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quinta-feira, junho 29, 2023

Contra a vitimização e o conformismo em alguns professores

 


Não concordo com os professores que escrevem, ou que dão publicidade a quem escreve, textos saudosistas sobre a Educação, em que o alvo primordial são sempre os estudantes (porque estão mal preparados, porque não vão às aulas, porque são distraídos, porque copiam nos trabalhos, etc., etc.). Não divulgo aqui nenhum desses textos porque precisamente não pretendo dar-lhes publicidade e porque todos sabemos do que falo aqui.

Concordo ainda menos que os professores divulguem publicamente que se conformam com a situação, que se tornaram maus professores, que ensinam menos e pior, que avaliam sem honestidade, etc., etc. Tudo sempre por culpa dos outros, normalmente dos alunos.

Eis as razões da minha discórdia:

  1. Este tipo de textos não atrai a simpatia para os professores de nenhuma parte da população (ao contrário do que dizem esses professores, ninguém fica contente com esta situação). 
    • Alunos? Detestarão ser retratados desta forma. Principalmente, aqueles que não são assim, que são muitos (e não os poucos que aqueles autores relutantemente admitem que apesar de tudo existem).
    • Pais? Nunca! Porque sabem que estes professores estão a defraudar descaradamente o futuro dos seus filhos.
    • O resto da população? Na melhor das hipóteses, encara estes textos (de queixa, de vitimização absurda) com indiferença. Nalguns casos, até poderão atrair a sua pena (o que duvido); no entanto, quem deseja ser objeto da piedade dos outros? Eu não, mas há gente para tudo. Na maior parte das vezes, eu diria que eles estimulam um sentimento de um cada vez maior desprezo pelos professores. 
    • E professores? Acredito que a maioria não se sente retratada por aqueles textos.
  2. Vemos outras classes profissionais (algumas muito, mas mesmo muito mais maltratadas do que os professores) a produzirem e a divulgarem este tipo de textos? Não. Não vemos médicos (nem  enfermeiros, nem técnicos auxiliares de saúde) a dizerem que os doentes saem mal tratados das suas mãos. Não vemos juízes a dizerem que as pessoas saem dos julgamentos como vítimas de decisões injustas. Etc., etc. Porque não o fazem? Porque sabem que, se dissessem este tipo de coisas, lançariam o descrédito total sobre toda a sua classe e estariam a atrair a raiva e o desprezo da população. E eles não são parvos.
  3. A atitude de culpabilização dos outros, nomeadamente dos alunos, reflete uma das opções mais perigosas que os seres humanos podem tomar: a de negarem a responsabilidade pelo que fazem. Sabemos da história o resultado trágico que isto dá. E não corresponde à realidade. Na verdade, se assumirmos a nossa responsabilidade, mesmo naquilo que somos obrigados a fazer, percebemos que temos, ainda assim, uma razoável margem de manobra, de liberdade e de autonomia. Quando decidimos não assumir a responsabilidade, fazemos como os autores daqueles textos: não só traímos a missão para que fomos contratados (e pela qual estamos a receber dinheiro), como pouco fazemos para melhorar a situação de todos no dia-a-dia. Ou seja, tornamo-nos em conformistas do pior tipo: aquele que colabora com o jogo dos opressores e que não tem vergonha de revelar em público a sua condição de conformista (muitas vezes, para atrair mais conformistas para o seu lado). Não precisamos deste tipo de professores. Aliás, a bem dizer eles nem são professores, são pseudoprofessores.
  4. Este tipo de textos saudosistas de uma idade do ouro da educação promove uma ideia totalmente falsa: é que essa idade do ouro nunca existiu. O que existiu sempre, desde a Antiguidade Clássica, foram velhos a queixarem-se de que os jovens não querem aprender, que não querem trabalhar, etc. Os séculos passam, impérios nascem e caem, mas o discurso é sempre o mesmo. Céus, já chateia!
  5. Estes textos promovem uma visão do professor como vítima dos outros. É um mau lugar para escolher estar. Sentir-se vítima faz com que as pessoas percam discernimento e energia para as lutas, essas sim que são muito necessárias travar. Quer a nível individual, no dia-a-dia (servem para mantermos a nossa autoestima); quer a nível coletivo (as únicas que podem dar algum resultado significativo para todos).
  6. Naqueles textos, apresenta-se uma imagem do professor que dá argumentos fortíssimos aos que defendem a sua substituição por filmagens ou por robôs. Na verdade, para fazer aquilo que nesses textos os autores dizem que fazem, para que é que é preciso um professor real? Pelo menos, estas alternativas não se vão andar a queixar. E até acredito que estas tecnologias sejam capazes de fazer um trabalho melhor do que eles… 
  7. Divulgar este tipo de textos dá palco a indivíduos protofascistas, com discursos nostálgicos e reacionários sobre “os bons velhos tempos” a que, segundo eles, é preciso regressar. Além disso, eles transportam muitas vezes esta maneira de pensar para denegrir outras áreas como a da igualdade de direitos e de oportunidades entre todos os seres humanos.
  8. Finalmente, estes textos a culpabilizar os alunos afastam a atenção das pessoas dos verdadeiros culpados: governos e, acima de tudo, uma sociedade implacavelmente capitalista e consumista.

