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quinta-feira, maio 20, 2021

Porque é que as zebras não apanham úlceras?

 

Why Zebras Don’t Get Ulcers é um livro de 1994 (nunca traduzido em Portugal) do biólogo e neuroendocrinologista Robert M. Sapolsky.

Quando a zebra está calmamente a almoçar e ouve um barulho (que nove vezes em cada dez é um falso alarme, porém a zebra tem de assumir que não é, pois não há segundas oportunidades na selva), ela tem uma reação fisiológica de stress quase instantânea. Para a zebra, que responde fugindo, este stress só tem efeitos benéficos… porque dura segundos, no máximo poucos minutos. Rapidamente, afastada a presença física do perigo, ela volta ao seu almoço na maior das tranquilidades.

Não assim com os seres humanos, numa situação semelhante. Passada a ameaça, o ser humano continua em stress: “E se o leão volta e eu não dou conta? E se vem de noite e eu não o vejo? E se ataca os meus filhos que não conseguem fugir como eu? E se forem vários leões a cercar-me?” Etc., etc. Ao contrário das zebras, a ausência de perigo não representa para nós, humanos, a ausência de ameaça.

O problema é que a reação fisiológica de stress deixa de ter efeitos benéficos no organismo num espaço de segundos a minutos. E em nós, esta reação pode prolongar-se por horas, dias , semanas,… Por isso, nós temos úlceras e as zebras não. 

terça-feira, maio 11, 2021

E se os livros não nos preparam para a vida?

Não sabia como é vasto, árido e escarpado o país que o viajante da vida tem de atravessar para poder aceitar a realidade. É uma ilusão pensar que a mocidade seja feliz, uma ilusão daqueles que a perderam. Os jovens sabem que são miseráveis, pois alimentam os falsos ideais que lhes foram incutidos e todas as vezes que entram em contato com o real sentem-se magoados e contundidos. Dir-se-ia serem vítimas de uma conspiração. Os livros que lêem, livros ideais pela necessidade de seleção, e a conversa dos mais velhos, que olham para o passado através da nuvem rosada do esquecimento, preparam-nos para uma vida irreal. São obrigados a descobrir por si próprios que tudo o que leram e tudo o que lhes ensinaram é mentira, mentira, pura mentira. Cada nova descoberta é mais um prego que lhes fixa o corpo à cruz da vida. (…) (p. 111)

Esta foi mesmo a minha vivência (nasci em 1958 e na biblioteca do meu pai estavam muitos livros cuja leitura me era proibida).

Hoje, penso que é diferente. Porque, desde crianças, todos têm acesso aos aspetos mais sórdidos e doentios da realidade e da fantasia do mundo (no entanto, não esqueçamos que tudo o que possamos ler, livros realistas ou não, tudo é sempre irreal porque 1) é a perspetiva singular de quem está a escrever; e 2) as palavras não espelham a realidade nunca).

Quem fica ou ficou melhor? Não sei responder. Mas avento a hipótese de que a sociedade, essa, fica pior. Pois parece-me que uma sociedade evolui principalmente devido àqueles que não aceitam as deformidades que ela revela, isto é, àqueles que (muito provavelmente com a leitura que dá mais espaço à reflexão) criaram dentro de si um ideal e que não se resignam. 

segunda-feira, setembro 25, 2017

Perguntaram-me ontem porque é que eu não escrevia mais no meu blog ou no Facebook. O meu primeiro ímpeto foi para responder que não tenho tido tempo. Mas imediatamente me senti envergonhado por esse impulso. É que precisamente ontem tinha lido a Carta 106 de Séneca a Lucílio, e que começa do seguinte modo:

«Se hoje levei mais tempo antes de responder à tua carta não foi porque as minhas ocupações mo impedissem. Não temas vir a ouvir-me dar uma desculpa destas! Eu tenho todo o vagar que quero, e, aliás, só não tem vagar quem não quer. Os afazeres não andam atrás de alguém: os homens é que se agarram aos afazeres, entendendo as suas ocupações como sinónimo de felicidade. (…)»
(Trad. de J. A. Segurado e Campos).

Ok. Vou então tentar escrever sobre o que vou lendo e aprendendo. Aliás, também para poder corresponder ao apelo de comunicar a ciência, presente no vídeo do post anterior. E, se possível, fá-lo-ei no sentido da “vocação de ser mais” de que Paulo Freire tanto falava.



quarta-feira, setembro 21, 2011

Rei Édipo, Sófocles

(com introdução, tradução do grego e notas de Maria do Céu Zambujo Fialho)

A história é por demais conhecida, por isso aqui deixarei apenas algumas questões que nasceram de uma leitura apaixonada.

