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quinta-feira, junho 29, 2023

Contra a vitimização e o conformismo em alguns professores

 


Não concordo com os professores que escrevem, ou que dão publicidade a quem escreve, textos saudosistas sobre a Educação, em que o alvo primordial são sempre os estudantes (porque estão mal preparados, porque não vão às aulas, porque são distraídos, porque copiam nos trabalhos, etc., etc.). Não divulgo aqui nenhum desses textos porque precisamente não pretendo dar-lhes publicidade e porque todos sabemos do que falo aqui.

Concordo ainda menos que os professores divulguem publicamente que se conformam com a situação, que se tornaram maus professores, que ensinam menos e pior, que avaliam sem honestidade, etc., etc. Tudo sempre por culpa dos outros, normalmente dos alunos.

Eis as razões da minha discórdia:

  1. Este tipo de textos não atrai a simpatia para os professores de nenhuma parte da população (ao contrário do que dizem esses professores, ninguém fica contente com esta situação). 
    • Alunos? Detestarão ser retratados desta forma. Principalmente, aqueles que não são assim, que são muitos (e não os poucos que aqueles autores relutantemente admitem que apesar de tudo existem).
    • Pais? Nunca! Porque sabem que estes professores estão a defraudar descaradamente o futuro dos seus filhos.
    • O resto da população? Na melhor das hipóteses, encara estes textos (de queixa, de vitimização absurda) com indiferença. Nalguns casos, até poderão atrair a sua pena (o que duvido); no entanto, quem deseja ser objeto da piedade dos outros? Eu não, mas há gente para tudo. Na maior parte das vezes, eu diria que eles estimulam um sentimento de um cada vez maior desprezo pelos professores. 
    • E professores? Acredito que a maioria não se sente retratada por aqueles textos.
  2. Vemos outras classes profissionais (algumas muito, mas mesmo muito mais maltratadas do que os professores) a produzirem e a divulgarem este tipo de textos? Não. Não vemos médicos (nem  enfermeiros, nem técnicos auxiliares de saúde) a dizerem que os doentes saem mal tratados das suas mãos. Não vemos juízes a dizerem que as pessoas saem dos julgamentos como vítimas de decisões injustas. Etc., etc. Porque não o fazem? Porque sabem que, se dissessem este tipo de coisas, lançariam o descrédito total sobre toda a sua classe e estariam a atrair a raiva e o desprezo da população. E eles não são parvos.
  3. A atitude de culpabilização dos outros, nomeadamente dos alunos, reflete uma das opções mais perigosas que os seres humanos podem tomar: a de negarem a responsabilidade pelo que fazem. Sabemos da história o resultado trágico que isto dá. E não corresponde à realidade. Na verdade, se assumirmos a nossa responsabilidade, mesmo naquilo que somos obrigados a fazer, percebemos que temos, ainda assim, uma razoável margem de manobra, de liberdade e de autonomia. Quando decidimos não assumir a responsabilidade, fazemos como os autores daqueles textos: não só traímos a missão para que fomos contratados (e pela qual estamos a receber dinheiro), como pouco fazemos para melhorar a situação de todos no dia-a-dia. Ou seja, tornamo-nos em conformistas do pior tipo: aquele que colabora com o jogo dos opressores e que não tem vergonha de revelar em público a sua condição de conformista (muitas vezes, para atrair mais conformistas para o seu lado). Não precisamos deste tipo de professores. Aliás, a bem dizer eles nem são professores, são pseudoprofessores.
  4. Este tipo de textos saudosistas de uma idade do ouro da educação promove uma ideia totalmente falsa: é que essa idade do ouro nunca existiu. O que existiu sempre, desde a Antiguidade Clássica, foram velhos a queixarem-se de que os jovens não querem aprender, que não querem trabalhar, etc. Os séculos passam, impérios nascem e caem, mas o discurso é sempre o mesmo. Céus, já chateia!
  5. Estes textos promovem uma visão do professor como vítima dos outros. É um mau lugar para escolher estar. Sentir-se vítima faz com que as pessoas percam discernimento e energia para as lutas, essas sim que são muito necessárias travar. Quer a nível individual, no dia-a-dia (servem para mantermos a nossa autoestima); quer a nível coletivo (as únicas que podem dar algum resultado significativo para todos).
  6. Naqueles textos, apresenta-se uma imagem do professor que dá argumentos fortíssimos aos que defendem a sua substituição por filmagens ou por robôs. Na verdade, para fazer aquilo que nesses textos os autores dizem que fazem, para que é que é preciso um professor real? Pelo menos, estas alternativas não se vão andar a queixar. E até acredito que estas tecnologias sejam capazes de fazer um trabalho melhor do que eles… 
  7. Divulgar este tipo de textos dá palco a indivíduos protofascistas, com discursos nostálgicos e reacionários sobre “os bons velhos tempos” a que, segundo eles, é preciso regressar. Além disso, eles transportam muitas vezes esta maneira de pensar para denegrir outras áreas como a da igualdade de direitos e de oportunidades entre todos os seres humanos.
  8. Finalmente, estes textos a culpabilizar os alunos afastam a atenção das pessoas dos verdadeiros culpados: governos e, acima de tudo, uma sociedade implacavelmente capitalista e consumista.

Em suma, os autores deste tipo de textos parecem que estão a ser empáticos e isso pode ser agradável no momento para os professores que se sentem incompreendidos. Porém, na verdade, o que eles estão a fazer é a desmoralizar, a depreciar e a debilitar aqueles professores que têm brio na sua profissão e que o querem manter, não importa quais sejam as circunstâncias adversas que possam encontrar no seu caminho.


domingo, abril 16, 2023

Como Portugal se encontra em 2023 e como as crianças são prejudicadas pela ganância da sociedade

 


Começamos com um gráfico publicado em R. Wilkinson and K. Pickett (2009). The Spirit Level: Why Greater Equality Makes Societies Stronger. London: Bloomsbury Press.

Por aqui vê-se que, nos países onde há menos desigualdade de rendimentos (ou seja, onde os rendimentos se encontram melhor distribuídos), há menos problemas sociais e de saúde. Sem surpresa, vemos como as sociais-democracias do Norte da Europa estão bem situadas. 

Um pouco surpreendentemente, vemos que Portugal é o pior a seguir aos Estados Unidos: estamos muito mais próximos do capitalismo dos E.U.A. do que da social-democracia do Norte da Europa. Mais problemas sociais e de saúde significam, evidentemente, uma vida muito pior para as crianças (que não têm meios para superar por si sós esses problemas).

Notemos que este gráfico foi elaborado com dados de antes do crash financeiro de 2008/9, de antes da “Troika”, de antes da pandemia, de antes da Guerra da Ucrânia, e de antes da inflação atual.

Três interrogações se impõem.

Primeira. Porque não seguimos o exemplo das sociais-democracias do Norte da Europa? Não teríamos que inventar nada, trata-se de imitar apenas; então, porque não fazemos algo de tão simples? Vamos ver que é porque não há vontade política.

Segunda. Será porque não criamos riqueza? E, portanto, simplesmente não há dinheiro para distribuir? Vamos mostrar que há.

Terceira. Depois de todos os acontecimentos acima invocados (crash, etc.), será que estaremos em pior situação do que antes de 2009? Vamos descobrir, sem surpresa, que a resposta é um rotundo sim: sim, estamos muitíssimo pior.

