.online;
- a serem vítimas de tráfico e de exploração da prostituição;
- a serem impedidas de ter acesso a iguais direitos no campo do emprego (e infelizmente também no campo da educação): por exemplo nos direitos a iguais oportunidades a obter emprego e a receber remuneração idêntica;
- a serem penalizadas (até ao despedimento) pelo nascimento de filhos;
- a serem impedidas de acederem a cargos públicos, políticos, ou impedidas até de simplesmente votarem;
- a serem submetidas a disposições penais mais pesadas;
- a quem não são concedidas, em questões civis, nem capacidades legais idênticas, nem oportunidades idênticas de as exercerem;
- a quem não são garantidos os mesmos direitos e responsabilidades em matéria de casamento e relações familiares;
- a quem não é garantido um igual tratamento perante a lei."
(Baseado no site A Mulher no Direito Internacional)
Pergunta final dirigida a um aluno que brincava com isto: "Nas coisas da casa, quem trabalha mais, tu ou a tua irmã?" Resposta acompanhada de um encolher de ombros: "Claro que a minha irmã!"
Ora aqui há muito que pode ser feito por todos nós em nossas casas!
"O Dia Internacional da Mulher existe e é terrivelmente necessário que exista para lembrar às pessoas que há infinitamente mais mulheres que homens :
- a serem vítimas de violência doméstica e de violência social (exemplo desta? A mutilação genital feminina). Nota: sobre o tema mais geral da violência sobre todas as pessoas, não apenas sobre as mulheres, recomendo o site português Violencia.online;
- a serem vítimas de tráfico e de exploração da prostituição;
- a serem impedidas de ter acesso a iguais direitos no campo do emprego (e infelizmente também no campo da educação): por exemplo nos direitos a iguais oportunidades a obter emprego e a receber remuneração idêntica;
- a serem penalizadas (até ao despedimento) pelo nascimento de filhos;
- a serem impedidas de acederem a cargos públicos, políticos, ou impedidas até de simplesmente votarem;
- a serem submetidas a disposições penais mais pesadas;
- a quem não são concedidas, em questões civis, nem capacidades legais idênticas, nem oportunidades idênticas de as exercerem;
- a quem não são garantidos os mesmos direitos e responsabilidades em matéria de casamento e relações familiares;
- a quem não é garantido um igual tratamento perante a lei."
(Baseado no site A Mulher no Direito Internacional)
Pergunta final dirigida a um aluno que brincava com isto: "Nas coisas da casa, quem trabalha mais, tu ou a tua irmã?" Resposta acompanhada de um encolher de ombros: "Claro que a minha irmã!"
Ora aqui há muito que pode ser feito por todos nós em nossas casas!
sábado, março 05, 2005
Corrigir testes (de matemática)!
Sobra muito pouca poesia durante e depois desta tarefa (a propósito, estou a escrever isto antes). É a tarefa escolar mais cilindradora que existe, esmaga a inteligência e a sensibilidade de qualquer professor normal.
Mas tudo o que tem a ver com os testes é repulsivo. Fazer o teste que, sabemo-lo, vai ser fonte de sofrimento e angústia para um número significativo de alunos. Dá-los para os alunos o realizarem enquanto se se é obrigado a fazer o papel de polícia, porque a única alternativa é fazer o papel de parvo (dos dois... bem, eu opto por fazer um bocadinho de cada).
E finalmente corrigi-los! E um dia lindo lá fora! Oh Deus, que tarefa longa, chata e mortífera (como a espada do D. Afonso Henriques!...)! Tchau, cá vou...
Mas tudo o que tem a ver com os testes é repulsivo. Fazer o teste que, sabemo-lo, vai ser fonte de sofrimento e angústia para um número significativo de alunos. Dá-los para os alunos o realizarem enquanto se se é obrigado a fazer o papel de polícia, porque a única alternativa é fazer o papel de parvo (dos dois... bem, eu opto por fazer um bocadinho de cada).
E finalmente corrigi-los! E um dia lindo lá fora! Oh Deus, que tarefa longa, chata e mortífera (como a espada do D. Afonso Henriques!...)! Tchau, cá vou...
domingo, fevereiro 27, 2005
O meio do dia
O meio do dia, as nuvens que poderiam pressagiar desgraças se não corressem tão rapidamente em direcção ao mar, deixando para trás olhos molhados de gaivotas que não partem.
As vozes que me aprisionam, um coração dentro do peito e dorido porque não voa apesar de eu perguntar, perguntar tanto.
A pedra na minha mão, histórias de naufrágios, olhos cansados, o telemóvel vazio, sem luz.
Deitado de encontro à memória triste da violência, esgravato o meu futuro próximo de onde caem pequenas bagas de sabor acre, sonhos de outras maçãs doces realmente nunca comidas mas que chamam por mim quando volto a cara para o céu e para o vento de cabelos sem dona. De onde se desprende um gesto salgado pelo medo e um som de pressentida ternura.
As vozes que me aprisionam, um coração dentro do peito e dorido porque não voa apesar de eu perguntar, perguntar tanto.
A pedra na minha mão, histórias de naufrágios, olhos cansados, o telemóvel vazio, sem luz.
Deitado de encontro à memória triste da violência, esgravato o meu futuro próximo de onde caem pequenas bagas de sabor acre, sonhos de outras maçãs doces realmente nunca comidas mas que chamam por mim quando volto a cara para o céu e para o vento de cabelos sem dona. De onde se desprende um gesto salgado pelo medo e um som de pressentida ternura.
Amor(es)
Não vos faz confusão que, para cada pessoa, seja tão difícil definirmos o que sentimos por ela?
Esta faz-nos sentir melhores do que somos quando estamos ao pé dela, mas longe dela com facilidade a esquecemos.
Por aquela sentimos ternura e desejo, mas nem pensar numa vida a dois.
Aqueloutra faz-nos sentir verdadeiramente apaixonados, sofremos quando estamos afastados, mas é uma paixão de que o desejo está completamente ausente.
Bom, e eu diria que as variações não têm fim, isto apenas no domínio do amor. Mas até esta divisão entre amor e amizade é completamente artificial, porque são tantas as vezes que não conseguimos traçar uma fronteira nítida entre os dois!
Tudo isto é um bocado para o confuso mas, reconheçamo-lo, também tem a sua piada.
Esta faz-nos sentir melhores do que somos quando estamos ao pé dela, mas longe dela com facilidade a esquecemos.
Por aquela sentimos ternura e desejo, mas nem pensar numa vida a dois.
Aqueloutra faz-nos sentir verdadeiramente apaixonados, sofremos quando estamos afastados, mas é uma paixão de que o desejo está completamente ausente.
Bom, e eu diria que as variações não têm fim, isto apenas no domínio do amor. Mas até esta divisão entre amor e amizade é completamente artificial, porque são tantas as vezes que não conseguimos traçar uma fronteira nítida entre os dois!
Tudo isto é um bocado para o confuso mas, reconheçamo-lo, também tem a sua piada.
O deus das pequenas coisas?
Um episódio que encontrei há muitos anos num livrinho de um escritor italiano (Elio Vittorini?, Vasco Pratolini?, não me lembro):
Trata-se de um camionista que está prestes a violar uma rapariga a quem deu boleia, quando descobre que ela tem as meias rotas. Isso fá-lo parar porque, de repente, esse pormenor triste comove-o profundamente. A partir daí, mesmo esbarrando na raiva e na desconfiança da rapariga, ele não consegue parar de ser carinhoso para ela.
Trata-se de um camionista que está prestes a violar uma rapariga a quem deu boleia, quando descobre que ela tem as meias rotas. Isso fá-lo parar porque, de repente, esse pormenor triste comove-o profundamente. A partir daí, mesmo esbarrando na raiva e na desconfiança da rapariga, ele não consegue parar de ser carinhoso para ela.
sábado, fevereiro 19, 2005
A raiva
A raiva no mais escondido das pessoas.
Existe tanta. À vista? Claramente sim nos miúdos. Escondida, negada, mascarada nos adultos.
Ela surge-me quando opto por não ser franco e, assim, condescendo com a minha fraqueza, com o abuso dos outros; quando, para evitar o conflito, procuro a distância impossível de conseguir; quando distribuo mágoa em vez de carinho; quando, ao espelho ou nos outros, vejo aquilo que em mim detesto.
Existe tanta. À vista? Claramente sim nos miúdos. Escondida, negada, mascarada nos adultos.
Ela surge-me quando opto por não ser franco e, assim, condescendo com a minha fraqueza, com o abuso dos outros; quando, para evitar o conflito, procuro a distância impossível de conseguir; quando distribuo mágoa em vez de carinho; quando, ao espelho ou nos outros, vejo aquilo que em mim detesto.
História sem moral
"Um monge chinês apaixonou-se por uma bela cortesã que lhe disse: espera aqui mil noites, debaixo da minha janela. Na 999ª noite, o monge pegou no seu banquinho e foi-se embora."
Mil razões.
Sei que não aguento, principalmente se estiver mesmo apaixonado, nem 9 noites, quanto mais 999. Por isso faço batota: de vez em quando escapo-me. Mas como sou mais ou menos honesto, já não volto a trazer o banquinho, limito-me a passar por baixo da janela.
Mil razões.
Sei que não aguento, principalmente se estiver mesmo apaixonado, nem 9 noites, quanto mais 999. Por isso faço batota: de vez em quando escapo-me. Mas como sou mais ou menos honesto, já não volto a trazer o banquinho, limito-me a passar por baixo da janela.
47 anos. Separado. Um filho. Sem namoradas.
