quarta-feira, abril 19, 2006

19 de Abril de 1506

500 anos de um massacre de milhares de pessoas em Lisboa, por razões que só a mais extrema estupidez poderia encontrar.
Hoje, por todo o país, ardem milhares de velas pelas vítimas.
Obrigado, Nuno Guerreiro!

Excelente...

... Groucho! Muito obrigado por esta descrição do "Estado de Excepção"!

domingo, abril 16, 2006

D'este Viver Aqui Neste Papel Descripto

Não há nada, não há praticamente episódios nenhuns, nem história, nem histórias, nada.
Mas é deste quase nada que ele escreve os seus aerogramas, do desespero e, principalmente, do grande amor que António Lobo Antunes dedicava à mulher.
E eu comovo-me com a sua juventude amarga que transparece nestas cartas.

Mas há algo que perturba permanentemente a minha leitura: as declarações de amor absoluto e eterno, sempre implícitas e explícitas em todas as cartas.
O problema é que eu sei, todos sabemos, que ele se separa da mulher 5 anos depois.

Separação "estúpida", como reitera várias vezes em "Conversas com António Lobo Antunes", de María Luisa Blanco, p.57 e 58.
E "Ela nunca voltou a viver com ninguém pensando que eu ia voltar."

Assusta-me a extrema fragilidade das coisas, dos sentimentos.
E a dor.
No amor andamos sempre no fio da navalha.

sábado, abril 15, 2006

Que delícia!

Beatriz Costa: "Quando quero chorar, penso na minha vida sexual. Quando quero rir, também."

(citada no Público de hoje, a propósito dos dez anos da sua morte)

sexta-feira, abril 14, 2006

Maus tratos V

Porque a questão essencial tem de se pôr nos seguintes termos:

Se é inaceitável um adulto levar uma estalada seja por que motivo for (educativo, político ou criminal), porque é que para tanta gente isso já parece aceitável se for com uma criança?

Porque é que no estabelecimento de limites àquilo que um adulto faz é inadmissível a violência, mas na criança até se considera defensável (como o mostraram os Srs. Juízes do Supremo)?

Há que perguntar às pessoas: acham que aquilo que é humilhante para um adulto, não o é para uma criança? Porquê?

Será que acham que as crianças têm menos sentimentos e emoções que os adultos? Ou que têm menos sentido de dignidade pessoal? Ou, ainda, que têm menos sensibilidade que um adulto?

Para o dizer franca e brutalmente: será que acham que as crianças são menos seres humanos que os adultos? E que, por isso, devem ter menos direitos?

Dizem-me: as crianças são seres em formação. Respondo: também os adultos o são, mesmo que o não queiram ser.

Dizem-me: são seres que muitas vezes não vêem as consequências do que fazem. Respondo: também os adultos não vêem (e, infelizmente, com consequências igualmente graves: basta reparar em como as pessoas se enganam desgraçadamente seja a conduzir um carro, seja a comer ou a beber, seja a apoiar uma guerra no Iraque, etc).

Dizem-me: batemos-lhes para bem deles. Respondo: isso também se pode aplicar aos adultos.

Não, realmente a questão essencial, donde nasce tudo o que pudermos pensar e discutir sobre este assunto dos castigos corporais nas crianças, é esta:

As crianças são menos seres humanos que os adultos?

quinta-feira, abril 13, 2006

Maus tratos IV

"Na educação do ser humano justifica-se uma correcção moderada que pode incluir alguns castigos corporais ou outros. Será utópico pensar o contrário e cremos bem que estão postas de parte, no plano científico, as teorias que defendem a abstenção total deste tipo de castigos moderados.". A conclusão é dos juízes do Supremo Tribunal de Justiça (STJ) - relator João Bernardo e juízes Pires Salpico, Henriques Gaspar e Políbio Flor (...)
(no Diário de Notícias de hoje)

Sem qualquer espécie de ironia devo dizer que me sinto grato a estes Srs. Juízes.
Eu sei, este acórdão é uma vergonha para Portugal.
Também sei que os portugueses, na sua esmagadora maioria, de classes altas ou baixas, cultas ou incultas, se fossem inquiridos anonimamente, concordariam com ele. Pelo que o referido acórdão é, no fundo, expressão daquilo que quase toda a gente considera razoável e aceitável. Apesar de ser um sinal de barbárie.
Mas, graças a ele, pode-se esclarecer:

"Não há qualquer referência, em lado algum, à punição como forma de aprendizagem para qualquer criança, com deficiência ou não", explica ao DN o professor de Educação Especial e Reabilitação da Universidade Técnica de Lisboa, David Rodrigues.(...) O acórdão só pode ser considerado , por isso, "um documento incompetente, arrogante e retrógrado."

E graças a ele sabe-se que há, apesar de tudo, bastante gente que se sente revoltada com esta vergonha e que não tem receio de o mostrar: David Rodrigues, Associação Pró-Ordem dos Psicólogos, Associação Portuguesa de Deficientes, Comissão dos Direitos Humanos da Ordem dos Advogados, UNICEF, Helena Garrido e todos os jornalistas que não hesitam em mostrar repúdio por aquelas ideias.
E isto, garanto-vos, é bom!
Porque as crianças neste miserável país estão indefesas face à brutalidade dos adultos.

Uma sugestão: arranjem um tempo para ler The History of Child Abuse por Lloyd deMause. Nunca mais a vão esquecer.

Maus tratos III

"- A minha mãe ontem partiu uma colher a bater-me.
- A tua mãe bate-te?
- Não, quem me bate é o meu pai."

X batia no filho com um cajado. Este, quando se tornou pai, achou aquilo uma brutalidade e, portanto, mais humanamente, batia nos seus filhos com tiras de pneu. Etc, etc.

O problema da regra de, no castigo fisico, usar de bom senso é que toda a gente acha que o tem e isso não é impedimento às maiores arbitrariedades. Principalmente naqueles que interiorizaram a violência de que foram vítimas na infância, que esqueceram a dor e a revolta sentidas na altura e que agora acham que foi bom terem-lhes batido.

Eu batia no meu filho. Pouco e justificadamente, pensava eu... quer dizer, a minha ex-mulher discordou sempre, ela nunca bateu no nosso filho.
Uma noite, depois de ter dado uma palmada e de o ter deitado (ele teria 2 ou 3 anos de idade), dou-me conta que ele não parava de chorar. Voltei ao quarto e perguntei-lhe porquê.
- Porque foste injusto!
- Mas tu fizeste isto e isto. (já não me lembro do que foi)
- Eu sei, mas foste injusto à mesma, eu não merecia!
E, de repente, percebi!
Não há nenhuma linha de fronteira entre o castigo físico e o mau trato.
Quando alguém que amamos e de quem esperamos amor nos bate, seja pai, mãe ou marido, isso é sempre maus tratos!
Além disso, eu pensava que não tinha ultrapassado essa ilusória linha... tal como X, ou o filho, ou o meu pai, ou... Quem me garantia a mim que eu estava certo? Para já, o meu filho e a mãe achavam que eu estava errado (como eu achei quando era eu que recebia na infância).
Percebi que estava a cair.
Fiz um acordo com o meu filho: se ele não voltasse a fazer aquilo eu nunca mais lhe batia. Não que eu esperasse que ele nunca mais o fizesse, afinal ele só tinha 2 ou 3 anos de idade. Não, o acordo era para mim, para eu não me deixar arrastar para aquilo que eu agora sabia ser uma violência.
Infelizmente, faltei à palavra, ainda lhe dei uma palmada uma vez numa birra. Mas, desde aí, nunca mais lhe bati. E querem saber uma coisa? Não fez falta nenhuma. Hoje é um filho impecável. O que, aliás, me leva a concluir que todas as palmadas que lhe dei anteriormente foram realmente a mais, foram realmente uma violência desnecessária.

Gostaria ainda de dizer que tenho escrito estes três posts com revolta mas também com uma invencível tristeza, porque sinto que sou impotente para explicar tudo isto de forma as pessoas entenderem.

Há um traço comum a quase todos os miúdos com comportamentos problemáticos, é que levam ou levaram dos pais. E ninguém percebe que é isso que os torna problemáticos. A raiva acumula-se, explode na escola, normalmente contra os mais fracos (que até podem ser professores). Um dia, quando eles já estão mais crescidos, os pais passam a ter medo de lhes bater e aí (ou tantas vezes muito antes) perdem a mão neles, porque não foi o respeito que lhes ensinaram a ter pelas coisas e pelas pessoas, foi o medo. E, com falta de sorte, é pelo medo que eles vão reger todas as suas vidas (e, tanto quanto lhes for permitido, as dos outros)...

quarta-feira, abril 12, 2006

Maus tratos II

Quais as consequências de se ser vítima de castigos físicos na infância? São tantas... Não se iludam: cada uma das que se apresentam a seguir tem mundos de sofrimento, de confusão e de solidão dentro de si.

• Medo, medo que se entranha dentro de nós e que nunca mais nos larga: medo de sentir, medo dos outros, medo de gostar, medo de arriscar, medo de escolher ou de decidir, medo de se estar contente, etc, etc.
• Perda da capacidade de empatia e de compaixão pelos outros, tal é a raiva, a fúria e o medo que geram em nós os castigos físicos.
• Impulso cego para os infligir indiscriminadamente aos outros, normalmente aos filhos pequenos e a outros seres indefesos.
• Fascínio (também político) pelas figuras de autoridade suicidariamente castigadoras e implacáveis (associado muitas vezes à incapacidade de lhes fazer frente).
• Do castigo físico à violência, qual a fronteira? Para quem os sofreu é praticamente impossível sabê-lo. Se estiver muito atento descobri-lo-á pela destruição que espalha em seu redor... E que, se tiver sorte, se voltará contra si próprio, permitindo-lhe, talvez, parar.
• A sensação de que não prestamos para nada. E como lutamos contra esse sentimento: diminuindo os outros (tantas vezes de forma tão violenta!) ou não nos atrevendo a sair dum medíocre anonimato.

Maus tratos... legais!?

Li no Murcon e aqui!
Não posso acreditar! Nós somos atrasados e incivilizados, eu sei, mas ao nível do Supremo!!?? Não dar estaladas e palmadas pode configurar "negligência educacional"!!!???

No Murcon pus este comentário:

Vamos admitir que as estaladas são aceitáveis com o objectivo de "aplicar educação" (expressão que agradeço a noiseformind num comentário lá em cima).

Partamos também do princípio que aqui não há cobardes que defendam o castigo físico só para os mais fracos, a saber as crianças. Não, há que ser íntegro: se aceitamos a bondade dos castigos físicos, então é para todos (mesmo para os Senhores Juízes).

