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sexta-feira, julho 07, 2023

Creches vão poder funcionar à noite e em contentores!?

 


Ainda mais oportunidades para negligenciar e maltratar crianças? Agora, por via legal?

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«Creches vão poder funcionar à noite e em contentores»

«Já há creches abertas até mais tarde, mas a portaria que entrou na quinta-feira em vigor prevê que possam funcionar “em permanência, incluindo período noturno e fins de semana”.»

«(…) forçou o Governo a rever regras para aumentar os lugares: vai ser permitido mais duas crianças por sala, converter espaços sem licenciamento, (…)»

«Para Susana Batista, a desburocratização era “urgentíssima”. Num levantamento aos associados, a ACPEEP concluiu que 25% têm “salas vazias” que podiam converter em salas de creche mas, para tal, tinham de fazer obras profundas, o que exigiria investimento avultado e tempo. “Agora é só equipar as salas”, frisa Susana Batista» (presidente da Associação de Creches e Pequenos Estabelecimentos de Ensino Particular). 

«A portaria prevê a isenção de novo licenciamento para a reconversão de espaços que já têm alvará para funcionar. Bastará aos estabelecimentos comunicar a mudança ao Instituto da Segurança Social.».

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Pergunto: o governo, em vez de garantir condições mínimas aos trabalhadores para poderem cuidar dos seus filhos, não está a sacrificar estes às “necessidades da economia e das empresas”? Ou seja, a entregá-las a um mundo cada vez mais desumano e mais selvagem?

Na minha opinião, "Agora é só equipar as salas" em salas que precisavam de "obras profundas" (que não quiseram ou não puderam fazer, tal devia ser o estado delas!) é entregar as crianças a autênticos abutres. Não tenho palavras para descrever quem dá carta branca para isto!


quinta-feira, junho 29, 2023

Contra a vitimização e o conformismo em alguns professores

 


Não concordo com os professores que escrevem, ou que dão publicidade a quem escreve, textos saudosistas sobre a Educação, em que o alvo primordial são sempre os estudantes (porque estão mal preparados, porque não vão às aulas, porque são distraídos, porque copiam nos trabalhos, etc., etc.). Não divulgo aqui nenhum desses textos porque precisamente não pretendo dar-lhes publicidade e porque todos sabemos do que falo aqui.

Concordo ainda menos que os professores divulguem publicamente que se conformam com a situação, que se tornaram maus professores, que ensinam menos e pior, que avaliam sem honestidade, etc., etc. Tudo sempre por culpa dos outros, normalmente dos alunos.

Eis as razões da minha discórdia:

  1. Este tipo de textos não atrai a simpatia para os professores de nenhuma parte da população (ao contrário do que dizem esses professores, ninguém fica contente com esta situação). 
    • Alunos? Detestarão ser retratados desta forma. Principalmente, aqueles que não são assim, que são muitos (e não os poucos que aqueles autores relutantemente admitem que apesar de tudo existem).
    • Pais? Nunca! Porque sabem que estes professores estão a defraudar descaradamente o futuro dos seus filhos.
    • O resto da população? Na melhor das hipóteses, encara estes textos (de queixa, de vitimização absurda) com indiferença. Nalguns casos, até poderão atrair a sua pena (o que duvido); no entanto, quem deseja ser objeto da piedade dos outros? Eu não, mas há gente para tudo. Na maior parte das vezes, eu diria que eles estimulam um sentimento de um cada vez maior desprezo pelos professores. 
    • E professores? Acredito que a maioria não se sente retratada por aqueles textos.
  2. Vemos outras classes profissionais (algumas muito, mas mesmo muito mais maltratadas do que os professores) a produzirem e a divulgarem este tipo de textos? Não. Não vemos médicos (nem  enfermeiros, nem técnicos auxiliares de saúde) a dizerem que os doentes saem mal tratados das suas mãos. Não vemos juízes a dizerem que as pessoas saem dos julgamentos como vítimas de decisões injustas. Etc., etc. Porque não o fazem? Porque sabem que, se dissessem este tipo de coisas, lançariam o descrédito total sobre toda a sua classe e estariam a atrair a raiva e o desprezo da população. E eles não são parvos.
  3. A atitude de culpabilização dos outros, nomeadamente dos alunos, reflete uma das opções mais perigosas que os seres humanos podem tomar: a de negarem a responsabilidade pelo que fazem. Sabemos da história o resultado trágico que isto dá. E não corresponde à realidade. Na verdade, se assumirmos a nossa responsabilidade, mesmo naquilo que somos obrigados a fazer, percebemos que temos, ainda assim, uma razoável margem de manobra, de liberdade e de autonomia. Quando decidimos não assumir a responsabilidade, fazemos como os autores daqueles textos: não só traímos a missão para que fomos contratados (e pela qual estamos a receber dinheiro), como pouco fazemos para melhorar a situação de todos no dia-a-dia. Ou seja, tornamo-nos em conformistas do pior tipo: aquele que colabora com o jogo dos opressores e que não tem vergonha de revelar em público a sua condição de conformista (muitas vezes, para atrair mais conformistas para o seu lado). Não precisamos deste tipo de professores. Aliás, a bem dizer eles nem são professores, são pseudoprofessores.
  4. Este tipo de textos saudosistas de uma idade do ouro da educação promove uma ideia totalmente falsa: é que essa idade do ouro nunca existiu. O que existiu sempre, desde a Antiguidade Clássica, foram velhos a queixarem-se de que os jovens não querem aprender, que não querem trabalhar, etc. Os séculos passam, impérios nascem e caem, mas o discurso é sempre o mesmo. Céus, já chateia!
  5. Estes textos promovem uma visão do professor como vítima dos outros. É um mau lugar para escolher estar. Sentir-se vítima faz com que as pessoas percam discernimento e energia para as lutas, essas sim que são muito necessárias travar. Quer a nível individual, no dia-a-dia (servem para mantermos a nossa autoestima); quer a nível coletivo (as únicas que podem dar algum resultado significativo para todos).
  6. Naqueles textos, apresenta-se uma imagem do professor que dá argumentos fortíssimos aos que defendem a sua substituição por filmagens ou por robôs. Na verdade, para fazer aquilo que nesses textos os autores dizem que fazem, para que é que é preciso um professor real? Pelo menos, estas alternativas não se vão andar a queixar. E até acredito que estas tecnologias sejam capazes de fazer um trabalho melhor do que eles… 
  7. Divulgar este tipo de textos dá palco a indivíduos protofascistas, com discursos nostálgicos e reacionários sobre “os bons velhos tempos” a que, segundo eles, é preciso regressar. Além disso, eles transportam muitas vezes esta maneira de pensar para denegrir outras áreas como a da igualdade de direitos e de oportunidades entre todos os seres humanos.
  8. Finalmente, estes textos a culpabilizar os alunos afastam a atenção das pessoas dos verdadeiros culpados: governos e, acima de tudo, uma sociedade implacavelmente capitalista e consumista.

