A vida. Tão pouco e tão tanto. (...) E todavia eu sei que "isto" nasceu para o silêncio sem fim... (Vergílio Ferreira)
quarta-feira, abril 19, 2006
domingo, abril 16, 2006
D'este Viver Aqui Neste Papel Descripto
Não há nada, não há praticamente episódios nenhuns, nem história, nem histórias, nada.
Mas é deste quase nada que ele escreve os seus aerogramas, do desespero e, principalmente, do grande amor que António Lobo Antunes dedicava à mulher.
E eu comovo-me com a sua juventude amarga que transparece nestas cartas.
Mas há algo que perturba permanentemente a minha leitura: as declarações de amor absoluto e eterno, sempre implícitas e explícitas em todas as cartas.
O problema é que eu sei, todos sabemos, que ele se separa da mulher 5 anos depois.
Separação "estúpida", como reitera várias vezes em "Conversas com António Lobo Antunes", de María Luisa Blanco, p.57 e 58.
E "Ela nunca voltou a viver com ninguém pensando que eu ia voltar."
Assusta-me a extrema fragilidade das coisas, dos sentimentos.
E a dor.
No amor andamos sempre no fio da navalha.
Mas é deste quase nada que ele escreve os seus aerogramas, do desespero e, principalmente, do grande amor que António Lobo Antunes dedicava à mulher.
E eu comovo-me com a sua juventude amarga que transparece nestas cartas.
Mas há algo que perturba permanentemente a minha leitura: as declarações de amor absoluto e eterno, sempre implícitas e explícitas em todas as cartas.
O problema é que eu sei, todos sabemos, que ele se separa da mulher 5 anos depois.
Separação "estúpida", como reitera várias vezes em "Conversas com António Lobo Antunes", de María Luisa Blanco, p.57 e 58.
E "Ela nunca voltou a viver com ninguém pensando que eu ia voltar."
Assusta-me a extrema fragilidade das coisas, dos sentimentos.
E a dor.
No amor andamos sempre no fio da navalha.
sábado, abril 15, 2006
Que delícia!
Beatriz Costa: "Quando quero chorar, penso na minha vida sexual. Quando quero rir, também."
(citada no Público de hoje, a propósito dos dez anos da sua morte)
(citada no Público de hoje, a propósito dos dez anos da sua morte)
sexta-feira, abril 14, 2006
Maus tratos V
Porque a questão essencial tem de se pôr nos seguintes termos:
Se é inaceitável um adulto levar uma estalada seja por que motivo for (educativo, político ou criminal), porque é que para tanta gente isso já parece aceitável se for com uma criança?
Porque é que no estabelecimento de limites àquilo que um adulto faz é inadmissível a violência, mas na criança até se considera defensável (como o mostraram os Srs. Juízes do Supremo)?
Há que perguntar às pessoas: acham que aquilo que é humilhante para um adulto, não o é para uma criança? Porquê?
Será que acham que as crianças têm menos sentimentos e emoções que os adultos? Ou que têm menos sentido de dignidade pessoal? Ou, ainda, que têm menos sensibilidade que um adulto?
Para o dizer franca e brutalmente: será que acham que as crianças são menos seres humanos que os adultos? E que, por isso, devem ter menos direitos?
Dizem-me: as crianças são seres em formação. Respondo: também os adultos o são, mesmo que o não queiram ser.
Dizem-me: são seres que muitas vezes não vêem as consequências do que fazem. Respondo: também os adultos não vêem (e, infelizmente, com consequências igualmente graves: basta reparar em como as pessoas se enganam desgraçadamente seja a conduzir um carro, seja a comer ou a beber, seja a apoiar uma guerra no Iraque, etc).
Dizem-me: batemos-lhes para bem deles. Respondo: isso também se pode aplicar aos adultos.
Não, realmente a questão essencial, donde nasce tudo o que pudermos pensar e discutir sobre este assunto dos castigos corporais nas crianças, é esta:
As crianças são menos seres humanos que os adultos?
Se é inaceitável um adulto levar uma estalada seja por que motivo for (educativo, político ou criminal), porque é que para tanta gente isso já parece aceitável se for com uma criança?
Porque é que no estabelecimento de limites àquilo que um adulto faz é inadmissível a violência, mas na criança até se considera defensável (como o mostraram os Srs. Juízes do Supremo)?
Há que perguntar às pessoas: acham que aquilo que é humilhante para um adulto, não o é para uma criança? Porquê?
