A vida. Tão pouco e tão tanto. (...) E todavia eu sei que "isto" nasceu para o silêncio sem fim... (Vergílio Ferreira)
sábado, julho 09, 2005
Viver sem destruir é uma tarefa hérculea
Razão têm os budistas ao aconselharem-nos a começar por tentarmos evitar fazer o mal; e só quando isso está mais ou menos controlado, então preocuparmo-nos em fazer o bem.
Comentários
O que é que procuro ao escrever num blog?
À partida diria que procuro acertar contas comigo mesmo.
Depois, acordar o espírito em mim e dar-lhe voz.
Mas não só.
Os blogs são um artefacto predominantemente feminino. Não se dirigem a nada nem a ninguém. Mas esperam receber. Porque vivem e lutam pela esperança de serem lidos. Para mim, como o óvulo que espera ser fecundado.
Por isso, sinto que os Comentários são uma parte da identidade do blog. Sou absolutamente a favor de Comentários.
Nenhum discurso é uma catedral; mas com os Comentários há a esperança de o discurso se desenvolver segundo as linhas de uma catedral.
É este o desafio que me coloco quando visito outros blogs: usá-los para construir ideias melhores ou para celebrar ideias perfeitas.
Tento ser honesto comigo mesmo: cá no fundo desejo também encontrar outras vozes, uma voz, talvez um rosto e um olhar com o qual me reveja melhor do que aquilo que sou. E acreditar nesse olhar.
À partida diria que procuro acertar contas comigo mesmo.
Depois, acordar o espírito em mim e dar-lhe voz.
Mas não só.
Os blogs são um artefacto predominantemente feminino. Não se dirigem a nada nem a ninguém. Mas esperam receber. Porque vivem e lutam pela esperança de serem lidos. Para mim, como o óvulo que espera ser fecundado.
Por isso, sinto que os Comentários são uma parte da identidade do blog. Sou absolutamente a favor de Comentários.
Nenhum discurso é uma catedral; mas com os Comentários há a esperança de o discurso se desenvolver segundo as linhas de uma catedral.
É este o desafio que me coloco quando visito outros blogs: usá-los para construir ideias melhores ou para celebrar ideias perfeitas.
Tento ser honesto comigo mesmo: cá no fundo desejo também encontrar outras vozes, uma voz, talvez um rosto e um olhar com o qual me reveja melhor do que aquilo que sou. E acreditar nesse olhar.
sexta-feira, julho 08, 2005
Londres, 7 de Julho de 2005
Porquê?
Para quê?
Solidariedade com todas as vítimas e seus familiares e amigos.
(...)
Todos temos uma carga grande de sofrimento que é inerente à condição humana: da doença, da morte, da velhice, da solidão, ...
Mais outra carga que advém da inépcia e da imperfeição, nossa e dos outros.
Assim já há tanto sofrimento que nunca entendi os que planeiam e põem em prática formas de aumentar ainda mais esse sofrimento nos outros, desde aquele que bate na mulher e nos filhos até ao que faz rebentar bombas no meio de populações indefesas, seja com aviões seja com engenhos artesanais.
A estupidez disto tudo...
Para quê?
Solidariedade com todas as vítimas e seus familiares e amigos.
(...)
Todos temos uma carga grande de sofrimento que é inerente à condição humana: da doença, da morte, da velhice, da solidão, ...
Mais outra carga que advém da inépcia e da imperfeição, nossa e dos outros.
Assim já há tanto sofrimento que nunca entendi os que planeiam e põem em prática formas de aumentar ainda mais esse sofrimento nos outros, desde aquele que bate na mulher e nos filhos até ao que faz rebentar bombas no meio de populações indefesas, seja com aviões seja com engenhos artesanais.
A estupidez disto tudo...
quarta-feira, julho 06, 2005
"um dizer ainda puro"
imagino que sobre nós virá um céu
de espuma e que, de sol em sol,
uma nova língua nos fará dizer
o que a poeira da nossa boca adiada
soterrou já para lá da mão possível
onde cinzentos abandonamos a flor.
dizes: põe nos meus os teus dedos
e passemos os séculos sem rosto,
apaguemos de nossas casas o barulho
do tempo que ardeu sem luz.
sim, cria comigo esse silêncio
que nos faz nus e em nós acende
o lume das árvores de fruto.
diz-me que há ainda versos por escrever,
que sobra no mundo um dizer ainda puro.
in "um mover de mão", Vasco Gato, Assírio & Alvim, 2000
Em vez de elogiar:
na escuridão este poema indicou-me um caminho.
de espuma e que, de sol em sol,
uma nova língua nos fará dizer
o que a poeira da nossa boca adiada
soterrou já para lá da mão possível
onde cinzentos abandonamos a flor.
dizes: põe nos meus os teus dedos
e passemos os séculos sem rosto,
apaguemos de nossas casas o barulho
do tempo que ardeu sem luz.
sim, cria comigo esse silêncio
que nos faz nus e em nós acende
o lume das árvores de fruto.
diz-me que há ainda versos por escrever,
que sobra no mundo um dizer ainda puro.
in "um mover de mão", Vasco Gato, Assírio & Alvim, 2000
Em vez de elogiar:
na escuridão este poema indicou-me um caminho.
Odeia o pecado, não o pecador
Porquê?
Porque o que faço de negativo, mas principalmente o efeito negativo do que faço, a maior parte das vezes pouco tem a ver com a intenção que me anima.
Quando se zangam comigo, com a minha pessoa, sinto então que me é feita uma enorme injustiça.
Os outros devem sentir o mesmo.
Não tem sentido zangar-me com eles.
Porque o que faço de negativo, mas principalmente o efeito negativo do que faço, a maior parte das vezes pouco tem a ver com a intenção que me anima.
Quando se zangam comigo, com a minha pessoa, sinto então que me é feita uma enorme injustiça.
Os outros devem sentir o mesmo.
Não tem sentido zangar-me com eles.
O fim do amor
Creio que o fim de um amor se anuncia por dois sinais:
- quando o sonho de uma vida mais perfeita com o outro começa a ser inverosímil;
- quando começamos a recear, e não só a desejar, um encontro (nem que seja para ir ao café) com o outro.
- quando o sonho de uma vida mais perfeita com o outro começa a ser inverosímil;
- quando começamos a recear, e não só a desejar, um encontro (nem que seja para ir ao café) com o outro.
quinta-feira, junho 30, 2005
Os (In)Docentes
Hoje entrei num blog colectivo de professores que têm sido meus colegas e amigos ao longo dos últimos anos.
No Onde Mudar, a profissão e a política pouco entram, como já repararam.
Agora que a desconfiança e a raiva em relação aos professores subiu até níveis inauditos, senti falta de um espaço onde aquelas minhas dimensões mais públicas pudessem ficar e, ao mesmo tempo, expor-se à discussão.
Estão convidados!
No Onde Mudar, a profissão e a política pouco entram, como já repararam.
Agora que a desconfiança e a raiva em relação aos professores subiu até níveis inauditos, senti falta de um espaço onde aquelas minhas dimensões mais públicas pudessem ficar e, ao mesmo tempo, expor-se à discussão.
Estão convidados!
Amor
No amor procuramos uma redenção por via do ser amado (do que sentimos ser uma vida interior pobre e medíocre).
É um erro.
Nunca há redenção nenhuma.
O que existe realmente são dois seres que se sentem (sentiram) insuficientemente amados. Durante toda a vida.
A ilusão de que o outro nos vai livrar dessa condenação alimenta o desejo do amor e, ao mesmo tempo, tragicamente liquida o amor.
É um erro.
Nunca há redenção nenhuma.
O que existe realmente são dois seres que se sentem (sentiram) insuficientemente amados. Durante toda a vida.
A ilusão de que o outro nos vai livrar dessa condenação alimenta o desejo do amor e, ao mesmo tempo, tragicamente liquida o amor.
O medo de existir (3)
"(...) os que se referem ao passado histórico, numa vontade desesperada de inscrever, de registar para dar consistência ao que tende incessantemente a desvanecer-se (e que, de direito, se inscreveu já, de toda a maneira - mas onde?)."
(José Gil, Portugal, hoje - o medo de existir, p. 15)
Comentário:
Fui ver "O Reino dos Céus" de Ridley Scott. O filme é uma mistura pouco feliz de americanada, Senhor dos Anéis, apologia da guerra (pelo deleite e extensão das cenas de guerra), e ao mesmo tempo libelo contra a guerra, enfim...
Mas há também a tentativa de "segurar" para a época actual os valores e os ideais da cavalaria e da nobreza, esta acima de tudo do espírito. E isso mais uma vez comoveu-me (como na Benzoni)! Tentativa desesperada, no entanto, atingindo por vezes as raias do ridículo (como por exemplo no discurso inverosímil de Balian quando cercado por Saladino em Jerusalém - a defesa da cidade justificada pelo amor ao povo).
Lá também a seguinte interrogação (com a qual concordo, claro): em que é que se torna um lugar, neste caso Jerusalém, quando a conquista da sua posse se funda em rios de sangue e de sofrimento? Porque a verdade é que, em vez da luta pelo poder e pela posse, somos sempre livres de escolher o encontro.
E isso leva-me a um cd que estou a ouvir neste preciso momento em que escrevo: "Mozart in Egypt". Musicalmente é muito mais que um encontro musical entre europeus e árabes. Em cada faixa entrelaçam-se variadíssimas melodias, instrumentos e vozes, atingindo por vezes harmonias verdadeiramente sublimes. Até canções de embalar aqui aparecem! Preciso de o dizer? É um cd profundamente comovente!
(José Gil, Portugal, hoje - o medo de existir, p. 15)
Comentário:
Fui ver "O Reino dos Céus" de Ridley Scott. O filme é uma mistura pouco feliz de americanada, Senhor dos Anéis, apologia da guerra (pelo deleite e extensão das cenas de guerra), e ao mesmo tempo libelo contra a guerra, enfim...
Mas há também a tentativa de "segurar" para a época actual os valores e os ideais da cavalaria e da nobreza, esta acima de tudo do espírito. E isso mais uma vez comoveu-me (como na Benzoni)! Tentativa desesperada, no entanto, atingindo por vezes as raias do ridículo (como por exemplo no discurso inverosímil de Balian quando cercado por Saladino em Jerusalém - a defesa da cidade justificada pelo amor ao povo).
Lá também a seguinte interrogação (com a qual concordo, claro): em que é que se torna um lugar, neste caso Jerusalém, quando a conquista da sua posse se funda em rios de sangue e de sofrimento? Porque a verdade é que, em vez da luta pelo poder e pela posse, somos sempre livres de escolher o encontro.
E isso leva-me a um cd que estou a ouvir neste preciso momento em que escrevo: "Mozart in Egypt". Musicalmente é muito mais que um encontro musical entre europeus e árabes. Em cada faixa entrelaçam-se variadíssimas melodias, instrumentos e vozes, atingindo por vezes harmonias verdadeiramente sublimes. Até canções de embalar aqui aparecem! Preciso de o dizer? É um cd profundamente comovente!
segunda-feira, junho 27, 2005
Um oásis chamado... Benzoni
Há uma semana que não venho aqui por dificuldades de ligação à net. Não, não me vou pôr a queixar do priv... esqueçam! Hoje só venho dizer que continuo vivo.
E falar brevemente do que tenho lido. A semana foi muito trabalhosa (sim, mesmo no dia de greve, que fiz, trabalhei com os alunos que nem um desalmado!) e pus-me a ler livros da Juliette Benzoni: "Thibaut...", depois "Renaud..." da série Os Cavaleiros. Há livros que, pelo momento em que nos caiem nas mãos, aparecem sublimes aos nossos olhos. Foi o caso!
Ali, mesmo no meio da pior trama, tudo é simples, quero dizer, as escolhas são claras e simples. E até se acredita que é simples e possível escolher o caminho mais honrado (palavra pouco ouvida esta, estranha mesmo, não é?). Nada parecido com a vida real, ou seja, um oásis...
E falar brevemente do que tenho lido. A semana foi muito trabalhosa (sim, mesmo no dia de greve, que fiz, trabalhei com os alunos que nem um desalmado!) e pus-me a ler livros da Juliette Benzoni: "Thibaut...", depois "Renaud..." da série Os Cavaleiros. Há livros que, pelo momento em que nos caiem nas mãos, aparecem sublimes aos nossos olhos. Foi o caso!
Ali, mesmo no meio da pior trama, tudo é simples, quero dizer, as escolhas são claras e simples. E até se acredita que é simples e possível escolher o caminho mais honrado (palavra pouco ouvida esta, estranha mesmo, não é?). Nada parecido com a vida real, ou seja, um oásis...
domingo, junho 19, 2005
Não é o privado que é bom?
Tem sido dito: os funcionários públicos são uns priviligiados, têm um nível muito superior de salários e protecção social comparativamente a uma pessoa com a mesma formação no sector privado.
E eu não compreendo.
Então não é o privado que paga tão bem e dá tão boas condições que os mesmos que dizem o que atrás escrevi defendem que se deviam aumentar os salários no sector público para conseguir atrair os bons profissionais desse mesmo privado?
Tem sido dito: a qualidade dos serviços públicos é má.
E continuo sem compreender.
Tenho várias ligações como utente e como cliente com privados e garanto-vos: sou ali tão ou mais maltratado do que com entidades públicas - telefones nunca atendidos, reclamações nunca respondidas, vigarices das mais variadas e em relação às quais estou completamente indefeso ao contrário de com as entidades públicas, demoras absolutamente injustificadas, incompetências gritantes e desesperantes, e mais, mais... serei o único a quem estas coisas acontecem? Porque é que mais ninguém fala disto?
E eu não compreendo.
Então não é o privado que paga tão bem e dá tão boas condições que os mesmos que dizem o que atrás escrevi defendem que se deviam aumentar os salários no sector público para conseguir atrair os bons profissionais desse mesmo privado?
Tem sido dito: a qualidade dos serviços públicos é má.
E continuo sem compreender.
Tenho várias ligações como utente e como cliente com privados e garanto-vos: sou ali tão ou mais maltratado do que com entidades públicas - telefones nunca atendidos, reclamações nunca respondidas, vigarices das mais variadas e em relação às quais estou completamente indefeso ao contrário de com as entidades públicas, demoras absolutamente injustificadas, incompetências gritantes e desesperantes, e mais, mais... serei o único a quem estas coisas acontecem? Porque é que mais ninguém fala disto?