Em suma, os autores deste tipo de textos parecem que estão a ser empáticos e isso pode ser agradável no momento para os professores que se sentem incompreendidos. Porém, na verdade, o que eles estão a fazer é a desmoralizar, a depreciar e a debilitar aqueles professores que têm brio na sua profissão e que o querem manter, não importa quais sejam as circunstâncias adversas que possam encontrar no seu caminho.


domingo, maio 28, 2023

Crianças discriminadas como seres não humanos

 

(Booking.com, página consultada em 20-05-2023)

Vi as fotos que uma amiga publicou de uma quinta no Douro. Fiquei com vontade de dar um mergulho naquela piscina. Procurei pelo nome, "não aceitamos crianças". Foi na mesma semana em que o B. me falou de um lugar incrível que havia no Algarve, "não aceitamos crianças com menos de cinco anos", avisava esta unidade hoteleira. Pensei fazer uma lista de todos estes nomes onde, se não aceitam o meu filho, também não me aceitam a mim. Depois, percebi que isto de ter espaços childfree - livres de crianças - está a alastrar. Há quem faça convites de casamento "só para adultos". Por mais que perceba que as crianças podem ser barulhentas, foram os adultos quem sempre me incomodaram. Fazerem das crianças um filtro na pesquisa de alojamento é muito discutível. Daqui a pouco, temos filtros para encontrar hotéis "gordosfree", "velhosfree", "mulheresfree"...

(Joana Almeida Silva, JN de 27-05-2023)

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Um mundo, qualquer mundo, sem crianças é um mundo onde a morte começa a instalar os seus arraiais. As crianças simbolizam o início, a renovação, a inocência e, acima de tudo, a alegria. Bem tristes devem ser as pessoas que não conseguem ver isto para além das birras e de outros comportamentos. Que são sempre, mas sempre, sempre, muito menos graves do que a selvajaria (ver parágrafo a seguir) de que os adultos são capazes (e que praticam, sim, claro, em todos os lados incluindo nesses lugares que proíbem a presença de crianças).

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Jornal de Notícias de 04-06-2023:


Bárbaro homicídio de criança de três anos à pancada e com torturas (...)

A semana de 14 a 20 de junho em que Jéssica esteve em cativeiro na casa dos homicidas, no Beco do Pinhana, foi de terror para a menina. Agredida de forma brutal, foi-lhe atirado um líquido abrasivo para a cara que a desfigurou e foi usada para tráfico de droga. A autópsia identificou 125 ferimentos no seu corpo (ver texto ao lado). Colocaram-lhe até cocaína à força dentro do corpo.

(...)

Em seis páginas do relatório da autópsia que consta na acusação aos alegados homicidas de Jéssica, o Ministério Público (MP) aponta 125 golpes no corpo da menina, incluindo o derrame de um produto abrasivo na face que lhe removeu por completo a pele do nariz e buço. Só na cabeça, são 25 os golpes, outros 60 nos braços e pernas, 30 no peito, seis no abdómen e cinco na zona genital.

Cristina e os filhos desta, Eduardo (o único em liberdade) e Esmeralda, de acordo com o MP, na semana de 14 a 20 de junho, utilizaram a menina como "mula" de droga e violaram-na, introduzindo-lhe cocaína no ânus, numa viagem entre Leiria e Setúbal.

(...)

Em maio, a menina já tinha sido entregue aos raptores durante dois dias por causa de uma primeira dívida de Inês por um serviço de bruxaria no valor de 100 euros. Ela conseguiu pagar, mas quando Jéssica lhe foi devolvida, estava tão maltratada e ferida, que "apenas se alimentou de líquidos durante uma semana", pode ler-se na acusação. Isso não impediu que, a 14 de junho, Inês a entregasse de novo. Desta vez, não sobreviveu.

Estas unidades hoteleiras receberiam estes adultos sem problemas, mas recusariam admitir a criança...

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Revolta sempre que se fazem generalizações abusivas a partir de uma minoria de casos. Porque a esmagadora maioria das crianças, na esmagadora maioria do tempo, porta-se bem – e eu sei do que falo, pois fui professor durante a maior parte da minha vida profissional (e não foi em escolas de elite!). Revolta, principalmente, que haja hotéis (sim, no Algarve também) que anunciam “Não são permitidas crianças”, como se se tratasse de animais e não de seres humanos.

E acima de tudo, dói que este tipo de discriminação não suscite uma revolta generalizada. Se fosse qualquer outro grupo da população, vulnerável e sem voz, o escândalo seria enorme. Com as crianças, acha-se natural.

quarta-feira, maio 03, 2023

Contra um país injusto, contra um país oprimido pela pobreza

 


Para as pessoas que desconhecem qual o meu posicionamento político (entendido no sentido lato e não de partidos), esclareço aqui o seguinte:

Eu estou sempre do lado dos mais fracos e dos derrotados. E sempre contra os violentos, contra os malvados, e contra os ofensivos e desrespeitosos. Acima de tudo, estou contra os carrascos e seus mandantes, colocando-me irredutivelmente do lado das vítimas. 

Nada disto tem a ver com a religião, porque sou, além de ateu, antiteísta na medida em que considero que a ideia de deuses trouxe mais horrores à humanidade do que benefícios. Portanto, absolutamente nada a ver com religiões.

Assim, nunca estive, estou ou estarei do lado de quem envolve os seus povos em guerras (para mim, dentro das soluções inaceitáveis, a guerra é a mais inaceitável de todas). Por isso, por exemplo, nunca salazarista, nunca putinista.

Além disso, não sou um fanático nem do cada um por si, nem da subjugação ao coletivo. Embora simpatize com as formas moderadas de ambas as posições: gosto de ter liberdade para fazer o que quero, ao mesmo tempo que acredito que devo alguns esforços e sacrifícios em prol do bem comum (do qual beneficio e, portanto, que tenho o dever de retribuir pelo menos em parte).

E só sou contra os fortes (incluindo os ricos) quando abusam do seu poder e da sua riqueza, lançando os outros na miséria.

Vejamos como isso acontece.


Recordemos como o Estado (isto é, todos nós) tem gasto muito mais do que isto com os bancos todos os anos:

“A Banca custou ao Estado 22 mil milhões de euros entre 2008 e 2021.”

22.000.000.000 € / 13 anos = 1.692.307.692€ por ano

Ou seja, cerca de 1700 milhões de euros por ano. Desta vez, foram “só” 459 milhões de euros! Mas o suficiente para fazer duplicar, note-se, duplicar o défice!

Claro que isto ajuda a que os bancos


O que dá mais de 10 milhões de lucros... por dia! À custa de famílias que vão perdendo as suas casas porque as prestações aumentaram brutalmente, chegando em muitos casos a mais do que duplicar em poucos meses!

Como eu gostaria de ouvir os partidos de direita a reagirem contra isto! Mas só os ouvimos a bramar contra o Rendimento Social de Inserção (RSI). Vamos comparar.