Para podermos responder a estas interrogações, façamos uma pequena pesquisa às notícias dos jornais nas últimas semanas (os sublinhados são meus).

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Consultemos o Ranking da Felicidade baseado na média dos três anos, de 2020 a 2022, divulgado ontem pelo World Happiness Report 2023:


Aqui, já ficámos pior que os E.U.A. E não surpreende excessivamente que Portugal tenha caído da 34ª para a 56ª posição.

De notar, como dentre os 10 países mais felizes, 7 são as sociais-democracias do Norte da Europa (8, se contarmos com a Suíça que também tem uma baixa desigualdade de rendimentos).

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Vamos, então, ver o que se passa nos E.U.A.

No "The Wall Street Journal", em 2 de março de 2023, é dada esta notícia:

Os lucros dos bancos caíram 6% no ano passado [2022], uma vez que a guerra, a inflação e as taxas [de juro] mais altas prejudicaram os resultados.

E em Portugal? Já sabemos que, de acordo com os maiores responsáveis do país, nós somos muito vulneráveis a crises na Europa e nos E.U.A. Portanto, aqui não haverá surpresas, certamente que estaremos piores do que eles. Ou não...?

No Jornal de Notícias de 11-03-2023:

Os cinco maiores bancos que operam em Portugal tiveram lucros de 2583 milhões de euros em 2022, mais 71% do que em 2021, quando o valor agregado foi de 1511,7 milhões de euros. Em média, somaram sete milhões de euros de lucros por dia.

Em particular (Jornal de Notícias de 13-03-2023):

  • O Montepio quintuplicou, 
  • o Novo Banco triplicou, 
  • o Santander duplicou, 
  • o Millennium BCP ficou-se pelos 50,3%, 
  • a CGD cresceu 44,5% 
  • e o BPI não foi além de uns míseros 19%.

Estes resultados foram obtidos no ano em que aconteceu a Covid-19, a Guerra na Ucrânia e a inflação galopante que continua atualmente. Ano de grande crise, a acreditar nos nossos responsáveis políticos e económicos.

Como terão os nossos bancos conseguido? Teremos GÉNIOS na nossa banca? Infelizmente, talvez não,…


Bom, assim também eu... 

Mas talvez estejamos a ser injustos. Afinal, os bancos precisam mesmo disto porque não tiveram ajuda de ninguém para ultrapassar as consequências da sua irresponsabilidade e da sua incompetência nos últimos anos... Ou tiveram?

No Jornal de Notícias de 13-03-2023:

A Banca custou ao Estado 22 mil milhões de euros entre 2008 e 2021. 

Note-se que o Estado não produz riqueza, portanto fomos todos nós, os contribuintes que "oferecemos" aquele dinheiro aos bancos.

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Esta quantia é tão gigantesca (22.000.000.000 euros) que não fazemos ideia do que ela representa. Façamos, enão, um exercício simples.

Um carrinho de supermercado cheio de produtos básicos talvez custe hoje em dia cerca de 100 euros. Logo, aqueles 22 mil milhões dariam para 220 milhões de carrinhos de supermercado.

Há 1,9 milhões de pobres permanentes (mesmo com a ajuda do Estado)

Então, teríamos para cada um dos pobres (considerados individualmente, criança, adulto, idoso, não como família) que continuam pobres mesmo depois dos apoios sociais, 116 carrinhos de supermercado, se aplicássemos aquele dinheiro a ajudá-los.

Assim, já começamos a ter uma ideia da dimensão daquela quantia descomunal que tiraram dos nossos bolsos para passá-la para os bancos.

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Aqui surge uma nova interrogação:

Não estaria na altura de os bancos começarem a agradecer e a retribuír esta nossa extraordinária generosidade? Por exemplo, remunerando melhor os depósitos e baixando o custo global do crédito?

Não, não, não, NÃO, NUNCA!!! NEM PENSAR!!!

Vítor Bento,  presidente da Associação Portuguesa de Bancos, explica-nos com simplicidade porquê, no Expresso Economia de 11-11-2022:


Por outras palavras, 

Curioso ainda um presidente desta associação não saber o que é um lucro excessivo, aquilo que um Zé da Esquina qualquer sabe. Na verdade, é impressionante como, no nosso país, pessoas ignorantes conseguem chegar a cargos de topo como este!

Ou então, uma explicação alternativa, é Ricardo Petrella que tem razão, numa entrevista na Economia Pura, nº11, pp.18-19) em relação às escolas de Gestão que ensinam (mal!) estas pessoas? 

Não vemos diferença entre as escolas militares e as escolas de gestão. Foi por isso que propus há muito o encerramento das escolas de gestão, de “management business administration”. Estas escolas não ensinam. O que fazem é ensinar a matar. Formam matadores, conquistadores, winners. Não ensinam a gerir uma empresa.

A verdade é que estes cursos de Gestão já atraem estudantes com valores mais elevados naquilo que na Psicologia se chama de Tríade Obscura (Dark Triad): narcisismo, maquiavelismo e psicopatia (Vedel, A., & Thomsen, D. K. (2017). The Dark Triad across academic majorsPersonality and Individual Differences, 116, 86-91.). O que explica de um Vítor Bento e de outros.

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Infelizmente, não são só os bancos a não ter nem ética nem humanidade.


Ou no Jornal de Notícias de 11-03-2023:

No comércio a retalho, os portugueses são todos os dias roubados. Aos preços de produtos de primeira necessidade são impostas escandalosas margens de lucro. Segundo a ASAE "no retalho, registámos margens médias de lucro bruto, referentes ao ano de 2022, entre: 20% e 30% (açúcar branco, óleo alimentar, dourada); 30% e 40% (conservas de atum, azeite, couve-coração); 40% e 50% (ovos, laranja, cenoura, febras de porco); e mais de 50% (cebola)". Este roubo prossegue em 2023.

Ou no Observador de 25-01-2023:

Sonae MC, dona dos hipermercados Modelo Continente, fechou 2022 com um volume de negócios de 5.978 milhões de euros, o que traduz uma subida de 11,5% face aos 5.362 milhões registados em 2021. É o valor mais elevado de sempre. 

Ou no Jornal i de 10-11-2022:


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Cada vez se torna mais premente a interrogação: Quem é mais afetado por isto? Ou seja, quem é que tem menos capacidade para fazer frente a estas dificuldades?

A resposta é, claro, as crianças. E, depois, os pobres.

Como nos diz Gonçalo M. Tavares, na sua coluna no Jornal de Notícias de 12-03-2023:


Mas há mais:


Bom, estes valores não surpreendem quando vemos a seguinte notícia no Expresso de 14 de Abril de 2023 que 
Desigualdade salarial nas grandes empresas quase duplicou. Remuneração dos gestores subiu 47% em 10 anos, a dos trabalhadores recuou 0,7%.
Ou que, no Expresso Economia de 14 de Abril de 2023

CEO do PSI ganham 36 vezes mais do que os seus trabalhadores. Pedro Soares dos Santos, da Jerónimo Martins, tem o maior fosso salarial, ganha 186 vezes o salário médio bruto dos trabalhadores da Jerónimo Martins. Na Sonae, o salário de 82 trabalhadores não cobre o de Cláudia Azevedo. Moura Martins ganhava na Mota-Engil 49 vezes mais do que trabalhadores. Miguel Stilwell faturou €1,8 milhões, cerca de 42 salários médios da EDP. No BCP é preciso somar 34 salários médios para atingir o de Miguel Maya.


