Mostrar mensagens com a etiqueta Relações Humanas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Relações Humanas. Mostrar todas as mensagens

domingo, maio 28, 2023

Crianças discriminadas como seres não humanos

 

(Booking.com, página consultada em 20-05-2023)

Vi as fotos que uma amiga publicou de uma quinta no Douro. Fiquei com vontade de dar um mergulho naquela piscina. Procurei pelo nome, "não aceitamos crianças". Foi na mesma semana em que o B. me falou de um lugar incrível que havia no Algarve, "não aceitamos crianças com menos de cinco anos", avisava esta unidade hoteleira. Pensei fazer uma lista de todos estes nomes onde, se não aceitam o meu filho, também não me aceitam a mim. Depois, percebi que isto de ter espaços childfree - livres de crianças - está a alastrar. Há quem faça convites de casamento "só para adultos". Por mais que perceba que as crianças podem ser barulhentas, foram os adultos quem sempre me incomodaram. Fazerem das crianças um filtro na pesquisa de alojamento é muito discutível. Daqui a pouco, temos filtros para encontrar hotéis "gordosfree", "velhosfree", "mulheresfree"...

(Joana Almeida Silva, JN de 27-05-2023)

-

Um mundo, qualquer mundo, sem crianças é um mundo onde a morte começa a instalar os seus arraiais. As crianças simbolizam o início, a renovação, a inocência e, acima de tudo, a alegria. Bem tristes devem ser as pessoas que não conseguem ver isto para além das birras e de outros comportamentos. Que são sempre, mas sempre, sempre, muito menos graves do que a selvajaria (ver parágrafo a seguir) de que os adultos são capazes (e que praticam, sim, claro, em todos os lados incluindo nesses lugares que proíbem a presença de crianças).

-

Jornal de Notícias de 04-06-2023:


Bárbaro homicídio de criança de três anos à pancada e com torturas (...)

A semana de 14 a 20 de junho em que Jéssica esteve em cativeiro na casa dos homicidas, no Beco do Pinhana, foi de terror para a menina. Agredida de forma brutal, foi-lhe atirado um líquido abrasivo para a cara que a desfigurou e foi usada para tráfico de droga. A autópsia identificou 125 ferimentos no seu corpo (ver texto ao lado). Colocaram-lhe até cocaína à força dentro do corpo.

(...)

Em seis páginas do relatório da autópsia que consta na acusação aos alegados homicidas de Jéssica, o Ministério Público (MP) aponta 125 golpes no corpo da menina, incluindo o derrame de um produto abrasivo na face que lhe removeu por completo a pele do nariz e buço. Só na cabeça, são 25 os golpes, outros 60 nos braços e pernas, 30 no peito, seis no abdómen e cinco na zona genital.

Cristina e os filhos desta, Eduardo (o único em liberdade) e Esmeralda, de acordo com o MP, na semana de 14 a 20 de junho, utilizaram a menina como "mula" de droga e violaram-na, introduzindo-lhe cocaína no ânus, numa viagem entre Leiria e Setúbal.

(...)

Em maio, a menina já tinha sido entregue aos raptores durante dois dias por causa de uma primeira dívida de Inês por um serviço de bruxaria no valor de 100 euros. Ela conseguiu pagar, mas quando Jéssica lhe foi devolvida, estava tão maltratada e ferida, que "apenas se alimentou de líquidos durante uma semana", pode ler-se na acusação. Isso não impediu que, a 14 de junho, Inês a entregasse de novo. Desta vez, não sobreviveu.

Estas unidades hoteleiras receberiam estes adultos sem problemas, mas recusariam admitir a criança...

-

Revolta sempre que se fazem generalizações abusivas a partir de uma minoria de casos. Porque a esmagadora maioria das crianças, na esmagadora maioria do tempo, porta-se bem – e eu sei do que falo, pois fui professor durante a maior parte da minha vida profissional (e não foi em escolas de elite!). Revolta, principalmente, que haja hotéis (sim, no Algarve também) que anunciam “Não são permitidas crianças”, como se se tratasse de animais e não de seres humanos.

E acima de tudo, dói que este tipo de discriminação não suscite uma revolta generalizada. Se fosse qualquer outro grupo da população, vulnerável e sem voz, o escândalo seria enorme. Com as crianças, acha-se natural.

domingo, agosto 01, 2021

O que (NÃO) fazer quando discordamos de uma lei

 


Artº 16 da Resolução do Conselho de Ministros n.º 101-A/2021:

«3 - Aos sábados, domingos e feriados, bem como às sextas-feiras a partir das 19:00 h, o funcionamento de estabelecimentos de restauração ao abrigo do número anterior, para efeitos de serviço de refeições no interior do estabelecimento, apenas é permitido para os clientes que apresentem Certificado Digital COVID da UE admitido nos termos do Decreto-Lei n.º 54-A/2021, de 25 de junho, ou sejam portadores de um teste com resultado negativo, realizado nos termos do artigo 8.º»

Ou seja, os clientes têm de apresentar o certificado, se quiserem ser servidos. Caso contrário, os empregados não podem servi-los. Não são os empregados que o exigem, é a lei. 