Em suma, os autores deste tipo de textos parecem que estão a ser empáticos e isso pode ser agradável no momento para os professores que se sentem incompreendidos. Porém, na verdade, o que eles estão a fazer é a desmoralizar, a depreciar e a debilitar aqueles professores que têm brio na sua profissão e que o querem manter, não importa quais sejam as circunstâncias adversas que possam encontrar no seu caminho.


domingo, abril 16, 2023

Como Portugal se encontra em 2023 e como as crianças são prejudicadas pela ganância da sociedade

 


Começamos com um gráfico publicado em R. Wilkinson and K. Pickett (2009). The Spirit Level: Why Greater Equality Makes Societies Stronger. London: Bloomsbury Press.

Por aqui vê-se que, nos países onde há menos desigualdade de rendimentos (ou seja, onde os rendimentos se encontram melhor distribuídos), há menos problemas sociais e de saúde. Sem surpresa, vemos como as sociais-democracias do Norte da Europa estão bem situadas. 

Um pouco surpreendentemente, vemos que Portugal é o pior a seguir aos Estados Unidos: estamos muito mais próximos do capitalismo dos E.U.A. do que da social-democracia do Norte da Europa. Mais problemas sociais e de saúde significam, evidentemente, uma vida muito pior para as crianças (que não têm meios para superar por si sós esses problemas).

Notemos que este gráfico foi elaborado com dados de antes do crash financeiro de 2008/9, de antes da “Troika”, de antes da pandemia, de antes da Guerra da Ucrânia, e de antes da inflação atual.

Três interrogações se impõem.

Primeira. Porque não seguimos o exemplo das sociais-democracias do Norte da Europa? Não teríamos que inventar nada, trata-se de imitar apenas; então, porque não fazemos algo de tão simples? Vamos ver que é porque não há vontade política.

Segunda. Será porque não criamos riqueza? E, portanto, simplesmente não há dinheiro para distribuir? Vamos mostrar que há.

Terceira. Depois de todos os acontecimentos acima invocados (crash, etc.), será que estaremos em pior situação do que antes de 2009? Vamos descobrir, sem surpresa, que a resposta é um rotundo sim: sim, estamos muitíssimo pior.

Para podermos responder a estas interrogações, façamos uma pequena pesquisa às notícias dos jornais nas últimas semanas (os sublinhados são meus).

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Consultemos o Ranking da Felicidade baseado na média dos três anos, de 2020 a 2022, divulgado ontem pelo World Happiness Report 2023:


Aqui, já ficámos pior que os E.U.A. E não surpreende excessivamente que Portugal tenha caído da 34ª para a 56ª posição.

De notar, como dentre os 10 países mais felizes, 7 são as sociais-democracias do Norte da Europa (8, se contarmos com a Suíça que também tem uma baixa desigualdade de rendimentos).

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Vamos, então, ver o que se passa nos E.U.A.

No "The Wall Street Journal", em 2 de março de 2023, é dada esta notícia:

Os lucros dos bancos caíram 6% no ano passado [2022], uma vez que a guerra, a inflação e as taxas [de juro] mais altas prejudicaram os resultados.

E em Portugal? Já sabemos que, de acordo com os maiores responsáveis do país, nós somos muito vulneráveis a crises na Europa e nos E.U.A. Portanto, aqui não haverá surpresas, certamente que estaremos piores do que eles. Ou não...?

No Jornal de Notícias de 11-03-2023:

Os cinco maiores bancos que operam em Portugal tiveram lucros de 2583 milhões de euros em 2022, mais 71% do que em 2021, quando o valor agregado foi de 1511,7 milhões de euros. Em média, somaram sete milhões de euros de lucros por dia.

Em particular (Jornal de Notícias de 13-03-2023):

  • O Montepio quintuplicou, 
  • o Novo Banco triplicou, 
  • o Santander duplicou, 
  • o Millennium BCP ficou-se pelos 50,3%, 
  • a CGD cresceu 44,5% 
  • e o BPI não foi além de uns míseros 19%.

Estes resultados foram obtidos no ano em que aconteceu a Covid-19, a Guerra na Ucrânia e a inflação galopante que continua atualmente. Ano de grande crise, a acreditar nos nossos responsáveis políticos e económicos.

Como terão os nossos bancos conseguido? Teremos GÉNIOS na nossa banca? Infelizmente, talvez não,…


Bom, assim também eu... 

Mas talvez estejamos a ser injustos. Afinal, os bancos precisam mesmo disto porque não tiveram ajuda de ninguém para ultrapassar as consequências da sua irresponsabilidade e da sua incompetência nos últimos anos... Ou tiveram?

No Jornal de Notícias de 13-03-2023:

A Banca custou ao Estado 22 mil milhões de euros entre 2008 e 2021. 

Note-se que o Estado não produz riqueza, portanto fomos todos nós, os contribuintes que "oferecemos" aquele dinheiro aos bancos.

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Esta quantia é tão gigantesca (22.000.000.000 euros) que não fazemos ideia do que ela representa. Façamos, enão, um exercício simples.

Um carrinho de supermercado cheio de produtos básicos talvez custe hoje em dia cerca de 100 euros. Logo, aqueles 22 mil milhões dariam para 220 milhões de carrinhos de supermercado.

Há 1,9 milhões de pobres permanentes (mesmo com a ajuda do Estado)

Então, teríamos para cada um dos pobres (considerados individualmente, criança, adulto, idoso, não como família) que continuam pobres mesmo depois dos apoios sociais, 116 carrinhos de supermercado, se aplicássemos aquele dinheiro a ajudá-los.