Ao mesmo tempo que, no Porto Canal, se lê:

Metade da população portuguesa recebe um salário abaixo dos 1050 euros brutos. (...) Além disso, as mulheres ainda não chegam a esse valor, uma vez que em 2021 metade das mulheres recebia apenas cerca de 987 euros por mês.

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O dinheiro não nasce das árvores, nem cai do céu. Para uns ganharem, alguém tem de perder, como acabámos de ver. Mas, em concreto, quanta miséria se criou e se mantém, em particular entre as crianças, por causa desta situação?

Por acaso, até podemos responder a esta pergunta - no Barómetro da DECO PROTESTE (15-03-3023):

Cerca de três quartos (74%) das famílias enfrentam, mensalmente, dificuldades financeiras, sendo que 8% se encontram em situação crítica: têm dificuldade em pagar todas as despesas ditas essenciais (mobilidade, alimentação, saúde, habitação, lazer e educação). 

Aliás, segundo Luísa Loura, diretora da Pordata, em 2020: 

Sem os apoios sociais, 4, 4 milhões são pobres ou têm rendimentos abaixo do limiar da pobreza [554 euros mensais], o que passa para 1,9 milhões após as transferências sociais", explica Luísa Loura, diretora da Pordata.

Confirmado pelo primeiro-ministro na Assembleia da República.

Sobre as crianças, também podemos ter a resposta, vinda da própria ministra Ana Mendes Godinho do atual Governo. No Jornal de Notícias de 24-01-2023:

Em Gaia existem 4492 crianças em situação de pobreza extrema, afirmou a ministra do Trabalho e da Segurança Social, Ana Mendes Godinho (...) sublinhando que a nível nacional o número ascende às "170 mil".

Saliento que não se trata de pobreza simplesmente, é «pobreza extrema»!

E, para estas crianças, sair da pobreza é fácil? Não, não é. Em Portugal, demora em média 5 gerações, mais de 100 anos, como indica o Relatório da OCDE de 2018:


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Aqui, começa a impor-se uma nova pergunta: Qual o nome da ideologia que favorece uma situação como esta? A resposta é clara: Capitalismo (em todo o seu esplendor, diga-se de passagem!).

E quais as causas desta situação no nosso país? Na verdade, como disse atrás, só tínhamos que imitar as sociais-democracias do Norte! Porque riqueza produzimos e temos, como se viu. Porque não o fazemos?

Várias respostas surgem: a corrupção, a ganância, alguma desinformação, o desprezo dos dirigentes pela população em geral, etc. Ao que a população portuguesa vai respondendo, mas com um certo conformismo resignado (penso que se trata ainda de sombras longas do fascismo que não desapareceram).

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Mas não é só aqui que as crianças estão mal. Ainda esta semana, se soube que…

No Expresso de 11-03-2023:

“Já tivemos crianças de 11 anos aqui” - O alerta é dado pela equipa da maior urgência de pedopsiquiatria do país: no Hospital de Dona Estefânia, em Lisboa, são cada vez mais os jovens que tentam suicidar-se. Os números duplicaram em quatro anos, segundo Gonçalo Cordeiro Ferreira, o diretor da Pediatria Médica da unidade. 

Ou no Jornal de Notícias de 14-03-2023:

A violência nas escolas está a atingir proporções alarmantes, sendo que muito do bullying não chega sequer ao conhecimento dos professores, pais ou autoridades. Só aqueles em que o maltratado necessita de tratamento hospitalar. (...) Há evidências claras de que as escolas estão sobrecarregadas, o que leva a um mal-estar constante e se traduz num aumento de casos de bullying, automutilação e até tentativas de suicídio

Ou no Jornal de Notícias de 11-03-2023:

(…) acidentes rodoviários são a principal causa de morte entre os cinco e os 29 anos, (…) “A nossa geração mais jovem, se já não está a ir para o estrangeiro, está a morrer nas nossas estradas. (…)”

Ou no Público de 11-03-2023:

A invalidade de metadados (…) já destruiu dezenas de casos de pornografia infantil, tanto durante a investigação como na fase de julgamento. Quem o diz é Pedro Verdelho, director do Gabinete de Cibercrime, que coordena a actividade do Ministério Público na área da cibercriminalidade.

De notar que não é "A invalidade de metadados (...)", mas sim de "A lei dos metadados mal feita pelo Governo e pelo Parlamento (...)".

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Mas já chega de más notícias (e houve muitas que eliminei!). Vamos acabar com uma boa notícia: a Delta Cafés aderiu à campanha "Nem Mais Uma Palmada"!


quarta-feira, junho 29, 2022

Um mês VERDADEIRAMENTE NEGRO para as crianças deste país

 


A 8-06-2022, soubemos que a Segurança Social corta o apoio alimentar a 30 000 famílias pobres. Claro que quem é mais prejudicado com estas medidas é sempre o elo mais fraco: as crianças.

O momento também não podia ter sido melhor escolhido para prejudicar especialmente estas crianças: quando as escolas fecham e deixam de proporcionar refeições diárias a crianças com necessidades alimentares não satisfeitas. E quando a inflação aumenta brutalmente e os salários estagnam.

A 19-06-2022, fomos informados que, entre janeiro e abril deste ano, um em cada quatro subsídios de educação especial foi cortado pela Segurança Social. Trata-se, portanto, de uma em cada quatro crianças, que se encontra em profunda desvantagem em relação às outras, muitas vezes a precisar de terapias que só o privado fornece, vendo as suas possibilidades de uma vida normal esfumarem-se.

A 20-06-2022, somos confrontados com a notícia de que uma menina de 3 anos, Jéssica Biscaia, é assassinada pelos adultos seus “cuidadores”. E como nós sabemos bem que isto não é um caso apenas, mas que se trata da ponta de um imenso, gigantesco iceberg!

A 23-06-2022, ficámos a saber que o Governo vai prolongar apenas por mais um mês um apoio de 60 euros às famílias mais carenciadas. Sendo o corte desse apoio coincidente com o fecho das escolas que já referi anteriormente.

Também a 23-06-2022, recebemos a notícia de que: Mais de 43 mil casos de perigo (45032 processos abertos, isto é, houve muitas crianças com mais de um processo aberto) foram comunicadas às Comissões de Proteção de Crianças e Jovens (CPCJ) em 2021, mais 8,6% do que em 2020. E ainda que: A Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Proteção das Criança e Jovens destaca as crianças com 2 anos ou menos, faixa etária que registou 5305 comunicações em 2021, um acréscimo de 3,6% (359) relativamente ao ano anterior.

Mas o pesadelo deste mês de junho para as crianças não acabou aqui.

Primeiro, uma informação: segundo a CPCJ, foram as escolas (além das forças de segurança) quem mais sinalizaram casos de perigo das crianças. É previsível: com a escolaridade obrigatória, todos os miúdos têm de passar pela escola. E os professores, apesar de assoberbados e esgotados com o trabalho com que o Ministério liquida as suas energias, conseguem ainda ter atenção e humanidade suficientes para levar estes casos à Comissão.

Acrescente-se que a Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Proteção das Criança e Jovens destaca as crianças com 2 anos ou menos, faixa etária que registou 5305 comunicações em 2021, um acréscimo de 3,6% (359) relativamente ao ano anterior.