47 anos. Assusta-me o pouco que me falta para morrer (já falei disto). É estúpido, eu sei. Dado que nunca sabemos quando morremos, a verdade é que pode faltar sempre pouco para morrer. Ou: é sempre infinita a distância entre existir-me vivo e não me existir morto. Não há consolo em nenhum destes pensamentos antagónicos. 47 anos. É um facto. Mas, pensando bem, não é mais do que isso: um facto completamente estúpido e vulgar.
Separado. Uma oportunidade para a esperança florir de novo.
Um filho. O amor absoluto. E, ao mesmo tempo, as músicas, os amigos, os colegas, as raparigas, tudo o que alonga e estreita a passagem para uma proximidade comigo. Para depois voltar?
Sem namoradas. Gosto mesmo desta palavra. E assim é que vai ser: não vou ter amantes, nem companheiras, nem apaixonadas, mas sim uma namorada: eternamente bela e irresistível!
Seja o que for que o futuro me reserve, desejaria imenso (como diz Fernando Nobre nas suas "Viagens contra a Indiferença"), desejaria imenso que a minha vida constituísse uma gota de orvalho na terra seca pelo egoísmo ou pela dor dos seres com quem me cruzo e me relaciono. Simplesmente isso.
Separado. Uma oportunidade para a esperança florir de novo.
Um filho. O amor absoluto. E, ao mesmo tempo, as músicas, os amigos, os colegas, as raparigas, tudo o que alonga e estreita a passagem para uma proximidade comigo. Para depois voltar?
Sem namoradas. Gosto mesmo desta palavra. E assim é que vai ser: não vou ter amantes, nem companheiras, nem apaixonadas, mas sim uma namorada: eternamente bela e irresistível!
Seja o que for que o futuro me reserve, desejaria imenso (como diz Fernando Nobre nas suas "Viagens contra a Indiferença"), desejaria imenso que a minha vida constituísse uma gota de orvalho na terra seca pelo egoísmo ou pela dor dos seres com quem me cruzo e me relaciono. Simplesmente isso.
sábado, fevereiro 12, 2005
"Mais vale ser a cabeça de um ratinho do que o rabo de um elefante"
Leio esta frase e percebo logo que este é um dos poucos lemas que eu preciso mesmo fazer meu.
Que eu não sou elefante, nem nunca serei, é óbvio.
Há é uma questão que se (me) põe e que é o desafio explícito da frase (e do contexto onde ela aparece): conseguirei alguma vez ser a cabeça do ratinho?
A frase surge no livro "Viagens contra a Indiferença" (os direitos de autor revertem para a AMI) do seu fundador, Fernando Nobre, na página 78 e pertence a um "cirurgião Alexis Kostritski, peruano de origem russa". Poderei acrescentar que é um livro de leitura essencial?
Que eu não sou elefante, nem nunca serei, é óbvio.
Há é uma questão que se (me) põe e que é o desafio explícito da frase (e do contexto onde ela aparece): conseguirei alguma vez ser a cabeça do ratinho?
A frase surge no livro "Viagens contra a Indiferença" (os direitos de autor revertem para a AMI) do seu fundador, Fernando Nobre, na página 78 e pertence a um "cirurgião Alexis Kostritski, peruano de origem russa". Poderei acrescentar que é um livro de leitura essencial?
sexta-feira, fevereiro 11, 2005
Rostos
Hoje gostaria de falar de rostos.
Não serei capaz de dizer muito mais e melhor do que Eduardo Prado Coelho no Público de hoje(*). Haverá uma nesga deixada livre?
Primeiro explico-me: um corpo belo atrai-me o olhar sem dúvida, mas o que me deixa fascinado, escravizado mesmo (não estou a exagerar) é o rosto.
Fixo-me nos olhos e na boca, depois no cabelo, no nariz, nas orelhas, na pele, nos pêlos. Mas volto sempre aos olhos e à boca. Porque aí está um caleidoscópio de promessas de uma plenitude feita de beleza e de aventura.
O facto de eu saber, embora não veja, que há muito aqui de ilusão, que a pessoa por detrás daquele rosto ao qual me encontro para sempre ligado sofre, é mesquinha, tem medo e o medo torna-a mais pequena do que ela é e promete ser, tudo isso apenas torna toda a minha contemplação mais fascinada!
(*) Já não está online. Com a devida vénia copio a parte do texto a que aqui me refiro:
"Que é um rosto? É algo em que se concentra o que há de mais íntimo e subtil de um corpo - mas, sobretudo, de um ser. No rosto, desenham-se sons inexprimíveis, vozes murmuradas, coros que são florestas. Existem elementos passivos, como o nariz e as orelhas, e factores activos, como a boca e os olhos. É no plano dos factores activos que encontramos uma escrita quase invisível, uma proliferação de sinais: um simples arquear da sobrancelha e há uma altivez que se ergue; uns olhos que se semicerram e há uma tentativa de compreensão; um olhar que se abre, atónito, e sente-se que o espanto rasga o rosto.
E a boca? Não há nela o mesmo encostar-se à espiritualidade, porque é feita de lábios e de uma língua que se esconde. Quando a língua se mostra, entramos no domínio da provocação, do insulto, da delinquência facial. Mas os lábios exprimem a ternura ou avaliam a capacidade de devoração. E por eles passa esse elemento inqualificável, esse sopro de vida, que é a voz. E por ele se respira até ao limiar da morte, que é o último suspiro.
Contudo, um rosto é acima de tudo um olhar de infinito onde penetramos com uma suavidade nupcial. Um infinito que passa por uma ruga, uma crispação, uma cintilação. Por uma física do infinito. Como é, maior do que todas, no seu rolar de absolutos divinos, a música de Bach."(Eduardo Prado Coelho)
Não serei capaz de dizer muito mais e melhor do que Eduardo Prado Coelho no Público de hoje(*). Haverá uma nesga deixada livre?
Primeiro explico-me: um corpo belo atrai-me o olhar sem dúvida, mas o que me deixa fascinado, escravizado mesmo (não estou a exagerar) é o rosto.
Fixo-me nos olhos e na boca, depois no cabelo, no nariz, nas orelhas, na pele, nos pêlos. Mas volto sempre aos olhos e à boca. Porque aí está um caleidoscópio de promessas de uma plenitude feita de beleza e de aventura.
O facto de eu saber, embora não veja, que há muito aqui de ilusão, que a pessoa por detrás daquele rosto ao qual me encontro para sempre ligado sofre, é mesquinha, tem medo e o medo torna-a mais pequena do que ela é e promete ser, tudo isso apenas torna toda a minha contemplação mais fascinada!
(*) Já não está online. Com a devida vénia copio a parte do texto a que aqui me refiro:
"Que é um rosto? É algo em que se concentra o que há de mais íntimo e subtil de um corpo - mas, sobretudo, de um ser. No rosto, desenham-se sons inexprimíveis, vozes murmuradas, coros que são florestas. Existem elementos passivos, como o nariz e as orelhas, e factores activos, como a boca e os olhos. É no plano dos factores activos que encontramos uma escrita quase invisível, uma proliferação de sinais: um simples arquear da sobrancelha e há uma altivez que se ergue; uns olhos que se semicerram e há uma tentativa de compreensão; um olhar que se abre, atónito, e sente-se que o espanto rasga o rosto.
E a boca? Não há nela o mesmo encostar-se à espiritualidade, porque é feita de lábios e de uma língua que se esconde. Quando a língua se mostra, entramos no domínio da provocação, do insulto, da delinquência facial. Mas os lábios exprimem a ternura ou avaliam a capacidade de devoração. E por eles passa esse elemento inqualificável, esse sopro de vida, que é a voz. E por ele se respira até ao limiar da morte, que é o último suspiro.
Contudo, um rosto é acima de tudo um olhar de infinito onde penetramos com uma suavidade nupcial. Um infinito que passa por uma ruga, uma crispação, uma cintilação. Por uma física do infinito. Como é, maior do que todas, no seu rolar de absolutos divinos, a música de Bach."(Eduardo Prado Coelho)
domingo, fevereiro 06, 2005
Fragmentos
A chuva molha a alma com a tinta da solidão.
Sou folha amarrotada que
o vento deixou cair
no lado abandonado do cais.
O beijo tem fome de riso.
Na face fria da manhã de Inverno
O brilho de neve dos teus olhos.
A felicidade não é ser-se feliz, é conseguir sonhar activamente que se vai ser feliz.
Sou folha amarrotada que
o vento deixou cair
no lado abandonado do cais.
O beijo tem fome de riso.
Na face fria da manhã de Inverno
O brilho de neve dos teus olhos.
A felicidade não é ser-se feliz, é conseguir sonhar activamente que se vai ser feliz.
quarta-feira, fevereiro 02, 2005
47 anos
O tempo que tens à tua frente é pouco? Pouco para quê? Ou pior: é/está vazio?
Não tenho respostas. Ao fim de 47 anos é obra.
Não tenho respostas. Ao fim de 47 anos é obra.
domingo, janeiro 30, 2005
O pior inimigo
Quando somos inimigos de nós mesmos ninguém no mundo nos pode salvar, nem sequer defender.
Amor correspondido
Queremos que o nosso amor seja correspondido da mesma forma como amamos.
Quereremos mesmo?
1º Porque uma das coisas que mantém o amor vivo é a descoberta do outro diferente, bem como a surpresa face aos modos que ele encontra de nos amar.
2º Quando amo, desejo, e não me desejo a mim mas o outro; logo, poderei amar alguém que ame como eu?
3º Eu sei lá realmente como é que amo! Sei (mais ou menos) como desejaria ser amado. A verdade é que às vezes nem sei se amo muito ou pouco, isto é, em simples quantidade, quanto mais em qualidade!
Quereremos mesmo?