Assim, já começamos a ter uma ideia da dimensão daquela quantia descomunal que tiraram dos nossos bolsos para passá-la para os bancos.

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Aqui surge uma nova interrogação:

Não estaria na altura de os bancos começarem a agradecer e a retribuír esta nossa extraordinária generosidade? Por exemplo, remunerando melhor os depósitos e baixando o custo global do crédito?

Não, não, não, NÃO, NUNCA!!! NEM PENSAR!!!

Vítor Bento,  presidente da Associação Portuguesa de Bancos, explica-nos com simplicidade porquê, no Expresso Economia de 11-11-2022:


Por outras palavras, 

Curioso ainda um presidente desta associação não saber o que é um lucro excessivo, aquilo que um Zé da Esquina qualquer sabe. Na verdade, é impressionante como, no nosso país, pessoas ignorantes conseguem chegar a cargos de topo como este!

Ou então, uma explicação alternativa, é Ricardo Petrella que tem razão, numa entrevista na Economia Pura, nº11, pp.18-19) em relação às escolas de Gestão que ensinam (mal!) estas pessoas? 

Não vemos diferença entre as escolas militares e as escolas de gestão. Foi por isso que propus há muito o encerramento das escolas de gestão, de “management business administration”. Estas escolas não ensinam. O que fazem é ensinar a matar. Formam matadores, conquistadores, winners. Não ensinam a gerir uma empresa.

A verdade é que estes cursos de Gestão já atraem estudantes com valores mais elevados naquilo que na Psicologia se chama de Tríade Obscura (Dark Triad): narcisismo, maquiavelismo e psicopatia (Vedel, A., & Thomsen, D. K. (2017). The Dark Triad across academic majorsPersonality and Individual Differences, 116, 86-91.). O que explica de um Vítor Bento e de outros.

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Infelizmente, não são só os bancos a não ter nem ética nem humanidade.


Ou no Jornal de Notícias de 11-03-2023:

No comércio a retalho, os portugueses são todos os dias roubados. Aos preços de produtos de primeira necessidade são impostas escandalosas margens de lucro. Segundo a ASAE "no retalho, registámos margens médias de lucro bruto, referentes ao ano de 2022, entre: 20% e 30% (açúcar branco, óleo alimentar, dourada); 30% e 40% (conservas de atum, azeite, couve-coração); 40% e 50% (ovos, laranja, cenoura, febras de porco); e mais de 50% (cebola)". Este roubo prossegue em 2023.

Ou no Observador de 25-01-2023:

Sonae MC, dona dos hipermercados Modelo Continente, fechou 2022 com um volume de negócios de 5.978 milhões de euros, o que traduz uma subida de 11,5% face aos 5.362 milhões registados em 2021. É o valor mais elevado de sempre. 

Ou no Jornal i de 10-11-2022:


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Cada vez se torna mais premente a interrogação: Quem é mais afetado por isto? Ou seja, quem é que tem menos capacidade para fazer frente a estas dificuldades?

A resposta é, claro, as crianças. E, depois, os pobres.

Como nos diz Gonçalo M. Tavares, na sua coluna no Jornal de Notícias de 12-03-2023:


Mas há mais:


Bom, estes valores não surpreendem quando vemos a seguinte notícia no Expresso de 14 de Abril de 2023 que 
Desigualdade salarial nas grandes empresas quase duplicou. Remuneração dos gestores subiu 47% em 10 anos, a dos trabalhadores recuou 0,7%.
Ou que, no Expresso Economia de 14 de Abril de 2023

CEO do PSI ganham 36 vezes mais do que os seus trabalhadores. Pedro Soares dos Santos, da Jerónimo Martins, tem o maior fosso salarial, ganha 186 vezes o salário médio bruto dos trabalhadores da Jerónimo Martins. Na Sonae, o salário de 82 trabalhadores não cobre o de Cláudia Azevedo. Moura Martins ganhava na Mota-Engil 49 vezes mais do que trabalhadores. Miguel Stilwell faturou €1,8 milhões, cerca de 42 salários médios da EDP. No BCP é preciso somar 34 salários médios para atingir o de Miguel Maya.


Ao mesmo tempo que, no Porto Canal, se lê:

Metade da população portuguesa recebe um salário abaixo dos 1050 euros brutos. (...) Além disso, as mulheres ainda não chegam a esse valor, uma vez que em 2021 metade das mulheres recebia apenas cerca de 987 euros por mês.

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O dinheiro não nasce das árvores, nem cai do céu. Para uns ganharem, alguém tem de perder, como acabámos de ver. Mas, em concreto, quanta miséria se criou e se mantém, em particular entre as crianças, por causa desta situação?

Por acaso, até podemos responder a esta pergunta - no Barómetro da DECO PROTESTE (15-03-3023):

Cerca de três quartos (74%) das famílias enfrentam, mensalmente, dificuldades financeiras, sendo que 8% se encontram em situação crítica: têm dificuldade em pagar todas as despesas ditas essenciais (mobilidade, alimentação, saúde, habitação, lazer e educação). 