Claro que estas crianças, que não estão dentro da escolaridade obrigatória, não se encontram sob o olhar de instituições oficiais. Principalmente as crianças pertencentes a famílias mais pobres que não têm dinheiro para as colocar numa instituição privada com um mínimo de qualidade.

Portanto, é fundamental e URGENTE uma rede pública de creches para garantir a segurança dessas crianças.

A 24-06-2022, descobrimos com assombro que o PS chumbou no Parlamento todos os projetos apresentados para a criação de uma rede pública de creches e inclusão das crianças até aos 3 anos no sistema educativo.

Faltam-nos as palavras.

Nestes tempos cada vez mais e mais sombrios, surge uma interrogação aflita:

Como contrariar esta onda de profunda indiferença dos poderes públicos a este constante abandono à sua má sorte de tantas e tantas crianças?

Como dar voz a quem, literalmente, não tem mesmo voz no espaço público?

Temo que sejam interrogações sem resposta…



quarta-feira, junho 15, 2022

Uma utopia para a Escola

 

(…) a utopia socialista não é o fim do trabalho, mas a libertação da criação humana para trabalhos com sentido. (Raquel Varela - Qual o sentido do trabalho?)

No entanto, na minha opinião, se não se começa por garantir exatamente esta revolução no trabalho escolar, as crianças e jovens, quando chegam ao mundo do trabalho, já se encontram habituados e formatados para o trabalho alienante, aceitando-o como natural e inevitável. Ou seja, é nas condições de trabalho escolar que estão as sementes daquilo que defendemos que seja o trabalho posterior na idade adulta.

Por isso, seria fundamental o estudo das atuais condições de trabalho nas escolas, quer as materiais (alguns exemplos: mobiliário igual para todos os tipos de corpos, cadeiras duras e desconfortáveis, extremo frio e extremo calor, etc.), quer as imateriais (alguns exemplos: a competição disfarçada ou explicitamente promovida; o confinamento a um lugar sentado com saídas controladas ao longo de um dia inteiro; exigências excessivas que só miúdos de famílias socioeconomicamente favorecidas conseguem cumprir, nomeadamente com recurso a múltiplas explicações ao longo dos anos; etc.).

Trata-se, portanto, de propor uma utopia primeiro e principalmente para as escolas. Mas se, hoje em dia, já não se fala muito de utopias para a sociedade, sobre as escolas desceu então um manto de sufocante silêncio.

A minha utopia para a escola pode ser expressa introduzindo adaptações mínimas (por mim indicadas com […]) a um trecho de John Bellamy Foster do livro “Trabalhar e Viver no Séc. XXI” (p.19):

(…) Outros defenderam a necessidade de transcender todo o sistema de [ensino] trabalho alienado, fazendo do desenvolvimento de relações de [aprendizagem] trabalho criativas o elemento central de uma nova sociedade revolucionária. (…)

Eu pertenço ao grupo destes “outros”.

segunda-feira, agosto 02, 2021

José Afonso - Traz outro Amigo Também


Dada a educação muito restritiva dada pelo meu pai, foi pela leitura e pela música que aprendi como me relacionar com o mundo. Talvez por isso, houve três grandes sonhos na minha vida: o de uma sociedade fraterna que o 25 de Abril prometia, o de uma escola para expandir humanidade e comunidade, e o de uma relação afetiva profunda com alguém. Este último cumpriu-se. Quanto aos outros dois, vi-os desmoronarem-se completamente. Acho que nunca conseguirei superar isso. Até porque não sei o que posso fazer para, pelo menos, evitar que o desastre seja completo.

José Afonso - Traz Outro Amigo Também: um documentário imperdível a comemorar os 92 anos do seu nascimento.

Como com tudo o que se relaciona com o 25 de Abril e com as pessoas que o fizeram, vi largas partes deste documentário a chorar. Pelos sonhos destruídos, pela morte de tanta gente valorosa. José Afonso foi um dos maiores, ele que nunca quis mostrar-se mais do que aquilo que era: um lutador pela liberdade, tanto na sua vida prática do dia a dia, como na sua arte.

Para que na nossa memória o seu exemplo nunca desapareça.

sábado, julho 10, 2021

Desconvencer um teórico da conspiração

 


Surgem consequências terríveis quando começa a existir, numa determinada população, uma maioria de crentes numa teoria da conspiração. Por isso, ignorar ou menosprezar estas pessoas não é solução.


Quais as razões que levam alguém a acreditar numa teoria da conspiração?

Para satisfazer a necessidade de verdade, clareza e certeza num mundo em que tudo é cada vez mais fluído e vago.

Mas também para sentir alguma segurança e domínio numa sociedade em que as pessoas sentem ter cada vez menos controlo sobre a sua própria vida e isso se tornou assustador. 

E para satisfazer a necessidade de autoestima através da pertença a um grupo (o dos crentes) que é muito solidário entre si.

Além disto, estes crentes sentem-se especiais por perceberem tudo o que os outros não estão sequer a ver.

Constitui também um tipo alternativo de ativismo político para aqueles que não encontram outra forma de o praticar.

São pessoas com um baixo nível de pensamento crítico e que acreditam que a intuição é a forma mais direta e fiável de chegar à verdade. Por isso, tentar mudar o seu pensamento através de argumentos lógicos é mais ou menos inútil porque elas não os valorizam. Até porque estas teorias têm a característica de absorverem qualquer refutação lógica e razoável, transformando esta num novo argumento para suportar a teoria original.


A melhor maneira de evitar a disseminação de teorias da conspiração é combatê-las antes de criarem raízes. Depois disso, é muito difícil desalojá-las, como se vê pelo movimento QAnon nos EUA.

É difícil inclusivamente porque já de si todo o ser humano tem tendência para selecionar, interpretar e aceitar informação (verdadeira ou falsa, não interessa) que confirme as suas opiniões, e para menosprezar toda a informação que as pode contradizer – dá-se a esta predisposição o nome de Viés da Confirmação (veja-se em particular o fenómeno da perseverança de crenças).

Assim, é preciso educar preventivamente as pessoas para o pensamento crítico e para saberem lidar com a informação (principalmente, como detetar a falsa). Aqui, o papel tanto dos pais como da escola (incluindo a universidade) é insubstituível. Aliás, os currículos escolares e os respetivos exames não deveriam sequer privilegiar a aquisição acrítica de conhecimento, baseada por exemplo apenas em argumentos de autoridade.


A melhor forma de lidar com as pessoas que já acreditam mesmo numa teoria da conspiração é empatizar com elas. É provável que elas estejam a sentir medo e ansiedade, que estejam zangadas com os políticos, que se sintam frágeis e vulneráveis e, ao mesmo tempo, confusas e preocupadas. Por isso, hostilizá-las, ridicularizá-las ou fazê-las sentirem-se ainda mais inseguras não é uma tática que resulte.

É bem melhor explorar com elas estas emoções, tentando saber e perceber o que as provoca, mas sempre com uma atitude de abertura e de aceitação (lembremo-nos que nós podíamos estar naquela situação – bom, verdade seja dita, muitas vezes estamos! Quem nunca acreditou numa conspiração, por mais pequena que fosse?).