1º Porque uma das coisas que mantém o amor vivo é a descoberta do outro diferente, bem como a surpresa face aos modos que ele encontra de nos amar.
2º Quando amo, desejo, e não me desejo a mim mas o outro; logo, poderei amar alguém que ame como eu?
3º Eu sei lá realmente como é que amo! Sei (mais ou menos) como desejaria ser amado. A verdade é que às vezes nem sei se amo muito ou pouco, isto é, em simples quantidade, quanto mais em qualidade!
O amor nunca é simples
Quando me apaixono nunca sei se me estou a apaixonar pela mulher ou pelo que nela ilumina o melhor de mim.
A dúvida: o meu amor por ela será mais do que um sentimento agradecido pela sua dádiva de um eu mais alto?
("Talvez não se ame uma mulher ou um homem, mas o amor neles.", João Bonifácio, Mil Folhas, Público, 29/1/05)
A dúvida: o meu amor por ela será mais do que um sentimento agradecido pela sua dádiva de um eu mais alto?
("Talvez não se ame uma mulher ou um homem, mas o amor neles.", João Bonifácio, Mil Folhas, Público, 29/1/05)
sábado, janeiro 29, 2005
Estou contente
Estou contente de estar sozinho. Não telefono, não marco encontros, não aprofundo contactos humanos e sinto-me leve e satisfeito.
A verdade é que aproveito o impulso natural das pessoas nas relações pouco profundas para mostrarem apenas o melhor de si próprias.
Evito assim que a fealdade do mundo se sobreponha à beleza da vida (ninguém adquire o poder de estragar o meu olhar).
A verdade é que aproveito o impulso natural das pessoas nas relações pouco profundas para mostrarem apenas o melhor de si próprias.
Evito assim que a fealdade do mundo se sobreponha à beleza da vida (ninguém adquire o poder de estragar o meu olhar).
sexta-feira, janeiro 28, 2005
Humor na sala de aula
Quando os alunos me perguntam coisas da matéria ou dos exercícios eu procuro não lhes dar a resposta directa a fim de que eles pensem e possam lá chegar por eles próprios. Assim aconteceu com a Carolina (nomes fictícios). E diz ela:"Oh meu Deus, então como vou fazer isto?" Intervém o Estevão: "Caramba Carolina, não é preciso exagerar, afinal ele é só um professor!"
segunda-feira, janeiro 24, 2005
Non Ti Muovere
Porquê a crueldade dos homens a fazer sofrer as mulheres?
Porque são eles incapazes de amarem?
Ou ainda porque é que acabam a amarem-se a si próprios através delas?
Para estas e outras interrogações (comovidas), mas sem respostas, "Não Te Movas" de Sergio Castellito.
Porque são eles incapazes de amarem?
Ou ainda porque é que acabam a amarem-se a si próprios através delas?
Para estas e outras interrogações (comovidas), mas sem respostas, "Não Te Movas" de Sergio Castellito.
domingo, janeiro 23, 2005
As mulheres
As mulheres
que não nos telefonam, que não nos olham, que não nos respondem, que não nos escrevem,
que não se voltam, que não se sorriem, que não se despem, que não se entregam,
que não nos reclamam,
que não nos consideram
que não nos telefonam, que não nos olham, que não nos respondem, que não nos escrevem,
que não se voltam, que não se sorriem, que não se despem, que não se entregam,
que não nos reclamam,
que não nos consideram
O que é a beleza?
Em toda a minha vida (47 anos) apenas uma mulher olhou e disse:"Como és belo!"
Passado este tempo todo, continuo a não conseguir fazer a mais pequena ideia do que ela viu.
Como posso dizer o que é a beleza?
Só esquecendo e esquecendo muito...
Passado este tempo todo, continuo a não conseguir fazer a mais pequena ideia do que ela viu.
Como posso dizer o que é a beleza?
Só esquecendo e esquecendo muito...
Na Costa, no silêncio
No silêncio quebrado pela dança, com o mar a adormecer encostado ao céu, nuvens em todos os horizontes, sei do carinho líquido das mulheres. São como vozes na noite a acariciarem sons perdidos na memória longínqua da extrema infância. O seu olhar adormece sem sonhos na superfície fria da pele. Magoado.
sábado, janeiro 22, 2005
Recomeço
O gato olha para a água e parece-lhe estar a escaldar.
Eu olho e continuo a ver a muralha.
Tenho de aprender a ser homem outra vez.
Eu olho e continuo a ver a muralha.
Tenho de aprender a ser homem outra vez.
Deixo-me levar pela Costa
o mar desce até mim, os surfistas desenham a alegria na espuma. mulheres ao sol e a esperança sorri com um olhar líquido. os meus passos sem ruído. homens derrotados esvaem-se na direcção do horizonte. o vento, memória sem calor. eu estou do lado de lá. e venho-me embora.
domingo, janeiro 16, 2005
Procura de um par
Desejamos tanto alguém que seja o nosso par na vida!
É o filho quem está mais próximo de representar a concretização dessa companhia envolvente.
Sonhamos sozinhos.
E o nosso coração é bruma líquida nas horas mais silenciosas da noite.
É o filho quem está mais próximo de representar a concretização dessa companhia envolvente.
Sonhamos sozinhos.
E o nosso coração é bruma líquida nas horas mais silenciosas da noite.
quinta-feira, janeiro 13, 2005
A luz no amor
Penso que o desejo de me apaixonar vem de uma íntima e invencível vontade de me refazer, de me iniciar de novo; e a mulher por quem me apaixono representa a esperança visível e concreta, não de voltar ao, mas de poder partir do princípio de todas as coisas.
É um sonho, uma impossibilidade e, assim, todas as minhas paixões falham miseravelmente.
Sabendo isso eu então apaixono-me, não para ir atrás dessa vã promessa, mas para me aproximar de um objectivo mais humilde: encontrar-me e tornar-me inteiro naquilo que sou (eu, que estou sempre tao vaziamente fora de mim mesmo) por via do afecto da mulher que amo, bem como proporcionar-lhe a possibilidade do mesmo processo.
É um sonho, uma impossibilidade e, assim, todas as minhas paixões falham miseravelmente.
Sabendo isso eu então apaixono-me, não para ir atrás dessa vã promessa, mas para me aproximar de um objectivo mais humilde: encontrar-me e tornar-me inteiro naquilo que sou (eu, que estou sempre tao vaziamente fora de mim mesmo) por via do afecto da mulher que amo, bem como proporcionar-lhe a possibilidade do mesmo processo.
domingo, janeiro 09, 2005
Lost in Translation
Numa tarde mergulhada no frio, naveguei pelos rostos de Bill Murray e de Scarlett Johansson, e pela história de um amor sussurrado entre duas solidões, entre dois corpos que se tocam numa paz mutuamente procurada.
A TV como um não-lugar para quase-pessoas
É estranho: a TV não só embrutece os que estão do lado de fora como os que estão lá "dentro".
É curioso como pessoas pouco convencionais na arte, ao falarem na TV, estão sempre a resvalar para o lugar-comum. Como se elas se sentissem obrigadas, por estarem num meio de comunicação para o grande público, a serem porta-vozes dos indivíduos de inteligência e saber não mais que comuns.
É curioso como pessoas pouco convencionais na arte, ao falarem na TV, estão sempre a resvalar para o lugar-comum. Como se elas se sentissem obrigadas, por estarem num meio de comunicação para o grande público, a serem porta-vozes dos indivíduos de inteligência e saber não mais que comuns.
Que paisagens interiores atravessa a solidão?
Hoje venho inquirir a solidão.
Começo por um facto simples: porque é que uns dias a solidão pesa angústias nos meus ombros, na minhas vísceras, nos meus pensamentos? E noutros é de uma leveza tal que só dou por existir o tempo do mesmo modo que sei que existe a água quando bóio preguiçosamente no mar?
Estou só, mas há rostos que povoam a minha imaginação, rostos de mulheres sobretudo, estes invocados em parte pelo afecto, tecidos em parte pelo desejo. Porque é que às vezes a solidão é acentuada por essas imagens e outras vezes a alma se expande com elas?
Tenho a TV e a aparelhagem desligadas, estou mergulhado num silêncio forrado pelos carros que passam na rua. Porqe é que o silêncio me faz deslizar por entre as palavras sem me magoar, mas também acontece esvaziar-me de palavras e de sentido?
Suspeito que há duas respostas simples: o acaso e o funcionamento interno do corpo.
Que consequências tiro destas duas respostas? A 1ª é: cuidar do corpo, mas sem obsessão. A 2ª é: garantir um espaço interior capaz de aceitar com humor os desmandos do destino.
Começo por um facto simples: porque é que uns dias a solidão pesa angústias nos meus ombros, na minhas vísceras, nos meus pensamentos? E noutros é de uma leveza tal que só dou por existir o tempo do mesmo modo que sei que existe a água quando bóio preguiçosamente no mar?
Estou só, mas há rostos que povoam a minha imaginação, rostos de mulheres sobretudo, estes invocados em parte pelo afecto, tecidos em parte pelo desejo. Porque é que às vezes a solidão é acentuada por essas imagens e outras vezes a alma se expande com elas?
Tenho a TV e a aparelhagem desligadas, estou mergulhado num silêncio forrado pelos carros que passam na rua. Porqe é que o silêncio me faz deslizar por entre as palavras sem me magoar, mas também acontece esvaziar-me de palavras e de sentido?
Suspeito que há duas respostas simples: o acaso e o funcionamento interno do corpo.
Que consequências tiro destas duas respostas? A 1ª é: cuidar do corpo, mas sem obsessão. A 2ª é: garantir um espaço interior capaz de aceitar com humor os desmandos do destino.
quarta-feira, janeiro 05, 2005
História de vida resumida
Um dia a mulher disse-lhe:
"Vai-te embora! Ao menos uma vez na vida sê um homem!"
