domingo, março 20, 2005

Dia Internacional da Mulher

A acabar o período das avaliações e estou de volta. Com atraso, porque queria muito escrever no Dia Internacional da Mulher. Não consegui, mas vou passar para escrito (condensado) o que procurei transmitir aos meus alunos.
"O Dia Internacional da Mulher existe e é terrivelmente necessário que exista para lembrar às pessoas que há infinitamente mais mulheres que homens :
- a serem vítimas de violência doméstica e de violência social (exemplo desta? A mutilação genital feminina). Nota: sobre o tema mais geral da violência sobre todas as pessoas, não apenas sobre as mulheres, recomendo o site português Violencia.online;
- a serem vítimas de tráfico e de exploração da prostituição;
- a serem impedidas de ter acesso a iguais direitos no campo do emprego (e infelizmente também no campo da educação): por exemplo nos direitos a iguais oportunidades a obter emprego e a receber remuneração idêntica;
- a serem penalizadas (até ao despedimento) pelo nascimento de filhos;
- a serem impedidas de acederem a cargos públicos, políticos, ou impedidas até de simplesmente votarem;
- a serem submetidas a disposições penais mais pesadas;
- a quem não são concedidas, em questões civis, nem capacidades legais idênticas, nem oportunidades idênticas de as exercerem;
- a quem não são garantidos os mesmos direitos e responsabilidades em matéria de casamento e relações familiares;
- a quem não é garantido um igual tratamento perante a lei."
(Baseado no site A Mulher no Direito Internacional)

Pergunta final dirigida a um aluno que brincava com isto: "Nas coisas da casa, quem trabalha mais, tu ou a tua irmã?" Resposta acompanhada de um encolher de ombros: "Claro que a minha irmã!"
Ora aqui há muito que pode ser feito por todos nós em nossas casas!

sábado, março 05, 2005

Corrigir testes (de matemática)!

Sobra muito pouca poesia durante e depois desta tarefa (a propósito, estou a escrever isto antes). É a tarefa escolar mais cilindradora que existe, esmaga a inteligência e a sensibilidade de qualquer professor normal.
Mas tudo o que tem a ver com os testes é repulsivo. Fazer o teste que, sabemo-lo, vai ser fonte de sofrimento e angústia para um número significativo de alunos. Dá-los para os alunos o realizarem enquanto se se é obrigado a fazer o papel de polícia, porque a única alternativa é fazer o papel de parvo (dos dois... bem, eu opto por fazer um bocadinho de cada).
E finalmente corrigi-los! E um dia lindo lá fora! Oh Deus, que tarefa longa, chata e mortífera (como a espada do D. Afonso Henriques!...)! Tchau, cá vou...

domingo, fevereiro 27, 2005

O meio do dia

O meio do dia, as nuvens que poderiam pressagiar desgraças se não corressem tão rapidamente em direcção ao mar, deixando para trás olhos molhados de gaivotas que não partem.
As vozes que me aprisionam, um coração dentro do peito e dorido porque não voa apesar de eu perguntar, perguntar tanto.
A pedra na minha mão, histórias de naufrágios, olhos cansados, o telemóvel vazio, sem luz.
Deitado de encontro à memória triste da violência, esgravato o meu futuro próximo de onde caem pequenas bagas de sabor acre, sonhos de outras maçãs doces realmente nunca comidas mas que chamam por mim quando volto a cara para o céu e para o vento de cabelos sem dona. De onde se desprende um gesto salgado pelo medo e um som de pressentida ternura.

Amor(es)

Não vos faz confusão que, para cada pessoa, seja tão difícil definirmos o que sentimos por ela?
Esta faz-nos sentir melhores do que somos quando estamos ao pé dela, mas longe dela com facilidade a esquecemos.
Por aquela sentimos ternura e desejo, mas nem pensar numa vida a dois.
Aqueloutra faz-nos sentir verdadeiramente apaixonados, sofremos quando estamos afastados, mas é uma paixão de que o desejo está completamente ausente.
Bom, e eu diria que as variações não têm fim, isto apenas no domínio do amor. Mas até esta divisão entre amor e amizade é completamente artificial, porque são tantas as vezes que não conseguimos traçar uma fronteira nítida entre os dois!
Tudo isto é um bocado para o confuso mas, reconheçamo-lo, também tem a sua piada.

O deus das pequenas coisas?