Édipo é sempre auto-determinado. Ele decide sempre por si próprio, não se deixa levar pelo que os outros dizem. O problema é que ele assim afunda-se na tragédia. Será que Sófocles faz aqui uma apologia da submissão e da passividade? Pelo menos à vontade dos deuses?
No entanto, Édipo responsabiliza-se sempre a si próprio pelo que faz e nunca deita as culpas para cima dos outros ou dos deuses. E Sófocles oferece-nos aqui um retrato grandioso desta personagem, com a qual não podemos nunca deixar de simpatizar e de admirar. Portanto, não parece que defenda a submissão. Ao contrário de Laio e de Jocasta, que procuram enganar os deuses com estratagemas, Sófocles constrói um Édipo corajoso e sempre pronto, por mais terrível que isso lhe pareça, a enfrentar as coisas como elas são.
Quando a boa fortuna de um poderoso começa a cair, aí surge a paranóia de que o andam a trair. Mais uma vez, repare-se que a grandeza de Édipo volta aqui a revelar-se, pois nem essa humana paranóia o faz desviar da busca implacável da verdade, não se perdendo em perseguições e castigos inúteis.
Infelizmente, é essa coragem e inteireza que vai provocar e revelar a sua desgraça. Por isso, interrogo-me sobre qual seria a posição de Sófocles sobre esta sua personagem, o que pensaria ele realmente de Édipo e do seu confronto com os deuses, ...

Uma reflexão adicional sobre Creonte. Nesta peça, Creonte mostra aqui grande sensatez, raciocínio lúcido e um saber bem como lidar com os outros. É um Creonte completamente distinto do de Antígona. Sófocles evidencia aqui algo que começamos a reconhecer hoje em dia: nós somos o que somos é certo que por factores disposicionais, mas também, e muito, devido a factores situacionais. É assim que Creonte próximo do rei é uma coisa, sendo rei é outra muito diferente.

segunda-feira, agosto 01, 2011

Poesia, Saudade da Prosa de Manuel António Pina

Nunca tinha lido a poesia de Manuel António Pina. Gostei muito deste livro que me foi oferecido por mão amiga. Trata-se de "uma antologia pessoal".
Tendo lido outras coisas do autor (no fundo, sendo um ignorante da sua obra), esperava uma escrita permeada de humor. Descobri uma poesia discreta, sem grandiloquências, humana, digna e sóbria. Inclui, é certo, uns laivos dispersos de ironia (nunca construída à custa de..., mas mais feita com...), e, no entanto, é uma ironia para sempre reflectida sobre um fundo de melancolia.
As ideias e as emoções evocadas pelo autor ao longo destas páginas abrem no nosso espírito atmosferas indefinidas, como se elas flutuassem no limiar da nossa consciência, ficando nós à beira de as compreender e de abarcar, quase como se fossem familiares e, no entanto, estrangeiras.
O autor interroga connosco a estranheza do mundo, da palavra e da criação, não nos deixando ficar de fora... mas o que escreve e partilha connosco é também uma poesia do silêncio, da presença da morte, da reflexão sobre o que é o poema, o poeta e o leitor.
Um livro excepcional.

segunda-feira, maio 09, 2011

Ler aos 16, carreira profissional melhor aos 33

Uma investigação recente veio revelar que a única actividade extracurricular de adolescentes com 16 anos com efeitos benéficos na sua carreira profissional é a leitura de livros, tanto para rapazes como para raparigas.

Outras actividades típicas dos 16 anos: fazer desporto, socializar, ir a museus ou a galerias ou ao cinema ou a concertos, ou quaisquer outras actividades (desde cozinhar até costurar). Que efeitos na futura carreira profissional? Nada de significativo.

E quanto aos jogos de computador? Reduzem as chances de chegar à Universidade. Pelo contrário, ler livros já implica uma maior probabilidade.

Explicações possíveis: características únicas ligadas à leitura por prazer; empregadores preferirem contratar pessoas com nível de literacia semelhante ao seu; ou então simplesmente porque adolescentes já destinados a uma melhor carreira profissional tendem a ler mais.