E ele foi.
"Vai-te embora! Ao menos uma vez na vida sê um homem!"
E ele foi.
domingo, novembro 07, 2004
Como beijar
Algumas indicações úteis (graças ao blog A Falta de Sexo e a Cidade) sobre como beijar uma mulher.
Na minha opinião, aplica-se aos dois sexos.
Na minha opinião, aplica-se aos dois sexos.
sábado, novembro 06, 2004
Poesia
Sempre que escrevo, falho.
Primeiro, porque não consigo ser eu, mesmo eu, a escrever.
Segundo porque nunca consigo contar o que se passa ou passou, acabo por contar outra coisa qualquer.
Terceiro, porque na realidade as palavras são as folhas do chá presas no coador, nunca o chá que se bebe.
Por isso, é sempre preferível a poesia, porque dela faz parte integrante o silêncio e o não dito.
Sim,
gasto a noite a olhar
à espera duma palavra, dum som
(que eu existo para ti,
não me basta o calor)
Sonho atormentado porque hoje
sei que a minha vida vai estremecer
Não estou sozinho mas ignoro-o
por isso sou um peixe fora da água
eu e o meu écran LCD
nas águas da noite sem fugas
jogos cegos de luz onde o silêncio
se quebra de encontro aos meus lábios
Justamente estou aqui nesta noite
de amantes sem um presente
na escuridão que brilha, como murmurou
a que do silêncio construiu um olhar
Primeiro, porque não consigo ser eu, mesmo eu, a escrever.
Segundo porque nunca consigo contar o que se passa ou passou, acabo por contar outra coisa qualquer.
Terceiro, porque na realidade as palavras são as folhas do chá presas no coador, nunca o chá que se bebe.
Por isso, é sempre preferível a poesia, porque dela faz parte integrante o silêncio e o não dito.
Sim,
gasto a noite a olhar
à espera duma palavra, dum som
(que eu existo para ti,
não me basta o calor)
Sonho atormentado porque hoje
sei que a minha vida vai estremecer
Não estou sozinho mas ignoro-o
por isso sou um peixe fora da água
eu e o meu écran LCD
nas águas da noite sem fugas
jogos cegos de luz onde o silêncio
se quebra de encontro aos meus lábios
Justamente estou aqui nesta noite
de amantes sem um presente
na escuridão que brilha, como murmurou
a que do silêncio construiu um olhar
quinta-feira, outubro 28, 2004
Here's to the few...
Quem são os meus amigos?
"Here's to the few who forgive what you do
And to the fewer who don't even care"
Leonard Cohen
Meus amigos, meus irmãos escolhidos, onde quer que estejais: obrigado!
"Here's to the few who forgive what you do
And to the fewer who don't even care"
Leonard Cohen
Meus amigos, meus irmãos escolhidos, onde quer que estejais: obrigado!
terça-feira, outubro 26, 2004
Será que interessa?
O que interessa na vida é saber o que é importante...
Não, afinal o que deve começar por interessar é descobrir o que na vida não vale a pena.
Na verdade, eu ainda estou na fase de me interessar por perceber se o que escrevi tem algum sentido.
(não há dúvidas que a paragem fez-me lindamente!...)
Não, afinal o que deve começar por interessar é descobrir o que na vida não vale a pena.
Na verdade, eu ainda estou na fase de me interessar por perceber se o que escrevi tem algum sentido.
(não há dúvidas que a paragem fez-me lindamente!...)
domingo, outubro 24, 2004
A mais sublime prova de amor
Se eu a amo realmente, se o meu amor é autêntico e profundo, então a maior, a mais grandiosa prova de amor que eu lhe posso dar (dado o espaço rarefeito de qualidades que é característico da minha indistinta personalidade) é, sem dúvida, fazer com que ela me deteste com todas as fibras do seu ser! De modo a que jamais ela venha a correr o risco de ter a desabar sobre si a infelicidade de juntar o seu destino ao meu.
Afinal, pensando melhor: ná, eu não a amo assim tanto...
(e estive eu 15 dias parado para isto!)
Afinal, pensando melhor: ná, eu não a amo assim tanto...
(e estive eu 15 dias parado para isto!)
sábado, outubro 09, 2004
Um prazer simples
Receber um SMS. Dois pequenos toques e já não conseguimos concentrar-nos no que estamos a fazer. Mal damos conta, estamos com o telemóvel nas mãos e clica, clica, vemos de quem são as palavras que vamos ler e ei-las no visor. E logo passam a ser nossas. É um bocadinho dessa pessoa que ali fica a lembrar-nos como é boa a amizade e como é bom o estarmos vivos a sabermos que alguém, algures, se lembrou de nós e quis partilhar algo connosco. Um prazer simples?
quinta-feira, outubro 07, 2004
Atenção:
Desculpem insistir, mas façam o favor de ir ao belíssimo blog Nove de Copas. Garanto-vos: não vão ficar os mesmos!
Entre um sim e um não
Às vezes acordo no meio do dia e pergunto-me: se, naquele momento fulcral, em vez de me ter dito não, ela me tivesse dito sim, como estaria hoje? Mais feliz?, mais cheio de vida?, diferente, muito diferente? Ou estaria a perguntar-me: "Se, naquele momento fulcral, em vez de me ter dito sim..."
quarta-feira, outubro 06, 2004
Aniversário
Ele ri-se, não sai do computador, está constantemente com mazelas apanhadas no futebol, é uma luta para comer, ri-se das minhas zangas, estuda o estritamente indispensável para ter boas notas, está sempre rodeado de música versão MTV. É o meu filho. Às vezes abraça-me. Amanhã faz 12 anos.
Rotina
As pessoas dividem-se em dois grupos: as que se adaptaram à rotina e as que sofrem com ela.
95% das pessoas pensa que pertence ao 1º grupo mas, na realidade, está no 2º!
(As restantes 5% dividem-se entre as que procuram realmente uma rotina e as que estão sempre a fugir a ela)
95% das pessoas pensa que pertence ao 1º grupo mas, na realidade, está no 2º!
(As restantes 5% dividem-se entre as que procuram realmente uma rotina e as que estão sempre a fugir a ela)
terça-feira, outubro 05, 2004
Adeus, minha... beldade
Qual é a forma mais eficaz para alguém (como eu, sem nenhum atributo relevante) conseguir atrair a atenção de uma mulher bonita? É triste dizê-lo: não é sendo bonzinho para ela, é ignorando radicalmente a sua existência, embora sempre de forma simpática e cortês.
E conquistá-la? Isso dependerá de que factores? Não há factores nenhuns, depende apenas do que se chega a fazer sem se mostrar excessivamente aflito e sem se estampar ao comprido... Infelizmente, no meu caso, isto é o mesmo que dizer que não faço a mais remota ideia de como se consegue.
E conquistá-la? Isso dependerá de que factores? Não há factores nenhuns, depende apenas do que se chega a fazer sem se mostrar excessivamente aflito e sem se estampar ao comprido... Infelizmente, no meu caso, isto é o mesmo que dizer que não faço a mais remota ideia de como se consegue.
sábado, outubro 02, 2004
Pergunta essencial no fim de tudo
O que é que eu faço do pouco possível que sou no meio dos impossíveis com que (me) sonho?
Onde estás?
Uma relação exaltante que se transforma numa recordação estimulante, depois numa recordação forrada com tempo, embrulhada no tempo e, depois, já nem isso...
quinta-feira, setembro 30, 2004
O Mal confortável
É cómodo eu acreditar na existência do Mal: assim, quando sou malvado, não sou eu, é outra coisa, algo de demoníaco, que toma conta de mim. E adeus responsabilidade!
Querias!!!
Querias!!!
quarta-feira, setembro 29, 2004
Até onde seremos levados por este olhar?
Quando me queixo da incompreensão por parte dos outros, do que estou realmente a queixar-me é de eles não se aperceberem do que eu desejo ser (e que, provavelmente, não sou).
Então vamos jogar um jogo? Vou ver em ti o que tu mais gostares de ser. Desejas ser bela? Ver-te-ei bela até ao impossível. Desejas ser importante? Serás para mim a mais importante das importantes. Desejas ser amada?...
Em que águas estamos prestes a mergulhar?
Então vamos jogar um jogo? Vou ver em ti o que tu mais gostares de ser. Desejas ser bela? Ver-te-ei bela até ao impossível. Desejas ser importante? Serás para mim a mais importante das importantes. Desejas ser amada?...
Em que águas estamos prestes a mergulhar?
segunda-feira, setembro 27, 2004
Crenças e descrenças (II)
Se Deus existe é um Deus que não ama.
A existir, aposto mais num Deus que se ri.
De todos nós.
"Dá Deus o frio conforme a roupa, mas mais a quem tem pouca."
A existir, aposto mais num Deus que se ri.
De todos nós.
"Dá Deus o frio conforme a roupa, mas mais a quem tem pouca."
Eu e as mulheres
Nunca consigo perceber as mulheres por quem não estou apaixonado.
E quando estou, paraliso mentalmente emudecido.
Em ambos os casos acabo como começo: burro, obviamente!
E quando estou, paraliso mentalmente emudecido.
Em ambos os casos acabo como começo: burro, obviamente!
domingo, setembro 26, 2004
Sexo, ou talvez não
"(...)gosto do sexo, sempre gostei. Mas o sexo desgosta-me, (...)"
(Nem Só Mas Também, Augusto Abelaira)
(Nem Só Mas Também, Augusto Abelaira)
Crenças e descrenças
Deus e o Diabo estão cada vez mais por fora das minhas cogitações.