Aliás, segundo Luísa Loura, diretora da Pordata, em 2020: 

Sem os apoios sociais, 4, 4 milhões são pobres ou têm rendimentos abaixo do limiar da pobreza [554 euros mensais], o que passa para 1,9 milhões após as transferências sociais", explica Luísa Loura, diretora da Pordata.

Confirmado pelo primeiro-ministro na Assembleia da República.

Sobre as crianças, também podemos ter a resposta, vinda da própria ministra Ana Mendes Godinho do atual Governo. No Jornal de Notícias de 24-01-2023:

Em Gaia existem 4492 crianças em situação de pobreza extrema, afirmou a ministra do Trabalho e da Segurança Social, Ana Mendes Godinho (...) sublinhando que a nível nacional o número ascende às "170 mil".

Saliento que não se trata de pobreza simplesmente, é «pobreza extrema»!

E, para estas crianças, sair da pobreza é fácil? Não, não é. Em Portugal, demora em média 5 gerações, mais de 100 anos, como indica o Relatório da OCDE de 2018:


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Aqui, começa a impor-se uma nova pergunta: Qual o nome da ideologia que favorece uma situação como esta? A resposta é clara: Capitalismo (em todo o seu esplendor, diga-se de passagem!).

E quais as causas desta situação no nosso país? Na verdade, como disse atrás, só tínhamos que imitar as sociais-democracias do Norte! Porque riqueza produzimos e temos, como se viu. Porque não o fazemos?

Várias respostas surgem: a corrupção, a ganância, alguma desinformação, o desprezo dos dirigentes pela população em geral, etc. Ao que a população portuguesa vai respondendo, mas com um certo conformismo resignado (penso que se trata ainda de sombras longas do fascismo que não desapareceram).

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Mas não é só aqui que as crianças estão mal. Ainda esta semana, se soube que…

No Expresso de 11-03-2023:

“Já tivemos crianças de 11 anos aqui” - O alerta é dado pela equipa da maior urgência de pedopsiquiatria do país: no Hospital de Dona Estefânia, em Lisboa, são cada vez mais os jovens que tentam suicidar-se. Os números duplicaram em quatro anos, segundo Gonçalo Cordeiro Ferreira, o diretor da Pediatria Médica da unidade. 

Ou no Jornal de Notícias de 14-03-2023:

A violência nas escolas está a atingir proporções alarmantes, sendo que muito do bullying não chega sequer ao conhecimento dos professores, pais ou autoridades. Só aqueles em que o maltratado necessita de tratamento hospitalar. (...) Há evidências claras de que as escolas estão sobrecarregadas, o que leva a um mal-estar constante e se traduz num aumento de casos de bullying, automutilação e até tentativas de suicídio

Ou no Jornal de Notícias de 11-03-2023:

(…) acidentes rodoviários são a principal causa de morte entre os cinco e os 29 anos, (…) “A nossa geração mais jovem, se já não está a ir para o estrangeiro, está a morrer nas nossas estradas. (…)”

Ou no Público de 11-03-2023:

A invalidade de metadados (…) já destruiu dezenas de casos de pornografia infantil, tanto durante a investigação como na fase de julgamento. Quem o diz é Pedro Verdelho, director do Gabinete de Cibercrime, que coordena a actividade do Ministério Público na área da cibercriminalidade.

De notar que não é "A invalidade de metadados (...)", mas sim de "A lei dos metadados mal feita pelo Governo e pelo Parlamento (...)".

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Mas já chega de más notícias (e houve muitas que eliminei!). Vamos acabar com uma boa notícia: a Delta Cafés aderiu à campanha "Nem Mais Uma Palmada"!


quarta-feira, junho 15, 2022

Uma utopia para a Escola

 

(…) a utopia socialista não é o fim do trabalho, mas a libertação da criação humana para trabalhos com sentido. (Raquel Varela - Qual o sentido do trabalho?)

No entanto, na minha opinião, se não se começa por garantir exatamente esta revolução no trabalho escolar, as crianças e jovens, quando chegam ao mundo do trabalho, já se encontram habituados e formatados para o trabalho alienante, aceitando-o como natural e inevitável. Ou seja, é nas condições de trabalho escolar que estão as sementes daquilo que defendemos que seja o trabalho posterior na idade adulta.

Por isso, seria fundamental o estudo das atuais condições de trabalho nas escolas, quer as materiais (alguns exemplos: mobiliário igual para todos os tipos de corpos, cadeiras duras e desconfortáveis, extremo frio e extremo calor, etc.), quer as imateriais (alguns exemplos: a competição disfarçada ou explicitamente promovida; o confinamento a um lugar sentado com saídas controladas ao longo de um dia inteiro; exigências excessivas que só miúdos de famílias socioeconomicamente favorecidas conseguem cumprir, nomeadamente com recurso a múltiplas explicações ao longo dos anos; etc.).

Trata-se, portanto, de propor uma utopia primeiro e principalmente para as escolas. Mas se, hoje em dia, já não se fala muito de utopias para a sociedade, sobre as escolas desceu então um manto de sufocante silêncio.

A minha utopia para a escola pode ser expressa introduzindo adaptações mínimas (por mim indicadas com […]) a um trecho de John Bellamy Foster do livro “Trabalhar e Viver no Séc. XXI” (p.19):

(…) Outros defenderam a necessidade de transcender todo o sistema de [ensino] trabalho alienado, fazendo do desenvolvimento de relações de [aprendizagem] trabalho criativas o elemento central de uma nova sociedade revolucionária. (…)

Eu pertenço ao grupo destes “outros”.

quarta-feira, junho 30, 2021

O que tem de mal o coordenador da Task Force do Plano de vacinação contra a COVID-19 em Portugal aparecer de camuflado militar em público?

