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sexta-feira, julho 07, 2023

Creches vão poder funcionar à noite e em contentores!?

 


Ainda mais oportunidades para negligenciar e maltratar crianças? Agora, por via legal?

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«Creches vão poder funcionar à noite e em contentores»

«Já há creches abertas até mais tarde, mas a portaria que entrou na quinta-feira em vigor prevê que possam funcionar “em permanência, incluindo período noturno e fins de semana”.»

«(…) forçou o Governo a rever regras para aumentar os lugares: vai ser permitido mais duas crianças por sala, converter espaços sem licenciamento, (…)»

«Para Susana Batista, a desburocratização era “urgentíssima”. Num levantamento aos associados, a ACPEEP concluiu que 25% têm “salas vazias” que podiam converter em salas de creche mas, para tal, tinham de fazer obras profundas, o que exigiria investimento avultado e tempo. “Agora é só equipar as salas”, frisa Susana Batista» (presidente da Associação de Creches e Pequenos Estabelecimentos de Ensino Particular). 

«A portaria prevê a isenção de novo licenciamento para a reconversão de espaços que já têm alvará para funcionar. Bastará aos estabelecimentos comunicar a mudança ao Instituto da Segurança Social.».

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Pergunto: o governo, em vez de garantir condições mínimas aos trabalhadores para poderem cuidar dos seus filhos, não está a sacrificar estes às “necessidades da economia e das empresas”? Ou seja, a entregá-las a um mundo cada vez mais desumano e mais selvagem?

Na minha opinião, "Agora é só equipar as salas" em salas que precisavam de "obras profundas" (que não quiseram ou não puderam fazer, tal devia ser o estado delas!) é entregar as crianças a autênticos abutres. Não tenho palavras para descrever quem dá carta branca para isto!


quinta-feira, junho 29, 2023

Contra a vitimização e o conformismo em alguns professores

 


Não concordo com os professores que escrevem, ou que dão publicidade a quem escreve, textos saudosistas sobre a Educação, em que o alvo primordial são sempre os estudantes (porque estão mal preparados, porque não vão às aulas, porque são distraídos, porque copiam nos trabalhos, etc., etc.). Não divulgo aqui nenhum desses textos porque precisamente não pretendo dar-lhes publicidade e porque todos sabemos do que falo aqui.

Concordo ainda menos que os professores divulguem publicamente que se conformam com a situação, que se tornaram maus professores, que ensinam menos e pior, que avaliam sem honestidade, etc., etc. Tudo sempre por culpa dos outros, normalmente dos alunos.

Eis as razões da minha discórdia:

  1. Este tipo de textos não atrai a simpatia para os professores de nenhuma parte da população (ao contrário do que dizem esses professores, ninguém fica contente com esta situação). 
    • Alunos? Detestarão ser retratados desta forma. Principalmente, aqueles que não são assim, que são muitos (e não os poucos que aqueles autores relutantemente admitem que apesar de tudo existem).
    • Pais? Nunca! Porque sabem que estes professores estão a defraudar descaradamente o futuro dos seus filhos.
    • O resto da população? Na melhor das hipóteses, encara estes textos (de queixa, de vitimização absurda) com indiferença. Nalguns casos, até poderão atrair a sua pena (o que duvido); no entanto, quem deseja ser objeto da piedade dos outros? Eu não, mas há gente para tudo. Na maior parte das vezes, eu diria que eles estimulam um sentimento de um cada vez maior desprezo pelos professores. 
    • E professores? Acredito que a maioria não se sente retratada por aqueles textos.
  2. Vemos outras classes profissionais (algumas muito, mas mesmo muito mais maltratadas do que os professores) a produzirem e a divulgarem este tipo de textos? Não. Não vemos médicos (nem  enfermeiros, nem técnicos auxiliares de saúde) a dizerem que os doentes saem mal tratados das suas mãos. Não vemos juízes a dizerem que as pessoas saem dos julgamentos como vítimas de decisões injustas. Etc., etc. Porque não o fazem? Porque sabem que, se dissessem este tipo de coisas, lançariam o descrédito total sobre toda a sua classe e estariam a atrair a raiva e o desprezo da população. E eles não são parvos.
  3. A atitude de culpabilização dos outros, nomeadamente dos alunos, reflete uma das opções mais perigosas que os seres humanos podem tomar: a de negarem a responsabilidade pelo que fazem. Sabemos da história o resultado trágico que isto dá. E não corresponde à realidade. Na verdade, se assumirmos a nossa responsabilidade, mesmo naquilo que somos obrigados a fazer, percebemos que temos, ainda assim, uma razoável margem de manobra, de liberdade e de autonomia. Quando decidimos não assumir a responsabilidade, fazemos como os autores daqueles textos: não só traímos a missão para que fomos contratados (e pela qual estamos a receber dinheiro), como pouco fazemos para melhorar a situação de todos no dia-a-dia. Ou seja, tornamo-nos em conformistas do pior tipo: aquele que colabora com o jogo dos opressores e que não tem vergonha de revelar em público a sua condição de conformista (muitas vezes, para atrair mais conformistas para o seu lado). Não precisamos deste tipo de professores. Aliás, a bem dizer eles nem são professores, são pseudoprofessores.
  4. Este tipo de textos saudosistas de uma idade do ouro da educação promove uma ideia totalmente falsa: é que essa idade do ouro nunca existiu. O que existiu sempre, desde a Antiguidade Clássica, foram velhos a queixarem-se de que os jovens não querem aprender, que não querem trabalhar, etc. Os séculos passam, impérios nascem e caem, mas o discurso é sempre o mesmo. Céus, já chateia!
  5. Estes textos promovem uma visão do professor como vítima dos outros. É um mau lugar para escolher estar. Sentir-se vítima faz com que as pessoas percam discernimento e energia para as lutas, essas sim que são muito necessárias travar. Quer a nível individual, no dia-a-dia (servem para mantermos a nossa autoestima); quer a nível coletivo (as únicas que podem dar algum resultado significativo para todos).
  6. Naqueles textos, apresenta-se uma imagem do professor que dá argumentos fortíssimos aos que defendem a sua substituição por filmagens ou por robôs. Na verdade, para fazer aquilo que nesses textos os autores dizem que fazem, para que é que é preciso um professor real? Pelo menos, estas alternativas não se vão andar a queixar. E até acredito que estas tecnologias sejam capazes de fazer um trabalho melhor do que eles… 
  7. Divulgar este tipo de textos dá palco a indivíduos protofascistas, com discursos nostálgicos e reacionários sobre “os bons velhos tempos” a que, segundo eles, é preciso regressar. Além disso, eles transportam muitas vezes esta maneira de pensar para denegrir outras áreas como a da igualdade de direitos e de oportunidades entre todos os seres humanos.
  8. Finalmente, estes textos a culpabilizar os alunos afastam a atenção das pessoas dos verdadeiros culpados: governos e, acima de tudo, uma sociedade implacavelmente capitalista e consumista.

Em suma, os autores deste tipo de textos parecem que estão a ser empáticos e isso pode ser agradável no momento para os professores que se sentem incompreendidos. Porém, na verdade, o que eles estão a fazer é a desmoralizar, a depreciar e a debilitar aqueles professores que têm brio na sua profissão e que o querem manter, não importa quais sejam as circunstâncias adversas que possam encontrar no seu caminho.


domingo, maio 28, 2023

Crianças discriminadas como seres não humanos

 

(Booking.com, página consultada em 20-05-2023)

Vi as fotos que uma amiga publicou de uma quinta no Douro. Fiquei com vontade de dar um mergulho naquela piscina. Procurei pelo nome, "não aceitamos crianças". Foi na mesma semana em que o B. me falou de um lugar incrível que havia no Algarve, "não aceitamos crianças com menos de cinco anos", avisava esta unidade hoteleira. Pensei fazer uma lista de todos estes nomes onde, se não aceitam o meu filho, também não me aceitam a mim. Depois, percebi que isto de ter espaços childfree - livres de crianças - está a alastrar. Há quem faça convites de casamento "só para adultos". Por mais que perceba que as crianças podem ser barulhentas, foram os adultos quem sempre me incomodaram. Fazerem das crianças um filtro na pesquisa de alojamento é muito discutível. Daqui a pouco, temos filtros para encontrar hotéis "gordosfree", "velhosfree", "mulheresfree"...

