sexta-feira, fevereiro 12, 2016

A propósito do livro The Happiness Industry, de William Davies

E se a maior ameaça ao capitalismo não for nenhuma revolução, nem nenhum movimento colectivo de contestação, mas for simplesmente o desinteresse e a desmotivação do trabalhador?

A indústria da felicidade e o capitalismo (que, na sua busca cega de controlo social, precisa de trabalhadores maximamente envolvidos, entre outras coisas, para aceitarem com satisfação todas as violências que lhes queiram impingir, por exemplo, salários reduzidos, horas de trabalho sem limites, exigências absurdas de obediência canina, etc), parece que juntaram forças para responderem a esta ameaça.

Acrescento que, na minha opinião, para serem bem sucedidos, a indústria da felicidade e o capitalismo têm estado a realizar um trabalho prévio de marketing, a fim de que todos possam acabar por aceitar sem discussão alguns dogmas, a saber:
1 – Todos sem exceção podem sentir-se felizes todo o tempo que quiserem.
2 – A felicidade pode ser comprada (através de livros, DVD’s, workshops, psicoterapias, drogas legais e ilegais, suplementos alimentares, etc.)
3 – Logo, se a pessoa não for feliz, a culpa é dela e só dela.
4 – Se a culpa é dela, então merece sem dúvida ser punida.
5 – Dada a sua culpa, a punição razoável é a pessoa ser despedida e ficar sem quaisquer ajudas ou compreensão do Estado.
6 – São irrelevantes a história da pessoa, a sua saúde, os seus genes ou o contexto social e laboral em que está a viver – a culpa é sempre da pessoa, de mais ninguém e de mais nada.

Ver The Cost of Happiness e All the Happy Workers.

A questão que sobra é o que fazer para escapar a esta tentativa de controlo sobre as nossas vidas? O livro não nos dá respostas diretas a isto. Posso falar da  minha experiência.

A primeira ideia a referir é que uma ação que não seja coletiva, poucos efeitos terá. Sim, a célebre frase de Gandhi, "Sê a mudança que queres ver nos outros", é útil para todos nós, sem dúvida. Mas eficaz? Ela foi-o para Gandhi que tinha os olhos de quase o mundo inteiro em cima dele e tudo o que ele fizesse obtinha uma enorme repercussão. Mas nós?... Acredito que só por uma ação coletiva podemos ter alguma esperança de obter algum resultado (e nem mesmo assim é seguro).

A segunda ideia, que partilho aqui, passa por reconhecer que o maior mal é a ignorância. Tenho percorrido a minha vida a lutar contra a sensação de verdade associada às minhas ideias, a duvidar delas e a questioná-las, e a lutar contra a minha ignorância. Ignorância de conhecimentos, mas também de sabedoria; ignorância tanto sobre o mundo exterior, como sobre o mundo interior. Isto ajuda-me a tornar-me muito céptico em relação a quaisquer ideias que me queiram vender.

A terceira ideia consiste em apostar na prevenção. Tenho procurado ficar à parte do mainstream, principalmente quando há o risco de eu ficar nas mãos de ricos e poderosos (não, não podemos confiar neles - não sou eu que sou paranóico, há múltiplos estudos e investigações científicas que demonstram à saciedade que eles não são confiáveis). Só isto: não nos deixarmos cair nas mãos deles, mesmo que isso implique um status bem desagradável para nós.

quarta-feira, fevereiro 03, 2016

Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia

"A Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia é um documento que contém disposições sobre os direitos humanos, "proclamada solenemente" pelo Parlamento Europeu, pelo Conselho da União Europeia e pela Comissão Europeia em 7 de dezembro de 2000. Uma versão adaptada da Carta foi proclamada em 12 de dezembro de 2007, em Estrasburgo, à frente da assinatura do Tratado de Lisboa, que faz com que a Carta seja juridicamente vinculativa em todos os países, exceto na Polónia e no Reino Unido. (...)" (Wikipedia)

"Artigo 1.o
Dignidade do ser humano
A dignidade do ser humano é inviolável. Deve ser respeitada e protegida."

"do ser humano". Não diz "do dinamarquês", nem do "sueco", nem "do húngaro", nem sequer "do europeu".

Diz "do ser humano". Qualquer que ele seja e venha de onde vier.

quinta-feira, janeiro 28, 2016

100 anos do nascimento de Vergílio Ferreira

“(…) De que me serve todo o fervor do que disse, agora que estou só em face de mim, simples, vivo, indiscutível desde as minhas mais profundas raízes?
Eis que depois de toda a verdade e erro com que falei, depois das minhas fatigantes repetições, das incoerências e enganos, das certezas e ilusões, olho uma vez ainda, nestes muros que me cercam, este Velho Rei de Rouault, A Trança, de Resende, relembro uma página de Malraux, de Eça, um poema de Nobre, de Antero, de Camões, versos do Rei Édipo, esse fulminante verso da Antígona contra todos os carrascos que a voz escrava do homem não cessa de inventar:

οτοι συνέχθειν, λλ συμφιλεν φυν (*)

(Em grego, consintam, para que esta voz nada perca do seu peso milenário.)

(*) «Não nasci para compartilhar do ódio mas do amor» (Antígona, v.523).