 

(foto de Rui Gaudêncio)

O camuflado, ou qualquer outra farda militar, encerra uma carga simbólica poderosíssima de respeito pelas regras, de lealdade inquebrantável perante o inimigo (valor muito importante num país que esteve em guerra até ainda não há muito tempo), de verticalidade e de incorruptibilidade face à sociedade civil. Claro que tudo isto é uma fantasia, como sabemos pelos casos na instituição militar, sejam de corrupção, sejam de desrespeito pela vida, que têm vindo a lume na imprensa.

No entanto, isso não impede que, no mundo ocidental, muita gente anseie por um regime militar; ou, pelo menos, que deseje ser governada por militares. Aliás, nos mais variados países desenvolvidos, os jovens que consideram essencial viver numa democracia estão a reduzir-se a uma significativa minoria. Veja-se um retrato absolutamente assustador das atitudes da população face à ideia de democracia em:

Foa, R. S., & Mounk, Y. (2017). The Signs of Deconsolidation. Journal of Democracy, (1), 5-16.

Vemos bem a que é que esse desejo por militares no governo nos leva no presente (Brasil e Birmânia são dois exemplos devastadores) e no passado, tanto no recente (Chile e Grécia), como no mais longínquo. Mas a evidência não interessa às pessoas. O mito e o símbolo são mais fortes.

O que é aberrante é ver políticos e democratas de esquerda a alimentarem, de forma suicida, este mito perigosíssimo para a democracia… democracia, aliás, que é o que os sustenta a eles próprios.

Quando os políticos passam a mensagem de que fracassaram miseravelmente, e de que têm de ir buscar alguém fora dos quadros profissionais competentes do atual regime (a uma instituição que, pela natureza muito especial das funções a que é habitualmente chamada a exercer, não é intrinsecamente democrática) para resolver um problema, aí não auguro nada de bom para esta democracia.

Por muito excelente pessoa, político e profissional que seja o sr. vice-almirante Gouveia e Melo.

quinta-feira, junho 17, 2021

Onde estão as crianças?

 
(Foto de Basileia, de Raquel Varela)

Em Portugal, o planeamento urbanístico não atribui direito de cidadania às crianças para poderem habitar os espaços públicos, elas com os companheiros ou também juntamente com os adultos. Assim, o planeamento urbano e a respetiva construção raramente contemplam espaços comuns para as crianças conviverem e brincarem confortavelmente e em segurança.

Há, evidentemente, algumas exceções muito esporádicas, principalmente nas urbanizações de luxo, mas mesmo assim só em algumas. E obviamente que não estou a falar de alguns "cercados" apelidados de "parques infantis" que só pelas cores usadas se distinguem de espaços idênticos construídos para cães (estes normalmente até têm mais espaço para correr e saltar).

Ou seja, as crianças em Portugal não são vistas como sujeitos dignos de habitarem a polis com os mesmos direitos dos adultos. Eu, aliás, reduziria a frase anterior para: as crianças não são para serem vistas, ponto final! Que fiquem, pois, confinadas nas escolas e nas casas (há muitos anos que elas andam em confinamento, não foi preciso aparecer a Covid-19)!

Mas não só as crianças mais crescidas. Quem já teve bebés e os quis passear com um carrinho sabe bem a dificuldade que é fazê-lo com comodidade e segurança. É que a rua parece pertencer, acima de tudo, ao carro, à mota e ao camião.

A ideia de cidade como lugar onde se forma e convive uma comunidade é algo que está muito ausente dos planificadores urbanísticos (gente que parece não ter uma centelha de alegria e de afeto pelas pessoas, vendo apenas cifrões à sua volta).

Assim, caminhamos pelas ruas e, pergunto, quando foi a última vez que vimos uma criança?

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Nota: A propósito deste mesmo assunto, escrevi o poema Perdemos as crianças.


terça-feira, maio 11, 2021

E se os livros não nos preparam para a vida?

Não sabia como é vasto, árido e escarpado o país que o viajante da vida tem de atravessar para poder aceitar a realidade. É uma ilusão pensar que a mocidade seja feliz, uma ilusão daqueles que a perderam. Os jovens sabem que são miseráveis, pois alimentam os falsos ideais que lhes foram incutidos e todas as vezes que entram em contato com o real sentem-se magoados e contundidos. Dir-se-ia serem vítimas de uma conspiração. Os livros que lêem, livros ideais pela necessidade de seleção, e a conversa dos mais velhos, que olham para o passado através da nuvem rosada do esquecimento, preparam-nos para uma vida irreal. São obrigados a descobrir por si próprios que tudo o que leram e tudo o que lhes ensinaram é mentira, mentira, pura mentira. Cada nova descoberta é mais um prego que lhes fixa o corpo à cruz da vida. (…) (p. 111)

Esta foi mesmo a minha vivência (nasci em 1958 e na biblioteca do meu pai estavam muitos livros cuja leitura me era proibida).