(Joana Almeida Silva, JN de 27-05-2023)

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Um mundo, qualquer mundo, sem crianças é um mundo onde a morte começa a instalar os seus arraiais. As crianças simbolizam o início, a renovação, a inocência e, acima de tudo, a alegria. Bem tristes devem ser as pessoas que não conseguem ver isto para além das birras e de outros comportamentos. Que são sempre, mas sempre, sempre, muito menos graves do que a selvajaria (ver parágrafo a seguir) de que os adultos são capazes (e que praticam, sim, claro, em todos os lados incluindo nesses lugares que proíbem a presença de crianças).

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Jornal de Notícias de 04-06-2023:


Bárbaro homicídio de criança de três anos à pancada e com torturas (...)

A semana de 14 a 20 de junho em que Jéssica esteve em cativeiro na casa dos homicidas, no Beco do Pinhana, foi de terror para a menina. Agredida de forma brutal, foi-lhe atirado um líquido abrasivo para a cara que a desfigurou e foi usada para tráfico de droga. A autópsia identificou 125 ferimentos no seu corpo (ver texto ao lado). Colocaram-lhe até cocaína à força dentro do corpo.

(...)

Em seis páginas do relatório da autópsia que consta na acusação aos alegados homicidas de Jéssica, o Ministério Público (MP) aponta 125 golpes no corpo da menina, incluindo o derrame de um produto abrasivo na face que lhe removeu por completo a pele do nariz e buço. Só na cabeça, são 25 os golpes, outros 60 nos braços e pernas, 30 no peito, seis no abdómen e cinco na zona genital.

Cristina e os filhos desta, Eduardo (o único em liberdade) e Esmeralda, de acordo com o MP, na semana de 14 a 20 de junho, utilizaram a menina como "mula" de droga e violaram-na, introduzindo-lhe cocaína no ânus, numa viagem entre Leiria e Setúbal.

(...)

Em maio, a menina já tinha sido entregue aos raptores durante dois dias por causa de uma primeira dívida de Inês por um serviço de bruxaria no valor de 100 euros. Ela conseguiu pagar, mas quando Jéssica lhe foi devolvida, estava tão maltratada e ferida, que "apenas se alimentou de líquidos durante uma semana", pode ler-se na acusação. Isso não impediu que, a 14 de junho, Inês a entregasse de novo. Desta vez, não sobreviveu.

Estas unidades hoteleiras receberiam estes adultos sem problemas, mas recusariam admitir a criança...

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Revolta sempre que se fazem generalizações abusivas a partir de uma minoria de casos. Porque a esmagadora maioria das crianças, na esmagadora maioria do tempo, porta-se bem – e eu sei do que falo, pois fui professor durante a maior parte da minha vida profissional (e não foi em escolas de elite!). Revolta, principalmente, que haja hotéis (sim, no Algarve também) que anunciam “Não são permitidas crianças”, como se se tratasse de animais e não de seres humanos.

E acima de tudo, dói que este tipo de discriminação não suscite uma revolta generalizada. Se fosse qualquer outro grupo da população, vulnerável e sem voz, o escândalo seria enorme. Com as crianças, acha-se natural.

quarta-feira, maio 03, 2023

Contra um país injusto, contra um país oprimido pela pobreza

 


Para as pessoas que desconhecem qual o meu posicionamento político (entendido no sentido lato e não de partidos), esclareço aqui o seguinte:

Eu estou sempre do lado dos mais fracos e dos derrotados. E sempre contra os violentos, contra os malvados, e contra os ofensivos e desrespeitosos. Acima de tudo, estou contra os carrascos e seus mandantes, colocando-me irredutivelmente do lado das vítimas. 

Nada disto tem a ver com a religião, porque sou, além de ateu, antiteísta na medida em que considero que a ideia de deuses trouxe mais horrores à humanidade do que benefícios. Portanto, absolutamente nada a ver com religiões.

Assim, nunca estive, estou ou estarei do lado de quem envolve os seus povos em guerras (para mim, dentro das soluções inaceitáveis, a guerra é a mais inaceitável de todas). Por isso, por exemplo, nunca salazarista, nunca putinista.

Além disso, não sou um fanático nem do cada um por si, nem da subjugação ao coletivo. Embora simpatize com as formas moderadas de ambas as posições: gosto de ter liberdade para fazer o que quero, ao mesmo tempo que acredito que devo alguns esforços e sacrifícios em prol do bem comum (do qual beneficio e, portanto, que tenho o dever de retribuir pelo menos em parte).

E só sou contra os fortes (incluindo os ricos) quando abusam do seu poder e da sua riqueza, lançando os outros na miséria.

Vejamos como isso acontece.


Recordemos como o Estado (isto é, todos nós) tem gasto muito mais do que isto com os bancos todos os anos:

“A Banca custou ao Estado 22 mil milhões de euros entre 2008 e 2021.”

22.000.000.000 € / 13 anos = 1.692.307.692€ por ano

Ou seja, cerca de 1700 milhões de euros por ano. Desta vez, foram “só” 459 milhões de euros! Mas o suficiente para fazer duplicar, note-se, duplicar o défice!

Claro que isto ajuda a que os bancos


O que dá mais de 10 milhões de lucros... por dia! À custa de famílias que vão perdendo as suas casas porque as prestações aumentaram brutalmente, chegando em muitos casos a mais do que duplicar em poucos meses!

Como eu gostaria de ouvir os partidos de direita a reagirem contra isto! Mas só os ouvimos a bramar contra o Rendimento Social de Inserção (RSI). Vamos comparar.

Nos últimos anos, o Estado tem gasto com o RSI, por ano, entre 300 e 400 milhões de euros. Mas a beneficiar perto de 200 mil pessoas e 100 mil famílias em dificuldades. Em vez da meia dúzia de bancos e de banqueiros com ordenados milionários.

Mas o problema não está só nos bancos…


Para dar estes dividendos (e isto só no PSI, isto é, nas empresas com mais de 1000 milhões euros de capitalização), nem consigo imaginar quantos terão sido os lucros!

Na verdade, não somos um país pobre, somos um país que está a ser claramente empobrecido pelos mais poderosos e mais ricos! 

Uma das formas que eles usam para empobrecer o país é pagando salários baixos e promovendo a precariedade.

Segundo o estudo Faces da pobreza em Portugal (2021), da Fundação Francisco Manuel dos Santos (p.19.), 32,9% (um terço) dos pobres em Portugal são trabalhadores. Isto é, são pessoas que com o que ganham não conseguem deixar de ser pobres, de tal maneira são mal pagos.

E, para quem acha que os pobres são uns malandros que não trabalham, será útil ver, segundo o mesmo estudo, os perfis da pobreza em Portugal:

1. «Trabalhadores»: 32,9%;

2. «Precários»: 26,6%;

O que é um “precário”? É

Uma pessoa que está numa relação laboral, no contexto da qual não consegue aceder a uma série de direitos que estariam afetos a essa relação laboral, por exemplo, a estabilidade, a remuneração garantida e periódica, o acesso a uma indemnização quando deixa de estar vinculada e o acesso a um sistema de saúde.

32,9 + 26,6 = 59,5%. Ou seja, mais de metade dos pobres trabalha!

3. «Reformados»: 27,5%;

4. «Desempregados»: 13%.

Portanto, os desempregados pobres que não trabalham e, eventualmente, talvez pudessem fazê-lo (digo talvez, porque aqui se incluem os doentes, os incapacitados, os que temporariamente estão sem trabalho, os analfabetos digitais, etc.), são pouco mais de 10% do número total de pobres.

Repare-se que, segundo o jornal online ECO,

A taxa de desemprego nunca foi tão baixa (5,8%) nem o número de pessoas empregadas foi tão elevado (4,9 milhões numa população ativa de 5,2 milhões pessoas).

Ou seja, apenas cerca de 300 mil pessoas estão atualmente desempregadas. Parece ótimo, não é verdade?

No entanto, segundo Luísa Loura, diretora da Pordata, e António Costa, primeiro-ministro de Portugal, sem apoios sociais, 4, 4 milhões de pessoas são pobres (têm rendimentos abaixo do limiar da pobreza - 554 euros mensais); passando para 1,9 milhões após as transferências sociais.

Como ficam as crianças neste panorama? Podemos imaginar, mas não é preciso, os números estão aí:

Segundo o Diário de Notícias

Cerca de uma em cada quatro crianças portuguesas com menos de 18 anos (22,9%) vivia, em 2021, em situação de pobreza ou exclusão social. (Eurostat)

E, segundo a ministra do Trabalho e da Segurança Social, Ana Mendes Godinho, o número de crianças em pobreza extrema, a nível nacional, é de 170 mil.