Na verdade, se falarmos com um crente numa teoria da conspiração, mostrando recetividade às suas opiniões e crenças, torna-se menos difícil conseguirmos persuadi-lo do erro. Por isso, convém sentirmo-nos efetivamente recetivos e mostrá-lo claramente. Por exemplo, deixando a outra pessoa desabafar e, depois, usar frases simples que não denotem dúvida, mas um genuíno interesse em compreender, como “Se eu estou a entender bem, tu achas que…/tu estás a dizer que…” Mesmo que não chegue a persuadir, esta atitude mantém, pelo menos, as vias de comunicação abertas e a relação amigável.


Uma outra via é ajudarmos a pessoa a reestabelecer um sentido pessoal de controlo sobre a sua vida. Neste caso, é crucial o papel das chefias nos locais de trabalho ou dos pais em casa.

Às vezes, é uma boa contribuição para esse fim levar a pessoa a recordar alturas da sua vida em que esteve com um bom controlo sobre a sua própria vida. Ou ajudá-la a ver que continua a ter esse controlo atualmente, e a sentir-se bem com isso.


Finalmente, um dos fatores por detrás da atração que as teorias da conspiração exercem sobre as pessoas é que elas proporcionam uma história atrativa, simples e emocionante, com elevado poder explicativo. Se conseguirmos contrapor uma outra história mais realista, mas com atributos semelhantes, torna-se mais fácil a nossa tarefa de desalojar a crença.


Claro que nada disto tem resultados seguros. Especificamente, há pessoas com uma crença tão forte que acaba por não ser possível trazê-las à razão. Temos de saber aceitar este facto com equanimidade; até porque também precisamos de cuidar de nós próprios a fim de não ficarmos desgastados ou desanimados perante a rigidez e a alienação destas pessoas.

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Para quem quiser aprofundar este tema, sobretudo para quem deseja ter acesso aos estudos científicos realizados nesta área, pode consultar o artigo How Should You Talk To A Loved One Who Believes In Conspiracy Theories?, no qual me baseei para construir a presente publicação.

Para quem pretender estender os seus conhecimentos ao mundo mais geral das “fake news”, pode aceder ao site Lusa: Combate às Fake News – Uma Questão Democrática. Aqui pode encontrar muita informação e muitos recursos, nomeadamente jogos e formação (Curso Cidadão Ciberinformado) gratuitos.

quinta-feira, junho 10, 2021

Como @s alun@s ficam fortemente motivados para aprender

 


(...) A criança só pode aprender se primeiro sentir e o sentir refere-se a tudo o que é actividade emocional, jogo, pintura ou canto. A emoção está na base de toda a aprendizagem; a criança aprende quando o seu interesse é suscitado afectivamente ou sentimentalmente pelos problemas (...)

Cada matéria tem a sua linguagem própria e o uso judicioso dos símbolos exige, em regra, uma fase preparatória de iniciação, com carácter lúdico. [Mesmo com adultos, acrescento eu!]

João dos Santos (1991). Ensaios sobre Educação - I - A Criança quem é?. Lisboa: Livros Horizonte. p. 24 e 27

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Dos meus anos de professor, o que eu concluí é que os alunos aprendem entusiasticamente as matérias mais exigentes se, nas aulas, ocorrerem pelo menos estas três condições:

  • O professor mostra na aula, pelo seu comportamento e pelas atividades que planeou para aqueles alunos específicos, que sente que a matéria que ensina é absolutamente apaixonante (e até é, mesmo na minha disciplina que era a Matemática do 3º ciclo e secundário; o professor só precisa diariamente de tempo para o descobrir, e redescobrir, ano após ano – tempo esse que lhe foi completamente roubado desde o governo PS/Sócrates).
  • O aluno gosta da matéria ensinada porque ela lhe diz qualquer coisa e porque (muito importante!) o desafia pessoalmente para algo que ele prevê não só que o vai divertir, mas também fazê-lo sentir-se melhor, quer dizer, mais autónomo, mais competente e mais conectado não só com a matéria que está a aprender, mas também com o mundo em geral. Mais uma vez, para conseguir isto, o professor precisa de tempo (que lhe tiraram).
  • O aluno sente que o professor gosta dele genuinamente, acredita nele e admira-o, seja nos seus esforços, seja nas suas dúvidas e perguntas, seja na sua evolução, seja nas suas realizações (todos estes aspetos são importantes).

Satisfeitas estas três condições, os alunos, todos os alunos, adoram as aulas por mais exigentes que sejam, todos estudam e, felizmente, a maioria adquire o gosto de o fazer.

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Já agora, sem o professor precisar de mandar trabalhos para casa. Por duas razões. A primeira é que, na escola onde eu estava, uma grande parte dos alunos não os fazia. Resultado? Corrigi-los na aula era uma maçada para os que o tinham feito e uma maçada para os que não o tinham feito, ou seja, uma perda de tempo que, sem o tpc a atravancar, eu ocupava de forma muito, mas mesmo muito mais útil. A segunda razão é que os miúdos iam tão carregados de trabalhos para casa que nem tempo lhes ficava para brincarem. Assim, preferi apostar em desenvolver neles o gosto pela matemática porque isso os fazia estudar a matéria com muito mais interesse e empenho do que a técnica dos trabalhos de casa.

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Por outras palavras, o que eu quero dizer, no fundo, é que, nestas discussões sobre educação, se centra habitualmente a atenção na parte cognitiva da aprendizagem, esquecendo aquela que é a verdadeiramente determinante, aquela que decide de tudo, que é a afetiva.

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Claro que é muito difícil plasmar num texto curto toda uma experiência de anos e de aulas.

Saliento que não defendo fazer da aula um lugar de brincadeira (no 3º ciclo e secundário, pois no 1º ciclo, por exemplo, a situação esta questão tem de ser abordada de forma radicalmente diferente). Mas, no entanto, acho que o jogo (este entendido no sentido lato do termo, não de jogos concretos; não, pelo menos no 3º ciclo e secundário de Matemática, que é a minha experiência; penso que será diferente nos 1º e 2º ciclos) é uma das múltiplas componentes de uma aula bem-sucedida, disso não tenho dúvidas nenhumas. Esclareço que falo de bem-sucedida a incluir o sucesso nos exames nacionais (avaliação independente, portanto, do professor em questão).

Dou um exemplo específico. Ao iniciar a matéria de Simetria no 3º ciclo, eu punha o seguinte desafio, para ser resolvido individualmente e em pequenos grupos: “Que palavras se podem construir de modo a terem uma simetria vertical?” Um exemplo de resposta é “ovo”, que não só tem um eixo de simetria vertical a meio da palavra, como ela é simétrica de si própria.

Com este desafio (que não consumia mais do que uns 15 minutos de aula), os alunos ficavam a perceber muitíssimo melhor o conceito de simetria, cuja formalização eu fazia a seguir. Escolhi este exemplo porque, na minha vida de professor, sempre foi a atividade mais espetacular de todas: não havia aluno nenhum, mas mesmo nenhum, que não se interessasse e que não se envolvesse (repare-se, Matemática e Português, os terrores de muitos alunos).

Além disso, eu dizia-lhes que havia uma maneira simples de encontrar as respostas. E, aqui, eu estimulava-os a abordarem este desafio de uma forma inteligente, ensinando-os a resolver problemas. Nota: tratava-se de descobrir primeiro as letras simétricas e, depois, construir palavras com elas - muito mais simples do que andar à procura das palavras em primeiro lugar.