(…)

            O adversário da paz não é apenas a guerra e a sua ameaça: é o medo sob todas as suas formas. E a expressão mais alta da paz é a possibilidade dada ao homem de se reconhecer inteiro na vida pela exaltação do que mais profundamente o pode dignificar como homem.”

(do mundo original, Livraria Bertrand, 1979, pp.251 e 115)


Faz hoje cem anos que Vergílio Ferreira nasceu, contribuindo com o seu labor literário para enobrecer a nossa vida com uma humanidade plena de valores, alegria e beleza.

Pessoalmente, a minha dívida para com ele é imensa. Ele ensinou-me a olhar, a sentir e a atuar no mundo de uma forma que eu nunca faria se não tivesse lido as suas obras. Fico feliz por ter tido a oportunidade de o fazer feliz durante um momento da sua vida. Mas isso é uma outra história. O que aqui quero deixar como testemunho é que ele proporcionou-me eu ter podido enriquecer extraordinariamente a minha vida com a leitura dos seus livros e com os mundos que essa leitura me abriu.

quarta-feira, janeiro 27, 2016


"(...) hoje que descobrimos a Arte, reconhecemos nela um dos valores humanos mais altos, para alguns decerto a reinvenção de um Absoluto, depois da morte dos outros. Um mito? Talvez que, porém, uma vida se não possa cumprir sem mitos - sem uma força que a supere e unifique. O sabermos que é um «mito» anula-a como tal - em parte ao menos. Mas se o non omnis moriar de Horácio, o «não morrerei por inteiro», é uma bela ficção, se profundamente sabemos que não sobreviveremos, compreende-se ainda assim que a arte se recupere em Força Totalizadora, ao pensarmos que ela é talvez a melhor forma de uma vivência profunda do instante que passa."
(do mundo original, Livraria Bertrand, 1979, p.101)


terça-feira, janeiro 19, 2016


A genialidade é sempre mal compreendida. Mas com a obra do VF o problema é agravado pelo facto de ela não caber num qualquer festival superbock: ela pertence antes ao domínio da intimidade, do silêncio, da fraternidade cúmplice; ela fala-nos ao mais profundo de nós e, por isso, não é popular.


"(…) À pergunta de Platão sobre a utilidade de Homero, responde a sucessão dos séculos que se comoveram com os errores de Ulisses, a despedida de Heitor, a revelação do homem a si próprio, através de Helena, Aquiles, Páris, os mitos que enformaram os sonhos, os medos dos homens, o olhar interrogador e maravilhado em face do mundo e da vida.
Assim, o para quê de uma obra de arte não cabe na dimensão do utilitarismo. (…)”
(do mundo original, Livraria Bertrand, 1979, p.57)

segunda-feira, janeiro 18, 2016

"Só em liberdade se pode ser artista - repete-nos Hegel. Não apenas em liberdade «exterior», acentuemos, essa que se traduz pela ausência de uma imposição dos outros, mas ainda em liberdade «interior», essa que rejeita uma imposição de nós próprios."
(do mundo original, Livraria Bertrand, 1979, p.48)



Onésimo Teotónio de Almeida, na sua mais recente obra, "Despenteando Parágrafos" (2015), instala-se num registo que não é propriamente adulador ou celebratório. No entanto, quando se refere à obra ensaística de Vergílio Ferreira, ele é francamente elogioso.

Há muitos anos que eu não lia os ensaios de Vergílio Ferreira. Voltei então a eles, e comecei pelo seu primeiro livro de recolha (até 1957), Do Mundo Original. Desse livro deslumbrante, continuarei a selecionar alguns extractos que, para mim, são autênticas iluminações.

domingo, janeiro 17, 2016

Sobre a Arte, em Vergílio Ferreira, I

"(...) que uma obra de arte , a rigor, não se discute. Uma obra de arte ou nos mobiliza a adesão, e em tal caso ela é um absoluto de presença, uma vivência sem margens, ou não promove tal adesão e em tal caso essa obra não existe. A discussão sobre ela passa-lhe um pouco à margem, (...)"

(do mundo original, Livraria Bertrand, 1979, p.37)



Dia 28 de Janeiro faz 100 anos que nasceu Vergílio Ferreira, um dos maiores escritores de sempre.

Para mim, a sua obra é "um absoluto de presença". Por isso, digo: sinto no meu sangue, com uma certeza anterior a todas as razões, que Vergílio Ferreira é um autor maior de uma obra artística (que inclui o romance, o conto, o ensaio e o diário) maravilhosamente única e inesquecível.

sábado, janeiro 16, 2016

Arte Poética, de José Luís Peixoto

O meu amigo Luís Nogueira, poeta autor do blogue ENE COISAS, disponibilizou-me este texto fabuloso:

