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terça-feira, agosto 31, 2021

Otelo Saraiva de Carvalho

 


Lembro Otelo Saraiva de Carvalho, por fazer hoje 85 anos que nasceu para, alguns anos mais tarde, planear e liderar o movimento que nos iria libertar da ditadura, a 25 de Abril de 1974.

Eu não esqueço.

segunda-feira, agosto 02, 2021

José Afonso - Traz outro Amigo Também


Dada a educação muito restritiva dada pelo meu pai, foi pela leitura e pela música que aprendi como me relacionar com o mundo. Talvez por isso, houve três grandes sonhos na minha vida: o de uma sociedade fraterna que o 25 de Abril prometia, o de uma escola para expandir humanidade e comunidade, e o de uma relação afetiva profunda com alguém. Este último cumpriu-se. Quanto aos outros dois, vi-os desmoronarem-se completamente. Acho que nunca conseguirei superar isso. Até porque não sei o que posso fazer para, pelo menos, evitar que o desastre seja completo.

José Afonso - Traz Outro Amigo Também: um documentário imperdível a comemorar os 92 anos do seu nascimento.

Como com tudo o que se relaciona com o 25 de Abril e com as pessoas que o fizeram, vi largas partes deste documentário a chorar. Pelos sonhos destruídos, pela morte de tanta gente valorosa. José Afonso foi um dos maiores, ele que nunca quis mostrar-se mais do que aquilo que era: um lutador pela liberdade, tanto na sua vida prática do dia a dia, como na sua arte.

Para que na nossa memória o seu exemplo nunca desapareça.

quarta-feira, julho 28, 2021

Governo não propõe luto nacional para Otelo Saraiva de Carvalho

 


«Nas mortes de Salgueiro Maia e Melo Antunes não houve declaração de luto nacional, recordaram Marcelo e Costa no velório de Otelo Saraiva de Carvalho.»

Desanima-me António Costa não ter a ambição de ser melhor do que os governantes anteriores, por exemplo, de não querer ser melhor do que Aníbal Cavaco Silva.

Mas, para mim, o pior de tudo é que, quando um estado, um governo e um presidente não celebram condignamente a vida de alguém que, como Otelo Saraiva de Carvalho, contribuiu clara e decisivamente para a implantação de uma sociedade melhor, isso permite a todos os arautos da destruição exaurirem ainda mais o nosso espaço democrático com a celebração da sua morte.


domingo, julho 25, 2021

Morreu Otelo Saraiva de Carvalho (1936-2021)

 


Nunca saberemos quem foi realmente este homem, de tão multifacetada que foi a sua vida e a sua personalidade.

Mas uma coisa sabemos que é absolutamente certa: graças a uma planificação e a um comando geniais, ele iniciou uma Revolução em direção à Democracia.

Eu vivi em ditadura até aos meus 16 anos: desses anos, praticamente, só tenho memórias cinzentas de medo e de violência – em casa, na escola, nas ruas.

Tudo se transforma em Luz e Sonho com o 25 de Abril. Graças a este homem, graças aos Capitães de Abril. Estou-lhe grato, estou-lhes infinitamente grato. É tudo; e é tanto que não há palavras que cheguem.


sexta-feira, maio 07, 2021

Um filme sempre a ecoar em mim

 

Wrestling Ernest Hemingway conta a história de um beberrão e cortejador (Richard Harris), que tenta flirtar várias mulheres, incluindo de uma forma mais autêntica a sua senhoria (Shirley MacLaine) – que, aliás, não vai na conversa dele – e que tenta travar uma amizade difícil com um refugiado cubano (Robert Duvall) que ama suavemente uma empregada de restaurante (Sandra Bullock, num papel de uma inolvidável doçura que me fez ficar apaixonado por ela da primeira vez que vi o filme).

Porque é um dos filmes da minha vida? Talvez porque, neste filme, Randa Haines trata da velhice, da solidão, da amizade possível, de amores que nunca chegam a realizar-se, com um humor e uma leveza que quase me causa um soluço de angústia sempre que o revejo.

quinta-feira, novembro 23, 2017

Fragilidade e coragem



Hoje acordei com esta foto na minha cabeça. Ela representa a primeira rapariga negra - Dorothy Counts – a frequentar uma escola só para brancos nos Estados Unidos, em 1957.