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Voltando à minha ideia principal. Com António Damásio («Biologicamente, houve uma sequência: de seres simples que nem sequer tinham emoções a seres mais complexos em que aparecem as emoções e, depois, seres em que aparece a possibilidade dos factos e da razão. Mas não é possível ter seres que têm unicamente razão sem terem um aspecto subjacente, que é o dos afectos.») pude ver confirmada pela ciência uma ideia que já tinha sido desenvolvida anteriormente por outros pensadores: é que a emoção vem primeiro e a consciência vem depois. Quase sempre e, principalmente, nas crianças. Porquê?

Porque o seu cérebro está em formação até cerca dos 25 anos («It is well established that the brain undergoes a “rewiring” process that is not complete until approximately 25 years of age. (...) The fact that brain development is not complete until near the age of 25 years refers specifically to the development of the prefrontal cortex.»*)

Essa formação começa com as estruturas mais primitivas, ou seja, as que estão mais ligadas às emoções. Principalmente, as que são responsáveis pelas relações sociais porque estas são fundamentais para a sobrevivência da criança nos seus primeiros tempos de vida. Portanto, tudo começa no relacionamento social. O resto vem depois, sobre essas emoções chamemos-lhes sociais.

Assim, eu acredito que o princípio de uma educação (que inclui a transmissão exigente e rigorosa de conhecimentos) está de facto na relação social afetiva com o professor. Mais uma vez, afeto entendido de uma forma lata, isto é, não de apenas simpatizar com o professor só porque “ele é um tipo fixe”. Embora, também mais uma vez, esta faceta seja uma das componentes importantes, porque é uma das bases para uma relação de confiança mútua, permitindo que o aluno esteja mais aberto e pronto a aceitar e a envolver-se em todas as propostas (conhecimentos e o resto de que falei no comentário que fiz anteriormente) que o professor trouxer para a aula.

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Antes de terminar, gostaria ainda de acentuar que alguns mal-entendidos, que surgem nas discussões sobre educação, nascem do facto de não se especificar a que níveis de ensino se referem os argumentos trocados. Explico-me melhor: 

Há uma grande diferença entre o nível universitário (onde, em princípio, o aluno está a estudar porque decidiu livremente que quer aprender mais sobre a área de conhecimento que o atrai) e os outros níveis de ensino em que ele está lá obrigado, não teve escolha ou teve pouca (e um alerta: genericamente, o ser humano não reage bem quando o obrigam de fora a fazer seja o que for… Em Psicologia, isto tem um nome: reatância psicológica).

Há uma diferença abissal entre o 1º ciclo e o secundário. Ou seja, aquilo que é sumamente infantil e regressivo (no sentido psicanalítico do termo) fazer com os jovens deste último nível de ensino da escolaridade obrigatória pode ser, no 1º ciclo, a forma mais adequada de induzir nas crianças o gosto pelo trabalho e pelo conhecimento.

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* Arain et al (2013). Maturation of the adolescent brain. Neuropsychiatric Disease and Treatment 2013:9, 449–461

sábado, outubro 13, 2012

Pequena resposta a uma crítica injusta à escola pública

Respigo uns comentários no facebook de alguém a propósito da superioridade das escolas privadas (e que, provavelmente, são subscritas por algumas, espero que poucas, outras pessoas):
Entre as várias diferenças estão: Se na escola privada o professor dá sinais de não perceber muito bem o que anda ali a fazer é convidado a sair, na pública é convidado a ficar. No público os professores aproveitam os artigos todos. No privado não há artigos há trabalho.
O público só não copia os bons exemplos porque não quer ...
Também não é pelo número de alunos que as privadas funcionam melhor ... veja-se o Colégio de Vilamoura com 800 alunos e é um exemplo nacional ... às portas de Loulé... até promovo uma visita guiada com as direcções das escolas públicas que quiserem ... não sei se há quem queira claro!

Caro senhor, aproveito este espaço para lhe dizer com todo o respeito:

O senhor está enganado, terrivelmente enganado. Provavelmente, é vítima da propaganda que quer acabar com a escola pública.


O senhor vem falar de como cuidar de um campo de flores e eu vou falar-lhe de professores num quase teatro de guerra cuja tarefa primordial é sobreviver e tentar salvar da barbárie o maior número possível de crianças e jovens.

Na verdade, a ignorância que o senhor revela ao falar dos professores da escola pública é tão desproporcionada que não me posso calar. E explico-lhe porquê.

Primeiro, porque se os seus filhos e a sua família ainda conseguem andar nas ruas em relativa segurança é porque a escola pública e os seus docentes e funcionários recebem e tentam também educar reais e potenciais delinquentes.

Segundo, porque o senhor não sabe o que é ter o seu carro incendiado; não sabe o que é ser insultado e ameaçado diariamente, física e psiquicamente; não sabe o que é chegar a levar uns valentes pontapés e bofetadas; não sabe o que é ter alunos seus (que podiam ser os seus filhos) a serem enviados para o hospital, uns em coma, outros nem tanto, perante a impotência dos professores; não sabe o que é chamar em desespero a polícia e esta não poder vir porque está ocupada noutras escolas com acontecimentos similares. Que fique registado que isto é apenas uma pequena amostra de acontecimentos que foram testemunhados por mim.

E já agora, deixe-me que lhe diga que o senhor também não sabe, não pode saber, o que é sentir o orgulho de ter alunos com Necessidades Educativas Especiais em quase todas as turmas, miúdos e miúdas, muitos dos quais são expulsos ou cuja entrada é recusada por escolas privadas. Sim, repito, por escolas privadas.

Apesar de eu ter conseguido sair desse inferno (sem nada nas mãos e tendo que começar toda uma nova vida), nunca deixarei de estar ao lado dessas centenas e milhares de professores (na verdade, professoras na sua maioria), a fazerem diariamente das tripas coração e a trabalharem nestas martirizadas escolas públicas, sabendo esses professores que jamais obterão da sociedade o reconhecimento, e muito menos a gratidão, que merecem.

Tendo, ainda por cima, de ouvir pessoas, como o senhor, que estão convencidas de que sabem tudo e que na verdade pouco ou nada sabem do que criticam.

quinta-feira, agosto 04, 2011

Sistema de avaliação, agora nas universidades

Não consigo entender como é que um sistema de avaliação:

a) baseado na competição pode dar origem a trabalhadores mais preocupados com o serviço público. Como pode um funcionário público, ou um professor, habituado a atender diariamente aos factores que condicionam a sua própria carreira, a tratar do seu próprio benefício em detrimento dos outros, como pode ele, por uma transmutação mágica de personalidade, passar a empenhar as suas forças na execução do bem público, isto é, do bem dos outros?

b) baseado num sistema de recompensas externas (pontos, notas, passagens de escalão, etc) pode criar melhores trabalhadores. Sabe-se que a recompensa externa destrói a motivação interior (Ryan & Deci, 2000), pelo que a sua utilização deve ser sempre evitada. Contra a evidência científica espera-se que, com tal sistema, os funcionários públicos ou os professores se sintam autonomamente motivados para terem um bom desempenho e espírito de entreajuda.

Já começo a entender quando me apercebo que, por detrás de tudo isto, está apenas uma questão de poder, simplesmente uma questão de mais poder para os poderosos. Este sistema, na verdade, apenas promove o funcionário egoísta, nada solidário com os colegas, completamente indiferente ao bem público e, principal e fundamentalmente, obediente e submisso aos seus superiores.