"Rui Diniz Monteiro, lembrei-me de ti ao ler este poema:

arte poética

o poema não tem mais que o som do seu sentido,

a letra p não é a primeira letra da palavra poema,

o poema é esculpido de sentidos e essa é a sua forma,

poema não se lê poema, lê-se pão ou flor, lê-se erva

fresca e os teus lábios, lê-se sorriso estendido em mil

árvores ou céu de punhais, ameaça, lê-se medo e procura

de cegos, lê-se mão de criança ou tu, mãe, que dormes

e me fizeste nascer de ti para ser palavras que não

se escrevem, Lê-se país e mar e céu esquecido e

memória, lê-se silêncio, sim tantas vezes, poema lê-se silêncio,

lugar que não se diz e que significa, silêncio do teu

olhar doce de menina, silêncio ao domingo entre as conversas,

silêncio depois de um beijo ou de uma flor desmedida, silêncio

de ti, pai, que morreste em tudo para só existires nesse poema

calado, quem o pode negar?, que escreves sempre e sempre, em

segredo, dentro de mim e dentro de todos os que te sofrem.

o poema não é esta caneta de tinta preta, não é esta voz,

a letra p não é a primeira letra da palavra poema,

o poema é quando eu podia dormir à tarde nas férias

do verão e o sol entrava pela janela, o poema é onde eu

fui feliz e onde eu morri tanto, o poema é quando eu não

conhecia a palavra poema, quando eu não conhecia a

letra p e comia torradas feitas no lume da cozinha do

quintal, o poema é aqui, quando levanto o olhar do papel

e deixo as minhas mãos tocarem-te, quando sei, sem rimas

e sem metáforas, que te amo, o poema será quando as crianças

e os pássaros se rebelarem e, até lá, irá sendo sempre tudo.

o poema sabe, o poema conhece-se e, a si próprio, nunca se chama

poema, a si próprio, nunca se escreve com p, o poema dentro de

si é perfume e é fumo, é um menino que corre num pomar para

abraçar o seu pai, é a exaustão e a liberdade sentida, é tudo

o que quero aprender se o que quero aprender é tudo,

é o teu olhar e o que imagino dele, é solidão e arrependimento,

não são bibliotecas a arder de versos contados porque isso são

bibliotecas a arder de versos contados e não é o poema, não é a

raiz de uma palavra que julgamos conhecer porque só podemos

conhecer o que possuímos e não possuímos nada, não é um

torrão de terra a cantar hinos e a estender muralhas entre

os versos e o mundo, o poema não é a palavra poema

porque a palavra poema é um palavra, o poema é a

carne salgada por dentro, é um olhar perdido na noite sobre

os telhados na hora em que todos dormem, é a última

lembrança de um afogado, é um pesadelo, uma angústia, esperança.

o poema não tem estrofes, tem corpo, o poema não tem versos,

tem sangue, o poema não se escreve com letras, escreve-se

com grãos de areia e beijos, pétalas e momentos, gritos e

incertezas, a letra p não é a primeira letra da palavra poema,

a palavra poema existe para não ser escrita como eu existo

para não ser escrito, para não ser entendido, nem sequer por

mim próprio, ainda que o meu sentido esteja em todos os lugares

onde sou, o poema sou eu, as minhas mãos nos teus cabelos,

o poema é o meu rosto, que não vejo, e que existe porque me

olhas, o poema é o teu rosto, eu, eu não sei escrever a

palavra poema, eu, eu só sei escrever o seu sentido.


José Luís Peixoto, 'A Criança em Ruínas'"

terça-feira, janeiro 12, 2016

Liberdade, uma realidade cada vez mais distante

Ser pessoa é difícil.
Ser livre é ainda mais difícil.
Por isso,

  • encerramo-nos bebés e crianças em infantários (a formatação começa logo aos primeiros meses de vida);
  • encerramo-nos crianças e adolescentes em escolas;
  • encerramo-nos jovens e adultos em ambientes virtuais uns mais doentios que outros;
  • encerramo-nos trabalhadores em ambientes laborais onde deixamos que não exista respeito por um horário humano de trabalho e nos permitimos sujeitar ao torniquete de uma avaliação feroz;
  • encerramo-nos em hospitais psiquiátricos pessoais com as nossas caixas de comprimidos;
  • encerramo-nos criminosos em prisões cada vez mais medicalizadas;
  • encerramo-nos velhos em asilos...
... até que a morte nos encerre definitivamente no nada.

sábado, janeiro 09, 2016

Cada vez mais a comparação com os outros

Até há umas décadas, as pessoas sabiam que a sua vida não seria muito diferente da da sua família. Com o sonho da mobilidade social, promete-se às pessoas que elas podem ser o que desejarem: astronauta, presidente, artista, etc.

(O que não é verdade, pois somos todos condicionados pelos nossos genes, pela nossa família, pela nossa educação e pelo contexto económico, social e cultural em que vivemos - nada disto foi nossa escolha!)

Para manter essa promessa, o que a sociedade atual nos exige é que entremos em competição com os outros. Mesmo aqueles que não querem fazê-lo, são obrigados a isso, através dos sistemas de avaliação individuais (que foram impostos de forma forçada em praticamente todo o mundo laboral).

O mundo torna-se um lugar cada vez menos seguro. O nosso cérebro tem um mecanismo para nos proteger neste caso concreto: a comparação. Comparação, claro está, com os melhores do que nós, pois é desses que pode vir o perigo.

Compararmo-nos com aqueles que são melhores que nós não nos ajuda a sentirmo-nos bem. Além disso, experimentamos a obrigação de ser como eles, ou a culpa de não sermos como eles (já que não culpamos nem Deus nem a sociedade). E temos aí mais uma sobrecarga para os nossos sistemas de stress.