O que fazer, se não concordamos com a lei? Escrever cartas para os jornais, para os sites do Governo, para o Provedor de Justiça, para os deputados da região, etc., com o máximo de assinaturas possíveis, incluindo nelas autoridades reconhecidas. Não sei se podemos fazer muito mais…

Mas o que sei é que O QUE NÃO DEVEMOS FAZER é reclamar junto dos empregados; fazê-lo é pormo-nos no papel daquele “tuga” que pede uma “cunha” para contornar a lei em seu benefício. MUITO MENOS, devemos zangar-nos com os empregados ou com os donos do estabelecimento, porque isso é um pouco como aquele marido que chega a casa e bate na mulher e nos filhos porque o patrão o prejudicou.

sábado, julho 10, 2021

Desconvencer um teórico da conspiração

 


Surgem consequências terríveis quando começa a existir, numa determinada população, uma maioria de crentes numa teoria da conspiração. Por isso, ignorar ou menosprezar estas pessoas não é solução.


Quais as razões que levam alguém a acreditar numa teoria da conspiração?

Para satisfazer a necessidade de verdade, clareza e certeza num mundo em que tudo é cada vez mais fluído e vago.

Mas também para sentir alguma segurança e domínio numa sociedade em que as pessoas sentem ter cada vez menos controlo sobre a sua própria vida e isso se tornou assustador. 

E para satisfazer a necessidade de autoestima através da pertença a um grupo (o dos crentes) que é muito solidário entre si.

Além disto, estes crentes sentem-se especiais por perceberem tudo o que os outros não estão sequer a ver.

Constitui também um tipo alternativo de ativismo político para aqueles que não encontram outra forma de o praticar.

São pessoas com um baixo nível de pensamento crítico e que acreditam que a intuição é a forma mais direta e fiável de chegar à verdade. Por isso, tentar mudar o seu pensamento através de argumentos lógicos é mais ou menos inútil porque elas não os valorizam. Até porque estas teorias têm a característica de absorverem qualquer refutação lógica e razoável, transformando esta num novo argumento para suportar a teoria original.


A melhor maneira de evitar a disseminação de teorias da conspiração é combatê-las antes de criarem raízes. Depois disso, é muito difícil desalojá-las, como se vê pelo movimento QAnon nos EUA.

É difícil inclusivamente porque já de si todo o ser humano tem tendência para selecionar, interpretar e aceitar informação (verdadeira ou falsa, não interessa) que confirme as suas opiniões, e para menosprezar toda a informação que as pode contradizer – dá-se a esta predisposição o nome de Viés da Confirmação (veja-se em particular o fenómeno da perseverança de crenças).

Assim, é preciso educar preventivamente as pessoas para o pensamento crítico e para saberem lidar com a informação (principalmente, como detetar a falsa). Aqui, o papel tanto dos pais como da escola (incluindo a universidade) é insubstituível. Aliás, os currículos escolares e os respetivos exames não deveriam sequer privilegiar a aquisição acrítica de conhecimento, baseada por exemplo apenas em argumentos de autoridade.


A melhor forma de lidar com as pessoas que já acreditam mesmo numa teoria da conspiração é empatizar com elas. É provável que elas estejam a sentir medo e ansiedade, que estejam zangadas com os políticos, que se sintam frágeis e vulneráveis e, ao mesmo tempo, confusas e preocupadas. Por isso, hostilizá-las, ridicularizá-las ou fazê-las sentirem-se ainda mais inseguras não é uma tática que resulte.

É bem melhor explorar com elas estas emoções, tentando saber e perceber o que as provoca, mas sempre com uma atitude de abertura e de aceitação (lembremo-nos que nós podíamos estar naquela situação – bom, verdade seja dita, muitas vezes estamos! Quem nunca acreditou numa conspiração, por mais pequena que fosse?).

Na verdade, se falarmos com um crente numa teoria da conspiração, mostrando recetividade às suas opiniões e crenças, torna-se menos difícil conseguirmos persuadi-lo do erro. Por isso, convém sentirmo-nos efetivamente recetivos e mostrá-lo claramente. Por exemplo, deixando a outra pessoa desabafar e, depois, usar frases simples que não denotem dúvida, mas um genuíno interesse em compreender, como “Se eu estou a entender bem, tu achas que…/tu estás a dizer que…” Mesmo que não chegue a persuadir, esta atitude mantém, pelo menos, as vias de comunicação abertas e a relação amigável.


Uma outra via é ajudarmos a pessoa a reestabelecer um sentido pessoal de controlo sobre a sua vida. Neste caso, é crucial o papel das chefias nos locais de trabalho ou dos pais em casa.

Às vezes, é uma boa contribuição para esse fim levar a pessoa a recordar alturas da sua vida em que esteve com um bom controlo sobre a sua própria vida. Ou ajudá-la a ver que continua a ter esse controlo atualmente, e a sentir-se bem com isso.


Finalmente, um dos fatores por detrás da atração que as teorias da conspiração exercem sobre as pessoas é que elas proporcionam uma história atrativa, simples e emocionante, com elevado poder explicativo. Se conseguirmos contrapor uma outra história mais realista, mas com atributos semelhantes, torna-se mais fácil a nossa tarefa de desalojar a crença.


Claro que nada disto tem resultados seguros. Especificamente, há pessoas com uma crença tão forte que acaba por não ser possível trazê-las à razão. Temos de saber aceitar este facto com equanimidade; até porque também precisamos de cuidar de nós próprios a fim de não ficarmos desgastados ou desanimados perante a rigidez e a alienação destas pessoas.