Lembremos que, há pouco mais de 2 anos, a Unicef alertou para os níveis crescentes da pobreza infantil em Portugal. Portugal era, a par de Itália e da Grécia, um dos países onde havia uma maior relação entre a pobreza infantil e a escassez de investimento em prestações familiares. Num relatório em que a Unicef admitiu que nos próximos cinco anos estes números deveriam aumentar.

É este o país que queremos? Onde até a vida e o bem-estar das crianças é completamente desprezado pelo grande capital? Eu não quero.

E termino, dizendo com Albert Camus:



domingo, abril 16, 2023

Como Portugal se encontra em 2023 e como as crianças são prejudicadas pela ganância da sociedade

 


Começamos com um gráfico publicado em R. Wilkinson and K. Pickett (2009). The Spirit Level: Why Greater Equality Makes Societies Stronger. London: Bloomsbury Press.

Por aqui vê-se que, nos países onde há menos desigualdade de rendimentos (ou seja, onde os rendimentos se encontram melhor distribuídos), há menos problemas sociais e de saúde. Sem surpresa, vemos como as sociais-democracias do Norte da Europa estão bem situadas. 

Um pouco surpreendentemente, vemos que Portugal é o pior a seguir aos Estados Unidos: estamos muito mais próximos do capitalismo dos E.U.A. do que da social-democracia do Norte da Europa. Mais problemas sociais e de saúde significam, evidentemente, uma vida muito pior para as crianças (que não têm meios para superar por si sós esses problemas).

Notemos que este gráfico foi elaborado com dados de antes do crash financeiro de 2008/9, de antes da “Troika”, de antes da pandemia, de antes da Guerra da Ucrânia, e de antes da inflação atual.

Três interrogações se impõem.

Primeira. Porque não seguimos o exemplo das sociais-democracias do Norte da Europa? Não teríamos que inventar nada, trata-se de imitar apenas; então, porque não fazemos algo de tão simples? Vamos ver que é porque não há vontade política.

Segunda. Será porque não criamos riqueza? E, portanto, simplesmente não há dinheiro para distribuir? Vamos mostrar que há.

Terceira. Depois de todos os acontecimentos acima invocados (crash, etc.), será que estaremos em pior situação do que antes de 2009? Vamos descobrir, sem surpresa, que a resposta é um rotundo sim: sim, estamos muitíssimo pior.

Para podermos responder a estas interrogações, façamos uma pequena pesquisa às notícias dos jornais nas últimas semanas (os sublinhados são meus).

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Consultemos o Ranking da Felicidade baseado na média dos três anos, de 2020 a 2022, divulgado ontem pelo World Happiness Report 2023:


Aqui, já ficámos pior que os E.U.A. E não surpreende excessivamente que Portugal tenha caído da 34ª para a 56ª posição.

De notar, como dentre os 10 países mais felizes, 7 são as sociais-democracias do Norte da Europa (8, se contarmos com a Suíça que também tem uma baixa desigualdade de rendimentos).

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Vamos, então, ver o que se passa nos E.U.A.

No "The Wall Street Journal", em 2 de março de 2023, é dada esta notícia:

Os lucros dos bancos caíram 6% no ano passado [2022], uma vez que a guerra, a inflação e as taxas [de juro] mais altas prejudicaram os resultados.

E em Portugal? Já sabemos que, de acordo com os maiores responsáveis do país, nós somos muito vulneráveis a crises na Europa e nos E.U.A. Portanto, aqui não haverá surpresas, certamente que estaremos piores do que eles. Ou não...?

No Jornal de Notícias de 11-03-2023:

Os cinco maiores bancos que operam em Portugal tiveram lucros de 2583 milhões de euros em 2022, mais 71% do que em 2021, quando o valor agregado foi de 1511,7 milhões de euros. Em média, somaram sete milhões de euros de lucros por dia.

Em particular (Jornal de Notícias de 13-03-2023):

  • O Montepio quintuplicou, 
  • o Novo Banco triplicou, 
  • o Santander duplicou, 
  • o Millennium BCP ficou-se pelos 50,3%, 
  • a CGD cresceu 44,5% 
  • e o BPI não foi além de uns míseros 19%.

Estes resultados foram obtidos no ano em que aconteceu a Covid-19, a Guerra na Ucrânia e a inflação galopante que continua atualmente. Ano de grande crise, a acreditar nos nossos responsáveis políticos e económicos.

Como terão os nossos bancos conseguido? Teremos GÉNIOS na nossa banca? Infelizmente, talvez não,…


Bom, assim também eu... 

Mas talvez estejamos a ser injustos. Afinal, os bancos precisam mesmo disto porque não tiveram ajuda de ninguém para ultrapassar as consequências da sua irresponsabilidade e da sua incompetência nos últimos anos... Ou tiveram?

No Jornal de Notícias de 13-03-2023:

A Banca custou ao Estado 22 mil milhões de euros entre 2008 e 2021. 

Note-se que o Estado não produz riqueza, portanto fomos todos nós, os contribuintes que "oferecemos" aquele dinheiro aos bancos.

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Esta quantia é tão gigantesca (22.000.000.000 euros) que não fazemos ideia do que ela representa. Façamos, enão, um exercício simples.

Um carrinho de supermercado cheio de produtos básicos talvez custe hoje em dia cerca de 100 euros. Logo, aqueles 22 mil milhões dariam para 220 milhões de carrinhos de supermercado.

Há 1,9 milhões de pobres permanentes (mesmo com a ajuda do Estado)

Então, teríamos para cada um dos pobres (considerados individualmente, criança, adulto, idoso, não como família) que continuam pobres mesmo depois dos apoios sociais, 116 carrinhos de supermercado, se aplicássemos aquele dinheiro a ajudá-los.

Assim, já começamos a ter uma ideia da dimensão daquela quantia descomunal que tiraram dos nossos bolsos para passá-la para os bancos.

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Aqui surge uma nova interrogação:

Não estaria na altura de os bancos começarem a agradecer e a retribuír esta nossa extraordinária generosidade? Por exemplo, remunerando melhor os depósitos e baixando o custo global do crédito?

Não, não, não, NÃO, NUNCA!!! NEM PENSAR!!!

Vítor Bento,  presidente da Associação Portuguesa de Bancos, explica-nos com simplicidade porquê, no Expresso Economia de 11-11-2022:


Por outras palavras, 

Curioso ainda um presidente desta associação não saber o que é um lucro excessivo, aquilo que um Zé da Esquina qualquer sabe. Na verdade, é impressionante como, no nosso país, pessoas ignorantes conseguem chegar a cargos de topo como este!

Ou então, uma explicação alternativa, é Ricardo Petrella que tem razão, numa entrevista na Economia Pura, nº11, pp.18-19) em relação às escolas de Gestão que ensinam (mal!) estas pessoas? 

Não vemos diferença entre as escolas militares e as escolas de gestão. Foi por isso que propus há muito o encerramento das escolas de gestão, de “management business administration”. Estas escolas não ensinam. O que fazem é ensinar a matar. Formam matadores, conquistadores, winners. Não ensinam a gerir uma empresa.

A verdade é que estes cursos de Gestão já atraem estudantes com valores mais elevados naquilo que na Psicologia se chama de Tríade Obscura (Dark Triad): narcisismo, maquiavelismo e psicopatia (Vedel, A., & Thomsen, D. K. (2017). The Dark Triad across academic majorsPersonality and Individual Differences, 116, 86-91.). O que explica de um Vítor Bento e de outros.

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Infelizmente, não são só os bancos a não ter nem ética nem humanidade.


Ou no Jornal de Notícias de 11-03-2023:

No comércio a retalho, os portugueses são todos os dias roubados. Aos preços de produtos de primeira necessidade são impostas escandalosas margens de lucro. Segundo a ASAE "no retalho, registámos margens médias de lucro bruto, referentes ao ano de 2022, entre: 20% e 30% (açúcar branco, óleo alimentar, dourada); 30% e 40% (conservas de atum, azeite, couve-coração); 40% e 50% (ovos, laranja, cenoura, febras de porco); e mais de 50% (cebola)". Este roubo prossegue em 2023.