Porque, como é fácil encontrar sempre alguém melhor do que nós, passamos a viver com a sensação permanente de que não somos suficientemente bons. Nem aos nosso olhos, nem aos olhos dos outros. E passamos a viver com o medo de não nos quererem, de nos dispensarem, de nos rejeitarem, de nos marginalizarem e de nos expulsarem. Que é um medo terrível!

domingo, janeiro 03, 2016

O que eu desejo para 2016?

Que a vida, e tudo o que há de bom nela, continue a aparecer-me como novidade, como permanente surpresa e como plenitude, fora de todas as palavras para a descrever. Ou seja, que eu não deixe desgastar em mim a atenção aos instantes do milagre.

Que possam mudar as minhas conceções sobre a vida, ou sobre as relações, ou sobre a beleza, mas que não mude nem esmoreça a minha aspiração a tudo o que vá bem para lá da usura da rotina do dia a dia.

Que nessa vida eu vá conseguindo exprimir as mais profundas harmonias, capazes de surgirem como possibilidades de resolução da aflição daqueles que me procuram. E que a eles lhes permita conquistar finalmente a alegria (não a dos mercenários da boa disposição, mas a que está antes dessa e de outras igualmente artificiais), bem como a plenitude que tanto merecem.


sexta-feira, janeiro 01, 2016

Escrever

Escrevo sempre a partir de outros escritores.

Por isso, para mim, ler é respirar. Para poder escrever, depois, como amo; ou, pelo menos, como vivo.

Não o sei fazer senão em forma de fragmentos, porque também são múltiplas as margens para as quais a vida me atrai.

Sonhar com o amor

Estando sempre à beira da morte, ou melhor, sempre com as inumeráveis mortes a correr à nossa beira como ventos que cruzam a nossa caminhada, sonhar com o amor é ter a esperança de encontrar a janela que finalmente se abrirá para o jardim proibido.

Sonhamos com o amor, e aquilo que intuímos que tem de existir em algum lado, que parece que sentimos caminhar para nós, jamais nos chegará, como há muito Zenão profetizou, a essa janela habitada pela nossa busca solitária.

quarta-feira, dezembro 30, 2015

Ítaca, Cavafy e Jorge de Sena - Votos para 2016


ÍTACA - Constantino Cavafy
(Tradução: Jorge de Sena in "90 e mais quatro poemas", Centelha, Coimbra, 1986)

Quando partires de regresso a Ítaca, 
Deves orar por uma viagem longa,
Plena de aventuras e de experiências. 
Ciclopes, Lestrogónios, e mais monstros, 
Um Poseidon irado - não os temas, 
Jamais encontrarás tais coisas no caminho, 
Se o teu pensar for puro, e se um sentir sublime 
Teu corpo toca e o espírito te habita. 
Ciclopes, Lestrogónios, e outros monstros, 
Poseidon em fúria - nunca encontrarás, 
Se não é na tua alma que os transportes, 
Ou ela os não erguer perante ti. 

Deves orar por uma viagem longa. 
Que sejam muitas as manhãs de Verão, 
Quando, com que prazer, com que deleite, 
Entrares em portos jamais antes vistos! 
Em colónias fenícias deverás deter-te 
Para comprar mercadorias raras:
Coral e madrepérola, âmbar e marfim,
E perfumes subtis de toda a espécie: 
compra desses perfumes o quanto possas. 
E vai ver as cidades do Egipto,
Para aprenderes com os que sabem muito. 

Terás sempre Ítaca no teu espírito,
Que lá chegar é o teu destino último. 
Mas não te apresses nunca na viagem. 
É melhor que ela dure muitos anos, 
Que sejas velho já ao ancorar na ilha,
Rico do que foi teu pelo caminho, 
E sem esperar que Ítaca te dê riquezas. 

Ítaca deu-te essa viagem esplêndida. 
Sem Ítaca, não terias partido. 
Mas Ítaca não tem mais nada para dar-te. 


Por pobre que a descubras, Ítaca não te traiu. 
Sábio como és agora, senhor de tanta experiência, 
Terás compreendido o sentido de Ítaca.



quarta-feira, dezembro 16, 2015

A Poesia e os possíveis


A poesia pode gerar uma revelação vital que se decide no silêncio do livro. Ou da voz humana.

A poesia pode ser um apelo a que recuperemos a infância longínqua das emoções.

A poesia tem a capacidade de fazer despertar para a luz do dia o que mais profundamente nos afeta, aquilo que mais profundamente somos.

A poesia pode ser uma forma iluminada de pontuar a nossa relação com o mundo.

Os outros géneros literários têm atributos. A poesia atinge-nos, simplesmente.

A poesia tem a faculdade de permitir a reelaboração de vários mundos de vivências com um leitor - se é que há só um leitor dentro do leitor!

A poesia possibilita um caleidoscópio de ângulos de visão sobre realidades fundamentalmente inapreensíveis.

A poesia pode permitir aproximações fulgurantes ao centro do nosso próprio destino de seres humanos.

Não é possível existir uma poesia falsa. Porque ela, a existir, nunca seria sentida como poesia.