(University of Oxford (2011, May 9). Reading at 16 linked to better job prospects. ScienceDaily. Retrieved May 9, 2011, from http://www.sciencedaily.com­ /releases/2011/05/110504150539.htm)

domingo, fevereiro 06, 2011

Em Busca da Identidade - o desnorte, de José Gil

Uma radiografia certeira e incómoda de Portugal:
  1. Os velhos traços da política salazarista que estão aí para ficar: usar o medo (da autoridade, da avaliação, da crise, etc.) para governar.
  2. As velhas estratégias de relacionamento dos portugueses com a sociedade onde vivem: inércia, falta de confiança, auto-complacência, queixume, inveja, desenrasque, chico-espertismo, irresponsabilidade, ausência de respeito pelo outro, corrupção.
  3. O quão sufocante tem sido o exercício de poder dos governos Sócrates (ao mesmo tempo que promovem todas as características referidas anteriormente).
  4. A usura das exigências que são feitas ao trabalho imaterial sobre a vida das pessoas, enquanto a avaliação se exerce apenas sobre os seus produtos materiais. 
  5. A avaliação como estratégia de poder que visa produzir submissão. O caso dos professores.
Este é um livro para ser estudado e discutido pelas pessoas que se preocupam deveras com o caminho que Portugal está a seguir.
Para o salvar da destruição? Já não acredito que seja possível. O poder está cada vez mais absoluto e desavergonhado, enquanto as pessoas estão cada vez mais mergulhadas no medo. Que é alimentado, pois o medo é extraordinariamente útil para se poder governar/abusar sem resistência.
Não, apenas para cada um poder salvaguardar a sua própria dignidade (e a dos seus mais chegados), a fim de evitar mergulhar neste pântano mental e social. Mais nada.

quarta-feira, setembro 15, 2010

Vergílio Ferreira - Ser Professor

A relação de Vergílio Ferreira com o ensino é uma relação de prisão, de sofrimento, de inconformismo com tudo o que é menor na Educação.

A única coisa que alivia este "peso", esta "condenação", "chatice", "degradação", "afrontosa invasão de uma vida que me nega", etc, etc, é o bom aluno: o que sente apetência pelo saber, o que tem disponibilidade dentro de si para apreciar esse saber, o que trabalha e se esforça por obter um acesso priviligiado ao núcleo, à essência desse saber.

Hoje ainda há alguns, poucos é certo, bons alunos. Mas, tirando em algumas escolas bafejadas pela sorte, a sua voz e a sua presença encontram-se abafadas em turmas onde, por imposição de sucessivos governos, a selvajaria se tem vindo a impôr cada vez mais.

Hoje Vergílio Ferreira ou não aguentaria ou nunca seria o Vergílio Ferreira que foi...

Para mim, este (Vergílio Ferreira - O Excesso da Arte num Professor por Defeito ) é um livro triste.

Fez-me lembrar outros tempos onde se podia imaginar ser o outro professor que Vergílio Ferreira invoca, por oposição ao desautorizado mensageiro, burocrata programado do saber e escravo de horários embrutecedores, em que o docente de hoje se tornou.

terça-feira, setembro 07, 2010

Vergílio Ferreira e o professor "pau para toda a obra"

Vergílio Ferreira escreveu o que se segue em 1942 (os parágrafos e os negritos são da minha responsabilidade):

"À força de voltar os olhos para a criança, esqueceu-se um pouco que o professor também existe.
Ora, se o sujeito que recebe o ensino deve ser considerado antes de mais nada, não é menos verdade que o ensino é, apesar de tudo, uma relação e que se devem encarar os dois termos dessa relação.
Além disso não se deve ter a ficçao do professor "apto para tudo". Ele tem, também, a sua individualidade.
O professor deve perguntar a si mesmo: como vou organizar o meu ensino de maneira a utilizar o melhor possível as minhas aptidões particulares?
Porque há, entre os mestres, todas as variedades: espíritos concretos, abstractos, há os que têm uma eloquência segura, os que a têm hesitante, científicas, literárias, etc.
E nem sempre se está bem adaptado ao género de ensino exigido. Eis porque é preciso encarar também o problema da individualização do ensino, a formação dos mestres. Haveria muitas reformas a fazer. [...]
O conhecimento mesmo perfeito da teoria metodológica não pode por si só assegurar a perfeição do professor, da mesma forma que a ciência médica, só, não faz os bons médicos. [...]
Porque a pedagogia, dissemo-lo ao começar e repetimo-lo ao acabar, não é somente uma ciência, mas também uma arte. E a arte é um dom fino, delicado, mas incomunicável."

A actualidade deste texto torna-o muito adequado ao ano lectivo que se inicia. Há também que reconhecer o pensador profundo e extraordinariamente lúcido que Vergílio Ferreira foi. E podemos lembrar-nos que este texto ganha novos sentidos sabendo como hoje não se liga à necessidade do saber científico do professor e, por consequência, não se tem pejo em afirmar que um professor já o não é de um saber, mas de variados e múltiplos (nem interessa bem quais, desde que se possa pô-lo a fazer qualquer coisa).