Admitido tudo isto, ponhamos agora uma situação:
Todos nós excedemos a velocidade permitida repetidas vezes. Sabemos que estamos a brincar estupidamente com as vidas dos outros (como as estatísticas de mortos anuais em acidentes de viação no-lo mostram).

Temos aqui uma situação grave que mais do que justifica (no mínimo) umas boas estaladas dadas por um alentado GNR a todos nós que excedermos a velocidade permitida... para "aplicar educação" a quem não a tem, claro!

Certo?

Por mim respondo: errado! Porque qualquer vantagem que elas possam trazer, nunca compensam a devastação que arrastam atrás de si.
Nem os Senhores Juizes do Supremo Tribunal de Justiça, nem as crianças, ninguém merece sofrer castigos físicos, seja qual for o motivo!

quinta-feira, abril 06, 2006

Anais Nin

Acabei há uns dias “Henry & June, do diário íntimo de Anais Nin” (Ed. Presença). Uma leitura que me abalou profundamente, ainda não sei exactamente (até) onde:
(a) Na revelação de uma pessoa que usa e abusa dos homens, às vezes de forma deliberada e intencional (como com Allendy), outras vezes mais inconscientemente (como com Hugo)?
(b) Na estranheza de eu não conseguir empatizar com a narradora, mas sim com um dos seus “personagens” (Hugo, o marido), ainda por cima nem sequer o mais bem visto?
(c) Na surpresa que vem do facto de a relação com o homem que ela ama apaixonadamente (Henry Miller) se começar a degradar dentro de si própria por causa de um pequeno episódio de impotênca por parte dele (páginas 151 e seguintes) – o que revela uma inesperada pequenez (ou insegurança?) por parte dela?
(d) Naquilo que me parece ser o seu fascínio pela agressividade, força e brutalidade da masculinidade de Henry Miller? E na sua profunda desilusão quando o mesmo H.M. revela facetas mais frágeis, inseguras e infantis?
(e) Na revelação de uma incapacidade de vivência de um desejo liberto de sombras? (Alguma vez isto é possível, mesmo no coração de uma juventude que nunca chegou a existir, pergunto-me eu?)

quarta-feira, abril 05, 2006

Um post disparatado de alguém que já não escreve aqui há quase duas semanas:

Conta-se que um dia um antropologista terá perguntado a um índio como é que chamavam à América antes de o homem branco aparecer. Ele respondeu: "Nossa".

sexta-feira, março 24, 2006

Sufoco

Aqui, neste lugar estreito, as pessoas acreditam que, para se afirmarem, têm de fazer o deserto à sua volta, isto é, têm de destruir tudo o que os outros fizeram (real ou metaforicamente). Desde o canalizador à investigadora universitária.
No entanto, nenhuma obra nasce do nada, nenhum saber é propriedade exclusiva de um só; na verdade, tudo o que somos e fazemos não o seríamos nem o faríamos sem os outros. É da mais elementar evidência que o mérito de algo que eu consiga fazer não me pertence em exclusivo... mas raríssimos são os que fazem a justiça de o admitir. Terão consciência, ou a suspeita de que a sua obra é medíocre, pelo que só brilhará se diminuirem ou fizerem desaparecer todas as outras?
Atravesso o dia a ouvir dizer mal do que os outros são, do que fazem e do que não fazem: pessoas a escorrer veneno e raiva, pessoas a usar o seu pequeno poder para desagregar e ferir.
País triste e amargo.

domingo, março 19, 2006

Teresa Balté

Autodidáctica

Contantemente aprende, conhece-te, define-te, sê persistente, procura o teu caminho, só teu, o autêntico; não te desvies, não te enganes a ti mesmo, não imites os outros nem te imites, se ouvires o chamamento não te escondas, segue a voz em ti, ousa-te. Como dizer "sê tu" sensatamente? Como prever catástrofes futuras? Confia; nada tens a perder senão a vida, e se foste tu não te perdeste. Mas se entretanto te descobrires poeta, não te deixes vencer pela melancolia.

(Um dos textos sob o título "Brevíssimas para o que não será Uma Carta a um Jovem Poeta", no JL 924 de 1 de Março de 2006. Teresa Balté publicou agora Poesia Quase Toda nas ed. Asa.)


Digo eu: tão difícil, tão difícil...

domingo, março 12, 2006

Dia Internacional da Mulher (8 de Março)

Bread and Roses

As we go marching, marching, in the beauty of the day,
A million darkened kitchens, a thousand mill lofts gray,
Are touched with all the radiance that a sudden sun discloses,
For the people hear us singing: Bread and Roses! Bread and Roses!

As we go marching, marching, we battle too for men,
For they are women's children, and we mother them again.
Our lives shall not be sweated from birth until life closes;
Hearts starve as well as bodies; give us bread, but give us roses.

As we go marching, marching, unnumbered women dead
Go crying through our singing their ancient call for bread.
Small art and love and beauty their drudging spirits knew.
Yes, it is bread we fight for, but we fight for roses too.

As we go marching, marching, we bring the greater days,
The rising of the women means the rising of the race.
No more the drudge and idler, ten that toil where one reposes,
But a sharing of life's glories: Bread and roses, bread and roses.

Our lives shall not be sweated from birth until life closes;
hearts starve as well as bodies; bread and roses, bread and roses.


(lá longe, oiço a Judy Collins a cantar esta belíssima marcha...)

domingo, março 05, 2006

Por uma vez gostaria de encontrar pessoas modestas, pessoas com quem eu me pudesse sentar, no chão de preferência, abandonado e sem ter que manter nenhuma pose. Alguém com quem falar de pássaros e de sol, sem ter de ser profundo ou engraçado. Pessoas com quem ter uma conversa modesta, uma amizade modesta, tudo nada de especial mas, mesmo assim, tudo simples e seguro.
Escreveste um texto. Descobres depois que a ideia já foi desenvolvida por outro, que há até frases quase plagiadas. É o asco, a repulsa.
Atrever-te-ás a eliminar tudo o que é suspeitosamente parecido, o texto todo se necessário? Não o farás: com aquela esperança trémula de não seres descoberto que, na infância, prenunciava o desastre mais humilhante. E fatal...

quinta-feira, março 02, 2006

"Recordo-me de como eu lhe disse uma vez que se paga um preço por ser-se bom tal como se paga por ser-se mau; há um preço a pagar. E são os homens bons que não podem recusar a factura quando ela aparece. Não a podem recusar porque não há maneira de os obrigarem a pagá-la, tal como um homem honesto que joga à sorte. Os homens maus podem recusá-la; é por isso que ninguém espera deles que paguem à vista ou noutra altura qualquer. Mas o bom não pode. Talvez leve mais tempo ser-se bom do que ser-se mau. (...)"

William Faulkner, A Luz em Agosto

quarta-feira, março 01, 2006

"(...)
Fornecer uma razão devasta o amor.
Conferir um sentdo ao que se ama é mentir.
Porque nenhum ser humano experimenta outra alegria senão a sensação de estar vivo quando esta se torna intensa.
E não há outra vida.
(...)"

(Pascal Quignard, Terraço em Roma, p.59, ed. Notícias)

domingo, fevereiro 26, 2006

Amiga

Ao ler este post da Maria Heli comecei a pensar no que seria um(a) amigo(a) para mim.
Depois esforcei-me por não me deixar enredar por frases feitas ou bonitinhas, isto é, procurei o mais autêntico em mim...
...e nos amigos que tenho (a quem devo as definições seguintes e que acabam por constituir uma cartografia do meu universo de amizades).
Não sei se consegui.
Eis o resultado:


Uma amiga...

... é alguém a quem não pedimos que escolha, alguém que nem sequer tem de escolher, mas que, mesmo assim, nos escolhe a nós.

... é aquela que nos diz: a ti clonava-te!

... é a pessoa acerca de quem nos perguntamos frequentemente: será que estou a ser um bom amigo para ela? E se a resposta se aproxima da negativa, o nosso sentimento de culpa é avassalador.

... é alguém que, quando nos fala, nós ficamos a saber que o dia mudou e mudou para melhor!

... é alguém que nos diz: não estás só, a porta da minha casa está aberta para ti!

sexta-feira, fevereiro 24, 2006

É assim...

Aqui encontram uma das razões porque chego a casa exausto, depois de um dia de trabalho na escola, sem força nem disponibilidade para ir sequer à net ou à caixa do correio, quanto mais aos blogues. Por favor, leiam, tomem conhecimento. E ajudem. Se puderem. Nós, os professores, não sabemos o que fazer.

terça-feira, fevereiro 07, 2006

Manias

A MaDi propõe-me o desafio das 5 manias. E eu aceito-o.
Primeiro que tudo, fui ao dicionário:

Mania:
"do Lat. mania < Gr. manía, loucura
s. f., espécie de perturbação ou excitação caracterizada por aferro a uma ideia fixa;
fig., mau costume; desejo imoderado, excessivo; excentricidade, esquisitice, extravagância".

E pensei: eu não tenho manias que cheguem a 5! Bom, a verdade é que já vou em 13!
Não se assustem, divulgo apenas uma espécie de Greatest Hits, para não chatear.

E introduzo uma inovação: indico aqueles que eu sei, ou suspeito, que mais se queixam delas.

Cá vão as manias de:
1 - Me levantar e ir trabalhar excessivamente cedo (colegas de trabalho);
2 - Dar sermões (o meu filho e os meus alunos);
3 - Usar o telemóvel com alguma (na minha opinião) parcimónia (os meus amigos);
4 - Considerar sempre injustificado o bater-se em crianças (toda a gente, excepto as crianças);
5 - Provocar acidentes por cumprir as regras de trânsito... bem, e às vezes por não as cumprir (os outros condutores)!

De repente, sou assaltado por uma dúvida: será que adquiri mais duas novas manias, a de continuar a minha lista privada e a de descobrir a dos outros?

domingo, fevereiro 05, 2006

Fama

O desejo que as pessoas têm da fama! Porquê?
Uma hipótese: a fama traz uma promessa de poder e este torna-se um substituto do amor; pobre, sem dúvida, mas que distrai eficazmente dessa falta (Claro que o amor a que aqui me refiro é aquele que é doce, quente, reconfortante e securizante, não à paixão).
Calhou por acaso eu ter sido convidado para o aniversário da discoteca Lux. Quando estava na fila para entrar, passaram à nossa frente 3 jovens espectacularmente bonitas, mas de ar inexpressivo e duro. Comentei: estas devem ser bailarinas que vão aqui actuar. Disseram-me (rindo): não, estas são as famosas X, Y e Z! Fiquei perplexo: jovens, já com ar de velhas endurecidas, que eu confundi com umas quaisquer stripteasers!
Porque a fama devasta tudo. Lembro-me de há uns anos ter assistido a um fórum na BBC, com um larguíssimo número de intervenientes, subordinado ao tema: “Como a fama destruiu a minha vida”. A nota unânime era o reconhecimento da quase completa impossibilidade de evitar que isso acontecesse.