Assim, tudo se torna claro.

segunda-feira, maio 09, 2011

Ler aos 16, carreira profissional melhor aos 33

Uma investigação recente veio revelar que a única actividade extracurricular de adolescentes com 16 anos com efeitos benéficos na sua carreira profissional é a leitura de livros, tanto para rapazes como para raparigas.

Outras actividades típicas dos 16 anos: fazer desporto, socializar, ir a museus ou a galerias ou ao cinema ou a concertos, ou quaisquer outras actividades (desde cozinhar até costurar). Que efeitos na futura carreira profissional? Nada de significativo.

E quanto aos jogos de computador? Reduzem as chances de chegar à Universidade. Pelo contrário, ler livros já implica uma maior probabilidade.

Explicações possíveis: características únicas ligadas à leitura por prazer; empregadores preferirem contratar pessoas com nível de literacia semelhante ao seu; ou então simplesmente porque adolescentes já destinados a uma melhor carreira profissional tendem a ler mais.

(University of Oxford (2011, May 9). Reading at 16 linked to better job prospects. ScienceDaily. Retrieved May 9, 2011, from http://www.sciencedaily.com­ /releases/2011/05/110504150539.htm)

domingo, fevereiro 20, 2011

Consideração... mais um exemplo

Tenho dito que sou mais bem tratado no privado do que no público.
Esta semana, no centro de explicações. Uma explicanda nova:
"Setôr, podia ..."
Interrupção imediata por uma outra miúda:
"Não é setôr, é professor!"
"Então, não é a mesma coisa!?"
"Aqui, não!"

quarta-feira, setembro 15, 2010

Vergílio Ferreira - Ser Professor

A relação de Vergílio Ferreira com o ensino é uma relação de prisão, de sofrimento, de inconformismo com tudo o que é menor na Educação.

A única coisa que alivia este "peso", esta "condenação", "chatice", "degradação", "afrontosa invasão de uma vida que me nega", etc, etc, é o bom aluno: o que sente apetência pelo saber, o que tem disponibilidade dentro de si para apreciar esse saber, o que trabalha e se esforça por obter um acesso priviligiado ao núcleo, à essência desse saber.

Hoje ainda há alguns, poucos é certo, bons alunos. Mas, tirando em algumas escolas bafejadas pela sorte, a sua voz e a sua presença encontram-se abafadas em turmas onde, por imposição de sucessivos governos, a selvajaria se tem vindo a impôr cada vez mais.

Hoje Vergílio Ferreira ou não aguentaria ou nunca seria o Vergílio Ferreira que foi...

Para mim, este (Vergílio Ferreira - O Excesso da Arte num Professor por Defeito ) é um livro triste.

Fez-me lembrar outros tempos onde se podia imaginar ser o outro professor que Vergílio Ferreira invoca, por oposição ao desautorizado mensageiro, burocrata programado do saber e escravo de horários embrutecedores, em que o docente de hoje se tornou.

terça-feira, setembro 07, 2010

Vergílio Ferreira e o professor "pau para toda a obra"

Vergílio Ferreira escreveu o que se segue em 1942 (os parágrafos e os negritos são da minha responsabilidade):

"À força de voltar os olhos para a criança, esqueceu-se um pouco que o professor também existe.
Ora, se o sujeito que recebe o ensino deve ser considerado antes de mais nada, não é menos verdade que o ensino é, apesar de tudo, uma relação e que se devem encarar os dois termos dessa relação.
Além disso não se deve ter a ficçao do professor "apto para tudo". Ele tem, também, a sua individualidade.
O professor deve perguntar a si mesmo: como vou organizar o meu ensino de maneira a utilizar o melhor possível as minhas aptidões particulares?
Porque há, entre os mestres, todas as variedades: espíritos concretos, abstractos, há os que têm uma eloquência segura, os que a têm hesitante, científicas, literárias, etc.
E nem sempre se está bem adaptado ao género de ensino exigido. Eis porque é preciso encarar também o problema da individualização do ensino, a formação dos mestres. Haveria muitas reformas a fazer. [...]
O conhecimento mesmo perfeito da teoria metodológica não pode por si só assegurar a perfeição do professor, da mesma forma que a ciência médica, só, não faz os bons médicos. [...]
Porque a pedagogia, dissemo-lo ao começar e repetimo-lo ao acabar, não é somente uma ciência, mas também uma arte. E a arte é um dom fino, delicado, mas incomunicável."

A actualidade deste texto torna-o muito adequado ao ano lectivo que se inicia. Há também que reconhecer o pensador profundo e extraordinariamente lúcido que Vergílio Ferreira foi. E podemos lembrar-nos que este texto ganha novos sentidos sabendo como hoje não se liga à necessidade do saber científico do professor e, por consequência, não se tem pejo em afirmar que um professor já o não é de um saber, mas de variados e múltiplos (nem interessa bem quais, desde que se possa pô-lo a fazer qualquer coisa).

(Maria Almira Soares, Vergílio Ferreira - O Excesso da Arte num Professor por Defeito, Difel, Lisboa, 2010 pp. 115/116)

quarta-feira, setembro 01, 2010

Ferida

Dia 1 de Setembro. Início do ano lectivo nas escolas. Vou-me distanciando a pouco e pouco. Mas muito pouco.


A minha decisão de abandonar uma carreira de 24 anos de professor, ditada por um conjunto esmagador de condições, nomeadamente,

- impedirem-me de ensinar o que sei;

- obrigarem-me a ensinar o que não sei;

- recusarem-me a formação necessária à adaptação;

- submeterem-me a uma avaliação rigorosamente pormenorizada nestas condições;

- estar sujeito a todo o tipo de indignidades (palavrões, insultos, ameaças e agressões);

- ser objecto de desprezo de toda uma sociedade, a começar no governo e a acabar nos alunos;

- sentir-me impotente face à arbitrariedade e à tirania (Não sou só eu. E ainda continua actualmente. Recordo as palavras do Provedor de Justiça: "Perante a insuficiente resposta da Ministra da Educação, considerou o provedor de justiça, (...), não poder haver lugar a outra intervenção útil", informa. Por isso, o processo foi arquivado., Público, 13/8/2010);

- ser suposto eu ter de obedecer a regras e a leis criminosamente absurdas (como, por exemplo, as que me impedem de proteger , cuidar e ajudar os alunos mais fracos e vulneráveis),

abriram uma ferida que eu acho que nunca conseguirei vir a fechar.

domingo, agosto 22, 2010

Explicação da história triste de uma (quase) revolta

A primeira greve de professores da era Sócrates/Lurdes teve uma adesão ínfima. Foi uma informação preciosa para estes governantes, pois ficaram a saber que tudo lhes era permitido, que tudo se poderia fazer e dizer dos professores, que tudo se poderia pôr os professores a fazer. Mas desde que não se tocasse no ordenado destes (por mais baixo e sem evolução que eles o pusessem) e, consequentemente, na segurança e no futuro das suas famílias.

Os professores impunham, no entanto, uma condição que aqueles responsáveis não tiveram a sensibilidade de perceber. Essa condição era que não os responsabilizassem, de facto, pelos actos que executariam em obediência às fantasias delirantes desses mesmos governantes.