O défice ou a felicidade?
Fazer diminuir o défice é, para os nossos políticos (não se arranja letra mais minúscula que esta?):
1º, o desejo de obedecer a uma ordem (e o que os portugueses gostam de quem manda sem consideração! E então se for de lá de fora, o fascínio é total!).
2º, uma finalidade fácil, em vez de ser um meio (e não mais do que isso) para atingir objectivos autenticamente humanos... eu sei, é mais difícil.
1º, o desejo de obedecer a uma ordem (e o que os portugueses gostam de quem manda sem consideração! E então se for de lá de fora, o fascínio é total!).
2º, uma finalidade fácil, em vez de ser um meio (e não mais do que isso) para atingir objectivos autenticamente humanos... eu sei, é mais difícil.
O início
A infelicidade de uma pessoa começa com a incapacidade de estar com o outro, sendo verdadeiramente ela própria.
Aprende-se esta incapacidade primeiro com a família e depois com os amigos.
Ainda não sei como se desaprende.
Sei que não é com a solidão. Ou, pelo menos, não é só com a solidão.
Aprende-se esta incapacidade primeiro com a família e depois com os amigos.
Ainda não sei como se desaprende.
Sei que não é com a solidão. Ou, pelo menos, não é só com a solidão.
Crise de ideais... ou asfixia?
"(...)Não são apenas os ideais, os sonhos, que estão a morrer - porque esses também nascem, crescem e morrem - mas é a própria arte de sonhar. É o acreditar como acto criador de valores que está em crise. E isso deve-se(...)" (Orfeu dos Santos em a Fonte do Horácio)
É com os outros que me confirmo como ser humano. Se, no espaço habitado por mim e por esses outros, o que conta é a acção e dentro desta o que interessa já nem é a sua eficácia mas sim o seu impacto, então podemos ter manifestações que juntam milhares de pessoas a gritar palavras de ódio e de estupidez, sejam elas quais forem.
(E os políticos, ao tratarem na prática com o mesmo desprezo acções que são diferentes, só estão a contribuir para que isso se acentue.)
Alguém dizia (Aldous Huxley?) que por detrás de acções estão ideias, e por detrás das ideias estão as palavras. Por isso é tão essencial para uma acção consequente a discussão de ideias. Não se trata de discussão no sentido de um duelo verbal que tem a finalidade de brilhar ou de derrotar o adversário. Trata-se sim de discutir para ajudar a esclarecer e a construir ideias consensualmente melhores. A acção deve vir depois.
Terão os nossos cidadãos, jovens, adultos ou idosos, já não digo um espaço (a escola?, a família?, perante o império do audiovisual?), mas um clima favorável à construção reflectida de ideias e de acções?
Para mim "É por isso que hoje..., já não há camaradas." (Orfeu dos Santos, idem)
É com os outros que me confirmo como ser humano. Se, no espaço habitado por mim e por esses outros, o que conta é a acção e dentro desta o que interessa já nem é a sua eficácia mas sim o seu impacto, então podemos ter manifestações que juntam milhares de pessoas a gritar palavras de ódio e de estupidez, sejam elas quais forem.
(E os políticos, ao tratarem na prática com o mesmo desprezo acções que são diferentes, só estão a contribuir para que isso se acentue.)
Alguém dizia (Aldous Huxley?) que por detrás de acções estão ideias, e por detrás das ideias estão as palavras. Por isso é tão essencial para uma acção consequente a discussão de ideias. Não se trata de discussão no sentido de um duelo verbal que tem a finalidade de brilhar ou de derrotar o adversário. Trata-se sim de discutir para ajudar a esclarecer e a construir ideias consensualmente melhores. A acção deve vir depois.
Terão os nossos cidadãos, jovens, adultos ou idosos, já não digo um espaço (a escola?, a família?, perante o império do audiovisual?), mas um clima favorável à construção reflectida de ideias e de acções?
Para mim "É por isso que hoje..., já não há camaradas." (Orfeu dos Santos, idem)
sexta-feira, junho 17, 2005
Trabalho voluntário
Chego ao fim de uma semana cheia de acontecimentos bons.
Hoje foi a festa de fim de ano (lectivo) do sítio onde faço trabalho voluntário, no âmbito do Projecto de Luta contra a Pobreza, na Associação Luís Pereira da Mota, na Quinta das Sapateiras em Loures. Não é nada de especialmente custoso, apenas uma tarde por semana a dar apoio aos miúdos nos estudos, no meu caso mais na Matemática.
Nunca falei de trabalho voluntário? Nem sei como, dado que desde os 14 anos (há 33 anos!...) que participo em acções de trabalho voluntário.
Dos 14 aos 31 anos gastei muitas das minhas férias a trabalhar gratuitamente em sítios recônditos de Portugal, através de uma organização chamada Companheiros Construtores sediada em Coimbra.
Trabalho físico duro (normalmente construção civil), comunidades de jovens vindos de toda a Europa, pessoas interessantíssimas, pois só gente diferente está disposta a trabalhar nas férias, sem receber um tostão e em lugares perdidos e afastados de quase toda a civilização. Experiências e pessoas únicas que ainda hoje recordo com uma profunda e dolorosa saudade.
Foi ali que tive a minha primeira paixão, uma italiana doce e boa, a Celi, que me deixou amá-la, à distância claro (eu tinha 14, ela 28 anos!), mas sem nunca me magoar nem deixando que eu me magoasse... uma sabedoria que nunca encontrei em ninguém, infelizmente nem em mim para a poder passar a outros.
Os campos de trabalho voluntário são a única saudade do passado verdadeiramente enraizada em mim. Nenhuma outra coisa me faz desejar tanto voltar atraz no tempo como estes campos (ah, a sua força e pureza!)...
Agora recordo o sorriso caloroso dos miúdos na festa, as suas brincadeiras a meterem-se comigo e embaraçando-me à frente de outros colegas voluntários, enfim laços que se criam e que eu, infelizmente mais uma vez, tenho muito menos sabedoria do que eles para os conseguir manter.
Hoje foi a festa de fim de ano (lectivo) do sítio onde faço trabalho voluntário, no âmbito do Projecto de Luta contra a Pobreza, na Associação Luís Pereira da Mota, na Quinta das Sapateiras em Loures. Não é nada de especialmente custoso, apenas uma tarde por semana a dar apoio aos miúdos nos estudos, no meu caso mais na Matemática.
Nunca falei de trabalho voluntário? Nem sei como, dado que desde os 14 anos (há 33 anos!...) que participo em acções de trabalho voluntário.
Dos 14 aos 31 anos gastei muitas das minhas férias a trabalhar gratuitamente em sítios recônditos de Portugal, através de uma organização chamada Companheiros Construtores sediada em Coimbra.
Trabalho físico duro (normalmente construção civil), comunidades de jovens vindos de toda a Europa, pessoas interessantíssimas, pois só gente diferente está disposta a trabalhar nas férias, sem receber um tostão e em lugares perdidos e afastados de quase toda a civilização. Experiências e pessoas únicas que ainda hoje recordo com uma profunda e dolorosa saudade.
Foi ali que tive a minha primeira paixão, uma italiana doce e boa, a Celi, que me deixou amá-la, à distância claro (eu tinha 14, ela 28 anos!), mas sem nunca me magoar nem deixando que eu me magoasse... uma sabedoria que nunca encontrei em ninguém, infelizmente nem em mim para a poder passar a outros.
Os campos de trabalho voluntário são a única saudade do passado verdadeiramente enraizada em mim. Nenhuma outra coisa me faz desejar tanto voltar atraz no tempo como estes campos (ah, a sua força e pureza!)...
Agora recordo o sorriso caloroso dos miúdos na festa, as suas brincadeiras a meterem-se comigo e embaraçando-me à frente de outros colegas voluntários, enfim laços que se criam e que eu, infelizmente mais uma vez, tenho muito menos sabedoria do que eles para os conseguir manter.
sexta-feira, junho 10, 2005
"Os ovários no sítio"
A propósito de se encontrar uma expressão alternativa a "os tomates no sítio" num post do Bruno com o mesmo título do meu (e que já era resposta a um post de Fernanda Câncio ), escrevi o seguinte comentário (que também leva em conta outros comentários):
Bruno, lembras-te do Ricardo Coração de Leão? Porque não o coração? Eu sei, já está conotado com outra coisa. Mas paremos um pouco.
Todas as anteriores expressões têm como quase (este quase é para antecipar as excepções) exclusiva referência à qualidade (des)humana da dureza e à quase (idem) ausência de sentimentos. Ora, o "coração" envolve muito mais a ideia da pessoa no seu todo do que os ovários, as mamas ou os tomates. Não tem uma conotação sexual tão explícita, podendo aplicar-se a homens e mulheres sem desprimor para ninguém. E tem a vantagem de não haver ninguém sem coração, logo ninguém fica diminuído.
"Aquele ou aquela tem o coração no sítio": bela expressão! Se não aparecerem outras propostas para reflexão, eu voto no coração!
Bruno, lembras-te do Ricardo Coração de Leão? Porque não o coração? Eu sei, já está conotado com outra coisa. Mas paremos um pouco.
Todas as anteriores expressões têm como quase (este quase é para antecipar as excepções) exclusiva referência à qualidade (des)humana da dureza e à quase (idem) ausência de sentimentos. Ora, o "coração" envolve muito mais a ideia da pessoa no seu todo do que os ovários, as mamas ou os tomates. Não tem uma conotação sexual tão explícita, podendo aplicar-se a homens e mulheres sem desprimor para ninguém. E tem a vantagem de não haver ninguém sem coração, logo ninguém fica diminuído.
"Aquele ou aquela tem o coração no sítio": bela expressão! Se não aparecerem outras propostas para reflexão, eu voto no coração!
O medo de existir (2)
(...) Mas não se constrói um "branco" (psíquico ou histórico), não se elimina o real e as forças que o produzem, sem que reapareçam aqui e ali, os mesmos ou outros estigmas que testemunham o que se quis apagar e que insiste em permanecer.
Quando o luto não vem inscrever no real a perda de um laço afectivo (de uma força), o morto e a morte virão assombrar os vivos sem descanso" (Potugal, hoje - o medo de existir, p. 16)
Comentário
Primeiro. Perante uma situação que me magoa, a tentação de optar por fingir ignorá-la, por fingir que ela não é importante, é grande. Mas se não procuro mudar a situação ela pode permanecer sem grandes alterações e por muito tempo. É então por muito tempo que ela não nos larga por mais que eu queira virar-lhe as costas.
Segundo. Uma maneira de esquecer, e de não ter portanto de actuar, é eu pensar que a situação não é tão má assim, que há-de acabar por passar (influência crescente das religiões orientais mais centradas no eu que no exterior?) ou pensar que a perda/morte ocorreu sem eu querer saber realmente se ela ocorreu mesmo. Mas o meu organismo "sabe", não se deixa enganar. A tentativa de esquecimento falha e há uma enorme tristeza ou cansaço que não me larga, como se as minhas sucessivas cobardias pesassem toneladas.
Terceiro. Se a perda ocorre realmente, então há que fazer um luto autêntico, senão essa perda nunca fica resolvida dentro de mim. É por isso que eu não posso nunca ser amigo de alguém que amo mas que não me ama (apesar da amizade estar incluída nesse amor, não consigo é separá-las): fazer-me de amigo, com autenticidade e não com segundas intenções, seria tentar apagar até a memória desse amor ferido... que nunca, mas mesmo nunca se apaga, por mais amores que eu tenha a sorte de viver. E sou mais humano vivendo com essa dor do que tentando viver amputado dessa mesma dor. E sou menos assombrado por ela, ou seja, ela surge-me sim mas de modo claro e sem se manifestar de forma distorcida e penalizante para mim, mas especialmente para os outros.
Quando o luto não vem inscrever no real a perda de um laço afectivo (de uma força), o morto e a morte virão assombrar os vivos sem descanso" (Potugal, hoje - o medo de existir, p. 16)
Comentário
Primeiro. Perante uma situação que me magoa, a tentação de optar por fingir ignorá-la, por fingir que ela não é importante, é grande. Mas se não procuro mudar a situação ela pode permanecer sem grandes alterações e por muito tempo. É então por muito tempo que ela não nos larga por mais que eu queira virar-lhe as costas.
Segundo. Uma maneira de esquecer, e de não ter portanto de actuar, é eu pensar que a situação não é tão má assim, que há-de acabar por passar (influência crescente das religiões orientais mais centradas no eu que no exterior?) ou pensar que a perda/morte ocorreu sem eu querer saber realmente se ela ocorreu mesmo. Mas o meu organismo "sabe", não se deixa enganar. A tentativa de esquecimento falha e há uma enorme tristeza ou cansaço que não me larga, como se as minhas sucessivas cobardias pesassem toneladas.
Terceiro. Se a perda ocorre realmente, então há que fazer um luto autêntico, senão essa perda nunca fica resolvida dentro de mim. É por isso que eu não posso nunca ser amigo de alguém que amo mas que não me ama (apesar da amizade estar incluída nesse amor, não consigo é separá-las): fazer-me de amigo, com autenticidade e não com segundas intenções, seria tentar apagar até a memória desse amor ferido... que nunca, mas mesmo nunca se apaga, por mais amores que eu tenha a sorte de viver. E sou mais humano vivendo com essa dor do que tentando viver amputado dessa mesma dor. E sou menos assombrado por ela, ou seja, ela surge-me sim mas de modo claro e sem se manifestar de forma distorcida e penalizante para mim, mas especialmente para os outros.
segunda-feira, junho 06, 2005
Ver o jogo
Não gosto muito de jogos porque neles há sempre pelo menos um derrotado. E a tristeza do derrotado para mim sobrepõe-se à alegria do vencedor.
Feita esta nota prévia, os meus desportos favoritos como espectáculo são:
- o rugby porque uma boa equipa tem de ter todos os tipos de atletas: altos e baixos, fortes e franzinos; além disso, é um jogo em que nunca se pode perder a cabeça porque tem de se fazer tudo ao contrário do que apetece: não se pode atirar a bola para a frente, chutar só depois dela bater no chão e ainda por cima não é redonda!
