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quinta-feira, junho 29, 2023

Contra a vitimização e o conformismo em alguns professores

 


Não concordo com os professores que escrevem, ou que dão publicidade a quem escreve, textos saudosistas sobre a Educação, em que o alvo primordial são sempre os estudantes (porque estão mal preparados, porque não vão às aulas, porque são distraídos, porque copiam nos trabalhos, etc., etc.). Não divulgo aqui nenhum desses textos porque precisamente não pretendo dar-lhes publicidade e porque todos sabemos do que falo aqui.

Concordo ainda menos que os professores divulguem publicamente que se conformam com a situação, que se tornaram maus professores, que ensinam menos e pior, que avaliam sem honestidade, etc., etc. Tudo sempre por culpa dos outros, normalmente dos alunos.

Eis as razões da minha discórdia:

  1. Este tipo de textos não atrai a simpatia para os professores de nenhuma parte da população (ao contrário do que dizem esses professores, ninguém fica contente com esta situação). 
    • Alunos? Detestarão ser retratados desta forma. Principalmente, aqueles que não são assim, que são muitos (e não os poucos que aqueles autores relutantemente admitem que apesar de tudo existem).
    • Pais? Nunca! Porque sabem que estes professores estão a defraudar descaradamente o futuro dos seus filhos.
    • O resto da população? Na melhor das hipóteses, encara estes textos (de queixa, de vitimização absurda) com indiferença. Nalguns casos, até poderão atrair a sua pena (o que duvido); no entanto, quem deseja ser objeto da piedade dos outros? Eu não, mas há gente para tudo. Na maior parte das vezes, eu diria que eles estimulam um sentimento de um cada vez maior desprezo pelos professores. 
    • E professores? Acredito que a maioria não se sente retratada por aqueles textos.
  2. Vemos outras classes profissionais (algumas muito, mas mesmo muito mais maltratadas do que os professores) a produzirem e a divulgarem este tipo de textos? Não. Não vemos médicos (nem  enfermeiros, nem técnicos auxiliares de saúde) a dizerem que os doentes saem mal tratados das suas mãos. Não vemos juízes a dizerem que as pessoas saem dos julgamentos como vítimas de decisões injustas. Etc., etc. Porque não o fazem? Porque sabem que, se dissessem este tipo de coisas, lançariam o descrédito total sobre toda a sua classe e estariam a atrair a raiva e o desprezo da população. E eles não são parvos.
  3. A atitude de culpabilização dos outros, nomeadamente dos alunos, reflete uma das opções mais perigosas que os seres humanos podem tomar: a de negarem a responsabilidade pelo que fazem. Sabemos da história o resultado trágico que isto dá. E não corresponde à realidade. Na verdade, se assumirmos a nossa responsabilidade, mesmo naquilo que somos obrigados a fazer, percebemos que temos, ainda assim, uma razoável margem de manobra, de liberdade e de autonomia. Quando decidimos não assumir a responsabilidade, fazemos como os autores daqueles textos: não só traímos a missão para que fomos contratados (e pela qual estamos a receber dinheiro), como pouco fazemos para melhorar a situação de todos no dia-a-dia. Ou seja, tornamo-nos em conformistas do pior tipo: aquele que colabora com o jogo dos opressores e que não tem vergonha de revelar em público a sua condição de conformista (muitas vezes, para atrair mais conformistas para o seu lado). Não precisamos deste tipo de professores. Aliás, a bem dizer eles nem são professores, são pseudoprofessores.
  4. Este tipo de textos saudosistas de uma idade do ouro da educação promove uma ideia totalmente falsa: é que essa idade do ouro nunca existiu. O que existiu sempre, desde a Antiguidade Clássica, foram velhos a queixarem-se de que os jovens não querem aprender, que não querem trabalhar, etc. Os séculos passam, impérios nascem e caem, mas o discurso é sempre o mesmo. Céus, já chateia!
  5. Estes textos promovem uma visão do professor como vítima dos outros. É um mau lugar para escolher estar. Sentir-se vítima faz com que as pessoas percam discernimento e energia para as lutas, essas sim que são muito necessárias travar. Quer a nível individual, no dia-a-dia (servem para mantermos a nossa autoestima); quer a nível coletivo (as únicas que podem dar algum resultado significativo para todos).
  6. Naqueles textos, apresenta-se uma imagem do professor que dá argumentos fortíssimos aos que defendem a sua substituição por filmagens ou por robôs. Na verdade, para fazer aquilo que nesses textos os autores dizem que fazem, para que é que é preciso um professor real? Pelo menos, estas alternativas não se vão andar a queixar. E até acredito que estas tecnologias sejam capazes de fazer um trabalho melhor do que eles… 
  7. Divulgar este tipo de textos dá palco a indivíduos protofascistas, com discursos nostálgicos e reacionários sobre “os bons velhos tempos” a que, segundo eles, é preciso regressar. Além disso, eles transportam muitas vezes esta maneira de pensar para denegrir outras áreas como a da igualdade de direitos e de oportunidades entre todos os seres humanos.
  8. Finalmente, estes textos a culpabilizar os alunos afastam a atenção das pessoas dos verdadeiros culpados: governos e, acima de tudo, uma sociedade implacavelmente capitalista e consumista.

Em suma, os autores deste tipo de textos parecem que estão a ser empáticos e isso pode ser agradável no momento para os professores que se sentem incompreendidos. Porém, na verdade, o que eles estão a fazer é a desmoralizar, a depreciar e a debilitar aqueles professores que têm brio na sua profissão e que o querem manter, não importa quais sejam as circunstâncias adversas que possam encontrar no seu caminho.


domingo, maio 28, 2023

Crianças discriminadas como seres não humanos

 

(Booking.com, página consultada em 20-05-2023)

Vi as fotos que uma amiga publicou de uma quinta no Douro. Fiquei com vontade de dar um mergulho naquela piscina. Procurei pelo nome, "não aceitamos crianças". Foi na mesma semana em que o B. me falou de um lugar incrível que havia no Algarve, "não aceitamos crianças com menos de cinco anos", avisava esta unidade hoteleira. Pensei fazer uma lista de todos estes nomes onde, se não aceitam o meu filho, também não me aceitam a mim. Depois, percebi que isto de ter espaços childfree - livres de crianças - está a alastrar. Há quem faça convites de casamento "só para adultos". Por mais que perceba que as crianças podem ser barulhentas, foram os adultos quem sempre me incomodaram. Fazerem das crianças um filtro na pesquisa de alojamento é muito discutível. Daqui a pouco, temos filtros para encontrar hotéis "gordosfree", "velhosfree", "mulheresfree"...

(Joana Almeida Silva, JN de 27-05-2023)

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Um mundo, qualquer mundo, sem crianças é um mundo onde a morte começa a instalar os seus arraiais. As crianças simbolizam o início, a renovação, a inocência e, acima de tudo, a alegria. Bem tristes devem ser as pessoas que não conseguem ver isto para além das birras e de outros comportamentos. Que são sempre, mas sempre, sempre, muito menos graves do que a selvajaria (ver parágrafo a seguir) de que os adultos são capazes (e que praticam, sim, claro, em todos os lados incluindo nesses lugares que proíbem a presença de crianças).