Um episódio que encontrei há muitos anos num livrinho de um escritor italiano (Elio Vittorini?, Vasco Pratolini?, não me lembro):
Trata-se de um camionista que está prestes a violar uma rapariga a quem deu boleia, quando descobre que ela tem as meias rotas. Isso fá-lo parar porque, de repente, esse pormenor triste comove-o profundamente. A partir daí, mesmo esbarrando na raiva e na desconfiança da rapariga, ele não consegue parar de ser carinhoso para ela.

sábado, fevereiro 19, 2005

A raiva

A raiva no mais escondido das pessoas.

Existe tanta. À vista? Claramente sim nos miúdos. Escondida, negada, mascarada nos adultos.

Ela surge-me quando opto por não ser franco e, assim, condescendo com a minha fraqueza, com o abuso dos outros; quando, para evitar o conflito, procuro a distância impossível de conseguir; quando distribuo mágoa em vez de carinho; quando, ao espelho ou nos outros, vejo aquilo que em mim detesto.

História sem moral

"Um monge chinês apaixonou-se por uma bela cortesã que lhe disse: espera aqui mil noites, debaixo da minha janela. Na 999ª noite, o monge pegou no seu banquinho e foi-se embora."

Mil razões.

Sei que não aguento, principalmente se estiver mesmo apaixonado, nem 9 noites, quanto mais 999. Por isso faço batota: de vez em quando escapo-me. Mas como sou mais ou menos honesto, já não volto a trazer o banquinho, limito-me a passar por baixo da janela.

47 anos. Separado. Um filho. Sem namoradas.

47 anos. Assusta-me o pouco que me falta para morrer (já falei disto). É estúpido, eu sei. Dado que nunca sabemos quando morremos, a verdade é que pode faltar sempre pouco para morrer. Ou: é sempre infinita a distância entre existir-me vivo e não me existir morto. Não há consolo em nenhum destes pensamentos antagónicos. 47 anos. É um facto. Mas, pensando bem, não é mais do que isso: um facto completamente estúpido e vulgar.

Separado. Uma oportunidade para a esperança florir de novo.

Um filho. O amor absoluto. E, ao mesmo tempo, as músicas, os amigos, os colegas, as raparigas, tudo o que alonga e estreita a passagem para uma proximidade comigo. Para depois voltar?

Sem namoradas. Gosto mesmo desta palavra. E assim é que vai ser: não vou ter amantes, nem companheiras, nem apaixonadas, mas sim uma namorada: eternamente bela e irresistível!

Seja o que for que o futuro me reserve, desejaria imenso (como diz Fernando Nobre nas suas "Viagens contra a Indiferença"), desejaria imenso que a minha vida constituísse uma gota de orvalho na terra seca pelo egoísmo ou pela dor dos seres com quem me cruzo e me relaciono. Simplesmente isso.

sábado, fevereiro 12, 2005

"Mais vale ser a cabeça de um ratinho do que o rabo de um elefante"

Leio esta frase e percebo logo que este é um dos poucos lemas que eu preciso mesmo fazer meu.
Que eu não sou elefante, nem nunca serei, é óbvio.
Há é uma questão que se (me) põe e que é o desafio explícito da frase (e do contexto onde ela aparece): conseguirei alguma vez ser a cabeça do ratinho?

A frase surge no livro "Viagens contra a Indiferença" (os direitos de autor revertem para a AMI) do seu fundador, Fernando Nobre, na página 78 e pertence a um "cirurgião Alexis Kostritski, peruano de origem russa". Poderei acrescentar que é um livro de leitura essencial?

sexta-feira, fevereiro 11, 2005

Rostos

Hoje gostaria de falar de rostos.
Não serei capaz de dizer muito mais e melhor do que Eduardo Prado Coelho no Público de hoje(*). Haverá uma nesga deixada livre?
Primeiro explico-me: um corpo belo atrai-me o olhar sem dúvida, mas o que me deixa fascinado, escravizado mesmo (não estou a exagerar) é o rosto.
Fixo-me nos olhos e na boca, depois no cabelo, no nariz, nas orelhas, na pele, nos pêlos. Mas volto sempre aos olhos e à boca. Porque aí está um caleidoscópio de promessas de uma plenitude feita de beleza e de aventura.
O facto de eu saber, embora não veja, que há muito aqui de ilusão, que a pessoa por detrás daquele rosto ao qual me encontro para sempre ligado sofre, é mesquinha, tem medo e o medo torna-a mais pequena do que ela é e promete ser, tudo isso apenas torna toda a minha contemplação mais fascinada!