Será que acham que as crianças têm menos sentimentos e emoções que os adultos? Ou que têm menos sentido de dignidade pessoal? Ou, ainda, que têm menos sensibilidade que um adulto?
Para o dizer franca e brutalmente: será que acham que as crianças são menos seres humanos que os adultos? E que, por isso, devem ter menos direitos?
Dizem-me: as crianças são seres em formação. Respondo: também os adultos o são, mesmo que o não queiram ser.
Dizem-me: são seres que muitas vezes não vêem as consequências do que fazem. Respondo: também os adultos não vêem (e, infelizmente, com consequências igualmente graves: basta reparar em como as pessoas se enganam desgraçadamente seja a conduzir um carro, seja a comer ou a beber, seja a apoiar uma guerra no Iraque, etc).
Dizem-me: batemos-lhes para bem deles. Respondo: isso também se pode aplicar aos adultos.
Não, realmente a questão essencial, donde nasce tudo o que pudermos pensar e discutir sobre este assunto dos castigos corporais nas crianças, é esta:
As crianças são menos seres humanos que os adultos?
quinta-feira, abril 13, 2006
Maus tratos IV
"Na educação do ser humano justifica-se uma correcção moderada que pode incluir alguns castigos corporais ou outros. Será utópico pensar o contrário e cremos bem que estão postas de parte, no plano científico, as teorias que defendem a abstenção total deste tipo de castigos moderados.". A conclusão é dos juízes do Supremo Tribunal de Justiça (STJ) - relator João Bernardo e juízes Pires Salpico, Henriques Gaspar e Políbio Flor (...)
(no Diário de Notícias de hoje)
Sem qualquer espécie de ironia devo dizer que me sinto grato a estes Srs. Juízes.
Eu sei, este acórdão é uma vergonha para Portugal.
Também sei que os portugueses, na sua esmagadora maioria, de classes altas ou baixas, cultas ou incultas, se fossem inquiridos anonimamente, concordariam com ele. Pelo que o referido acórdão é, no fundo, expressão daquilo que quase toda a gente considera razoável e aceitável. Apesar de ser um sinal de barbárie.
Mas, graças a ele, pode-se esclarecer:
"Não há qualquer referência, em lado algum, à punição como forma de aprendizagem para qualquer criança, com deficiência ou não", explica ao DN o professor de Educação Especial e Reabilitação da Universidade Técnica de Lisboa, David Rodrigues.(...) O acórdão só pode ser considerado , por isso, "um documento incompetente, arrogante e retrógrado."
E graças a ele sabe-se que há, apesar de tudo, bastante gente que se sente revoltada com esta vergonha e que não tem receio de o mostrar: David Rodrigues, Associação Pró-Ordem dos Psicólogos, Associação Portuguesa de Deficientes, Comissão dos Direitos Humanos da Ordem dos Advogados, UNICEF, Helena Garrido e todos os jornalistas que não hesitam em mostrar repúdio por aquelas ideias.
E isto, garanto-vos, é bom!
Porque as crianças neste miserável país estão indefesas face à brutalidade dos adultos.
Uma sugestão: arranjem um tempo para ler The History of Child Abuse por Lloyd deMause. Nunca mais a vão esquecer.
(no Diário de Notícias de hoje)
Sem qualquer espécie de ironia devo dizer que me sinto grato a estes Srs. Juízes.
Eu sei, este acórdão é uma vergonha para Portugal.
Também sei que os portugueses, na sua esmagadora maioria, de classes altas ou baixas, cultas ou incultas, se fossem inquiridos anonimamente, concordariam com ele. Pelo que o referido acórdão é, no fundo, expressão daquilo que quase toda a gente considera razoável e aceitável. Apesar de ser um sinal de barbárie.
Mas, graças a ele, pode-se esclarecer:
"Não há qualquer referência, em lado algum, à punição como forma de aprendizagem para qualquer criança, com deficiência ou não", explica ao DN o professor de Educação Especial e Reabilitação da Universidade Técnica de Lisboa, David Rodrigues.(...) O acórdão só pode ser considerado , por isso, "um documento incompetente, arrogante e retrógrado."
E graças a ele sabe-se que há, apesar de tudo, bastante gente que se sente revoltada com esta vergonha e que não tem receio de o mostrar: David Rodrigues, Associação Pró-Ordem dos Psicólogos, Associação Portuguesa de Deficientes, Comissão dos Direitos Humanos da Ordem dos Advogados, UNICEF, Helena Garrido e todos os jornalistas que não hesitam em mostrar repúdio por aquelas ideias.