- o volleyball porque é um jogo visualmente elegante, principalmente jogado por mulheres, e há pouco contacto físico, ou seja poucas oportunidades de lixar o adversário com golpes baixos e brutais.
Feita esta nota prévia, os meus desportos favoritos como espectáculo são:
- o rugby porque uma boa equipa tem de ter todos os tipos de atletas: altos e baixos, fortes e franzinos; além disso, é um jogo em que nunca se pode perder a cabeça porque tem de se fazer tudo ao contrário do que apetece: não se pode atirar a bola para a frente, chutar só depois dela bater no chão e ainda por cima não é redonda!
- o volleyball porque é um jogo visualmente elegante, principalmente jogado por mulheres, e há pouco contacto físico, ou seja poucas oportunidades de lixar o adversário com golpes baixos e brutais.
domingo, junho 05, 2005
O medo de existir (1)
Já aqui uma vez disse que, no amor, sou como o Cristovão Colombo... só que sem a América!
Terá sido a coisa mais verdadeira que eu disse de mim mesmo? É que agora acho que não é só no amor, mas enfim...
Ocorre-me isto porque ando há muito tempo para falar deste livro:
Portugal, hoje - O medo de existir, de José Gil, ed Relógio d'Água.
Não o fiz ainda porque percebi que falar dele é falar de mim e das minhas facetas negativas - das minhas inexistentes Índias ou Américas.
Bom, mas José Gil foi criticado por dar um retrato exclusivamente negativo dos portugueses, ou seja, por de certa maneira não apresentar propostas positivas e construtivas.
Discordo desta crítica.
Primeiro porque, ao denunciar nos portugueses a tendência para seguirem os caminhos indicados por outros, JG foge coerentemente a prescrever caminhos.
Segundo porque as propostas, as pistas para sair da situação estão lá no livro, cada um que as descubra, as construa e as aplique. Foi o que fiz e irei de vez em quando dar conta desse meu trabalho. Note-se: a perspectiva em que me coloco é pessoal, não é política nem social.
p.14, "A resignação leva à impotência, a passividade à inércia e ao imobilismo (...)"
Comentário:
Só fico impotente quando me resigno e não me mexo: é uma impotência estéril que não muda nada. Pelo contrário, a impotência que é criativa vem de eu tentar, mesmo que não consiga. Digo criativa porque por este processo cresço e (re)crio-me.
Terá sido a coisa mais verdadeira que eu disse de mim mesmo? É que agora acho que não é só no amor, mas enfim...
Ocorre-me isto porque ando há muito tempo para falar deste livro:
Portugal, hoje - O medo de existir, de José Gil, ed Relógio d'Água.
Não o fiz ainda porque percebi que falar dele é falar de mim e das minhas facetas negativas - das minhas inexistentes Índias ou Américas.
Bom, mas José Gil foi criticado por dar um retrato exclusivamente negativo dos portugueses, ou seja, por de certa maneira não apresentar propostas positivas e construtivas.
Discordo desta crítica.
Primeiro porque, ao denunciar nos portugueses a tendência para seguirem os caminhos indicados por outros, JG foge coerentemente a prescrever caminhos.
Segundo porque as propostas, as pistas para sair da situação estão lá no livro, cada um que as descubra, as construa e as aplique. Foi o que fiz e irei de vez em quando dar conta desse meu trabalho. Note-se: a perspectiva em que me coloco é pessoal, não é política nem social.
p.14, "A resignação leva à impotência, a passividade à inércia e ao imobilismo (...)"
Comentário:
Só fico impotente quando me resigno e não me mexo: é uma impotência estéril que não muda nada. Pelo contrário, a impotência que é criativa vem de eu tentar, mesmo que não consiga. Digo criativa porque por este processo cresço e (re)crio-me.
Mulheres Afegãs
Graças ao Bruno do blog avatares de um desejo comprei um livro extraordinário:
A Voz Secreta das Mulheres Afegãs - o suicídio e o canto, de Sayd Bahodine Majrouh, ed. cavalo de ferro.
Tenho folheado ao acaso com medo do encantamento se desvanescer, por isso não posso dizer nada de consistente sobre ele... mas também, se calhar, depois de lê-lo, tudo o que eu disser ficará aquém do que este livro é.
Posso citar alguns dos poemas? A resposta já sei que é não, primeiro porque é impossível escolher, segundo porque vou retirar do contexto... mas não consigo resistir à tentação.
Se não sabias amar,
Porque despertaste o meu coração adormecido?
Vem e sê uma flor sobre o meu peito
Para que eu possa, cada manhã, refrescar-te com o meu riso
A Voz Secreta das Mulheres Afegãs - o suicídio e o canto, de Sayd Bahodine Majrouh, ed. cavalo de ferro.
Tenho folheado ao acaso com medo do encantamento se desvanescer, por isso não posso dizer nada de consistente sobre ele... mas também, se calhar, depois de lê-lo, tudo o que eu disser ficará aquém do que este livro é.
Posso citar alguns dos poemas? A resposta já sei que é não, primeiro porque é impossível escolher, segundo porque vou retirar do contexto... mas não consigo resistir à tentação.
Se não sabias amar,
Porque despertaste o meu coração adormecido?
Vem e sê uma flor sobre o meu peito
Para que eu possa, cada manhã, refrescar-te com o meu riso
sexta-feira, junho 03, 2005
A partilha da dor
Ah, eu também era muito assim, quando estava mal ninguém ficava a saber, desaparecia, mas agora isso não me parece que seja uma coisa boa. Por duas razões.
Primeiro porque constitui um (mau) exemplo que os outros seguem e que acaba por os deixar mais e mais sozinhos (às vezes, ao finalmente me ser dada a conhecer a sua dor, fico verdadeiramente assustado com a intensidade da sua solidão).
Segundo, porque, pelo menos numa perspectiva egoísta, acho que é muito mais com os outros que eu consigo fazer da dor um instrumento de transformação e crescimento interior.
De qualquer modo isto talvez não tenha muito a ver com a exposição pública num blog, estando eu de facto sozinho em frente a um computador. Aqui se calhar não se aplica o que para trás ficou dito.
Primeiro porque constitui um (mau) exemplo que os outros seguem e que acaba por os deixar mais e mais sozinhos (às vezes, ao finalmente me ser dada a conhecer a sua dor, fico verdadeiramente assustado com a intensidade da sua solidão).
Segundo, porque, pelo menos numa perspectiva egoísta, acho que é muito mais com os outros que eu consigo fazer da dor um instrumento de transformação e crescimento interior.
De qualquer modo isto talvez não tenha muito a ver com a exposição pública num blog, estando eu de facto sozinho em frente a um computador. Aqui se calhar não se aplica o que para trás ficou dito.
A dor no(s) blog(s)
A dor, não a dor física, mas a dor associada ao facto de existir (e de eu existir de forma desde sempre desastrada), é uma parte muito significativa da minha vida, tanto no tempo como na profundidade. No entanto, eu raramente a ponho aqui. E noutros blogs fazem o mesmo que eu. Porquê?
Há algo no sofrimento que seja um tanto obsceno aos olhos dos outros e daí que se evite mostrá-lo? E o que é que significa este adjectivo "obsceno" usado neste contexto?
Será que, ao me expor publicamente, sinto a obrigação estrita (como se se tratasse de um contrato assinado entre mim e os que me lêem) de divertir os outros?
Ou acredito que, por falar na minha dor, vou constituir um peso desagradável para esses outros e que, por baixo disto tudo, está o medo de ser abandonado, deixado de lado, sozinho?
Ou que gozem com a dor, a amesquinhem e a banalizem? Ou seja, tenho é medo que desprezem a minha fraqueza, a minha falta de inteligência?
Não sei, mas suspeito disto tudo.
Como é que eu reajo quando as pessoas me falam da(s) sua(s) dor(es)? Sinto-me muito constrangido? Às vezes sim, principalmente quando não sei como ajudar. Normalmente não, porque como tenho bastante experiência nesse domínio e nunca deixei de lutar contra essa fatalidade (espero que não o seja!), posso passar muita coisa que sei que resulta, ou então simplesmente compreendo e mostro que compreendo (porque realmente compreendo mesmo).
Em muitas dessas situações vejo que são a altura necessária de eu transmitir à pessoa dominada pela dor o quanto gosto dela, o quanto ela é importante para mim (tendo uma namorada ciumenta isto é muitas vezes um grande, grande problema!).
Bom, depois desta conversa toda, começo ou não a falar das minhas dores? Para já, não... Não? Mas neste post já falei, não foi? :)
Há algo no sofrimento que seja um tanto obsceno aos olhos dos outros e daí que se evite mostrá-lo? E o que é que significa este adjectivo "obsceno" usado neste contexto?
Será que, ao me expor publicamente, sinto a obrigação estrita (como se se tratasse de um contrato assinado entre mim e os que me lêem) de divertir os outros?
Ou acredito que, por falar na minha dor, vou constituir um peso desagradável para esses outros e que, por baixo disto tudo, está o medo de ser abandonado, deixado de lado, sozinho?
Ou que gozem com a dor, a amesquinhem e a banalizem? Ou seja, tenho é medo que desprezem a minha fraqueza, a minha falta de inteligência?
Não sei, mas suspeito disto tudo.
Como é que eu reajo quando as pessoas me falam da(s) sua(s) dor(es)? Sinto-me muito constrangido? Às vezes sim, principalmente quando não sei como ajudar. Normalmente não, porque como tenho bastante experiência nesse domínio e nunca deixei de lutar contra essa fatalidade (espero que não o seja!), posso passar muita coisa que sei que resulta, ou então simplesmente compreendo e mostro que compreendo (porque realmente compreendo mesmo).
Em muitas dessas situações vejo que são a altura necessária de eu transmitir à pessoa dominada pela dor o quanto gosto dela, o quanto ela é importante para mim (tendo uma namorada ciumenta isto é muitas vezes um grande, grande problema!).
Bom, depois desta conversa toda, começo ou não a falar das minhas dores? Para já, não... Não? Mas neste post já falei, não foi? :)
quarta-feira, junho 01, 2005
Dia Mundial da Criança
A verdadeira beleza tem, para cada um de nós, um rosto e um nome; e esses são os do(s) nosso(s) filho(s).
Carinhos e muitas felicidades para todos eles!
Só para lembrar:
Maltratar crianças de qualquer forma, até por simples negligência, é crime público. Quer isto dizer que nem é precisa uma queixa para iniciar um processo-crime. Quer isto dizer também que devemos todos denunciar às autoridades todos os casos de maus tratos a crianças de que tenhamos conhecimento.
Claro que as autoridades nem sempre actuam como devem. Ou os maus tratos agudizam-se quando a(s) pessoa(s) que maltratam sabem que foram expostas. Também não tenho uma resposta para isto. Só sei que ninguém deve ser maltratado, incluindo as crianças, principalmente as crianças (porque não conseguem defender-se).
Carinhos e muitas felicidades para todos eles!
Só para lembrar:
Maltratar crianças de qualquer forma, até por simples negligência, é crime público. Quer isto dizer que nem é precisa uma queixa para iniciar um processo-crime. Quer isto dizer também que devemos todos denunciar às autoridades todos os casos de maus tratos a crianças de que tenhamos conhecimento.
Claro que as autoridades nem sempre actuam como devem. Ou os maus tratos agudizam-se quando a(s) pessoa(s) que maltratam sabem que foram expostas. Também não tenho uma resposta para isto. Só sei que ninguém deve ser maltratado, incluindo as crianças, principalmente as crianças (porque não conseguem defender-se).
segunda-feira, maio 30, 2005
Alunos
Numa das minhas turmas existe desde o aluno que pergunta:
"Pedir desculpa? Para quê? O que é que se ganha com isso?"
até à aluna que escreve o seguinte poema matemático:
"Senhor rectângulo, pensei um dia
que nunca mais o decifraria.
Rosto tão longo
e voz tão sombria."
Gostaria de ter um comentário inteligente acerca disto, mas não tenho.
"Pedir desculpa? Para quê? O que é que se ganha com isso?"
até à aluna que escreve o seguinte poema matemático:
"Senhor rectângulo, pensei um dia
que nunca mais o decifraria.
Rosto tão longo
e voz tão sombria."
Gostaria de ter um comentário inteligente acerca disto, mas não tenho.
domingo, maio 29, 2005
Gandhi
Retorno sempre a ele.
Creio já ter dito que ele é o único ser humano a quem eu concedo o estatuto de herói.
Gandhi constrói uma ponte única entre Buda e Cristo. De Buda, a reflexão, o estudo e a decisão consciente para agir com sabedoria e alcançar estados de consciência mais elevados. De Cristo, o combate contra a injustiça, a defesa dos mais fracos, uma atitude perante os outros absolutamente original e plena de amor.
A busca da verdade implica necessariamente a não violência e o amor.
A violência perturba o corpo e os sentidos, tornando impossível uma procura objectiva da verdade. E destrói o amor.
O amor é condição, que pode não ser suficiente, mas é absolutamente necessária para compreender os outros, o mundo, a vida, ou seja para nos aproximarmos da verdade.
Entenda-se a não violência, não como uma atitude passiva de simples evitamento de atitudes agressivas, mas como uma postura activa de nunca desistir de lutar pelo que consideramos justo, só que com métodos não violentos.
Creio que foi Einstein que disse que um dia iríamos perguntar-nos como é pôde alguma vez existir uma pessoa assim. Suspeito mais que o esquecimento e o menosprezo irão acabar por pôr de lado tudo o que a Gandhi se refere.
Creio já ter dito que ele é o único ser humano a quem eu concedo o estatuto de herói.
Gandhi constrói uma ponte única entre Buda e Cristo. De Buda, a reflexão, o estudo e a decisão consciente para agir com sabedoria e alcançar estados de consciência mais elevados. De Cristo, o combate contra a injustiça, a defesa dos mais fracos, uma atitude perante os outros absolutamente original e plena de amor.
A busca da verdade implica necessariamente a não violência e o amor.
A violência perturba o corpo e os sentidos, tornando impossível uma procura objectiva da verdade. E destrói o amor.
O amor é condição, que pode não ser suficiente, mas é absolutamente necessária para compreender os outros, o mundo, a vida, ou seja para nos aproximarmos da verdade.
