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terça-feira, maio 11, 2021

E se os livros não nos preparam para a vida?

Não sabia como é vasto, árido e escarpado o país que o viajante da vida tem de atravessar para poder aceitar a realidade. É uma ilusão pensar que a mocidade seja feliz, uma ilusão daqueles que a perderam. Os jovens sabem que são miseráveis, pois alimentam os falsos ideais que lhes foram incutidos e todas as vezes que entram em contato com o real sentem-se magoados e contundidos. Dir-se-ia serem vítimas de uma conspiração. Os livros que lêem, livros ideais pela necessidade de seleção, e a conversa dos mais velhos, que olham para o passado através da nuvem rosada do esquecimento, preparam-nos para uma vida irreal. São obrigados a descobrir por si próprios que tudo o que leram e tudo o que lhes ensinaram é mentira, mentira, pura mentira. Cada nova descoberta é mais um prego que lhes fixa o corpo à cruz da vida. (…) (p. 111)

Esta foi mesmo a minha vivência (nasci em 1958 e na biblioteca do meu pai estavam muitos livros cuja leitura me era proibida).

Hoje, penso que é diferente. Porque, desde crianças, todos têm acesso aos aspetos mais sórdidos e doentios da realidade e da fantasia do mundo (no entanto, não esqueçamos que tudo o que possamos ler, livros realistas ou não, tudo é sempre irreal porque 1) é a perspetiva singular de quem está a escrever; e 2) as palavras não espelham a realidade nunca).

Quem fica ou ficou melhor? Não sei responder. Mas avento a hipótese de que a sociedade, essa, fica pior. Pois parece-me que uma sociedade evolui principalmente devido àqueles que não aceitam as deformidades que ela revela, isto é, àqueles que (muito provavelmente com a leitura que dá mais espaço à reflexão) criaram dentro de si um ideal e que não se resignam. 

quinta-feira, fevereiro 08, 2018

A reação do espectador à intensidade do ator


Diz Gonçalo M. Tavares (GMT), no Jornal de Letras de 31 de Janeiro de 2018:

«Como medir a intensidade de um ator? (…)
(…) Uma hipótese de resposta: pela reação do espectador, pelo impacto provocado no espectador, eis a pista. (…)»

Pergunto-me: há linearidade entre a reação do espectador e a intensidade do ator que a provoca?

(Aliás, uma outra questão interessante seria determinar se a intensidade, tal como aqui é entendida por GMT, tem só a dimensão quantitativa, ou também tem uma dimensão qualitativa? Isto é, por hipótese também, uma intensidade poderia ser forte e, no entanto, desajustada, inadequada? Não irei discutir isto aqui e assumirei que inclui ambas  em sintonia.)

Penso que nos níveis baixos e médios se pode aceitar a correspondência. Assim:

Se a intensidade for má, surgem protestos, verbais ou não (como, por exemplo, abandonar a sala antes de terminado o espetáculo).

Se for medíocre, o espectador distrai-se, boceja, perde-se no telemóvel, comenta para o lado.

Se for suficiente, ele aplaude brevemente e sai.

Se for boa, aplaude convicta e demoradamente, como se não quisesse abandonar a sala, como se desta maneira alcançasse prolongar a experiência da intensidade.

E se for muito boa ou excecional? Que meios excecionais pode usar o espectador para mostrar que assistiu a algo de excecional?

Penso que encontro a resposta num velho livro sobre Coimbra, lido há largos anos na Biblioteca Nacional, e cujo nome já perdi.

Segundo relatado aí, há muitos, muitos anos, a forma que o público tinha de mostrar a sua total rendição à excelência de uma serenata de fados era acolhê-la com o mais absoluto e reverencial silêncio.

Parece-me perfeito.

Pois não é assim que permanecemos quando ficamos maravilhados e assombrados por uma experiência artística e estética ímpar: em completo silêncio?

sábado, agosto 12, 2017

Um livro simples

Às vezes, desejamos uma vida mais simples. Comida, casa, saúde, trabalho (com dimensão humana) e uma companhia agradável. Nada de muito exigente, nada de muito esforçado. Será que sentimos este apelo também em relação a um livro?