Ambrose Bierce, Dicionário do Diabo, Tinta da China:
"Famoso, adj. Conspicuamente miserável."

Balanço

Há um ano e alguns meses que estou separado.
Bom: viver o dia a dia em tranquilidade interior, sem a pressão nas vísceras por estar a fazer algo de menos, de errado ou, pelo menos, de criticável.
Mau, verdadeirmente Mau: não ter o meu filho comigo (eu, que estava habituado a estar com ele o tempo todo, excepto o que ele passava na escola).
Apesar desta dor, valeu a pena? Valeu.

domingo, janeiro 29, 2006

Um verso...

... com que acordei hoje de manhã:

"A amada é bem a infância que vem ter comigo"

Uma busca na net. Um encontro com Ruy Belo no site nEscritas de Margarida Lopes e Paula Matos.


O elogio da Amada

Ei-la que vem ubérrima numerosa escolhida
secreta cheia de pensamentos isenta de cuidados
Vem sentada na nova primavera
cercada de sorrisos no regaço lírios
olhos feitos de sombra de vento de momento
alheia a estes dias que eu nunca consigo
Morde-lhe o tempo na face as raízes do riso
começa para além dela a ser longe
A amada é bem a infância que vem ter comigo
Há pássaros antigos nos límpidos caminhos
e mortes como antes nunca mais
Ei-la já que se estende ampla como uma pátria
no limiar da nossa indiferença
Os nossos átrios são para os seus pés solitários
Já todos nós esquecemos a casa dos pais
ela enche de dias as nossas mãos vazias
A dor é nela até que Deus começa
eu bem lhe sinto o calcanhar do amor
Que importa sermos de uma só manhã e não haver em volta
árvore mais açoitada pelos diversos ventos?
Que importa partirmos num desmoronar de poentes?
Mais triste mesmo a vida onde outros passarão
multiplicando-lhe a ausência que importa
se onde pomos os pés é primavera?


Dedicatória in Aquele Grande Rio Eufrates

domingo, janeiro 22, 2006

Fernando Namora


"Há dias em que a melancolia chove dentro de nós com num pátio interior, atapetado de jornais velhos. Não se ouve, não se sente - mas rebrilha na sujidade densa."

Retalhos da Vida de um Médico

sábado, janeiro 21, 2006

Escrever

(pequenos recortes que fui guardando ao longo dos anos e que agora, com as arrumações, vou encontrando)

De novo Gilles Deleuze:

"Não escrevo contra alguém ou alguma coisa.
Para mim escrever é um gesto absolutamente positivo: é dizer o que se admira e não combater o que se detesta.
Escrever para denunciar é o mais baixo nível de escrever.
Em contrapartida, é verdade que escrever implica que há qualquer coisa que não está bem no estado da questão que se deseja tratar.
Que se não está satisfeito.
Direi assim: escrevo contra a ideia feita.
Escreve-se sempre contra as ideias feitas."

Ou seja, contra o esquecimento e contra a distracção. Pelo menos, para mim.

Denunciar é um nível baixo de escrita, na minha opinião, apenas quando se torna num tique daquele que escreve. Daí eu fazer da denúncia um uso parcimonioso.

domingo, janeiro 15, 2006

O texto que "merece existir"

"Creio que um livro, se merece existir, pode ser apresentado sob três aspectos rápidos. Só se escreve um livro digno se

1) se pensa que os livros sobre o mesmo tema ou tema próximo caíram todos numa espécie de erro global (função polémica do livro);

2) se pensa que alguma coisa de essencial foi esquecida sobre o assunto (função inventiva);

3) nos consideramos capazes de criar um novo conceito (função criativa).

E, claro, isto é um mínimo: um erro, um esquecimento, um conceito..."

(Gilles Deleuze a Arnaud Villani)


Ponho a hipótese de estes critérios também se poderem aplicar à escrita nos blogs.
Sempre que morre alguém que me é próximo, para além de sentir a dor da perda, fico mudo com tudo o que se perde com essa morte, afectos, saberes, intervenções.
No filme Blade Runner, Roy Batty (Rutger Hauer), um andróide à beira de morrer, diz a Rick Deckard (Harrison Ford):
(cliquem para ouvir)
"I've seen things you people wouldn't believe...
Attack ships on fire off the shoulder of Orion...
I watched c-beams glitter in the dark near the Tannhauser Gate...
All those moments will be lost in time like tears in the rain...
Time to die."
Tenho imensas saudades de aqui escrever (e de passear pela blogosfera)!
Estou tão cheio de trabalho na escola que até já tenho dificuldade em conseguir pensar, sentir e falar de outros assuntos. Como se tivesse que regressar, com dificuldade, de uma terra distante...

sábado, dezembro 31, 2005

Bom Ano de 2006!

Para este último post de 2005 cito um texto atribuído a Martin Niemoeller (1892–1984), pastor protestante alemão, que se refere à Alemanha hitleriana.
Há várias versões deste texto, talvez porque ele nunca tenha sido autenticado, como se explica aqui e aqui.

Escolhi a versão de António Garcia Pereira (porque, sendo um candidato presidencial silenciado pela comunicação social, representa bem todos aqueles que são também por ela silenciados), do seu livro "Ousar sonhar, Ousar lutar, Ousar vencer!":

“ Primeiro, levaram os judeus.
Mas não falei, por não ser judeu.
Depois, perseguiram os comunistas.
Nada disse então, por não ser comunista.
Em seguida, castigaram os sindicalistas.
Decidi não falar, por não ser sindicalista.
Mais tarde, foi a vez dos católicos.
Também me calei, por ser protestante.
Então, um dia, vieram buscar-me.
Mas, por essa altura, já não restava nenhuma voz
Que, em meu nome, se fizesse ouvir.”

quinta-feira, dezembro 29, 2005

Acredito mais

Como estão as minhas crenças?

No que gira à volta e próximo de mim acredito em cada vez menos coisas.

Ao nível da humanidade e do planeta, acredito em cada vez mais coisas.

Adivinho as expressões de perplexidade. Então vejam se se lembram (eu tenho 47 anos) do tempo em que:

- vivíamos todos à beira de ser pulverizados por umas quantas milhares de bombas atómicas, por causa de uma rivalidade em que, felizmente, a estupidez nunca chegou a ultrapassar excessivamente o bom senso;

- não sabíamos, nós os homens, ao ir para a guerra em África, se chegaríamos alguma vez à idade adulta. E se chegássemos, em que estado físico e psicológico;

- a única diferença entre uma ditadura de direita e uma de esquerda é que esta demorava mais tempo a cair;

- as mulheres viviam em quase absoluta submissão à ordem masculina;

- o ambiente ia sendo destruído sem defesa e sem revolta;

- etc, etc.

Não acho irrazoável concluir que, a nível de humanidade, estamos a caminhar para melhor!


(a propósito de um post aqui)

Explicação

Sei que não tenho tempo me dedicar à blogosfera. Porquê?

Primeiro, porque ao vir aqui acho que é desconsideração não ir aos blogamigos. Ir aos blogamigos implica a leitura atenta e, dada a qualidade do que leio, o deixar um comentário à altura. Levo muito tempo nisto.

Segundo, porque não sendo uma pessoa especialmente talentosa sei que tenho de me esforçar muito para que o que aqui escrevo tenha um mínimo de interesse. Para que valha a pena tê-lo escrito e valha a pena ser lido. Levo ainda mais tempo nisto.

Terceiro, lida da casa: compras, chegar a casa, arranjar o jantar, arrumar as coisas, sentar-me um pouco a descansar e são horas de ir dormir (levanto-me cedo, deito-me cedo).

Quarto, as prioridades no meu escasso tempo livre: passear com o meu filho fds sim fds não, ajudá-lo nos estudos, namorar, meditar, ler um livro, fazer exercício físico,... Há que confessá-lo: por último estar com os amigos e vir aqui, dado que ambos implicam dedicação e tempo, tempo que é coisa que eu não tenho. E já eliminei completamente a televisão (excepto para um eventual Seinfeld)!

Quinto, talvez a razão mais determinante: o acréscimo brutal de trabalho que o Ministério da Educação impôs aos professores este ano lectivo. E a partir de agora vou passar a ter ainda muito mais (para além das aulas e tudo o que com elas se relacionam - lecciono 5 níveis -, das horas extras com alunos, das aulas de substituição, das reuniões que nunca se deixam de ter de fazer, do imenso trabalho burocrático) porque vou ter de acompanhar os alunos (bastantes) para quem fiz um plano de recuperação por terem tido mais de 2 negativas (estão a ver, a matemática é muitas vezes uma delas).

Pronto, já desabafei!
Cansaço mais doença - não é boa combinação. Estou melhor.

quinta-feira, dezembro 08, 2005

Mudei outra vez!

A casa em que agora estou é bonita, quente, confortável, e tenho à minha frente um jardim e o céu todo azul!

Comecei por arrumar a comida e a roupa (o urgente).
Agora estou a arrumar os livros (o importante).

Adoro arrumar livros!
(Gostaria imenso de trabalhar numa livraria, mas se calhar seria um mau empregado)
Pegar neles, escolher o local onde os vou colocar, isto é, o sítio em que me seja mais fácil vê-los e manuseá-los, ao mesmo tempo que vou (re)descobrindo o lugar único que ocupam no meu coração...
Há livros que sublinho a lápis (poucos) e todos os outros em que coloco uma tira de papel nas páginas onde algo me iluminou. Ora, enquanto arrumo vou lendo essas passagens, muitas vezes páginas. São surpresas, revisitações, redescobertas!
Eis um trabalho lento, deliciosamente lento, este, o de arrumar livros!

quinta-feira, novembro 24, 2005

Livros, os melhores

Tem corrido uma votação nos blogues sobre os 5 melhores romances dos últimos 30 anos.
Sinto-me antecipadamente cansado e, portanto, não participo.
Esta fase que ando a passar pode ser uma razão.
Mas eu sei que há outra. Ei-la:
Gosto de um livro, gosto mesmo muito.
Começo a oferecê-lo aos meus amigos/conhecidos.
Para um em quem o livro acende uma chama, há todos os outros para quem ele suscita um reduzidíssimo interesse.
Ao ponto de nem sequer se darem ao trabalho de o acabarem de ler.
Hoje em dia estou como nos velhos tempos do fascismo: com o medo, só falo a alguns poucos dos livros que me importam!