Animados pela apatia dos professores e depois de terem congelado ordenados, aumentado brutalmente o horário de trabalho na escola, destruído a carreira docente, Sócrates e Lurdes vão tentar impor-lhes um sistema de avaliação muito mais exigente. Isto é, um sistema que obriga os docentes a responsabilizarem-se e a serem responsabilizados por esses mesmos actos que ficaram obrigados a executar.

É nesta altura, e apenas nesta altura, que a contestação dos professores explode: executar actos que vão contra toda a sensibilidade ética e todo o bom senso era uma coisa; outra, completamente diferente, era tornar os professores responsáveis por esses mesmos actos. Na verdade, se até aí todas as medidas tomadas não fizeram mais do que agitar levemente a grande massa dos docentes, é com este sistema de avaliação absurdo (que, por exemplo, em cada ano obriga a dar mais notas positivas do que no ano anterior) que surge a revolta generalizada que, aliás, vai procurar pôr, tardiamente, tudo em causa.

Numa sociedade sem valores, sem solidariedade, fraca, individualista, realmente a única fidelidade que ainda sobra (sendo, de facto, a mais invocada por todos os que recuaram na luta que se seguiu, incluindo pelos dirigentes sindicais que traíram colegas e sindicatos) é a que se refere à sua própria família.

Trair, mentir, fechar os olhos, falsificar resultados, etc., não constituem (ainda, pelo menos) uma segunda natureza de pessoas que, até pelo tipo de profissão que abraçaram, são habitualmente honestas e verdadeiras. Tornaram-se, no entanto, numa competência profissional, afinada e posta em jogo nas escolas com eficácia por pressão dos governantes. Que manipulam os docentes jogando subliminarmente com esse reduto sagrado para a generalidade das pessoas que é a protecção da família.

E quase todos caíram nesta armadilha perversa: eu testemunhei casos de, como já disse, dirigentes sindicais, mas também de conselhos directivos (recordo que bastou um, um Conselho Directivo apresentar a sua demissão para Lurdes vir, assustada, para os jornais dizer que tinha sido mal interpretada), de docentes em topo de carreira, tudo pessoas que pouco teriam a temer. Mas que, apesar disso, também eles optaram por abandonar a luta. Em nome da segurança familiar.

Nota final. Onde me situo eu nesta triste história? Exactamente no meio. Esta também foi a minha experiência. Apesar de fazer todas as greves, de ir a todas as manifestações, eu também fui engolindo até à náusea tudo o que o par Sócrates/Lurdes foi-nos obrigando a fazer (incluindo concorrer e tornar-me professor "titular"). A minha revolta também só nasceu com a tentativa de imposição daquele sistema de avaliação. A única pequena (digo-o com vergonha e sem ironia) diferença é que levei a luta até ao fim, bati-me inclusivamente pela sua radicalização (defendi que ela deveria começar por incluir greves da fome), mas acabei por, não sei bem... fugir?, recusar-me a ser cúmplice comprado? Talvez ambas as coisas.

segunda-feira, julho 12, 2010

Ser melhor

Houve um tempo em que se pensou que a ausência de frustração e a recusa de impor interditos à educação dos mais novos seriam os grandes meios para educar em liberdade. Não é verdade. Ao fazê-lo recusámos a possibilidade de os mais jovens crescerem afirmando a sua identidade, face à imperfeição que os constrangia. Em vez disso, demos-lhes (continuamos a dar) o vazio, apenas preenchido por milhões de palavras e de imagens que nada significam pois não representam substância nenhuma.

Acredito que, em face disto, a nossa cultura está a estagnar e a diluir-se nesse enorme vazio em que mergulhámos os jovens. Eu sei que parece que há uma grande actividade cultural, mas são fogos fátuos, porque nada do que é dito, escrito ou feito parece ter consequências ou perdurar no tempo ou no espaço. Nem pode ter porque toda a actividade cultural que pretenda manter viva a cultura terá de se realizar pela subversão, pelo questionamento. E estes conseguem-se, não pela destruição do que existe, não (apenas) pela construção da diferença, mas sim pela invenção e pela criação do melhor.

Penso, portanto, que tem de de se tentar conseguir melhor, de se tentar ser melhor, porque só assim a cultura evolui e se fortalece. A educação de hoje não apela, não espera, não exige o melhor: não admira assim que a cópia esteja a espalhar-se por todos os sectores da sociedade, desde o mais obscuro aluno de uma qualquer escola até ao mais reputado comentador com coluna de opinião num qualquer meio de comunicação social. Queremos ser como os outros, ou, mais raramente, queremos ser o contrário dos outros, o que vem a dar no mesmo. Seja o que for, queremos é todos parecer, não desejamos ser o que nós somos realmente. Nem desejamos saber como podemos aí ser únicos, portanto, os melhores. E, se estiver na nossa mão, não deixamos que alguém queira isso. Tornámo-nos, por consequência, inférteis: onde estão os grandes pensadores, os grandes criadores de ideias fecundas de futuro? Existirão algures? Ou foram eliminados, dissolvidos por esta educação asfixiante e estéril?

Hoje, ao contrário do que querem fazer crer às crianças e jovens, é bem mais difícil criar o nosso próprio lugar de crescimento para atingirmos o melhor de nós próprios (mas é mais fácil do que em épocas passadas). Está-se só nesse esforço. À nossa volta tudo nos empurra para a miséria e para a mediocridade (não admira que continuemos a ter um quinto da população na pobreza). A verdade é que não vale a pena voltarmo-nos para o mundo, para a sociedade a pedir ajuda: ela nunca chegará.

Em suma, só connosco próprios podemos contar para criar esse lugar onde possamos conquistar a excelência do nosso ser.
E conseguir alguma coisa de valor, para nós e para a nossa sociedade.

quarta-feira, junho 16, 2010

Exame de Língua Portuguesa... e não só

Hoje foi o exame de Língua Portuguesa.
Desde há pouco mais de uma semana que este exame também passou a fazer parte das minhas preocupações.
A professora de Português foi despedida (por razões que não vêm aqui ao caso), tendo os alunos e respectivos pais pedido para que eu ficasse responsável também pela preparação para este exame (a verdade é que começou a espalhar-se no centro que eu seria uma espécie de taumaturgo dos aflitos, fosse qual fosse a disciplina, o que é um absurdo).

Interessa-me, no entanto, abordar aqui o seguinte:
É dificil fazer uma comparação entre as diferentes disciplinas que fazem parte do currículo do ensino básico e secundário. É difícil, mas possível para quem tenha leccionado ou apoiado alunos a todas aquelas disciplinas. Tirando as Ciências Físico-Químicas, eu estou nessa situação: sem experiência anterior nenhuma tive, este ano, que preparar explicações e apoios a quase todas as disciplinas.
E a verdade é que, na minha opinião, há um grande fosso entre a Matemática (e, possivelmente, as Físico-Químicas, não sei) e as restantes disciplinas, incluindo a Língua Portuguesa, que são muito mais fáceis do que aquela.
Fáceis quer em termos de conteúdos, quer também em termos do que é exigido aos alunos, quer ainda em termos do trabalho necessário para as ensinar.
Em suma, a minha sensibilidade é que o grau de dificuldade dos actuais currículos de Matemática não tem paralelo com o dos de qualquer outra disciplina (com a possível excepção das CFQ, como já referi anteriormente).