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Jornal de Notícias de 04-06-2023:


Bárbaro homicídio de criança de três anos à pancada e com torturas (...)

A semana de 14 a 20 de junho em que Jéssica esteve em cativeiro na casa dos homicidas, no Beco do Pinhana, foi de terror para a menina. Agredida de forma brutal, foi-lhe atirado um líquido abrasivo para a cara que a desfigurou e foi usada para tráfico de droga. A autópsia identificou 125 ferimentos no seu corpo (ver texto ao lado). Colocaram-lhe até cocaína à força dentro do corpo.

(...)

Em seis páginas do relatório da autópsia que consta na acusação aos alegados homicidas de Jéssica, o Ministério Público (MP) aponta 125 golpes no corpo da menina, incluindo o derrame de um produto abrasivo na face que lhe removeu por completo a pele do nariz e buço. Só na cabeça, são 25 os golpes, outros 60 nos braços e pernas, 30 no peito, seis no abdómen e cinco na zona genital.

Cristina e os filhos desta, Eduardo (o único em liberdade) e Esmeralda, de acordo com o MP, na semana de 14 a 20 de junho, utilizaram a menina como "mula" de droga e violaram-na, introduzindo-lhe cocaína no ânus, numa viagem entre Leiria e Setúbal.

(...)

Em maio, a menina já tinha sido entregue aos raptores durante dois dias por causa de uma primeira dívida de Inês por um serviço de bruxaria no valor de 100 euros. Ela conseguiu pagar, mas quando Jéssica lhe foi devolvida, estava tão maltratada e ferida, que "apenas se alimentou de líquidos durante uma semana", pode ler-se na acusação. Isso não impediu que, a 14 de junho, Inês a entregasse de novo. Desta vez, não sobreviveu.

Estas unidades hoteleiras receberiam estes adultos sem problemas, mas recusariam admitir a criança...

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Revolta sempre que se fazem generalizações abusivas a partir de uma minoria de casos. Porque a esmagadora maioria das crianças, na esmagadora maioria do tempo, porta-se bem – e eu sei do que falo, pois fui professor durante a maior parte da minha vida profissional (e não foi em escolas de elite!). Revolta, principalmente, que haja hotéis (sim, no Algarve também) que anunciam “Não são permitidas crianças”, como se se tratasse de animais e não de seres humanos.

E acima de tudo, dói que este tipo de discriminação não suscite uma revolta generalizada. Se fosse qualquer outro grupo da população, vulnerável e sem voz, o escândalo seria enorme. Com as crianças, acha-se natural.

quarta-feira, maio 03, 2023

Contra um país injusto, contra um país oprimido pela pobreza

 


Para as pessoas que desconhecem qual o meu posicionamento político (entendido no sentido lato e não de partidos), esclareço aqui o seguinte:

Eu estou sempre do lado dos mais fracos e dos derrotados. E sempre contra os violentos, contra os malvados, e contra os ofensivos e desrespeitosos. Acima de tudo, estou contra os carrascos e seus mandantes, colocando-me irredutivelmente do lado das vítimas. 

Nada disto tem a ver com a religião, porque sou, além de ateu, antiteísta na medida em que considero que a ideia de deuses trouxe mais horrores à humanidade do que benefícios. Portanto, absolutamente nada a ver com religiões.

Assim, nunca estive, estou ou estarei do lado de quem envolve os seus povos em guerras (para mim, dentro das soluções inaceitáveis, a guerra é a mais inaceitável de todas). Por isso, por exemplo, nunca salazarista, nunca putinista.

Além disso, não sou um fanático nem do cada um por si, nem da subjugação ao coletivo. Embora simpatize com as formas moderadas de ambas as posições: gosto de ter liberdade para fazer o que quero, ao mesmo tempo que acredito que devo alguns esforços e sacrifícios em prol do bem comum (do qual beneficio e, portanto, que tenho o dever de retribuir pelo menos em parte).

E só sou contra os fortes (incluindo os ricos) quando abusam do seu poder e da sua riqueza, lançando os outros na miséria.

Vejamos como isso acontece.


Recordemos como o Estado (isto é, todos nós) tem gasto muito mais do que isto com os bancos todos os anos:

“A Banca custou ao Estado 22 mil milhões de euros entre 2008 e 2021.”

22.000.000.000 € / 13 anos = 1.692.307.692€ por ano

Ou seja, cerca de 1700 milhões de euros por ano. Desta vez, foram “só” 459 milhões de euros! Mas o suficiente para fazer duplicar, note-se, duplicar o défice!

Claro que isto ajuda a que os bancos


O que dá mais de 10 milhões de lucros... por dia! À custa de famílias que vão perdendo as suas casas porque as prestações aumentaram brutalmente, chegando em muitos casos a mais do que duplicar em poucos meses!

Como eu gostaria de ouvir os partidos de direita a reagirem contra isto! Mas só os ouvimos a bramar contra o Rendimento Social de Inserção (RSI). Vamos comparar.

Nos últimos anos, o Estado tem gasto com o RSI, por ano, entre 300 e 400 milhões de euros. Mas a beneficiar perto de 200 mil pessoas e 100 mil famílias em dificuldades. Em vez da meia dúzia de bancos e de banqueiros com ordenados milionários.

Mas o problema não está só nos bancos…


Para dar estes dividendos (e isto só no PSI, isto é, nas empresas com mais de 1000 milhões euros de capitalização), nem consigo imaginar quantos terão sido os lucros!

Na verdade, não somos um país pobre, somos um país que está a ser claramente empobrecido pelos mais poderosos e mais ricos! 

Uma das formas que eles usam para empobrecer o país é pagando salários baixos e promovendo a precariedade.

Segundo o estudo Faces da pobreza em Portugal (2021), da Fundação Francisco Manuel dos Santos (p.19.), 32,9% (um terço) dos pobres em Portugal são trabalhadores. Isto é, são pessoas que com o que ganham não conseguem deixar de ser pobres, de tal maneira são mal pagos.

E, para quem acha que os pobres são uns malandros que não trabalham, será útil ver, segundo o mesmo estudo, os perfis da pobreza em Portugal:

1. «Trabalhadores»: 32,9%;

2. «Precários»: 26,6%;

O que é um “precário”? É

Uma pessoa que está numa relação laboral, no contexto da qual não consegue aceder a uma série de direitos que estariam afetos a essa relação laboral, por exemplo, a estabilidade, a remuneração garantida e periódica, o acesso a uma indemnização quando deixa de estar vinculada e o acesso a um sistema de saúde.

32,9 + 26,6 = 59,5%. Ou seja, mais de metade dos pobres trabalha!

3. «Reformados»: 27,5%;

4. «Desempregados»: 13%.

Portanto, os desempregados pobres que não trabalham e, eventualmente, talvez pudessem fazê-lo (digo talvez, porque aqui se incluem os doentes, os incapacitados, os que temporariamente estão sem trabalho, os analfabetos digitais, etc.), são pouco mais de 10% do número total de pobres.