E isto, garanto-vos, é bom!
Porque as crianças neste miserável país estão indefesas face à brutalidade dos adultos.
Uma sugestão: arranjem um tempo para ler The History of Child Abuse por Lloyd deMause. Nunca mais a vão esquecer.
Maus tratos III
"- A minha mãe ontem partiu uma colher a bater-me.
- A tua mãe bate-te?
- Não, quem me bate é o meu pai."
X batia no filho com um cajado. Este, quando se tornou pai, achou aquilo uma brutalidade e, portanto, mais humanamente, batia nos seus filhos com tiras de pneu. Etc, etc.
O problema da regra de, no castigo fisico, usar de bom senso é que toda a gente acha que o tem e isso não é impedimento às maiores arbitrariedades. Principalmente naqueles que interiorizaram a violência de que foram vítimas na infância, que esqueceram a dor e a revolta sentidas na altura e que agora acham que foi bom terem-lhes batido.
Eu batia no meu filho. Pouco e justificadamente, pensava eu... quer dizer, a minha ex-mulher discordou sempre, ela nunca bateu no nosso filho.
Uma noite, depois de ter dado uma palmada e de o ter deitado (ele teria 2 ou 3 anos de idade), dou-me conta que ele não parava de chorar. Voltei ao quarto e perguntei-lhe porquê.
- Porque foste injusto!
- Mas tu fizeste isto e isto. (já não me lembro do que foi)
- Eu sei, mas foste injusto à mesma, eu não merecia!
E, de repente, percebi!
Não há nenhuma linha de fronteira entre o castigo físico e o mau trato.
Quando alguém que amamos e de quem esperamos amor nos bate, seja pai, mãe ou marido, isso é sempre maus tratos!
Além disso, eu pensava que não tinha ultrapassado essa ilusória linha... tal como X, ou o filho, ou o meu pai, ou... Quem me garantia a mim que eu estava certo? Para já, o meu filho e a mãe achavam que eu estava errado (como eu achei quando era eu que recebia na infância).
Percebi que estava a cair.
Fiz um acordo com o meu filho: se ele não voltasse a fazer aquilo eu nunca mais lhe batia. Não que eu esperasse que ele nunca mais o fizesse, afinal ele só tinha 2 ou 3 anos de idade. Não, o acordo era para mim, para eu não me deixar arrastar para aquilo que eu agora sabia ser uma violência.
Infelizmente, faltei à palavra, ainda lhe dei uma palmada uma vez numa birra. Mas, desde aí, nunca mais lhe bati. E querem saber uma coisa? Não fez falta nenhuma. Hoje é um filho impecável. O que, aliás, me leva a concluir que todas as palmadas que lhe dei anteriormente foram realmente a mais, foram realmente uma violência desnecessária.
Gostaria ainda de dizer que tenho escrito estes três posts com revolta mas também com uma invencível tristeza, porque sinto que sou impotente para explicar tudo isto de forma as pessoas entenderem.
Há um traço comum a quase todos os miúdos com comportamentos problemáticos, é que levam ou levaram dos pais. E ninguém percebe que é isso que os torna problemáticos. A raiva acumula-se, explode na escola, normalmente contra os mais fracos (que até podem ser professores). Um dia, quando eles já estão mais crescidos, os pais passam a ter medo de lhes bater e aí (ou tantas vezes muito antes) perdem a mão neles, porque não foi o respeito que lhes ensinaram a ter pelas coisas e pelas pessoas, foi o medo. E, com falta de sorte, é pelo medo que eles vão reger todas as suas vidas (e, tanto quanto lhes for permitido, as dos outros)...
- A tua mãe bate-te?
- Não, quem me bate é o meu pai."
X batia no filho com um cajado. Este, quando se tornou pai, achou aquilo uma brutalidade e, portanto, mais humanamente, batia nos seus filhos com tiras de pneu. Etc, etc.
O problema da regra de, no castigo fisico, usar de bom senso é que toda a gente acha que o tem e isso não é impedimento às maiores arbitrariedades. Principalmente naqueles que interiorizaram a violência de que foram vítimas na infância, que esqueceram a dor e a revolta sentidas na altura e que agora acham que foi bom terem-lhes batido.
Eu batia no meu filho. Pouco e justificadamente, pensava eu... quer dizer, a minha ex-mulher discordou sempre, ela nunca bateu no nosso filho.
Uma noite, depois de ter dado uma palmada e de o ter deitado (ele teria 2 ou 3 anos de idade), dou-me conta que ele não parava de chorar. Voltei ao quarto e perguntei-lhe porquê.