Nos últimos anos, o Estado tem gasto com o RSI, por ano, entre 300 e 400 milhões de euros. Mas a beneficiar perto de 200 mil pessoas e 100 mil famílias em dificuldades. Em vez da meia dúzia de bancos e de banqueiros com ordenados milionários.

Mas o problema não está só nos bancos…


Para dar estes dividendos (e isto só no PSI, isto é, nas empresas com mais de 1000 milhões euros de capitalização), nem consigo imaginar quantos terão sido os lucros!

Na verdade, não somos um país pobre, somos um país que está a ser claramente empobrecido pelos mais poderosos e mais ricos! 

Uma das formas que eles usam para empobrecer o país é pagando salários baixos e promovendo a precariedade.

Segundo o estudo Faces da pobreza em Portugal (2021), da Fundação Francisco Manuel dos Santos (p.19.), 32,9% (um terço) dos pobres em Portugal são trabalhadores. Isto é, são pessoas que com o que ganham não conseguem deixar de ser pobres, de tal maneira são mal pagos.

E, para quem acha que os pobres são uns malandros que não trabalham, será útil ver, segundo o mesmo estudo, os perfis da pobreza em Portugal:

1. «Trabalhadores»: 32,9%;

2. «Precários»: 26,6%;

O que é um “precário”? É

Uma pessoa que está numa relação laboral, no contexto da qual não consegue aceder a uma série de direitos que estariam afetos a essa relação laboral, por exemplo, a estabilidade, a remuneração garantida e periódica, o acesso a uma indemnização quando deixa de estar vinculada e o acesso a um sistema de saúde.

32,9 + 26,6 = 59,5%. Ou seja, mais de metade dos pobres trabalha!

3. «Reformados»: 27,5%;

4. «Desempregados»: 13%.

Portanto, os desempregados pobres que não trabalham e, eventualmente, talvez pudessem fazê-lo (digo talvez, porque aqui se incluem os doentes, os incapacitados, os que temporariamente estão sem trabalho, os analfabetos digitais, etc.), são pouco mais de 10% do número total de pobres.

Repare-se que, segundo o jornal online ECO,

A taxa de desemprego nunca foi tão baixa (5,8%) nem o número de pessoas empregadas foi tão elevado (4,9 milhões numa população ativa de 5,2 milhões pessoas).

Ou seja, apenas cerca de 300 mil pessoas estão atualmente desempregadas. Parece ótimo, não é verdade?

No entanto, segundo Luísa Loura, diretora da Pordata, e António Costa, primeiro-ministro de Portugal, sem apoios sociais, 4, 4 milhões de pessoas são pobres (têm rendimentos abaixo do limiar da pobreza - 554 euros mensais); passando para 1,9 milhões após as transferências sociais.

Como ficam as crianças neste panorama? Podemos imaginar, mas não é preciso, os números estão aí:

Segundo o Diário de Notícias

Cerca de uma em cada quatro crianças portuguesas com menos de 18 anos (22,9%) vivia, em 2021, em situação de pobreza ou exclusão social. (Eurostat)

E, segundo a ministra do Trabalho e da Segurança Social, Ana Mendes Godinho, o número de crianças em pobreza extrema, a nível nacional, é de 170 mil.

Lembremos que, há pouco mais de 2 anos, a Unicef alertou para os níveis crescentes da pobreza infantil em Portugal. Portugal era, a par de Itália e da Grécia, um dos países onde havia uma maior relação entre a pobreza infantil e a escassez de investimento em prestações familiares. Num relatório em que a Unicef admitiu que nos próximos cinco anos estes números deveriam aumentar.

É este o país que queremos? Onde até a vida e o bem-estar das crianças é completamente desprezado pelo grande capital? Eu não quero.

E termino, dizendo com Albert Camus:



domingo, abril 16, 2023

Como Portugal se encontra em 2023 e como as crianças são prejudicadas pela ganância da sociedade

 


Começamos com um gráfico publicado em R. Wilkinson and K. Pickett (2009). The Spirit Level: Why Greater Equality Makes Societies Stronger. London: Bloomsbury Press.

Por aqui vê-se que, nos países onde há menos desigualdade de rendimentos (ou seja, onde os rendimentos se encontram melhor distribuídos), há menos problemas sociais e de saúde. Sem surpresa, vemos como as sociais-democracias do Norte da Europa estão bem situadas. 

Um pouco surpreendentemente, vemos que Portugal é o pior a seguir aos Estados Unidos: estamos muito mais próximos do capitalismo dos E.U.A. do que da social-democracia do Norte da Europa. Mais problemas sociais e de saúde significam, evidentemente, uma vida muito pior para as crianças (que não têm meios para superar por si sós esses problemas).

Notemos que este gráfico foi elaborado com dados de antes do crash financeiro de 2008/9, de antes da “Troika”, de antes da pandemia, de antes da Guerra da Ucrânia, e de antes da inflação atual.

Três interrogações se impõem.

Primeira. Porque não seguimos o exemplo das sociais-democracias do Norte da Europa? Não teríamos que inventar nada, trata-se de imitar apenas; então, porque não fazemos algo de tão simples? Vamos ver que é porque não há vontade política.

Segunda. Será porque não criamos riqueza? E, portanto, simplesmente não há dinheiro para distribuir? Vamos mostrar que há.

Terceira. Depois de todos os acontecimentos acima invocados (crash, etc.), será que estaremos em pior situação do que antes de 2009? Vamos descobrir, sem surpresa, que a resposta é um rotundo sim: sim, estamos muitíssimo pior.

Para podermos responder a estas interrogações, façamos uma pequena pesquisa às notícias dos jornais nas últimas semanas (os sublinhados são meus).

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Consultemos o Ranking da Felicidade baseado na média dos três anos, de 2020 a 2022, divulgado ontem pelo World Happiness Report 2023:


Aqui, já ficámos pior que os E.U.A. E não surpreende excessivamente que Portugal tenha caído da 34ª para a 56ª posição.

De notar, como dentre os 10 países mais felizes, 7 são as sociais-democracias do Norte da Europa (8, se contarmos com a Suíça que também tem uma baixa desigualdade de rendimentos).

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Vamos, então, ver o que se passa nos E.U.A.

No "The Wall Street Journal", em 2 de março de 2023, é dada esta notícia:

Os lucros dos bancos caíram 6% no ano passado [2022], uma vez que a guerra, a inflação e as taxas [de juro] mais altas prejudicaram os resultados.

E em Portugal? Já sabemos que, de acordo com os maiores responsáveis do país, nós somos muito vulneráveis a crises na Europa e nos E.U.A. Portanto, aqui não haverá surpresas, certamente que estaremos piores do que eles. Ou não...?