Repare-se que, segundo o jornal online ECO,

A taxa de desemprego nunca foi tão baixa (5,8%) nem o número de pessoas empregadas foi tão elevado (4,9 milhões numa população ativa de 5,2 milhões pessoas).

Ou seja, apenas cerca de 300 mil pessoas estão atualmente desempregadas. Parece ótimo, não é verdade?

No entanto, segundo Luísa Loura, diretora da Pordata, e António Costa, primeiro-ministro de Portugal, sem apoios sociais, 4, 4 milhões de pessoas são pobres (têm rendimentos abaixo do limiar da pobreza - 554 euros mensais); passando para 1,9 milhões após as transferências sociais.

Como ficam as crianças neste panorama? Podemos imaginar, mas não é preciso, os números estão aí:

Segundo o Diário de Notícias

Cerca de uma em cada quatro crianças portuguesas com menos de 18 anos (22,9%) vivia, em 2021, em situação de pobreza ou exclusão social. (Eurostat)

E, segundo a ministra do Trabalho e da Segurança Social, Ana Mendes Godinho, o número de crianças em pobreza extrema, a nível nacional, é de 170 mil.

Lembremos que, há pouco mais de 2 anos, a Unicef alertou para os níveis crescentes da pobreza infantil em Portugal. Portugal era, a par de Itália e da Grécia, um dos países onde havia uma maior relação entre a pobreza infantil e a escassez de investimento em prestações familiares. Num relatório em que a Unicef admitiu que nos próximos cinco anos estes números deveriam aumentar.

É este o país que queremos? Onde até a vida e o bem-estar das crianças é completamente desprezado pelo grande capital? Eu não quero.

E termino, dizendo com Albert Camus:



quarta-feira, junho 15, 2022

Uma utopia para a Escola

 

(…) a utopia socialista não é o fim do trabalho, mas a libertação da criação humana para trabalhos com sentido. (Raquel Varela - Qual o sentido do trabalho?)

No entanto, na minha opinião, se não se começa por garantir exatamente esta revolução no trabalho escolar, as crianças e jovens, quando chegam ao mundo do trabalho, já se encontram habituados e formatados para o trabalho alienante, aceitando-o como natural e inevitável. Ou seja, é nas condições de trabalho escolar que estão as sementes daquilo que defendemos que seja o trabalho posterior na idade adulta.

Por isso, seria fundamental o estudo das atuais condições de trabalho nas escolas, quer as materiais (alguns exemplos: mobiliário igual para todos os tipos de corpos, cadeiras duras e desconfortáveis, extremo frio e extremo calor, etc.), quer as imateriais (alguns exemplos: a competição disfarçada ou explicitamente promovida; o confinamento a um lugar sentado com saídas controladas ao longo de um dia inteiro; exigências excessivas que só miúdos de famílias socioeconomicamente favorecidas conseguem cumprir, nomeadamente com recurso a múltiplas explicações ao longo dos anos; etc.).

Trata-se, portanto, de propor uma utopia primeiro e principalmente para as escolas. Mas se, hoje em dia, já não se fala muito de utopias para a sociedade, sobre as escolas desceu então um manto de sufocante silêncio.

A minha utopia para a escola pode ser expressa introduzindo adaptações mínimas (por mim indicadas com […]) a um trecho de John Bellamy Foster do livro “Trabalhar e Viver no Séc. XXI” (p.19):

(…) Outros defenderam a necessidade de transcender todo o sistema de [ensino] trabalho alienado, fazendo do desenvolvimento de relações de [aprendizagem] trabalho criativas o elemento central de uma nova sociedade revolucionária. (…)

Eu pertenço ao grupo destes “outros”.

sexta-feira, outubro 29, 2021

Não aprovação do Orçamento de Estado para 2022


Vamos supor por uns momentos que António Costa (AC) não é estúpido.

Um homem que saiu do Governo de Sócrates antes dos escândalos que o abalaram (passando estranhamente de ministro para presidente de câmara, é certo que de Lisboa); que negociou brilhantemente para unir a esquerda a fim de governar (note-se, depois de ter perdido as eleições), algo que nunca antes tinha sido conseguido por ninguém; que manipulou sempre o Parlamento para que ele nunca fizesse algo radicalmente contra a sua vontade (lembro o aumento dos professores em que AC levou o PSD a recuar atabalhoadamente; ou quando fez com que o PSD propusesse e aprovasse uma regra que evitou a sua ida frequente à Assembleia da República); que tem vindo a anular o peso dos partidos à sua esquerda no eleitorado; que “secou” a oposição por parte do PSD; etc.

Bom, proponho que um homem destes pode ser considerado sem favor um génio político (que é o que eu acho que ele realmente é – e a História há de lhe fazer justiça).

Sendo assim, várias interrogações se me levantam:

Porque é que Passos Coelho deu, por exemplo, a vice-presidência do seu governo ao partido à sua direita e AC nunca deu um lugar que fosse no seu governo a nenhum dos partidos à sua esquerda (por exemplo, os ministérios da Cultura ou do Ambiente; ou uma Secretaria de Estado da Cidadania e a Igualdade, ou do Património Cultural)?

Porque é que, nos últimos meses, AC se recusou terminantemente a remodelar o governo, mesmo sabendo que essa era a vontade da maioria dos eleitores portugueses?

Porque é que, desde as últimas eleições legislativas (em que ele não teve a maioria absoluta que desejava), ele tem vindo a insultar cirurgicamente o principal líder da oposição e o Bloco de Esquerda, e a humilhar o PCP, alienando a sua boa vontade?

Porque é que ele foi intransigente e não aceitou o suficiente do PCP e BE (cujas propostas me pareceram muito razoáveis - principalmente justas -, nada radicais, até oportunas dado que temos este ano um pouco de folga orçamental para as aplicar) de modo a eles poderem salvar a sua face ao abster-se? Colocando as suas cartas de forma a deixar o PCP e o BE numa "no-win situation": o que quer que eles fizessem, ficariam a perder (e, nomeadamente, a perder votos, como se tem vindo a verificar nos últimos anos)? E, pelo contrário, passou sempre a mensagem de que a intransigência estava do lado do BE e do PCP, quando todos sabemos que para haver teimosia tem de haver dois teimosos, não basta um só? 

Para finalizar: como é que este génio político, mestre de negociações impossíveis, fracassa totalmente na aprovação do Orçamento, chegando ao ponto de não ter, no Parlamento, nenhum partido além do seu a votá-lo favoravelmente?

A resposta é: não foi um fracasso! Obedeceu antes a uma estratégia cuidadosamente pensada, planeada e executada, para chegarmos a eleições antecipadas onde os partidos à esquerda são vistos como os “maus da fita” (quando não lhes foi dada hipótese nenhuma de proceder de modo diferente) e os partidos à direita estão envolvidos em lutas fratricidas. Ou seja, o cenário ideal para alcançar a tão desejada maioria absoluta.

Cereja em cima do bolo: quer ganhe, quer perca as eleições (cenário absolutamente improvável), AC ganha sempre porque, se perder, a culpa terá sido sempre dos outros e não sua.