For the record...

You're an Expert Kisser

You're a kissing pro, but it's all about quality and not quantity
You've perfected your kissing technique and can knock anyone's socks off
And you're adaptable, giving each partner what they crave
When it comes down to it, your kisses are truly unforgettable


Só vos digo uma coisa: nem todos os inquéritos na net nos deitam abaixo (lol)!


(e eu que não consigo sacudir este torpor? Já fui ao médico e tudo! Até me começa a apetecer culpar o Governo deste meu estado - bom, em parte ele é responsável, já que tenho muito menos tempo para recuperar do cansaço das horas e horas de trabalho com os alunos... como estes têm, aliás, vindo a aperceber-se! As minhas desculpas a todos os blogamigos por aquilo que pode aparecer como desleixo, mas não é. E que pena tenho de não ter ido a Aveiro.)

sábado, novembro 19, 2005

Em quem vou votar...

Vou ouvir e ler o que todos os candidatos disserem (principalmente nos manifestos de candidatura, nos debates e nos tempos de antena, porque no resto não confio).
Vou principalmente estar com atenção ao que não disserem!
Depois far-me-ei uma pergunta simples:
Se eu
(quando digo "eu", refiro-me obviamente a um "nós" constituído por aqueles que não sabem defender-se muito bem do poder)
me vir em dificuldades, qual dos candidatos promete uma maior probabilidade de vir a terreiro defender-me?
A resposta a esta pergunta ditará o meu voto.

Confesso um preconceito:
Desde há exactamente 27 anos (não me esqueci do primeiro ano do numerus clausus em Medicina!) que estou a ser continuamente prejudicado e sacrificado em nome de um qualquer "futuro do nosso país"!
Por isso os candidatos que me vierem com a merda do futuro dificilmente terão o meu voto!!!

(E, já agora, penalizo-me ao salientar a minha inferioridade cívica (menoridade política?) face a todos aqueles que irão dar o seu voto ao candidato que eles consideram desinteressadamente, ao contrário de mim, ser o melhor para o país!)

quinta-feira, novembro 17, 2005

Hoje gastei algum tempo a responder aos comentários feitos ao post anterior... e a colocar também algumas interrogações!

Lembro-me da estupefacção que me tomou há já bastantes anos atrás ao assistir, numa telenovela brasileira cujo título não recordo, ao modo como se desenvolvia na privacidade a relação entre um temível (fora do quarto de dormir!) "coronel" e uma capitosa proprietária (acho eu, porque eu não via a telenovela, só assisti a algumas cenas).
Estupefacção porque subitamente apercebi-me que aquilo que as pessoas mostravam ao mundo podia não ter nada a ver com o modo como elas se relacionavam na sua privacidade. E que isto era ainda mais gritante na área da sexualidade, este divórcio entre o que se quer aparentar e o que se é realmente.
Penso que os jovens acham que isto resolve os seus problemas e, no entanto, apenas os disfarça.

domingo, novembro 13, 2005

Solidão sexual

Estou a ler o último livro de John Irving, "Until I Find You". Vou ainda na infância do personagem principal. O tema que percorre mais obssessivamente as páginas referentes aos 4 anos passados na escola primária é a educação sexual que ele recebe - ele está numa escola de raparigas e é com elas que se dá essa aprendizagem.
Não pude deixar de pensar que, para mim, a sexualidade foi uma permanente fonte de sofrimento durante uma parte significativa da minha vida: é que durante muitos anos, o meu desejo foi impossível quer de se libertar quer de ser satisfeito. Primeiro por uma atroz ignorância (até quanto à identificação da fonte do sofrimento), depois por uma igualmente atroz timidez!
Por isso, causava-me imensa perplexidade (e dor!) que se glorificasse a vida sexual em termos sempre jubilosos, o que aconteceu muito nos anos que se seguiram ao 25 de Abril (eu tinha 16 anos nesta altura). Não compreendia como é que parecia tão fácil e tão bom tudo aquilo que para mim era tão longínquo e difícil de atingir como os Himalaias! E nunca ouvi ou li uma voz que expressasse as mesmas dificuldades ou o mesmo sofrimento por que eu passei.
Mesmo hoje em dia pouco se encontra expresso ou confessado sobre esta faceta da solidão...
É como se se assumisse que este problema fica resolvido com a masturbação ou com o recurso à prostituição. Ora, não fica: aliás, sou de opinião que não só não fica resolvido como ainda cria mais outros problemas (com a prostituição parece-me óbvio; não apenas por isso, mas também, ela nunca foi uma opção que eu escolhesse para mim).
Este é um assunto a que gostaria de voltar. Principalmente, porque parece cada vez mais eminente o aparecimento da disciplina de Educação Sexual nas escolas. Será lamentável se nela não vier contemplado este tipo de solidão e de sofrimento.

sábado, novembro 12, 2005

O Inverno continua

Gostaria que as palavras que tento escrever queimassem esta página.
Mas não, só a cansam.

quinta-feira, novembro 10, 2005

Porque razão venho menos à net?

A verdade é simples: atravesso um Inverno intelectual - tenho poucas ideias e, ao mesmo tempo, pouca curiosidade.
Até a minha auto-formaçao profissional atingiu este ano lectivo, pela 1ª vez, o grau zero: não leio nada, não estudo nada.
Podia fazer literatura, mas não sei fazer da escrita, Arte.
E há que admiti-lo: quem procura beleza, emoção, pensamento ou humor fica muito melhor servido se deixar este blog e for visitar qualquer um dos que aqui ao lado se encontram listados!
Ah, também podia fazer como a Moranguita e postar perguntas e interrogações. Mas crianças como ela fazem-no, também, muito melhor do que eu.
Espero que, como o Inverno, isto seja passageiro.

segunda-feira, outubro 31, 2005

Assassino

Domingo à tarde: fui passear com a minha cadelinha, a Pirata. Aqui, a rua que vai dar à via rápida para Lisboa é estreita.
Olho e vejo um carro azul ainda afastado. Começo a atravessar a rua e um cãozito vem atrás da Pirata. Quando vou a meio oiço um motor e olho outra vez. Um carro cinzento vai a ultrapassar o azul em aceleração.
Note-se: ele (porque é que eu digo "ele"? Não vi quem ia a conduzir. Na verdade, porque não consigo imaginar uma mulher a fazer isto) viu-me; tenho 1,80 m e levava vestido roupas com cores claras.
Ele podia ter optado por não ultrapassar. Podia, mas não o fez.
Dou dois saltos para a berma e puxo com um esticão a trela da Pirata.
Eu safei-me; a Pirata, à justa, mas também se salvou. O cãozito que vinha atrás, não: foi apanhado.
Quando olho para trás, o carro cinzento acelera enquanto o azul buzina, buzina.
O cãozito, a ganir e a coxear, foge.

domingo, outubro 30, 2005

Porque sou membro da Amnistia Internacional

A minha ex-mulher chamou-me a atenção para isto:
é a única organização que defende e apoia aqueles que não se limitaram a ser simplesmente vítimas, mas que disseram não e actuaram de acordo com as suas palavras.

(à memória de Ingrid Betancourt, referida no Divas & Contrabaixos)

Retratos de mulheres e de homens na literatura

Estou a ler "A Filha da Floresta", livro escrito por Juliet Marillier, no qual a minha personagem favorita é um homem, Finbar.
E ocorreu-me pensar (não sei se tenho razão, posso estar a ser injusto) que actualmente é muito difícil encontar um escritor que não revele o seu medo das mulheres. O mesmo já não acontece com as escritoras que são muito mais livres na apreciação que fazem dos homens.
Com os escritores vemos uma atitude perante as mulheres que vai desde a veneração (uma forma de medo, de qualquer modo), passando pela distância e pelo mistério, até ao rebaixamento. Alguns não conseguem mesmo esconder algo de próximo à misoginia, no seu sentido mais lato.
Veja-se, por exemplo, o caso de Arturo Pérez-Reverte. Nos livros que eu li (O Mestre de Esgrima, O Clube Dumas e O Cemitério Dos Barcos Sem Nome) há personagens masculinas boas e más; mas, femininas, praticamente, são sempre más!
No caso deste autor tenho pena e causa-me desconforto porque acho-o o escritor que melhor descreve a alma masculina (veja-se n'O Cemitério Dos Barcos...). Além disso, é um excelente escritor de aventuras.
Voltando à Filha da Floresta, há de facto uma grande doçura na descrição de algumas personagens masculinas. Eu, que cresci e me formei num tempo em que os homens eram suspeitos, quando não acusados, de serem todos uns Machos Porcos Chauvinistas, tenho de vos confessar: ler este livro tem-me feito sentir num oásis!

Estereótipo

Uma mulher pede-nos um conselho ou uma ajuda naquelas áreas que é suposto um homem a sério dominar (carros, computadores, etc).
O embaraço de percebermos tão pouco do assunto que nem dá para fingir.
E, perante a surpresa incrédula que vemos no seu olhar, ter de explicar a nossa total inépcia.
Custa.

quinta-feira, outubro 20, 2005

Fiz o Saint Exupery's 'The Little Prince' Quiz e saiu-me isto:


You are the drawing.

Não estava nada à espera, nem sequer concordo! Palavra que não compreendo como é que as minhas respostas deram nisto: misunderstood and forgotten? Por favor! (Isso... riam-se!!)
Tanto trabalho!
Não, não me estou a queixar porque eu gosto dos alunos e o trabalho burocrático deixo-o para o fim, não me metendo medo o não tê-lo feito.
A verdade é que tomei uma decisão no início deste ano lectivo: nunca mais vou trabalhar em minha casa!
Por outras palavras: nunca mais alugo ao Ministério da Educação, a custo zero, o metro quadrado da minha casa, o meu equipamento e os meus consumíveis! Ou seja, todo o meu trabalho será feito na escola.
Claro que tenho menos rendimento, são mais interrupções: pedidos de ajuda ou de opinião, equipamento indisponível, dificuldade em conseguir um espaço sossegado para trabalhar... porque o espaço para o meu material de apoio já o tenho: é a bagageira do meu carro (na escola tenho apenas um pequeno cacifo)!
Começando o dia às 8 da manhã, chego a casa às 6, 7 ou 8 da noite, em regra. Disponibilidade para ir ao computador é algo que a essa hora já me falta.
Ah, mas é tão bom entrar no meu, inteiramente meu, espaço, um espaço completamente protegido de todas as invasões (que se concretizavam por via do meu emprego)!!!
Quem espera sempre alcança: eis uma daquelas frases ou provérbios que todos sabemos serem quase sempre falsas.
Bom, não o foi para mim desta vez: nem eu sei bem como, mas algo tocou o seu coração e ela voltou para mim.
Eu, que não fugi dela nem a detestei (tirando os primeiros dias), estava pronto a recebê-la e a acolhê-la em mim. E a mostrar-lhe o quanto pode ser feliz comigo.
Mais não consigo dizer porque, sem trair a nossa privacidade, não encontro palavras que dêem uma ideia ainda que aproximada do que estou a viver.
Olho para a data do último post com incredulidade: desde 9 de Outubro que não venho à net?!...

domingo, outubro 09, 2005

Partilha

Amor, poemas e fotos,
tudo de uma beleza tão delicada e sensual que, por vezes, chega a doer.
No Plan(o)Alto de O'Sanji.