- Porque foste injusto!
- Mas tu fizeste isto e isto. (já não me lembro do que foi)
- Eu sei, mas foste injusto à mesma, eu não merecia!
E, de repente, percebi!
Não há nenhuma linha de fronteira entre o castigo físico e o mau trato.
Quando alguém que amamos e de quem esperamos amor nos bate, seja pai, mãe ou marido, isso é sempre maus tratos!
Além disso, eu pensava que não tinha ultrapassado essa ilusória linha... tal como X, ou o filho, ou o meu pai, ou... Quem me garantia a mim que eu estava certo? Para já, o meu filho e a mãe achavam que eu estava errado (como eu achei quando era eu que recebia na infância).
Percebi que estava a cair.
Fiz um acordo com o meu filho: se ele não voltasse a fazer aquilo eu nunca mais lhe batia. Não que eu esperasse que ele nunca mais o fizesse, afinal ele só tinha 2 ou 3 anos de idade. Não, o acordo era para mim, para eu não me deixar arrastar para aquilo que eu agora sabia ser uma violência.
Infelizmente, faltei à palavra, ainda lhe dei uma palmada uma vez numa birra. Mas, desde aí, nunca mais lhe bati. E querem saber uma coisa? Não fez falta nenhuma. Hoje é um filho impecável. O que, aliás, me leva a concluir que todas as palmadas que lhe dei anteriormente foram realmente a mais, foram realmente uma violência desnecessária.
Gostaria ainda de dizer que tenho escrito estes três posts com revolta mas também com uma invencível tristeza, porque sinto que sou impotente para explicar tudo isto de forma as pessoas entenderem.
Há um traço comum a quase todos os miúdos com comportamentos problemáticos, é que levam ou levaram dos pais. E ninguém percebe que é isso que os torna problemáticos. A raiva acumula-se, explode na escola, normalmente contra os mais fracos (que até podem ser professores). Um dia, quando eles já estão mais crescidos, os pais passam a ter medo de lhes bater e aí (ou tantas vezes muito antes) perdem a mão neles, porque não foi o respeito que lhes ensinaram a ter pelas coisas e pelas pessoas, foi o medo. E, com falta de sorte, é pelo medo que eles vão reger todas as suas vidas (e, tanto quanto lhes for permitido, as dos outros)...
quarta-feira, abril 12, 2006
Maus tratos II
Quais as consequências de se ser vítima de castigos físicos na infância? São tantas... Não se iludam: cada uma das que se apresentam a seguir tem mundos de sofrimento, de confusão e de solidão dentro de si.
• Medo, medo que se entranha dentro de nós e que nunca mais nos larga: medo de sentir, medo dos outros, medo de gostar, medo de arriscar, medo de escolher ou de decidir, medo de se estar contente, etc, etc.
• Perda da capacidade de empatia e de compaixão pelos outros, tal é a raiva, a fúria e o medo que geram em nós os castigos físicos.
• Impulso cego para os infligir indiscriminadamente aos outros, normalmente aos filhos pequenos e a outros seres indefesos.
• Fascínio (também político) pelas figuras de autoridade suicidariamente castigadoras e implacáveis (associado muitas vezes à incapacidade de lhes fazer frente).
• Do castigo físico à violência, qual a fronteira? Para quem os sofreu é praticamente impossível sabê-lo. Se estiver muito atento descobri-lo-á pela destruição que espalha em seu redor... E que, se tiver sorte, se voltará contra si próprio, permitindo-lhe, talvez, parar.
• A sensação de que não prestamos para nada. E como lutamos contra esse sentimento: diminuindo os outros (tantas vezes de forma tão violenta!) ou não nos atrevendo a sair dum medíocre anonimato.
• Medo, medo que se entranha dentro de nós e que nunca mais nos larga: medo de sentir, medo dos outros, medo de gostar, medo de arriscar, medo de escolher ou de decidir, medo de se estar contente, etc, etc.
• Perda da capacidade de empatia e de compaixão pelos outros, tal é a raiva, a fúria e o medo que geram em nós os castigos físicos.
• Impulso cego para os infligir indiscriminadamente aos outros, normalmente aos filhos pequenos e a outros seres indefesos.
• Fascínio (também político) pelas figuras de autoridade suicidariamente castigadoras e implacáveis (associado muitas vezes à incapacidade de lhes fazer frente).