A minha resposta é sim. Sonho com o livro que me preenchesse o espírito, mas sem complicações de enredo ou de estilo literário. Com o qual pudesse descansar, com o qual pudesse acordar e adormecer sem convulsões de qualquer espécie. Que, nem que fosse por alguns momentos, depurasse a minha existência daqueles escolhos e imperfeições que tantas dificuldades me trazem.

Curiosamente, tenho a vaga noção de que já li esse livro, algures na juventude. Em consequência, descubro mesmo um certo impulso em mim para dizer: Ah, no meu tempo é que havia bons livros! Porém, sei que isso não passa de uma fantasia. Nunca esse livro apareceu debaixo dos meus olhos. E, todavia, não vejo maneira de me impedir de continuar a procurá-lo.

Às vezes passo horas numa biblioteca a viajar por livros. Dedico esse tempo a ler inícios de livros, até que há um que me conforta e me faz sentir bem. Estou sentado naquele momento, não me apetece mais levantar-me, desejo prolongar a sua leitura até ao infinito (enquanto sinto uma levíssima, porque ainda longínqua, angústia de que isto, também Isto terá um fim). No entanto, acho que tal nunca me aconteceu com um livro simples. Ou será que, quando encontro um livro simples, só sinto desagrado?

Por vezes imagino, desejando-o, que um livro simples poderia ser aquele em que o autor até pudesse mentir o que quisesse, mas em que nenhuma das suas personagens dissesse alguma vez uma mentira. Ou ser um poema em que as palavras fossem como pedras leves, lisas e luminosas. A claridade daí resultante poderia fazer-me aceder à simplicidade. A verdade é que já me cruzei com tentativas literárias nesse sentido, porém o resultado não foi nem a claridade nem a simplicidade.

Diz a neurociência que a evolução do cérebro tem funcionado por adição e não por substituição. Assim, o nosso cérebro foi evoluindo pelo acréscimo de novas estruturas às antigas; e que todas elas, no seu conjunto, raramente funcionam harmoniosamente entre si. Logo, talvez este conhecimento me permita concluir que o sonho da simplicidade nunca pode passar disso mesmo. Porque nada do que o nosso cérebro produz pode ser simples. Ah, exceto, quem o saberá alguma vez?, o desejar essa impossível simplicidade.

sexta-feira, julho 28, 2017

O Leitor Ideal

«Qual é, na vossa perspetiva, o Leitor Ideal para a vossa obra?» – Esta é uma pergunta que por vezes dirijo a alguns escritores.

Reconheço que a questão, posta assim de chofre, não é fácil de ser respondida. Muitas vezes, aliás, eles pensam que me estou a referir ao leitor que têm em mente quando escrevem. Mas não, o que eu pretendo saber é quais as características que eles sonham para um Leitor Ideal da sua obra (já escrita).

Por que razão isto me interessa? Em algumas áreas da minha vida, apetece-me a excelência que, naturalmente, nunca chego a encontrar. Só que o caminho até esse horizonte indefinido é-me sempre festivo. Portanto, as ideias para esse perfil de Leitor Ideal são-me sempre muito bem-vindas.

Porque a minha aspiração é na realidade libertar os múltiplos prazeres que a leitura me pode trazer, sejam eles entretenimento, aprendizagens, vivências improváveis, construção de mundos interiores, alargamento da rede de relações interiores, cumplicidades com o autor, ou experiências estéticas o mais diversas possíveis.

No entanto, talvez seja possível chegar a uma certa simplicidade: o Leitor Ideal acabará talvez por ser aquele que lê genuinamente, aquele que se coloca a si mesmo todo inteiro na experiência da leitura, de cada vez sempre única, sempre renovada.

E quanto aos escritores? Será este o Leitor que eles idealizam para a sua obra?

Imagino um escritor a desejar que o seu Leitor Ideal fosse aquele para quem a leitura da sua obra tivesse siso tão devastadora, tão profunda e tão marcante que ela o teria transformado em alguém completamente diferente a iniciar uma vida também ela completamente nova.