Tempo, amigos e John Irving

Ando mesmo com falta de tempo.
Com o acréscimo de trabalho que o Governo proporcionou aos professores, mais aquele que a minha escola achou que eu podia aguentar de cara alegre (para não falar do de "dona de casa"), só me restam duas alternativas para os meus tempos livres: ou estou com os meus amigos em carne e osso ou estou com os meus amigos "virtuais". Sentei-me agora para estar um bocadinho com estes últimos.

E para que não fique deste post só esta choraminguice, aqui vão alguns excertos de um livro começado em Agosto e só agora terminado, The Cider House Rules, de John Irving:

(A propósito de uma foto pornográfica encontrada numa casa para trabalhadores sazonais dormirem, junto à cama de um deles)
"This was what caused Homer the sharpest pain, to imagine the tired man in the bunkroom at St. Cloud's, drawn to this woman and this pony because he knew of no friendlier image - no baby pictures, no mother, no father, no wife, no lover, no brother, no friend."

"What is hardest to accept about the passage of time is that the people who once mattered the most to us are wrapped up in parentheses."

"(...) a nonpractising homosexual; it struck him as a brilliant accusation to make of anyone who was slightly (or hugely) different. It was the best rumour to start about anyone because it could never be proved or disproved."

"And the thing about being in love is that you can't force anyone. It's natural to want someone you love to do what you want, or what you think it would be good for them, but you have to let everything happen to them."

quarta-feira, outubro 05, 2005

Fazer sorrir

Quando uma mulher sorri, do fundo do coração, o mundo renasce.
(Pelo menos para nós, homens)
Por isso, fazer uma mulher chorar é realmente um crime.

domingo, outubro 02, 2005

Escrever

Às vezes imagino-me a escrever um post sobre um assunto do qual não percebo nada. Assistir à saída de um conjunto desconexo de ideias e de palavras a partir desse vazio. E ver nelas, de repente, um sentido claro e luminoso!

Que assuntos?
O amor, claro.
Mas também a compaixão.
E a inocência.
Insistir no mesmo à espera que os resultados venham a ser, por milagre, diferentes do que sempre foram?
Continuar a manter o mesmo objectivo de vida que não só nunca nos trouxe qualquer felicidade duradoura como ainda carregou a nossa vida com prolongados períodos de dor?
Isto não é coerência, nem coragem, nem nada, soa é um bocado a vida estúpida, não soa?

quinta-feira, setembro 29, 2005

Até que enfim!

A ironia acidamente britânica de Pedro Mexia voltou à blogosfera. Aqui: Estado Civil.
Nunca o disse, mas aproveito agora: entusiasmei-me a entrar em pleno na blogosfera graças ao seu livro "Fora do Mundo", uma colectânea brilhante de posts da sua autoria.

quarta-feira, setembro 28, 2005

NÃO SEI!

Também nunca sei.
Mas vejo, respiro, tenho um corpo, pouca coisa, coisas humildes.
Mas sei que são suficientes para ir à descoberta de outros horizontes.
Sejam eles entrevistos ou somente imaginados.

Obrigado, Caiacaina!

sábado, setembro 24, 2005

Da Meditação

Há muitos tipos de meditação e infinitos temas de meditação.
Cada pessoa deve procurar e experimentar até encontrar os que mais se adequam às suas necessidades e objectivos de vida.
Digo "os" porque é opinião do Dalai Lama (que eu perfilho inteiramente) que devemos variar de tipos e de temas. Para mim isso significa não só manter vivos a atenção e o interesse, como também obter benefícios de diversas fontes e não ficar com uma mente unilateral e rígida.


No âmbito da meditação, quero aqui expressar o meu mais profundo agradecimento às seguintes pessoas:

- ao Dalai Lama que me ensinou o tipo de meditação que mais, e mais duradouros, resultados me traz;

- ao Dr. Sonny Joseph que não só milagrosamente me ajudou a remover os meus obstáculos físicos a um trabalho compensador com a mente, como me ensinou uma meditação de duração média - curta ("O Poder Cósmico da Respiração", Pergaminho), que é muito simples, boa e eficiente;

- a Paramananda, "Change Your Mind", que me ensinou três meditações, de duração mais longa, e que têm tido um efeito verdadeiramente extraordinário sobre mim;

- a Thich Nhat Hanh, "Harmonia A Cada Passo", que me ensinou uma meditação simples e linda, de curta duração, que é absolutamente arrebatadora.

Estes são os meus Mestres. Em relação a eles (como aliás a muitas outras pessoas) tenho um dívida de gratidão que nunca ficará inteiramente paga.

quarta-feira, setembro 21, 2005

A falta de disponibilidade.
Tempo para visitar alguns amigos e dizer-lhes olá.
Tempo para um pequeno reconhecimento pelas suas visitas aqui.

E tempo para um desafio, cuja notícia vi n'A Barca de Lyra aqui. O desafio está no blog Respirar o Mesmo Ar, aqui:

palavras-silêncio

Eu já lá fui escrever as minhas.

domingo, setembro 18, 2005

Olho à minha frente os livros que trouxe para aqui: os não lidos e uns poucos já lidos de que não consigo separar-me. Quais são estes?

Vergílio Ferreira: Na Tua Face (para mim o mais belo), Conta-Corrente 5 (porque é aqui que está o autêntico aceno que me dirige) e Cântico Final (o livro que esteve na origem daquele aceno).

A Voz Secreta Das Mulheres Afegãs ("O meu amante prefere os olhos cor do céu: / Não sei como mudar os meus, cor da noite.")

Erri De Luca: Três Cavalos ("...e vou-lhe perguntando se não a incomoda a diferença de idades entre nós. Pelo contrário, devia ser maior, diz, trazes-me ao corpo a infância quando abraçava os grandes pela alegria de abraçar."), Montedidio e Tufo.

Arno Gruen: A Loucura da Normalidade ("uma pessoa luta, já a partir de uma infância remota, contra a sujeição a uma realidade que faz troça do seu desejo de amor verdadeiro."), A Traição do Eu e Falsos Deuses.

O Bhagavad-Gita Como Ele É: dádiva preciosa de uma amiga ("Uma pessoa que não se perturba com o incessante fluxo de desejos (...) é a única que pode alcançar a paz, e não o homem que luta para satisfazer tais desejos.").

José Gil: Portugal Hoje, O Medo de Existir ("O medo do vazio impede o nosso lado bárbaro de se ligar ao cosmos (com excepções geniais: Fernando Pessoa, Herberto Helder)").
Na praia havia pouca gente: alguns pescadores e apanhadores de amêijoas, duas campistas com as mochilas às costas e alguns homens a passear ou a correr.
Ao andar ao longo da beira-mar aproximo-me de um homem pelas costas, e surpreendo-me ao ouvi-lo a assobiar vigorosamente, apenas com uma interrupção para nos saudarmos. Quando voltei para trás e me cruzei com ele outra vez, ainda estava a assobiar enquanto caminhava decidido.
Há quanto tempo eu não ouvia alguém, enquanto passeia, a assobiar músicas! Que pena, porque é que hoje em dia ninguém assobia (vem nos livros mais antigos: assobiar, assim como cantar, eram hábitos comuns das pessoas)? Hoje de manhã aquele assobio cortava o ruído das ondas com uma alegria que agora, passadas algumas horas, me parece estar ainda a ouvi-lo!
Hoje, quando acordei era ainda noite. E, juro-vos, estava uma lua inacreditavelmente cheia e linda a descer sobre o mar. Comi pão e maçãs, peguei na minha bicicleta e fui para a praia assistir ao "pôr da lua" no mar (ao lado de um navio que, no horizonte, se afastava iluminado) e ao aparecimento do sol por detrás das falésias. Estava maré baixa, pelo que andei com a bicicleta mesmo à beira-mar, onde também me pude surpreender com as diferentes tonalidades de rosa provocadas nas ondas pelo sol nascente.
Gosto de mudar de casa. Mais: se pudesse, de ano para ano gostava de mudar não apenas de casa como de país. (Por isso é que gosto do campismo com tenda: a leveza e a liberdade) Só não digo mudar de trabalho porque, tirando ser professor, no resto creio que seria (para mim) demasiado incompetente.
Mudei de casa. Vim para a Costa da Caparica. Da minha casa vejo um céu imenso, tornado esmagador quando correm por ele as nuvens. Vejo o mar, a foz do Tejo e a outra costa, de Cascais a Lisboa. E o sol, jorros infindos de luz. Uma paisagem fabulosa.

quarta-feira, setembro 14, 2005

Qual é a mais bela história de amor do mundo?

Aragon dizia que era "Djamília" de Tchinguiz Aitmatov.
Eu não tenho dúvidas: "Uma história de amor" de Ray Bradbury, incluída no livro de contos "Muito Depois da Meia-Noite" (2 vols., nos. 331 e 332 da Colecção Argonauta, Livros do Brasil). Não há hipótese de sequer dar uma ideia da história, só lendo-a mesmo.
E para vocês qual é?

domingo, setembro 11, 2005

Não gosto de mim.
No fundo de tudo, por detrás de tudo, para além de tudo, há este desgosto indelével por mim próprio.
Não se consegue obrigar ninguém a gostar de quem quer que seja.
Todavia, posso desejar-me bem: que seja feliz, que fique livre da dor e da doença, que me realize na vida e não ao lado dela, ...
Conseguirei então fazer escolhas mais autênticas e abertas de possíveis.

sábado, setembro 10, 2005

Adeus...

Lutar por um amor que se evapora, que se esvai como a maré que baixa, é apenas conseguir um adiamento para o que já se tornou inevitável.