Há apenas uma carta que ele não controla totalmente, que é o Presidente da República. Daqui pode vir uma surpresa que estrague o planeado (eleições, contra um BE e um PCP enfraquecidos, e com o PSD em lutas intestinas). Mas atendendo a que Marcelo tem contas antigas a ajustar com o PSD (e tem-no feito sempre), pode ser que nada aconteça de surpreendente. Mas nunca se sabe... 

O certo é que António Costa é um homem muito inteligente, que ouve os outros (é inverosímil acreditar que tudo isto venha só da cabeça dele, deve ter "think tanks" que o aconselham, e ele ouve-os realmente, muito provavelmente sem seguir acriticamente tudo o que eles lhe dizem) e que é um autêntico mestre de xadrez (que antecipa muitas jogadas à frente e sabe bem aproveitar-se da ingenuidade e dos passos em falso dos adversários).

terça-feira, agosto 31, 2021

Otelo Saraiva de Carvalho

 


Lembro Otelo Saraiva de Carvalho, por fazer hoje 85 anos que nasceu para, alguns anos mais tarde, planear e liderar o movimento que nos iria libertar da ditadura, a 25 de Abril de 1974.

Eu não esqueço.

segunda-feira, agosto 02, 2021

José Afonso - Traz outro Amigo Também


Dada a educação muito restritiva dada pelo meu pai, foi pela leitura e pela música que aprendi como me relacionar com o mundo. Talvez por isso, houve três grandes sonhos na minha vida: o de uma sociedade fraterna que o 25 de Abril prometia, o de uma escola para expandir humanidade e comunidade, e o de uma relação afetiva profunda com alguém. Este último cumpriu-se. Quanto aos outros dois, vi-os desmoronarem-se completamente. Acho que nunca conseguirei superar isso. Até porque não sei o que posso fazer para, pelo menos, evitar que o desastre seja completo.

José Afonso - Traz Outro Amigo Também: um documentário imperdível a comemorar os 92 anos do seu nascimento.

Como com tudo o que se relaciona com o 25 de Abril e com as pessoas que o fizeram, vi largas partes deste documentário a chorar. Pelos sonhos destruídos, pela morte de tanta gente valorosa. José Afonso foi um dos maiores, ele que nunca quis mostrar-se mais do que aquilo que era: um lutador pela liberdade, tanto na sua vida prática do dia a dia, como na sua arte.

Para que na nossa memória o seu exemplo nunca desapareça.

domingo, agosto 01, 2021

O que (NÃO) fazer quando discordamos de uma lei

 


Artº 16 da Resolução do Conselho de Ministros n.º 101-A/2021:

«3 - Aos sábados, domingos e feriados, bem como às sextas-feiras a partir das 19:00 h, o funcionamento de estabelecimentos de restauração ao abrigo do número anterior, para efeitos de serviço de refeições no interior do estabelecimento, apenas é permitido para os clientes que apresentem Certificado Digital COVID da UE admitido nos termos do Decreto-Lei n.º 54-A/2021, de 25 de junho, ou sejam portadores de um teste com resultado negativo, realizado nos termos do artigo 8.º»

Ou seja, os clientes têm de apresentar o certificado, se quiserem ser servidos. Caso contrário, os empregados não podem servi-los. Não são os empregados que o exigem, é a lei. 

O que fazer, se não concordamos com a lei? Escrever cartas para os jornais, para os sites do Governo, para o Provedor de Justiça, para os deputados da região, etc., com o máximo de assinaturas possíveis, incluindo nelas autoridades reconhecidas. Não sei se podemos fazer muito mais…

Mas o que sei é que O QUE NÃO DEVEMOS FAZER é reclamar junto dos empregados; fazê-lo é pormo-nos no papel daquele “tuga” que pede uma “cunha” para contornar a lei em seu benefício. MUITO MENOS, devemos zangar-nos com os empregados ou com os donos do estabelecimento, porque isso é um pouco como aquele marido que chega a casa e bate na mulher e nos filhos porque o patrão o prejudicou.

quarta-feira, julho 28, 2021

Governo não propõe luto nacional para Otelo Saraiva de Carvalho

 


«Nas mortes de Salgueiro Maia e Melo Antunes não houve declaração de luto nacional, recordaram Marcelo e Costa no velório de Otelo Saraiva de Carvalho.»

Desanima-me António Costa não ter a ambição de ser melhor do que os governantes anteriores, por exemplo, de não querer ser melhor do que Aníbal Cavaco Silva.

Mas, para mim, o pior de tudo é que, quando um estado, um governo e um presidente não celebram condignamente a vida de alguém que, como Otelo Saraiva de Carvalho, contribuiu clara e decisivamente para a implantação de uma sociedade melhor, isso permite a todos os arautos da destruição exaurirem ainda mais o nosso espaço democrático com a celebração da sua morte.


quarta-feira, junho 30, 2021

O que tem de mal o coordenador da Task Force do Plano de vacinação contra a COVID-19 em Portugal aparecer de camuflado militar em público?

 

(foto de Rui Gaudêncio)

O camuflado, ou qualquer outra farda militar, encerra uma carga simbólica poderosíssima de respeito pelas regras, de lealdade inquebrantável perante o inimigo (valor muito importante num país que esteve em guerra até ainda não há muito tempo), de verticalidade e de incorruptibilidade face à sociedade civil. Claro que tudo isto é uma fantasia, como sabemos pelos casos na instituição militar, sejam de corrupção, sejam de desrespeito pela vida, que têm vindo a lume na imprensa.

No entanto, isso não impede que, no mundo ocidental, muita gente anseie por um regime militar; ou, pelo menos, que deseje ser governada por militares. Aliás, nos mais variados países desenvolvidos, os jovens que consideram essencial viver numa democracia estão a reduzir-se a uma significativa minoria. Veja-se um retrato absolutamente assustador das atitudes da população face à ideia de democracia em:

Foa, R. S., & Mounk, Y. (2017). The Signs of Deconsolidation. Journal of Democracy, (1), 5-16.

Vemos bem a que é que esse desejo por militares no governo nos leva no presente (Brasil e Birmânia são dois exemplos devastadores) e no passado, tanto no recente (Chile e Grécia), como no mais longínquo. Mas a evidência não interessa às pessoas. O mito e o símbolo são mais fortes.

O que é aberrante é ver políticos e democratas de esquerda a alimentarem, de forma suicida, este mito perigosíssimo para a democracia… democracia, aliás, que é o que os sustenta a eles próprios.

Quando os políticos passam a mensagem de que fracassaram miseravelmente, e de que têm de ir buscar alguém fora dos quadros profissionais competentes do atual regime (a uma instituição que, pela natureza muito especial das funções a que é habitualmente chamada a exercer, não é intrinsecamente democrática) para resolver um problema, aí não auguro nada de bom para esta democracia.

Por muito excelente pessoa, político e profissional que seja o sr. vice-almirante Gouveia e Melo.

sábado, fevereiro 20, 2021

Hipótese para a compreensão de algumas pessoas que apoiam partidos e políticos da extrema-direita radical. E uma proposta de abordagem ao problema.