(Maria Almira Soares, Vergílio Ferreira - O Excesso da Arte num Professor por Defeito, Difel, Lisboa, 2010 pp. 115/116)

sexta-feira, setembro 03, 2010

Vergílio Ferreira - Professor, apesar de...


O meu amigo Méon, sabendo que Vergílio Ferreira é o meu escritor preferido (na verdade, é muito, muito mais do que uma simples preferência), ofereceu-me este livro interessantíssimo.

A capa é fabulosa. A imagem aqui não lhe faz a devida justiça. A fotografia perfeita de um Vergílio Ferreira sereno e pensativo; uma antiga caneta de tinta permanente aberta sobre uma página, presumivelmente escrita pelo próprio; tudo isto compondo uma imagem que suscita uma enorme comoção. Tudo nimbado por um tom a meio caminho entre o sépia e o rosa. A contracapa é o natural complemento: livros. De tal maneira tudo isto está perfeito que olho para este livro como contemplo uma obra de arte; há muito tempo que isto não me acontecia.

Vou a meio da sua leitura. É um livro para múltiplas leituras. Relevo aqui duas:
- Para mim esta tem sido a mais marcante: o reencontro com o escritor com quem estava habituado a "dialogar" durante a sua vida, obra após obra.
- Mas, igualmente estimulante, acompanhando a forma sofrida e reflectida como Vergílio Ferreira viveu a profissão de professor (que ele não amou), e o modo como Maria Almira Soares nos guia nessa descoberta e nesse conhecimento, somos levados a (re)pensar esta profissão, e a repensarmo-nos nela.

Tenho tomado imensas notas, em resposta a tanta coisa que é referida por Maria Almira Soares neste seu trabalho, que inclui numerosos inéditos do escritor. Se achar que algumas dessas notas poderão ser interessantes de registo, voltarei aqui.

Mas não tenho dúvidas em afirmar: trata-se de um excelente livro - para ser manuseado, para ser contemplado, para ser lido, para ser relido. Obrigado, Méon!

terça-feira, agosto 17, 2010

Promessa, de Vergílio Ferreira


Comecei agora a ler este livro de 1947, nunca antes publicado. Da Introdução de Fernanda Irene Fonseca e de Helder Godinho respigo este pedaço:

"É o seu primeiro romance «de ideias», para que escolheu um epígrafe de Hegel, reveladora do influxo das leituras de obras filosóficas que tinha começado a fazer nessa época."

Trabalho de leitura, de estudo e de investigação que Vergílio Ferreira nunca mais deixou de fazer desde então. E do qual, nós leitores, fomos dando conta através dos romances, diários e ensaios que foi escrevendo, pois era neles e através deles que Vergílio Ferreira elaborava a sua reflexão sobre essas leituras.

De repente, dou-me conta em toda a sua dimensão que toda a obra de Vergílio Ferreira se baseou num profundo saber filosófico e artístico. Veja-se: 22 volumes de ficção, 12 de diário e... 13 de ensaios!

Pergunto-me: que escritor português apresenta uma obra, dividida deste modo, com tal extensão, profundidade e beleza, sim, Beleza, entre o Pensar e o Sentir?

Não cometo a injustiça de aplicar esta pergunta aos contemporâneos, pois hoje mal lhes sobra tempo para escrever bem (digo isto sinceramente, não com ironia, mas com muita pena, deles e de nós, sociedade que tanto perde com esta ausência de tempo) e para não serem completamente ignorantes.

Não, atenho-me até a um passado recente. Eduardo Prado Coelho poderia aproximar-se, se não se distribuísse por tantas formas de arte e de filosofia e se tivesse escrito ficção (o que não fez) - aliás, é curioso que Vergílio Ferreira se sentia feliz quando conseguia ler uma novidade no campo das ideias antes de EPC o ter feito, e disso dava conta no seu Conta-Corrente.

Alexandre Herculano? Almeida Garrett? Oliveira Martins? A verdade é que, como Vergílio Ferreira, não há muitos mais.

domingo, agosto 01, 2010

Antígona, de Sófocles

Do Clube de Leitura da Biblioteca Municipal de Loulé...



...mas eu li esta versão de Helena Rocha Pereira, edição da Gulbenkian.

Sejamos francos: que posso eu dizer aqui que não tenha já sido dito milhares de vezes e de milhares de maneiras diferentes? A resposta é simples: nada! Ressalvado isto, adiante.