-----------

Para quem quiser aprofundar este tema, sobretudo para quem deseja ter acesso aos estudos científicos realizados nesta área, pode consultar o artigo How Should You Talk To A Loved One Who Believes In Conspiracy Theories?, no qual me baseei para construir a presente publicação.

Para quem pretender estender os seus conhecimentos ao mundo mais geral das “fake news”, pode aceder ao site Lusa: Combate às Fake News – Uma Questão Democrática. Aqui pode encontrar muita informação e muitos recursos, nomeadamente jogos e formação (Curso Cidadão Ciberinformado) gratuitos.

quinta-feira, junho 17, 2021

Onde estão as crianças?

 
(Foto de Basileia, de Raquel Varela)

Em Portugal, o planeamento urbanístico não atribui direito de cidadania às crianças para poderem habitar os espaços públicos, elas com os companheiros ou também juntamente com os adultos. Assim, o planeamento urbano e a respetiva construção raramente contemplam espaços comuns para as crianças conviverem e brincarem confortavelmente e em segurança.

Há, evidentemente, algumas exceções muito esporádicas, principalmente nas urbanizações de luxo, mas mesmo assim só em algumas. E obviamente que não estou a falar de alguns "cercados" apelidados de "parques infantis" que só pelas cores usadas se distinguem de espaços idênticos construídos para cães (estes normalmente até têm mais espaço para correr e saltar).

Ou seja, as crianças em Portugal não são vistas como sujeitos dignos de habitarem a polis com os mesmos direitos dos adultos. Eu, aliás, reduziria a frase anterior para: as crianças não são para serem vistas, ponto final! Que fiquem, pois, confinadas nas escolas e nas casas (há muitos anos que elas andam em confinamento, não foi preciso aparecer a Covid-19)!

Mas não só as crianças mais crescidas. Quem já teve bebés e os quis passear com um carrinho sabe bem a dificuldade que é fazê-lo com comodidade e segurança. É que a rua parece pertencer, acima de tudo, ao carro, à mota e ao camião.

A ideia de cidade como lugar onde se forma e convive uma comunidade é algo que está muito ausente dos planificadores urbanísticos (gente que parece não ter uma centelha de alegria e de afeto pelas pessoas, vendo apenas cifrões à sua volta).

Assim, caminhamos pelas ruas e, pergunto, quando foi a última vez que vimos uma criança?

-

Nota: A propósito deste mesmo assunto, escrevi o poema Perdemos as crianças.


quinta-feira, junho 10, 2021

Como @s alun@s ficam fortemente motivados para aprender

 


(...) A criança só pode aprender se primeiro sentir e o sentir refere-se a tudo o que é actividade emocional, jogo, pintura ou canto. A emoção está na base de toda a aprendizagem; a criança aprende quando o seu interesse é suscitado afectivamente ou sentimentalmente pelos problemas (...)

Cada matéria tem a sua linguagem própria e o uso judicioso dos símbolos exige, em regra, uma fase preparatória de iniciação, com carácter lúdico. [Mesmo com adultos, acrescento eu!]

João dos Santos (1991). Ensaios sobre Educação - I - A Criança quem é?. Lisboa: Livros Horizonte. p. 24 e 27

-

Dos meus anos de professor, o que eu concluí é que os alunos aprendem entusiasticamente as matérias mais exigentes se, nas aulas, ocorrerem pelo menos estas três condições:

  • O professor mostra na aula, pelo seu comportamento e pelas atividades que planeou para aqueles alunos específicos, que sente que a matéria que ensina é absolutamente apaixonante (e até é, mesmo na minha disciplina que era a Matemática do 3º ciclo e secundário; o professor só precisa diariamente de tempo para o descobrir, e redescobrir, ano após ano – tempo esse que lhe foi completamente roubado desde o governo PS/Sócrates).
  • O aluno gosta da matéria ensinada porque ela lhe diz qualquer coisa e porque (muito importante!) o desafia pessoalmente para algo que ele prevê não só que o vai divertir, mas também fazê-lo sentir-se melhor, quer dizer, mais autónomo, mais competente e mais conectado não só com a matéria que está a aprender, mas também com o mundo em geral. Mais uma vez, para conseguir isto, o professor precisa de tempo (que lhe tiraram).
  • O aluno sente que o professor gosta dele genuinamente, acredita nele e admira-o, seja nos seus esforços, seja nas suas dúvidas e perguntas, seja na sua evolução, seja nas suas realizações (todos estes aspetos são importantes).

Satisfeitas estas três condições, os alunos, todos os alunos, adoram as aulas por mais exigentes que sejam, todos estudam e, felizmente, a maioria adquire o gosto de o fazer.

-

Já agora, sem o professor precisar de mandar trabalhos para casa. Por duas razões. A primeira é que, na escola onde eu estava, uma grande parte dos alunos não os fazia. Resultado? Corrigi-los na aula era uma maçada para os que o tinham feito e uma maçada para os que não o tinham feito, ou seja, uma perda de tempo que, sem o tpc a atravancar, eu ocupava de forma muito, mas mesmo muito mais útil. A segunda razão é que os miúdos iam tão carregados de trabalhos para casa que nem tempo lhes ficava para brincarem. Assim, preferi apostar em desenvolver neles o gosto pela matemática porque isso os fazia estudar a matéria com muito mais interesse e empenho do que a técnica dos trabalhos de casa.