 

(Francisco de Goya - Duelo a Garrotazos)

Cometemos habitualmente o erro de acreditar que, no ser humano, as razões antecipam as emoções e as decisões. A maior parte das vezes, não é verdade, tanto quanto se sabe, hoje em dia. Vergílio Ferreira alertou-nos muitas vezes: «As verdades fundamentais fulguram primeiro e depois é que se disciplinam em razões.» (em Do mundo original, 1979, Lisboa, Livraria Bertrand, p.119)

Portanto, na prática, a maior parte das pessoas não foi convencida por André Ventura. O discurso deste é que deu uma voz, uma organização e uma ação a quem estava predisposto a estas ideias ou já estava decidido sobre elas. Ou seja, acreditar em André Ventura não é mérito dele, é apenas uma consequência das emoções e ideias que as pessoas já tinham. Estas crenças e emoções já existiam, não tinham era sido publicamente mobilizadas, talvez por vergonha de opróbrio público.

 

Mas agora várias circunstâncias ajudaram a ultrapassar esta barreira.

Primeiro, a disseminação das redes sociais que levaram à descoberta de que se podia dizer aquelas coisas em público e ter muita gente a apoiá-las.

Segundo, ter surgido um ativista político a dizê-las sem ser expulso de um partido do arco do poder (quando, como candidato à Câmara de Loures, André Ventura fazia parte do PSD de Passos Coelho), nem ser travado pela Justiça.

Em terceiro lugar, a neutralidade, o silêncio e o ignorar dos poderosos.

Ficaram assim expostos os sinais claros de que se poderia dar a emergência daquelas emoções e sentimentos mais retrógrados e negativos, sem perigo nem vergonha.

Veja-se, aliás, o caso infame de Ihor Homeniuk que foi o culminar de anos de abusos e torturas a pessoas inocentes com a complacência e o encorajamento disfarçado do Governo, ignorandoas recomendações que o Mecanismo Nacional de Prevenção da Tortura fazia desde,pelo menos, 2018.

Ou de inúmeros políticos, nacionais e estrangeiros (em Portugal, Espanha, França, Itália, etc.) que têm vindo a põr em prática políticas de discriminação contra comunidades ciganas, como se fosse legal ou ético fazê-lo seja com quem for.

 

O problema vai-se tornando mais grave quando um líder começa a catalisar este caldo de emoções a fim de unir as pessoas em multidões que se sentem suficientemente organizadas para iniciarem uma ação violenta. O que até agora, mas apenas até agora, não foi o caso em Portugal.

 

A um nível individual, quando é que temos uma resposta violenta? Quando ativamos o sistema neurocomportamental de regulação de emoções focado na ameaça e na autoproteção. A resposta torna-se ainda mais violenta se, simultaneamente, se se frustrar o sistema neurocomportamental focado na busca de recursos e de incentivos.

Para estimular estes processos de ativação e de frustração nas pessoas, o líder proclama que o mundo é um lugar perigoso, que está dominado pelo mal, que só ele o conseguirá pôr bom e que, inclusivamente, só ele conseguirá proteger as pessoas de bem, mesmo que para isso precise do poder total, ou seja, de uma ditadura.

 

A um nível grupal, isto piora se estas pessoas percecionarem que o seu grupo está em conflito com outros grupos. Principalmente, se favorecerem vias mais agressivas e violentas para conseguirem o que querem, devido a privilegiarem precisamente a agressividade e a violência, e devido a se sentirem mais fortes do que os outros grupos.

Note-se, aliás, que se estas pessoas realmente acreditassem na propaganda que diz que elas não têm poder para fazer frente aos outros grupos (mensagem passada pelo líder populista), elas fugiriam, não lutariam.

Como esses outros grupos são na verdade minoritários e com menos poder, elas sentem-se à vontade para terem preconceitos contra eles e para apoiarem ações discriminatórias.

 

Uma outra característica destas pessoas consiste em elas tenderem a escolher líderes mais autoritários, mais fortes ou mesmo brutos. Porque estes são vistos como os mais capazes de acelerar a coordenação dentro do grupo, de forma a este ficar mais rapidamente organizado e capaz que o grupo inimigo.

Por isso, é natural que elas tendam também a escolher líderes que não respeitem as regras. Regras essas que, no fundo, elas acham que fizeram o outro grupo ficar mais forte. Daí que é precisamente o facto de esses líderes serem descaradamente mentirosos, oportunistas e malcriados que os torna mais atraentes para estas pessoas por assim se revelarem claramente contra o sistema em relação ao qual elas se sentem revoltadas e que desejam deitar abaixo.

 

A sustentar todos estes processos, temos a tendência da natureza para escolher as vias mais fáceis e mais “económicas”, isto é, menos consumidoras de energia. Esta tendência leva ao que alguns investigadores chamam de “preguiça cognitiva” que tem como consequência a adesão a ideias simples, fáceis e carregadas emocionalmente (que assim, nos dispensam de refletir). Ideias essas que caracterizam habitualmente as arengas destes políticos e as notícias falsas. Esta hipótese, a ser verdadeira, é um pouco desanimadora pois pouco se pode fazer para a contrariar no curto prazo (a longo prazo, só na escola, ensinando experiencialmente que o prazer e as vantagens de pensar racionalmente se sobrepõem em larga medida às dificuldades em fazê-lo).

 

A acrescentar a tudo isto, muitas destas pessoas já não acreditam nas instituições e desejam uma revolução que permita começar tudo do zero. Essas pessoas, há umas décadas, seriam de esquerda, hoje são de direita. É irresistível pensar que a nossa matriz cultural judaico-cristã tem aqui uma influência extraordinária: a ideia emocionalmente apelativa de um dilúvio que destrua e apague tudo, mas que permita um novo recomeço; acompanhada, claro, da ilusão de que lhe sobreviveremos porque estaremos cada um de nós dentro da Arca de Noé.

Podem-se apresentar várias causas possíveis para a raiva das pessoas contra as instituições: a desigualdade social que tem vindo a aumentar de modo ostensivo; a corrupção com a cumplicidade dos grandes poderes; o uso da força com quem é fraco e as manifestações de fraqueza com quem é poderoso; a sensação de absoluta impotência face aos poderosos; o sentirem-se remetidas para uma solidão cada vez maior; e a constatação de que a sua voz não é ouvida por nenhum decisor com poder.

Peguemos, a título de exemplo, no caso da desigualdade. Os protestos destas pessoas são sempre contra um determinado tipo de desigualdade, real ou imaginária, mas não contra onde ela é maior e causa verdadeiramente o seu mal-estar. Explicando melhor, as pessoas pegam nessa raiva contra os poderosos (que sabem ser sem esperança, visto que as instituições que deviam regular o poder falharam) e desviam-na para grupos minoritários e mais inofensivos.

 

E aqui, surge um outro problema. Os conflitos de opiniões são inevitáveis numa democracia e não a põem em perigo, pelo contrário. Mas quando ficamos convencidos de que o benefício de outro grupo é um prejuízo para nós, quando não sentimos que estamos todos no mesmo barco, que há gente que deve ir borda fora (e que podemos fazê-lo sem custos), que não há qualquer interesse em trabalhar em conjunto para resolver os problemas, então estamos em território muito perigoso (que pode chegar à guerra mesmo).