(*) Já não está online. Com a devida vénia copio a parte do texto a que aqui me refiro:
"Que é um rosto? É algo em que se concentra o que há de mais íntimo e subtil de um corpo - mas, sobretudo, de um ser. No rosto, desenham-se sons inexprimíveis, vozes murmuradas, coros que são florestas. Existem elementos passivos, como o nariz e as orelhas, e factores activos, como a boca e os olhos. É no plano dos factores activos que encontramos uma escrita quase invisível, uma proliferação de sinais: um simples arquear da sobrancelha e há uma altivez que se ergue; uns olhos que se semicerram e há uma tentativa de compreensão; um olhar que se abre, atónito, e sente-se que o espanto rasga o rosto.
E a boca? Não há nela o mesmo encostar-se à espiritualidade, porque é feita de lábios e de uma língua que se esconde. Quando a língua se mostra, entramos no domínio da provocação, do insulto, da delinquência facial. Mas os lábios exprimem a ternura ou avaliam a capacidade de devoração. E por eles passa esse elemento inqualificável, esse sopro de vida, que é a voz. E por ele se respira até ao limiar da morte, que é o último suspiro.
Contudo, um rosto é acima de tudo um olhar de infinito onde penetramos com uma suavidade nupcial. Um infinito que passa por uma ruga, uma crispação, uma cintilação. Por uma física do infinito. Como é, maior do que todas, no seu rolar de absolutos divinos, a música de Bach."(Eduardo Prado Coelho)

domingo, fevereiro 06, 2005

Fragmentos

A chuva molha a alma com a tinta da solidão.

Sou folha amarrotada que
o vento deixou cair
no lado abandonado do cais.

O beijo tem fome de riso.

Na face fria da manhã de Inverno
O brilho de neve dos teus olhos.

A felicidade não é ser-se feliz, é conseguir sonhar activamente que se vai ser feliz.

quarta-feira, fevereiro 02, 2005

47 anos

O tempo que tens à tua frente é pouco? Pouco para quê? Ou pior: é/está vazio?
Não tenho respostas. Ao fim de 47 anos é obra.

domingo, janeiro 30, 2005

O pior inimigo

Quando somos inimigos de nós mesmos ninguém no mundo nos pode salvar, nem sequer defender.

Amor correspondido

Queremos que o nosso amor seja correspondido da mesma forma como amamos.
Quereremos mesmo?
1º Porque uma das coisas que mantém o amor vivo é a descoberta do outro diferente, bem como a surpresa face aos modos que ele encontra de nos amar.
2º Quando amo, desejo, e não me desejo a mim mas o outro; logo, poderei amar alguém que ame como eu?
3º Eu sei lá realmente como é que amo! Sei (mais ou menos) como desejaria ser amado. A verdade é que às vezes nem sei se amo muito ou pouco, isto é, em simples quantidade, quanto mais em qualidade!

Gripe

Gripe = plenitude de estar vulnerável (comigo mesmo) sem sentimentos de culpa ou de medo.

O amor nunca é simples

Quando me apaixono nunca sei se me estou a apaixonar pela mulher ou pelo que nela ilumina o melhor de mim.
A dúvida: o meu amor por ela será mais do que um sentimento agradecido pela sua dádiva de um eu mais alto?

("Talvez não se ame uma mulher ou um homem, mas o amor neles.", João Bonifácio, Mil Folhas, Público, 29/1/05)

sábado, janeiro 29, 2005

Estou contente

Estou contente de estar sozinho. Não telefono, não marco encontros, não aprofundo contactos humanos e sinto-me leve e satisfeito.
A verdade é que aproveito o impulso natural das pessoas nas relações pouco profundas para mostrarem apenas o melhor de si próprias.
Evito assim que a fealdade do mundo se sobreponha à beleza da vida (ninguém adquire o poder de estragar o meu olhar).

sexta-feira, janeiro 28, 2005

Humor na sala de aula

Quando os alunos me perguntam coisas da matéria ou dos exercícios eu procuro não lhes dar a resposta directa a fim de que eles pensem e possam lá chegar por eles próprios. Assim aconteceu com a Carolina (nomes fictícios). E diz ela:"Oh meu Deus, então como vou fazer isto?" Intervém o Estevão: "Caramba Carolina, não é preciso exagerar, afinal ele é só um professor!"

segunda-feira, janeiro 24, 2005

Non Ti Muovere

Porquê a crueldade dos homens a fazer sofrer as mulheres?
Porque são eles incapazes de amarem?
Ou ainda porque é que acabam a amarem-se a si próprios através delas?
Para estas e outras interrogações (comovidas), mas sem respostas, "Não Te Movas" de Sergio Castellito.

domingo, janeiro 23, 2005

As mulheres

As mulheres
que não nos telefonam, que não nos olham, que não nos respondem, que não nos escrevem,
que não se voltam, que não se sorriem, que não se despem, que não se entregam,
que não nos reclamam,
que não nos consideram