À que me deixa direi sempre:
"Look in my face; my name is Might-have-been;
I am also call’d No-more, Too-late, Farewell;
(...)
"
Dante Gabriel Rossetti

sexta-feira, setembro 09, 2005

Olá, hoje estou com uma gripe terrível de verão (ou de um verão terrível?). Não me peçam coerência nem pensamentos elevados. Vou escrever ao sabor desta lassidão que tomou conta do meu corpo e do meu espírito.



Apetece-me dizer obrigado a todos os que têm vindo ao meu blog e cá têm deixado um testemunho doce da sua passagem.
Ainda a todos os que se esforçam por construir nos seus blogs coisas tão perfeitas... e tornam tão difícil a gente dizer como são quase insuportavelmente perfeitas: falo de textos belos, ou informativos ou ainda divertidos; falo das fotos e, agora, também dos desenhos.
Também a todos os que ainda, mesmo assim, conseguem arranjar tempo para responder aos comentários com que eu e tantos outros vamos salpicando os seus blogs.
E no meio destes agradecimentos todos não pode ficar de fora quem me proporcionou o computador com que escrevo estas palavras e leio as dos outros, ou a casa onde vivo: à minha irmã e ao meu cunhado, muito obrigado!



Bolas, estou a embebedar-me de gratidão!
Quase só agradeci aos que me envolveram e envolvem nesta aventura bonita da blogosfera.
Mas, pensando bem, vocês já imaginaram a quantidade de gente a quem nós tantas coisas devemos?
Aos que nos sorriem ou arranjam um tempinho para nos ouvir, aos que dizem "estou aqui" quando nós já sentimos que não somos de lado algum, que se preocupam connosco quando estamos doentes, que nos oferecem um jantar quando até já esquecemos a que é que sabe a comida quente, na verdade tanta coisa, tanta coisa que me limito a sorrir no silêncio.



Reparo agora, estou a agradecer a mulheres na sua esmagadora maioria.
Sou homem, mas os meus pares estão maioritariamente entre as mulheres.
Toda a minha vida sonhei, aprendi e magoei-me com elas. Elas têm sido o mar no horizonte dos meus rios, a última praia sempre imaginada.



E como conseguir agradecer a tanta gente?
Como agradecer aos que estão excessivamente longe de nós (a quem fez estas confortáveis sandálias que calço neste momento, ou a roupa que me aconchega, ou o chapéu de chuva, ou a canção que ouço, ou os livros, esses longos e pacientes companheiros).
Ou ainda como agradecer às coisas que ninguém em especial fez? Por exemplo: o sol a nascer no infinito canto dos pássaros; a primeira chuva a fazer-nos esquecer o pó quente do fim do verão; o cheiro suave das árvores e da relva quando abrimos a janela.
Sim, como agradecer tudo isto?



Não sei se vocês têm ideias para responder. Eu tenho uma:
Quando sou beneficiado com qualquer destas coisas sei que posso tornar-me num elo daquilo que pode ser uma cadeia. Para isso, procuro não interromper essa cadeia, procuro fazer o mesmo ou algo de diferente mas igualmente bom a outros.
Excepto, confesso-o com tristeza, quando me sinto infeliz.

quinta-feira, setembro 08, 2005

Blogauto-reflexão

Não gosto de mentir, mas gosto, aqui na net, de andar a brincar com a verdade, claro sem nunca a revelar completamente (o que, aliás, seria impossível).

Falo de mim e da minha realidade, procuro trazer para aqui aquilo que em mim penso ser comum a muita gente e que me causa um tipo qualquer de perplexidade. Gostava de o conseguir fazer de forma auto-irónica ou, pelo menos, a sorrir.

O modelo que admiro é o do (atenção: impossível fazer comparações, estou muito, muito longe do seu talento) Pedro Mexia, tanto no livro como no blog (infelizmente já encerrado), ambos com o mesmo nome: Fora do Mundo.

quarta-feira, setembro 07, 2005

Quanto mais me bates...

"Quando lhes dou para trás, mais eles vêm mansos comer-me à mão!", ouvi eu numa conversa sobre as relações amorosas.

Eu digo/questiono: Porque é que num casal o que maltrata (portanto, o que menos ama ou que ama pior) é o mais bem amado em vez de ser simplesmente deixado? Conheço muitos exemplos disto.

Ou posto doutra maneira: Porque é que sermos bons e afectivos(as) para uma mulher ou para um homem é a forma mais segura e rápida de ela ou ele nos deixar de amar?


[Depois de lidos um post da MaDi no Let Me Know Why e dos respectivos comentários, outro da Lilly Rose no Antes que me deite ; e de mais algumas coisas...]

sábado, setembro 03, 2005

Pornografia

Volumes de produção e de vendas fabulosos. Que necessidade profunda e extensa é preenchida pelo visionamento de filmes e fotos porno?
A mim atraem-me imenso. Quando me sinto só.
Compreendi desde o princípio, embora obscuramente, o Robert de Niro, no "Taxi Driver", a ver filmes pornográficos. Depois percebi porquê.
Porque o porno mata o desejo. Oh, claro que excita, claro que o corpo reaje! Mas não é disso que eu estou a falar.
Falo daquele desejo, sexual, sim, pela mulher concreta e ao mesmo tempo idealizada, mas que é um apelo a uma fonte primordial, que anseia pelo indizível, por algo de anterior e para além de mim próprio.
É esse desejo, particularmente doloroso na solidão mais absoluta, a do amante rejeitado, que o porno mata.
Como o vinho para um alcoólico, o porno seduz-me. Eu fujo dele.

"Antes que me deite"

Gostaria de ter palavras para prender nas minhas mãos, por um momento, a beleza deste blog, Antes que me deite. Para poder andar com ela na rua a mostrá-la aos amigos, aos conhecidos e desconhecidos. Aqui fica a intenção.

terça-feira, agosto 30, 2005

Viajar

“Um dia li num livro: «Viajar cura a melancolia».
Creio que, na altura, acreditei no que lia. (...)”
É assim que Al Berto inicia o seu texto Aprendiz de Viajante em O Anjo Mudo (pode-se ler este texto aqui, é o último da página do site Uma Homenagem à Escrita)
E a mim, curou-me? Por um lado, a melancolia estava a sufocar-me. A viagem parou isso. Embora a paragem ocorresse apenas enquanto eu andava... por isso, andei, andei, de carro ou a pé, mas sempre “on the road”.


Primeiro, pensei que o prazer de viajar era ir a um sítio e visitá-lo.
Depois descobri que o verdadeiro gozo estava em ir passando pelos diferentes lugares:
- de acordo com a minha inclinação da altura (houve vezes em que parti de um parque de campismo sem ter decidido ainda para onde seguiria),
- ou por via de enganos fortuitos (em certos momentos, tornei-me num viajante de enganos),
- ou por indicações na estrada, ou vindas de pessoas que ia encontrando, ou por pequenos lampejos de paisagens entrevistas.


Às vezes sinto que levei o futuro a fechar-me as suas portas.
Sento-me. Estou a chegar ao fim de qualquer coisa (um dia há-de ser da vida).
Quando não me resigno, corro, ando de bicicleta, ou, experimentei agora, viajo.
Porque viajar verdadeiramente é atravessar momentos sem perspectivar qualquer futuro. Por isso não fotografo nem filmo.
Cada momento é único e é uma passagem, um movimento: no ar parado, é fazer bater o vento de encontro ao rosto.

segunda-feira, agosto 29, 2005

Os Castelos

Visitei muitos castelos, surpreendido pelas diferenças significativas que observava neles: mais parecidos com palácios ou mais com fortificações, minúsculos ou grandes, mais inteiros ou mais em ruínas, etc.

Os castelos comovem-me na sua grandeza inútil e solitária.
Antes, foram construções humanas destinadas à protecção e defesa de um território e das populações que aí viviam.
Hoje, são monumentos obsoletos é certo, mas a sua presença dominadora embora não impositiva, como a de um velho avô, grande e silencioso, surge como uma companhia sempre reconfortante...

Olá...

... a todos!

Estou sem saber bem o que dizer. Andei tanto que parece que volto aqui outro! Ainda não fui visitar nenhuns blogs porque senão é que não escrevia mesmo nada.

Talvez comece por listar as “highlights” da minha viagem:

- Centro histórico de Guimarães: quando ali entramos, estamos noutro mundo;
- Castelo de Guimarães: tive a sorte de o ver pela primeira vez aproximando-me pelo Campo de S. Mamede;
- Castelo de Sta. Maria da Feira: infelizmente encerrado, mas uma visão única quando se chega à cidade;
- Museu Amadeu de Souza-Cardoso em Amarante: com uma colecção de pintura, escultura e desenho com a qual eu, que não sou grande apreciador, fiquei deslumbrado;
- Museu Marítimo de Ílhavo: até com um bacalhoeiro no seu interior!
- Castelo de Montemor-o-Novo: imaginem umas ruínas na Irlanda, só que implantadas em terra castanho-avermelhada em vez de em verde: inesquecível!
- Os brancos do Alentejo (não existe branco igual em mais parte nenhuma!) no azul intenso do céu;
- O Alqueva visto do Castelo de Mourão: igual a uma pintura japonesa, só que com azul sobre castanho, dois azuis, o do céu e o do Guadiana;
- Torre de Menagem do Castelo de Beja: 42 metros de altura!
- Mértola toda: linda, linda, linda!
- E duas curiosidades: Menir da Rocha dos Namorados em S. Pedro do Corval e oliveira que cresce no telhado de uma igreja na Amareleja!

(De negativo: claro que os incêndios sempre presentes! Onde não havia incêndio havia terra queimada, ou pelo menos fumo e cheiro a queimado. Acabaram por me fazer fugir para o Sul. Sim, de medo: porque era como se estivesse num país debaixo de guerra, só que sem bombas (mas a impotência e a vulnerabilidade eram as mesmas... penso eu).
E ainda os moinhos de energia eólica que estão a destruir as paisagens: mas porque é que em vez de os “plantarem” ao longo de quilómetros de cristas de montes, afastadíssimos uns dos outros, não os juntam todos em parques eólicos?)


(Acrescentado posteriormente: Depois de ter publicado isto vou ao Abrupto de Pacheco Pereira e, num post acabado de publicar, também ele tece umas considerações pouco positivas sobre o efeito das eólicas nas paisagens. A consultar.)

domingo, agosto 14, 2005

Viajante!

Vou-me mesmo embora! Acampar (coisa que não faço há 16 ou 17 anos). Quero começar por me abrigar à sombra de grandes castelos, subir ao ponto mais alto e percorrer horizontes silenciosos com um olhar luminoso. Não a celebrar memórias de batalhas, mas a respirar simplesmente; e a sonhar!