… ou alguém que colecionasse todos os exemplares, todas as edições e todas as traduções do livro.

… ou aquele cuja paixão pela obra o levasse a traduzi-la para todas as línguas onde ainda não houvesse tradução.

… ou o que não repousasse enquanto não tivesse decorado o livro todo, palavra por palavra, frase por frase (se possível, até movido pela evocação de Fahrenheit 451, de Ray Bradbury).

… ou o que, ao lê-lo vezes sem fim, palavra a palavra, fosse escrevendo e juntando outras frases, acabando por criar outros e inumeráveis livros a partir daquele.

… ou o que se apaixonasse por todas as pessoas parecidas com as personagens do livro, mas só enquanto elas não o tivessem lido. Assim, poderia viver em toda a sua pureza histórias alternativas, podendo manter-se sempre dentro da história do livro.

… ou o que, nas suas viagens, entrasse em todas as bibliotecas, requisitando essa obra, de forma a associar pelo menos uma parte do livro a cada um desses lugares visitados. Ao mesmo tempo, deixaria registado o testemunho da passagem de um leitor daquela obra.

… ou o que, nas suas múltiplas releituras, descobrisse no livro uma fonte sempre inesgotável de novos deslumbramentos.


… ou aquele que morresse, não como Ícaro apenas por ter atingido a altura mais chamejante, mas como Buda por ter alcançado, com esse livro, o nirvana e a completa abundância num outro nível de existência. Melhor: como um Bodhisattva que, podendo atingir o nirvana, resolvesse voltar ao sofrimento de ler outros livros, agora para ajudar outros escritores e leitores a encontrarem a capacidade de criar uma experiência ilimitada e infinita de leitura….

sábado, julho 08, 2017

Leituras marcantes

Quando era mais novo, ao ser arrebatado por um livro, tornava-me num seu campeão. Um livro que me iluminasse tinha também de verter a sua luz sobre aquelas pessoas de quem eu mais gostava. Não descansava enquanto não explicava a um amigo ou a uma amiga do que tratava o livro, porque é que era absolutamente fundamental lê-lo; e, não satisfeito com isso, ainda perorava sobre como e onde o livro iria mudar a sua vida. Um cansaço para mim, claro, mas sobretudo uma violência para ele ou ela.

A violência é evidente e indesculpável – desafortunada a pessoa que tinha o azar de ser apanhada por mim!

Quanto ao cansaço, ele advinha de se tratar quase sempre de um esforço inglório. Inglório em várias frentes. Primeiro, porque, estranhamente para mim, a pessoa não ficava com a mínima vontade de ir ler o livro, mesmo que eu, emprestando-o, lhe poupasse o trabalho e a despesa de o adquirir. Depois, porque a pessoa não só não me agradecia o esforço, como demostrava uma certa impaciência para comigo… e, lembro-me bem, para meu espanto, muitas vezes chegava a ficar zangada comigo.

Confesso que isto me magoava. Precisei de alguns anos para deixar de ser o paladino obstinado dos livros que eu achava maravilhosos, a fim de não estragar irremediavelmente a amizade que me unia a essas pessoas. Bem… e, no fundo, para manter uma vaga esperança de que, talvez um dia, elas acabassem por pegar nessa obra que tão importante fora para mim.

E tantas foram realmente importantes! Porque a minha personalidade tem sido, em grande parte, modelada (e moderada) pelas leituras que fui fazendo ao longo da vida. Fui crescendo e modificando-me por via da extraordinária influência que essas obras foram tendo sobre mim; influência essa que, ainda hoje, persiste com uma intensa luminosidade. Por conseguinte, o meu entusiasmo por esses livros não era de todo superficial nem passageiro.

Apenas alguns exemplos: Cântico Final, de Vergílio Ferreira. O Amor em Visita, de Herberto Helder. Arco do Triunfo e Desenraizados, de Erich Maria Remarque. A Peste, de Albert Camus. O Principezinho, de Antoine de Saint-Exupéry. O Budismo Zen, de Alan Watts. E ainda muitos mais – eu tinha-os escrito aqui, mas apercebi-me que a lista se ia estendendo indefinidamente, pelo que optei por deixar estes que foram os primeiros que me vieram ao espírito.