• Do castigo físico à violência, qual a fronteira? Para quem os sofreu é praticamente impossível sabê-lo. Se estiver muito atento descobri-lo-á pela destruição que espalha em seu redor... E que, se tiver sorte, se voltará contra si próprio, permitindo-lhe, talvez, parar.
• A sensação de que não prestamos para nada. E como lutamos contra esse sentimento: diminuindo os outros (tantas vezes de forma tão violenta!) ou não nos atrevendo a sair dum medíocre anonimato.
Maus tratos... legais!?
Li no Murcon e aqui!
Não posso acreditar! Nós somos atrasados e incivilizados, eu sei, mas ao nível do Supremo!!?? Não dar estaladas e palmadas pode configurar "negligência educacional"!!!???
No Murcon pus este comentário:
Vamos admitir que as estaladas são aceitáveis com o objectivo de "aplicar educação" (expressão que agradeço a noiseformind num comentário lá em cima).
Partamos também do princípio que aqui não há cobardes que defendam o castigo físico só para os mais fracos, a saber as crianças. Não, há que ser íntegro: se aceitamos a bondade dos castigos físicos, então é para todos (mesmo para os Senhores Juízes).
Admitido tudo isto, ponhamos agora uma situação:
Todos nós excedemos a velocidade permitida repetidas vezes. Sabemos que estamos a brincar estupidamente com as vidas dos outros (como as estatísticas de mortos anuais em acidentes de viação no-lo mostram).
Temos aqui uma situação grave que mais do que justifica (no mínimo) umas boas estaladas dadas por um alentado GNR a todos nós que excedermos a velocidade permitida... para "aplicar educação" a quem não a tem, claro!
Certo?
Por mim respondo: errado! Porque qualquer vantagem que elas possam trazer, nunca compensam a devastação que arrastam atrás de si.
Nem os Senhores Juizes do Supremo Tribunal de Justiça, nem as crianças, ninguém merece sofrer castigos físicos, seja qual for o motivo!
Não posso acreditar! Nós somos atrasados e incivilizados, eu sei, mas ao nível do Supremo!!?? Não dar estaladas e palmadas pode configurar "negligência educacional"!!!???
No Murcon pus este comentário:
Vamos admitir que as estaladas são aceitáveis com o objectivo de "aplicar educação" (expressão que agradeço a noiseformind num comentário lá em cima).
Partamos também do princípio que aqui não há cobardes que defendam o castigo físico só para os mais fracos, a saber as crianças. Não, há que ser íntegro: se aceitamos a bondade dos castigos físicos, então é para todos (mesmo para os Senhores Juízes).
Admitido tudo isto, ponhamos agora uma situação:
Todos nós excedemos a velocidade permitida repetidas vezes. Sabemos que estamos a brincar estupidamente com as vidas dos outros (como as estatísticas de mortos anuais em acidentes de viação no-lo mostram).
Temos aqui uma situação grave que mais do que justifica (no mínimo) umas boas estaladas dadas por um alentado GNR a todos nós que excedermos a velocidade permitida... para "aplicar educação" a quem não a tem, claro!
Certo?
Por mim respondo: errado! Porque qualquer vantagem que elas possam trazer, nunca compensam a devastação que arrastam atrás de si.
Nem os Senhores Juizes do Supremo Tribunal de Justiça, nem as crianças, ninguém merece sofrer castigos físicos, seja qual for o motivo!
quinta-feira, abril 06, 2006
Anais Nin
Acabei há uns dias “Henry & June, do diário íntimo de Anais Nin” (Ed. Presença). Uma leitura que me abalou profundamente, ainda não sei exactamente (até) onde:
(a) Na revelação de uma pessoa que usa e abusa dos homens, às vezes de forma deliberada e intencional (como com Allendy), outras vezes mais inconscientemente (como com Hugo)?
(b) Na estranheza de eu não conseguir empatizar com a narradora, mas sim com um dos seus “personagens” (Hugo, o marido), ainda por cima nem sequer o mais bem visto?
(c) Na surpresa que vem do facto de a relação com o homem que ela ama apaixonadamente (Henry Miller) se começar a degradar dentro de si própria por causa de um pequeno episódio de impotênca por parte dele (páginas 151 e seguintes) – o que revela uma inesperada pequenez (ou insegurança?) por parte dela?
(d) Naquilo que me parece ser o seu fascínio pela agressividade, força e brutalidade da masculinidade de Henry Miller? E na sua profunda desilusão quando o mesmo H.M. revela facetas mais frágeis, inseguras e infantis?