A poesia acrescenta novas realidades à realidade de se ser humano.

quinta-feira, dezembro 10, 2015

Justiça versus Liberdade


Penso que a Justiça e a Liberdade são utopias: jamais existirá uma sociedade justa ou livre.

Além disso, acredito que elas são pelo menos moderadamente incompatíveis: o excesso de uma implica o défice da outra.

Por isso, muitas vezes, exige-se uma escolha, qual a que se irá privilegiar como resultado de um determinado curso de ação. Essa escolha é habitualmente feita sem reflexão.

Eu adianto aqui uma reflexão possível, ao explicitar a minha preferência.

A minha inclinação vai para a justiça. Porque estou sempre do lado dos mais fracos e desprotegidos. Numa sociedade livre (de homens ou de animais), o mais forte tende a ganhar, a dominar, a explorar. Em detrimento dos mais fracos. Como acho que é um sofisma a teoria de que, numa sociedade livre, é-se fraco por escolha própria, aquilo, para mim, é-me intolerável. No coração, eu escolho a justiça.


sábado, dezembro 05, 2015

O homem e a Natureza

Por mais alto que consigamos subir, continuamos sempre a ser uma modesta parte do grande mundo da Natureza.



Foto de Max Rive

O poder do aqui e agora, segundo Hobbes!











Bill Waterson

Montesquieu

"Si je savais une chose utile à ma nation qui fût ruineuse à une autre, je ne la proposerais pas à mon prince, parce que je suis homme avant d'être français, ou bien parce que je suis nécéssairement homme, et que je ne suis français que par hasard."

Acreditar...



Diniz Monteiro

Danna Faulds

Walk Slowly


It only takes a reminder to breathe,
a moment to be still, and just like that,
something in me settles, softens, makes
space for imperfection. The harsh voice
of judgment drops to a whisper and I
remember again that life isn’t a relay
race; that we will all cross the finish
line; that waking up to life is what we
were born for. As many times as I
forget, catch myself charging forward
without even knowing where I’m going,
that many times I can make the choice
to stop, to breathe, and be, and walk
slowly into the mystery.

Aim for the Moon...

Estar, simplesmente

Carl Sagan

Dalai Lama (80 anos)

"On a visit to D.C., the Dalai Lama was asked by a reporter to share about the happiest moment in his life.

He paused and then gave a very mischievous look.

His response: 'I think now!'"

I Will Be There - Katie Melua

"Don't ever be lonely,
Remember, I'll always care.
Wherever you may be,
Remember, I'll be there"

(Katie Melua)

Belo mantra e uma belíssima canção para um cuidador, seja mãe, pai, familiares, amigos ou terapeutas.



sexta-feira, dezembro 04, 2015

Escolhas simples

“Imaginem como seria se concentrássemos todas as nossas energias a construir relações afetuosas entre as pessoas.
Suponham que (…) nos concentrávamos somente em cultivar uma sociedade cujo valor mais elevado e cuja prioridade máxima fosse que as pessoas cuidassem umas das outras.
Suponham que estivéssemos a conseguir uma sociedade na qual, em cada contacto, primeiro prestássemos atenção a como a outra pessoa está, e quando víssemos situações que pudessem prejudicar o seu bem-estar, trabalhássemos para mudar essas situações.
Como seria se, em cada dia, acordássemos e tentássemos contribuir para o conforto, segurança, competência e sucesso daqueles que nos rodeiam?”
(Anthony Biglan, The Nurture Effect – How the Science of Human Behavior Can Improve Our Lives & Our World, 2015)

Poema de Papiniano Carlos

“Amanhã viajarei no tempo,
viajarei nos ventos, os dedos esguios.
Viajarei no pó, nas nuvens, nos caminhos
das águas; retornarei às fontes,
serei (de novo?) a oculta semente
que espera o tempo
de ser ave.”
Papiniano Carlos, As Florestas e os Ventos

Poema de Kobayashi


"No orvalho branco
Transparece o caminho
Do paraíso"
(Issa Kobayashi)

Prémio de melhor aluno em 2012-2013


A receber o prémio de melhor aluno da Universidade, na minha área científica, por me ter licenciado, em 2012-2013, em Psicologia, com 18 valores.

Comentário de João Marques Gameiro, meu colega de curso:

«Não sabia que isto ia acontecer senão tinha tentado ir à cerimónia. Um prémio merecido e bem entregue. Não foram só 18 valores. São muitos outros dos colegas que ele sempre ajudou. Parabéns Rui! Um Abraço».

Responder ao mal

"Si l'on me fait du mal, désirer que ce mal ne me dégrade pas, par amour pour celui qui me l'inflige, afin qu'il n'ait pas vraiment fait du mal".

Simone Weil

sábado, setembro 19, 2015

Estado de Sítio, Albert Camus - IV

A Peste: Eu reino, é um facto, é por consequência um direito. Mas é um direito que não se discute: vós deveis adaptar-vos. 
Demais, não vos equivoqueis, se eu reino é à minha maneira, e seria mais próprio dizer-vos que funciono. (...)