Evoco ainda a memória da mãe de um dos meus amigos que me recebia e me apresentava a outros como sendo “um menino muito lido”! Só tardiamente percebi que, para além de uma certa ternura e de um grande sentido de humor, esta sempre amabilíssima senhora revelava uma profunda sabedoria (que, talvez, se possa estender a todos nós que somos Leitores): possivelmente não era mesmo eu que lia os livros, mas eram eles que me liam a mim, favorecendo assim o despertar de novas trajetórias na minha vida e de ignoradas sensibilidades na minha pessoa.

The Metropolitan Museum of Art, Annunciation Triptych (Merode Altarpiece)
 Workshop of Robert Campin (1427-1432) - Fonte

sábado, julho 01, 2017

Leituras da infância e da juventude

Causa-me perplexidade o facto de não conseguir reler hoje o que no passado li com exaltação. Como é possível que um determinado livro, que já esteve carregado de beleza, de significado e de implicações para a minha vida, hoje me diga tão pouco?

Podem ter sido as muitas releituras feitas que foram desgastando a obra? Nalguns casos talvez sim, mas não abrange todos. Há livros que continuo a reler com prazer sempre renovado; e outros que não consigo ler sequer uma segunda vez, apesar do enorme prazer da primeira leitura.

Uma hipótese plausível é a de o livro ter uma qualidade moderada. Na altura em que o li da primeira vez, talvez ele estivesse a ter um grande sucesso e que, depois, ao assentar a poeira, se revelasse ser menos bom. Ou talvez fosse de um género ou estilo que me emocionou particularmente na altura e agora já não. Ou ainda por tratar de assuntos que, então, eram uma novidade para mim mas que, atualmente, se me tornaram banais.

Curioso. Enquanto escrevo, apercebo-me que me sinto infinitamente grato a esses livros pertencentes, na sua maioria, a uma literatura mais modesta, menos prestigiada e mais simples. Porque sinto isso? Penso que possivelmente foram eles que, nesses primeiros anos de leitura, me abriram perspetivas e possibilidades de vidas insuspeitadas (a Ficção Científica), que me sensibilizaram para a complexidade das motivações humanas e para a justiça (o Policial), que me alertaram para os valores da honra e da coragem (o Western e a Aventura).

Na altura, ao ler estes livros, encontrava por vezes grandes escritores que ainda hoje releio com satisfação. Recordo na ficção científica Ray Bradbury(*), Doris Lessing, Philip K. Dick e Ursula K. Le Guin. No policial, G. K. Chesterton, Raymond Chandler, Edgar Allan Poe e Dashiel Hammett. No western, Jack Schaefer, John Steinbeck e Jack London. Na aventura, Robert Louis Stevenson, Jonathan Swift e Daniel Defoe.

Quando somos mais novos e estamos mergulhados no fluxo dos acontecimentos do dia-a-dia, há poucas possibilidades de conseguir fazer uma reflexão aprofundada sobre a vida. Aqueles livros tiveram o poder de desencadear múltiplos sentidos da vida, todos e cada um, sempre importantes para mim, para aquilo que sou hoje. Graças a eles, vivo numa liberdade mais ampla, em que o eixo central da minha vida se baseia muito mais no valor e no propósito da existência (ambos sempre a atualizarem-se, muito ainda devido aos livros) do que em ganhos materiais.

Finalmente, foi a sua leitura que, sem dúvida, me abriu as vias por onde agora respira uma literatura mais exigente, mais rica e, portanto, mais gratificante (da qual, na época, eu pouco percebia e não gostava assim tanto).


Por isso, sinto-me agradecido. Aliás, no meu espírito, ler confunde-se sempre com agradecer quando as palavras lidas se transmudam num rio interior que flui, expandindo-se para algo maior e melhor do que antes. Porque agradecer é acolher e reconhecer a dádiva. E a leitura é isto mesmo: acolher e reconhecer.