(e) Na revelação de uma incapacidade de vivência de um desejo liberto de sombras? (Alguma vez isto é possível, mesmo no coração de uma juventude que nunca chegou a existir, pergunto-me eu?)
(a) Na revelação de uma pessoa que usa e abusa dos homens, às vezes de forma deliberada e intencional (como com Allendy), outras vezes mais inconscientemente (como com Hugo)?
(b) Na estranheza de eu não conseguir empatizar com a narradora, mas sim com um dos seus “personagens” (Hugo, o marido), ainda por cima nem sequer o mais bem visto?
(c) Na surpresa que vem do facto de a relação com o homem que ela ama apaixonadamente (Henry Miller) se começar a degradar dentro de si própria por causa de um pequeno episódio de impotênca por parte dele (páginas 151 e seguintes) – o que revela uma inesperada pequenez (ou insegurança?) por parte dela?
(d) Naquilo que me parece ser o seu fascínio pela agressividade, força e brutalidade da masculinidade de Henry Miller? E na sua profunda desilusão quando o mesmo H.M. revela facetas mais frágeis, inseguras e infantis?
(e) Na revelação de uma incapacidade de vivência de um desejo liberto de sombras? (Alguma vez isto é possível, mesmo no coração de uma juventude que nunca chegou a existir, pergunto-me eu?)
quarta-feira, abril 05, 2006
sexta-feira, março 24, 2006
Sufoco
Aqui, neste lugar estreito, as pessoas acreditam que, para se afirmarem, têm de fazer o deserto à sua volta, isto é, têm de destruir tudo o que os outros fizeram (real ou metaforicamente). Desde o canalizador à investigadora universitária.
No entanto, nenhuma obra nasce do nada, nenhum saber é propriedade exclusiva de um só; na verdade, tudo o que somos e fazemos não o seríamos nem o faríamos sem os outros. É da mais elementar evidência que o mérito de algo que eu consiga fazer não me pertence em exclusivo... mas raríssimos são os que fazem a justiça de o admitir. Terão consciência, ou a suspeita de que a sua obra é medíocre, pelo que só brilhará se diminuirem ou fizerem desaparecer todas as outras?
Atravesso o dia a ouvir dizer mal do que os outros são, do que fazem e do que não fazem: pessoas a escorrer veneno e raiva, pessoas a usar o seu pequeno poder para desagregar e ferir.
País triste e amargo.
No entanto, nenhuma obra nasce do nada, nenhum saber é propriedade exclusiva de um só; na verdade, tudo o que somos e fazemos não o seríamos nem o faríamos sem os outros. É da mais elementar evidência que o mérito de algo que eu consiga fazer não me pertence em exclusivo... mas raríssimos são os que fazem a justiça de o admitir. Terão consciência, ou a suspeita de que a sua obra é medíocre, pelo que só brilhará se diminuirem ou fizerem desaparecer todas as outras?
Atravesso o dia a ouvir dizer mal do que os outros são, do que fazem e do que não fazem: pessoas a escorrer veneno e raiva, pessoas a usar o seu pequeno poder para desagregar e ferir.
País triste e amargo.
domingo, março 19, 2006
Teresa Balté
Autodidáctica
Contantemente aprende, conhece-te, define-te, sê persistente, procura o teu caminho, só teu, o autêntico; não te desvies, não te enganes a ti mesmo, não imites os outros nem te imites, se ouvires o chamamento não te escondas, segue a voz em ti, ousa-te. Como dizer "sê tu" sensatamente? Como prever catástrofes futuras? Confia; nada tens a perder senão a vida, e se foste tu não te perdeste. Mas se entretanto te descobrires poeta, não te deixes vencer pela melancolia.
(Um dos textos sob o título "Brevíssimas para o que não será Uma Carta a um Jovem Poeta", no JL 924 de 1 de Março de 2006. Teresa Balté publicou agora Poesia Quase Toda nas ed. Asa.)
Digo eu: tão difícil, tão difícil...
Contantemente aprende, conhece-te, define-te, sê persistente, procura o teu caminho, só teu, o autêntico; não te desvies, não te enganes a ti mesmo, não imites os outros nem te imites, se ouvires o chamamento não te escondas, segue a voz em ti, ousa-te. Como dizer "sê tu" sensatamente? Como prever catástrofes futuras? Confia; nada tens a perder senão a vida, e se foste tu não te perdeste. Mas se entretanto te descobrires poeta, não te deixes vencer pela melancolia.