-

Por outras palavras, o que eu quero dizer, no fundo, é que, nestas discussões sobre educação, se centra habitualmente a atenção na parte cognitiva da aprendizagem, esquecendo aquela que é a verdadeiramente determinante, aquela que decide de tudo, que é a afetiva.

-

Claro que é muito difícil plasmar num texto curto toda uma experiência de anos e de aulas.

Saliento que não defendo fazer da aula um lugar de brincadeira (no 3º ciclo e secundário, pois no 1º ciclo, por exemplo, a situação esta questão tem de ser abordada de forma radicalmente diferente). Mas, no entanto, acho que o jogo (este entendido no sentido lato do termo, não de jogos concretos; não, pelo menos no 3º ciclo e secundário de Matemática, que é a minha experiência; penso que será diferente nos 1º e 2º ciclos) é uma das múltiplas componentes de uma aula bem-sucedida, disso não tenho dúvidas nenhumas. Esclareço que falo de bem-sucedida a incluir o sucesso nos exames nacionais (avaliação independente, portanto, do professor em questão).

Dou um exemplo específico. Ao iniciar a matéria de Simetria no 3º ciclo, eu punha o seguinte desafio, para ser resolvido individualmente e em pequenos grupos: “Que palavras se podem construir de modo a terem uma simetria vertical?” Um exemplo de resposta é “ovo”, que não só tem um eixo de simetria vertical a meio da palavra, como ela é simétrica de si própria.

Com este desafio (que não consumia mais do que uns 15 minutos de aula), os alunos ficavam a perceber muitíssimo melhor o conceito de simetria, cuja formalização eu fazia a seguir. Escolhi este exemplo porque, na minha vida de professor, sempre foi a atividade mais espetacular de todas: não havia aluno nenhum, mas mesmo nenhum, que não se interessasse e que não se envolvesse (repare-se, Matemática e Português, os terrores de muitos alunos).

Além disso, eu dizia-lhes que havia uma maneira simples de encontrar as respostas. E, aqui, eu estimulava-os a abordarem este desafio de uma forma inteligente, ensinando-os a resolver problemas. Nota: tratava-se de descobrir primeiro as letras simétricas e, depois, construir palavras com elas - muito mais simples do que andar à procura das palavras em primeiro lugar.

-

Voltando à minha ideia principal. Com António Damásio («Biologicamente, houve uma sequência: de seres simples que nem sequer tinham emoções a seres mais complexos em que aparecem as emoções e, depois, seres em que aparece a possibilidade dos factos e da razão. Mas não é possível ter seres que têm unicamente razão sem terem um aspecto subjacente, que é o dos afectos.») pude ver confirmada pela ciência uma ideia que já tinha sido desenvolvida anteriormente por outros pensadores: é que a emoção vem primeiro e a consciência vem depois. Quase sempre e, principalmente, nas crianças. Porquê?

Porque o seu cérebro está em formação até cerca dos 25 anos («It is well established that the brain undergoes a “rewiring” process that is not complete until approximately 25 years of age. (...) The fact that brain development is not complete until near the age of 25 years refers specifically to the development of the prefrontal cortex.»*)

Essa formação começa com as estruturas mais primitivas, ou seja, as que estão mais ligadas às emoções. Principalmente, as que são responsáveis pelas relações sociais porque estas são fundamentais para a sobrevivência da criança nos seus primeiros tempos de vida. Portanto, tudo começa no relacionamento social. O resto vem depois, sobre essas emoções chamemos-lhes sociais.

Assim, eu acredito que o princípio de uma educação (que inclui a transmissão exigente e rigorosa de conhecimentos) está de facto na relação social afetiva com o professor. Mais uma vez, afeto entendido de uma forma lata, isto é, não de apenas simpatizar com o professor só porque “ele é um tipo fixe”. Embora, também mais uma vez, esta faceta seja uma das componentes importantes, porque é uma das bases para uma relação de confiança mútua, permitindo que o aluno esteja mais aberto e pronto a aceitar e a envolver-se em todas as propostas (conhecimentos e o resto de que falei no comentário que fiz anteriormente) que o professor trouxer para a aula.

-

Antes de terminar, gostaria ainda de acentuar que alguns mal-entendidos, que surgem nas discussões sobre educação, nascem do facto de não se especificar a que níveis de ensino se referem os argumentos trocados. Explico-me melhor: 

Há uma grande diferença entre o nível universitário (onde, em princípio, o aluno está a estudar porque decidiu livremente que quer aprender mais sobre a área de conhecimento que o atrai) e os outros níveis de ensino em que ele está lá obrigado, não teve escolha ou teve pouca (e um alerta: genericamente, o ser humano não reage bem quando o obrigam de fora a fazer seja o que for… Em Psicologia, isto tem um nome: reatância psicológica).

Há uma diferença abissal entre o 1º ciclo e o secundário. Ou seja, aquilo que é sumamente infantil e regressivo (no sentido psicanalítico do termo) fazer com os jovens deste último nível de ensino da escolaridade obrigatória pode ser, no 1º ciclo, a forma mais adequada de induzir nas crianças o gosto pelo trabalho e pelo conhecimento.

-

* Arain et al (2013). Maturation of the adolescent brain. Neuropsychiatric Disease and Treatment 2013:9, 449–461

domingo, maio 16, 2021

Sobre o Assédio Sexual (artigo que talvez nunca deixe de estar em construção)

 


Há uma linha vermelha para o assédio que o distinga da sedução? Há. É quando uma das partes mostra inequivocamente que não quer e a outra continua a invadir o seu espaço íntimo. Há abuso? Há, quando, perante o não, a parte mais poderosa ameaça a outra e/ou se vinga dela. Há um verdadeiro crime de abuso? Há, quando ele é concretizado por via da força e da violência, principalmente quando há um grande diferencial de poder, por exemplo, no caso de um adulto na pessoa de uma criança.