Entenda-se a não violência, não como uma atitude passiva de simples evitamento de atitudes agressivas, mas como uma postura activa de nunca desistir de lutar pelo que consideramos justo, só que com métodos não violentos.
Creio que foi Einstein que disse que um dia iríamos perguntar-nos como é pôde alguma vez existir uma pessoa assim. Suspeito mais que o esquecimento e o menosprezo irão acabar por pôr de lado tudo o que a Gandhi se refere.
De volta!
Há muito tempo que aqui não venho.
Nenhuma ideia interessante, nenhum livro inesquecível, nada para dizer.
Acrescido a isto diversas anomalias físicas e psíquicas: insónias terríveis, distúrbios alimentares, alergias diversas, oscilações pronunciadas de humor.
Ontem fui ao meu médico, um médico muito especial. Disse-me:
Nós somos corpo e mente. Às vezes não conseguimos estar bem de espírito porque o mau funcionamento do corpo afecta a mente. Outras vezes é a mente que, por estar mal, gera diversas afecções no corpo. Segundo ele, enquadro-me nesta última situação (há um ano atrás estive na outra, tomei medicamentos e foi-me oferecida a oportunidade de uma nova vida). Receitou-me um programa de exercícios de respiração e de meditação, e lançou-me o desafio: fazer este programa duas vezes por dia durante 15 dias e depois voltar lá. Ele garantiu-me que eu não precisaria de voltar.
Vim para casa, tive mais um distúrbio alimentar e senti-me miserável. Mas antes de me deitar fiz a meditação. E dormi 9 horas seguidas!
E hoje? Hoje fiz o programa de manhã e à hora do almoço. Tive um distúrbio alimentar, mas consegui trabalhar: limpar a casa de banho e a cozinha, passar a ferro e arrumar quartos, coisas que já não fazia há uns tempos. Vamos ver.
Entretanto, vejo que o meu último post tem 8 comentários, um recorde que me deixa sem jeito. Aqui fica o meu agradecimento, companheiros da web!
Nenhuma ideia interessante, nenhum livro inesquecível, nada para dizer.
Acrescido a isto diversas anomalias físicas e psíquicas: insónias terríveis, distúrbios alimentares, alergias diversas, oscilações pronunciadas de humor.
Ontem fui ao meu médico, um médico muito especial. Disse-me:
Nós somos corpo e mente. Às vezes não conseguimos estar bem de espírito porque o mau funcionamento do corpo afecta a mente. Outras vezes é a mente que, por estar mal, gera diversas afecções no corpo. Segundo ele, enquadro-me nesta última situação (há um ano atrás estive na outra, tomei medicamentos e foi-me oferecida a oportunidade de uma nova vida). Receitou-me um programa de exercícios de respiração e de meditação, e lançou-me o desafio: fazer este programa duas vezes por dia durante 15 dias e depois voltar lá. Ele garantiu-me que eu não precisaria de voltar.
Vim para casa, tive mais um distúrbio alimentar e senti-me miserável. Mas antes de me deitar fiz a meditação. E dormi 9 horas seguidas!
E hoje? Hoje fiz o programa de manhã e à hora do almoço. Tive um distúrbio alimentar, mas consegui trabalhar: limpar a casa de banho e a cozinha, passar a ferro e arrumar quartos, coisas que já não fazia há uns tempos. Vamos ver.
Entretanto, vejo que o meu último post tem 8 comentários, um recorde que me deixa sem jeito. Aqui fica o meu agradecimento, companheiros da web!
domingo, maio 08, 2005
Política
Já repararam que eu nunca falo de política?
Enquanto fazia a barba estava a recordar-me de uma anedota lida há uns dias atrás na Reader's Digest e sentia que esta explicava, esclarecia qualquer coisa de mim mas não sabia o quê. E então percebi. A anedota primeiro:
"Dois bêbados caminham ao longo da linha de caminho de ferro. Passados alguns quilómetros, um deles diz, "Estes degraus estão a matar-me."
"Não são os degraus o maior problema", responde o companheiro."São os corrimões que estão muito baixos."" (Reader's Digest, September 2004, nº 989)
Bom, oiço os políticos, leio o que eles dizem e sinto que estão tão ao lado das coisas como estes dois. Ou estarei eu? Não sei realmente, sei é que o seu mundo e o mundo de que falam está cada vez mais distante do meu, para mim é um mundo que vai perdendo sentido e significado, que pouco me diz e do qual vou tendo cada vez menos para dizer.
(Como uma ave agoirenta, paira no meu espírito aquela frase que lamento não me lembrar de quem é: enquanto tu não te ocupas da política, a política ocupa-se de ti...)
Enquanto fazia a barba estava a recordar-me de uma anedota lida há uns dias atrás na Reader's Digest e sentia que esta explicava, esclarecia qualquer coisa de mim mas não sabia o quê. E então percebi. A anedota primeiro:
"Dois bêbados caminham ao longo da linha de caminho de ferro. Passados alguns quilómetros, um deles diz, "Estes degraus estão a matar-me."
"Não são os degraus o maior problema", responde o companheiro."São os corrimões que estão muito baixos."" (Reader's Digest, September 2004, nº 989)
Bom, oiço os políticos, leio o que eles dizem e sinto que estão tão ao lado das coisas como estes dois. Ou estarei eu? Não sei realmente, sei é que o seu mundo e o mundo de que falam está cada vez mais distante do meu, para mim é um mundo que vai perdendo sentido e significado, que pouco me diz e do qual vou tendo cada vez menos para dizer.
(Como uma ave agoirenta, paira no meu espírito aquela frase que lamento não me lembrar de quem é: enquanto tu não te ocupas da política, a política ocupa-se de ti...)
sábado, maio 07, 2005
Este conselho num blog...
Não resisto. Aqui fica, para os que não leram o JL (nº 901), um conselho árabe citado por Fernando Campos:
"Nunca fales de ti.
Se disseres bem, ninguém te acredita.
Se disseres mal, acreditarão em mais do que possas dizer."
"Nunca fales de ti.
Se disseres bem, ninguém te acredita.
Se disseres mal, acreditarão em mais do que possas dizer."
Praxes (2)
Ter-me-ei excedido no post anterior? Principalmente no uso das palavras "nazi" e "escória"? Não tenho a certeza, mas penso que não, se considerarmos que esta realidade retratada por essas palavras não é a situação acabada que elas podem representar mas é já um seu embrião .
Sou contra todo o tipo de praxes. Porque são, na sua esmagadora maioria, um veículo para a execução de actos brutais e/ou humilhantes sobre pessoas que pouca defesa têm face à barbárie. Não foi por acaso que o 25 de Abril acabou com elas na altura.
Sou contra, como sou contra que se maltrate crianças. Até pode ser benéfica para a criança uma palmada (como sabem não concordo, mas não vou discuti-lo aqui outra vez); mas há a hipótese de abusos? Há. Logo é proibido por lei aos professores, pais, familiares, etc, maltratá-las seja de que modo for e em que circunstâncias for.
A mesma coisa devia servir para as praxes.
Sou contra todo o tipo de praxes. Porque são, na sua esmagadora maioria, um veículo para a execução de actos brutais e/ou humilhantes sobre pessoas que pouca defesa têm face à barbárie. Não foi por acaso que o 25 de Abril acabou com elas na altura.
Sou contra, como sou contra que se maltrate crianças. Até pode ser benéfica para a criança uma palmada (como sabem não concordo, mas não vou discuti-lo aqui outra vez); mas há a hipótese de abusos? Há. Logo é proibido por lei aos professores, pais, familiares, etc, maltratá-las seja de que modo for e em que circunstâncias for.
A mesma coisa devia servir para as praxes.
terça-feira, maio 03, 2005
Praxes académicas... nazis? Sim!
Uma amiga minha foi ao Porto assistir à Queima das Fitas. As cerimónias públicas metiam uma praxe académica que consistia em dar bengaladas nos desgraçados dos estudantes. O material que os carrascos (parece que lá os chamam de veteranos) usavam era transportado não pelos próprios mas por estudantes a que chamavam de escravos(as)... Note-se: o sobrinho dessa minha amiga teve que receber tratamento médico por ter ficado com a cabeça esfolada e inchada.
Algumas considerações:
Primeira: aos que se espantam com o surgimento do nazismo na Alemanha eu aconselho a irem assistir a praxes académicas, ou a ouvirem quem foi vítima delas, para perceberem que o nazismo como atitude está em todo o lado!
A segunda é uma pergunta: em que é que estas praxes, mesmo as mais soft e consideradas muito “divertidas”, contribuem para dignificar a pessoa humana? (Esta pergunta é retórica: não tentem sequer explicar-me!)
Finalmente: as bengaladas foram dadas na presença e com o assentimento de professores da universidade (parece que o senado da dita aprovou esta violência). Nenhum teve a coragem de se levantar e dizer basta. Nenhum teve a humanidade de defender os seus alunos da barbárie. Nenhum pode ser olhado, chamado e considerado como professor. Na verdade eu tenho vergonha de, por ser professor, poder ser confundido com esta escória!
Algumas considerações:
Primeira: aos que se espantam com o surgimento do nazismo na Alemanha eu aconselho a irem assistir a praxes académicas, ou a ouvirem quem foi vítima delas, para perceberem que o nazismo como atitude está em todo o lado!
A segunda é uma pergunta: em que é que estas praxes, mesmo as mais soft e consideradas muito “divertidas”, contribuem para dignificar a pessoa humana? (Esta pergunta é retórica: não tentem sequer explicar-me!)
Finalmente: as bengaladas foram dadas na presença e com o assentimento de professores da universidade (parece que o senado da dita aprovou esta violência). Nenhum teve a coragem de se levantar e dizer basta. Nenhum teve a humanidade de defender os seus alunos da barbárie. Nenhum pode ser olhado, chamado e considerado como professor. Na verdade eu tenho vergonha de, por ser professor, poder ser confundido com esta escória!
quarta-feira, abril 27, 2005
Feira do Livro na Gulbenkian
Desde ontem até dia 6 de Maio (se não me engano), das 12h às 22h, estão na Gulbenkian (edifício principal) numa feira do livro todas as suas edições.
Para professores e estudantes os preços são substancialmente mais baixos.
Comprei "Cartas a Lucílio" de Séneca.
Para professores e estudantes os preços são substancialmente mais baixos.
Comprei "Cartas a Lucílio" de Séneca.
sábado, abril 23, 2005
R.E.M. and lyrics
Não páro de ouvir Electron Blue dos REM. Não sei o que Michael diz.
Quase nunca sei o que as letras das canções dizem. Apanho aqui e ali uma palavra e não quero saber de mais, pelo menos enquanto a canção abala todo o meu ser, como esta agora. Assim, a canção ocupa todo um espaço de sonho e de expansão sem limites e não me desilude. Porque as canções são quase sempre muito maiores que as respectivas letras.
Nunca me hei-de esquecer da imensa desilusão que tive ao saber do que tratavam algumas das áreas de D.Giovanni: como é que algo que apontava para dimensões trágicas e míticas da existência (era o que eu sentia ao ouvir) podia ter letras tão fúteis?
Deste modo só me interesso logo pelas letras de cantores que não me desiludem. E nestas condições, na verdade só me lembro de um: Leonard Cohen.
Quase nunca sei o que as letras das canções dizem. Apanho aqui e ali uma palavra e não quero saber de mais, pelo menos enquanto a canção abala todo o meu ser, como esta agora. Assim, a canção ocupa todo um espaço de sonho e de expansão sem limites e não me desilude. Porque as canções são quase sempre muito maiores que as respectivas letras.
Nunca me hei-de esquecer da imensa desilusão que tive ao saber do que tratavam algumas das áreas de D.Giovanni: como é que algo que apontava para dimensões trágicas e míticas da existência (era o que eu sentia ao ouvir) podia ter letras tão fúteis?
Deste modo só me interesso logo pelas letras de cantores que não me desiludem. E nestas condições, na verdade só me lembro de um: Leonard Cohen.
Hoje é o Dia Mundial do Livro
Vou comemorá-lo passando para aqui um belíssimo poema de Rainer Maria Rilke a Lou Andreas-Salomé:
II
Como um lenço ante o hálito acumulado,
não: como se aperta contra uma ferida
da qual a vida toda, num só jorro,
quer sair, assim te apertei a mim: vi
que te avermelhavas de mim. Quem é que exprime
o que aconteceu? Recuperámos tudo
para que não houvera tempo. Amadurei estranhamente
em cada impulso de juventude não-vivida,
e tu, amada, tiveste uma qualquer
ferocíssima infância sobre o meu coração.
(Paulo Quintela, Obras Completas, III, Traduções II, Fundação Calouste Gulbenkian, 1998, p. 247)
II
Como um lenço ante o hálito acumulado,
não: como se aperta contra uma ferida
da qual a vida toda, num só jorro,
quer sair, assim te apertei a mim: vi
que te avermelhavas de mim. Quem é que exprime
o que aconteceu? Recuperámos tudo
para que não houvera tempo. Amadurei estranhamente
em cada impulso de juventude não-vivida,
e tu, amada, tiveste uma qualquer
ferocíssima infância sobre o meu coração.
(Paulo Quintela, Obras Completas, III, Traduções II, Fundação Calouste Gulbenkian, 1998, p. 247)
sexta-feira, abril 22, 2005
Dia Mundial do Livro
A propósito de amanhã ser o Dia Mundial do Livro, no Amor e Ócio pedem-nos para sugerir um livro que tenhamos gostado de ler. Lá o fiz. Mas é uma tarefa dificílima, principalmente para quem já leu uns milhares deles. Mais fácil é falar de autores e aqui estão os "meus": Vergílio Ferreira, Arno Gruen, António Ramos Rosa, António Alçada Baptista, Karen Blixen, Mia Couto, Luís Sepúlveda, Lawrence Durrell, Erri De Luca, Eduardo Prado Coelho, Christa Wolf, Ray Bradbury, James Herriot,...
Mas se eu tivesse que escolher qual o livro que imprimiu a marca mais profunda na minha vida não teria dúvidas em apontar "A Loucura da Normalidade" de Arno Gruen, Assírio e Alvim.
E o livro que mais amei? Também sem dúvidas: "Cântico Final" de Vergílio Ferreira, Bertrand.