Trata-se de uma absoluta obra-prima, de poucas páginas e com milhares de leituras possíveis e provavelmente todas legítimas. Veja-se, por exemplo, que, sobre qual o tema ou o significado desta tragédia os especialistas ainda não chegaram a um consenso.

Assim, sinto-me à vontade para dizer que, primeiro que tudo, gostei de ler nesta peça o tema da inflexibilidade face à possível desonra, pois Antígona é drástica e intransigente perante aquilo que considera ser o seu dever em relação à sua consciência (Ismena também sabe qual o seu dever, mas abstém-se de se opor ao poder que a impede de o realizar). Secundariamente, o tema do lugar das mulheres no que se refere ao poder que é, muitas vezes (e Creonte fá-lo frequentemente), identificado com a masculinidade.

Vejo também Antígona (que aparece pouco) como o centro de toda a acção, visto que a sua postura inquebrantável põe todos os outros em causa. Além disso, apesar da sua intransigéncia e aparente posição rígida e unilateral, Antígona parece-me ser a personagem mais complexa e multifacetada da peça. Ela surge-nos como a voz não só da paixão pela justiça e pela verdade; mas também da beleza da acção boa e correcta; da responsabilidade perante a sua própria consciência (mesmo quando invoca os deuses); da coragem publicamente assumida; da recusa em curvar-se não só perante o poder, mas também às suas próprias desgraças; do império do amor sobre o ódio ("Não nasci para odiar, mas sim para amar"); da recusa de uma solidariedade feita mais de palavras do que de acções; e da de alguém que treme face ao suplício (por se sentir abandonada pelos deuses, um pouco como Cristo, aliás), mas que, logo a seguir, se recompõe e assume o seu destino.

Ismena é, no início, a voz da sensatez, lúcida, porém resignada e conformista. Depois, consegue vencer a sua fraqueza e exigir um castigo igual ao de Antígona, que esta aliás recusa.

Creonte é a voz do poder autoritário e inseguro, que à sua volta só vê fraqueza, cupidez e ânsia de poder como todos os que se habituaram a vencer pela força e pelo medo. E, claro, apenas mal se sente amedrontado é a derrocada total, revelando então a sua essencial mediocridade.

Hémon é a voz da razão adulta e ponderada, que domina completamente a paixão para melhor conseguir convencer seu pai (sem sucesso, claro, pelas razões que apresentei no parágrafo anterior). Depois, arrastado pelo desespero, liberta toda a violência do seu amor apaixonado, dirigindo-a contra si próprio.

O Coro é a voz de quem procura estar sempre consciente do que é melhor para a comunidade e, talvez por isso, é o melhor ouvinte, despreconceituado e objectivo, de toda a peça. Destaque-se a Ode ao Homem.

Tirésias é a voz daquele que conhece o passado e o futuro, é a voz do sábio. Que, note-se, é o único a conseguir vencer Creonte; para tal, usa apenas a sua sabedoria e a sua inteligência, e são estas que conseguem derrotar a mediocridade arrogante de Creonte.

Eurídice é a voz, silenciosa e digna, da dor e do desepero.

O Guarda. Faço aqui uma pausa. Sim, custa-me admiti-lo, mas esta é a voz de todos nós: a do medo do sofrimento e a da esperança de se safar custe o que custar. Mas nada melhor do que deixar aqui as suas próprias palavras, quando entrega Antígona a Creonte, que revelam toda uma vida, as nossas, no fundo:
"Acusámo-la das acções passadas e presentes; não negou coisa alguma, com prazer e pena minha, ao mesmo tempo. Porque isto de uma pessoa escapar de uma calamidade [o guarda tinha sido ameaçado de morte terrível se não encontrasse o culpado] é o melhor que há; mas é penoso levar à ruína aqueles que se estimam. Porém, tudo isto vale menos para mim do que a minha própria salvação." (434-441)

Sim, todos sonhamos ser Antígona. Mas não somos nunca (apesar de haver exemplos, Gandhi é um deles, sem dúvida). Se ao menos conseguíssemos ser Ismena, nem que fosse uma vez na vida, já não teríamos que nos envergonhar completamente. Lamentavelmente, porém, passamos toda a nossa vida a ser o Guarda; e, na maior parte do tempo, revelamos ser muito menos lúcidos do que ele...

Uma livro fantástico, absolutamente imperdível.

domingo, julho 04, 2010

Desconhecido Nesta Morada, de Kathrine Kressmann Taylor

Do Clube de Leitura da Biblioteca Municipal de Loulé.