 

Além disso, um novo fator a ter em conta, hoje em dia, é o facto de as redes sociais terem um papel extraordinariamente importante na comunicação, coordenação e afunilamento de crenças e de esforços em tempo real. O problema é que elas nunca incentivam a manter as pessoas e as ideias calmas, pois não é isso que lhes faz gerar tráfego nem dinheiro. Ou seja, elas tendem a fornecer mais combustível para incendiar as mentes das pessoas.

Portanto, nas redes sociais, temos um dilema: como é que a nossa sociedade consegue proteger uma maioria relativamente calma de uma minoria relativamente violenta? Por autorregulação das próprias redes? Quando o fazem, elas são criticadas por fazerem censura. Por imposição do poder político? Outra vez críticas de censura. Não se vê uma saída fácil para a complexidade desta situação.

 

Porém, pelo menos ao nível do contacto direto com estas pessoas, o que podemos nós fazer para contrariar estes movimentos disruptores da nossa democracia, tanto no que se refere à emergência de ideias, crenças e sentimentos retrógrados e agressivos, como no que se refere à sua coordenação e à sua posterior transformação em ações violentas?

 

A primeira sugestão é claramente começarmos por ouvir as frustrações destas pessoas. Não só para perceber e validar as suas emoções, mas também para descobrirmos com que circunstâncias elas se sentem exatamente revoltadas. E não, não serve absolutamente para nada confrontá-las com argumentos, ou com julgamentos ou com condenações. Elas sentirão tudo isto como um ataque pessoal e irão entrincheirar-se mais solidamente nas suas ideias e nas suas emoções negativas (que serão, por este processo, ainda mais exacerbadas).

A seguir, tentarmos saber que benefícios concretos (não os vagos e abstratos para a sociedade em geral, dado que não são esses que movem verdadeiramente as pessoas a um nível individual) elas esperam obter por meio de uma mudança de políticas.

Depois, procurarmos encontrar soluções abrangentes e satisfatórias para todos, tendo o cuidado de, no processo, e sem tentar enganá-las, esforçarmo-nos por conseguir acender e alimentar a esperança de uma vida melhor para todas estas pessoas.

Encontradas as soluções mais inclusivas para a satisfação das necessidades de todos, o passo seguinte é unir e canalizar os esforços das pessoas para pressionar efetivamente os poderes a porem em prática estas soluções, dando assim a elas benefícios concretos (por exemplo, garantindo uma melhor distribuição da riqueza a fim de se gerar menos desigualdade).

Finalmente, e não menos importante do que tudo o resto, lutar pela reconciliação, a fim de levar as pessoas a sentirem-se suficientemente seguras para poderem deixar de ser tribais. Nomeadamente, para porem de lado a noção de que a tribo dos outros está contra a minha e a pô-la em perigo .

E podermos passar todos, dentro deste território, a viver em paz e com bem-estar, como uma só comunidade e um só povo.


sexta-feira, janeiro 05, 2018

"Nova lei do financiamento dos partidos" e a técnica "porta na cara"


A técnica de rejeição seguida de recuo (ou técnica “porta na cara”) é uma manipulação que consiste em o manipulador fazer um primeiro pedido exagerado e absurdo que irá, sem dúvida, ser criticado e rejeitado.

Passado algum tempo, ele finge que refaz a proposta e apresenta um novo pedido que, por comparação com o anterior, parece resultar de várias concessões que ele fez. “Parece” apenas, porque este último pedido é o que ele desde sempre pretendeu ver realmente satisfeito.

Face a essas aparentes concessões por parte do manipulador, esse pedido encontrará do outro lado o impulso inconsciente de retribuir também com concessões, sendo agora facilmente aceite sem críticas de maior.

E o manipulador acaba por conseguir obter o que sempre quis desde o início.

Os deputados não são parvos (embora possam querer que nós pensemos isso deles). Eles sabiam perfeitamente que a sua proposta de nova lei de financiamento dos partidos era ultrajante. Na minha opinião, ao votarem a nova lei de financiamento dos partidos, eles limitaram-se a usar conscientemente a primeira parte da técnica “porta na cara” descrita acima. E o Presidente da República vetou-a.


Adenda

José Ribeiro e Castro tem um artigo muito informativo e esclarecedor sobre a vida legislativa da Assembleia da República que vale a pena ser lido:

As leis do quarto escuro

quinta-feira, novembro 23, 2017

Fragilidade e coragem



Hoje acordei com esta foto na minha cabeça. Ela representa a primeira rapariga negra - Dorothy Counts – a frequentar uma escola só para brancos nos Estados Unidos, em 1957.

À sua volta, as pessoas gozam com ela, miúdos e graúdos. Sei que é real, mas há algo em mim que resiste a acreditar. Esta foto evoca aquelas gravuras antigas que retratam personagens grotescas, deformadas pelos mais baixos instintos. Sinto um aperto no peito, acentuado pelo contraste entre Dorothy, uma adolescente de 15 anos, e quem a rodeia. A beleza dela emudece-me.

E ela está tão só. A cadeira vazia ao lado dela enche esta foto da sua solidão. No meio do barulho, dos gritos e das gargalhadas, a solidão dela é um soco no peito e deixa-me sem respiração.

Porém, eu vejo aqui uma rainha. Por exemplo, rainha na forma como ocupa o espaço: ela não está encolhida no seu lugar, os ombros estão direitos, os braços afastados do corpo e saem fora do seu perímetro pessoal, mas não tanto que evidencie arrogância. Não, aquele é o seu lugar e ela ocupa-o com a naturalidade possível dentro daquelas circunstâncias.

A cabeça não está levantada e, no entanto, não há submissão na sua postura. A sua boca expressa a determinação com que está ali. E o esforço para fazer frente àquela muralha de agressões à sua volta. O olhar é atento, de quem sabe que está em terreno hostil, mas não aterrorizado. E, no entanto, ela teria o direito de se sentir aterrorizada, pois não há ali ninguém a defendê-la. Eu sei que não vai haver.

Veste-se com gosto, mas discretamente. Ela sabe que é uma rainha, mas não precisa de o demonstrar. Reparo no tema do seu vestido que, no preto e branco desta foto, é semelhante ao da camisa de um dos que zombam dela. Este contraste, aqui evidenciado pela semelhança das roupas, demonstra como uma pessoa pode conferir uma infinita dignidade ao que veste.

Gosto também da fragilidade revelada pelos seus óculos pendurados ao pescoço. Fragilidade essa que me remete para as imagens dos judeus na Alemanha nazi, com os seus óculos redondos sem aros. Que me recorda a sala que visitei em Auschwitz, cheia de óculos das vítimas do extermínio. Tão deslocados, tão abandonados.

E o fundo branco do laço, testemunho de um gosto simples e claro. Como se tratasse de um pedido de paz a alvorecer no meio da escuridão.