À sua volta, as pessoas gozam com ela, miúdos e graúdos. Sei que é real, mas há algo em mim que resiste a acreditar. Esta foto evoca aquelas gravuras antigas que retratam personagens grotescas, deformadas pelos mais baixos instintos. Sinto um aperto no peito, acentuado pelo contraste entre Dorothy, uma adolescente de 15 anos, e quem a rodeia. A beleza dela emudece-me.

E ela está tão só. A cadeira vazia ao lado dela enche esta foto da sua solidão. No meio do barulho, dos gritos e das gargalhadas, a solidão dela é um soco no peito e deixa-me sem respiração.

Porém, eu vejo aqui uma rainha. Por exemplo, rainha na forma como ocupa o espaço: ela não está encolhida no seu lugar, os ombros estão direitos, os braços afastados do corpo e saem fora do seu perímetro pessoal, mas não tanto que evidencie arrogância. Não, aquele é o seu lugar e ela ocupa-o com a naturalidade possível dentro daquelas circunstâncias.

A cabeça não está levantada e, no entanto, não há submissão na sua postura. A sua boca expressa a determinação com que está ali. E o esforço para fazer frente àquela muralha de agressões à sua volta. O olhar é atento, de quem sabe que está em terreno hostil, mas não aterrorizado. E, no entanto, ela teria o direito de se sentir aterrorizada, pois não há ali ninguém a defendê-la. Eu sei que não vai haver.

Veste-se com gosto, mas discretamente. Ela sabe que é uma rainha, mas não precisa de o demonstrar. Reparo no tema do seu vestido que, no preto e branco desta foto, é semelhante ao da camisa de um dos que zombam dela. Este contraste, aqui evidenciado pela semelhança das roupas, demonstra como uma pessoa pode conferir uma infinita dignidade ao que veste.

Gosto também da fragilidade revelada pelos seus óculos pendurados ao pescoço. Fragilidade essa que me remete para as imagens dos judeus na Alemanha nazi, com os seus óculos redondos sem aros. Que me recorda a sala que visitei em Auschwitz, cheia de óculos das vítimas do extermínio. Tão deslocados, tão abandonados.

E o fundo branco do laço, testemunho de um gosto simples e claro. Como se tratasse de um pedido de paz a alvorecer no meio da escuridão.

Na procura de um alívio à dor que esta foto me produz, reparo ainda que há duas mulheres atrás dela, na 3ª fila, que estão a olhar para o lado, como se não quisessem participar e, ao mesmo tempo, mostrarem que são críticas quanto ao que se está a passar. Eu sei que a fotografia “congela” um momento, não mais do que um momento, mas eu gostaria de acreditar que aquelas mulheres brancas sentem-se mesmo oprimidas por aquele clima. Que elas sabem que o ódio àquela jovem negra tem também laivos de um ódio dos homens a todas as mulheres, brancas ou não. E, por isso, não o querem alimentar.

Gostaria de acreditar, mas é difícil. Sabemos que, naqueles quatro dias em que Dorothy aguentou todas as humilhações e violências, mulheres com responsabilidades incitaram os alunos a expulsarem Dorothy, a cuspirem-lhe, etc.

Insultos, cuspidelas, pedradas… Olho para esta foto (e para a que ganhou a World Press Photo of the Year desse ano de 1957, da autoria de Douglas Martin, e que junto abaixo) e tento imaginar que horrores vivem emboscados no espírito destas pessoas que se riem e troçam desta criança.


Não consigo. Sei que tenho a mesma arquitetura básica que eles. Sei que existirá em mim, como para todo o ser humano, o potencial para inomináveis violências. Sei que há sempre quem queira aproveitar-se deste potencial e o manipula para benefício próprio. Por isso, mais do que estes jovens agressores, sei que me horrorizam os adultos (pais, professores, autoridades) que estiveram por detrás deles, e os formaram e os incitaram.

Mas não sei muito mais.


sábado, outubro 13, 2012

Pequena resposta a uma crítica injusta à escola pública

Respigo uns comentários no facebook de alguém a propósito da superioridade das escolas privadas (e que, provavelmente, são subscritas por algumas, espero que poucas, outras pessoas):
Entre as várias diferenças estão: Se na escola privada o professor dá sinais de não perceber muito bem o que anda ali a fazer é convidado a sair, na pública é convidado a ficar. No público os professores aproveitam os artigos todos. No privado não há artigos há trabalho.
O público só não copia os bons exemplos porque não quer ...
Também não é pelo número de alunos que as privadas funcionam melhor ... veja-se o Colégio de Vilamoura com 800 alunos e é um exemplo nacional ... às portas de Loulé... até promovo uma visita guiada com as direcções das escolas públicas que quiserem ... não sei se há quem queira claro!