Dois amigos alemães, a viver nos EUA, um judeu e o outro não. Este volta à Alemanha em 1932 com a família. Torna-se nazi. Por omissão comete um crime contra um familiar do seu amigo judeu. Segue-se uma vingança terrível.

Um livro curto e simples. Escrito sob a forma de cartas trocadas entre os dois. A autora pretendia denunciar o nazismo, isto em 1938 e perante uma América indiferente ao que se passava na Europa.

O livro permite múltiplas leituras. Mas todas tristes. O ser humano é capaz de todas as traições: em relação a si próprio, aos amigos, ao amor, whatever.

Leio estes livros à procura de uma explicação que me faça "ver" como podem pessoas normais, inteligentes e cultas aderir a estas ondas de ódio apadrinhadas e estimuladas por alguns governos.

sábado, junho 19, 2010

Pombos

(...) Os próprios homens quase não têm fala, mas os seus olhos queimam como duas pedras expostas ao sol durante milhares de dias. Só eles afirmam que nem tudo no Alentejo nasce e morre acachapado à terra. Eles, e uns pombos bravos que subitamente rasgam o céu, como quem foge ao áspero, ardido, amargo coração do meu país.
(...)

(o destacado é meu)

Eugénio de Andrade, Uma grande, imensa fidelidade, Os Afluentes do Silêncio.


À minha frente, a um quarteirão de distância, encontra-se um pombal construído na açoteia de uma casa.
Nele dá-se um ritual diário que me tem fascinado ao longo dos últimos meses.
Todas as manhãs um homem sobe até ao pombal e começa por hastear uma bandeira de Portugal, ao que se segue a saída dos pombos em revoada.
Os pombos nunca voam para longe. Andam em círculos sobre a vizinhança ou, no máximo, fazem uns oitos. Isto durante alguns minutos.
Depois, o homem, saindo da sua imobilidade, arreia a bandeira, leva um apito aos lábios e chama-os com uns assobios curtos e contínuos. Os pombos vão pousando no pombal e vão entrando na sua gaiola, sem o homem precisar sequer de se mover.

Os pombos domésticos têm uma vida segura, têm comida a horas certas, têm um abrigo sólido? Têm.

Eu gostaria de ser pombo doméstico? Não.

sábado, maio 29, 2010

Vergílio Ferreira...

“Amor de Perdição” de Camilo Castelo-Branco, “Aparição” de Vergílio Ferreira, “Dom Casmurro” de Machado Assis, “O Delfim” de José Cardoso Pires, “Esteiros” de Soeiro Pereira Gomes, “Memorial do Convento” de José Saramago”, “Os Maias” de Eça de Queiroz, “A Sibila” de Agustina Bessa-Luís, “Sinais de Fogo” de Jorge de Sena e “Terra Sonâmbula” de Mia Couto são os 10 romances eleitos.

A escolha foi efectuada por um júri constituído por escritores e por docentes da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, que elegeu uma dezena como os romances mais representativos da literatura de língua portuguesa, de entre as 30 obras mais votadas por docentes, estudantes e funcionários da Universidade. Depois da votação de docentes, funcionários e estudantes da Universidade de Coimbra, um júri escolheu, de entre as 30 obras mais votadas, a lista dos “10 mais” romances da literatura portuguesa.

Numa primeira fase do concurso “10 Paixões em Forma de Romance”, que foi promovido pela Imprensa da Universidade de Coimbra, todos os membros da comunidade universitária puderam designar os três romances que mais gostaram de ler.

Depois de apurados os 30 romances mais votados, o júri composto pela vice-reitora da Universidade de Coimbra, Cristina Robalo Cordeiro, pelos escritores José Luís Peixoto e João Tordo, pelos professores da FLUC José Cardoso Bernardes (coordenador do Centro de Literatura Portuguesa da FLUC), Maria Aparecida Ribeiro (docente de Literatura Brasileira) e José Luís Pires Laranjeira (docente de Literatura Africana) e presidido pelo director da Imprensa da Universidade, João Gouveia Monteiro, reuniu dia 20 para eleger os “10 mais”.

Para chegar a esta lista final, o júri teve em conta a diversidade e representatividade de diferentes épocas, correntes, geografia e géneros, bem como a expressão da vontade dos votantes.

O objectivo deste concurso foi tomar esta escolha como um pretexto para falar de livros e de boa literatura, na sequência de outras iniciativas levadas a cabo pela Imprensa da Universidade de Coimbra. Ao longo do ano lectivo 2010/2011, a Imprensa da Universidade de Coimbra, em parceria com a Biblioteca Geral e o Centro de Literatura Portuguesa da FLUC, irá promover diversos eventos sobre as 10 obras vencedoras, nomeadamente exposições e tertúlias.