Mas se eu tivesse que os pôr em algum lado, a Deus oferecia-lhe o poço das esperanças não cumpridas, ao Diabo a fossa dos desejos satisfeitos. E ia à minha vida.
Mas se eu tivesse que os pôr em algum lado, a Deus oferecia-lhe o poço das esperanças não cumpridas, ao Diabo a fossa dos desejos satisfeitos. E ia à minha vida.
Corridas
"Fui à corrida na Ponte Vasco da Gama para ter a oportunidade, também eu, de me atirar da dita. Depois pensei: e se sobrevivo? Mais ridículo ainda: e se depois de dar estrilho não me atiro? Não me atirei. Arrastei-me furiosamente até à meta."
sábado, setembro 25, 2004
A vulgaridade
Procuro sempre não ser grosseiro. Aterroriza-me que a minha grosseria torne plausível a grosseria dos outros.
quinta-feira, setembro 23, 2004
Amor e feridas (II)
"Se tomo a iniciativa de, ou simplesmente aceito, encontrar-me com ele, mostro que quero vê-lo. É melhor deixá-lo na incerteza. Melhor porquê? Porque já uma vez o mostrei ao Ser Mais Amado de Todos e Ele magoou-me mais do que deveria ser permitido a alguém magoar e agora, em todos os homens, vejo Aquele que há-de sofrer infinitamente pela dor também infinita que ainda hoje Ele me inflige?"
Sou eu?
Representamos sempre?
E representamos um papel sempre diferente do nosso, isto é, não nos permitimos ser o que somos? Ou: não temos a coragem de sermos o que somos? Ou: não sabemos sequer o que somos?
Talvez, talvez, talvez e sim.
Porque a morte habita, nem que seja como um fantasma, o coração do nosso coração? (A morte aqui significa tudo aquilo que nos é visceralmente impossível amar, ou seja, nós próprios?) E, portanto, ser o quê?
E representamos um papel sempre diferente do nosso, isto é, não nos permitimos ser o que somos? Ou: não temos a coragem de sermos o que somos? Ou: não sabemos sequer o que somos?
Talvez, talvez, talvez e sim.
Porque a morte habita, nem que seja como um fantasma, o coração do nosso coração? (A morte aqui significa tudo aquilo que nos é visceralmente impossível amar, ou seja, nós próprios?) E, portanto, ser o quê?
Desengraçados de todo o mundo, uni-vos!
A todos os que, como eu, se acham feios, azarentos ao amor, desprovidos de hipóteses junto das mulheres bonitas e com uma vida sexual que não levamos a mal nos outros. E que, além disso, sentem prazer a enfrentar ideias estimulantes, eu digo-vos:
É realmente obrigatória a aquisição e a leitura do livro "Fora do Mundo - Textos da Blogosfera" de Pedro Mexia (Ed. Cotovia, 2004)
É realmente obrigatória a aquisição e a leitura do livro "Fora do Mundo - Textos da Blogosfera" de Pedro Mexia (Ed. Cotovia, 2004)
quarta-feira, setembro 22, 2004
Amor e feridas (I)
O amor é mais fonte de sofrimento que outra coisa, não pela quantidade de fracassos, mas pela absoluta devastação que cada um deles arrasta consigo. Porquê?
Porque o amor é caprichoso e, portanto, cruel? Sim, está bem, mas porquê?
Porque somos, seremos sempre amadores "amadores", isto é, nunca aprendemos a amar por mais amor que recebamos ou não?
Porque o amor é caprichoso e, portanto, cruel? Sim, está bem, mas porquê?
Porque somos, seremos sempre amadores "amadores", isto é, nunca aprendemos a amar por mais amor que recebamos ou não?
I´m back!
Caros amigos e outras que mais
Volto primeiro que tudo para anunciar um álbum de originais do Leonard Cohen, esse sedutor intemporal que volta para assombrar as nossas noites com sonhos de amores que vivem da ilusão do possível. A sair em Outubro, parece.
Enquanto esperam, oiçam e leiam "Dance Me To The End of Love", e dancem, dancem...
Volto primeiro que tudo para anunciar um álbum de originais do Leonard Cohen, esse sedutor intemporal que volta para assombrar as nossas noites com sonhos de amores que vivem da ilusão do possível. A sair em Outubro, parece.
Enquanto esperam, oiçam e leiam "Dance Me To The End of Love", e dancem, dancem...
Hino aos Amigos
Do Livro de Job, 19:21
"Compadecei-vos de mim, compadecei-vos de mim, ao menos vós, que sois meus amigos, porque a mão de Deus feriu-me."
Mesmo sabendo que Job não teve amigos à altura (não é o meu caso, eu é que não estou à altura deles), não vos comove que, num livro de revelações divinas, a última, realmente a derradeira esperança de alguém é depositada não em Deus mas nos amigos?
Chamo a atenção para este Livro que tem fartos motivos (não só este que vos refiro, mas desafio-vos a descobrirem) para ser expurgado da Bíblia. Para além de ser um apelo contra a mais alta e injusta solidão ("Grito contra a violência e ninguém me responde, (...)", 19:7).
"Compadecei-vos de mim, compadecei-vos de mim, ao menos vós, que sois meus amigos, porque a mão de Deus feriu-me."
Mesmo sabendo que Job não teve amigos à altura (não é o meu caso, eu é que não estou à altura deles), não vos comove que, num livro de revelações divinas, a última, realmente a derradeira esperança de alguém é depositada não em Deus mas nos amigos?
Chamo a atenção para este Livro que tem fartos motivos (não só este que vos refiro, mas desafio-vos a descobrirem) para ser expurgado da Bíblia. Para além de ser um apelo contra a mais alta e injusta solidão ("Grito contra a violência e ninguém me responde, (...)", 19:7).
quarta-feira, julho 14, 2004
Um post com a ajuda de Vinicius de Moraes
"Ah meus amigos, não vos deixeis morrer assim. Ide ver vossos clínicos, vossos analistas, vossos macumbeiros, e tomai sol, tomai vento, tomai tento, amigos meus!... Amai em tempo integral, nunca sacrificando ao exercício de outros deveres este sagrado, do amor. Amai e bebei uísque. Não digo que bebais em quantidades federais, mas quatro, cinco uísques por dia nunca fizeram mal a ninguém. Amai, porque nada melhor para a saúde que um amor correspondido. Mas, sobretudo, não morrais amigos meus!"
sábado, julho 03, 2004
"Sermão de despedida" aos alunos do 9º ano
Na última aula com os meus alunos do 9º ano disse o seguinte (aqui fica uma versão simplificada):
Tenho duas regras de vida a propor-vos.
A primeira é: Oiçam e sigam a vossa voz interior, não se deixem confundir por aquilo que os outros querem que vocês pensem ou desejam que vocês façam. Procurem a vossa autêntica voz interior; e, depois, aprendam a confiar nela.
A segunda regra é: Toda a aparência de felicidade e de satisfação é uma ilusão. Todos vivemos um certo grau de caos interior, vocês, eu e toda a gente: a única maneira de aliviar verdadeiramente a dor que esse caos traz é ajudar quem precisa (e todos precisamos), é sermos bons uns para os outros.
Tenho duas regras de vida a propor-vos.
A primeira é: Oiçam e sigam a vossa voz interior, não se deixem confundir por aquilo que os outros querem que vocês pensem ou desejam que vocês façam. Procurem a vossa autêntica voz interior; e, depois, aprendam a confiar nela.
A segunda regra é: Toda a aparência de felicidade e de satisfação é uma ilusão. Todos vivemos um certo grau de caos interior, vocês, eu e toda a gente: a única maneira de aliviar verdadeiramente a dor que esse caos traz é ajudar quem precisa (e todos precisamos), é sermos bons uns para os outros.
quarta-feira, junho 23, 2004
A "palmada pedagógica"
Tu achas que a "palmada pedagógica" dada a uma pessoa a quem se convencionou chamar criança (a um adulto não, a ti nunca, que horror!) se justifica em certos casos e não lhe faz mal nenhum.
Das duas uma:
ou tu assumes que esta posição serve apenas para não te sentires culpada de, num momento em que perdes o controlo, dares a tal palmada dita pedagógica... e sobre a fundamentação ética desta tua posição estamos conversados;
ou acreditas honestamente no princípio subjacente à palmada e tens então, coerentemente, de defender que quem a aplica ao teu filho pode ser qualquer adulto (o merceeiro do bairro, o polícia da esquina, a professora da escola, etc).
Isto porque, segundo tu dizes, a tua defesa da palmada vem duma necessidade do teu filho (por exemplo, uma necessidade de segurança pessoal dele) que só pode ser resolvida e satisfeita com essa tal palmada, o que torna portanto irrelevante quem a dá.
Estás disposta a defender activamente que qualquer adulto possa bater no teu filho – uma palmada pedagógica, claro, seja o que for que isto queira dizer em termos concretos?
Se não estás, peço-te: pensa tudo outra vez desde o princípio.
Das duas uma:
ou tu assumes que esta posição serve apenas para não te sentires culpada de, num momento em que perdes o controlo, dares a tal palmada dita pedagógica... e sobre a fundamentação ética desta tua posição estamos conversados;
ou acreditas honestamente no princípio subjacente à palmada e tens então, coerentemente, de defender que quem a aplica ao teu filho pode ser qualquer adulto (o merceeiro do bairro, o polícia da esquina, a professora da escola, etc).
Isto porque, segundo tu dizes, a tua defesa da palmada vem duma necessidade do teu filho (por exemplo, uma necessidade de segurança pessoal dele) que só pode ser resolvida e satisfeita com essa tal palmada, o que torna portanto irrelevante quem a dá.