Caro senhor, aproveito este espaço para lhe dizer com todo o respeito:

O senhor está enganado, terrivelmente enganado. Provavelmente, é vítima da propaganda que quer acabar com a escola pública.


O senhor vem falar de como cuidar de um campo de flores e eu vou falar-lhe de professores num quase teatro de guerra cuja tarefa primordial é sobreviver e tentar salvar da barbárie o maior número possível de crianças e jovens.

Na verdade, a ignorância que o senhor revela ao falar dos professores da escola pública é tão desproporcionada que não me posso calar. E explico-lhe porquê.

Primeiro, porque se os seus filhos e a sua família ainda conseguem andar nas ruas em relativa segurança é porque a escola pública e os seus docentes e funcionários recebem e tentam também educar reais e potenciais delinquentes.

Segundo, porque o senhor não sabe o que é ter o seu carro incendiado; não sabe o que é ser insultado e ameaçado diariamente, física e psiquicamente; não sabe o que é chegar a levar uns valentes pontapés e bofetadas; não sabe o que é ter alunos seus (que podiam ser os seus filhos) a serem enviados para o hospital, uns em coma, outros nem tanto, perante a impotência dos professores; não sabe o que é chamar em desespero a polícia e esta não poder vir porque está ocupada noutras escolas com acontecimentos similares. Que fique registado que isto é apenas uma pequena amostra de acontecimentos que foram testemunhados por mim.

E já agora, deixe-me que lhe diga que o senhor também não sabe, não pode saber, o que é sentir o orgulho de ter alunos com Necessidades Educativas Especiais em quase todas as turmas, miúdos e miúdas, muitos dos quais são expulsos ou cuja entrada é recusada por escolas privadas. Sim, repito, por escolas privadas.

Apesar de eu ter conseguido sair desse inferno (sem nada nas mãos e tendo que começar toda uma nova vida), nunca deixarei de estar ao lado dessas centenas e milhares de professores (na verdade, professoras na sua maioria), a fazerem diariamente das tripas coração e a trabalharem nestas martirizadas escolas públicas, sabendo esses professores que jamais obterão da sociedade o reconhecimento, e muito menos a gratidão, que merecem.

Tendo, ainda por cima, de ouvir pessoas, como o senhor, que estão convencidas de que sabem tudo e que na verdade pouco ou nada sabem do que criticam.

domingo, janeiro 01, 2012

Votos para o ano de 2012

Quero incluir aqui o discurso que Leonard Cohen proferiu por ter recebido o Prémio Príncipe das Astúrias, a 21 de Outubro de 2011.
Porque desejo que o ano de 2012 nos traga esses lugares e proteja essas pessoas em que a poesia se encontra com o que de mais alto existe na natureza humana, tal como aqui exemplifica Leonard Cohen com as suas palavras e com a sua atitude. Onde a cortesia, a humildade, o reconhecimento e a verdadeira grandeza brilham de forma inesquecível.



Como disse Lou Reed noutro contexto, "We´re so lucky to be alive at the same time Leonard Cohen is!"

quarta-feira, setembro 21, 2011

Rei Édipo, Sófocles

(com introdução, tradução do grego e notas de Maria do Céu Zambujo Fialho)

A história é por demais conhecida, por isso aqui deixarei apenas algumas questões que nasceram de uma leitura apaixonada.