Hoje, penso que é diferente. Porque, desde crianças, todos têm acesso aos aspetos mais sórdidos e doentios da realidade e da fantasia do mundo (no entanto, não esqueçamos que tudo o que possamos ler, livros realistas ou não, tudo é sempre irreal porque 1) é a perspetiva singular de quem está a escrever; e 2) as palavras não espelham a realidade nunca).

Quem fica ou ficou melhor? Não sei responder. Mas avento a hipótese de que a sociedade, essa, fica pior. Pois parece-me que uma sociedade evolui principalmente devido àqueles que não aceitam as deformidades que ela revela, isto é, àqueles que (muito provavelmente com a leitura que dá mais espaço à reflexão) criaram dentro de si um ideal e que não se resignam. 

domingo, janeiro 03, 2016

O que eu desejo para 2016?

Que a vida, e tudo o que há de bom nela, continue a aparecer-me como novidade, como permanente surpresa e como plenitude, fora de todas as palavras para a descrever. Ou seja, que eu não deixe desgastar em mim a atenção aos instantes do milagre.

Que possam mudar as minhas conceções sobre a vida, ou sobre as relações, ou sobre a beleza, mas que não mude nem esmoreça a minha aspiração a tudo o que vá bem para lá da usura da rotina do dia a dia.

Que nessa vida eu vá conseguindo exprimir as mais profundas harmonias, capazes de surgirem como possibilidades de resolução da aflição daqueles que me procuram. E que a eles lhes permita conquistar finalmente a alegria (não a dos mercenários da boa disposição, mas a que está antes dessa e de outras igualmente artificiais), bem como a plenitude que tanto merecem.


domingo, janeiro 27, 2013

O ocaso do trabalho humano


Desde sempre, até a mais humilhada das pessoas sabia que a sua existência tinha valor económico porque possuía três características que lhe garantiam um lugar no meio dos seus semelhantes, mesmo que esse lugar fosse o mais pobre de entre os pobres: a capacidade de trabalhar, a capacidade de aprender e a capacidade de prover à sua subsistência.

Hoje em dia, e pela primeira vez na história, isso desapareceu.

A tecnologia de hoje, e de um futuro cada vez mais próximo, já consegue fornecer substitutos bem mais equipados, mais incansáveis, mais exactos, mais cumpridores, em suma, mais capazes: os computadores, a automação, a inteligência artificial. Por outras palavras, os robots.

A ideia de que eles seriam incapazes de realizar e de aprender tarefas mais exigentes cognitivamente pertence, literalmente, ao século passado.

Cada vez mais nos deparamos, no nosso dia a dia, com a ausência de seres humanos em locais de trabalho. Seja desde a atender uma chamada que façamos, ou a fabricar um carro, o factor humano no trabalho está a desaparecer porque obsoleto. Trazendo, claro, gigantescos lucros para os possuidores desses meios tecnológicos; e uma desesperada pobreza para a grande maioria dos que os não possuem.

Haverá sempre necessidade de humanos para desempenhar algumas tarefas a troco de um salário: não somos como os cavalos ou os bois que foram substituídos pelos carros e pelos tractores. Mas a maior parte do trabalho irá sem dúvida ser desempenhado por máquinas. A verdade assustadora é que os seres humanos, na sua maioria, estão a tornar-se supérfluos.

O problema é o facto de a riqueza produzida ficar concentrada nas mãos dos grandes proprietários e não ser distribuída mais equitativamente.

Evidentemente que existe a possibilidade de a tecnologia poder vir a promover a criação de mais trabalho. Só que essa não é a tendência a que se assiste.

Assim, para mim, apenas consigo imaginar como solução um Estado protector que possa garantir que todos tenham acesso à propriedade tecnológica (e não ficar só nas mãos de alguns). E também a garantir algum capital a todos que permita a criação de pequenos negócios (com a possibilidade de recurso a robots também, embora mais simples).

domingo, setembro 16, 2012

E depois da manifestação?

Estive na manifestação contra a Guerra no Iraque (com milhares de pessoas em Portugal e mais uns milhões de pessoas por todo o mundo).
Estive nas megamanifestações dos professores.
E noutras. Sabemos a resposta que obtiveram por parte do poder.


Fazer manifestações dá-nos a ilusão de que fizemos alguma coisa. Mas não fizemos nada, a não ser mostrar que “não estamos a gostar”. Daí até conseguirmos demonstrar que “não aceitamos” vai uma distância considerável. E exige de nós bastante mais do que a participação numa simples manifestação (por mais convictamente zangada e/ou cívica que ela se revele).

Uma manifestação pode ter algum efeito numa democracia plena. Há muito que não estamos a viver numa democracia plena.
Para enfrentar com sucesso o poder instalado (do qual o poder político é, na maior parte das vezes, apenas um mero testa-de-ferro) outros meios são necessários.

No regime em que estamos a viver, só nos restam dois tipos de meios: a luta armada (foi assim que o 25 de Abril foi feito, com as armas a liderarem a iniciativa) ou a resistência não-violenta, que eu prefiro (e que nada tem de passiva, note-se!), embora implique grandes sacrifícios pessoais e familiares.

Não há melhor exemplo que a clássica história dos acontecimentos que se iniciaram com Rosa Parks, em 1955, no Sul dos EUA. Tendo pago o seu bilhete num autocarro, mandaram-na levantar-se do seu lugar para que um branco se sentasse. Ela recusou. Foi presa.
Foi anunciado um boicote aos autocarros pela comunidade negra. Esse boicote durou 381 dias, tendo a maior parte das pessoas feito o sacrifício de andar sempre a pé. Mas a lei que permitia estas iniquidades mudou. A empresa teve de escolher entre a falência ou a justiça. Optou pela última.