No Jornal de Notícias de 11-03-2023:

Os cinco maiores bancos que operam em Portugal tiveram lucros de 2583 milhões de euros em 2022, mais 71% do que em 2021, quando o valor agregado foi de 1511,7 milhões de euros. Em média, somaram sete milhões de euros de lucros por dia.

Em particular (Jornal de Notícias de 13-03-2023):

  • O Montepio quintuplicou, 
  • o Novo Banco triplicou, 
  • o Santander duplicou, 
  • o Millennium BCP ficou-se pelos 50,3%, 
  • a CGD cresceu 44,5% 
  • e o BPI não foi além de uns míseros 19%.

Estes resultados foram obtidos no ano em que aconteceu a Covid-19, a Guerra na Ucrânia e a inflação galopante que continua atualmente. Ano de grande crise, a acreditar nos nossos responsáveis políticos e económicos.

Como terão os nossos bancos conseguido? Teremos GÉNIOS na nossa banca? Infelizmente, talvez não,…


Bom, assim também eu... 

Mas talvez estejamos a ser injustos. Afinal, os bancos precisam mesmo disto porque não tiveram ajuda de ninguém para ultrapassar as consequências da sua irresponsabilidade e da sua incompetência nos últimos anos... Ou tiveram?

No Jornal de Notícias de 13-03-2023:

A Banca custou ao Estado 22 mil milhões de euros entre 2008 e 2021. 

Note-se que o Estado não produz riqueza, portanto fomos todos nós, os contribuintes que "oferecemos" aquele dinheiro aos bancos.

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Esta quantia é tão gigantesca (22.000.000.000 euros) que não fazemos ideia do que ela representa. Façamos, enão, um exercício simples.

Um carrinho de supermercado cheio de produtos básicos talvez custe hoje em dia cerca de 100 euros. Logo, aqueles 22 mil milhões dariam para 220 milhões de carrinhos de supermercado.

Há 1,9 milhões de pobres permanentes (mesmo com a ajuda do Estado)

Então, teríamos para cada um dos pobres (considerados individualmente, criança, adulto, idoso, não como família) que continuam pobres mesmo depois dos apoios sociais, 116 carrinhos de supermercado, se aplicássemos aquele dinheiro a ajudá-los.

Assim, já começamos a ter uma ideia da dimensão daquela quantia descomunal que tiraram dos nossos bolsos para passá-la para os bancos.

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Aqui surge uma nova interrogação:

Não estaria na altura de os bancos começarem a agradecer e a retribuír esta nossa extraordinária generosidade? Por exemplo, remunerando melhor os depósitos e baixando o custo global do crédito?

Não, não, não, NÃO, NUNCA!!! NEM PENSAR!!!

Vítor Bento,  presidente da Associação Portuguesa de Bancos, explica-nos com simplicidade porquê, no Expresso Economia de 11-11-2022:


Por outras palavras, 

Curioso ainda um presidente desta associação não saber o que é um lucro excessivo, aquilo que um Zé da Esquina qualquer sabe. Na verdade, é impressionante como, no nosso país, pessoas ignorantes conseguem chegar a cargos de topo como este!

Ou então, uma explicação alternativa, é Ricardo Petrella que tem razão, numa entrevista na Economia Pura, nº11, pp.18-19) em relação às escolas de Gestão que ensinam (mal!) estas pessoas? 

Não vemos diferença entre as escolas militares e as escolas de gestão. Foi por isso que propus há muito o encerramento das escolas de gestão, de “management business administration”. Estas escolas não ensinam. O que fazem é ensinar a matar. Formam matadores, conquistadores, winners. Não ensinam a gerir uma empresa.

A verdade é que estes cursos de Gestão já atraem estudantes com valores mais elevados naquilo que na Psicologia se chama de Tríade Obscura (Dark Triad): narcisismo, maquiavelismo e psicopatia (Vedel, A., & Thomsen, D. K. (2017). The Dark Triad across academic majorsPersonality and Individual Differences, 116, 86-91.). O que explica de um Vítor Bento e de outros.

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Infelizmente, não são só os bancos a não ter nem ética nem humanidade.


Ou no Jornal de Notícias de 11-03-2023:

No comércio a retalho, os portugueses são todos os dias roubados. Aos preços de produtos de primeira necessidade são impostas escandalosas margens de lucro. Segundo a ASAE "no retalho, registámos margens médias de lucro bruto, referentes ao ano de 2022, entre: 20% e 30% (açúcar branco, óleo alimentar, dourada); 30% e 40% (conservas de atum, azeite, couve-coração); 40% e 50% (ovos, laranja, cenoura, febras de porco); e mais de 50% (cebola)". Este roubo prossegue em 2023.

Ou no Observador de 25-01-2023:

Sonae MC, dona dos hipermercados Modelo Continente, fechou 2022 com um volume de negócios de 5.978 milhões de euros, o que traduz uma subida de 11,5% face aos 5.362 milhões registados em 2021. É o valor mais elevado de sempre. 

Ou no Jornal i de 10-11-2022:


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Cada vez se torna mais premente a interrogação: Quem é mais afetado por isto? Ou seja, quem é que tem menos capacidade para fazer frente a estas dificuldades?

A resposta é, claro, as crianças. E, depois, os pobres.

Como nos diz Gonçalo M. Tavares, na sua coluna no Jornal de Notícias de 12-03-2023:


Mas há mais:


Bom, estes valores não surpreendem quando vemos a seguinte notícia no Expresso de 14 de Abril de 2023 que 
Desigualdade salarial nas grandes empresas quase duplicou. Remuneração dos gestores subiu 47% em 10 anos, a dos trabalhadores recuou 0,7%.
Ou que, no Expresso Economia de 14 de Abril de 2023

CEO do PSI ganham 36 vezes mais do que os seus trabalhadores. Pedro Soares dos Santos, da Jerónimo Martins, tem o maior fosso salarial, ganha 186 vezes o salário médio bruto dos trabalhadores da Jerónimo Martins. Na Sonae, o salário de 82 trabalhadores não cobre o de Cláudia Azevedo. Moura Martins ganhava na Mota-Engil 49 vezes mais do que trabalhadores. Miguel Stilwell faturou €1,8 milhões, cerca de 42 salários médios da EDP. No BCP é preciso somar 34 salários médios para atingir o de Miguel Maya.


Ao mesmo tempo que, no Porto Canal, se lê:

Metade da população portuguesa recebe um salário abaixo dos 1050 euros brutos. (...) Além disso, as mulheres ainda não chegam a esse valor, uma vez que em 2021 metade das mulheres recebia apenas cerca de 987 euros por mês.

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O dinheiro não nasce das árvores, nem cai do céu. Para uns ganharem, alguém tem de perder, como acabámos de ver. Mas, em concreto, quanta miséria se criou e se mantém, em particular entre as crianças, por causa desta situação?

Por acaso, até podemos responder a esta pergunta - no Barómetro da DECO PROTESTE (15-03-3023):

Cerca de três quartos (74%) das famílias enfrentam, mensalmente, dificuldades financeiras, sendo que 8% se encontram em situação crítica: têm dificuldade em pagar todas as despesas ditas essenciais (mobilidade, alimentação, saúde, habitação, lazer e educação). 