Édipo é sempre auto-determinado. Ele decide sempre por si próprio, não se deixa levar pelo que os outros dizem. O problema é que ele assim afunda-se na tragédia. Será que Sófocles faz aqui uma apologia da submissão e da passividade? Pelo menos à vontade dos deuses?
No entanto, Édipo responsabiliza-se sempre a si próprio pelo que faz e nunca deita as culpas para cima dos outros ou dos deuses. E Sófocles oferece-nos aqui um retrato grandioso desta personagem, com a qual não podemos nunca deixar de simpatizar e de admirar. Portanto, não parece que defenda a submissão. Ao contrário de Laio e de Jocasta, que procuram enganar os deuses com estratagemas, Sófocles constrói um Édipo corajoso e sempre pronto, por mais terrível que isso lhe pareça, a enfrentar as coisas como elas são.
Quando a boa fortuna de um poderoso começa a cair, aí surge a paranóia de que o andam a trair. Mais uma vez, repare-se que a grandeza de Édipo volta aqui a revelar-se, pois nem essa humana paranóia o faz desviar da busca implacável da verdade, não se perdendo em perseguições e castigos inúteis.
Infelizmente, é essa coragem e inteireza que vai provocar e revelar a sua desgraça. Por isso, interrogo-me sobre qual seria a posição de Sófocles sobre esta sua personagem, o que pensaria ele realmente de Édipo e do seu confronto com os deuses, ...

Uma reflexão adicional sobre Creonte. Nesta peça, Creonte mostra aqui grande sensatez, raciocínio lúcido e um saber bem como lidar com os outros. É um Creonte completamente distinto do de Antígona. Sófocles evidencia aqui algo que começamos a reconhecer hoje em dia: nós somos o que somos é certo que por factores disposicionais, mas também, e muito, devido a factores situacionais. É assim que Creonte próximo do rei é uma coisa, sendo rei é outra muito diferente.

domingo, setembro 18, 2011

Gandhi, sempre no coração

Satish Kumar, em entrevista ao i:

Muitos dizem que os seus ideais são utópicos. O que responde a isso?

Muita gente diz-me que eu sou idealista e que tenho de ser realista.

A minha resposta é: o que é que os realistas fizeram pelo mundo? O que é que alcançaram?
Por estarmos a ser governados por realistas temos uma crise económica, temos aquecimento global, temos guerra no Afeganistão, Líbia e em outros tantos países.
Os realistas criaram esta confusão toda. 
É altura de os realistas saírem e de os idealistas entrarem.
Isto não é mero idealismo, é um idealismo realista.
Vamos dizer: adeus realismo, bem-vindo idealismo!

Satish Kumar também refere que Gandhi disse:

There is enough in the world for everybody's need, but not enough for anybody´s greed.
(Há no mundo o suficiente para as necessidades de todos, mas não para alimentar a ganância de todos).

segunda-feira, abril 25, 2011

25 de Abril

(...) Estive numa cela com Noémia Delgado e 17 camponesas, quase todas analfabetas, que lutavam por um horário de trabalho, inconformadas com a jornada de sol a sol.
Assisti ao sofrimento de mulheres sujeitas a espancamentos brutais, que mal podiam erguer-se, mas o caso que mais me impressionou foi o de uma idosa, vestida com uma saia preta furada por balas.
Era a única roupa que possuía para além da mortalha, que os filhos tinham comprado, a custo, julgando que não sobrevivesse a várias perfurações abdominais.
Tinha-a guardada debaixo da cama para quando morresse...
(Luísa Ducla Soares, JL, nº 1027, 10-23 de Fevereiro de 2010)

Recordo a tristeza cinzenta e pesada que permeava todos os nossos dias, a nossa respiração.

Recordo todos os que sofreram a perseguição, a tortura, a morte. Recordo principalmente aqueles que já nem do nome perdura a memória.

Mas sobre tudo e para além de todos, recordo os mais valorosos de entre os puros:

José Afonso



Salgueiro Maia



 O que hoje temos, a todos eles o devemos.
O que não temos, fomos nós que o estragámos, destruímos e deitámos fora...

quarta-feira, março 09, 2011

Homens da Luta

Porque é que eu gosto destes rapazes?
Por uma grande variedade de razões.
Primeiro, sem dúvida alguma, porque pensam.
Depois, porque não falam de cor, eles não só praticam o que dizem, como sabem do que falam.
Também, porque não há arrogância - o que é natural, quem reflecte realmente nas coisas não pode ser arrogante. Pelo contrário, nao enjeitam a prudência naquilo que pode ser perigoso para a sociedade.
Adicionalmente, repare-se como Jel fala sempre em termos de "nós", raramente em termos de "eu" (apenas em afirmações sobre as quais ele se quer responsabilizar).
A entrevista que aqui incluo é absolutamente brilhante: é um manancial de reflexões, de exemplos para a nossa vida. É uma entrevista para ser levada muito, muito a sério:



Nesta entrevista pós-Festival da Canção tocou-me particularmente a cortesia e a elegância de Jel em não se ter aproveitado de uma vantagem que ganhou ao jornalista (por ingenuidade deste, é certo), e em lhe ter dado uma saída com dignidade: a situação inicia-se no minuto 5:52 e dura apenas cerca de 30 segundos... porque Jel revela-se aqui um cavalheiro. Trata-se de mais uma entrevista brilhante, veja-se:



Para finalizar, incluo também um link com o texto "Um homem que luta" do Director da Sic Radical sobre Jel, também muito esclarecedor.

domingo, março 06, 2011

Aaron Feuerstein - "The Right Thing To Do"

Aaron Feuerstein tornou-se um CEO famoso por duas razões:
Primeiro, porque, tendo criado o material  "Polartec", abdicou dos direitos de fabrico para que pudesse ser vendido em todo o mundo a preços baratos.
Depois, quando em 1995 a sua fábrica ardeu totalmente, ele não se retirou do negócio com os 300 milhões de dólares que recebeu do seguro.
Reconstruiu a fábrica no mesmo sítio. Não a transferiu para o sul ou para a Ásia, em busca de salários mais baixos.
Além disso, durante a reconstrução, nunca deixou de pagar os salários por inteiro aos seus 3 000 (des)empregados.
Isto é tudo tão insólito, tão único e, no fundo, tão pouco habitualmente humano, que me faltam as palavras.
Aqui fica um curto vídeo:

segunda-feira, janeiro 24, 2011

César dos Santos Chiquelho

Morreu um Homem.
De notável inteligência e humanidade.
Que marcou a vida de centenas, se não de milhares de pessoas.
Foi um homem de família.
Foi um político que nunca abdicou da sua consciência, como até os seus correligionários amargamente o souberam.
Mas, acima de tudo, foi um Professor (forma, aliás, como era tratado por toda a gente).
Viveu em Portugal, trabalhou em África, voltou a Portugal.
A sua actividade centrou-se sempre nos alunos, na cultura, nos livros e no campo.
Avesso a todos os tipos de ditadura foi, sobretudo, um espírito permanentemente indómito.
Foi um Homem que eu sempre admirei. Foi meu sogro.
A Morte, estúpida, irracional e injusta, veio buscá-lo.
Lembrá-lo-ei sempre com aquele seu sorriso de quem sabe que vai perturbar as consciências acomodadas.

domingo, dezembro 05, 2010

José e Pilar, de Miguel Gonçalves Mendes

Ouvi dizer que o filme tem estado a ter pouca afluência em Portugal.
Custa-me a acreditar. Mas é possível.
É possível que haja muita gente que tenha, para já, perdido a oportunidade de assistir a um filme extraordinariamente bem feito. E bonito. E enriquecedor.
Podia não ser com José Saramago e com a paixão da sua vida, Pilar del Rio.
Porque este filme, que vive por si, é uma obra de arte do realizador Miguel Gonçalves Mendes (lembram-se de Floripes?).
Mas ainda bem que foi com Saramago e com Pilar. Seres humanos com falhas, claro. Mas que lutam para conseguirem viver com dignidade. Para passarem essa dignidade a todos os seres humanos. E isso é uma constante que atravessa o filme todo.
Como o amor que os une.
Inesquecível.
Imperdível.

 Adenda: Publicado aqui

sábado, outubro 23, 2010

Fernando Nobre para Presidente da República


5ª feira preenchi e assinei o formulário da candidatura de Fernando Nobre à Presidência da República.

Na minha opinião, um Presidente da República deve ter o seguinte perfil: deve ter ideais, estar temperado pelas lutas por esses ideais, ter enfrentado algumas derrotas, estar habituado a lidar com os grupos de pressão e de poder para lhes resistir e conseguir fintá-los, ser simpático para a população em geral para ficar imune às campanhas que os meios de comunicação social inevitavelmente farão a mando dos seus donos e, finalmente, ter a coragem de fazer o que achar que é o melhor para o país.

Fernando Nobre encaixa neste perfil? Não exactamente. Aliás, não acho que seja uma mais-valia ele não ser um político profissional - falta-lhe assim alguma da prática a que me refiro no parágrafo anterior.