Ou no Observador de 25-01-2023:

Sonae MC, dona dos hipermercados Modelo Continente, fechou 2022 com um volume de negócios de 5.978 milhões de euros, o que traduz uma subida de 11,5% face aos 5.362 milhões registados em 2021. É o valor mais elevado de sempre. 

Ou no Jornal i de 10-11-2022:


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Cada vez se torna mais premente a interrogação: Quem é mais afetado por isto? Ou seja, quem é que tem menos capacidade para fazer frente a estas dificuldades?

A resposta é, claro, as crianças. E, depois, os pobres.

Como nos diz Gonçalo M. Tavares, na sua coluna no Jornal de Notícias de 12-03-2023:


Mas há mais:


Bom, estes valores não surpreendem quando vemos a seguinte notícia no Expresso de 14 de Abril de 2023 que 
Desigualdade salarial nas grandes empresas quase duplicou. Remuneração dos gestores subiu 47% em 10 anos, a dos trabalhadores recuou 0,7%.
Ou que, no Expresso Economia de 14 de Abril de 2023

CEO do PSI ganham 36 vezes mais do que os seus trabalhadores. Pedro Soares dos Santos, da Jerónimo Martins, tem o maior fosso salarial, ganha 186 vezes o salário médio bruto dos trabalhadores da Jerónimo Martins. Na Sonae, o salário de 82 trabalhadores não cobre o de Cláudia Azevedo. Moura Martins ganhava na Mota-Engil 49 vezes mais do que trabalhadores. Miguel Stilwell faturou €1,8 milhões, cerca de 42 salários médios da EDP. No BCP é preciso somar 34 salários médios para atingir o de Miguel Maya.


Ao mesmo tempo que, no Porto Canal, se lê:

Metade da população portuguesa recebe um salário abaixo dos 1050 euros brutos. (...) Além disso, as mulheres ainda não chegam a esse valor, uma vez que em 2021 metade das mulheres recebia apenas cerca de 987 euros por mês.

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O dinheiro não nasce das árvores, nem cai do céu. Para uns ganharem, alguém tem de perder, como acabámos de ver. Mas, em concreto, quanta miséria se criou e se mantém, em particular entre as crianças, por causa desta situação?

Por acaso, até podemos responder a esta pergunta - no Barómetro da DECO PROTESTE (15-03-3023):

Cerca de três quartos (74%) das famílias enfrentam, mensalmente, dificuldades financeiras, sendo que 8% se encontram em situação crítica: têm dificuldade em pagar todas as despesas ditas essenciais (mobilidade, alimentação, saúde, habitação, lazer e educação). 

Aliás, segundo Luísa Loura, diretora da Pordata, em 2020: 

Sem os apoios sociais, 4, 4 milhões são pobres ou têm rendimentos abaixo do limiar da pobreza [554 euros mensais], o que passa para 1,9 milhões após as transferências sociais", explica Luísa Loura, diretora da Pordata.

Confirmado pelo primeiro-ministro na Assembleia da República.

Sobre as crianças, também podemos ter a resposta, vinda da própria ministra Ana Mendes Godinho do atual Governo. No Jornal de Notícias de 24-01-2023:

Em Gaia existem 4492 crianças em situação de pobreza extrema, afirmou a ministra do Trabalho e da Segurança Social, Ana Mendes Godinho (...) sublinhando que a nível nacional o número ascende às "170 mil".

Saliento que não se trata de pobreza simplesmente, é «pobreza extrema»!

E, para estas crianças, sair da pobreza é fácil? Não, não é. Em Portugal, demora em média 5 gerações, mais de 100 anos, como indica o Relatório da OCDE de 2018:


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Aqui, começa a impor-se uma nova pergunta: Qual o nome da ideologia que favorece uma situação como esta? A resposta é clara: Capitalismo (em todo o seu esplendor, diga-se de passagem!).

E quais as causas desta situação no nosso país? Na verdade, como disse atrás, só tínhamos que imitar as sociais-democracias do Norte! Porque riqueza produzimos e temos, como se viu. Porque não o fazemos?

Várias respostas surgem: a corrupção, a ganância, alguma desinformação, o desprezo dos dirigentes pela população em geral, etc. Ao que a população portuguesa vai respondendo, mas com um certo conformismo resignado (penso que se trata ainda de sombras longas do fascismo que não desapareceram).

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Mas não é só aqui que as crianças estão mal. Ainda esta semana, se soube que…

No Expresso de 11-03-2023:

“Já tivemos crianças de 11 anos aqui” - O alerta é dado pela equipa da maior urgência de pedopsiquiatria do país: no Hospital de Dona Estefânia, em Lisboa, são cada vez mais os jovens que tentam suicidar-se. Os números duplicaram em quatro anos, segundo Gonçalo Cordeiro Ferreira, o diretor da Pediatria Médica da unidade. 

Ou no Jornal de Notícias de 14-03-2023:

A violência nas escolas está a atingir proporções alarmantes, sendo que muito do bullying não chega sequer ao conhecimento dos professores, pais ou autoridades. Só aqueles em que o maltratado necessita de tratamento hospitalar. (...) Há evidências claras de que as escolas estão sobrecarregadas, o que leva a um mal-estar constante e se traduz num aumento de casos de bullying, automutilação e até tentativas de suicídio

Ou no Jornal de Notícias de 11-03-2023:

(…) acidentes rodoviários são a principal causa de morte entre os cinco e os 29 anos, (…) “A nossa geração mais jovem, se já não está a ir para o estrangeiro, está a morrer nas nossas estradas. (…)”

Ou no Público de 11-03-2023:

A invalidade de metadados (…) já destruiu dezenas de casos de pornografia infantil, tanto durante a investigação como na fase de julgamento. Quem o diz é Pedro Verdelho, director do Gabinete de Cibercrime, que coordena a actividade do Ministério Público na área da cibercriminalidade.

De notar que não é "A invalidade de metadados (...)", mas sim de "A lei dos metadados mal feita pelo Governo e pelo Parlamento (...)".

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Mas já chega de más notícias (e houve muitas que eliminei!). Vamos acabar com uma boa notícia: a Delta Cafés aderiu à campanha "Nem Mais Uma Palmada"!


quarta-feira, junho 15, 2022

Uma utopia para a Escola

 

(…) a utopia socialista não é o fim do trabalho, mas a libertação da criação humana para trabalhos com sentido. (Raquel Varela - Qual o sentido do trabalho?)

No entanto, na minha opinião, se não se começa por garantir exatamente esta revolução no trabalho escolar, as crianças e jovens, quando chegam ao mundo do trabalho, já se encontram habituados e formatados para o trabalho alienante, aceitando-o como natural e inevitável. Ou seja, é nas condições de trabalho escolar que estão as sementes daquilo que defendemos que seja o trabalho posterior na idade adulta.

Por isso, seria fundamental o estudo das atuais condições de trabalho nas escolas, quer as materiais (alguns exemplos: mobiliário igual para todos os tipos de corpos, cadeiras duras e desconfortáveis, extremo frio e extremo calor, etc.), quer as imateriais (alguns exemplos: a competição disfarçada ou explicitamente promovida; o confinamento a um lugar sentado com saídas controladas ao longo de um dia inteiro; exigências excessivas que só miúdos de famílias socioeconomicamente favorecidas conseguem cumprir, nomeadamente com recurso a múltiplas explicações ao longo dos anos; etc.).

Trata-se, portanto, de propor uma utopia primeiro e principalmente para as escolas. Mas se, hoje em dia, já não se fala muito de utopias para a sociedade, sobre as escolas desceu então um manto de sufocante silêncio.

A minha utopia para a escola pode ser expressa introduzindo adaptações mínimas (por mim indicadas com […]) a um trecho de John Bellamy Foster do livro “Trabalhar e Viver no Séc. XXI” (p.19):

(…) Outros defenderam a necessidade de transcender todo o sistema de [ensino] trabalho alienado, fazendo do desenvolvimento de relações de [aprendizagem] trabalho criativas o elemento central de uma nova sociedade revolucionária. (…)

Eu pertenço ao grupo destes “outros”.

sexta-feira, outubro 29, 2021

Não aprovação do Orçamento de Estado para 2022


Vamos supor por uns momentos que António Costa (AC) não é estúpido.