Depois, há muitas situações menos claras. Por exemplo, entre duas crianças. Ou entre uma criança e um adolescente. Ou quando aquele que não quer sente um pavor tal que fica paralisado e não consegue sequer mostrar que não quer. Ou outras situações. Sejam elas quais forem, a prudência e a justiça mandam que talvez não devamos julgar a vítima (exceto se tivermos sido os juízes mandatados para o fazer).

 

Das muitas mulheres que amei a quem nunca cheguei a dizer ou sequer a mostrar que estava apaixonado, houve uma a quem, muitos anos depois, confessei o que tinha sentido. Ela exclamou: “Então, porque é que não disseste nada? É que eu também estava apaixonada por ti!”.

Naquela altura, esperava-se que fosse o homem a declarar-se. A mulher que o fizesse era bastante mal vista, principalmente se confessasse o seu desejo. Várias raparigas, frustradas perante a minha contenção (ainda por cima, eu era um bocado obtuso, não percebia se elas estavam ou não realmente interessadas em mim), perguntavam aos meus amigos da altura se eu era gay. Estes transmitiam-mo para ver se eu mudava de comportamento. Ora, eu tinha muito antes decidido não seguir esse código social, para grande perplexidade e incompreensão da parte delas (e deles também, diga-se a verdade). Portanto, não mudava, mas também não sabia como fazer de modo diferente (acrescento que essa decisão nasceu do terrível choque que foi para mim a leitura, em plena adolescência, do livro Escravatura Sexual, de Stephen Barlay). Creio que fui deste modo criando a pouco e pouco uma provável e errada reputação de homossexual.

Assim, por causa desta pressão social, na verdade, quantos homens poderão ser acusados de claro assédio sexual intencional e manipulador? De marialvismo, bastantes. De mulherengos, muitos. De incorretos, mal educados e boçais? Muitos mais do que seria de desejar. Mas alguém que não força, pergunta sempre, não constrange, não ameaça nem se vinga, estarei a ser injusto se puser a hipótese de que isso talvez não configure assédio sexual? Que aliás se define como:

Assédio sexual é todo o comportamento indesejado de caráter sexual, sob forma verbal, não verbal ou física, com o objetivo ou o efeito de perturbar ou constranger a pessoa, afetar a sua dignidade, ou de lhe criar um ambiente intimidativo, hostil, degradante, humilhante ou desestabilizador.


Alberto Caeiro

VIII - Num meio-dia de fim de Primavera

(…)

E, porque sabe que elas não gostam

E que toda a gente acha graça,

Corre atrás das raparigas

Que vão em ranchos pelas estradas

Com as bilhas às cabeças

E levanta-lhes as saias.

(…)

Este texto de Alberto Caeiro mostra como naquele tempo era considerado "engraçado" o levantar as saias às raparigas. Por isso, pergunto-me se haverá algum homem que possa dizer-se completamente inocente de assediar as mulheres? E, sendo assim, nós homens teremos algum direito ou alguma autoridade para dizer às mulheres os termos em que elas devem partilhar as suas queixas? Suponho que não.

Falando por mim, também eu levantei as saias a uma menina minha colega de turma uma vez, na escola primária (que era mista, algures entre 1966 e 1968) e lembro-me disso com uma nitidez que a imensa vergonha e mágoa que ainda hoje sinto mais acentuam. 

Depois de 1968 (ano em que entrei no 2º ciclo, mas agora numa escola já só com rapazes), algo deve ter acontecido, não me lembro do quê, porque comecei a defender as raparigas na rua de maus-tratos verbais e físicos (desde o simples molhá-las com pistolas de água no Carnaval até coisas mais graves). Podia fazê-lo porque eu tinha um físico possante e impunha respeito aos outros. Mas a tristeza e a vergonha que ainda hoje me assombram (lembro-me perfeitamente da rapariga a quem levantei as saias e do seu primeiro nome, bem como da forma aflita como reagiu), essas ficaram para sempre.


Às vezes, pergunto-me se os muçulmanos mais radicais não estarão, na sua sabedoria (se ela é válida ou não, é outra questão), a ver as coisas com uma lucidez que nos está a faltar a nós. O facto de obrigarem as mulheres a taparem a maior parte ou a totalidade do seu corpo para não excitar os impulsos selváticos dos homens, não estarão a demonstrar a visão que têm deles como primitivos subdesenvolvidos incapazes de autocontrolo?


Em suma, seja qual for o conteúdo e a forma da denúncia que for feita por uma mulher, o que eu sei é que, na dúvida, estou sempre do lado da vítima, do mais fraco, daquele que relata as coisas com mais incongruências (principalmente, se souber perfeitamente como não o fazer).

Conhecemos alguma mulher que não tenha nunca sido assediada sexualmente na rua? Portanto, quando as mulheres se queixam é provável que estejam a dizer a verdade. Eu, pelo menos, à partida respeito todos os seus testemunhos.

E também o que sei é que, nesta matéria que tem séculos, se não houver alguma violência da parte dos tradicionalmente fracos, nada mudará na relação de poder e de abuso.