Estás disposta a defender activamente que qualquer adulto possa bater no teu filho – uma palmada pedagógica, claro, seja o que for que isto queira dizer em termos concretos?
Se não estás, peço-te: pensa tudo outra vez desde o princípio.
Acerca da vitória da equipa portuguesa no jogo com a equipa espanhola e a auto-estima
Não consigo compreender nem partilhar uma alegria cuja fonte assenta na tristeza de outros.
Consigo compreender e partilhar a alegria por os jogadores portugueses terem realizado um bom desafio. O mesmo para o facto de esse bom desempenho se ter traduzido em golos e numa vitória. Não consigo compreender a alegria que nasce da derrota dos outros que são, em tudo, pessoas iguais a nós.
Sei que é uma ilusão pensar que as vitórias da equipa portuguesa de futebol (dirigida, aliás, por um estrangeiro) vão fazer subir a nossa auto-estima. Se nem a Expo 98, esse sim, um evento grandioso, complexo e difícil de realizar, o conseguiu - veja-se como estamos!!
Porque a auto-estima não nos é dada por 11 indivíduos a jogar futebol durante 90 minutos connosco sentados no sofá aos gritos.
A auto-estima conquista-se no dia-a-dia; e, como tudo o que tem realmente valor, está sempre a escapar-se-nos se não lutarmos pessoalmente, corpo-a-corpo, empenhada e constantemente a fim de a podermos conseguir alcançar e manter.
Consigo compreender e partilhar a alegria por os jogadores portugueses terem realizado um bom desafio. O mesmo para o facto de esse bom desempenho se ter traduzido em golos e numa vitória. Não consigo compreender a alegria que nasce da derrota dos outros que são, em tudo, pessoas iguais a nós.
Sei que é uma ilusão pensar que as vitórias da equipa portuguesa de futebol (dirigida, aliás, por um estrangeiro) vão fazer subir a nossa auto-estima. Se nem a Expo 98, esse sim, um evento grandioso, complexo e difícil de realizar, o conseguiu - veja-se como estamos!!
Porque a auto-estima não nos é dada por 11 indivíduos a jogar futebol durante 90 minutos connosco sentados no sofá aos gritos.
A auto-estima conquista-se no dia-a-dia; e, como tudo o que tem realmente valor, está sempre a escapar-se-nos se não lutarmos pessoalmente, corpo-a-corpo, empenhada e constantemente a fim de a podermos conseguir alcançar e manter.
domingo, junho 06, 2004
A dor infinita (2)
As pessoas que sofreram maus tratos na infância (sem preocupação de hierarquizar):
- atraem e sentem-se atraídas por quem as vai maltratar ainda mais;
- não identificam nem reconhecem quem realmente as ama;
- comportam-se de modo a que as pessoas não as amem e assim podem confirmar a sua auto-imagem de não merecedoras de amor;
- maltratam outros, principalmente os mais fracos;
- suicidam-se (de facto, com drogas ou com álcool) ou pensam frequentemente no suicídio pois só a ideia da morte lhes traz algum alívio à dor;
- procuram sempre a "mãe" ou o "pai" que as venha salvar; por paradoxal que pareça, preferem sempre a má "mãe" ou o mau "pai".
Dois livros obrigatórios sobre esta e outras temáticas afins:
A Loucura da Normalidade, Arno Gruen, ed. Assírio e Alvim
Mulheres que amam demais, Robin Norwood, ed. Sinais de Fogo
- atraem e sentem-se atraídas por quem as vai maltratar ainda mais;
- não identificam nem reconhecem quem realmente as ama;
- comportam-se de modo a que as pessoas não as amem e assim podem confirmar a sua auto-imagem de não merecedoras de amor;
- maltratam outros, principalmente os mais fracos;
- suicidam-se (de facto, com drogas ou com álcool) ou pensam frequentemente no suicídio pois só a ideia da morte lhes traz algum alívio à dor;
- procuram sempre a "mãe" ou o "pai" que as venha salvar; por paradoxal que pareça, preferem sempre a má "mãe" ou o mau "pai".
Dois livros obrigatórios sobre esta e outras temáticas afins:
A Loucura da Normalidade, Arno Gruen, ed. Assírio e Alvim
Mulheres que amam demais, Robin Norwood, ed. Sinais de Fogo
sábado, junho 05, 2004
A dor infinita (1)
São muitas e graves as consequências que as pessoas que sofreram maus tratos na infância têm de suportar (ver uma lista condensada delas, por exemplo, em MAGALHÃES, Teresa, Maus Tratos em Crianças e Jovens, Quarteto Editora, Coimbra, 2002).
Mas há uma que é tanto mais dramática quanto raro é referida: as pessoas matratadas de forma continuada na infância e na juventude acabam por adquirir a convicção profunda de que não poderão nunca ser amadas. Na verdade, para estas pessoas, a ideia de que alguém as possa amar simplesmente pelo que elas são torna-se inimaginável.
Como ninguém consegue (sobre)viver com a certeza desta impossibilidade de amor, estas pessoas recorrem então a duas possíveis vias para enganar este desespero.
Uma das vias é o exercício do poder: já que não acreditam poderem ser amadas, pelo menos são obedecidas, isto é, elas trocam o amor livremente dado por uma sua contrafacção: a submissão imposta por uma força que é, na realidade, ausência de força interior (para suportar esta dor). Com todo o cortejo de horrores que esta opção normalmente acarreta para os mais fracos, principalmente para as crianças.
A outra via consiste em fazerem o que podem para conseguirem merecer a gratidão, outro substituto do amor, pobre, mas aceitável: serem boas, serem obedientes, irem ao encontro das expectativas dos outros, humilharem-se, etc., a muito elas estão dispostas para obterem um pouco de reconhecimento que amenize a dor de não serem amadas.
Que não haja ilusões: a situação destas pessoas é verdadeiramente trágica. Façam elas o que fizerem, sejam quais forem os extremos a que cheguem (e há um longo continuum que vai desde um Hitler ou um Estaline até aquelas desgraçadas que chegam a ser mortas pelos seus maridos mas que são incapazes de os abandonar), jamais, repito, jamais assim a ausência de esperança da sua condição é passível de ser superada. E, concomitantemente, este sofrimento é quase sempre invisível aos olhos das outras pessoas e é quase sempre por estas ignorado. Por nós. Por mim.
Mas há uma que é tanto mais dramática quanto raro é referida: as pessoas matratadas de forma continuada na infância e na juventude acabam por adquirir a convicção profunda de que não poderão nunca ser amadas. Na verdade, para estas pessoas, a ideia de que alguém as possa amar simplesmente pelo que elas são torna-se inimaginável.
Como ninguém consegue (sobre)viver com a certeza desta impossibilidade de amor, estas pessoas recorrem então a duas possíveis vias para enganar este desespero.
Uma das vias é o exercício do poder: já que não acreditam poderem ser amadas, pelo menos são obedecidas, isto é, elas trocam o amor livremente dado por uma sua contrafacção: a submissão imposta por uma força que é, na realidade, ausência de força interior (para suportar esta dor). Com todo o cortejo de horrores que esta opção normalmente acarreta para os mais fracos, principalmente para as crianças.
A outra via consiste em fazerem o que podem para conseguirem merecer a gratidão, outro substituto do amor, pobre, mas aceitável: serem boas, serem obedientes, irem ao encontro das expectativas dos outros, humilharem-se, etc., a muito elas estão dispostas para obterem um pouco de reconhecimento que amenize a dor de não serem amadas.
Que não haja ilusões: a situação destas pessoas é verdadeiramente trágica. Façam elas o que fizerem, sejam quais forem os extremos a que cheguem (e há um longo continuum que vai desde um Hitler ou um Estaline até aquelas desgraçadas que chegam a ser mortas pelos seus maridos mas que são incapazes de os abandonar), jamais, repito, jamais assim a ausência de esperança da sua condição é passível de ser superada. E, concomitantemente, este sofrimento é quase sempre invisível aos olhos das outras pessoas e é quase sempre por estas ignorado. Por nós. Por mim.
domingo, maio 30, 2004
"O" problema da Educação?
Cerca de um mês antes da prova de aferição os meus alunos fizeram durante várias aulas, e na sala de aula, um trabalho de grupo; seguiu-se uma aula em que o trabalho foi discutido e corrigido perante todos.
Naquela prova saiu uma pergunta que eu tinha incluído no trabalho de grupo, mas com um âmbito muito mais alargado e mais complicado.
Tenho duas turmas de 9º ano, uma boa e outra mais fraca, 23+25 = 48 alunos. Quantos responderam ou responderam correctamente à pergunta da prova? Nenhum!!
Temos aqui um problema grave, como estão a ver.
Não culpo o professor porque eu sou o professor e eu sei que "dei" aquela matéria seguindo o cânone actual das Ciências da Educação (o qual, aliás, considero correcto e do qual sou defensor)
Não culpo os alunos porque é absurdo culpar 100% dos alunos do que quer que seja.
Não, o problema é mais vasto e penso que não se restringe à prestação pessoal do indivíduo A ou B, seja ele aluno ou professor.
Portanto, que temos um problema , eu sei que temos. Não sei é onde, e confesso que nem sequer sei muito bem qual é o problema (porque alguns saber a resposta sabiam; ora, não se lembraram, não compreenderam a pergunta, ou o quê? Eles também não me souberam responder).
Na minha busca lanço uma hipótese (quem se lembrar de mais, por favor acrescente aqui nos “comments”):
Actualmente o cérebro dos miúdos não tem tempo para assimilar e para interiorizar o conhecimento, ou seja, não tem tempo para transformar o conhecimento em saber.