Na procura de um alívio à dor que esta foto me produz, reparo ainda que há duas mulheres atrás dela, na 3ª fila, que estão a olhar para o lado, como se não quisessem participar e, ao mesmo tempo, mostrarem que são críticas quanto ao que se está a passar. Eu sei que a fotografia “congela” um momento, não mais do que um momento, mas eu gostaria de acreditar que aquelas mulheres brancas sentem-se mesmo oprimidas por aquele clima. Que elas sabem que o ódio àquela jovem negra tem também laivos de um ódio dos homens a todas as mulheres, brancas ou não. E, por isso, não o querem alimentar.

Gostaria de acreditar, mas é difícil. Sabemos que, naqueles quatro dias em que Dorothy aguentou todas as humilhações e violências, mulheres com responsabilidades incitaram os alunos a expulsarem Dorothy, a cuspirem-lhe, etc.

Insultos, cuspidelas, pedradas… Olho para esta foto (e para a que ganhou a World Press Photo of the Year desse ano de 1957, da autoria de Douglas Martin, e que junto abaixo) e tento imaginar que horrores vivem emboscados no espírito destas pessoas que se riem e troçam desta criança.


Não consigo. Sei que tenho a mesma arquitetura básica que eles. Sei que existirá em mim, como para todo o ser humano, o potencial para inomináveis violências. Sei que há sempre quem queira aproveitar-se deste potencial e o manipula para benefício próprio. Por isso, mais do que estes jovens agressores, sei que me horrorizam os adultos (pais, professores, autoridades) que estiveram por detrás deles, e os formaram e os incitaram.

Mas não sei muito mais.


segunda-feira, julho 24, 2017

Contra o silêncio que alimenta a violência

As ideias importam.
As ideias contam.
As ideias traduzem-se muitas vezes em atos.
O silêncio que responde a ideias violentas não é um sinal de reprovação. É um sinal claro de apoio.
Num tempo em que está a deixar de ser vergonhoso defender publicamente ideias violentas contra seres humanos, textos como este de Fernanda Câncio são por demais importantes.
Subscrevo inteiramente todas as ideias aqui expressas.


Linchamentos Gentis e Outras Desventuras - Fernanda Câncio, Diário de Notícias, 24/07/2017

Não tinha qualquer intenção de escrever sobre Gentil Martins; prefiro não perder tempo com fanáticos. E assim seria, se não me tivesse dado conta de que as reações aos pronunciamentos do ex-bastonário numa entrevista ao Expresso incluem colunas de opinião em que quem os criticou é apelidado de "Gestapo", "Stasi", e "turba linchadora", ou o atual bastonário não tivesse dito coisas que não podem passar em branco.

Chamar Gestapo a alguém por se indignar com o facto de GM ter chamado anormais e doentes aos homossexuais é uma justa homenagem ao fanatismo do cirurgião pediatra: só a alguém igualmente incapaz de pensar fora da fobia ocorreria usar o nome da polícia nazi, associada à morte de milhares de homossexuais, para denominar os que se indignam por haver quem use em relação a este grupo o mesmo tipo de terminologia que os nazis usaram. E quem fala em "linchamento" de GM a propósito do que se considera ser a reação furiosa "das redes sociais" tem o mau gosto de fazer de conta que não sabe que linchamento, na acepção fatal do termo, é o que sucedeu a miríades de homossexuais ao longo da história humana - e sucede ainda hoje, como GM e os seus defensores não podem ignorar.

Porque, cabe relembrar, nunca ninguém foi exterminado ou linchado por apelidar os homossexuais de "anormais" ou "desviantes". Já quem mata e lincha homossexuais usa sempre esses termos. Estamos entendidos sobre quem cala e persegue e lincha quem e quanto ao potencial danoso das palavras de GM? Basta aliás, para perceber o que está em causa, questionar se algum dos que tanto defendem "o direito de opinião" de GM o faria se este, em vez de chamar "anomalia" à homossexualidade, tivesse dito o mesmo dos judeus - também durante séculos considerados "errados" e "doentios". Quem destas pessoas viria nesse caso a público invectivar os críticos de GM por exigirem um pronunciamento da Ordem em vez de se limitarem a "refutar" a sua "opinião"? Deixemo-nos de tergiversações: quem defende GM e aquilo que classifica como "o seu direito a expressar opiniões" apenas o faz por considerar aceitável a que expressou. Ou não se encarniçaria contra os que opinaram sobre a "opinião" de GM considerando-a ela sim anómala do ponto de vista científico e um desvio dos seus deveres enquanto médico.

É muito simples: foi como médico que GM deu a entrevista. A Ordem dos Médicos tem um mandato legal, público, para certificar que os profissionais por ela autorizados agem de acordo com as regras deontológicas e científicas em vigor; que não praticam o charlatanismo ou difundem falsidades científicas e ideias sobre saúde contrárias às legis artis e prejudiciais para a comunidade. Não é uma opção da Ordem; é uma obrigação. E tal como abriu um procedimento em relação a Manuel Pinto Coelho por este ter dado uma entrevista (também ao Expresso) a dizer que se deve beber água do mar e que usar protetor solar é um erro, não pode não o fazer face a um médico que qualifica a homossexualidade como anomalia, portanto doença ou afeção, e "desvio de personalidade", pronunciando-se publicamente com termos que pertencem à especialidade de psiquiatria, que não é a sua, e contra o consenso científico desta. Aliás o Conselho Nacional da OM fez um comunicado público, há pouco mais de um mês, a acusar Pinto Coelho de "defender práticas que podem constituir um atentado à saúde" (curioso, não se deu por qualquer movimento de defesa da "liberdade de expressão" deste clínico), acusação que o atual bastonário, Miguel Guimarães, repetiu numa entrevista ao Expresso anteontem. Mas, questionado sobre se o que GM disse é igualmente um atentado à saúde pública, foi muito mais cauteloso: "É uma questão diferente. (...) São [declarações] más para um grupo de pessoas que podem sentir-se segregadas". Para o bastonário, pelos vistos, o facto de as afirmações do médico GM não terem fundamento científico, serem discriminatórias e validarem discriminações não é um problema de saúde pública, é "de um grupo de pessoas". Ficamos a saber que para este sucessor de GM algo que afeta "só" os homossexuais não é um problema da comunidade.


A ideia, que tantos martelam nos media, de que é "preciso" defender uma "liberdade de expressão" entendida como a liberdade de um discurso discriminatório que atente gratuitamente contra a dignidade de indivíduos ou grupos não é só uma ideia estúpida e desonesta nos tempos em que esse discurso domina, com toda a virulência, as caixas de comentários e as tais "redes sociais". É uma ideia contrariada pela própria Constituição e pela Carta Europeia dos Direitos Fundamentais, pactos escritos da nossa comunidade que valorizam mais (e bem) a dignidade humana - portanto a liberdade de ser - que a liberdade de dizer. Porque o nosso princípio básico civilizacional é o respeito mútuo, a ideia de que o outro vale tanto como eu, tem os mesmos direitos, é igual a mim. Não tenho por isso o direito de o agredir a não ser em legítima defesa; não tenho por que sentir-me agredida pela sua mera existência. Esse sentimento, o de alguém se sentir ameaçado pelo que considera outro, é que é uma anomalia. Alimentá-lo, credibilizá-lo e tentar lucrar com ele é a negação de tudo o que estamos a tentar construir desde Auschwitz.
                                                                      

domingo, setembro 16, 2012

E depois da manifestação?