Aliás, segundo Luísa Loura, diretora da Pordata, em 2020: 

Sem os apoios sociais, 4, 4 milhões são pobres ou têm rendimentos abaixo do limiar da pobreza [554 euros mensais], o que passa para 1,9 milhões após as transferências sociais", explica Luísa Loura, diretora da Pordata.

Confirmado pelo primeiro-ministro na Assembleia da República.

Sobre as crianças, também podemos ter a resposta, vinda da própria ministra Ana Mendes Godinho do atual Governo. No Jornal de Notícias de 24-01-2023:

Em Gaia existem 4492 crianças em situação de pobreza extrema, afirmou a ministra do Trabalho e da Segurança Social, Ana Mendes Godinho (...) sublinhando que a nível nacional o número ascende às "170 mil".

Saliento que não se trata de pobreza simplesmente, é «pobreza extrema»!

E, para estas crianças, sair da pobreza é fácil? Não, não é. Em Portugal, demora em média 5 gerações, mais de 100 anos, como indica o Relatório da OCDE de 2018:


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Aqui, começa a impor-se uma nova pergunta: Qual o nome da ideologia que favorece uma situação como esta? A resposta é clara: Capitalismo (em todo o seu esplendor, diga-se de passagem!).

E quais as causas desta situação no nosso país? Na verdade, como disse atrás, só tínhamos que imitar as sociais-democracias do Norte! Porque riqueza produzimos e temos, como se viu. Porque não o fazemos?

Várias respostas surgem: a corrupção, a ganância, alguma desinformação, o desprezo dos dirigentes pela população em geral, etc. Ao que a população portuguesa vai respondendo, mas com um certo conformismo resignado (penso que se trata ainda de sombras longas do fascismo que não desapareceram).

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Mas não é só aqui que as crianças estão mal. Ainda esta semana, se soube que…

No Expresso de 11-03-2023:

“Já tivemos crianças de 11 anos aqui” - O alerta é dado pela equipa da maior urgência de pedopsiquiatria do país: no Hospital de Dona Estefânia, em Lisboa, são cada vez mais os jovens que tentam suicidar-se. Os números duplicaram em quatro anos, segundo Gonçalo Cordeiro Ferreira, o diretor da Pediatria Médica da unidade. 

Ou no Jornal de Notícias de 14-03-2023:

A violência nas escolas está a atingir proporções alarmantes, sendo que muito do bullying não chega sequer ao conhecimento dos professores, pais ou autoridades. Só aqueles em que o maltratado necessita de tratamento hospitalar. (...) Há evidências claras de que as escolas estão sobrecarregadas, o que leva a um mal-estar constante e se traduz num aumento de casos de bullying, automutilação e até tentativas de suicídio

Ou no Jornal de Notícias de 11-03-2023:

(…) acidentes rodoviários são a principal causa de morte entre os cinco e os 29 anos, (…) “A nossa geração mais jovem, se já não está a ir para o estrangeiro, está a morrer nas nossas estradas. (…)”

Ou no Público de 11-03-2023:

A invalidade de metadados (…) já destruiu dezenas de casos de pornografia infantil, tanto durante a investigação como na fase de julgamento. Quem o diz é Pedro Verdelho, director do Gabinete de Cibercrime, que coordena a actividade do Ministério Público na área da cibercriminalidade.

De notar que não é "A invalidade de metadados (...)", mas sim de "A lei dos metadados mal feita pelo Governo e pelo Parlamento (...)".

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Mas já chega de más notícias (e houve muitas que eliminei!). Vamos acabar com uma boa notícia: a Delta Cafés aderiu à campanha "Nem Mais Uma Palmada"!


domingo, fevereiro 12, 2023

«Uma via especial não é um privilégio»


Recordemos que 
«Em Gaia existem 4492 crianças em situação de pobreza extrema, afirmou a ministra do Trabalho e da Segurança Social, Ana Mendes Godinho (...) sublinhando que a nível nacional o número ascende às "170 mil".» (JN, 24.01.2023
Saliento que não é pobreza, é «pobreza extrema». Vejamos o que nos diz Inês Cardoso, Diretora do JN, 12.02.2023:

Uma via especial não é um privilégio

«Segundo dados da OCDE, em média em Portugal são necessárias cinco gerações para que crianças nascidas em famílias com dificuldades económicas alcancem o rendimento médio. As estatísticas das nossas universidades mostram bem as desigualdades sociais e a representatividade de jovens oriundos de meios desfavorecidos é ainda mais frágil nos chamados cursos de topo. Quase 75% dos estudantes de Medicina são filhos de pais que concluíram o Ensino Superior.

Em teoria, a escola é o melhor elevador social que conhecemos e aprendemos a acreditar num sistema que premeia o mérito, em que todos podem progredir com o seu trabalho. O que se comprova em sucessivos estudos é que essa progressão é lenta e o ensino tende a perpetuar diferenças sociais. Criar um contingente prioritário para alunos que beneficiam do escalão A de ação social, no acesso ao Ensino Superior, é por isso uma medida essencial para acelerar as mudanças e tentar reparar as avarias do elevador.

Haverá sempre quem diga, como já expressou o ex-ministro Nuno Crato, que "facilitar artificialmente a vida escolar dos jovens com dificuldades económicas não os beneficia". Em teoria, deveríamos ter recursos e medidas de apoio para os ajudar a entrar pela porta normal. Acontece que esses recursos não existem ou são manifestamente insuficientes. E acresce que mesmo com a maior eficácia da escola estes estudantes nunca estarão em pé de igualdade com os colegas.

Não se trata apenas de pensar em explicações e outros instrumentos que ajudam a atingir resultados. Há todo um mundo fora da escola que contribui para as aprendizagens ou, pelo contrário, as condiciona - com poder aquisitivo vêm livros, espetáculos, tecnologia, viagens e outras experiências que abrem horizontes e influenciam de forma difícil de determinar aquilo que se absorve na escola.

Como acontece com outros contingentes especiais, beneficiar deles não é um privilégio. É partir de um ponto no qual se está em desvantagem. Os contingentes existem para dar oportunidades a quem está habituado a não as ter. Não se dá nada sem mérito. Pelo contrário, corrige-se o facto de o mérito não bastar. Até ao dia, esperamos, em que a equidade não seja uma miragem e as vias especiais possam ser dispensadas.»

quarta-feira, junho 29, 2022

Um mês VERDADEIRAMENTE NEGRO para as crianças deste país

 


A 8-06-2022, soubemos que a Segurança Social corta o apoio alimentar a 30 000 famílias pobres. Claro que quem é mais prejudicado com estas medidas é sempre o elo mais fraco: as crianças.