Quando o cérebro pode começar a fazer este trabalho novas vagas de estímulos e de informação (da escola e de fora da escola) lhe vão chegando, acabando tudo numa avalanche da qual se a pessoa sair com vida, isto é, com sanidade mental, já não será mau.
Então o cérebro (se isto for biológico) ou eles mesmos (se for psicológico) “desligam”.
Naquela prova saiu uma pergunta que eu tinha incluído no trabalho de grupo, mas com um âmbito muito mais alargado e mais complicado.
Tenho duas turmas de 9º ano, uma boa e outra mais fraca, 23+25 = 48 alunos. Quantos responderam ou responderam correctamente à pergunta da prova? Nenhum!!
Temos aqui um problema grave, como estão a ver.
Não culpo o professor porque eu sou o professor e eu sei que "dei" aquela matéria seguindo o cânone actual das Ciências da Educação (o qual, aliás, considero correcto e do qual sou defensor)
Não culpo os alunos porque é absurdo culpar 100% dos alunos do que quer que seja.
Não, o problema é mais vasto e penso que não se restringe à prestação pessoal do indivíduo A ou B, seja ele aluno ou professor.
Portanto, que temos um problema , eu sei que temos. Não sei é onde, e confesso que nem sequer sei muito bem qual é o problema (porque alguns saber a resposta sabiam; ora, não se lembraram, não compreenderam a pergunta, ou o quê? Eles também não me souberam responder).
Na minha busca lanço uma hipótese (quem se lembrar de mais, por favor acrescente aqui nos “comments”):
Actualmente o cérebro dos miúdos não tem tempo para assimilar e para interiorizar o conhecimento, ou seja, não tem tempo para transformar o conhecimento em saber.
Quando o cérebro pode começar a fazer este trabalho novas vagas de estímulos e de informação (da escola e de fora da escola) lhe vão chegando, acabando tudo numa avalanche da qual se a pessoa sair com vida, isto é, com sanidade mental, já não será mau.
Então o cérebro (se isto for biológico) ou eles mesmos (se for psicológico) “desligam”.
segunda-feira, maio 24, 2004
Faz vertigens pensar:
Abro a torneira, sinto a água a correr... e há milhões de pessoas que não têm acesso a água potável nenhuma.
Acordo o meu filho, vejo o seu primeiro sorriso da manhã... e há milhões de pessoas que não vêem nada disto porque morrem 2 milhões de crianças todos os dias apenas por não terem sido imunizadas com vacinas.
Saio de casa... e há milhões de pessoas que não saem de casa nenhuma porque não a têm nem nunca a vão ter.
Tomo um café, pago 0,80€... e há milhões de pessoas que é com este dinheiro que vão ter de sobreviver hoje o dia todo.
Páro aqui... mas a morte continua desvairada lá fora.
Acordo o meu filho, vejo o seu primeiro sorriso da manhã... e há milhões de pessoas que não vêem nada disto porque morrem 2 milhões de crianças todos os dias apenas por não terem sido imunizadas com vacinas.
Saio de casa... e há milhões de pessoas que não saem de casa nenhuma porque não a têm nem nunca a vão ter.
Tomo um café, pago 0,80€... e há milhões de pessoas que é com este dinheiro que vão ter de sobreviver hoje o dia todo.
Páro aqui... mas a morte continua desvairada lá fora.
sexta-feira, maio 21, 2004
Causas do stress nos professores
"(...) apenas 16 por cento da população mostra níveis elevados ou muito elevados de bem-estar social quando o que está em causa é a crença positiva na natureza humana e a confiança nos outros.
Recorde-se, a propósito, que os portugueses estão entre os mais desconfiados da Europa. Quase um quarto dos inquiridos avaliou o seu nível de confiança nas pessoas entre 0 e 2, numa escala que vai até 10 valores." (Público, 19/5/2004, p.32)
Eu sempre achei que a maior causa de stress entre os professores não eram as condições de trabalho, nem o salário, nem a indisciplina, nem nada dessas coisas, mas sim a relação com os colegas que está muito longe de ser de confiança, como a multiplicidade de sindicatos existentes no sector o revela.
Numa sociedade em que ainda imperam as estratégias da intimidação, da distanciação em relação ao sofrimento dos outros, em que o Estado cada vez mais “desprotege” as pessoas que mais precisam de protecção, a falta de suporte emocional a que estamos tão sujeitos neste país (e para o qual também cada um de nós contribui) só pode dar como resultado os resultados indicados acima, mais a solidão e o sofrimento consequente que não cabem em nenhuma estatística.
Recorde-se, a propósito, que os portugueses estão entre os mais desconfiados da Europa. Quase um quarto dos inquiridos avaliou o seu nível de confiança nas pessoas entre 0 e 2, numa escala que vai até 10 valores." (Público, 19/5/2004, p.32)
Eu sempre achei que a maior causa de stress entre os professores não eram as condições de trabalho, nem o salário, nem a indisciplina, nem nada dessas coisas, mas sim a relação com os colegas que está muito longe de ser de confiança, como a multiplicidade de sindicatos existentes no sector o revela.
Numa sociedade em que ainda imperam as estratégias da intimidação, da distanciação em relação ao sofrimento dos outros, em que o Estado cada vez mais “desprotege” as pessoas que mais precisam de protecção, a falta de suporte emocional a que estamos tão sujeitos neste país (e para o qual também cada um de nós contribui) só pode dar como resultado os resultados indicados acima, mais a solidão e o sofrimento consequente que não cabem em nenhuma estatística.
domingo, maio 16, 2004
Uma pergunta à infância
A quem se choca com a absoluta satisfação que os soldados americanos revelam nas fotos das torturas no Iraque:
tentem imaginar como é que eles terão sido tratados na sua infância... Não é difícil imaginar, pois não?
tentem imaginar como é que eles terão sido tratados na sua infância... Não é difícil imaginar, pois não?
Os pobres são culpados de quê?
A pobreza é como uma doença ou como uma depressão grave:
sem ajuda especializada (e, portanto, sem dinheiro entre outras coisas) não é possível curá-la.
E, não o esqueçamos, a pobreza é mesmo uma doença do corpo social.
sem ajuda especializada (e, portanto, sem dinheiro entre outras coisas) não é possível curá-la.
E, não o esqueçamos, a pobreza é mesmo uma doença do corpo social.
quarta-feira, maio 12, 2004
A insensatez de uma opção pela guerra
A propósito da guerra no Iraque, é exemplo de falta de um mínimo de senso esperar :
- que da guerra nasça logo a paz, qualquer paz (“De tigres não nascem cordeiros”, Gandhi);
- que da ordem de matar o inimigo nasça a obediência ao respeito pelos direitos humanos desse inimigo;
- que não seja considerado bárbaro filmar a matança de mulheres, velhos e crianças com bombas, mas que o seja filmar uma execução de um só homem com uma única faca.
- que da guerra nasça logo a paz, qualquer paz (“De tigres não nascem cordeiros”, Gandhi);
- que da ordem de matar o inimigo nasça a obediência ao respeito pelos direitos humanos desse inimigo;
- que não seja considerado bárbaro filmar a matança de mulheres, velhos e crianças com bombas, mas que o seja filmar uma execução de um só homem com uma única faca.
Que resposta à violência?
E se maltratarem ou matarem o meu filho? Respeito por eles? Não deverei antes matar quem matou?
Primeira resposta: sim, devo. Sei, no entanto, que estou a alimentar uma guerra infinita (será necessário recordar o exemplo de palestinianos e israelitas?)
Segunda resposta: não, não devo.
Porque sou um ser humano que sabe que a única possibilidade de paz entre mim e o outro, em mim e no outro, surge não pela vingança mas pelo perdão.
Porque, ao perdoar, não destruo pessoas, culpadas ou inocentes, destruo um elo de uma cadeia de violência e de dor a que eu e o outro estávamos presos.
E é nessa pausa que o perdão concede, às vezes infinitesimal é certo, que o princípio de uma paz autêntica pode surgir.
Primeira resposta: sim, devo. Sei, no entanto, que estou a alimentar uma guerra infinita (será necessário recordar o exemplo de palestinianos e israelitas?)
Segunda resposta: não, não devo.
Porque sou um ser humano que sabe que a única possibilidade de paz entre mim e o outro, em mim e no outro, surge não pela vingança mas pelo perdão.
Porque, ao perdoar, não destruo pessoas, culpadas ou inocentes, destruo um elo de uma cadeia de violência e de dor a que eu e o outro estávamos presos.
E é nessa pausa que o perdão concede, às vezes infinitesimal é certo, que o princípio de uma paz autêntica pode surgir.
domingo, maio 09, 2004
Tolerância vs. respeito
Devemos ser tolerantes com os outros.
Devemos? Tolerantes com a violência (por exemplo, a que é exercida sobre crianças e mulheres por razões religiosas ou outras) ou, para simplificar, tolerantes com aqueles que o não são?
É por causa das contradições que são geradas pela palavra tolerância que eu prefiro o conceito de "respeito".
Primeiro, porque só falamos de tolerância em relação aos outros, pessoalmente ninguém admite gostar de ser "tolerado". O que faz suspeitar que tolerar não será uma coisa tão boa assim.
Segundo, porque se a essência da minha relação com os outros for o respeito e, dentro deste, o respeito pelos mais fracos, pelos que sofrem sem defesa, então aquelas contradições desaparecem.
Devemos? Tolerantes com a violência (por exemplo, a que é exercida sobre crianças e mulheres por razões religiosas ou outras) ou, para simplificar, tolerantes com aqueles que o não são?
É por causa das contradições que são geradas pela palavra tolerância que eu prefiro o conceito de "respeito".