Camus, A. (1948). Estado de Sítio. Lisboa: Livros do Brasil (p.81)

La Peste: Moi, je règne, c’est un fait, c'est donc un droit. Mais c'est un droit qu'on ne discute pas : vous devez vous adapter.
Du reste, ne vous y trompez pas, si je règne c'est à ma manière et il serait plus juste de dire que je fonctionne.

terça-feira, agosto 25, 2015

Estado de Sítio, Albert Camus - III

(...)
O homem [a Peste]: Perdoai-me que vos interrompa [ao governador]. Mas gostaria imenso de vos ouvir declarar com precisão, diante deste povo, que consentis de espontânea vontade nestas úteis disposições e que se trata de um acordo formado com plena liberdade.

O governador olha para o lado do homem e da sua secretária. Esta leva o lápis à boca [que usa para riscar nomes do seu caderno, matando quem é riscado].

O governador: Com certeza, é em plena liberdade que concluo este acordo.

Balbucia, recua e foge. O êxodo começa.

O homem, ao primeiro alcaide: Faz favor, não vá com tanta pressa! Tenho necessidade de um homem que conte com a confiança do povo e por intermédio do qual eu dê a conhecer as minhas vontades. (O primeiro alcaide hesita.) Aceita, é claro... (À secretária:) Cara amiga...
O primeiro alcaide: Mas com certeza, é uma grande honra.
O homem: Perfeitamente. Nestas condições, cara amiga, comunicará ao alcaide quais os decretos que é preciso dar a conhecer a essa boa gente, a fim de que possam começar a viver dentro dos nossos regulamentos.
A secretária: Decreto concebido e publicado pelo primeiro alcaide e seus conselheiros...
O primeiro alcaide: Mas eu ainda não concebi nada...
A secretária: É um trabalho que lhe poupamos. E parece-me que se deve sentir lisonjeado por os nossos serviços tomarem a seu cargo a redação do que vai ter a honra de assinar.

Camus, A. (1948). Estado de Sítio. Lisboa: Livros do Brasil (p.68-70)

L'homme: Pardonnez-moi de vous interrompre. Mais je serais heureux de vous voir préciser publiquement que vous consentez de plein gré à ces utiles dispositions et qu'il s'agit naturellement d'un accord libre.

Le gouverneur regarde de leur côté. La secrétaire porte le crayon à sa bouche.

Le gouverneur: Bien entendu, c'est dans la liberté que je conclus ce nouvel accord.

Il balbutie, recule et s'enfuit. L'exode commence.

L'homme, au premier alcade: S'il vous plaît, ne partez pas si vite ! J'ai besoin d'un homme qui ait la confiance du peuple et par l'intermédiaire duquel je puisse faire connaître mes volontés. (Le premier alcade hésite.) Vous acceptez naturellement... (À la secrétaire.) Chère amie...
Le premier alcade: Mais, naturellement, c'est un grand honneur.
L'homme: Parfait. Dans ces conditions, chère amie, vous allez communiquer à l'alcade ceux de nos arrêtés qu'il faut faire connaître à ces bonnes gens afin qu'ils commencent de vivre dans la réglementation.
La secrétaire: Ordonnance conçue et publiée par le premier alcade et ses conseillers ...
Le premier alcade: Mais je n'ai rien conçu encore ...
La secrétaire: C'est une peine qu'on vous épargne. Et il me semble que vous devriez être flatté que nos services se donnent la peine de rédiger ce que vous allez ainsi avoir l'honneur de signer.

sábado, agosto 22, 2015

Estado de Sítio, Albert Camus - II

O arauto: (...) Os governos bons são os governos em que nada se passa. Ora tal é a vontade do governador: que nada se passe no seu governo, a fim de que ele continue a ser tão bom como foi sempre. Afirma-se, pois, aos habitantes de Cádis que nada se passou neste dia que valha a pena alguém alarmar-se ou incomodar-se. (...)
Nada: Está bem! Diego, que dizes tu a isto? É um achado!
Diego: É uma tolice! Mentir é sempre uma tolice.
Nada: Não, é uma política. e que eu aprovo, pois que ela visa a tudo suprimir. Ah! Que bom governador que nós temos! Se o seu orçamento está em défice se o seu lar é adúltero, ele anula o défice e nega o adultério. (...)

Camus, A. (1948). Estado de Sítio. Lisboa: Livros do Brasil (p.24 e 25)

Le héraut: (...) Les bons gouvernements sont les gouvernements où rien ne se passe. Or telle est la volonté du gouverneur qu'il ne se passe rien en son gou-vernement, afin qu'il demeure aussi [26] bon qu'il l'a toujours été. Il est donc affirmé aux habitants de Cadix que rien ne s'est passé en ce jour qui vaille la peine qu'on s'alarme ou se dérange. (...)
Nada: Eh bien ! Diego, qu'en dis-tu ? C'est une trouvaille !
Diego: C'est une sottise ! Mentir est toujours une sottise.
Nada: Non, c'est une politique. Et que j'approuve puisqu'elle vise à tout supprimer. [27] Ah ! le bon gouverneur que nous avons là ! Si son budget est en déficit, si son ménage est adultère, il annule le déficit et il nie l'accouplement. (...)

quinta-feira, agosto 20, 2015

Estado de Sítio, Albert Camus - I

(...) Desde o momento em que tenham comido três refeições, trabalhado oito horas e sustentado as duas mulheres de cada um, imaginam que tudo está na ordem. Não, vocês não estão na ordem, vocês estão na fila. Bem alinhados, de ar tranquilo, vocês estão maduros para a calamidade. Pronto, meus valentes, o aviso está feito, estou em regra com a a minha consciência. Quanto ao resto, não se incomodem, há quem se ocupe de vocês lá em cima. E vocês sabem o que isso dá: os que se ocupam de nós não são complacentes!