(*) A foto foi retirada deste excelente blogue sobre a saudosa Coleção Argonauta.

domingo, junho 25, 2017

Livre de lastros

Normalmente, vamos ao encontro de um novo livro sem a leveza da inocência. Ou seja, carregamos connosco toda a cultura que, implícita e explicitamente, fomos absorvendo ao longo da nossa vida. Isso é bom ou mau? Como tudo na vida, a resposta é: depende. Depende da densidade dessa carga e depende das situações.

Há livros que nos incitam a convocar tudo o que já lemos e o que aprendemos com todas as nossas leituras anteriores. Conseguem-no de duas maneiras.

A pior e mais desgraçada ocorre quando o escritor se apoia na técnica para (não há outras palavras) produzir um objeto vendável. Nós, aqueles que amamos a literatura de uma forma discreta mas absoluta, sentimo-nos então asperamente constrangidos (no sentido literal da perda de liberdade, que é o objetivo de todo o embuste, a fim de fazermos o que o impostor deseja) ao nos apercebermos que estamos diante, não de um livro, mas de um simples truque que, acima de tudo, desrespeita a nobre arte da escrita.

Mas há outra forma de o escritor convocar as nossas leituras anteriores, agora de uma forma bem mais amável. Quando o livro, pela sua arte, faz brilhar intensamente tudo o que já lemos, fazendo com que a não-inocência seja um trunfo fundamental. Lembro-me, por exemplo, de Camões, de José Saramago (principalmente, esse irradiante “O Ano da Morte de Ricardo Reis”) ou de Enrique Vila-Matas.

Sei que estes livros existem e estou sempre aberto para os encontrar mas, por regra, tento partir para cada livro com a maior inocência possível. Apenas com o objetivo, é certo que sempre falhado, mas também sempre parcialmente conseguido, de não consumir tempo e alegria a dar atenção ao já conhecido e envelhecido.

Como realizar esta intenção? Apesar da quase impossibilidade de esquecermos o que aprendemos (entendendo isto num sentido lato, não falo de tirar um curso de literatura), entro sempre num novo livro com a abertura e predisposição ao prazer de encontrar dissemelhanças, originalidades e desafios. Isto talvez não seja tão difícil de conseguir, até porque hoje em dia valoriza-se a voz única, especial e idiossincrática dos autores (ou será que não, dada a pressão do mercado?). Ajuda-me, no entanto, saber que sobre cada obra literária não existe uma interpretação única: isso confere-me uma liberdade suficiente para o florir de um olhar limpo, curioso e interessado, nesse encontro com o livro.


Finalmente, todo este esforço serve para quê, perguntar-me-ão. Muito simples. Primeiro, evidentemente, para fazer da leitura uma arte tão nobre como a da escrita. Depois para, ficando livre do desgaste das vivências medíocres, potenciar ao máximo a possibilidade de uma experiência sublime na leitura da obra literária.

quarta-feira, junho 21, 2017

Encontro os livros

Adoro ler.
Digo isto e oiço de imediato vozes antigas que saltam:
“O menino não adora nada ler. Adorar só a Deus.”
Pois. Mas e se Deus não me fala e se remete a um silêncio total?

A questão é que me lembro de sempre desejar alcançar a sabedoria. Procurei Deus, mas não o encontrei. Também não tive a sorte de encontrar um mestre que me guiasse nos caminhos da sabedoria. Na realidade, até tenho dúvidas sobre aquela frase da tradição oriental: “Quando o discípulo está pronto, o mestre aparece.” Talvez eu nunca tenha estado pronto, é uma possibilidade.

Ah, mas encontrei os livros! Quando li Oscar Wilde, apercebi-me da chuva de revelações que a palavra escrita pode trazer. Quando li Antoine de Saint-Éxupery, apercebi-me das muitas camadas por que é constituído o texto escrito. Quando li Vergílio Ferreira, apercebi-me de como a nossa vida interior se vai enriquecendo extraordinariamente com cada livro lido. E, quando li Ray Bradbury, decidi que a minha vida seria dedicada a atingir aquela sabedoria que parecia estar por detrás de todas as histórias que ele escrevia.