Estive na manifestação contra a Guerra no Iraque (com milhares de pessoas em Portugal e mais uns milhões de pessoas por todo o mundo).
Estive nas megamanifestações dos professores.
E noutras. Sabemos a resposta que obtiveram por parte do poder.


Fazer manifestações dá-nos a ilusão de que fizemos alguma coisa. Mas não fizemos nada, a não ser mostrar que “não estamos a gostar”. Daí até conseguirmos demonstrar que “não aceitamos” vai uma distância considerável. E exige de nós bastante mais do que a participação numa simples manifestação (por mais convictamente zangada e/ou cívica que ela se revele).

Uma manifestação pode ter algum efeito numa democracia plena. Há muito que não estamos a viver numa democracia plena.
Para enfrentar com sucesso o poder instalado (do qual o poder político é, na maior parte das vezes, apenas um mero testa-de-ferro) outros meios são necessários.

No regime em que estamos a viver, só nos restam dois tipos de meios: a luta armada (foi assim que o 25 de Abril foi feito, com as armas a liderarem a iniciativa) ou a resistência não-violenta, que eu prefiro (e que nada tem de passiva, note-se!), embora implique grandes sacrifícios pessoais e familiares.

Não há melhor exemplo que a clássica história dos acontecimentos que se iniciaram com Rosa Parks, em 1955, no Sul dos EUA. Tendo pago o seu bilhete num autocarro, mandaram-na levantar-se do seu lugar para que um branco se sentasse. Ela recusou. Foi presa.
Foi anunciado um boicote aos autocarros pela comunidade negra. Esse boicote durou 381 dias, tendo a maior parte das pessoas feito o sacrifício de andar sempre a pé. Mas a lei que permitia estas iniquidades mudou. A empresa teve de escolher entre a falência ou a justiça. Optou pela última.

É que esta linguagem (a que põe em causa os seus lucros) é a que os empresários, banqueiros, financeiros e economistas, cuja ganância tem levado as famílias e o país à ruína, entendem.

E nós? Perceberemos o que temos de fazer? E quereremos fazê-lo?

quinta-feira, agosto 30, 2012

Em direcção a uma vida simples



O que o Presidente do Uruguai nos sugere é uma coisa que está ao alcance de todos nós: sermos conduzidos pela aspiração apenas a uma vida simples. Que não deixe, no entanto,  de ser digna.
Digna aos nossos olhos, não por comparação com os outros. Digna para não termos de nos envergonhar perante o olhar dos nossos filhos, um olhar marcado pela fome, pela miséria, pela destuição do seu direito à felicidade. Daí que a pobreza fique excluída destas considerações.
Mas uma vida frugal, sim. O que o Presidente do Uruguai nos sugere é que não é consumindo que eu exerço o meu direito à felicidade, que eu chego a ser inteiro e livre. Não é por ter coisas e dinheiro e poder.
Voltemos então à noção de uma vida simples: uma vida em que o ser se sobreponha ao ter, uma vida em que o homem e a mulher não vendam aos bancos a sua liberdade e o respeito por si próprios.

segunda-feira, abril 25, 2011

25 de Abril

(...) Estive numa cela com Noémia Delgado e 17 camponesas, quase todas analfabetas, que lutavam por um horário de trabalho, inconformadas com a jornada de sol a sol.
Assisti ao sofrimento de mulheres sujeitas a espancamentos brutais, que mal podiam erguer-se, mas o caso que mais me impressionou foi o de uma idosa, vestida com uma saia preta furada por balas.
Era a única roupa que possuía para além da mortalha, que os filhos tinham comprado, a custo, julgando que não sobrevivesse a várias perfurações abdominais.
Tinha-a guardada debaixo da cama para quando morresse...
(Luísa Ducla Soares, JL, nº 1027, 10-23 de Fevereiro de 2010)

Recordo a tristeza cinzenta e pesada que permeava todos os nossos dias, a nossa respiração.

Recordo todos os que sofreram a perseguição, a tortura, a morte. Recordo principalmente aqueles que já nem do nome perdura a memória.

Mas sobre tudo e para além de todos, recordo os mais valorosos de entre os puros:

José Afonso



Salgueiro Maia



 O que hoje temos, a todos eles o devemos.
O que não temos, fomos nós que o estragámos, destruímos e deitámos fora...

quarta-feira, março 09, 2011

Homens da Luta

Porque é que eu gosto destes rapazes?
Por uma grande variedade de razões.
Primeiro, sem dúvida alguma, porque pensam.
Depois, porque não falam de cor, eles não só praticam o que dizem, como sabem do que falam.
Também, porque não há arrogância - o que é natural, quem reflecte realmente nas coisas não pode ser arrogante. Pelo contrário, nao enjeitam a prudência naquilo que pode ser perigoso para a sociedade.
Adicionalmente, repare-se como Jel fala sempre em termos de "nós", raramente em termos de "eu" (apenas em afirmações sobre as quais ele se quer responsabilizar).
A entrevista que aqui incluo é absolutamente brilhante: é um manancial de reflexões, de exemplos para a nossa vida. É uma entrevista para ser levada muito, muito a sério:



Nesta entrevista pós-Festival da Canção tocou-me particularmente a cortesia e a elegância de Jel em não se ter aproveitado de uma vantagem que ganhou ao jornalista (por ingenuidade deste, é certo), e em lhe ter dado uma saída com dignidade: a situação inicia-se no minuto 5:52 e dura apenas cerca de 30 segundos... porque Jel revela-se aqui um cavalheiro. Trata-se de mais uma entrevista brilhante, veja-se:



Para finalizar, incluo também um link com o texto "Um homem que luta" do Director da Sic Radical sobre Jel, também muito esclarecedor.

domingo, fevereiro 27, 2011

As derrotas não existem; o que existem são novas batalhas

Quando travamos uma batalha e perdemos, faz-se uma escolha: juntarmo-nos aos vencedores ou afastarmo-nos.
Para os que se afastam há um momento épico, o do afastamento. E, depois, pouco mais.
É-se ignorado, é-se esquecido, é-se afastado e cai-se na pobreza dos dias dedicados por inteiro à luta pela simples sobrevivência (dado que não se ficou com os vencedores).
Mergulha-se na obscuridade.
É muito difícil superar este estado, pois ficou-se sozinho, ninguém vem ajudar.
A única forma de não passarmos a ser parte dessa "austera, apagada e vil tristeza" é envolvermo-nos noutra batalha. Por muitos sacrifícios que isso implique. Para nos mantermos vivos.

domingo, fevereiro 13, 2011

No pasarán!*

17% é quanto tem de passar a pagar mais à Segurança Social em 2011, relativamente a 2010, quem ganha menos que o ordenado mínimo.
17% (dezassete por cento).

Mas...
(...), venha o que vier, nunca será
Maior do que a minha alma.

                                                         (Mensagem, Fernando Pessoa)

* Divisa que expressa a determinação de defender uma posição contra o inimigo