Camus, A. (s/d). Estado de Sítio. Lisboa: Livros do Brasil. (p.20)

Com este trecho, começo a passar para aqui as imensas referências à época que estamos a atravessar que podemos encontrar nesta obra. Apesar dela ter sido escrita em 1948, a sua actualidade é dolorosa e agudamente evidente. Poderei por vezes comentar; no entanto isso será raro, dada a evidência habitualmente luminosa do texto.


[(...) Du moment que vous avez fait vos trois repas, travaillé vos huit heures et entretenu vos deux femmes, vous imaginez que tout est dans l'ordre. Non, vous n'êtes pas dans l'ordre, vous êtes dans le rang. Bien alignés, la mine placide, vous voilà mûrs pour la calamité. Allons, braves gens, l'avertissement est donné, je suis en règle avec ma conscience. Pour le reste, ne vous en faites pas, on s'occupe de vous là-haut. Et vous savez ce que ça donne: ils ne sont pas commodes!]

sábado, junho 20, 2015

"Shark Tank"

"Shark Tank"?
"(...) They present their ideas to the sharks in the tank -- five titans of industry (...) The contestants try to convince any one of the sharks to invest money in their idea. When more than one of the sharks decide they want (...)"

Como é possível alguém considerar-se elogiado por ser chamado ou considerado um tubarão?

A resposta é que sim, é possível. Mesmo sabendo que o tubarão é uma máquina de comer e reproduzir-se, que não tem outras utilidades ou funções, mesmo assim, há muita gente que olha com admiração para estes seres que se reconhecem no conceito de tubarão e que se orgulham disso.

Isto não devia ser considerado normal.

Sabedoria: o oásis que se procura no deserto da vida

Diz-se que a sabedoria traz plenitude, calma e paz. Não acredito. Se fosse verdade, muita gente estaria neste momento a esforçar-se para a obter, e isso não se vê acontecer.

No que me diz respeito, a sabedoria (pouca) que consegui arrecadar em 57 anos serviu para:
1) ficar cada vez mais aflitivamente consciente do sofrimento das pessoas;
2) ficar cada vez mais dolorosamente consciente da extensão e profundidade da minha ignorância.

Mas continuo a caminhar.

sexta-feira, março 20, 2015

Quem tomou más decisões e quem paga por elas: não são os mesmos, Mario Draghi!

"O facto de que alguns tiveram de atravessar um período difícil de ajustamento não é, portanto, uma escolha que lhes foi imposta. É uma consequência das suas decisões passadas." (Mario Draghi, Público, 19/03/2015, p.8)

Supor que Mario Draghi acredita no que está a dizer é insultar a sua inteligência.

É claro que ele sabe perfeitamente que as pessoas, que tomaram aquelas decisões a que ele se refere, pertencem a uma elite que não só não sofre "ajustamento" nenhum, como ainda por cima está a ser premiada por essas decisões. Em Portugal, veja-se o que aconteceu a António Guterres, Santana Lopes, Paulo Portas, Durão Barroso, Cavaco Silva, etc, etc (note-se que Sócrates está onde está não por aquelas decisões).

Quem é "ajustado" é quem não foi visto nem achado relativamente aquelas decisões, o povo, os que não pertencem a nenhuma elite, o elo mais fraco. Nem sequer pelo voto, pois sabemos que os Governos das últimas legislaturas têm sido eleitos com base num programa eleitoral que eles publica e explicitamente renegaram mal ascenderam ao governo. E, que eu saiba, nunca a população portuguesa votou no Ricardo Salgado, no Oliveira e Costa e tantos outros banqueiros e grandes empresários, eles sim, juntamente com aqueles governos, responsáveis por toda esta situação.

domingo, setembro 14, 2014

Padre Brown e os matadores (segundo Ricardo Pettrella)

«Liliana venceu Portugal, o país do medo: “Dou o nome e a cara porque não tenho de ter vergonha, eles é que deviam ter.” Liliana foi substituída no seu posto de trabalho quando, depois de umas férias, regressou à empresa e anunciou estar grávida. “O nosso medo está a juntar-se à ansiedade de um presente que não tem futuro”, anota o filósofo José Gil.»
(Público, 14 de Setembro de 2014, in http://www.publico.pt/portugal/noticia/liliana-venceu-portugal-o-pais-do-medo-1669432)

Tempo triste, este, em que o afeto e o respeito estão tão ausentes das relações entre as pessoas, principalmente das de trabalho, onde se valoriza um tratamento agressivo dos recursos humanos (considerados, ora como fonte de desperdício, ora como fonte de todos os males da empresa).