Era um projeto perfeitamente ao meu alcance. Seria fácil, bastava-me, para isso, entrar em contacto com pessoas mais sábias e mais inteligentes que eu. O problema que me surgiu não foi de todo elas serem poucas, claro. O problema foi essas pessoas provavelmente não terem grande interesse em estarem em contacto comigo, dado que tenho de admitir que elas, tal como eu, desejam estar com pessoas mais sábias e inteligentes do que elas próprias.

É aqui que surgem os livros. Com estes posso estar em contacto íntimo com as pessoas mais sábias e inteligentes do planeta, independentemente de onde elas estiverem e do que estiverem a fazer. Na verdade, há ainda mais, posso “ouvi-las” as vezes que quiser, durante todo o tempo que eu precisar, posso pará-las numa frase e ficar com essa ideia, tentar percebê-la com tempo, dialogar com ela, criar novos pensamentos, novas revelações sobre mim próprio e sobre o mundo. Sentindo sempre uma satisfação profunda nesse processo.

Atingi a sabedoria, como desejava quando era miúdo? Claro que não, hoje sei que a sabedoria não é um ponto de chegada, não é algo que seja possível possuir como quem tem um carro ou uma conta no banco. A sabedoria é um caminho. E esse caminho abre-se à minha frente, com as suas múltiplas possibilidades, através dos livros. Com estes, vou caminhando, fazendo o meu próprio caminho («Caminante, no hay camino, / se hace camino al andar.», diz Antonio Machado). Acima de tudo, com prazer e sem precisar de o fazer sozinho (embora possa eventualmente estar só).

quinta-feira, janeiro 28, 2016

100 anos do nascimento de Vergílio Ferreira

“(…) De que me serve todo o fervor do que disse, agora que estou só em face de mim, simples, vivo, indiscutível desde as minhas mais profundas raízes?
Eis que depois de toda a verdade e erro com que falei, depois das minhas fatigantes repetições, das incoerências e enganos, das certezas e ilusões, olho uma vez ainda, nestes muros que me cercam, este Velho Rei de Rouault, A Trança, de Resende, relembro uma página de Malraux, de Eça, um poema de Nobre, de Antero, de Camões, versos do Rei Édipo, esse fulminante verso da Antígona contra todos os carrascos que a voz escrava do homem não cessa de inventar:

οτοι συνέχθειν, λλ συμφιλεν φυν (*)

(Em grego, consintam, para que esta voz nada perca do seu peso milenário.)

(*) «Não nasci para compartilhar do ódio mas do amor» (Antígona, v.523).

(…)

            O adversário da paz não é apenas a guerra e a sua ameaça: é o medo sob todas as suas formas. E a expressão mais alta da paz é a possibilidade dada ao homem de se reconhecer inteiro na vida pela exaltação do que mais profundamente o pode dignificar como homem.”

(do mundo original, Livraria Bertrand, 1979, pp.251 e 115)


Faz hoje cem anos que Vergílio Ferreira nasceu, contribuindo com o seu labor literário para enobrecer a nossa vida com uma humanidade plena de valores, alegria e beleza.

Pessoalmente, a minha dívida para com ele é imensa. Ele ensinou-me a olhar, a sentir e a atuar no mundo de uma forma que eu nunca faria se não tivesse lido as suas obras. Fico feliz por ter tido a oportunidade de o fazer feliz durante um momento da sua vida. Mas isso é uma outra história. O que aqui quero deixar como testemunho é que ele proporcionou-me eu ter podido enriquecer extraordinariamente a minha vida com a leitura dos seus livros e com os mundos que essa leitura me abriu.

quarta-feira, janeiro 27, 2016


"(...) hoje que descobrimos a Arte, reconhecemos nela um dos valores humanos mais altos, para alguns decerto a reinvenção de um Absoluto, depois da morte dos outros. Um mito? Talvez que, porém, uma vida se não possa cumprir sem mitos - sem uma força que a supere e unifique. O sabermos que é um «mito» anula-a como tal - em parte ao menos. Mas se o non omnis moriar de Horácio, o «não morrerei por inteiro», é uma bela ficção, se profundamente sabemos que não sobreviveremos, compreende-se ainda assim que a arte se recupere em Força Totalizadora, ao pensarmos que ela é talvez a melhor forma de uma vivência profunda do instante que passa."
(do mundo original, Livraria Bertrand, 1979, p.101)


terça-feira, janeiro 19, 2016


A genialidade é sempre mal compreendida. Mas com a obra do VF o problema é agravado pelo facto de ela não caber num qualquer festival superbock: ela pertence antes ao domínio da intimidade, do silêncio, da fraternidade cúmplice; ela fala-nos ao mais profundo de nós e, por isso, não é popular.