Primeiro, porque só falamos de tolerância em relação aos outros, pessoalmente ninguém admite gostar de ser "tolerado". O que faz suspeitar que tolerar não será uma coisa tão boa assim.
Segundo, porque se a essência da minha relação com os outros for o respeito e, dentro deste, o respeito pelos mais fracos, pelos que sofrem sem defesa, então aquelas contradições desaparecem.
terça-feira, maio 04, 2004
Paul Celan
Oiço os sons da guerra infinita entre israelitas e palestinianos, uma guerra onde a palavra perdão é praticamente inaudível.
Sei da violência que se abate sobre as crianças em tempos de crise e cujo choro se mantém também inaudível.
Vejo e ouço o riso de todos os crápulas nesse espelho da nossa vileza que é a televisão.
E tanta, tanta gente que morre em sofrimento, seja com fome, seja com Sida, seja com armas, seja com nada e morre, morre sem um grito.
E lembro-me de Paul Celan:
"Se viesse,
se viesse um homem
se viesse um homem ao mundo, hoje, com
a barba de luz dos
patriarcas: só poderia,
se falasse deste
tempo, só
poderia
balbuciar balbuciar
sempre sempre
só só."
Sei da violência que se abate sobre as crianças em tempos de crise e cujo choro se mantém também inaudível.
Vejo e ouço o riso de todos os crápulas nesse espelho da nossa vileza que é a televisão.
E tanta, tanta gente que morre em sofrimento, seja com fome, seja com Sida, seja com armas, seja com nada e morre, morre sem um grito.
E lembro-me de Paul Celan:
"Se viesse,
se viesse um homem
se viesse um homem ao mundo, hoje, com
a barba de luz dos
patriarcas: só poderia,
se falasse deste
tempo, só
poderia
balbuciar balbuciar
sempre sempre
só só."
quarta-feira, abril 28, 2004
Todos os seres humanos são iguais?
Apesar de sabermos que há grandes diferenças no modo como vivemos, achamos que todos os homens são iguais porque todos temos de morrer um dia.
Esta história da igualdade é cada vez mais uma mentira. Um exemplo?
A esperança média de vida.(http://geomundofred.home.sapo.pt/geo/pt/paises_deshumano_esperanca.htm)
Nos 10 países com maior esperança de vida esta situa-se entre os 79,7 e os 83,5 anos.
Nos 10 países com menor esperança de vida ela situa-se entre 36,5 e os 41,6 anos.
É verdade, em Moçambique é de 36,5 anos!
Alguém ficou ainda com fôlego para dizer alguma coisa?
Esta história da igualdade é cada vez mais uma mentira. Um exemplo?
A esperança média de vida.(http://geomundofred.home.sapo.pt/geo/pt/paises_deshumano_esperanca.htm)
Nos 10 países com maior esperança de vida esta situa-se entre os 79,7 e os 83,5 anos.
Nos 10 países com menor esperança de vida ela situa-se entre 36,5 e os 41,6 anos.
É verdade, em Moçambique é de 36,5 anos!
Alguém ficou ainda com fôlego para dizer alguma coisa?
domingo, abril 25, 2004
25 de Abril
Vivi o 25 de Abril fechado em casa pelos meus pais. Vivi um 25 de Abril de mitologia.
Que 25 de Abril está dentro de mim? Apesar disso, o da alegria sem dúvida alguma. E o da promessa de uma felicidade que se podia alcançar com as mãos.
Hoje, também o da dor infinita de nunca mais.
Que 25 de Abril está dentro de mim? Apesar disso, o da alegria sem dúvida alguma. E o da promessa de uma felicidade que se podia alcançar com as mãos.
Hoje, também o da dor infinita de nunca mais.
Escola de pessoas? Ou de alunos?
A escola deseja a transformação do aluno?
Verdadeiramente não: o que deseja é que ele desempenhe bem o seu papel.
Não é por acaso que eles são qualificados de "actores" do processo educativo.
Aliás como os professores. Pela mesma razão, certamente.
Verdadeiramente não: o que deseja é que ele desempenhe bem o seu papel.
Não é por acaso que eles são qualificados de "actores" do processo educativo.
Aliás como os professores. Pela mesma razão, certamente.
quarta-feira, abril 21, 2004
Ver TV
A TV é hoje a polícia do mundo. Ela é que tem os olhos postos em vós, não são vocês que a olham.
(Alain Tanner)
(Alain Tanner)
sexta-feira, abril 16, 2004
Seremos mulas?
Sobre o porquê de tanta violência no filme "A Paixão de Cristo" Mel Gibson contou a seguinte história:
Um sujeito vende uma mula a outro garantindo que ela faz tudo o que lhe mandarem se a tratarem bem. Foi o que o outro fez, só que a mula não esteve pelos ajustes, nunca lhe obedecia. Ao reclamar junto do vendedor, este pega num barrote e dá uma cacetada na cabeça da mula. Ora, o comprador queixou-se de que o outro lhe tinha dito que era preciso tratar a mula bem. Resposta do vendedor: "Pois, mas primeiro é preciso atrair-lhe a atenção.
Primeira reflexão: Pressupõe-se que, deste modo, Mel Gibson entende ter dado com um barrote em cada espectador. Será que por considerá-lo uma mula? Se não, então será apenas por só conhecer esta forma de captar-lhe a atenção? Mas aí a pobreza de espírito é do realizador, não do espectador.
Segunda reflexão: professores, esta história não poderia servir de metáfora para um determinado tipo de relação pedagógica muito espalhado por aí?
Um sujeito vende uma mula a outro garantindo que ela faz tudo o que lhe mandarem se a tratarem bem. Foi o que o outro fez, só que a mula não esteve pelos ajustes, nunca lhe obedecia. Ao reclamar junto do vendedor, este pega num barrote e dá uma cacetada na cabeça da mula. Ora, o comprador queixou-se de que o outro lhe tinha dito que era preciso tratar a mula bem. Resposta do vendedor: "Pois, mas primeiro é preciso atrair-lhe a atenção.
Primeira reflexão: Pressupõe-se que, deste modo, Mel Gibson entende ter dado com um barrote em cada espectador. Será que por considerá-lo uma mula? Se não, então será apenas por só conhecer esta forma de captar-lhe a atenção? Mas aí a pobreza de espírito é do realizador, não do espectador.
Segunda reflexão: professores, esta história não poderia servir de metáfora para um determinado tipo de relação pedagógica muito espalhado por aí?
quarta-feira, abril 07, 2004
Uma boa Páscoa?
Hoje ouvi na TV o pediatra Gomes Pedro a dizer que os centros de acolhimento para crianças estão "a rebentar pelas costuras", tal é o número elevado de crianças abandonadas e maltratadas.
Uma sociedade que trata mal as suas crianças, que as despreza e que não grita por causa disso, é uma sociedade que não merece sair do pântano miserável em que a sua alma se encontra mergulhada.
Uma boa Páscoa, o que quer que isto queira dizer!
Uma sociedade que trata mal as suas crianças, que as despreza e que não grita por causa disso, é uma sociedade que não merece sair do pântano miserável em que a sua alma se encontra mergulhada.
Uma boa Páscoa, o que quer que isto queira dizer!
Educação verdadeiramente cívica: uma tarefa impossível?
Educar com um sentido no ideal é, no fim de contas, educar contra o espírito do tempo: aí a dificuldade da educação para os valores.
Defesa da imperfeição
Um certo gosto pelo imperfeito evita a dissolução da nossa identidade num embrutecimento anónimo para o qual o mundo actual nos empurra.
E isto talvez os estudantes desde sempre o tenham intuído...
E isto talvez os estudantes desde sempre o tenham intuído...
sábado, abril 03, 2004
A estrutura mental que os professores usam para se posicionarem perante os alunos assenta em 3 pilares: obediência, castigo e lei (ie, a interpretação que cada um decide fazer do programa).
Tentar compreender o que se passa realmente com um aluno e actuar depois em conformidade é uma tarefa excessiva (não estou a ironizar: é mesmo excessiva).
Por isso é que, até em turmas pacíficas (mas não submissas), os professores têm de desencantar problemas e têm de os fazer parecer mais graves do que são, tudo para não serem obrigados a sair deste quadro de referência, obediência - castigo - lei, tudo para não ter de compreender.
Não é tanto assim? Proponho um teste: quando alguém se queixar perguntemos-lhe se sabe ou imagina porque é que o aluno procede ou procedeu dessa maneira. Uma aposta em como a resposta vai ser "não sei", e mais baixinho, "nem me interessa"?
Avanço mesmo uma hipótese mais arrojada: todo o professor, para fugir às dificuldades que a compreensão lhe traz, precisa de alunos indisciplinados, que sejam o inimigo. E, se eles não aparecerem, ele cria-os.
Tentar compreender o que se passa realmente com um aluno e actuar depois em conformidade é uma tarefa excessiva (não estou a ironizar: é mesmo excessiva).
Por isso é que, até em turmas pacíficas (mas não submissas), os professores têm de desencantar problemas e têm de os fazer parecer mais graves do que são, tudo para não serem obrigados a sair deste quadro de referência, obediência - castigo - lei, tudo para não ter de compreender.
Não é tanto assim? Proponho um teste: quando alguém se queixar perguntemos-lhe se sabe ou imagina porque é que o aluno procede ou procedeu dessa maneira. Uma aposta em como a resposta vai ser "não sei", e mais baixinho, "nem me interessa"?
Avanço mesmo uma hipótese mais arrojada: todo o professor, para fugir às dificuldades que a compreensão lhe traz, precisa de alunos indisciplinados, que sejam o inimigo. E, se eles não aparecerem, ele cria-os.
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