Mas não é tíbio nas suas posições e está habituado a ser muito persistente. Pode residir aí boa parte da sua força e da sua resistência.

E é, sem dúvida nenhuma, infinitamente melhor que o inútil que lá está agora. Disse inútil? Perdão, queria dizer o cúmplice do criminoso que, com uma maioria absoluta, arrastou o país para a ruína. E, não satisfeito com a sua cobardia (Jorge Sampaio, esse foi um Presidente que não teve medo de demitir um governo quando viu que o país iria ficar desgraçado) bem como com o facto de ter sido o principal responsável, quando primeiro ministro, por se ter desbaratado a oportunidade de modernizar o país com os fundos da antiga CEE, ainda tem a desfaçatez de pensar em recandidatar-se!

Acedito na integridade de Fernando Nobre.
Acredito que tem qualidades para ajudar a reconstruir um país minado pelas malfeitorias promovidas e perpetradas pelo gang que nos tem governado nos últimos anos.

sábado, setembro 18, 2010

Indomabilidade

Ontem foi a última sessão da Universidade de Verão - Estudos Sobre o Mediterrâneo. Esta actividade consistiu num conjunto de eventos (palestras, laboratórios e visitas guiadas) com a finalidade de dar a conhecer algumas áreas trabalhadas pelos professores da Universidade do Algarve. Foram duas semanas em Loulé cheias de interesse e de entusiasmo.

Recordo a palestra "La Conformación Poliédrica de la Identidad Española: del Atlántico al Mediterráneo". A uma dada altura, a Mestre Maria de Jesus Botana Vilar perguntou à assistência qual era a primeira ideia que vinha à cabeça das pessoas quando se falava do povo espanhol. A resposta imediata foi: orgulho. E Maria de Jesus confirmou que essa era a resposta habitual que recebia.

Lembrei-me das Festas de Ayamonte, em que a Adriana e eu fomos a um espectáculo da Banda do Samouco na Casa da Cultura. Um grupo de deficientes profundos estava também a assistir ao concerto. Chamou-nos a atenção a forma como eles se deslocavam pela sala (alguns tiveram de ir várias vezes à casa de banho a meio da sessão): sem arrogância nem ridículo, mas de cabeça levantada e com uma postura a todos os títulos plena de dignidade.

Lembrei-me também de José Mendes Cabeçadas Júnior, um homem sempre inconformado, lutando sempre por um país melhor e que nunca se vergou a nenhum poder:  desde 1910, em que participa na revolução republicana, até 1965, ano da sua morte, a sua vida é uma sucessão de revoltas, conspirações, batalhas pessoais, tudo em prol de um ideal de democracia. Sem nunca esmorecer, sem nunca se resignar. Esta é a foto sua (do Museu da República) que mais aprecio: parece que Mendes Cabeçadas nos interpela directamente, sem agressividade mas também sem passividade ou medo.

Há, sem dúvida, qualquer coisa que falta aos portugueses de hoje.

(Nota: A Câmara Municipal de Loulé, nas comemorações do centenário da República, promoveu a edição de um pequeno livro de banda desenhada, de José Carlos Fernandes e de Roberto Gomes, intitulado "José Mendes Cabeçadas Júnior - Um Espírito Indomável", de onde tirei o título deste post.)

quarta-feira, setembro 15, 2010

Vergílio Ferreira - Ser Professor

A relação de Vergílio Ferreira com o ensino é uma relação de prisão, de sofrimento, de inconformismo com tudo o que é menor na Educação.

A única coisa que alivia este "peso", esta "condenação", "chatice", "degradação", "afrontosa invasão de uma vida que me nega", etc, etc, é o bom aluno: o que sente apetência pelo saber, o que tem disponibilidade dentro de si para apreciar esse saber, o que trabalha e se esforça por obter um acesso priviligiado ao núcleo, à essência desse saber.

Hoje ainda há alguns, poucos é certo, bons alunos. Mas, tirando em algumas escolas bafejadas pela sorte, a sua voz e a sua presença encontram-se abafadas em turmas onde, por imposição de sucessivos governos, a selvajaria se tem vindo a impôr cada vez mais.

Hoje Vergílio Ferreira ou não aguentaria ou nunca seria o Vergílio Ferreira que foi...

Para mim, este (Vergílio Ferreira - O Excesso da Arte num Professor por Defeito ) é um livro triste.