O momento também não podia ter sido melhor escolhido para prejudicar especialmente estas crianças: quando as escolas fecham e deixam de proporcionar refeições diárias a crianças com necessidades alimentares não satisfeitas. E quando a inflação aumenta brutalmente e os salários estagnam.

A 19-06-2022, fomos informados que, entre janeiro e abril deste ano, um em cada quatro subsídios de educação especial foi cortado pela Segurança Social. Trata-se, portanto, de uma em cada quatro crianças, que se encontra em profunda desvantagem em relação às outras, muitas vezes a precisar de terapias que só o privado fornece, vendo as suas possibilidades de uma vida normal esfumarem-se.

A 20-06-2022, somos confrontados com a notícia de que uma menina de 3 anos, Jéssica Biscaia, é assassinada pelos adultos seus “cuidadores”. E como nós sabemos bem que isto não é um caso apenas, mas que se trata da ponta de um imenso, gigantesco iceberg!

A 23-06-2022, ficámos a saber que o Governo vai prolongar apenas por mais um mês um apoio de 60 euros às famílias mais carenciadas. Sendo o corte desse apoio coincidente com o fecho das escolas que já referi anteriormente.

Também a 23-06-2022, recebemos a notícia de que: Mais de 43 mil casos de perigo (45032 processos abertos, isto é, houve muitas crianças com mais de um processo aberto) foram comunicadas às Comissões de Proteção de Crianças e Jovens (CPCJ) em 2021, mais 8,6% do que em 2020. E ainda que: A Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Proteção das Criança e Jovens destaca as crianças com 2 anos ou menos, faixa etária que registou 5305 comunicações em 2021, um acréscimo de 3,6% (359) relativamente ao ano anterior.

Mas o pesadelo deste mês de junho para as crianças não acabou aqui.

Primeiro, uma informação: segundo a CPCJ, foram as escolas (além das forças de segurança) quem mais sinalizaram casos de perigo das crianças. É previsível: com a escolaridade obrigatória, todos os miúdos têm de passar pela escola. E os professores, apesar de assoberbados e esgotados com o trabalho com que o Ministério liquida as suas energias, conseguem ainda ter atenção e humanidade suficientes para levar estes casos à Comissão.

Acrescente-se que a Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Proteção das Criança e Jovens destaca as crianças com 2 anos ou menos, faixa etária que registou 5305 comunicações em 2021, um acréscimo de 3,6% (359) relativamente ao ano anterior.

Claro que estas crianças, que não estão dentro da escolaridade obrigatória, não se encontram sob o olhar de instituições oficiais. Principalmente as crianças pertencentes a famílias mais pobres que não têm dinheiro para as colocar numa instituição privada com um mínimo de qualidade.

Portanto, é fundamental e URGENTE uma rede pública de creches para garantir a segurança dessas crianças.

A 24-06-2022, descobrimos com assombro que o PS chumbou no Parlamento todos os projetos apresentados para a criação de uma rede pública de creches e inclusão das crianças até aos 3 anos no sistema educativo.

Faltam-nos as palavras.

Nestes tempos cada vez mais e mais sombrios, surge uma interrogação aflita:

Como contrariar esta onda de profunda indiferença dos poderes públicos a este constante abandono à sua má sorte de tantas e tantas crianças?

Como dar voz a quem, literalmente, não tem mesmo voz no espaço público?

Temo que sejam interrogações sem resposta…



quarta-feira, junho 15, 2022

Uma utopia para a Escola

 

(…) a utopia socialista não é o fim do trabalho, mas a libertação da criação humana para trabalhos com sentido. (Raquel Varela - Qual o sentido do trabalho?)

No entanto, na minha opinião, se não se começa por garantir exatamente esta revolução no trabalho escolar, as crianças e jovens, quando chegam ao mundo do trabalho, já se encontram habituados e formatados para o trabalho alienante, aceitando-o como natural e inevitável. Ou seja, é nas condições de trabalho escolar que estão as sementes daquilo que defendemos que seja o trabalho posterior na idade adulta.

Por isso, seria fundamental o estudo das atuais condições de trabalho nas escolas, quer as materiais (alguns exemplos: mobiliário igual para todos os tipos de corpos, cadeiras duras e desconfortáveis, extremo frio e extremo calor, etc.), quer as imateriais (alguns exemplos: a competição disfarçada ou explicitamente promovida; o confinamento a um lugar sentado com saídas controladas ao longo de um dia inteiro; exigências excessivas que só miúdos de famílias socioeconomicamente favorecidas conseguem cumprir, nomeadamente com recurso a múltiplas explicações ao longo dos anos; etc.).

Trata-se, portanto, de propor uma utopia primeiro e principalmente para as escolas. Mas se, hoje em dia, já não se fala muito de utopias para a sociedade, sobre as escolas desceu então um manto de sufocante silêncio.

A minha utopia para a escola pode ser expressa introduzindo adaptações mínimas (por mim indicadas com […]) a um trecho de John Bellamy Foster do livro “Trabalhar e Viver no Séc. XXI” (p.19):

(…) Outros defenderam a necessidade de transcender todo o sistema de [ensino] trabalho alienado, fazendo do desenvolvimento de relações de [aprendizagem] trabalho criativas o elemento central de uma nova sociedade revolucionária. (…)

Eu pertenço ao grupo destes “outros”.

sexta-feira, outubro 15, 2021

Aproveitando para esclarecer alguns lugares-comuns

 


Um conhecido meu enviou-me a última crónica de Miguel Sousa Tavares, "O Dinheiro", de 09/10/2021, publicada no Expresso. Para eu lhe dar a minha opinião.

Esta foi a minha resposta que eu lhe enviei (omito aqui qualquer referência identificativa, para garantir a sua total privacidade):


"Meu caro,

Muito obrigado pela sua atenção. Confesso-lhe que foi muito educativa esta leitura.

Não se assuste com o que vou dizer agora: acredita que desde há uns bons 20 anos que eu me recuso a ler ou a ouvir o que quer que seja do Miguel Sousa Tavares? Porquê? Porque acho-o uma pessoa muito pouco séria, muito pouco informada e um grande manipulador de emoções.

Assim, na verdade, recebi este seu mail como uma bela oportunidade para verificar se ele entretanto mudou ou continua na mesma (ou, quem sabe?, terá ficado pior).

Foi, portanto, com muita curiosidade e muito interesse que li este artigo “O Dinheiro”, publicado no Expresso de 9/10/2021.

É certo que ele diz aqui algumas (poucas) coisas que não me parecem incorretas: por exemplo, sobre os benefícios da social-democracia, com o que concordo genericamente.

Mas, ao mesmo tempo, diz verdadeiras barbaridades. Que passo a discriminar.


«O dinheiro (…) destrói casais, afasta irmãos, estilhaça famílias, espalha o ódio e a inveja onde antes reinava uma harmonia, talvez pobre, mas pacífica.»

O quê??????