(Um dos textos sob o título "Brevíssimas para o que não será Uma Carta a um Jovem Poeta", no JL 924 de 1 de Março de 2006. Teresa Balté publicou agora Poesia Quase Toda nas ed. Asa.)
Digo eu: tão difícil, tão difícil...
domingo, março 12, 2006
Dia Internacional da Mulher (8 de Março)
Bread and Roses
As we go marching, marching, in the beauty of the day,
A million darkened kitchens, a thousand mill lofts gray,
Are touched with all the radiance that a sudden sun discloses,
For the people hear us singing: Bread and Roses! Bread and Roses!
As we go marching, marching, we battle too for men,
For they are women's children, and we mother them again.
Our lives shall not be sweated from birth until life closes;
Hearts starve as well as bodies; give us bread, but give us roses.
As we go marching, marching, unnumbered women dead
Go crying through our singing their ancient call for bread.
Small art and love and beauty their drudging spirits knew.
Yes, it is bread we fight for, but we fight for roses too.
As we go marching, marching, we bring the greater days,
The rising of the women means the rising of the race.
No more the drudge and idler, ten that toil where one reposes,
But a sharing of life's glories: Bread and roses, bread and roses.
Our lives shall not be sweated from birth until life closes;
hearts starve as well as bodies; bread and roses, bread and roses.
(lá longe, oiço a Judy Collins a cantar esta belíssima marcha...)
As we go marching, marching, in the beauty of the day,
A million darkened kitchens, a thousand mill lofts gray,
Are touched with all the radiance that a sudden sun discloses,
For the people hear us singing: Bread and Roses! Bread and Roses!
As we go marching, marching, we battle too for men,
For they are women's children, and we mother them again.
Our lives shall not be sweated from birth until life closes;
Hearts starve as well as bodies; give us bread, but give us roses.
As we go marching, marching, unnumbered women dead
Go crying through our singing their ancient call for bread.
Small art and love and beauty their drudging spirits knew.
Yes, it is bread we fight for, but we fight for roses too.
As we go marching, marching, we bring the greater days,
The rising of the women means the rising of the race.
No more the drudge and idler, ten that toil where one reposes,
But a sharing of life's glories: Bread and roses, bread and roses.
Our lives shall not be sweated from birth until life closes;
hearts starve as well as bodies; bread and roses, bread and roses.
(lá longe, oiço a Judy Collins a cantar esta belíssima marcha...)
domingo, março 05, 2006
Por uma vez gostaria de encontrar pessoas modestas, pessoas com quem eu me pudesse sentar, no chão de preferência, abandonado e sem ter que manter nenhuma pose. Alguém com quem falar de pássaros e de sol, sem ter de ser profundo ou engraçado. Pessoas com quem ter uma conversa modesta, uma amizade modesta, tudo nada de especial mas, mesmo assim, tudo simples e seguro.
Escreveste um texto. Descobres depois que a ideia já foi desenvolvida por outro, que há até frases quase plagiadas. É o asco, a repulsa.
Atrever-te-ás a eliminar tudo o que é suspeitosamente parecido, o texto todo se necessário? Não o farás: com aquela esperança trémula de não seres descoberto que, na infância, prenunciava o desastre mais humilhante. E fatal...
Atrever-te-ás a eliminar tudo o que é suspeitosamente parecido, o texto todo se necessário? Não o farás: com aquela esperança trémula de não seres descoberto que, na infância, prenunciava o desastre mais humilhante. E fatal...
quinta-feira, março 02, 2006
"Recordo-me de como eu lhe disse uma vez que se paga um preço por ser-se bom tal como se paga por ser-se mau; há um preço a pagar. E são os homens bons que não podem recusar a factura quando ela aparece. Não a podem recusar porque não há maneira de os obrigarem a pagá-la, tal como um homem honesto que joga à sorte. Os homens maus podem recusá-la; é por isso que ninguém espera deles que paguem à vista ou noutra altura qualquer. Mas o bom não pode. Talvez leve mais tempo ser-se bom do que ser-se mau. (...)"
William Faulkner, A Luz em Agosto
William Faulkner, A Luz em Agosto
quarta-feira, março 01, 2006
domingo, fevereiro 26, 2006
Amiga
Ao ler este post da Maria Heli comecei a pensar no que seria um(a) amigo(a) para mim.
Depois esforcei-me por não me deixar enredar por frases feitas ou bonitinhas, isto é, procurei o mais autêntico em mim...
...e nos amigos que tenho (a quem devo as definições seguintes e que acabam por constituir uma cartografia do meu universo de amizades).
Não sei se consegui.