Um homem que saiu do Governo de Sócrates antes dos escândalos que o abalaram (passando estranhamente de ministro para presidente de câmara, é certo que de Lisboa); que negociou brilhantemente para unir a esquerda a fim de governar (note-se, depois de ter perdido as eleições), algo que nunca antes tinha sido conseguido por ninguém; que manipulou sempre o Parlamento para que ele nunca fizesse algo radicalmente contra a sua vontade (lembro o aumento dos professores em que AC levou o PSD a recuar atabalhoadamente; ou quando fez com que o PSD propusesse e aprovasse uma regra que evitou a sua ida frequente à Assembleia da República); que tem vindo a anular o peso dos partidos à sua esquerda no eleitorado; que “secou” a oposição por parte do PSD; etc.

Bom, proponho que um homem destes pode ser considerado sem favor um génio político (que é o que eu acho que ele realmente é – e a História há de lhe fazer justiça).

Sendo assim, várias interrogações se me levantam:

Porque é que Passos Coelho deu, por exemplo, a vice-presidência do seu governo ao partido à sua direita e AC nunca deu um lugar que fosse no seu governo a nenhum dos partidos à sua esquerda (por exemplo, os ministérios da Cultura ou do Ambiente; ou uma Secretaria de Estado da Cidadania e a Igualdade, ou do Património Cultural)?

Porque é que, nos últimos meses, AC se recusou terminantemente a remodelar o governo, mesmo sabendo que essa era a vontade da maioria dos eleitores portugueses?

Porque é que, desde as últimas eleições legislativas (em que ele não teve a maioria absoluta que desejava), ele tem vindo a insultar cirurgicamente o principal líder da oposição e o Bloco de Esquerda, e a humilhar o PCP, alienando a sua boa vontade?

Porque é que ele foi intransigente e não aceitou o suficiente do PCP e BE (cujas propostas me pareceram muito razoáveis - principalmente justas -, nada radicais, até oportunas dado que temos este ano um pouco de folga orçamental para as aplicar) de modo a eles poderem salvar a sua face ao abster-se? Colocando as suas cartas de forma a deixar o PCP e o BE numa "no-win situation": o que quer que eles fizessem, ficariam a perder (e, nomeadamente, a perder votos, como se tem vindo a verificar nos últimos anos)? E, pelo contrário, passou sempre a mensagem de que a intransigência estava do lado do BE e do PCP, quando todos sabemos que para haver teimosia tem de haver dois teimosos, não basta um só? 

Para finalizar: como é que este génio político, mestre de negociações impossíveis, fracassa totalmente na aprovação do Orçamento, chegando ao ponto de não ter, no Parlamento, nenhum partido além do seu a votá-lo favoravelmente?

A resposta é: não foi um fracasso! Obedeceu antes a uma estratégia cuidadosamente pensada, planeada e executada, para chegarmos a eleições antecipadas onde os partidos à esquerda são vistos como os “maus da fita” (quando não lhes foi dada hipótese nenhuma de proceder de modo diferente) e os partidos à direita estão envolvidos em lutas fratricidas. Ou seja, o cenário ideal para alcançar a tão desejada maioria absoluta.

Cereja em cima do bolo: quer ganhe, quer perca as eleições (cenário absolutamente improvável), AC ganha sempre porque, se perder, a culpa terá sido sempre dos outros e não sua.

Há apenas uma carta que ele não controla totalmente, que é o Presidente da República. Daqui pode vir uma surpresa que estrague o planeado (eleições, contra um BE e um PCP enfraquecidos, e com o PSD em lutas intestinas). Mas atendendo a que Marcelo tem contas antigas a ajustar com o PSD (e tem-no feito sempre), pode ser que nada aconteça de surpreendente. Mas nunca se sabe... 

O certo é que António Costa é um homem muito inteligente, que ouve os outros (é inverosímil acreditar que tudo isto venha só da cabeça dele, deve ter "think tanks" que o aconselham, e ele ouve-os realmente, muito provavelmente sem seguir acriticamente tudo o que eles lhe dizem) e que é um autêntico mestre de xadrez (que antecipa muitas jogadas à frente e sabe bem aproveitar-se da ingenuidade e dos passos em falso dos adversários).

sexta-feira, outubro 15, 2021

Aproveitando para esclarecer alguns lugares-comuns

 


Um conhecido meu enviou-me a última crónica de Miguel Sousa Tavares, "O Dinheiro", de 09/10/2021, publicada no Expresso. Para eu lhe dar a minha opinião.

Esta foi a minha resposta que eu lhe enviei (omito aqui qualquer referência identificativa, para garantir a sua total privacidade):


"Meu caro,

Muito obrigado pela sua atenção. Confesso-lhe que foi muito educativa esta leitura.

Não se assuste com o que vou dizer agora: acredita que desde há uns bons 20 anos que eu me recuso a ler ou a ouvir o que quer que seja do Miguel Sousa Tavares? Porquê? Porque acho-o uma pessoa muito pouco séria, muito pouco informada e um grande manipulador de emoções.

Assim, na verdade, recebi este seu mail como uma bela oportunidade para verificar se ele entretanto mudou ou continua na mesma (ou, quem sabe?, terá ficado pior).

Foi, portanto, com muita curiosidade e muito interesse que li este artigo “O Dinheiro”, publicado no Expresso de 9/10/2021.

É certo que ele diz aqui algumas (poucas) coisas que não me parecem incorretas: por exemplo, sobre os benefícios da social-democracia, com o que concordo genericamente.

Mas, ao mesmo tempo, diz verdadeiras barbaridades. Que passo a discriminar.


«O dinheiro (…) destrói casais, afasta irmãos, estilhaça famílias, espalha o ódio e a inveja onde antes reinava uma harmonia, talvez pobre, mas pacífica.»

O quê??????

A pobreza pode levar a tudo menos a harmonia e a paz! Pelo contrário, facilita por demais uma extrema violência. Só para dar um exemplo, segundo o estudo "Geração XXI" que já referi várias vezes nas minhas conversas, os 10%, repito, 10% das crianças (75% sofrem maus-tratos ditos “normais”) que são realmente maltratadas com extrema violência (são vítimas de sovas com objetos duros, de chicotadas com cintos, de queimaduras infligidas com água a ferver ou com fogões ligados, etc.) pertencem a famílias mais pobres. Onde vê Miguel Sousa Tavares a harmonia e a paz no meio da pobreza? Só se for nos manuais de propaganda do Estado Novo.


«Certos povos do Norte, de tradição luterana, temem o dinheiro e o seu poder nefasto sobre as frágeis almas humanas. Desconfiam das grandes fortunas, taxam-nas com impostos, perseguem-nas com uma crítica social (…) Mas ai dos ricos desses países do Norte que se atrevam a fugir ao Fisco, a refugiar-se em offshores, (…)»

O quê????!!!!

Mas alguns desses países ricos do Norte são eles próprios uma certa forma de offshores: por isso é que a maior parte das nossas empresas de topo (do PSI-20) não pagam impostos aqui em Portugal e vão pagá-los, por exemplo, à Holanda. Isto é, nós pagamos o que compramos e são os outros (os tais do Norte, bonzinhos e honestos, mas muito pouco solidários) que beneficiam dos impostos aplicados ao nosso dinheiro!


«(…) aqui quisemos acabar com os ricos, (…) e, sim, conseguimos acabar com os ricos, (...)»

O quê???????!!!!!!!!

Mas como é que acabaram os ricos? Será que o Miguel Sousa Tavares não sabe dos milhares de milionários que existem hoje em Portugal (mais de 136.000, com cerca de 19.000 a terem surgido em 2020, todos «com uma riqueza avaliada acima de um milhão de dólares», segundo o Jornal de Negócios de 22 de junho de 2021)?

No nosso país que é destacadamente o pior da Europa em desigualdade associada a graves problemas sociais e de saúde, com um fosso gigantesco entre os muito ricos e os pobres (ver gráfico no topo, em que pior do que nós só os Estados Unidos - e isto ainda antes da pandemia!). Duvido muito que o jornalista Miguel Sousa Tavares não saiba disto tudo.

E quando dá o exemplo de João Rendeiro, será que ele não se apercebe da contradição em que cai ao falar precisamente de um dos muito ricos que, até 2008, nunca foi incomodado por ninguém enquanto ia aumentando a sua fortuna?