É que esta linguagem (a que põe em causa os seus lucros) é a que os empresários, banqueiros, financeiros e economistas, cuja ganância tem levado as famílias e o país à ruína, entendem.

E nós? Perceberemos o que temos de fazer? E quereremos fazê-lo?

quinta-feira, agosto 30, 2012

Em direcção a uma vida simples



O que o Presidente do Uruguai nos sugere é uma coisa que está ao alcance de todos nós: sermos conduzidos pela aspiração apenas a uma vida simples. Que não deixe, no entanto,  de ser digna.
Digna aos nossos olhos, não por comparação com os outros. Digna para não termos de nos envergonhar perante o olhar dos nossos filhos, um olhar marcado pela fome, pela miséria, pela destuição do seu direito à felicidade. Daí que a pobreza fique excluída destas considerações.
Mas uma vida frugal, sim. O que o Presidente do Uruguai nos sugere é que não é consumindo que eu exerço o meu direito à felicidade, que eu chego a ser inteiro e livre. Não é por ter coisas e dinheiro e poder.
Voltemos então à noção de uma vida simples: uma vida em que o ser se sobreponha ao ter, uma vida em que o homem e a mulher não vendam aos bancos a sua liberdade e o respeito por si próprios.

domingo, janeiro 01, 2012

Votos para o ano de 2012

Quero incluir aqui o discurso que Leonard Cohen proferiu por ter recebido o Prémio Príncipe das Astúrias, a 21 de Outubro de 2011.
Porque desejo que o ano de 2012 nos traga esses lugares e proteja essas pessoas em que a poesia se encontra com o que de mais alto existe na natureza humana, tal como aqui exemplifica Leonard Cohen com as suas palavras e com a sua atitude. Onde a cortesia, a humildade, o reconhecimento e a verdadeira grandeza brilham de forma inesquecível.



Como disse Lou Reed noutro contexto, "We´re so lucky to be alive at the same time Leonard Cohen is!"

sábado, dezembro 31, 2011

Uff, finalmente a falar do Conjunto António Mafra.
É como abrir a porta e estar em casa.
Andei por tão longe, que fui adiando este encontro primeiro, vindo do som dos carrinhos de choque da minha infância e adolescência.
Sabe-se que a felicidade são momentos, inesperados e formadores - e a música deles põe-me inteiramente feliz, no tempo de uma canção e no tempo logo a seguir.
Reconheci desde miúdo na escrita do próprio António Mafra, que desapareceu cedo mas deixou bem entregues as suas muitas canções, algo que tomei por essencial, só compreendendo aos poucos porquê. (...)

Queria terminar o ano de 2011 com uma nota de alegria. Melhor, de uma garantia de alegria para 2012.
Para esse fim, dificilmente alguém bate o Conjunto António Mafra.
Nada a acrescentar ao que Sérgio Godinho diz.
E eis a canção que este decidiu interpretar num dos seus discos:

sexta-feira, dezembro 23, 2011

Mensagem de Natal, apesar de tudo

Como crianças entretivemo-nos com brinquedos como a Economia, o Progresso, as Tecnologias, a Ciência, a Riqueza, o Desejo de Posse, etc.
Todos esses brinquedos jazem à nossa volta.
E as suas entranhas, à nossa vista, confrontam-nos face a face com a dimensão do nosso desastre, actual e futuro.
Ora, a criança é forçoso que cresça e tal é a exigência do nosso destino nos tempos presentes.

Questão dolorosa, essa: como crescer?
Questão sem respostas definitivas, questão sempre aberta, questão com outras questões metidas dentro.
Mas para que a questão se revele fecunda e permita um real crescimento seria desejável que se verificassem alguns requesitos prévios:
  • Deixar de perseguir, porque nos humilha, diminui e consome energias inutilmente.
  • Deixar de fugir, porque nos vitimiza e o que desejamos é uma vida real, assumida, não a fingir.
  • Responsabilidade, sobretudo, responsabilidade total por nós próprios, perante nós e perante os outros...
...porque sabemos definitivamente que não há deuses a nascer por nós, que morram por nós, que ressuscitem ao 3º dia e que nos venham salvar do que quer em que nos tenhamos metido!

O Mundo, a Natureza e os nossos Filhos precisam de nós.

Boas Festas!

quinta-feira, outubro 13, 2011

A (falta de) saúde mental dos portugueses

No Público de 10 de Outubro de 2011

(...) um em cada cinco portugueses já sofreu de uma doença psiquiátrica e quase metade (43%) já teve uma perturbação psicológica durante a vida. "Portugal parece ser o país da Europa com maior prevalência de perturbações mentais na população, (...)

Esta notícia assusta-me, mas não posso dizer que me surpreenda. Porquê?

Primeiro, porque os portugueses não são simpáticos uns para os outros. Não o são nas estradas, não o são nos empregos, não o são em quase lado nenhum. Os portugueses não se tratam bem uns aos outros: a dureza, a arrogância, o desprezo são vistos como qualidades, não como defeitos. E as pessoas que ostentam estas caraterísticas são as que mais sobem na vida, são as que mais conseguem obter coisas dos outros. E, naturalmente, não vêem razão para pararem de ser o que são.