Finalmente, sei que nesta e noutras áreas, se a mulher não se comportar como soldado perdido em território inimigo, na formulação feliz de Arturo Pérez-Reverte, é destroçada pelos homens (e pelas mulheres que se identificaram com os valores masculinos):

Não sei se todas as mulheres são assim, mas queria descrever uma mulher que é um soldado perdido em território inimigo. Creio que o último herói realmente romanesco que resta à cultura ocidental é a mulher. Reúne todas as características: tem de trilhar o mundo dos homens com regras feitas pelos homens; tem de ser tão ou mais eficaz que eles; os erros delas pagam-se mais caros do que os dos homens e, ao mesmo tempo, não deixa de ser mulher, de conservar toda a sua herança biológica, aquilo a que chamo «instinto de ninho».

sexta-feira, maio 07, 2021

Um filme sempre a ecoar em mim

 

Wrestling Ernest Hemingway conta a história de um beberrão e cortejador (Richard Harris), que tenta flirtar várias mulheres, incluindo de uma forma mais autêntica a sua senhoria (Shirley MacLaine) – que, aliás, não vai na conversa dele – e que tenta travar uma amizade difícil com um refugiado cubano (Robert Duvall) que ama suavemente uma empregada de restaurante (Sandra Bullock, num papel de uma inolvidável doçura que me fez ficar apaixonado por ela da primeira vez que vi o filme).

Porque é um dos filmes da minha vida? Talvez porque, neste filme, Randa Haines trata da velhice, da solidão, da amizade possível, de amores que nunca chegam a realizar-se, com um humor e uma leveza que quase me causa um soluço de angústia sempre que o revejo.

segunda-feira, setembro 25, 2017

Perguntaram-me ontem porque é que eu não escrevia mais no meu blog ou no Facebook. O meu primeiro ímpeto foi para responder que não tenho tido tempo. Mas imediatamente me senti envergonhado por esse impulso. É que precisamente ontem tinha lido a Carta 106 de Séneca a Lucílio, e que começa do seguinte modo:

«Se hoje levei mais tempo antes de responder à tua carta não foi porque as minhas ocupações mo impedissem. Não temas vir a ouvir-me dar uma desculpa destas! Eu tenho todo o vagar que quero, e, aliás, só não tem vagar quem não quer. Os afazeres não andam atrás de alguém: os homens é que se agarram aos afazeres, entendendo as suas ocupações como sinónimo de felicidade. (…)»
(Trad. de J. A. Segurado e Campos).

Ok. Vou então tentar escrever sobre o que vou lendo e aprendendo. Aliás, também para poder corresponder ao apelo de comunicar a ciência, presente no vídeo do post anterior. E, se possível, fá-lo-ei no sentido da “vocação de ser mais” de que Paulo Freire tanto falava.



segunda-feira, setembro 19, 2011

Confiar: um valor em défice

José Gil, no Jornal de Letras de 24 de Agosto de 2011:

O que eu lamento é a ausência de uma onda que possa captar essas energias, que por isso são desperdiçadas.
Nós somos bons em muitas áreas, mas actuamos como bolsas isoladas.
E isso não faz onda.
Não há comunidades.
É preciso que os muitos nichos em que somos bons, como na artes plásticas, música, dança, teatro, literatura, se cruzem e criem uma massa crítica que se mova por si própria.


Uma razão por que não há esse cruzamento (e muito menos um encontro, acrescento eu) não poderá residir no facto de ninguém confiar em ninguém? De todos sabermos que, por mais mérito que possamos ter, não haverá qualquer reconhecimento? A menos, claro, que pertençamos a um qualquer grupo que esteja próximo do poder?

Não será esta falta de confiança mútua que faz com que os realmente bons prefiram iniciativas solitárias, de modo a poderem concentrar-se no seu trabalho e a não terem que se dispersar por preocupações com políticas e intrigas?

sexta-feira, abril 22, 2011

Submissão... ao dinheiro!

«Então um dos Doze, chamado Judas Iscariotes, foi ter com os sumos sacerdotes e disse-lhes: 'Quanto me dareis, se eu vo-lo entregar?' Eles garantiram-lhe trinta moedas de prata.» - Mt 26, 14-15

(Bíblia Sagrada, Difusora Bíblica, 2002)


Abril de 2011

Pergunta-se às pessoas: «Para receber dinheiro, é capaz de aplicar choques eléctricos dolorosos a seres humanos?»

64% responde que jamais (o que significa que, apesar de tudo, mais de um terço admite ser capaz de o fazer por dinheiro).

Oferece-se a oportunidade real de aplicar 20 electrochoques a outros seres humanos, para receber até um máximo de 1£ por cada um (dependendo do grau de intensidade com que os aplica).

96% fizeram-no. Por dinheiro.

Eu que sempre ouvi dizer que todos os homens têm um preço.
Eu que li milhares de páginas de História e de Filosofia para entender como o nazismo obteve a adesão maciça de um dos povos mais civilizados e cultos do mundo.
Eu, que fui professor e sou testemunha das mentiras causadoras de sofrimento moral que jornalistas, políticos e opinion-makers são capazes de dizer só para receberem mais um punhado de notas.
Eu que já assisti pessoalmente à mentira e ao roubo perpetrados sobre pessoas mais fracas.
Eu, confesso, fiquei chocado com estes resultados.