A pobreza pode levar a tudo menos a harmonia e a paz! Pelo contrário, facilita por demais uma extrema violência. Só para dar um exemplo, segundo o estudo "Geração XXI" que já referi várias vezes nas minhas conversas, os 10%, repito, 10% das crianças (75% sofrem maus-tratos ditos “normais”) que são realmente maltratadas com extrema violência (são vítimas de sovas com objetos duros, de chicotadas com cintos, de queimaduras infligidas com água a ferver ou com fogões ligados, etc.) pertencem a famílias mais pobres. Onde vê Miguel Sousa Tavares a harmonia e a paz no meio da pobreza? Só se for nos manuais de propaganda do Estado Novo.


«Certos povos do Norte, de tradição luterana, temem o dinheiro e o seu poder nefasto sobre as frágeis almas humanas. Desconfiam das grandes fortunas, taxam-nas com impostos, perseguem-nas com uma crítica social (…) Mas ai dos ricos desses países do Norte que se atrevam a fugir ao Fisco, a refugiar-se em offshores, (…)»

O quê????!!!!

Mas alguns desses países ricos do Norte são eles próprios uma certa forma de offshores: por isso é que a maior parte das nossas empresas de topo (do PSI-20) não pagam impostos aqui em Portugal e vão pagá-los, por exemplo, à Holanda. Isto é, nós pagamos o que compramos e são os outros (os tais do Norte, bonzinhos e honestos, mas muito pouco solidários) que beneficiam dos impostos aplicados ao nosso dinheiro!


«(…) aqui quisemos acabar com os ricos, (…) e, sim, conseguimos acabar com os ricos, (...)»

O quê???????!!!!!!!!

Mas como é que acabaram os ricos? Será que o Miguel Sousa Tavares não sabe dos milhares de milionários que existem hoje em Portugal (mais de 136.000, com cerca de 19.000 a terem surgido em 2020, todos «com uma riqueza avaliada acima de um milhão de dólares», segundo o Jornal de Negócios de 22 de junho de 2021)?

No nosso país que é destacadamente o pior da Europa em desigualdade associada a graves problemas sociais e de saúde, com um fosso gigantesco entre os muito ricos e os pobres (ver gráfico no topo, em que pior do que nós só os Estados Unidos - e isto ainda antes da pandemia!). Duvido muito que o jornalista Miguel Sousa Tavares não saiba disto tudo.

E quando dá o exemplo de João Rendeiro, será que ele não se apercebe da contradição em que cai ao falar precisamente de um dos muito ricos que, até 2008, nunca foi incomodado por ninguém enquanto ia aumentando a sua fortuna?


Enfim, ideias confusas, informação falsa, contradições, tentativas de humor completamente falhadas e sem graça, passadismo – a ir buscar coisas de há 50 anos, hoje, que temos um mundo que nada tem a ver com aquele que ele recorda…

... e mal, pois, por exemplo, a história que ele conta do Otelo como sendo verdadeira é uma daquelas que já foi recontada milhares de vezes tendo como protagonistas nacionais e estrangeiros, como o Álvaro Cunhal, o Mário Soares, até Ronald Reagan, e tantos outros no lugar de Otelo! Veja-se este excelente artigo absolutamente esclarecedor sobre este assunto no Diário de Notícias de 01/08/2021, de Rogério Casanova:

Só não fico estupefacto pelo Expresso ter nos seus quadros Miguel Sousa Tavares e estar a pagar-lhe para ele escrever estas enormidades, porque o próprio Expresso (que eu também já deixei de ler desde há uns 15 anos) se tornou um jornal de muito, muito baixa qualidade.

Não tenho, portanto, razões para mudar a minha decisão de não voltar a ler ou ouvir Miguel Sousa Tavares. Mas muito obrigado à mesma, porque me permitiu verificar se a minha ideia acerca dele já estaria desatualizada. Não está.

Um forte abraço, muito obrigado mais uma vez e votos de um ótimo fim de semana!

Rui"

quinta-feira, junho 17, 2021

Onde estão as crianças?

 
(Foto de Basileia, de Raquel Varela)

Em Portugal, o planeamento urbanístico não atribui direito de cidadania às crianças para poderem habitar os espaços públicos, elas com os companheiros ou também juntamente com os adultos. Assim, o planeamento urbano e a respetiva construção raramente contemplam espaços comuns para as crianças conviverem e brincarem confortavelmente e em segurança.

Há, evidentemente, algumas exceções muito esporádicas, principalmente nas urbanizações de luxo, mas mesmo assim só em algumas. E obviamente que não estou a falar de alguns "cercados" apelidados de "parques infantis" que só pelas cores usadas se distinguem de espaços idênticos construídos para cães (estes normalmente até têm mais espaço para correr e saltar).

Ou seja, as crianças em Portugal não são vistas como sujeitos dignos de habitarem a polis com os mesmos direitos dos adultos. Eu, aliás, reduziria a frase anterior para: as crianças não são para serem vistas, ponto final! Que fiquem, pois, confinadas nas escolas e nas casas (há muitos anos que elas andam em confinamento, não foi preciso aparecer a Covid-19)!

Mas não só as crianças mais crescidas. Quem já teve bebés e os quis passear com um carrinho sabe bem a dificuldade que é fazê-lo com comodidade e segurança. É que a rua parece pertencer, acima de tudo, ao carro, à mota e ao camião.

A ideia de cidade como lugar onde se forma e convive uma comunidade é algo que está muito ausente dos planificadores urbanísticos (gente que parece não ter uma centelha de alegria e de afeto pelas pessoas, vendo apenas cifrões à sua volta).

Assim, caminhamos pelas ruas e, pergunto, quando foi a última vez que vimos uma criança?

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Nota: A propósito deste mesmo assunto, escrevi o poema Perdemos as crianças.


quinta-feira, junho 10, 2021

Como @s alun@s ficam fortemente motivados para aprender

 


(...) A criança só pode aprender se primeiro sentir e o sentir refere-se a tudo o que é actividade emocional, jogo, pintura ou canto. A emoção está na base de toda a aprendizagem; a criança aprende quando o seu interesse é suscitado afectivamente ou sentimentalmente pelos problemas (...)

Cada matéria tem a sua linguagem própria e o uso judicioso dos símbolos exige, em regra, uma fase preparatória de iniciação, com carácter lúdico. [Mesmo com adultos, acrescento eu!]