Enfim, ideias confusas, informação falsa, contradições, tentativas de humor completamente falhadas e sem graça, passadismo – a ir buscar coisas de há 50 anos, hoje, que temos um mundo que nada tem a ver com aquele que ele recorda…

... e mal, pois, por exemplo, a história que ele conta do Otelo como sendo verdadeira é uma daquelas que já foi recontada milhares de vezes tendo como protagonistas nacionais e estrangeiros, como o Álvaro Cunhal, o Mário Soares, até Ronald Reagan, e tantos outros no lugar de Otelo! Veja-se este excelente artigo absolutamente esclarecedor sobre este assunto no Diário de Notícias de 01/08/2021, de Rogério Casanova:

Só não fico estupefacto pelo Expresso ter nos seus quadros Miguel Sousa Tavares e estar a pagar-lhe para ele escrever estas enormidades, porque o próprio Expresso (que eu também já deixei de ler desde há uns 15 anos) se tornou um jornal de muito, muito baixa qualidade.

Não tenho, portanto, razões para mudar a minha decisão de não voltar a ler ou ouvir Miguel Sousa Tavares. Mas muito obrigado à mesma, porque me permitiu verificar se a minha ideia acerca dele já estaria desatualizada. Não está.

Um forte abraço, muito obrigado mais uma vez e votos de um ótimo fim de semana!

Rui"

terça-feira, agosto 31, 2021

Otelo Saraiva de Carvalho

 


Lembro Otelo Saraiva de Carvalho, por fazer hoje 85 anos que nasceu para, alguns anos mais tarde, planear e liderar o movimento que nos iria libertar da ditadura, a 25 de Abril de 1974.

Eu não esqueço.

segunda-feira, agosto 02, 2021

José Afonso - Traz outro Amigo Também


Dada a educação muito restritiva dada pelo meu pai, foi pela leitura e pela música que aprendi como me relacionar com o mundo. Talvez por isso, houve três grandes sonhos na minha vida: o de uma sociedade fraterna que o 25 de Abril prometia, o de uma escola para expandir humanidade e comunidade, e o de uma relação afetiva profunda com alguém. Este último cumpriu-se. Quanto aos outros dois, vi-os desmoronarem-se completamente. Acho que nunca conseguirei superar isso. Até porque não sei o que posso fazer para, pelo menos, evitar que o desastre seja completo.

José Afonso - Traz Outro Amigo Também: um documentário imperdível a comemorar os 92 anos do seu nascimento.

Como com tudo o que se relaciona com o 25 de Abril e com as pessoas que o fizeram, vi largas partes deste documentário a chorar. Pelos sonhos destruídos, pela morte de tanta gente valorosa. José Afonso foi um dos maiores, ele que nunca quis mostrar-se mais do que aquilo que era: um lutador pela liberdade, tanto na sua vida prática do dia a dia, como na sua arte.

Para que na nossa memória o seu exemplo nunca desapareça.

domingo, agosto 01, 2021

O que (NÃO) fazer quando discordamos de uma lei

 


Artº 16 da Resolução do Conselho de Ministros n.º 101-A/2021:

«3 - Aos sábados, domingos e feriados, bem como às sextas-feiras a partir das 19:00 h, o funcionamento de estabelecimentos de restauração ao abrigo do número anterior, para efeitos de serviço de refeições no interior do estabelecimento, apenas é permitido para os clientes que apresentem Certificado Digital COVID da UE admitido nos termos do Decreto-Lei n.º 54-A/2021, de 25 de junho, ou sejam portadores de um teste com resultado negativo, realizado nos termos do artigo 8.º»

Ou seja, os clientes têm de apresentar o certificado, se quiserem ser servidos. Caso contrário, os empregados não podem servi-los. Não são os empregados que o exigem, é a lei. 

O que fazer, se não concordamos com a lei? Escrever cartas para os jornais, para os sites do Governo, para o Provedor de Justiça, para os deputados da região, etc., com o máximo de assinaturas possíveis, incluindo nelas autoridades reconhecidas. Não sei se podemos fazer muito mais…

Mas o que sei é que O QUE NÃO DEVEMOS FAZER é reclamar junto dos empregados; fazê-lo é pormo-nos no papel daquele “tuga” que pede uma “cunha” para contornar a lei em seu benefício. MUITO MENOS, devemos zangar-nos com os empregados ou com os donos do estabelecimento, porque isso é um pouco como aquele marido que chega a casa e bate na mulher e nos filhos porque o patrão o prejudicou.

quarta-feira, julho 28, 2021

Governo não propõe luto nacional para Otelo Saraiva de Carvalho

 


«Nas mortes de Salgueiro Maia e Melo Antunes não houve declaração de luto nacional, recordaram Marcelo e Costa no velório de Otelo Saraiva de Carvalho.»

Desanima-me António Costa não ter a ambição de ser melhor do que os governantes anteriores, por exemplo, de não querer ser melhor do que Aníbal Cavaco Silva.

Mas, para mim, o pior de tudo é que, quando um estado, um governo e um presidente não celebram condignamente a vida de alguém que, como Otelo Saraiva de Carvalho, contribuiu clara e decisivamente para a implantação de uma sociedade melhor, isso permite a todos os arautos da destruição exaurirem ainda mais o nosso espaço democrático com a celebração da sua morte.


domingo, julho 25, 2021

Morreu Otelo Saraiva de Carvalho (1936-2021)

 


Nunca saberemos quem foi realmente este homem, de tão multifacetada que foi a sua vida e a sua personalidade.

Mas uma coisa sabemos que é absolutamente certa: graças a uma planificação e a um comando geniais, ele iniciou uma Revolução em direção à Democracia.

Eu vivi em ditadura até aos meus 16 anos: desses anos, praticamente, só tenho memórias cinzentas de medo e de violência – em casa, na escola, nas ruas.

Tudo se transforma em Luz e Sonho com o 25 de Abril. Graças a este homem, graças aos Capitães de Abril. Estou-lhe grato, estou-lhes infinitamente grato. É tudo; e é tanto que não há palavras que cheguem.


quarta-feira, junho 30, 2021

O que tem de mal o coordenador da Task Force do Plano de vacinação contra a COVID-19 em Portugal aparecer de camuflado militar em público?

 

(foto de Rui Gaudêncio)

O camuflado, ou qualquer outra farda militar, encerra uma carga simbólica poderosíssima de respeito pelas regras, de lealdade inquebrantável perante o inimigo (valor muito importante num país que esteve em guerra até ainda não há muito tempo), de verticalidade e de incorruptibilidade face à sociedade civil. Claro que tudo isto é uma fantasia, como sabemos pelos casos na instituição militar, sejam de corrupção, sejam de desrespeito pela vida, que têm vindo a lume na imprensa.

No entanto, isso não impede que, no mundo ocidental, muita gente anseie por um regime militar; ou, pelo menos, que deseje ser governada por militares. Aliás, nos mais variados países desenvolvidos, os jovens que consideram essencial viver numa democracia estão a reduzir-se a uma significativa minoria. Veja-se um retrato absolutamente assustador das atitudes da população face à ideia de democracia em:

Foa, R. S., & Mounk, Y. (2017). The Signs of Deconsolidation. Journal of Democracy, (1), 5-16.

Vemos bem a que é que esse desejo por militares no governo nos leva no presente (Brasil e Birmânia são dois exemplos devastadores) e no passado, tanto no recente (Chile e Grécia), como no mais longínquo. Mas a evidência não interessa às pessoas. O mito e o símbolo são mais fortes.

O que é aberrante é ver políticos e democratas de esquerda a alimentarem, de forma suicida, este mito perigosíssimo para a democracia… democracia, aliás, que é o que os sustenta a eles próprios.

Quando os políticos passam a mensagem de que fracassaram miseravelmente, e de que têm de ir buscar alguém fora dos quadros profissionais competentes do atual regime (a uma instituição que, pela natureza muito especial das funções a que é habitualmente chamada a exercer, não é intrinsecamente democrática) para resolver um problema, aí não auguro nada de bom para esta democracia.

Por muito excelente pessoa, político e profissional que seja o sr. vice-almirante Gouveia e Melo.

domingo, maio 16, 2021

Sobre o Assédio Sexual (artigo que talvez nunca deixe de estar em construção)

 


Há uma linha vermelha para o assédio que o distinga da sedução? Há. É quando uma das partes mostra inequivocamente que não quer e a outra continua a invadir o seu espaço íntimo. Há abuso? Há, quando, perante o não, a parte mais poderosa ameaça a outra e/ou se vinga dela. Há um verdadeiro crime de abuso? Há, quando ele é concretizado por via da força e da violência, principalmente quando há um grande diferencial de poder, por exemplo, no caso de um adulto na pessoa de uma criança.