E o primeiro livro que me despertou para a literatura? Lembro-me perfeitamente: "De Profundis" de Oscar Wilde.
E páro por aqui, embora me apetecesse falar infinitamente dos livros que infinitamente habitaram o meu espírito durante quase toda a minha vida. Nem é para não chatear, é simplesmente porque me faltam as palavras onde sobra a emoção. E, portanto, para não ser injusto.
Mas se eu tivesse que escolher qual o livro que imprimiu a marca mais profunda na minha vida não teria dúvidas em apontar "A Loucura da Normalidade" de Arno Gruen, Assírio e Alvim.
E o livro que mais amei? Também sem dúvidas: "Cântico Final" de Vergílio Ferreira, Bertrand.
E o primeiro livro que me despertou para a literatura? Lembro-me perfeitamente: "De Profundis" de Oscar Wilde.
E páro por aqui, embora me apetecesse falar infinitamente dos livros que infinitamente habitaram o meu espírito durante quase toda a minha vida. Nem é para não chatear, é simplesmente porque me faltam as palavras onde sobra a emoção. E, portanto, para não ser injusto.
domingo, abril 10, 2005
O Tecido do Outono e António Alçada Baptista
Um escritor pode modificar a maneira de olhar para a vida de um leitor? Ou pode mesmo provocar alterações na vida desse leitor dado que este passa a fazer novas opções depois de ler um livro seu? A resposta é definitivamente sim a ambas as perguntas. E o livro é:
"O Tecido do Outono" de António Alçada Baptista, Editorial Presença.
Do amor, do casamento, da liberdade, da plenitude de corpos e de almas, da procura disto tudo e de paz, da idade e de tanta coisa mais!!... Um livro verdadeiramente extraordinário! É um livro tão gigantesco, embora com apenas 183 páginas de letra grande, que tenho dificuldade em dizer mais. Para além de que é um livro tão revolucionário que vou ser obrigado a fazer mais releituras para que surta efeito sobre a minha vida, para integrar em mim o que ali é novo e ao qual, escusado é dizer, tudo em mim diz sim, sim. Uma das epígrafes felizes deste livro é de São João Evangelista: Aquilo que somos, ainda não aconteceu. Todo este livro é um hino a encorajar-nos. Por favor não deixem de o ler.
"O Tecido do Outono" de António Alçada Baptista, Editorial Presença.
Do amor, do casamento, da liberdade, da plenitude de corpos e de almas, da procura disto tudo e de paz, da idade e de tanta coisa mais!!... Um livro verdadeiramente extraordinário! É um livro tão gigantesco, embora com apenas 183 páginas de letra grande, que tenho dificuldade em dizer mais. Para além de que é um livro tão revolucionário que vou ser obrigado a fazer mais releituras para que surta efeito sobre a minha vida, para integrar em mim o que ali é novo e ao qual, escusado é dizer, tudo em mim diz sim, sim. Uma das epígrafes felizes deste livro é de São João Evangelista: Aquilo que somos, ainda não aconteceu. Todo este livro é um hino a encorajar-nos. Por favor não deixem de o ler.
Há tanto tempo que eu aqui não vinha! Por razão nenhuma especial: apenas porque não tenho absolutamente nada para dizer, há uma lassidão de espírito que adormecu a minha verve criativa.
Mas agora quero deixar aqui qualquer coisa de jeito! E de que falamos quando nada temos para dizer? Do que outros falaram ou fizeram, claro! É sobre isso que hoje vou aqui escrever: do que outros disseram, ou mais exactamente, escreveram.
"Greguerías", de Ramón Gómez de la Serna, Assírio & Alvim:
Segundo o autor a "greguería = humor + metáfora"; é portanto algo difícil de dizer o que é... mas é brilhante, atinge-nos de e por onde menos esperamos. Aqui vão duas para aguçar o apetite:
"Onde o tempo e a poeira mais se unem é nas bibliotecas." (p.15)
"No primeiro eléctrico da manhã ainda há sonhos do dia anterior." (p.49) Apetece-me continuar:
"Na noite gelada cicatrizam todos os charcos."(p.59)
Não tenho razão? Portanto, comprem o livro!
"Pai (uma antologia literária)", 101 noites:
Sim, prenda do 19 de Março! Normalmente não consigo aderir a antologias. Para mim é uma espécie de zapping em que no fim acaba por pouco ficar. Não foi diferente desta vez: divertiu-me medianamente, mas deixou um rasto pouco duradouro.
"A Chuva Pasmada", Mia Couto, Caminho:
Dói sempre ler Mia Couto, mas dói de prazer, prazer para a inteligência e prazer para a sensibilidade. Mais um livro construído em variações à volta da tristeza e da alegria, nunca se sabendo onde acaba uma e começa a outra. Conta a história de pessoas que a meio do livro já não sabemos se somos nós ou não. Vejamos:
"Eu já sabia: a única história com final feliz é aquela que não tem fim." (p.37)
Nada há a acrescentar, apenas que leiam.
"O mar por cima", Possidónio Cachapa, Oficina do Livro:
Não é a maturidade de um autor, mas é alguém que escreve com aquilo que nós sentimos. Começa em vários lugares, mas depois percebemos que são vários tempos que acabam por se (des)encontrar numa história de amor triste. Gostei muito de ler.
"A Razão do Azul", Eduardo Prado Coelho, edições Quasi:
EPC é o escritor que eu conheço que de longe melhor pensa o lado mais luminoso do que sentimos. É sempre um fascínio ler um livro seu. Este é constituído por pequenos ensaios que brilham até ao insuportável dentro de nós. Um exemplo menor (porque vou cometer um crime que é retirar algumas frases do contexto):
"(...)Porque cada livro é sempre a promessa de uma palavra definitiva - não a última, mas a primeira. (...)" (p.19)
A primeira a partir da qual não há outra possibilidade senão ser-se feliz! E este livro é bem mais do que uma simples promessa, garanto-vos!
Bom, agora vou almoçar. É que o próximo livro de que ia falar encheu-me de tal modo que eu ainda nem sei bem o que vou dizer; por isso faço aqui uma pausa.
Mas agora quero deixar aqui qualquer coisa de jeito! E de que falamos quando nada temos para dizer? Do que outros falaram ou fizeram, claro! É sobre isso que hoje vou aqui escrever: do que outros disseram, ou mais exactamente, escreveram.
"Greguerías", de Ramón Gómez de la Serna, Assírio & Alvim:
Segundo o autor a "greguería = humor + metáfora"; é portanto algo difícil de dizer o que é... mas é brilhante, atinge-nos de e por onde menos esperamos. Aqui vão duas para aguçar o apetite:
"Onde o tempo e a poeira mais se unem é nas bibliotecas." (p.15)
"No primeiro eléctrico da manhã ainda há sonhos do dia anterior." (p.49) Apetece-me continuar:
"Na noite gelada cicatrizam todos os charcos."(p.59)
Não tenho razão? Portanto, comprem o livro!
"Pai (uma antologia literária)", 101 noites:
Sim, prenda do 19 de Março! Normalmente não consigo aderir a antologias. Para mim é uma espécie de zapping em que no fim acaba por pouco ficar. Não foi diferente desta vez: divertiu-me medianamente, mas deixou um rasto pouco duradouro.
"A Chuva Pasmada", Mia Couto, Caminho:
Dói sempre ler Mia Couto, mas dói de prazer, prazer para a inteligência e prazer para a sensibilidade. Mais um livro construído em variações à volta da tristeza e da alegria, nunca se sabendo onde acaba uma e começa a outra. Conta a história de pessoas que a meio do livro já não sabemos se somos nós ou não. Vejamos:
"Eu já sabia: a única história com final feliz é aquela que não tem fim." (p.37)
Nada há a acrescentar, apenas que leiam.
"O mar por cima", Possidónio Cachapa, Oficina do Livro:
Não é a maturidade de um autor, mas é alguém que escreve com aquilo que nós sentimos. Começa em vários lugares, mas depois percebemos que são vários tempos que acabam por se (des)encontrar numa história de amor triste. Gostei muito de ler.
"A Razão do Azul", Eduardo Prado Coelho, edições Quasi:
EPC é o escritor que eu conheço que de longe melhor pensa o lado mais luminoso do que sentimos. É sempre um fascínio ler um livro seu. Este é constituído por pequenos ensaios que brilham até ao insuportável dentro de nós. Um exemplo menor (porque vou cometer um crime que é retirar algumas frases do contexto):
"(...)Porque cada livro é sempre a promessa de uma palavra definitiva - não a última, mas a primeira. (...)" (p.19)
A primeira a partir da qual não há outra possibilidade senão ser-se feliz! E este livro é bem mais do que uma simples promessa, garanto-vos!
Bom, agora vou almoçar. É que o próximo livro de que ia falar encheu-me de tal modo que eu ainda nem sei bem o que vou dizer; por isso faço aqui uma pausa.
domingo, março 20, 2005
Obrigado, Crazy Jo!
Crazy Blog Spot está mesmo bonito, gosto mesmo de lá ir, luminoso e colorido como o seu sorriso, como o é a vida!
"Mais vale convencer..."
Ando há que tempos para pôr aqui esta frase que penso ser de Gandhi:
"Mais vale convencer do que vencer.
Porque, quando vencemos, arranjamos um inimigo.
Quando convencemos, conseguimos um aliado."
Brilhante, não é? Penso que ninguém discordará. A não ser depois em dois aspectos:
O que é mais fácil? Vencer ou convencer? (Porque mais rápido parece ser o vencer, embora mais eficaz pareça ser o convencer - como se comprova na sala de aula...)
Os meios usados e as consequências que surgem quando se opta pelo vencer justificam ou não os fins que se pretendem atingir? (Sim, estamos todos a pensar no Iraque e nos milhares e milhares de mortos, e também nas ditaduras sejam de esquerda ou de direita...)
"Mais vale convencer do que vencer.
Porque, quando vencemos, arranjamos um inimigo.
Quando convencemos, conseguimos um aliado."
Brilhante, não é? Penso que ninguém discordará. A não ser depois em dois aspectos:
O que é mais fácil? Vencer ou convencer? (Porque mais rápido parece ser o vencer, embora mais eficaz pareça ser o convencer - como se comprova na sala de aula...)
Os meios usados e as consequências que surgem quando se opta pelo vencer justificam ou não os fins que se pretendem atingir? (Sim, estamos todos a pensar no Iraque e nos milhares e milhares de mortos, e também nas ditaduras sejam de esquerda ou de direita...)
Dia Internacional da Mulher
A acabar o período das avaliações e estou de volta. Com atraso, porque queria muito escrever no Dia Internacional da Mulher. Não consegui, mas vou passar para escrito (condensado) o que procurei transmitir aos meus alunos.
"O Dia Internacional da Mulher existe e é terrivelmente necessário que exista para lembrar às pessoas que há infinitamente mais mulheres que homens :
- a serem vítimas de violência doméstica e de violência social (exemplo desta? A mutilação genital feminina). Nota: sobre o tema mais geral da violência sobre todas as pessoas, não apenas sobre as mulheres, recomendo o site português Violencia.online;
- a serem vítimas de tráfico e de exploração da prostituição;
- a serem impedidas de ter acesso a iguais direitos no campo do emprego (e infelizmente também no campo da educação): por exemplo nos direitos a iguais oportunidades a obter emprego e a receber remuneração idêntica;
- a serem penalizadas (até ao despedimento) pelo nascimento de filhos;
- a serem impedidas de acederem a cargos públicos, políticos, ou impedidas até de simplesmente votarem;
- a serem submetidas a disposições penais mais pesadas;
- a quem não são concedidas, em questões civis, nem capacidades legais idênticas, nem oportunidades idênticas de as exercerem;
- a quem não são garantidos os mesmos direitos e responsabilidades em matéria de casamento e relações familiares;
- a quem não é garantido um igual tratamento perante a lei."
(Baseado no site A Mulher no Direito Internacional)
Pergunta final dirigida a um aluno que brincava com isto: "Nas coisas da casa, quem trabalha mais, tu ou a tua irmã?" Resposta acompanhada de um encolher de ombros: "Claro que a minha irmã!"
Ora aqui há muito que pode ser feito por todos nós em nossas casas!
"O Dia Internacional da Mulher existe e é terrivelmente necessário que exista para lembrar às pessoas que há infinitamente mais mulheres que homens :
- a serem vítimas de violência doméstica e de violência social (exemplo desta? A mutilação genital feminina). Nota: sobre o tema mais geral da violência sobre todas as pessoas, não apenas sobre as mulheres, recomendo o site português Violencia.online;
- a serem vítimas de tráfico e de exploração da prostituição;
- a serem impedidas de ter acesso a iguais direitos no campo do emprego (e infelizmente também no campo da educação): por exemplo nos direitos a iguais oportunidades a obter emprego e a receber remuneração idêntica;
- a serem penalizadas (até ao despedimento) pelo nascimento de filhos;
- a serem impedidas de acederem a cargos públicos, políticos, ou impedidas até de simplesmente votarem;
- a serem submetidas a disposições penais mais pesadas;
- a quem não são concedidas, em questões civis, nem capacidades legais idênticas, nem oportunidades idênticas de as exercerem;
- a quem não são garantidos os mesmos direitos e responsabilidades em matéria de casamento e relações familiares;
- a quem não é garantido um igual tratamento perante a lei."
(Baseado no site A Mulher no Direito Internacional)
Pergunta final dirigida a um aluno que brincava com isto: "Nas coisas da casa, quem trabalha mais, tu ou a tua irmã?" Resposta acompanhada de um encolher de ombros: "Claro que a minha irmã!"
Ora aqui há muito que pode ser feito por todos nós em nossas casas!
sábado, março 05, 2005
Corrigir testes (de matemática)!
Sobra muito pouca poesia durante e depois desta tarefa (a propósito, estou a escrever isto antes). É a tarefa escolar mais cilindradora que existe, esmaga a inteligência e a sensibilidade de qualquer professor normal.
Mas tudo o que tem a ver com os testes é repulsivo. Fazer o teste que, sabemo-lo, vai ser fonte de sofrimento e angústia para um número significativo de alunos. Dá-los para os alunos o realizarem enquanto se se é obrigado a fazer o papel de polícia, porque a única alternativa é fazer o papel de parvo (dos dois... bem, eu opto por fazer um bocadinho de cada).