Vê-se bem esta falta de simpatia nas demonstrações de gratidão, por exemplo. Quer dizer, não se vê, pois quase nunca ninguém agradece nada a ninguém. Os portugueses acham que quem lhes faz qualquer coisa em seu benefício, não fez mais do que a sua obrigação. Portanto, não merece agradecimento; nem sequer reconhecimento.

Por outro lado, os portugueses, cada vez mais tão naturalmente que já nem se dão conta, promovem entre si uma cultura de sofrimento, de queixumes, de mal-estar, de negativismo e de desânimo. Com óbvio comprazimento mútuo.

Neste ambiente social, as pessoas cada vez mais recebem dos outros a imagem de uma existência menor, ou mesmo de uma não-existência. As pessoas sentem-se sós e têm razão para isso. E, claro, as perturbações momentâneas que noutras circunstâncias não seriam mais do que isso mesmo, neste ambiente de ausência de suporte mútuo tornam-se permanentes e graves.

Eu espero que esta crise seja a oportunidade para as pessoas perceberem que é absolutamente necessário, no seu dia a dia, apoiarem-se umas às outras. E que os psicólogos e os futuros psicólogos sejam promotores activos dessa maneira nova de estar na vida. Nova e mais feliz.

segunda-feira, setembro 19, 2011

Confiar: um valor em défice

José Gil, no Jornal de Letras de 24 de Agosto de 2011:

O que eu lamento é a ausência de uma onda que possa captar essas energias, que por isso são desperdiçadas.
Nós somos bons em muitas áreas, mas actuamos como bolsas isoladas.
E isso não faz onda.
Não há comunidades.
É preciso que os muitos nichos em que somos bons, como na artes plásticas, música, dança, teatro, literatura, se cruzem e criem uma massa crítica que se mova por si própria.


Uma razão por que não há esse cruzamento (e muito menos um encontro, acrescento eu) não poderá residir no facto de ninguém confiar em ninguém? De todos sabermos que, por mais mérito que possamos ter, não haverá qualquer reconhecimento? A menos, claro, que pertençamos a um qualquer grupo que esteja próximo do poder?

Não será esta falta de confiança mútua que faz com que os realmente bons prefiram iniciativas solitárias, de modo a poderem concentrar-se no seu trabalho e a não terem que se dispersar por preocupações com políticas e intrigas?

sábado, julho 09, 2011

Um programa para um futuro que vale a pena

Os simplistas e fantasistas de serviço falam de competitividade e de exportações, mas a palavra certa, a palavra que envolve isso e o resto chama-se sustentabilidade: apostar na revitalização do mercado interno em todas as suas dimensões.
Diminuir as importações, comprar produtos nacionais, investir e gastar em Portugal.
Electricidade a partir do nosso vento, do nosso sol, da nossa água.
Alimentos a partir dos nossos solos e do nosso mar.
Turismo no nosso território, nas nossas paisagens.
Criação de emprego nas áreas dos serviços sociais e ecológicos.
Limpar a biomassa das nossas florestas através de campanhas preventivas de incêndios florestais, empregando mão-de-obra intensiva.
Apostar na reabilitação urbana, acabando com o cancro dos subúrbios fantasmas.
Limitar o acesso dos carros particulares às cidades, elaborando novos modelos de mobilidade sustentável.
Colocar os portugueses numa interacção electrónica plural que permita comunicação sem emisões de carbono.
Descarbonizar o poder e aumentar a transparência da vida política, aumentando o controlo mútuo dos orgãos de soberania, e sobretudo a intervenção informada dos cidadãos.

Quando li este trecho escrito por Viriato Soromenho Marques (no JL nº 1062 de Junho de 2011) senti que estava aqui um programa sensível e praticável, mas principalmente atraente e motivador para quem sente na pele a exaustão da esperança e a esterilidade das ideias que a nossa classe política e intelectual actualmente produz.

Gostei muito. Porque o seu cumprimento não passa pela vontade dos outros, mas pela minha; não depende de agências de rating, nem de empréstimos do estrangeiro, mas sim do meu esforço, da minha honestidade, da minha decência.

Gostei do uso da palavra "nosso(s)" (vento, sol, água, solos, etc). Nosso, não no sentido de posse, porque na verdade nunca possuímos nada, morremos demasiado depressa para ser proprietários do que quer que seja. Mas nosso, no sentido em que detemos ou o poder de destruir ou o de preservar e construir. Nosso, no sentido em que somos totalmente responsáveis pelo que lhe fizermos. Nosso, porque podemos fazer o que acharmos melhor para nós e não para satisfazer a vontade de uns quaisquer outros de que nem sequer o rosto conhecemos.

Talvez não seja um programa imediatamente executável em todas as suas dimensões, mas poderia constituir não só uma meta a manter diante dos nossos olhos, mas também uma forma de aferirmos se o que decidimos fazer hoje é útil e construtivo, isto é, se vai ao encontro daquele cenário de vida. Uma vida bem mais respirável do que aquela que nos andam a prometer.





Usando as palavras de Mia Couto, poderia ser uma ponte capaz de unir o desespero à esperança.






 [Ver também Boaventura Sousa Santos, Para uma sociedade melhor: desmercadorizar (desmercadorizar significa impedir que a economia de mercado se transforme numa sociedade de mercado)]