Exactamente 50 anos depois das experiências de Stanley Milgram (de que já aqui falei) e tudo continua na mesma?

Ou pior?... É que, na experiência de Milgram, os participantes estavam a obedecer a uma autoridade vista como responsável e legítima (alguém, que se mostrava com um cientista, dava indicações do que deveriam fazer).

Aqui, e em 2011, é por dinheiro, só por dinheiro. Humilhante...


Via

quarta-feira, fevereiro 16, 2011

Valores e traços de carácter que passaram de moda...

... como a honra e a timidez.
Junto-as porque me parece estarem próximas uma da outra.
E são ambas muito mal vistas:
  • A honra é criticada e classificada como rigidez, ausência de flexibilidade.
  • A timidez é encarada como uma doença execranda (daqui a pressão para mostrarmos sempre que não somos nada tímidos).
Tudo isto é-nos passado assim para nos sentirmos envergonhados.

segunda-feira, fevereiro 14, 2011

Não seguir. E não ser seguido.

Tous les suivants du monde devraient se donner la main
Voilà ce que la nuit je crie dans mon délire
Au suivant, au suivant


Et quand je ne délire pas j'en arrive à me dire
Qu'il est plus humiliant d'être suivi que suivant
Au suivant, au suivant



Parece estranho que um professor subscreva isto... É verdade, reconheço-o. Muitas vezes, junto dos meus explicandos, tenho dificuldade em mandar, há qualquer coisa de redutor, de violência, procurar a submissão dos outros e sempre me esforcei mais por convencer do que por vencer.

(Recordo Gandhi: Se venceres o teu adversário, ganhas um inimigo; se o convenceres, ganhas um aliado)

Sempre me senti desconfortável nesse papel, pelo que nunca aspirei a cargos onde tivesse que mandar noutros.

(Evoco também Guilherme Centazzi, nascido em Faro em 1808, não como regra geral, mas como símbolo de uma certa limpidez de carácter: Não estou em grandes alturas, porque sou inimigo de baixezas. Via Pedro Almeida Vieira)

Ah, mas também grito, com Jacques Brel na canção acima, que
un jour (...) je ne serai jamais plus
Le suivant, le suivant!

quarta-feira, abril 21, 2010

Estes doentes que nos governam...

... era o título de um livro de Pierre Accoce e Pierre Rentchnick, da década de 70.

(Este post foi-me inspirado por uma crónica de Guilherme Valente saído no Público, de que tomei conhecimento no blog De Rerum Natura, donde tiro parte das citações. E que me fez recordar o título qe escolhi para aqui. A propósio do suicídio do professor Luís e das situações de bullying nas escolas.)

«Temos de nos esforçar para que estas situações possam ser ultrapassadas. Tratam-se de jovens que são na sua generalidade bons alunos e que não podem transportar na sua vida uma situação de culpa que os pode vir a condicionar pela negativa», afirmou José Joaquim Leitão, director regional de educação de Lisboa.

Arno Gruen (A Loucura da Normalidade e a Traição do Eu, ed. Assírio e Alvim) chamava a atenção para esta estranha e malfadada perversão que leva pessoas ditas "normais" e "inteligentes" a porem-se do lado dos agressores, a desculpá-los de tudo e a ter pena deles. E, além disso, a achar que eles é que são vítimas e não os que são torturados por eles.

José Joaquim Leitão disse que «é do conhecimento público» que o docente apresentava uma «fragilidade psicológica já desde há muito tempo».

Portanto, trata-se aqui até de uma completa incapacidade para identificar as verdadeiras vítimas. Mas há mais. De Daniel Sampaio:

«É que há em todas as escolas comportamentos que podem ser considerados violentos, mas que não são bullying. A escola reproduz a sociedade e esta não é serena, por isso são frequentes as piadas, as troças e até um insulto passageiro ou um empurrão, sem que isso seja muito grave.»

Como se vê, estas mesmas pessoas revelam também uma total incapacidade para empatizarem com as vítimas e os desprotegidos, esquecendo-se sempre que estes é que verdadeiramente precisam de defesa, de protecção e de segurança. Ainda Daniel Sampaio:

«Querer uma escola controlada pela polícia em que ninguém possa desobedecer ou contestar as regras, é acabar de vez com esse território de liberdade segura que caracteriza o nosso sistema educativo (…)».

Faltando-lhes a "lata" para defenderem abertamente os agressores, pugnam pela manutenção das condições necessárias para que estes continuem, impunes e à vontade, a maltratar os mais fracos.

É esta gente, profundamente doente, mas que, pelo seu número e pelo seu poder para se fazerem ouvir vezes sem conta, parece normal, é esta gente, repito, que tem ocupado o poder nos últimos anos.

Infelizmente para tantos e tantos miúdos...

quarta-feira, dezembro 23, 2009

Feliz Natal

O que está dentro do que digo quando digo "Feliz Natal"?

Trata-se de um desejo; ou, talvez, de um pequeno conjunto de desejos.
Pequeno, porque sei que não é preciso muito para uma pessoa ficar feliz: um pouco de alimento e de sol, de amor, um livro, uma paisagem, e pouco mais...

Sim, é isto tudo, no fundo, meus amigos, aquilo que vos desejo para este Natal.


Boas Festas para todos!

terça-feira, maio 05, 2009

Conversar

My trips are always packed with a lot of business meetings.