E finalmente corrigi-los! E um dia lindo lá fora! Oh Deus, que tarefa longa, chata e mortífera (como a espada do D. Afonso Henriques!...)! Tchau, cá vou...
Mas tudo o que tem a ver com os testes é repulsivo. Fazer o teste que, sabemo-lo, vai ser fonte de sofrimento e angústia para um número significativo de alunos. Dá-los para os alunos o realizarem enquanto se se é obrigado a fazer o papel de polícia, porque a única alternativa é fazer o papel de parvo (dos dois... bem, eu opto por fazer um bocadinho de cada).
E finalmente corrigi-los! E um dia lindo lá fora! Oh Deus, que tarefa longa, chata e mortífera (como a espada do D. Afonso Henriques!...)! Tchau, cá vou...
domingo, fevereiro 27, 2005
O meio do dia
O meio do dia, as nuvens que poderiam pressagiar desgraças se não corressem tão rapidamente em direcção ao mar, deixando para trás olhos molhados de gaivotas que não partem.
As vozes que me aprisionam, um coração dentro do peito e dorido porque não voa apesar de eu perguntar, perguntar tanto.
A pedra na minha mão, histórias de naufrágios, olhos cansados, o telemóvel vazio, sem luz.
Deitado de encontro à memória triste da violência, esgravato o meu futuro próximo de onde caem pequenas bagas de sabor acre, sonhos de outras maçãs doces realmente nunca comidas mas que chamam por mim quando volto a cara para o céu e para o vento de cabelos sem dona. De onde se desprende um gesto salgado pelo medo e um som de pressentida ternura.
As vozes que me aprisionam, um coração dentro do peito e dorido porque não voa apesar de eu perguntar, perguntar tanto.
A pedra na minha mão, histórias de naufrágios, olhos cansados, o telemóvel vazio, sem luz.
Deitado de encontro à memória triste da violência, esgravato o meu futuro próximo de onde caem pequenas bagas de sabor acre, sonhos de outras maçãs doces realmente nunca comidas mas que chamam por mim quando volto a cara para o céu e para o vento de cabelos sem dona. De onde se desprende um gesto salgado pelo medo e um som de pressentida ternura.
Amor(es)
Não vos faz confusão que, para cada pessoa, seja tão difícil definirmos o que sentimos por ela?
Esta faz-nos sentir melhores do que somos quando estamos ao pé dela, mas longe dela com facilidade a esquecemos.
Por aquela sentimos ternura e desejo, mas nem pensar numa vida a dois.
Aqueloutra faz-nos sentir verdadeiramente apaixonados, sofremos quando estamos afastados, mas é uma paixão de que o desejo está completamente ausente.
Bom, e eu diria que as variações não têm fim, isto apenas no domínio do amor. Mas até esta divisão entre amor e amizade é completamente artificial, porque são tantas as vezes que não conseguimos traçar uma fronteira nítida entre os dois!
Tudo isto é um bocado para o confuso mas, reconheçamo-lo, também tem a sua piada.
Esta faz-nos sentir melhores do que somos quando estamos ao pé dela, mas longe dela com facilidade a esquecemos.
Por aquela sentimos ternura e desejo, mas nem pensar numa vida a dois.
Aqueloutra faz-nos sentir verdadeiramente apaixonados, sofremos quando estamos afastados, mas é uma paixão de que o desejo está completamente ausente.
Bom, e eu diria que as variações não têm fim, isto apenas no domínio do amor. Mas até esta divisão entre amor e amizade é completamente artificial, porque são tantas as vezes que não conseguimos traçar uma fronteira nítida entre os dois!
Tudo isto é um bocado para o confuso mas, reconheçamo-lo, também tem a sua piada.
O deus das pequenas coisas?
Um episódio que encontrei há muitos anos num livrinho de um escritor italiano (Elio Vittorini?, Vasco Pratolini?, não me lembro):
Trata-se de um camionista que está prestes a violar uma rapariga a quem deu boleia, quando descobre que ela tem as meias rotas. Isso fá-lo parar porque, de repente, esse pormenor triste comove-o profundamente. A partir daí, mesmo esbarrando na raiva e na desconfiança da rapariga, ele não consegue parar de ser carinhoso para ela.
Trata-se de um camionista que está prestes a violar uma rapariga a quem deu boleia, quando descobre que ela tem as meias rotas. Isso fá-lo parar porque, de repente, esse pormenor triste comove-o profundamente. A partir daí, mesmo esbarrando na raiva e na desconfiança da rapariga, ele não consegue parar de ser carinhoso para ela.
sábado, fevereiro 19, 2005
A raiva
A raiva no mais escondido das pessoas.
Existe tanta. À vista? Claramente sim nos miúdos. Escondida, negada, mascarada nos adultos.
Ela surge-me quando opto por não ser franco e, assim, condescendo com a minha fraqueza, com o abuso dos outros; quando, para evitar o conflito, procuro a distância impossível de conseguir; quando distribuo mágoa em vez de carinho; quando, ao espelho ou nos outros, vejo aquilo que em mim detesto.
Existe tanta. À vista? Claramente sim nos miúdos. Escondida, negada, mascarada nos adultos.
Ela surge-me quando opto por não ser franco e, assim, condescendo com a minha fraqueza, com o abuso dos outros; quando, para evitar o conflito, procuro a distância impossível de conseguir; quando distribuo mágoa em vez de carinho; quando, ao espelho ou nos outros, vejo aquilo que em mim detesto.
História sem moral
"Um monge chinês apaixonou-se por uma bela cortesã que lhe disse: espera aqui mil noites, debaixo da minha janela. Na 999ª noite, o monge pegou no seu banquinho e foi-se embora."
Mil razões.
Sei que não aguento, principalmente se estiver mesmo apaixonado, nem 9 noites, quanto mais 999. Por isso faço batota: de vez em quando escapo-me. Mas como sou mais ou menos honesto, já não volto a trazer o banquinho, limito-me a passar por baixo da janela.
Mil razões.
Sei que não aguento, principalmente se estiver mesmo apaixonado, nem 9 noites, quanto mais 999. Por isso faço batota: de vez em quando escapo-me. Mas como sou mais ou menos honesto, já não volto a trazer o banquinho, limito-me a passar por baixo da janela.
47 anos. Separado. Um filho. Sem namoradas.
47 anos. Assusta-me o pouco que me falta para morrer (já falei disto). É estúpido, eu sei. Dado que nunca sabemos quando morremos, a verdade é que pode faltar sempre pouco para morrer. Ou: é sempre infinita a distância entre existir-me vivo e não me existir morto. Não há consolo em nenhum destes pensamentos antagónicos. 47 anos. É um facto. Mas, pensando bem, não é mais do que isso: um facto completamente estúpido e vulgar.
Separado. Uma oportunidade para a esperança florir de novo.
Um filho. O amor absoluto. E, ao mesmo tempo, as músicas, os amigos, os colegas, as raparigas, tudo o que alonga e estreita a passagem para uma proximidade comigo. Para depois voltar?
Sem namoradas. Gosto mesmo desta palavra. E assim é que vai ser: não vou ter amantes, nem companheiras, nem apaixonadas, mas sim uma namorada: eternamente bela e irresistível!
Seja o que for que o futuro me reserve, desejaria imenso (como diz Fernando Nobre nas suas "Viagens contra a Indiferença"), desejaria imenso que a minha vida constituísse uma gota de orvalho na terra seca pelo egoísmo ou pela dor dos seres com quem me cruzo e me relaciono. Simplesmente isso.
Separado. Uma oportunidade para a esperança florir de novo.
Um filho. O amor absoluto. E, ao mesmo tempo, as músicas, os amigos, os colegas, as raparigas, tudo o que alonga e estreita a passagem para uma proximidade comigo. Para depois voltar?
Sem namoradas. Gosto mesmo desta palavra. E assim é que vai ser: não vou ter amantes, nem companheiras, nem apaixonadas, mas sim uma namorada: eternamente bela e irresistível!
Seja o que for que o futuro me reserve, desejaria imenso (como diz Fernando Nobre nas suas "Viagens contra a Indiferença"), desejaria imenso que a minha vida constituísse uma gota de orvalho na terra seca pelo egoísmo ou pela dor dos seres com quem me cruzo e me relaciono. Simplesmente isso.
sábado, fevereiro 12, 2005
"Mais vale ser a cabeça de um ratinho do que o rabo de um elefante"
Leio esta frase e percebo logo que este é um dos poucos lemas que eu preciso mesmo fazer meu.
Que eu não sou elefante, nem nunca serei, é óbvio.
Há é uma questão que se (me) põe e que é o desafio explícito da frase (e do contexto onde ela aparece): conseguirei alguma vez ser a cabeça do ratinho?
A frase surge no livro "Viagens contra a Indiferença" (os direitos de autor revertem para a AMI) do seu fundador, Fernando Nobre, na página 78 e pertence a um "cirurgião Alexis Kostritski, peruano de origem russa". Poderei acrescentar que é um livro de leitura essencial?
Que eu não sou elefante, nem nunca serei, é óbvio.
Há é uma questão que se (me) põe e que é o desafio explícito da frase (e do contexto onde ela aparece): conseguirei alguma vez ser a cabeça do ratinho?
A frase surge no livro "Viagens contra a Indiferença" (os direitos de autor revertem para a AMI) do seu fundador, Fernando Nobre, na página 78 e pertence a um "cirurgião Alexis Kostritski, peruano de origem russa". Poderei acrescentar que é um livro de leitura essencial?
sexta-feira, fevereiro 11, 2005
Rostos
Hoje gostaria de falar de rostos.
Não serei capaz de dizer muito mais e melhor do que Eduardo Prado Coelho no Público de hoje(*). Haverá uma nesga deixada livre?
Primeiro explico-me: um corpo belo atrai-me o olhar sem dúvida, mas o que me deixa fascinado, escravizado mesmo (não estou a exagerar) é o rosto.
Fixo-me nos olhos e na boca, depois no cabelo, no nariz, nas orelhas, na pele, nos pêlos. Mas volto sempre aos olhos e à boca. Porque aí está um caleidoscópio de promessas de uma plenitude feita de beleza e de aventura.
O facto de eu saber, embora não veja, que há muito aqui de ilusão, que a pessoa por detrás daquele rosto ao qual me encontro para sempre ligado sofre, é mesquinha, tem medo e o medo torna-a mais pequena do que ela é e promete ser, tudo isso apenas torna toda a minha contemplação mais fascinada!
(*) Já não está online. Com a devida vénia copio a parte do texto a que aqui me refiro:
"Que é um rosto? É algo em que se concentra o que há de mais íntimo e subtil de um corpo - mas, sobretudo, de um ser. No rosto, desenham-se sons inexprimíveis, vozes murmuradas, coros que são florestas. Existem elementos passivos, como o nariz e as orelhas, e factores activos, como a boca e os olhos. É no plano dos factores activos que encontramos uma escrita quase invisível, uma proliferação de sinais: um simples arquear da sobrancelha e há uma altivez que se ergue; uns olhos que se semicerram e há uma tentativa de compreensão; um olhar que se abre, atónito, e sente-se que o espanto rasga o rosto.
E a boca? Não há nela o mesmo encostar-se à espiritualidade, porque é feita de lábios e de uma língua que se esconde. Quando a língua se mostra, entramos no domínio da provocação, do insulto, da delinquência facial. Mas os lábios exprimem a ternura ou avaliam a capacidade de devoração. E por eles passa esse elemento inqualificável, esse sopro de vida, que é a voz. E por ele se respira até ao limiar da morte, que é o último suspiro.
Contudo, um rosto é acima de tudo um olhar de infinito onde penetramos com uma suavidade nupcial. Um infinito que passa por uma ruga, uma crispação, uma cintilação. Por uma física do infinito. Como é, maior do que todas, no seu rolar de absolutos divinos, a música de Bach."(Eduardo Prado Coelho)
Não serei capaz de dizer muito mais e melhor do que Eduardo Prado Coelho no Público de hoje(*). Haverá uma nesga deixada livre?
Primeiro explico-me: um corpo belo atrai-me o olhar sem dúvida, mas o que me deixa fascinado, escravizado mesmo (não estou a exagerar) é o rosto.
Fixo-me nos olhos e na boca, depois no cabelo, no nariz, nas orelhas, na pele, nos pêlos. Mas volto sempre aos olhos e à boca. Porque aí está um caleidoscópio de promessas de uma plenitude feita de beleza e de aventura.
O facto de eu saber, embora não veja, que há muito aqui de ilusão, que a pessoa por detrás daquele rosto ao qual me encontro para sempre ligado sofre, é mesquinha, tem medo e o medo torna-a mais pequena do que ela é e promete ser, tudo isso apenas torna toda a minha contemplação mais fascinada!
(*) Já não está online. Com a devida vénia copio a parte do texto a que aqui me refiro:
"Que é um rosto? É algo em que se concentra o que há de mais íntimo e subtil de um corpo - mas, sobretudo, de um ser. No rosto, desenham-se sons inexprimíveis, vozes murmuradas, coros que são florestas. Existem elementos passivos, como o nariz e as orelhas, e factores activos, como a boca e os olhos. É no plano dos factores activos que encontramos uma escrita quase invisível, uma proliferação de sinais: um simples arquear da sobrancelha e há uma altivez que se ergue; uns olhos que se semicerram e há uma tentativa de compreensão; um olhar que se abre, atónito, e sente-se que o espanto rasga o rosto.
E a boca? Não há nela o mesmo encostar-se à espiritualidade, porque é feita de lábios e de uma língua que se esconde. Quando a língua se mostra, entramos no domínio da provocação, do insulto, da delinquência facial. Mas os lábios exprimem a ternura ou avaliam a capacidade de devoração. E por eles passa esse elemento inqualificável, esse sopro de vida, que é a voz. E por ele se respira até ao limiar da morte, que é o último suspiro.
Contudo, um rosto é acima de tudo um olhar de infinito onde penetramos com uma suavidade nupcial. Um infinito que passa por uma ruga, uma crispação, uma cintilação. Por uma física do infinito. Como é, maior do que todas, no seu rolar de absolutos divinos, a música de Bach."(Eduardo Prado Coelho)
domingo, fevereiro 06, 2005
Fragmentos
A chuva molha a alma com a tinta da solidão.