Depois, há muitas situações menos claras. Por exemplo, entre duas crianças. Ou entre uma criança e um adolescente. Ou quando aquele que não quer sente um pavor tal que fica paralisado e não consegue sequer mostrar que não quer. Ou outras situações. Sejam elas quais forem, a prudência e a justiça mandam que talvez não devamos julgar a vítima (exceto se tivermos sido os juízes mandatados para o fazer).

 

Das muitas mulheres que amei a quem nunca cheguei a dizer ou sequer a mostrar que estava apaixonado, houve uma a quem, muitos anos depois, confessei o que tinha sentido. Ela exclamou: “Então, porque é que não disseste nada? É que eu também estava apaixonada por ti!”.

Naquela altura, esperava-se que fosse o homem a declarar-se. A mulher que o fizesse era bastante mal vista, principalmente se confessasse o seu desejo. Várias raparigas, frustradas perante a minha contenção (ainda por cima, eu era um bocado obtuso, não percebia se elas estavam ou não realmente interessadas em mim), perguntavam aos meus amigos da altura se eu era gay. Estes transmitiam-mo para ver se eu mudava de comportamento. Ora, eu tinha muito antes decidido não seguir esse código social, para grande perplexidade e incompreensão da parte delas (e deles também, diga-se a verdade). Portanto, não mudava, mas também não sabia como fazer de modo diferente (acrescento que essa decisão nasceu do terrível choque que foi para mim a leitura, em plena adolescência, do livro Escravatura Sexual, de Stephen Barlay). Creio que fui deste modo criando a pouco e pouco uma provável e errada reputação de homossexual.

Assim, por causa desta pressão social, na verdade, quantos homens poderão ser acusados de claro assédio sexual intencional e manipulador? De marialvismo, bastantes. De mulherengos, muitos. De incorretos, mal educados e boçais? Muitos mais do que seria de desejar. Mas alguém que não força, pergunta sempre, não constrange, não ameaça nem se vinga, estarei a ser injusto se puser a hipótese de que isso talvez não configure assédio sexual? Que aliás se define como:

Assédio sexual é todo o comportamento indesejado de caráter sexual, sob forma verbal, não verbal ou física, com o objetivo ou o efeito de perturbar ou constranger a pessoa, afetar a sua dignidade, ou de lhe criar um ambiente intimidativo, hostil, degradante, humilhante ou desestabilizador.


Alberto Caeiro

VIII - Num meio-dia de fim de Primavera

(…)

E, porque sabe que elas não gostam

E que toda a gente acha graça,

Corre atrás das raparigas

Que vão em ranchos pelas estradas

Com as bilhas às cabeças

E levanta-lhes as saias.

(…)

Este texto de Alberto Caeiro mostra como naquele tempo era considerado "engraçado" o levantar as saias às raparigas. Por isso, pergunto-me se haverá algum homem que possa dizer-se completamente inocente de assediar as mulheres? E, sendo assim, nós homens teremos algum direito ou alguma autoridade para dizer às mulheres os termos em que elas devem partilhar as suas queixas? Suponho que não.

Falando por mim, também eu levantei as saias a uma menina minha colega de turma uma vez, na escola primária (que era mista, algures entre 1966 e 1968) e lembro-me disso com uma nitidez que a imensa vergonha e mágoa que ainda hoje sinto mais acentuam. 

Depois de 1968 (ano em que entrei no 2º ciclo, mas agora numa escola já só com rapazes), algo deve ter acontecido, não me lembro do quê, porque comecei a defender as raparigas na rua de maus-tratos verbais e físicos (desde o simples molhá-las com pistolas de água no Carnaval até coisas mais graves). Podia fazê-lo porque eu tinha um físico possante e impunha respeito aos outros. Mas a tristeza e a vergonha que ainda hoje me assombram (lembro-me perfeitamente da rapariga a quem levantei as saias e do seu primeiro nome, bem como da forma aflita como reagiu), essas ficaram para sempre.


Às vezes, pergunto-me se os muçulmanos mais radicais não estarão, na sua sabedoria (se ela é válida ou não, é outra questão), a ver as coisas com uma lucidez que nos está a faltar a nós. O facto de obrigarem as mulheres a taparem a maior parte ou a totalidade do seu corpo para não excitar os impulsos selváticos dos homens, não estarão a demonstrar a visão que têm deles como primitivos subdesenvolvidos incapazes de autocontrolo?


Em suma, seja qual for o conteúdo e a forma da denúncia que for feita por uma mulher, o que eu sei é que, na dúvida, estou sempre do lado da vítima, do mais fraco, daquele que relata as coisas com mais incongruências (principalmente, se souber perfeitamente como não o fazer).

Conhecemos alguma mulher que não tenha nunca sido assediada sexualmente na rua? Portanto, quando as mulheres se queixam é provável que estejam a dizer a verdade. Eu, pelo menos, à partida respeito todos os seus testemunhos.

E também o que sei é que, nesta matéria que tem séculos, se não houver alguma violência da parte dos tradicionalmente fracos, nada mudará na relação de poder e de abuso.

Finalmente, sei que nesta e noutras áreas, se a mulher não se comportar como soldado perdido em território inimigo, na formulação feliz de Arturo Pérez-Reverte, é destroçada pelos homens (e pelas mulheres que se identificaram com os valores masculinos):

Não sei se todas as mulheres são assim, mas queria descrever uma mulher que é um soldado perdido em território inimigo. Creio que o último herói realmente romanesco que resta à cultura ocidental é a mulher. Reúne todas as características: tem de trilhar o mundo dos homens com regras feitas pelos homens; tem de ser tão ou mais eficaz que eles; os erros delas pagam-se mais caros do que os dos homens e, ao mesmo tempo, não deixa de ser mulher, de conservar toda a sua herança biológica, aquilo a que chamo «instinto de ninho».

sexta-feira, maio 07, 2021

Um filme sempre a ecoar em mim

 

Wrestling Ernest Hemingway conta a história de um beberrão e cortejador (Richard Harris), que tenta flirtar várias mulheres, incluindo de uma forma mais autêntica a sua senhoria (Shirley MacLaine) – que, aliás, não vai na conversa dele – e que tenta travar uma amizade difícil com um refugiado cubano (Robert Duvall) que ama suavemente uma empregada de restaurante (Sandra Bullock, num papel de uma inolvidável doçura que me fez ficar apaixonado por ela da primeira vez que vi o filme).

Porque é um dos filmes da minha vida? Talvez porque, neste filme, Randa Haines trata da velhice, da solidão, da amizade possível, de amores que nunca chegam a realizar-se, com um humor e uma leveza que quase me causa um soluço de angústia sempre que o revejo.

sábado, fevereiro 20, 2021

Hipótese para a compreensão de algumas pessoas que apoiam partidos e políticos da extrema-direita radical. E uma proposta de abordagem ao problema.

 

(Francisco de Goya - Duelo a Garrotazos)

Cometemos habitualmente o erro de acreditar que, no ser humano, as razões antecipam as emoções e as decisões. A maior parte das vezes, não é verdade, tanto quanto se sabe, hoje em dia. Vergílio Ferreira alertou-nos muitas vezes: «As verdades fundamentais fulguram primeiro e depois é que se disciplinam em razões.» (em Do mundo original, 1979, Lisboa, Livraria Bertrand, p.119)

Portanto, na prática, a maior parte das pessoas não foi convencida por André Ventura. O discurso deste é que deu uma voz, uma organização e uma ação a quem estava predisposto a estas ideias ou já estava decidido sobre elas. Ou seja, acreditar em André Ventura não é mérito dele, é apenas uma consequência das emoções e ideias que as pessoas já tinham. Estas crenças e emoções já existiam, não tinham era sido publicamente mobilizadas, talvez por vergonha de opróbrio público.

 

Mas agora várias circunstâncias ajudaram a ultrapassar esta barreira.

Primeiro, a disseminação das redes sociais que levaram à descoberta de que se podia dizer aquelas coisas em público e ter muita gente a apoiá-las.

Segundo, ter surgido um ativista político a dizê-las sem ser expulso de um partido do arco do poder (quando, como candidato à Câmara de Loures, André Ventura fazia parte do PSD de Passos Coelho), nem ser travado pela Justiça.

Em terceiro lugar, a neutralidade, o silêncio e o ignorar dos poderosos.

Ficaram assim expostos os sinais claros de que se poderia dar a emergência daquelas emoções e sentimentos mais retrógrados e negativos, sem perigo nem vergonha.