À volta disso, ou depois, será o que me apetecer!

sábado, agosto 13, 2005

Inspirar e...

...partir. Sair dum mar cinzento para uma antecâmara luminosa que me diga: Há sol! Tudo tão duro, a vida tão dura, as pessoas tão duras e eu tenho medo. Quero ficar em casa rodeado de livros, companheiros à minha espera, promessas seguras de tempos... que assim não viverei. Tenho de sair. Vencer o meu medo. O medo dos outros, nos olhos dos outros, que me é tão áspero. Sair, mas sem saber bem o que vou encontrar, ou quem vou encontrar. Quero encher os olhos de horizontes, para não me esquecer que eles existem. Não sei se quero encontrar outros olhos. Tão cansado, “I’m tired of the war”. Rir. De mim, da luz, do pão, do ar. Ouvir as árvores, o rumorejar de fontes esquecidas. Partir.

sexta-feira, agosto 12, 2005

Vou mudar de assunto (?)

Estou a ler "O Cemitério dos Barcos Sem Nome", de Arturo Pérez-Reverte, edições ASA:

Uma vez, jogando às cartas, um velho maquinista disse-lhe: "Há sempre um tonto que perde. E se olhares em volta e não vires nenhum, é porque o tonto és tu." (p.278)

quinta-feira, agosto 11, 2005

Naufrágio

Há um problema que assombra sempre as minhas relações amorosas.
O cenário é este: a relação está à beira de, ou já está mesmo a romper-se. Tenho de tomar uma atitude, de iniciar uma acção porque eu não quero de todo que a relação acabe.
Devo fazer:
- simplesmente aquilo que me apetece, sem pensar muito no assunto?
- aquilo que eu procuro e que acho ser verdadeiro no mais profundo do meu ser (e que nem sempre coincide com o que me apetece)?
- ou aquilo que eu penso ser mais eficaz para prender a outra pessoa?

Primeira pergunta: é possível eu optar por uma das hipóteses sem me deixar “contaminar” pelas outras?
Provavelmente não.

Segunda pergunta: mas supondo que sim, qual devo escolher?

Eu opto, ou melhor, procuro optar pela segunda. Porque se der mau resultado tenho sempre este consolo: isto sou eu. Deu mau resultado? Antes agora que depois, antes morto que a apodrecer.
(Mas rasgado por dentro, disso nunca me livro, claro!!)

quarta-feira, agosto 10, 2005

Amar vs. detestar

As pessoas são muito mais do que os 3 ou 4 aspectos que vemos nelas.
Ou seja, apresentam muitos mais motivos para as amarmos do que o que parece à primeira vista.

Mas eu podia ter escrito a frase anterior substituindo "amarmos" por "detestarmos". O que me levou a optar pelo amar?
Primeiro, é-me difícil detestar. Quando alguém me faz mal, procuro que o gostar abandone o meu espírito e mais nada.
Segundo, detestar dá imenso trabalho e, como não traz gratificação nenhuma, sinto que só serve para perder tempo de vida bem vivida.
Não acham?

domingo, agosto 07, 2005

"A dúvida"

O texto com este título é de leitura essencial (para mim, foi!) para os que vivem o amor como um território muito mais de descobertas do que de conquistas.
Podem encontrá-lo no Relógio Parado.

sábado, agosto 06, 2005

Os Póneis Selvagens, Michel Déon

Pedi aos livros, continuo sempre a pedir, que me dêem a doçura e a luz do mundo. Pedi-o também a algumas mulheres. Claro que nem uns nem outras me podem dá-las.
Há alturas em que vejo isso com clareza e, portanto, com um desespero mudo.
Outras há em que estou perto de acreditar com o coração nas infinitas possibilidades da vida.
Ambas coexistem agora que acabei de ler Os Póneis Selvagens de Michel Déon. É um livro que nunca devia acabar, não porque as suas 480 páginas sejam insuficientes, mas porque nós o somos e ele faz-nos esquecer isso. Desta vez (post de 22 de Julho) consegui suportar a sua dolorosa beleza e li-o até ao fim.
Às vezes, se eu estiver aberto e receptivo, os livros e as mulheres conseguem ensinar-me aquela doçura e aquela luz...

quarta-feira, agosto 03, 2005

O Baloiço

SMS: Olá, Maria Helena. Tudo bem? Já não nos falávamos há um ror de tempo. Ah, eu sou o Duílio, lembras-te de mim? Tenho andado a contactar todos os meus amigos, novos e antigos, próximos e distantes. Tu ficaste para o fim, não sei bem porquê. Mas como é que tu estás?

SMS: Não sei se tens ainda este nº de telemóvel. Ou então não te lembras mesmo de mim. Na escola, no baloiço cá fora, quando eu me sentia só e tu sorrias-me, recordas-te?

SMS: Se calhar ficaste ofendida por eu te deixar para o fim. Não é o que tu pensas. Eu explico-te: não sei se é a mais exaltante, mas é a memória mais doce aquela em que tu tocas o meu espírito! Trata-se, por isso, do receio de essa memória se estilhaçar: há tanto tempo que não te vejo, podes estar tão diferente, sei lá, mais amarga... bem, nisso eu não acredito, mas a verdade é que fui adiando o momento de chegar a ti.

SMS: Perguntas-te: mas porque raio não pega ele no telefone e fala directamente comigo? Olha, Maria Helena, porque não me sendo fácil dar-me com as pessoas face a face (lembras-te?), desenvolvi uma certa habilidade no escrever (com algum sucesso, como talvez tu saibas e se me permites a imodéstia): é na escrita que estou mais seguro e que consigo pensar e dizer mais exactamente o que sinto.

SMS: Deixa estar, Maria Helena, não fico zangado com o teu silêncio. Foi bom visitar-te, visitar a minha memória contigo. Só me assusta pensar que possas estar doente ou algo pior.

1 mensagem recebida: Olá!...


(- Está a ver, doutor, está a mexer os dedos da mão...
- Tem razão, enfermeira. Vamos ver: eu já não acreditava, mas parece que afinal o temos de volta!)





Este é o texto com que participo mais uma vez no concurso d'O Escritor Famoso, promovido pelo Divas & Contrabaixos e patrocinado pela livraria O Navio de Espelhos. Participem também!

Posso estar uns dias sem net; se isso acontecer, espero que sejam poucos. Desculpem o não contacto.

terça-feira, agosto 02, 2005

Matar: o terror

Falo principalmente da guerra.

O que verdadeiramente me horroriza quando sei de pessoas a serem mortas (ou vejo em filmes, telejornais, etc) nem é o lugar-comum de poder estar-se a eliminar um Mozart, um Einstein ou um Gandhi.

Antes de avançar, tento imaginar como seria a humanidade se eles não tivessem existido. Depois, olho para esta humanidade sem pessoas, como eles, mas que foram efectivamente mortas: a sensação de perda, mesmo jamais sabendo de quê, toma completamente conta de mim.

O que me horroriza, porém, é saber que aquela pessoa assassinada, se não o fosse, iria tornar felizes outros seres humanos, iria fazer outros sorrir, iria cuidar de uma criança, iria fazer alguém sentir-se menos só, iria ser amante, marido, mãe... e não vai porque ela já não está! Deixou de existir! Onde devia estar a sua presença viva não está nada, absolutamente nada!

Agora multiplico essa pessoa, ou melhor essa ausência, essa falha, por milhares, por milhões... E aqui abre-se-me aos pés um abismo negro de pavor...

segunda-feira, agosto 01, 2005

Chi Kung e o sorriso

No sábado estive num workshop de Chi Kung, uma arte terapêutica chinesa. Várias coisas me chamaram a atenção:
- a medicina convencional é acusada de tratar os sintomas e não a sua causa; mas aqui também se cai no mesmo: fazem-se exercícios para, por exemplo, ficarmos em paz. Mas como não se estimula a procura das causas da falta de paz e o seu tratamento, elas continuam a actuar e, portanto, melhora-se mas apenas momentaneamente.
- sempre que nos era dito para estarmos em paz com o mundo eu sentia um choque: como em paz com um mundo onde o sofrimento atinge níveis insuportáveis para tantos milhões de seres vivos?
- uma coisa bonita: os exercícios deviam ser feitos acompanhando-os com um "sorriso do coração" - foi mesmo dito que era uma parte fundamental de todos os exercícios. Houve uma senhora que perguntou como conseguir esse sorriso quando tudo dentro de si era tristeza. As respostas que obteve não foram satisfatórias. Mas aqui eu sabia como ajudá-la. E disse-lhe:
"A senhora na sua vida já sorriu assim certamente: quando bébé com a sua mãe, quando a sua filha lhe sorriu pela primeira vez, etc. Portanto, tenha confiança que esse sorriso está dentro de si, se o procurar vai ver que o encontra: comece por sorrir sem mais nada, procure sem tensão e um dia, de repente, vai sentir que encontrou o seu "sorriso do coração"!" Ela disse que ia tentar, mas com um sorriso que eu senti muito próximo do que ela tanto desejava.


(um Pulitzer Prize tirado daqui)

Não perguntes...


... porque é que a intensidade com que amamos não garante reciprocidade no amor; e mesmo quando a há, ela nunca está ao mesmo nível.

... porque é que a bondade suscita menos amor que a perversidade.

... porque é que a tentativa de verdade mata o amor. Ou a tentativa de mentira. Ou, a bem dizer, porque é que quase tudo mata o amor.

... porque é que o amor incondicional desperta nela (nele) desconfiança na melhor das hipóteses, e na pior, bocejos.

... porque é que, quando se ama alguém, há momentos em que não se ama.

..., enfim. Quem faz perguntas destas fica com o coração lixado.

(Foto de Kathy Richardson)

sexta-feira, julho 29, 2005

De Rudolf Nureyev (1938-1993)

"O grande bailarino não é aquele que executa com naturalidade o salto mais difícil,
é aquele que torna interessante o passo mais banal".




Bom fim de semana.

Comprar produtos portugueses.

Como? É fácil:

Procurem o código de barras e vejam se ele começa por 560: significa que é fabricado em Portugal. É só!

Assim ajudamo-nos, ajudando. Para mais explicações vão espreitar ao Movimento 560!

quinta-feira, julho 28, 2005

Palavrões e liberdade

Quase nunca os digo.

As pessoas, que à minha volta os utilizam, querem fazer-me crer que sou menos livre do que elas por os não usar.