João dos Santos (1991). Ensaios sobre Educação - I - A Criança quem é?. Lisboa: Livros Horizonte. p. 24 e 27

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Dos meus anos de professor, o que eu concluí é que os alunos aprendem entusiasticamente as matérias mais exigentes se, nas aulas, ocorrerem pelo menos estas três condições:

  • O professor mostra na aula, pelo seu comportamento e pelas atividades que planeou para aqueles alunos específicos, que sente que a matéria que ensina é absolutamente apaixonante (e até é, mesmo na minha disciplina que era a Matemática do 3º ciclo e secundário; o professor só precisa diariamente de tempo para o descobrir, e redescobrir, ano após ano – tempo esse que lhe foi completamente roubado desde o governo PS/Sócrates).
  • O aluno gosta da matéria ensinada porque ela lhe diz qualquer coisa e porque (muito importante!) o desafia pessoalmente para algo que ele prevê não só que o vai divertir, mas também fazê-lo sentir-se melhor, quer dizer, mais autónomo, mais competente e mais conectado não só com a matéria que está a aprender, mas também com o mundo em geral. Mais uma vez, para conseguir isto, o professor precisa de tempo (que lhe tiraram).
  • O aluno sente que o professor gosta dele genuinamente, acredita nele e admira-o, seja nos seus esforços, seja nas suas dúvidas e perguntas, seja na sua evolução, seja nas suas realizações (todos estes aspetos são importantes).

Satisfeitas estas três condições, os alunos, todos os alunos, adoram as aulas por mais exigentes que sejam, todos estudam e, felizmente, a maioria adquire o gosto de o fazer.

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Já agora, sem o professor precisar de mandar trabalhos para casa. Por duas razões. A primeira é que, na escola onde eu estava, uma grande parte dos alunos não os fazia. Resultado? Corrigi-los na aula era uma maçada para os que o tinham feito e uma maçada para os que não o tinham feito, ou seja, uma perda de tempo que, sem o tpc a atravancar, eu ocupava de forma muito, mas mesmo muito mais útil. A segunda razão é que os miúdos iam tão carregados de trabalhos para casa que nem tempo lhes ficava para brincarem. Assim, preferi apostar em desenvolver neles o gosto pela matemática porque isso os fazia estudar a matéria com muito mais interesse e empenho do que a técnica dos trabalhos de casa.

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Por outras palavras, o que eu quero dizer, no fundo, é que, nestas discussões sobre educação, se centra habitualmente a atenção na parte cognitiva da aprendizagem, esquecendo aquela que é a verdadeiramente determinante, aquela que decide de tudo, que é a afetiva.

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Claro que é muito difícil plasmar num texto curto toda uma experiência de anos e de aulas.

Saliento que não defendo fazer da aula um lugar de brincadeira (no 3º ciclo e secundário, pois no 1º ciclo, por exemplo, a situação esta questão tem de ser abordada de forma radicalmente diferente). Mas, no entanto, acho que o jogo (este entendido no sentido lato do termo, não de jogos concretos; não, pelo menos no 3º ciclo e secundário de Matemática, que é a minha experiência; penso que será diferente nos 1º e 2º ciclos) é uma das múltiplas componentes de uma aula bem-sucedida, disso não tenho dúvidas nenhumas. Esclareço que falo de bem-sucedida a incluir o sucesso nos exames nacionais (avaliação independente, portanto, do professor em questão).

Dou um exemplo específico. Ao iniciar a matéria de Simetria no 3º ciclo, eu punha o seguinte desafio, para ser resolvido individualmente e em pequenos grupos: “Que palavras se podem construir de modo a terem uma simetria vertical?” Um exemplo de resposta é “ovo”, que não só tem um eixo de simetria vertical a meio da palavra, como ela é simétrica de si própria.

Com este desafio (que não consumia mais do que uns 15 minutos de aula), os alunos ficavam a perceber muitíssimo melhor o conceito de simetria, cuja formalização eu fazia a seguir. Escolhi este exemplo porque, na minha vida de professor, sempre foi a atividade mais espetacular de todas: não havia aluno nenhum, mas mesmo nenhum, que não se interessasse e que não se envolvesse (repare-se, Matemática e Português, os terrores de muitos alunos).

Além disso, eu dizia-lhes que havia uma maneira simples de encontrar as respostas. E, aqui, eu estimulava-os a abordarem este desafio de uma forma inteligente, ensinando-os a resolver problemas. Nota: tratava-se de descobrir primeiro as letras simétricas e, depois, construir palavras com elas - muito mais simples do que andar à procura das palavras em primeiro lugar.

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Voltando à minha ideia principal. Com António Damásio («Biologicamente, houve uma sequência: de seres simples que nem sequer tinham emoções a seres mais complexos em que aparecem as emoções e, depois, seres em que aparece a possibilidade dos factos e da razão. Mas não é possível ter seres que têm unicamente razão sem terem um aspecto subjacente, que é o dos afectos.») pude ver confirmada pela ciência uma ideia que já tinha sido desenvolvida anteriormente por outros pensadores: é que a emoção vem primeiro e a consciência vem depois. Quase sempre e, principalmente, nas crianças. Porquê?

Porque o seu cérebro está em formação até cerca dos 25 anos («It is well established that the brain undergoes a “rewiring” process that is not complete until approximately 25 years of age. (...) The fact that brain development is not complete until near the age of 25 years refers specifically to the development of the prefrontal cortex.»*)

Essa formação começa com as estruturas mais primitivas, ou seja, as que estão mais ligadas às emoções. Principalmente, as que são responsáveis pelas relações sociais porque estas são fundamentais para a sobrevivência da criança nos seus primeiros tempos de vida. Portanto, tudo começa no relacionamento social. O resto vem depois, sobre essas emoções chamemos-lhes sociais.

Assim, eu acredito que o princípio de uma educação (que inclui a transmissão exigente e rigorosa de conhecimentos) está de facto na relação social afetiva com o professor. Mais uma vez, afeto entendido de uma forma lata, isto é, não de apenas simpatizar com o professor só porque “ele é um tipo fixe”. Embora, também mais uma vez, esta faceta seja uma das componentes importantes, porque é uma das bases para uma relação de confiança mútua, permitindo que o aluno esteja mais aberto e pronto a aceitar e a envolver-se em todas as propostas (conhecimentos e o resto de que falei no comentário que fiz anteriormente) que o professor trouxer para a aula.

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Antes de terminar, gostaria ainda de acentuar que alguns mal-entendidos, que surgem nas discussões sobre educação, nascem do facto de não se especificar a que níveis de ensino se referem os argumentos trocados. Explico-me melhor: 

Há uma grande diferença entre o nível universitário (onde, em princípio, o aluno está a estudar porque decidiu livremente que quer aprender mais sobre a área de conhecimento que o atrai) e os outros níveis de ensino em que ele está lá obrigado, não teve escolha ou teve pouca (e um alerta: genericamente, o ser humano não reage bem quando o obrigam de fora a fazer seja o que for… Em Psicologia, isto tem um nome: reatância psicológica).

Há uma diferença abissal entre o 1º ciclo e o secundário. Ou seja, aquilo que é sumamente infantil e regressivo (no sentido psicanalítico do termo) fazer com os jovens deste último nível de ensino da escolaridade obrigatória pode ser, no 1º ciclo, a forma mais adequada de induzir nas crianças o gosto pelo trabalho e pelo conhecimento.

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* Arain et al (2013). Maturation of the adolescent brain. Neuropsychiatric Disease and Treatment 2013:9, 449–461