"(…) À pergunta de Platão sobre a utilidade de Homero, responde a sucessão dos séculos que se comoveram com os errores de Ulisses, a despedida de Heitor, a revelação do homem a si próprio, através de Helena, Aquiles, Páris, os mitos que enformaram os sonhos, os medos dos homens, o olhar interrogador e maravilhado em face do mundo e da vida.
Assim, o para quê de uma obra de arte não cabe na dimensão do utilitarismo. (…)”
(do mundo original, Livraria Bertrand, 1979, p.57)

segunda-feira, janeiro 18, 2016

"Só em liberdade se pode ser artista - repete-nos Hegel. Não apenas em liberdade «exterior», acentuemos, essa que se traduz pela ausência de uma imposição dos outros, mas ainda em liberdade «interior», essa que rejeita uma imposição de nós próprios."
(do mundo original, Livraria Bertrand, 1979, p.48)



Onésimo Teotónio de Almeida, na sua mais recente obra, "Despenteando Parágrafos" (2015), instala-se num registo que não é propriamente adulador ou celebratório. No entanto, quando se refere à obra ensaística de Vergílio Ferreira, ele é francamente elogioso.

Há muitos anos que eu não lia os ensaios de Vergílio Ferreira. Voltei então a eles, e comecei pelo seu primeiro livro de recolha (até 1957), Do Mundo Original. Desse livro deslumbrante, continuarei a selecionar alguns extractos que, para mim, são autênticas iluminações.

domingo, janeiro 17, 2016

Sobre a Arte, em Vergílio Ferreira, I

"(...) que uma obra de arte , a rigor, não se discute. Uma obra de arte ou nos mobiliza a adesão, e em tal caso ela é um absoluto de presença, uma vivência sem margens, ou não promove tal adesão e em tal caso essa obra não existe. A discussão sobre ela passa-lhe um pouco à margem, (...)"

(do mundo original, Livraria Bertrand, 1979, p.37)



Dia 28 de Janeiro faz 100 anos que nasceu Vergílio Ferreira, um dos maiores escritores de sempre.

Para mim, a sua obra é "um absoluto de presença". Por isso, digo: sinto no meu sangue, com uma certeza anterior a todas as razões, que Vergílio Ferreira é um autor maior de uma obra artística (que inclui o romance, o conto, o ensaio e o diário) maravilhosamente única e inesquecível.

sexta-feira, janeiro 01, 2016

Escrever

Escrevo sempre a partir de outros escritores.

Por isso, para mim, ler é respirar. Para poder escrever, depois, como amo; ou, pelo menos, como vivo.

Não o sei fazer senão em forma de fragmentos, porque também são múltiplas as margens para as quais a vida me atrai.

quarta-feira, dezembro 16, 2015

A Poesia e os possíveis


A poesia pode gerar uma revelação vital que se decide no silêncio do livro. Ou da voz humana.

A poesia pode ser um apelo a que recuperemos a infância longínqua das emoções.

A poesia tem a capacidade de fazer despertar para a luz do dia o que mais profundamente nos afeta, aquilo que mais profundamente somos.

A poesia pode ser uma forma iluminada de pontuar a nossa relação com o mundo.

Os outros géneros literários têm atributos. A poesia atinge-nos, simplesmente.

A poesia tem a faculdade de permitir a reelaboração de vários mundos de vivências com um leitor - se é que há só um leitor dentro do leitor!

A poesia possibilita um caleidoscópio de ângulos de visão sobre realidades fundamentalmente inapreensíveis.