Sou folha amarrotada que
o vento deixou cair
no lado abandonado do cais.
O beijo tem fome de riso.
Na face fria da manhã de Inverno
O brilho de neve dos teus olhos.
A felicidade não é ser-se feliz, é conseguir sonhar activamente que se vai ser feliz.
Sou folha amarrotada que
o vento deixou cair
no lado abandonado do cais.
O beijo tem fome de riso.
Na face fria da manhã de Inverno
O brilho de neve dos teus olhos.
A felicidade não é ser-se feliz, é conseguir sonhar activamente que se vai ser feliz.
quarta-feira, fevereiro 02, 2005
47 anos
O tempo que tens à tua frente é pouco? Pouco para quê? Ou pior: é/está vazio?
Não tenho respostas. Ao fim de 47 anos é obra.
Não tenho respostas. Ao fim de 47 anos é obra.
domingo, janeiro 30, 2005
O pior inimigo
Quando somos inimigos de nós mesmos ninguém no mundo nos pode salvar, nem sequer defender.
Amor correspondido
Queremos que o nosso amor seja correspondido da mesma forma como amamos.
Quereremos mesmo?
1º Porque uma das coisas que mantém o amor vivo é a descoberta do outro diferente, bem como a surpresa face aos modos que ele encontra de nos amar.
2º Quando amo, desejo, e não me desejo a mim mas o outro; logo, poderei amar alguém que ame como eu?
3º Eu sei lá realmente como é que amo! Sei (mais ou menos) como desejaria ser amado. A verdade é que às vezes nem sei se amo muito ou pouco, isto é, em simples quantidade, quanto mais em qualidade!
Quereremos mesmo?
1º Porque uma das coisas que mantém o amor vivo é a descoberta do outro diferente, bem como a surpresa face aos modos que ele encontra de nos amar.
2º Quando amo, desejo, e não me desejo a mim mas o outro; logo, poderei amar alguém que ame como eu?
3º Eu sei lá realmente como é que amo! Sei (mais ou menos) como desejaria ser amado. A verdade é que às vezes nem sei se amo muito ou pouco, isto é, em simples quantidade, quanto mais em qualidade!
O amor nunca é simples
Quando me apaixono nunca sei se me estou a apaixonar pela mulher ou pelo que nela ilumina o melhor de mim.
A dúvida: o meu amor por ela será mais do que um sentimento agradecido pela sua dádiva de um eu mais alto?
("Talvez não se ame uma mulher ou um homem, mas o amor neles.", João Bonifácio, Mil Folhas, Público, 29/1/05)
A dúvida: o meu amor por ela será mais do que um sentimento agradecido pela sua dádiva de um eu mais alto?
("Talvez não se ame uma mulher ou um homem, mas o amor neles.", João Bonifácio, Mil Folhas, Público, 29/1/05)
sábado, janeiro 29, 2005
Estou contente
Estou contente de estar sozinho. Não telefono, não marco encontros, não aprofundo contactos humanos e sinto-me leve e satisfeito.
A verdade é que aproveito o impulso natural das pessoas nas relações pouco profundas para mostrarem apenas o melhor de si próprias.
Evito assim que a fealdade do mundo se sobreponha à beleza da vida (ninguém adquire o poder de estragar o meu olhar).
A verdade é que aproveito o impulso natural das pessoas nas relações pouco profundas para mostrarem apenas o melhor de si próprias.
Evito assim que a fealdade do mundo se sobreponha à beleza da vida (ninguém adquire o poder de estragar o meu olhar).
sexta-feira, janeiro 28, 2005
Humor na sala de aula
Quando os alunos me perguntam coisas da matéria ou dos exercícios eu procuro não lhes dar a resposta directa a fim de que eles pensem e possam lá chegar por eles próprios. Assim aconteceu com a Carolina (nomes fictícios). E diz ela:"Oh meu Deus, então como vou fazer isto?" Intervém o Estevão: "Caramba Carolina, não é preciso exagerar, afinal ele é só um professor!"
segunda-feira, janeiro 24, 2005
Non Ti Muovere
Porquê a crueldade dos homens a fazer sofrer as mulheres?
Porque são eles incapazes de amarem?
Ou ainda porque é que acabam a amarem-se a si próprios através delas?
Para estas e outras interrogações (comovidas), mas sem respostas, "Não Te Movas" de Sergio Castellito.
Porque são eles incapazes de amarem?
Ou ainda porque é que acabam a amarem-se a si próprios através delas?
Para estas e outras interrogações (comovidas), mas sem respostas, "Não Te Movas" de Sergio Castellito.
domingo, janeiro 23, 2005
As mulheres
As mulheres
que não nos telefonam, que não nos olham, que não nos respondem, que não nos escrevem,
que não se voltam, que não se sorriem, que não se despem, que não se entregam,
que não nos reclamam,
que não nos consideram
que não nos telefonam, que não nos olham, que não nos respondem, que não nos escrevem,
que não se voltam, que não se sorriem, que não se despem, que não se entregam,
que não nos reclamam,
que não nos consideram
O que é a beleza?
Em toda a minha vida (47 anos) apenas uma mulher olhou e disse:"Como és belo!"
Passado este tempo todo, continuo a não conseguir fazer a mais pequena ideia do que ela viu.
Como posso dizer o que é a beleza?
Só esquecendo e esquecendo muito...
Passado este tempo todo, continuo a não conseguir fazer a mais pequena ideia do que ela viu.
Como posso dizer o que é a beleza?
Só esquecendo e esquecendo muito...
Na Costa, no silêncio
No silêncio quebrado pela dança, com o mar a adormecer encostado ao céu, nuvens em todos os horizontes, sei do carinho líquido das mulheres. São como vozes na noite a acariciarem sons perdidos na memória longínqua da extrema infância. O seu olhar adormece sem sonhos na superfície fria da pele. Magoado.
sábado, janeiro 22, 2005
Recomeço
O gato olha para a água e parece-lhe estar a escaldar.
Eu olho e continuo a ver a muralha.
Tenho de aprender a ser homem outra vez.
Eu olho e continuo a ver a muralha.
Tenho de aprender a ser homem outra vez.
Deixo-me levar pela Costa
o mar desce até mim, os surfistas desenham a alegria na espuma. mulheres ao sol e a esperança sorri com um olhar líquido. os meus passos sem ruído. homens derrotados esvaem-se na direcção do horizonte. o vento, memória sem calor. eu estou do lado de lá. e venho-me embora.
domingo, janeiro 16, 2005
Procura de um par
Desejamos tanto alguém que seja o nosso par na vida!
É o filho quem está mais próximo de representar a concretização dessa companhia envolvente.
Sonhamos sozinhos.
E o nosso coração é bruma líquida nas horas mais silenciosas da noite.
É o filho quem está mais próximo de representar a concretização dessa companhia envolvente.
Sonhamos sozinhos.
E o nosso coração é bruma líquida nas horas mais silenciosas da noite.
quinta-feira, janeiro 13, 2005
A luz no amor
Penso que o desejo de me apaixonar vem de uma íntima e invencível vontade de me refazer, de me iniciar de novo; e a mulher por quem me apaixono representa a esperança visível e concreta, não de voltar ao, mas de poder partir do princípio de todas as coisas.
É um sonho, uma impossibilidade e, assim, todas as minhas paixões falham miseravelmente.
Sabendo isso eu então apaixono-me, não para ir atrás dessa vã promessa, mas para me aproximar de um objectivo mais humilde: encontrar-me e tornar-me inteiro naquilo que sou (eu, que estou sempre tao vaziamente fora de mim mesmo) por via do afecto da mulher que amo, bem como proporcionar-lhe a possibilidade do mesmo processo.
É um sonho, uma impossibilidade e, assim, todas as minhas paixões falham miseravelmente.
Sabendo isso eu então apaixono-me, não para ir atrás dessa vã promessa, mas para me aproximar de um objectivo mais humilde: encontrar-me e tornar-me inteiro naquilo que sou (eu, que estou sempre tao vaziamente fora de mim mesmo) por via do afecto da mulher que amo, bem como proporcionar-lhe a possibilidade do mesmo processo.
domingo, janeiro 09, 2005
Lost in Translation
Numa tarde mergulhada no frio, naveguei pelos rostos de Bill Murray e de Scarlett Johansson, e pela história de um amor sussurrado entre duas solidões, entre dois corpos que se tocam numa paz mutuamente procurada.
A TV como um não-lugar para quase-pessoas
É estranho: a TV não só embrutece os que estão do lado de fora como os que estão lá "dentro".
É curioso como pessoas pouco convencionais na arte, ao falarem na TV, estão sempre a resvalar para o lugar-comum. Como se elas se sentissem obrigadas, por estarem num meio de comunicação para o grande público, a serem porta-vozes dos indivíduos de inteligência e saber não mais que comuns.
É curioso como pessoas pouco convencionais na arte, ao falarem na TV, estão sempre a resvalar para o lugar-comum. Como se elas se sentissem obrigadas, por estarem num meio de comunicação para o grande público, a serem porta-vozes dos indivíduos de inteligência e saber não mais que comuns.
Que paisagens interiores atravessa a solidão?
Hoje venho inquirir a solidão.
Começo por um facto simples: porque é que uns dias a solidão pesa angústias nos meus ombros, na minhas vísceras, nos meus pensamentos? E noutros é de uma leveza tal que só dou por existir o tempo do mesmo modo que sei que existe a água quando bóio preguiçosamente no mar?
Estou só, mas há rostos que povoam a minha imaginação, rostos de mulheres sobretudo, estes invocados em parte pelo afecto, tecidos em parte pelo desejo. Porque é que às vezes a solidão é acentuada por essas imagens e outras vezes a alma se expande com elas?
Tenho a TV e a aparelhagem desligadas, estou mergulhado num silêncio forrado pelos carros que passam na rua. Porqe é que o silêncio me faz deslizar por entre as palavras sem me magoar, mas também acontece esvaziar-me de palavras e de sentido?
Suspeito que há duas respostas simples: o acaso e o funcionamento interno do corpo.
Que consequências tiro destas duas respostas? A 1ª é: cuidar do corpo, mas sem obsessão. A 2ª é: garantir um espaço interior capaz de aceitar com humor os desmandos do destino.
Começo por um facto simples: porque é que uns dias a solidão pesa angústias nos meus ombros, na minhas vísceras, nos meus pensamentos? E noutros é de uma leveza tal que só dou por existir o tempo do mesmo modo que sei que existe a água quando bóio preguiçosamente no mar?
Estou só, mas há rostos que povoam a minha imaginação, rostos de mulheres sobretudo, estes invocados em parte pelo afecto, tecidos em parte pelo desejo. Porque é que às vezes a solidão é acentuada por essas imagens e outras vezes a alma se expande com elas?
Tenho a TV e a aparelhagem desligadas, estou mergulhado num silêncio forrado pelos carros que passam na rua. Porqe é que o silêncio me faz deslizar por entre as palavras sem me magoar, mas também acontece esvaziar-me de palavras e de sentido?
Suspeito que há duas respostas simples: o acaso e o funcionamento interno do corpo.
Que consequências tiro destas duas respostas? A 1ª é: cuidar do corpo, mas sem obsessão. A 2ª é: garantir um espaço interior capaz de aceitar com humor os desmandos do destino.
quarta-feira, janeiro 05, 2005
História de vida resumida
Um dia a mulher disse-lhe:
"Vai-te embora! Ao menos uma vez na vida sê um homem!"
E ele foi.
"Vai-te embora! Ao menos uma vez na vida sê um homem!"
E ele foi.
domingo, novembro 07, 2004
Como beijar
Algumas indicações úteis (graças ao blog A Falta de Sexo e a Cidade) sobre como beijar uma mulher.
Na minha opinião, aplica-se aos dois sexos.
Na minha opinião, aplica-se aos dois sexos.
sábado, novembro 06, 2004
Poesia
Sempre que escrevo, falho.
Primeiro, porque não consigo ser eu, mesmo eu, a escrever.
Segundo porque nunca consigo contar o que se passa ou passou, acabo por contar outra coisa qualquer.
Terceiro, porque na realidade as palavras são as folhas do chá presas no coador, nunca o chá que se bebe.
Por isso, é sempre preferível a poesia, porque dela faz parte integrante o silêncio e o não dito.
Sim,
gasto a noite a olhar
à espera duma palavra, dum som
(que eu existo para ti,
não me basta o calor)
Sonho atormentado porque hoje
sei que a minha vida vai estremecer
Não estou sozinho mas ignoro-o
por isso sou um peixe fora da água
eu e o meu écran LCD
nas águas da noite sem fugas
jogos cegos de luz onde o silêncio
se quebra de encontro aos meus lábios
Justamente estou aqui nesta noite
de amantes sem um presente
na escuridão que brilha, como murmurou
a que do silêncio construiu um olhar
Primeiro, porque não consigo ser eu, mesmo eu, a escrever.
Segundo porque nunca consigo contar o que se passa ou passou, acabo por contar outra coisa qualquer.
Terceiro, porque na realidade as palavras são as folhas do chá presas no coador, nunca o chá que se bebe.
Por isso, é sempre preferível a poesia, porque dela faz parte integrante o silêncio e o não dito.
Sim,
gasto a noite a olhar
à espera duma palavra, dum som
(que eu existo para ti,
não me basta o calor)
Sonho atormentado porque hoje
sei que a minha vida vai estremecer
Não estou sozinho mas ignoro-o
por isso sou um peixe fora da água
eu e o meu écran LCD
nas águas da noite sem fugas
jogos cegos de luz onde o silêncio
se quebra de encontro aos meus lábios
Justamente estou aqui nesta noite
de amantes sem um presente
na escuridão que brilha, como murmurou
a que do silêncio construiu um olhar
quinta-feira, outubro 28, 2004
Here's to the few...
Quem são os meus amigos?
"Here's to the few who forgive what you do
And to the fewer who don't even care"
Leonard Cohen
Meus amigos, meus irmãos escolhidos, onde quer que estejais: obrigado!
"Here's to the few who forgive what you do
And to the fewer who don't even care"
Leonard Cohen
Meus amigos, meus irmãos escolhidos, onde quer que estejais: obrigado!
terça-feira, outubro 26, 2004
Será que interessa?
O que interessa na vida é saber o que é importante...