Veja-se, aliás, o caso infame de Ihor Homeniuk que foi o culminar de anos de abusos e torturas a pessoas inocentes com a complacência e o encorajamento disfarçado do Governo, ignorandoas recomendações que o Mecanismo Nacional de Prevenção da Tortura fazia desde,pelo menos, 2018.

Ou de inúmeros políticos, nacionais e estrangeiros (em Portugal, Espanha, França, Itália, etc.) que têm vindo a põr em prática políticas de discriminação contra comunidades ciganas, como se fosse legal ou ético fazê-lo seja com quem for.

 

O problema vai-se tornando mais grave quando um líder começa a catalisar este caldo de emoções a fim de unir as pessoas em multidões que se sentem suficientemente organizadas para iniciarem uma ação violenta. O que até agora, mas apenas até agora, não foi o caso em Portugal.

 

A um nível individual, quando é que temos uma resposta violenta? Quando ativamos o sistema neurocomportamental de regulação de emoções focado na ameaça e na autoproteção. A resposta torna-se ainda mais violenta se, simultaneamente, se se frustrar o sistema neurocomportamental focado na busca de recursos e de incentivos.

Para estimular estes processos de ativação e de frustração nas pessoas, o líder proclama que o mundo é um lugar perigoso, que está dominado pelo mal, que só ele o conseguirá pôr bom e que, inclusivamente, só ele conseguirá proteger as pessoas de bem, mesmo que para isso precise do poder total, ou seja, de uma ditadura.

 

A um nível grupal, isto piora se estas pessoas percecionarem que o seu grupo está em conflito com outros grupos. Principalmente, se favorecerem vias mais agressivas e violentas para conseguirem o que querem, devido a privilegiarem precisamente a agressividade e a violência, e devido a se sentirem mais fortes do que os outros grupos.

Note-se, aliás, que se estas pessoas realmente acreditassem na propaganda que diz que elas não têm poder para fazer frente aos outros grupos (mensagem passada pelo líder populista), elas fugiriam, não lutariam.

Como esses outros grupos são na verdade minoritários e com menos poder, elas sentem-se à vontade para terem preconceitos contra eles e para apoiarem ações discriminatórias.

 

Uma outra característica destas pessoas consiste em elas tenderem a escolher líderes mais autoritários, mais fortes ou mesmo brutos. Porque estes são vistos como os mais capazes de acelerar a coordenação dentro do grupo, de forma a este ficar mais rapidamente organizado e capaz que o grupo inimigo.

Por isso, é natural que elas tendam também a escolher líderes que não respeitem as regras. Regras essas que, no fundo, elas acham que fizeram o outro grupo ficar mais forte. Daí que é precisamente o facto de esses líderes serem descaradamente mentirosos, oportunistas e malcriados que os torna mais atraentes para estas pessoas por assim se revelarem claramente contra o sistema em relação ao qual elas se sentem revoltadas e que desejam deitar abaixo.

 

A sustentar todos estes processos, temos a tendência da natureza para escolher as vias mais fáceis e mais “económicas”, isto é, menos consumidoras de energia. Esta tendência leva ao que alguns investigadores chamam de “preguiça cognitiva” que tem como consequência a adesão a ideias simples, fáceis e carregadas emocionalmente (que assim, nos dispensam de refletir). Ideias essas que caracterizam habitualmente as arengas destes políticos e as notícias falsas. Esta hipótese, a ser verdadeira, é um pouco desanimadora pois pouco se pode fazer para a contrariar no curto prazo (a longo prazo, só na escola, ensinando experiencialmente que o prazer e as vantagens de pensar racionalmente se sobrepõem em larga medida às dificuldades em fazê-lo).

 

A acrescentar a tudo isto, muitas destas pessoas já não acreditam nas instituições e desejam uma revolução que permita começar tudo do zero. Essas pessoas, há umas décadas, seriam de esquerda, hoje são de direita. É irresistível pensar que a nossa matriz cultural judaico-cristã tem aqui uma influência extraordinária: a ideia emocionalmente apelativa de um dilúvio que destrua e apague tudo, mas que permita um novo recomeço; acompanhada, claro, da ilusão de que lhe sobreviveremos porque estaremos cada um de nós dentro da Arca de Noé.

Podem-se apresentar várias causas possíveis para a raiva das pessoas contra as instituições: a desigualdade social que tem vindo a aumentar de modo ostensivo; a corrupção com a cumplicidade dos grandes poderes; o uso da força com quem é fraco e as manifestações de fraqueza com quem é poderoso; a sensação de absoluta impotência face aos poderosos; o sentirem-se remetidas para uma solidão cada vez maior; e a constatação de que a sua voz não é ouvida por nenhum decisor com poder.

Peguemos, a título de exemplo, no caso da desigualdade. Os protestos destas pessoas são sempre contra um determinado tipo de desigualdade, real ou imaginária, mas não contra onde ela é maior e causa verdadeiramente o seu mal-estar. Explicando melhor, as pessoas pegam nessa raiva contra os poderosos (que sabem ser sem esperança, visto que as instituições que deviam regular o poder falharam) e desviam-na para grupos minoritários e mais inofensivos.

 

E aqui, surge um outro problema. Os conflitos de opiniões são inevitáveis numa democracia e não a põem em perigo, pelo contrário. Mas quando ficamos convencidos de que o benefício de outro grupo é um prejuízo para nós, quando não sentimos que estamos todos no mesmo barco, que há gente que deve ir borda fora (e que podemos fazê-lo sem custos), que não há qualquer interesse em trabalhar em conjunto para resolver os problemas, então estamos em território muito perigoso (que pode chegar à guerra mesmo).

 

Além disso, um novo fator a ter em conta, hoje em dia, é o facto de as redes sociais terem um papel extraordinariamente importante na comunicação, coordenação e afunilamento de crenças e de esforços em tempo real. O problema é que elas nunca incentivam a manter as pessoas e as ideias calmas, pois não é isso que lhes faz gerar tráfego nem dinheiro. Ou seja, elas tendem a fornecer mais combustível para incendiar as mentes das pessoas.

Portanto, nas redes sociais, temos um dilema: como é que a nossa sociedade consegue proteger uma maioria relativamente calma de uma minoria relativamente violenta? Por autorregulação das próprias redes? Quando o fazem, elas são criticadas por fazerem censura. Por imposição do poder político? Outra vez críticas de censura. Não se vê uma saída fácil para a complexidade desta situação.

 

Porém, pelo menos ao nível do contacto direto com estas pessoas, o que podemos nós fazer para contrariar estes movimentos disruptores da nossa democracia, tanto no que se refere à emergência de ideias, crenças e sentimentos retrógrados e agressivos, como no que se refere à sua coordenação e à sua posterior transformação em ações violentas?

 

A primeira sugestão é claramente começarmos por ouvir as frustrações destas pessoas. Não só para perceber e validar as suas emoções, mas também para descobrirmos com que circunstâncias elas se sentem exatamente revoltadas. E não, não serve absolutamente para nada confrontá-las com argumentos, ou com julgamentos ou com condenações. Elas sentirão tudo isto como um ataque pessoal e irão entrincheirar-se mais solidamente nas suas ideias e nas suas emoções negativas (que serão, por este processo, ainda mais exacerbadas).

A seguir, tentarmos saber que benefícios concretos (não os vagos e abstratos para a sociedade em geral, dado que não são esses que movem verdadeiramente as pessoas a um nível individual) elas esperam obter por meio de uma mudança de políticas.

Depois, procurarmos encontrar soluções abrangentes e satisfatórias para todos, tendo o cuidado de, no processo, e sem tentar enganá-las, esforçarmo-nos por conseguir acender e alimentar a esperança de uma vida melhor para todas estas pessoas.

Encontradas as soluções mais inclusivas para a satisfação das necessidades de todos, o passo seguinte é unir e canalizar os esforços das pessoas para pressionar efetivamente os poderes a porem em prática estas soluções, dando assim a elas benefícios concretos (por exemplo, garantindo uma melhor distribuição da riqueza a fim de se gerar menos desigualdade).

Finalmente, e não menos importante do que tudo o resto, lutar pela reconciliação, a fim de levar as pessoas a sentirem-se suficientemente seguras para poderem deixar de ser tribais. Nomeadamente, para porem de lado a noção de que a tribo dos outros está contra a minha e a pô-la em perigo .

E podermos passar todos, dentro deste território, a viver em paz e com bem-estar, como uma só comunidade e um só povo.