(via De Rerum Natura)



Vergílio Ferreira iria comover-se com isto... eu comovi-me!

sexta-feira, maio 28, 2010

Ainda e, agora, sempre Os Maias

Romance fabuloso! De uma inteligência extraordinária!
Tanta coisa de que eu gostaria de falar, de discutir, de partilhar... acho, pelo menos, que consegui "infectar" os meus alunos com o meu entusiasmo.

É tão fácil começarmos por nos identificar com Carlos da Maia, embora sempre, admitamo-lo, com um certo sorriso. Mas ele é o herói do livro, no fim de contas.
Só que Eça é um perverso e põe-lhe todos os defeitos dos portugueses, açucarados pelo charme, pela beleza e pela fortuna, facilitando essa nossa identificação com ele... até que aqueles começam a ser tão evidentes que começamos a sentirmo-nos desconfortáveis por esta ligação emocional que estabelecemos com Carlos.
No fundo, Carlos é um inútil, um fraco, um indolente. O retrato feito por Afonso da Maia é curto e exacto: "O velho escutava com melancolia estas palavras do neto, em que sentia como uma decomposição da vontade, e que lhe pareciam ser apenas a glorificação da sua inércia. (...)" (Cap. XII).
Mas até o próprio Afonso da Maia, tirando a sua bondade, nada faz nem fez de significativo. Ele é bem um Maia que, por via de princípios de que não abdica facilmente (agora na velhice, porque na sua juventude não teve problemas com isso) e que lhe dão uma certa forma de integridade, parece ter mais substância do que Carlos, mas de facto não tem.

De todos os defeitos expostos por Eça aos nossos olhos, do Carlos (e de quase todas as outras personagens), o que mais me impressionou foi o medo. Um medo que se traduzia por uma insidiosa cobardia nas situações que exigiam na verdade um esforço para poder manter o respeito por si próprio. Carlos é lamentavelmente falho desse tipo de esforço. A cobardia é nele uma doença, tanto mais terrível quanto nunca o aparenta ser; e ele chega ao fim sem nunca perceber o quão baixo se permitiu deixar ir.

Há, no entanto, duas personagens que escapam a este retrato impiedoso. Um em tom menor: Vilaça que, não fora a sua tacanhez, poderia vir tornar-se uma personagem digna de admiração.

Mas em tom maior, grandioso mesmo, sem dúvida alguma, é a Maria Eduarda: faz o que tem de fazer, com nobreza, discretamente e sem dramas nenhuns. E acaba com um gesto verdadeirante grandioso: recusa receber o que quer que seja da herança à qual, aliás, tem todo o direito legal e moral, pois ela é uma filha legítima e de direito de Pedro da Maia. É uma personagem verdadeiramente admirável, sem nunca deixar de ser humana, no meio de um friso mais ou menos repulsivo de entes cheios de empáfia, mas realmente sem qualidade alguma.

terça-feira, maio 11, 2010

Os Maias e... para memória futura

No centro de explicações onde trabalho, os principais critérios de avaliação do desempenho são dois:
- obter resultados;
- os pais e explicandos gostarem de nós.
Falhando num destes critérios, o explicando é-nos retirado e mudado para outro professor. Falhando nos dois é o professor que é "retirado".
Desde o início do ano que só "sobrevivemos" dois professores: o de Físico-Químicas e eu, o resto entra e sai, com a maior ou menor das velocidades.
A mim vão-me carregando mais e mais. Neste momento dou explicações de:
- 1º ciclo: todas as disciplinas;
- 2º ciclo: todas as disciplinas;
- 3º ciclo: todas as disciplinas, excepto Português e Físico-Químicas;
- Secundário: Matemática, Inglês e Português.
Acho que a directora está a testar-me, para saber onde e quando vou atingir o meu nível de incompetência!...