Não, afinal o que deve começar por interessar é descobrir o que na vida não vale a pena.
Na verdade, eu ainda estou na fase de me interessar por perceber se o que escrevi tem algum sentido.
(não há dúvidas que a paragem fez-me lindamente!...)
Não, afinal o que deve começar por interessar é descobrir o que na vida não vale a pena.
Na verdade, eu ainda estou na fase de me interessar por perceber se o que escrevi tem algum sentido.
(não há dúvidas que a paragem fez-me lindamente!...)
domingo, outubro 24, 2004
A mais sublime prova de amor
Se eu a amo realmente, se o meu amor é autêntico e profundo, então a maior, a mais grandiosa prova de amor que eu lhe posso dar (dado o espaço rarefeito de qualidades que é característico da minha indistinta personalidade) é, sem dúvida, fazer com que ela me deteste com todas as fibras do seu ser! De modo a que jamais ela venha a correr o risco de ter a desabar sobre si a infelicidade de juntar o seu destino ao meu.
Afinal, pensando melhor: ná, eu não a amo assim tanto...
(e estive eu 15 dias parado para isto!)
Afinal, pensando melhor: ná, eu não a amo assim tanto...
(e estive eu 15 dias parado para isto!)
sábado, outubro 09, 2004
Um prazer simples
Receber um SMS. Dois pequenos toques e já não conseguimos concentrar-nos no que estamos a fazer. Mal damos conta, estamos com o telemóvel nas mãos e clica, clica, vemos de quem são as palavras que vamos ler e ei-las no visor. E logo passam a ser nossas. É um bocadinho dessa pessoa que ali fica a lembrar-nos como é boa a amizade e como é bom o estarmos vivos a sabermos que alguém, algures, se lembrou de nós e quis partilhar algo connosco. Um prazer simples?
quinta-feira, outubro 07, 2004
Atenção:
Desculpem insistir, mas façam o favor de ir ao belíssimo blog Nove de Copas. Garanto-vos: não vão ficar os mesmos!
Entre um sim e um não
Às vezes acordo no meio do dia e pergunto-me: se, naquele momento fulcral, em vez de me ter dito não, ela me tivesse dito sim, como estaria hoje? Mais feliz?, mais cheio de vida?, diferente, muito diferente? Ou estaria a perguntar-me: "Se, naquele momento fulcral, em vez de me ter dito sim..."
quarta-feira, outubro 06, 2004
Aniversário
Ele ri-se, não sai do computador, está constantemente com mazelas apanhadas no futebol, é uma luta para comer, ri-se das minhas zangas, estuda o estritamente indispensável para ter boas notas, está sempre rodeado de música versão MTV. É o meu filho. Às vezes abraça-me. Amanhã faz 12 anos.
Rotina
As pessoas dividem-se em dois grupos: as que se adaptaram à rotina e as que sofrem com ela.
95% das pessoas pensa que pertence ao 1º grupo mas, na realidade, está no 2º!
(As restantes 5% dividem-se entre as que procuram realmente uma rotina e as que estão sempre a fugir a ela)
95% das pessoas pensa que pertence ao 1º grupo mas, na realidade, está no 2º!
(As restantes 5% dividem-se entre as que procuram realmente uma rotina e as que estão sempre a fugir a ela)
terça-feira, outubro 05, 2004
Adeus, minha... beldade
Qual é a forma mais eficaz para alguém (como eu, sem nenhum atributo relevante) conseguir atrair a atenção de uma mulher bonita? É triste dizê-lo: não é sendo bonzinho para ela, é ignorando radicalmente a sua existência, embora sempre de forma simpática e cortês.
E conquistá-la? Isso dependerá de que factores? Não há factores nenhuns, depende apenas do que se chega a fazer sem se mostrar excessivamente aflito e sem se estampar ao comprido... Infelizmente, no meu caso, isto é o mesmo que dizer que não faço a mais remota ideia de como se consegue.
E conquistá-la? Isso dependerá de que factores? Não há factores nenhuns, depende apenas do que se chega a fazer sem se mostrar excessivamente aflito e sem se estampar ao comprido... Infelizmente, no meu caso, isto é o mesmo que dizer que não faço a mais remota ideia de como se consegue.
sábado, outubro 02, 2004
Pergunta essencial no fim de tudo
O que é que eu faço do pouco possível que sou no meio dos impossíveis com que (me) sonho?
Onde estás?
Uma relação exaltante que se transforma numa recordação estimulante, depois numa recordação forrada com tempo, embrulhada no tempo e, depois, já nem isso...
quinta-feira, setembro 30, 2004
O Mal confortável
É cómodo eu acreditar na existência do Mal: assim, quando sou malvado, não sou eu, é outra coisa, algo de demoníaco, que toma conta de mim. E adeus responsabilidade!
Querias!!!
Querias!!!
quarta-feira, setembro 29, 2004
Até onde seremos levados por este olhar?
Quando me queixo da incompreensão por parte dos outros, do que estou realmente a queixar-me é de eles não se aperceberem do que eu desejo ser (e que, provavelmente, não sou).
Então vamos jogar um jogo? Vou ver em ti o que tu mais gostares de ser. Desejas ser bela? Ver-te-ei bela até ao impossível. Desejas ser importante? Serás para mim a mais importante das importantes. Desejas ser amada?...
Em que águas estamos prestes a mergulhar?
Então vamos jogar um jogo? Vou ver em ti o que tu mais gostares de ser. Desejas ser bela? Ver-te-ei bela até ao impossível. Desejas ser importante? Serás para mim a mais importante das importantes. Desejas ser amada?...
Em que águas estamos prestes a mergulhar?
segunda-feira, setembro 27, 2004
Crenças e descrenças (II)
Se Deus existe é um Deus que não ama.
A existir, aposto mais num Deus que se ri.
De todos nós.
"Dá Deus o frio conforme a roupa, mas mais a quem tem pouca."
A existir, aposto mais num Deus que se ri.
De todos nós.
"Dá Deus o frio conforme a roupa, mas mais a quem tem pouca."
Eu e as mulheres
Nunca consigo perceber as mulheres por quem não estou apaixonado.
E quando estou, paraliso mentalmente emudecido.
Em ambos os casos acabo como começo: burro, obviamente!
E quando estou, paraliso mentalmente emudecido.
Em ambos os casos acabo como começo: burro, obviamente!
domingo, setembro 26, 2004
Sexo, ou talvez não
"(...)gosto do sexo, sempre gostei. Mas o sexo desgosta-me, (...)"
(Nem Só Mas Também, Augusto Abelaira)
(Nem Só Mas Também, Augusto Abelaira)
Crenças e descrenças
Deus e o Diabo estão cada vez mais por fora das minhas cogitações.
Mas se eu tivesse que os pôr em algum lado, a Deus oferecia-lhe o poço das esperanças não cumpridas, ao Diabo a fossa dos desejos satisfeitos. E ia à minha vida.
Mas se eu tivesse que os pôr em algum lado, a Deus oferecia-lhe o poço das esperanças não cumpridas, ao Diabo a fossa dos desejos satisfeitos. E ia à minha vida.
Corridas
"Fui à corrida na Ponte Vasco da Gama para ter a oportunidade, também eu, de me atirar da dita. Depois pensei: e se sobrevivo? Mais ridículo ainda: e se depois de dar estrilho não me atiro? Não me atirei. Arrastei-me furiosamente até à meta."
sábado, setembro 25, 2004
A vulgaridade
Procuro sempre não ser grosseiro. Aterroriza-me que a minha grosseria torne plausível a grosseria dos outros.
quinta-feira, setembro 23, 2004
Amor e feridas (II)
"Se tomo a iniciativa de, ou simplesmente aceito, encontrar-me com ele, mostro que quero vê-lo. É melhor deixá-lo na incerteza. Melhor porquê? Porque já uma vez o mostrei ao Ser Mais Amado de Todos e Ele magoou-me mais do que deveria ser permitido a alguém magoar e agora, em todos os homens, vejo Aquele que há-de sofrer infinitamente pela dor também infinita que ainda hoje Ele me inflige?"
Sou eu?
Representamos sempre?
E representamos um papel sempre diferente do nosso, isto é, não nos permitimos ser o que somos? Ou: não temos a coragem de sermos o que somos? Ou: não sabemos sequer o que somos?
Talvez, talvez, talvez e sim.
Porque a morte habita, nem que seja como um fantasma, o coração do nosso coração? (A morte aqui significa tudo aquilo que nos é visceralmente impossível amar, ou seja, nós próprios?) E, portanto, ser o quê?
E representamos um papel sempre diferente do nosso, isto é, não nos permitimos ser o que somos? Ou: não temos a coragem de sermos o que somos? Ou: não sabemos sequer o que somos?
Talvez, talvez, talvez e sim.
Porque a morte habita, nem que seja como um fantasma, o coração do nosso coração? (A morte aqui significa tudo aquilo que nos é visceralmente impossível amar, ou seja, nós próprios?) E, portanto, ser o quê?
Desengraçados de todo o mundo, uni-vos!
A todos os que, como eu, se acham feios, azarentos ao amor, desprovidos de hipóteses junto das mulheres bonitas e com uma vida sexual que não levamos a mal nos outros. E que, além disso, sentem prazer a enfrentar ideias estimulantes, eu digo-vos:
É realmente obrigatória a aquisição e a leitura do livro "Fora do Mundo - Textos da Blogosfera" de Pedro Mexia (Ed. Cotovia, 2004)
É realmente obrigatória a aquisição e a leitura do livro "Fora do Mundo - Textos da Blogosfera" de Pedro Mexia (Ed. Cotovia, 2004)
quarta-feira, setembro 22, 2004
Amor e feridas (I)
O amor é mais fonte de sofrimento que outra coisa, não pela quantidade de fracassos, mas pela absoluta devastação que cada um deles arrasta consigo. Porquê?
Porque o amor é caprichoso e, portanto, cruel? Sim, está bem, mas porquê?
Porque somos, seremos sempre amadores "amadores", isto é, nunca aprendemos a amar por mais amor que recebamos ou não?
Porque o amor é caprichoso e, portanto, cruel? Sim, está bem, mas porquê?
Porque somos, seremos sempre amadores "amadores", isto é, nunca aprendemos a amar por mais amor que recebamos ou não?
I´m back!
Caros amigos e outras que mais
Volto primeiro que tudo para anunciar um álbum de originais do Leonard Cohen, esse sedutor intemporal que volta para assombrar as nossas noites com sonhos de amores que vivem da ilusão do possível. A sair em Outubro, parece.
Enquanto esperam, oiçam e leiam "Dance Me To The End of Love", e dancem, dancem...
Volto primeiro que tudo para anunciar um álbum de originais do Leonard Cohen, esse sedutor intemporal que volta para assombrar as nossas noites com sonhos de amores que vivem da ilusão do possível. A sair em Outubro, parece.
Enquanto esperam, oiçam e leiam "Dance Me To The End of Love", e dancem, dancem...
Hino aos Amigos
Do Livro de Job, 19:21
"Compadecei-vos de mim, compadecei-vos de mim, ao menos vós, que sois meus amigos, porque a mão de Deus feriu-me."
Mesmo sabendo que Job não teve amigos à altura (não é o meu caso, eu é que não estou à altura deles), não vos comove que, num livro de revelações divinas, a última, realmente a derradeira esperança de alguém é depositada não em Deus mas nos amigos?
Chamo a atenção para este Livro que tem fartos motivos (não só este que vos refiro, mas desafio-vos a descobrirem) para ser expurgado da Bíblia. Para além de ser um apelo contra a mais alta e injusta solidão ("Grito contra a violência e ninguém me responde, (...)", 19:7).
"Compadecei-vos de mim, compadecei-vos de mim, ao menos vós, que sois meus amigos, porque a mão de Deus feriu-me."
Mesmo sabendo que Job não teve amigos à altura (não é o meu caso, eu é que não estou à altura deles), não vos comove que, num livro de revelações divinas, a última, realmente a derradeira esperança de alguém é depositada não em Deus mas nos amigos?
Chamo a atenção para este Livro que tem fartos motivos (não só este que vos refiro, mas desafio-vos a descobrirem) para ser expurgado da Bíblia. Para além de ser um apelo contra a mais alta e injusta solidão ("Grito contra a violência e ninguém me responde, (...)", 19:7).
quarta-feira, julho 14, 2004
Um post com a ajuda de Vinicius de Moraes
"Ah meus amigos, não vos deixeis morrer assim. Ide ver vossos clínicos, vossos analistas, vossos macumbeiros, e tomai sol, tomai vento, tomai tento, amigos meus!... Amai em tempo integral, nunca sacrificando ao exercício de outros deveres este sagrado, do amor. Amai e bebei uísque. Não digo que bebais em quantidades federais, mas quatro, cinco uísques por dia nunca fizeram mal a ninguém. Amai, porque nada melhor para a saúde que um amor correspondido. Mas, sobretudo, não morrais amigos meus!"
sábado, julho 03, 2004
"Sermão de despedida" aos alunos do 9º ano
Na última aula com os meus alunos do 9º ano disse o seguinte (aqui fica uma versão simplificada):
Tenho duas regras de vida a propor-vos.
A primeira é: Oiçam e sigam a vossa voz interior, não se deixem confundir por aquilo que os outros querem que vocês pensem ou desejam que vocês façam. Procurem a vossa autêntica voz interior; e, depois, aprendam a confiar nela.
A segunda regra é: Toda a aparência de felicidade e de satisfação é uma ilusão. Todos vivemos um certo grau de caos interior, vocês, eu e toda a gente: a única maneira de aliviar verdadeiramente a dor que esse caos traz é ajudar quem precisa (e todos precisamos), é sermos bons uns para os outros.
Tenho duas regras de vida a propor-vos.
A primeira é: Oiçam e sigam a vossa voz interior, não se deixem confundir por aquilo que os outros querem que vocês pensem ou desejam que vocês façam. Procurem a vossa autêntica voz interior; e, depois, aprendam a confiar nela.
A segunda regra é: Toda a aparência de felicidade e de satisfação é uma ilusão. Todos vivemos um certo grau de caos interior, vocês, eu e toda a gente: a única maneira de aliviar verdadeiramente a dor que esse caos traz é ajudar quem precisa (e todos precisamos), é sermos bons uns para os outros.
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