Fez-me lembrar outros tempos onde se podia imaginar ser o outro professor que Vergílio Ferreira invoca, por oposição ao desautorizado mensageiro, burocrata programado do saber e escravo de horários embrutecedores, em que o docente de hoje se tornou.

terça-feira, setembro 07, 2010

Vergílio Ferreira e o professor "pau para toda a obra"

Vergílio Ferreira escreveu o que se segue em 1942 (os parágrafos e os negritos são da minha responsabilidade):

"À força de voltar os olhos para a criança, esqueceu-se um pouco que o professor também existe.
Ora, se o sujeito que recebe o ensino deve ser considerado antes de mais nada, não é menos verdade que o ensino é, apesar de tudo, uma relação e que se devem encarar os dois termos dessa relação.
Além disso não se deve ter a ficçao do professor "apto para tudo". Ele tem, também, a sua individualidade.
O professor deve perguntar a si mesmo: como vou organizar o meu ensino de maneira a utilizar o melhor possível as minhas aptidões particulares?
Porque há, entre os mestres, todas as variedades: espíritos concretos, abstractos, há os que têm uma eloquência segura, os que a têm hesitante, científicas, literárias, etc.
E nem sempre se está bem adaptado ao género de ensino exigido. Eis porque é preciso encarar também o problema da individualização do ensino, a formação dos mestres. Haveria muitas reformas a fazer. [...]
O conhecimento mesmo perfeito da teoria metodológica não pode por si só assegurar a perfeição do professor, da mesma forma que a ciência médica, só, não faz os bons médicos. [...]
Porque a pedagogia, dissemo-lo ao começar e repetimo-lo ao acabar, não é somente uma ciência, mas também uma arte. E a arte é um dom fino, delicado, mas incomunicável."

A actualidade deste texto torna-o muito adequado ao ano lectivo que se inicia. Há também que reconhecer o pensador profundo e extraordinariamente lúcido que Vergílio Ferreira foi. E podemos lembrar-nos que este texto ganha novos sentidos sabendo como hoje não se liga à necessidade do saber científico do professor e, por consequência, não se tem pejo em afirmar que um professor já o não é de um saber, mas de variados e múltiplos (nem interessa bem quais, desde que se possa pô-lo a fazer qualquer coisa).

(Maria Almira Soares, Vergílio Ferreira - O Excesso da Arte num Professor por Defeito, Difel, Lisboa, 2010 pp. 115/116)

sexta-feira, setembro 03, 2010

Vergílio Ferreira - Professor, apesar de...


O meu amigo Méon, sabendo que Vergílio Ferreira é o meu escritor preferido (na verdade, é muito, muito mais do que uma simples preferência), ofereceu-me este livro interessantíssimo.

A capa é fabulosa. A imagem aqui não lhe faz a devida justiça. A fotografia perfeita de um Vergílio Ferreira sereno e pensativo; uma antiga caneta de tinta permanente aberta sobre uma página, presumivelmente escrita pelo próprio; tudo isto compondo uma imagem que suscita uma enorme comoção. Tudo nimbado por um tom a meio caminho entre o sépia e o rosa. A contracapa é o natural complemento: livros. De tal maneira tudo isto está perfeito que olho para este livro como contemplo uma obra de arte; há muito tempo que isto não me acontecia.

Vou a meio da sua leitura. É um livro para múltiplas leituras. Relevo aqui duas:
- Para mim esta tem sido a mais marcante: o reencontro com o escritor com quem estava habituado a "dialogar" durante a sua vida, obra após obra.
- Mas, igualmente estimulante, acompanhando a forma sofrida e reflectida como Vergílio Ferreira viveu a profissão de professor (que ele não amou), e o modo como Maria Almira Soares nos guia nessa descoberta e nesse conhecimento, somos levados a (re)pensar esta profissão, e a repensarmo-nos nela.

Tenho tomado imensas notas, em resposta a tanta coisa que é referida por Maria Almira Soares neste seu trabalho, que inclui numerosos inéditos do escritor. Se achar que algumas dessas notas poderão ser interessantes de registo, voltarei aqui.

Mas não tenho dúvidas em afirmar: trata-se de um excelente livro - para ser manuseado, para ser contemplado, para ser lido, para ser relido. Obrigado, Méon!