No âmbito do Português, ando a reler Os Maias. Que livro maravilhoso, que riqueza em todos, mas mesmo quase todos os sentidos! Exaspero-me com a minha incapacidade para transmitir este maravilhamento aos meus alunos, simpáticos, mas enfastiados e preguiçosos que eles são!
Vim escrever este post quando, ao lê-lo, cheguei a esta parte:

"(...) Craft e o marquês tinham começado uma conversa sobre a vida, soturna e desconsoladora. De que servia viver, dizia Craft, não se sendo um Livingstone ou um Bismarck?" (Cap. IX, p. 290 da minha edição dos "Livros do Brasil")

Muitas vezes me tenho perguntado sinceramente o mesmo. Além disso, como é possível eu conseguir conviver com a ideia da minha banalidade, senão mesmo mediocridade? Como consigo conciliar os meus sonhos de grandeza, a minha ânsia de absoluto, com o pouquíssimo que até agora consegui realizar? Mal, muito mal. Nada há de heróico na minha vida, por muito que eu o desejasse. Nada há que possa ser recordado 10 ou 20 anos depois de eu morrer. E é assim que acabo por não saber responder à pergunta de Craft/Eça...

sábado, março 13, 2010

Nocturno Indiano, de António Tabucchi

Do Clube de Leitura da Biblioteca Municipal de Loulé.


Não vi o filme, mas já li muitos livros de Tabucchi, sempre com o maior gosto, aliás. Este não constituiu excepção.
Quando terminei, procurei encontrar alguma coisa para dizer no clube. Mas nada me ocorreu. Fiquei parado, sem ideias nenhumas, apesar de ter gostado muito de o ler.
Pensei que é assim que reagimos habitualmente em relação a uma música de que gostamos: não sabemos explicar o que nos fez aderir a ela.
E, de repente, apercebi-me que este livro tem a estrutura de um vídeo musical: pequenos flashes do personagem em movimento, nada sabemos do que antecede nem do que sucede depois, uma melodia que percorre o livro do princípio ao fim.
E pensei: o título, pois claro, um Nocturno!
Portanto, para além da presença tutelar (fortíssima) de Fernando Pessoa na construção da história, será que Tabucchi quis fazer um livro que se aproximasse da forma de uma peça musical ou de um vídeo clip?

domingo, fevereiro 28, 2010

A Um Deus Desconhecido, de John Steinbeck

Do Clube de Leitura da Biblioteca Municipal de Loulé.


O livro é antigo e angustiado, há um desejo fortíssimo que só prenuncia desgraça. Há aparência de domínio sobre a Natureza, sobre os outros, mas a harmonia está ausente e isso assusta.
É disto que o livro trata: ele não nos fala de pessoas, de animais, de plantas e de coisas. Fala de uma unidade que congrega isso tudo e que é mais e menos que isso tudo. Mais, porque há um fio profundo e inquebrável que une tudo; menos, porque cada ser é muito mais rico e complexo que a aparente unidade de tudo. Joseph não se dá conta disso, como Rama acusa.É daí que vem o assustador: sem essas pequenas coisas, apenas fica a desumanidade que este livro retrata.

Um grande, grande livro. E apenas uma leitura minha, das muitas que esta obra proporciona.

Nota: Uma tradução má e uma revisão inexistente. Que pena!

terça-feira, fevereiro 23, 2010

José Afonso

É difícil dizer como vejo José Afonso pois, para mim, a sua dimensão humana é de uma autenticidade tal que torna impossível a submissão da sua figura a uma qualquer classificação.

Confesso a minha imensa admiração por esta fraternidade de homens que, sem deixarem de se pôr em causa, vão questionando tudo o que de injusto encontram à sua volta.

José Afonso era assim. E era também um homem verdadeiro e enxuto de palavras, que se sabia com um lugar, um trabalho e uma missão na vida, mas que nunca atribuía a si próprio nem a grandeza que era sem dúvida a sua, nem a pequenez das modéstias hipócritas. Apenas a justa medida.

Dizia ele, citado neste excelente livro, da Assírio & Alvim:



Não tenho consideração por aí além por mim próprio. Aquilo que me constitui é uma certa hipercrítica em relação a mim, mas que considero saudável. Fui metido num barco. Meti-me e meteram-me. Não o teria feito se não me metessem. Fui fazendo coisas neste país porque as pessoas me chamavam a atenção para a importância de tal missão, que dizia respeito a todos nós. (p. 84)

À pergunta sobre se o seu trabalho valeu a pena, José Afonso respondeu, após hesitação:
Acho que sim, valeu a pena. Tenho consciência das minhas limitações e tenho sempre uma atitude de profundo "desamor" em relação àquilo que faço, isto é, não sou optimista. Só sou optimista por via indirecta: quando me dizem que aquilo que faço interessa, enfim, eu respeito a opinião das pessoas e digo que sim senhor, que interessa... (p. 67)

Em homens raros como José Afonso reconheço uma austeridade e um rigor (mesclados de um humor fino) que, na vida, me tornam claro o dever de aderir a uma ética exigente, ainda que difícil.

2 de Agosto de 1929 - 23 de Fevereiro de 1987


A ter em atenção:

80 anos de Zeca

Associação José Afonso