That’s why when I’m flying I like to unwind. One good way to relax is to strike up a conversation with seatmates. I don’t like to talk the entire flight, but sometimes casual conversations allow me to meet, for a brief while, people who are truly making a difference in the world.

Admiro as pessoas que sabem iniciar e manter uma conversação leve, útil, mutuamente satisfatória; pessoas que estabelecem um entendimento, um rapport imediato com quer que seja que lhes atraia o interesse ou a simpatia. Conheço bem uma pessoa assim... e nunca páro de me maravilhar!

Dada a minhas dificuldades de contacto, disfarço a minha falta de habilidade procurando ser um bom ouvinte e fazer perguntas interessantes. Mas trata-se de um esforço e jamais me passaria pela cabeça relaxar conversando!...

A propósito, a história acima, como talvez fosse de esperar, é bem simpática e inesperada e, por isso, ponho aqui o link (soube dela via GoodShit).

domingo, novembro 16, 2008

Nós

A Amada é bela e profundamente única. Com o seu sorriso apenas põe-me a brilhar todo por dentro. E bebo nela a realização plena de todos os meus afectos.

Esta tem de ser a relação perfeita. Por isso não coloco a Amada num pedestal. Não há-de ser para mim a desilusão de descobrir na Amada o barro: eu já amo esse barro.

Aliás, como de certa forma exprimi atrás, não preciso da sua grandeza, quer a real quer a imaginada, para eu poder brilhar. Preciso de alguém que me acompanhe e a quem eu possa acompanhar. Alguém a quem olhar de igual para igual numa outra grandeza, esta agora compartilhada: a do nosso Amor.

É assim que quero continuar a viver a história deste encontro pleno e improvável.

domingo, outubro 12, 2008

Anedota?

He said to her... Why are married women heavier than single women?
She said to him... Single women come home, see what's in the fridge and go to bed. Married women come home, see what's in bed and go to the fridge.

Isto é suposto ser uma piada. Ainda por cima tirei-a de um daqueles sites de pensamento positivo.

Mas acho-a tão fria e tão triste que aflige.

domingo, setembro 28, 2008

Sonata de Outono, Ingmar Bergman

Estive a ver Sonata de Outono, para mim o filme de Bergman de que mais gostei até agora, juntamente com Monika e o Desejo.
Em ambos aparece um olhar que nunca mais nos larga até ao fim da vida, o de Liv Ullmann no primeiro:

e o de Harriet Andersson no segundo:

A propósito da personagem Eva, interpretada precisamente por Liv Ullmann, apercebi-me de uma tragédia terrível:

Sempre que alguém não sabe a pessoa, o ser que é realmente, jamais conseguirá descobrir quando e que está a ser realmente amado.

segunda-feira, setembro 22, 2008

As probabilidades do amor

Alan Brogan e Irene Kinnair, depois de conviverem alguns meses no mesmo orfanato, estiveram separados 45 anos, mas conseguiram encontrar-se de novo e casaram-se. Confesso: histórias assim comovem-me mesmo.
Para todos os que não acreditam que estas coisas lhes possam acontecer, pelo menos...

Don't Be Shy!



Cat Stevens

Don't be shy just let your feelings roll on by
Don't wear fear or nobody will know you're there
Just lift your head, and let your feelings out instead
And don't be shy, just let your feeling roll on by
On by

You know love is better than a song
Love is where all of us belong
So don't be shy just let your feelings roll on by
Don't wear fear or nobody will know you're there
You're there

Don't be shy just let your feelings roll on by
Don't wear fear or nobody will know you're there
Just lift your head, and let your feelings out instead
And don't be shy, just let your feeling roll on by

Racismo (e as eleições americanas)

Seremos todos racistas? Eu acho que sim. Eu pensava que não. No tempo em que trabalhava em Lisboa e andava de metro reparei, um dia, que quando entrava um grupo de jovens negros eu ficava muito mais tenso do que se entrasse um grupo de jovens brancos. Sem razão concreta absolutamente nenhuma. Perdi um bom bocado da minha inocência aí.

Nos Estados Unidos, uma sondagem recente apresenta valores preocupantes de racismo. Que irão aliás condicionar, não tenho dúvidas nenhumas, os resultados eleitorais. Por uma simples razão: mesmo aqueles que dizem que não deixam que assuntos de cor da pele influenciem a sua decisão, na hora de votar, no anonimato da cabine, muitos irão votar em McCain porque Obama é "negro" (que em rigor, aliás, não é).

Tantas vezes que me pergunto de onde surge esta força maléfica que leva à distância, ao desprezo, ao ódio! Se houvesse só racismo dos brancos contra os pretos, eu avançaria com a explicação de que, possivelmente, na base estaria a cor negra que, na nossa cultura, associamos ao Mal e à Morte. Mas o racismo também existe no sentido contrário, embora menos, pelo menos nos EUA, como se concluiu da dita sondagem (por exemplo: "One in five whites [20%] have felt admiration for blacks "very" or "extremely" often. Seventy percent of blacks have felt the same about whites.")

Já sabemos que o conceito de raça não tem qualquer base científica consistente. E, do ponto de vista da realidade, é igualmente absurdo: o que é exactamente um "negro" ou um "branco"? Veja-se isto que me aconteceu:
X para mim é negra. X dizia-me no outro dia: "Não gosto nada do noivo da minha filha, mas o pior de tudo é que ele é negro, é mesmo preto!" E eu fiquei a olhar para ela, de boca aberta, estupefacto!