Suspeito aqui de um engano.
Se eu for livre, claro que dizer palavrões é um sinal dessa liberdade.
Ah, mas o inverso já não é necessariamente verdadeiro: o facto simples de eu ou outro qualquer os dizermos não implica que sejamos ou fiquemos mais livres!

Não digo palavrões porque eles traçam um retrato da realidade mais feio e/ou mais risível (refiro-me aqui a um riso "por baixo" que, na verdade, pouco me interessa).

Por outro lado: a minha decisão de não os dizer, num mundo em que quase todos os dizem, é que pode passar a ser assim um sinal de maior liberdade.

Cito Óscar Lopes: "Ser diferente é ter a oportunidade de ser superior."
Porque não? É certo, não substitui a liberdade, mas pode ser um dos caminhos que a ela vai dar.

terça-feira, julho 26, 2005

"Os portugueses não gostam de si"

Com este título José Gil desenvolve, na Visão de 21 de Julho, mais uma das facetas em que se revela aquela característica dos portugueses: o queixume. Devo confessar que, tal como em "Portugal Hoje, O Medo de Existir", José Gil desfere uma flecha certeira no coração do meu estar com os outros.

Para começar, não posso esquecer que, quando me queixo, estou a aliviar a parte da responsabilidade pessoal que me cabe nos acontecimentos. É cómodo. Mas não é prático, porque não avanço um milímetro na solução dos meus problemas. Embora alivie esta sensação de impotência face à força do mundo que me rodeia e esmaga (que eu penso que me esmaga).

Como sabe quem visita os meus blogs, eu até nem sou de me queixar muito. Mas a ferida essencial está lá: e assim viro habitualmente as baterias contra mim mesmo (sinal disso é por exemplo o post anterior). Portanto nunca chego a gostar suficientemente de mim para procurar o encontro real, físico, concreto com os outros; por exemplo, raramente telefono a amigos, sinto sempre que o risco de ser um aborrecimento para eles é muito grande - procedendo assim eu acabo também por ser responsável pelo facto d'"A população portuguesa não forma[r] uma comunidade nem mesmo uma colectividade solidária." (do artigo referido).

Todos (inclui pessoas, colectividades, estado, país) somos como garrafas nunca completamente cheias. É verdade: eu incluído, diz-me o meu lado racional. Então como vencer esta minha tendência de ver em mim (e se calhar nos outros) sempre o seu lado vazio?

Uma outra/minha voz

Estou a atravessar outra vez um período em que não consigo escrever nada. Como já aconteceu anteriormente, vou partilhar convosco um poema, desta vez de Marin Sorescu (1936-1997):



Simetria


Vagueava,
Quando, de súbito, à minha frente
Se abriram dois caminhos:
Um para a direita
E outro para a esquerda
Segundo todas as regras da simetria.

Parei,
Semi-cerrei os olhos,
Esbocei com os lábios uma dúvida,
Tossiquei,
E segui pelo da direita
(Precisamente pelo que não devia,
Como se provou mais tarde).

Só eu sei o que foi esse caminho,
É escusado dar pormenores.
E depois, à minha frente, abriram-se dois
Precipícios:
Um à direita,
Outro à esquerda.
Lancei-me no da esquerda,
Sem pestanejar, sem tomar balanço,
E catrapumba lá vou eu pelo da esquerda abaixo,
Que, ai de mim, não estava forrado de penas!
Rastejei, disposto a continuar.
Fui rastejando por algum tempo
E de súbito à minha frente
Abriram-se dois grandes caminhos
“Já vão ver” – disse para comigo –
E tomei outra vez o da esquerda,
Para me vingar.
Errado, completamente errado, o da direita era
O verdadeiro, o grande caminho, ao que dizem.
E no primeiro cruzamento
Dei-me de corpo e alma
Ao da direita. Mas também agora
Era o outro que eu devia ter escolhido, o outro...

Agora a merenda estava quase no fim,
Na minha mão o cajado envelhecera,
Já não dava rebentos
Para eu descansar à sombra
Quando me domina o desespero.
Os ossos gastaram-se nas pedras,
Rangem e praguejam contra mim
Que perseverei no erro...
E olhem: agora à minha frente abrem-se
Dois céus:
Um à direita, outro à esquerda.


(ed. Quetzal)

sexta-feira, julho 22, 2005

Sonho de uma leitura sem fim

Lemos um livro tão dolorosamente belo que assalta o nosso espírito e o nosso corpo até ao mais fundo de nós mesmos.
De tal modo que, à medida que nos aproximamos do fim, vamos atrasando a sua leitura, pomos outros livros de permeio, para que, página após página, possamos estar o máximo de tempo possível naquele estado mágico, puro e terrestre em que o livro nos lançou.
Aconteceu-me já atrasar tanto que nunca cheguei à última página.
Tenho à minha frente um desses livros: Os Poneis Selvagens de Michel Déon. É um livro antigo que me chama com uma memória doce da juventude.
Vou (re?)lê-lo.

quinta-feira, julho 21, 2005

Vergílio Ferreira - Até ao Fim

Leitores, mas especialmente para quem Vergílio Ferreira é um escritor amado:

Por favor, vão ler o excelente texto "Limites da perfeição" publicado ontem no blog da literatura por João Paulo Sousa.
Sobre Até ao Fim, mas não só.

(Sabem que há um dvd sobre V.F.?)

O Escritor Famoso: Anúncio

Até às 24 horas do dia 22 de Julho todos os visitantes do Divas & Contrabaixos "poderão eleger o seu texto preferido, relativo ao escritor famoso que um dia apareceu na blogosfera e se pôs a passear de blog em blog". Se ainda não leram os textos, aproveitem que encontram-nos lá todos. De que estão à espera?

quarta-feira, julho 20, 2005

Vergílio Ferreira



A nossa adesão a um escritor faz-se por motivos elevados e baixos, por motivos evidentes e ocultos.

Este é o "meu" escritor.

Quais os motivos que o fizeram meu? Apenas sei, de um saber traduzido em palavras, os motivos evidentes. Dos outros apenas sei obscuramente, não poderei falar deles.

Entre os elevados:

Deu-me palavras e ideias para nomear o meu sentir e fazê-lo comparecer diante de mim e dos outros.

Ensinou-me os mundos que se escondem dentro das palavras. Ensinou-me também a possibilidade de cada um de nós poder encher uma palavra com infinitos mundos.

Mostrou-me como se pode assumir a beleza da nossa condição humana, mesmo nas suas facetas menos nobres.

Enfim, mostrou-me e continua a mostrar-me a insuportável beleza do real, bem como da legenda que fica desse real.

Entre os baixos:
Fez-me saber que eu não estava só na minha aflição de ser e de estar em relação com os outros. Principalmente no amor em relação às mulheres, para as quais em toda a minha vida eu nunca estive "à altura".

Tudo o que atrás escrevi refere-se aos romances, que são para mim o sinal vivo da sua arte maior. Os ensaios e os diários são também duma riqueza extraordinária, porém não tocaram nem convocaram a totalidade do meu ser como o fizeram os seus romances.

Só falta dizer uma coisa: de Vergílio Ferreira não tenho em mim um romance preferido. Porque cada um deles vive por si, nimbado de uma luz incomparável e imorredoira (mas para dar a ler a um(a) amigo(a) querido(a) escolheria Na Tua Face).

domingo, julho 17, 2005

Escrevo o...

"(...) marulhar da sombra sempre acesa
e fria?"

(José Augusto Seabra)




















(James Porto)

Eugénio de Andrade

Nota prévia:

Gosto de ler ou de dar a ler um autor apenas depois de algum silêncio ter descido sobre ele ou sobre a sua última obra.
Há demasiadas palavras, elogios, críticas, imagens, demasiado ruído enfim. É necessário um espaço largo e puro para o (re)ler.

Aqui fica um poema de Eugénio de Andrade. E também eu me calo agora.


APRENDIZAGEM DA POESIA

Durou muitos anos, aquele verão.
Cresciamos sem pressa com o trigo
e as abelhas. Com o sol
corríamos para a água, à noite
num verso de Shakespeare ou
na nossa boca uma estrela dançava.
Aprendíamos a amar, aprendíamos
a morrer. A todos os sentidos
pedíamos para escutar o rumor,
não do mundo, que ninguém abarca,
apenas da brancura de uma folha
e outra folha ainda de papel.

(Os Lugares do Lume)

sexta-feira, julho 15, 2005

Elogios

Sabem sempre bem os elogios. Mas como eu tenho aquela grande autoconfiança que já todos conhecem, quando os recebo lembro-me muitas vezes deste episódio que se conta ter sido passado com George Bernard Shaw:

Ele foi ver uma peça sua e depois enviou um telegrama à actriz principal dizendo "Admirável!".
Esta respondeu: "Não merecedora de tal elogio".
Bernard Shaw, num acesso repentino de mau humor, retorquiu (sempre por telegrama): "Referia-me à peça"
Resposta da actriz: "Eu também"!

quinta-feira, julho 14, 2005

O escritor famoso

Eis mais um blog por onde passou o escritor famoso. Eu soube dele aqui e depois aqui.


Tinha comprado todos os seus livros.
Via-o muitas vezes a almoçar na cantina e imaginou-se a pedir-lhe um autógrafo, uma audácia que nunca conseguiu pôr em prática.
Uma vez viu vários exemplares dum romance dele, muito amado, a monte com muitos outros e em saldo. Doeu-lhe.
Comprou-os todos, foi oferecendo aos amigos e ficou com o último como recordação.
Decidiu-se a escrever-lhe a contar o que tinha feito e a comunicar-lhe a imensa gratidão que sentia por ele ter escrito tantos livros inesquecíveis.
Em resposta recebeu um cartão com meia dúzia de linhas, palavras neutras e quase indecifráveis.
Não soube se devia responder, dada a frieza. Pensou: é um escritor famoso, porque havia de perder tempo com uma pessoa banal?
Continuou a comprar todos os seus livros.
Anos depois vê num uma referência maravilhada e bela a este episódio.
Chorou por dentro.

Post dedicado à R. e à M.

Fico fascinado quando estou com uma pessoa (normalmente são mulheres) ingénua, pura, boa, franca e que sorri permanentemente para a vida. É muito raro encontrá-las. Nos últimos anos eu tive a sorte de conhecer duas, com quem aliás estive anteontem e hoje.
E tive de pensar porquê este meu fascínio, já que estas pessoas são habitualmente consideradas pouco interessantes. Acho que descobri. Por duas razões.
Porque elas mantêm mais acesa a chama de tudo o que de bom vem da infância.
Porque elas, nesta sociedade, são as únicas e verdadeiras Sobreviventes: não abdicam do que são nem o escondem, e continuam vivas... sempre a sorrir!