A poesia pode permitir aproximações fulgurantes ao centro do nosso próprio destino de seres humanos.

Não é possível existir uma poesia falsa. Porque ela, a existir, nunca seria sentida como poesia.

A poesia acrescenta novas realidades à realidade de se ser humano.

sexta-feira, dezembro 04, 2015

Poema de Papiniano Carlos

“Amanhã viajarei no tempo,
viajarei nos ventos, os dedos esguios.
Viajarei no pó, nas nuvens, nos caminhos
das águas; retornarei às fontes,
serei (de novo?) a oculta semente
que espera o tempo
de ser ave.”
Papiniano Carlos, As Florestas e os Ventos

quarta-feira, setembro 21, 2011

Rei Édipo, Sófocles

(com introdução, tradução do grego e notas de Maria do Céu Zambujo Fialho)

A história é por demais conhecida, por isso aqui deixarei apenas algumas questões que nasceram de uma leitura apaixonada.

Édipo é sempre auto-determinado. Ele decide sempre por si próprio, não se deixa levar pelo que os outros dizem. O problema é que ele assim afunda-se na tragédia. Será que Sófocles faz aqui uma apologia da submissão e da passividade? Pelo menos à vontade dos deuses?
No entanto, Édipo responsabiliza-se sempre a si próprio pelo que faz e nunca deita as culpas para cima dos outros ou dos deuses. E Sófocles oferece-nos aqui um retrato grandioso desta personagem, com a qual não podemos nunca deixar de simpatizar e de admirar. Portanto, não parece que defenda a submissão. Ao contrário de Laio e de Jocasta, que procuram enganar os deuses com estratagemas, Sófocles constrói um Édipo corajoso e sempre pronto, por mais terrível que isso lhe pareça, a enfrentar as coisas como elas são.
Quando a boa fortuna de um poderoso começa a cair, aí surge a paranóia de que o andam a trair. Mais uma vez, repare-se que a grandeza de Édipo volta aqui a revelar-se, pois nem essa humana paranóia o faz desviar da busca implacável da verdade, não se perdendo em perseguições e castigos inúteis.
Infelizmente, é essa coragem e inteireza que vai provocar e revelar a sua desgraça. Por isso, interrogo-me sobre qual seria a posição de Sófocles sobre esta sua personagem, o que pensaria ele realmente de Édipo e do seu confronto com os deuses, ...

Uma reflexão adicional sobre Creonte. Nesta peça, Creonte mostra aqui grande sensatez, raciocínio lúcido e um saber bem como lidar com os outros. É um Creonte completamente distinto do de Antígona. Sófocles evidencia aqui algo que começamos a reconhecer hoje em dia: nós somos o que somos é certo que por factores disposicionais, mas também, e muito, devido a factores situacionais. É assim que Creonte próximo do rei é uma coisa, sendo rei é outra muito diferente.

segunda-feira, agosto 01, 2011

Poesia, Saudade da Prosa de Manuel António Pina

Nunca tinha lido a poesia de Manuel António Pina. Gostei muito deste livro que me foi oferecido por mão amiga. Trata-se de "uma antologia pessoal".
Tendo lido outras coisas do autor (no fundo, sendo um ignorante da sua obra), esperava uma escrita permeada de humor. Descobri uma poesia discreta, sem grandiloquências, humana, digna e sóbria. Inclui, é certo, uns laivos dispersos de ironia (nunca construída à custa de..., mas mais feita com...), e, no entanto, é uma ironia para sempre reflectida sobre um fundo de melancolia.
As ideias e as emoções evocadas pelo autor ao longo destas páginas abrem no nosso espírito atmosferas indefinidas, como se elas flutuassem no limiar da nossa consciência, ficando nós à beira de as compreender e de abarcar, quase como se fossem familiares e, no entanto, estrangeiras.
O autor interroga connosco a estranheza do mundo, da palavra e da criação, não nos deixando ficar de fora... mas o que escreve e partilha connosco é também uma poesia do silêncio, da presença da morte, da reflexão sobre o que é o poema, o poeta e o leitor.
Um livro excepcional.