Eis o resultado:
Uma amiga...
... é alguém a quem não pedimos que escolha, alguém que nem sequer tem de escolher, mas que, mesmo assim, nos escolhe a nós.
... é aquela que nos diz: a ti clonava-te!
... é a pessoa acerca de quem nos perguntamos frequentemente: será que estou a ser um bom amigo para ela? E se a resposta se aproxima da negativa, o nosso sentimento de culpa é avassalador.
... é alguém que, quando nos fala, nós ficamos a saber que o dia mudou e mudou para melhor!
... é alguém que nos diz: não estás só, a porta da minha casa está aberta para ti!
Depois esforcei-me por não me deixar enredar por frases feitas ou bonitinhas, isto é, procurei o mais autêntico em mim...
...e nos amigos que tenho (a quem devo as definições seguintes e que acabam por constituir uma cartografia do meu universo de amizades).
Não sei se consegui.
Eis o resultado:
Uma amiga...
... é alguém a quem não pedimos que escolha, alguém que nem sequer tem de escolher, mas que, mesmo assim, nos escolhe a nós.
... é aquela que nos diz: a ti clonava-te!
... é a pessoa acerca de quem nos perguntamos frequentemente: será que estou a ser um bom amigo para ela? E se a resposta se aproxima da negativa, o nosso sentimento de culpa é avassalador.
... é alguém que, quando nos fala, nós ficamos a saber que o dia mudou e mudou para melhor!
... é alguém que nos diz: não estás só, a porta da minha casa está aberta para ti!
sexta-feira, fevereiro 24, 2006
É assim...
Aqui encontram uma das razões porque chego a casa exausto, depois de um dia de trabalho na escola, sem força nem disponibilidade para ir sequer à net ou à caixa do correio, quanto mais aos blogues. Por favor, leiam, tomem conhecimento. E ajudem. Se puderem. Nós, os professores, não sabemos o que fazer.
terça-feira, fevereiro 07, 2006
Manias
A MaDi propõe-me o desafio das 5 manias. E eu aceito-o.
Primeiro que tudo, fui ao dicionário:
Mania:
"do Lat. mania < Gr. manía, loucura
s. f., espécie de perturbação ou excitação caracterizada por aferro a uma ideia fixa;
fig., mau costume; desejo imoderado, excessivo; excentricidade, esquisitice, extravagância".
E pensei: eu não tenho manias que cheguem a 5! Bom, a verdade é que já vou em 13!
Não se assustem, divulgo apenas uma espécie de Greatest Hits, para não chatear.
E introduzo uma inovação: indico aqueles que eu sei, ou suspeito, que mais se queixam delas.
Cá vão as manias de:
1 - Me levantar e ir trabalhar excessivamente cedo (colegas de trabalho);
2 - Dar sermões (o meu filho e os meus alunos);
3 - Usar o telemóvel com alguma (na minha opinião) parcimónia (os meus amigos);
4 - Considerar sempre injustificado o bater-se em crianças (toda a gente, excepto as crianças);
5 - Provocar acidentes por cumprir as regras de trânsito... bem, e às vezes por não as cumprir (os outros condutores)!
De repente, sou assaltado por uma dúvida: será que adquiri mais duas novas manias, a de continuar a minha lista privada e a de descobrir a dos outros?
Primeiro que tudo, fui ao dicionário:
Mania:
"do Lat. mania < Gr. manía, loucura
s. f., espécie de perturbação ou excitação caracterizada por aferro a uma ideia fixa;
fig., mau costume; desejo imoderado, excessivo; excentricidade, esquisitice, extravagância".
E pensei: eu não tenho manias que cheguem a 5! Bom, a verdade é que já vou em 13!
Não se assustem, divulgo apenas uma espécie de Greatest Hits, para não chatear.
E introduzo uma inovação: indico aqueles que eu sei, ou suspeito, que mais se queixam delas.
Cá vão as manias de:
1 - Me levantar e ir trabalhar excessivamente cedo (colegas de trabalho);
2 - Dar sermões (o meu filho e os meus alunos);
3 - Usar o telemóvel com alguma (na minha opinião) parcimónia (os meus amigos);
4 - Considerar sempre injustificado o bater-se em crianças (toda a gente, excepto as crianças);
5 - Provocar acidentes por cumprir as regras de trânsito... bem, e às vezes por não as cumprir (os outros condutores)!
De repente, sou assaltado por uma dúvida: será que adquiri mais duas novas manias, a de continuar a minha lista privada e a de descobrir a dos outros?
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