Cito G.K.Chesterton em 1927, pela boca do Padre Brown: 
«- (...) Partiu do príncipio que o homem pobre exercia chantagem sobre o rico. De facto, passava-se o contrário: o homem rico é que exercia chantagem sobre o pobre.
- Mas essa história parece um disparate - objectou o secretário.
- É bem pior que isso, embora não seja assim tão invulgar - replicou o sacerdote. - Grande parte da política actual consiste numa chantagem exercida pelos ricos sobre as outras pessoas. A ideia que você faz de disparate assenta em duas ilusões, ambas disparatadas. Uma é a de imaginar que os homens ricos não pretendem ser ainda mais ricos e a outra é a de achar que uma pessoa só pode ser vítima de chantagem por dinheiro. (...)»
Chesterton, G.K.(1988). O Segredo do Padre Brown (Capítulo V - O desaparecimento de Vaudrey). Lisboa: Publicações Europa-América, p.98

Quando se trata de maltratar ou despedir grávidas, então também se trata de colaborar com a tentativa de extinção da população portuguesa, ao castigar a natalidade.


Quase me surpreendem aqueles que
, muito conformados com o(s) poder(es) e muito cuidadosos para nunca os pôr em causa, se espantam com os aumentos de taxas de depressão, ansiedade e suicídio...


Ricardo Pettrella dizia numa entrevista: 

«Não vemos diferença entre as escolas militares e as escolas de gestão. Foi por isso que propus há muito o encerramento das escolas de gestão, de management business administration. Estas escolas não ensinam. O que fazem é ensinar a matar. Formam matadores, conquistadores, winners. Não ensinam a gerir uma empresa.»
(Petrella, R. "Entrevista a Ricardo Petrella", Economia Pura, nº11, pág-18-19)

Sei que estou a repetir-me, mas isto é mesmo triste.

domingo, agosto 10, 2014

Um espírito argentino?

Numa entrevista na rádio, diz Osvaldo Ferrari:
- (...) Bem, o senhor cultivou, diria eu, esta síntese na narração.
Responde Jorge Luís Borges:
- Não, o que acontece é que sou muito preguiçoso, não conseguia escrever mais, sabe? Canso-me muito depressa e isso chama-se concisão (riem-se os dois); mas realmente cansa-me.

Numa entrevista ao papa Francisco na televisão, ao ser-lhe referida a sua opção de abdicar de viver luxuosamente no palácio papal, ele responde mais ou menos isto:
- Sabe, na verdade faço-o por razões psiquiátricas. É que no palácio está-se muito sozinho e eu dou-me mal com a solidão. Assim, tenho mais companhia e posso conviver mais.



domingo, janeiro 27, 2013

A alegria pura de uma música simples

And The Waltz Goes On, de Sir Anthony Hopkins, por André Rieu


O ocaso do trabalho humano


Desde sempre, até a mais humilhada das pessoas sabia que a sua existência tinha valor económico porque possuía três características que lhe garantiam um lugar no meio dos seus semelhantes, mesmo que esse lugar fosse o mais pobre de entre os pobres: a capacidade de trabalhar, a capacidade de aprender e a capacidade de prover à sua subsistência.

Hoje em dia, e pela primeira vez na história, isso desapareceu.

A tecnologia de hoje, e de um futuro cada vez mais próximo, já consegue fornecer substitutos bem mais equipados, mais incansáveis, mais exactos, mais cumpridores, em suma, mais capazes: os computadores, a automação, a inteligência artificial. Por outras palavras, os robots.

A ideia de que eles seriam incapazes de realizar e de aprender tarefas mais exigentes cognitivamente pertence, literalmente, ao século passado.

Cada vez mais nos deparamos, no nosso dia a dia, com a ausência de seres humanos em locais de trabalho. Seja desde a atender uma chamada que façamos, ou a fabricar um carro, o factor humano no trabalho está a desaparecer porque obsoleto. Trazendo, claro, gigantescos lucros para os possuidores desses meios tecnológicos; e uma desesperada pobreza para a grande maioria dos que os não possuem.

Haverá sempre necessidade de humanos para desempenhar algumas tarefas a troco de um salário: não somos como os cavalos ou os bois que foram substituídos pelos carros e pelos tractores. Mas a maior parte do trabalho irá sem dúvida ser desempenhado por máquinas. A verdade assustadora é que os seres humanos, na sua maioria, estão a tornar-se supérfluos.

O problema é o facto de a riqueza produzida ficar concentrada nas mãos dos grandes proprietários e não ser distribuída mais equitativamente.

Evidentemente que existe a possibilidade de a tecnologia poder vir a promover a criação de mais trabalho. Só que essa não é a tendência a que se assiste.

Assim, para mim, apenas consigo imaginar como solução um Estado protector que possa garantir que todos tenham acesso à propriedade tecnológica (e não ficar só nas mãos de alguns). E também a garantir algum capital a todos que permita a criação de pequenos negócios (com a possibilidade de recurso a robots também, embora mais simples).

sábado, janeiro 26, 2013

A música mais relaxante do mundo

A banda britânica Marconi Union criou a peça musical mais relaxante do mundo: Weightless (cuidado: não pode ser ouvida enquanto se conduz o carro ou se realiza qualquer outra actividade que exija toda a nossa atenção!). Deve ser ouvida em toda a sua extensão para fazer efeito.

Mescla os sons de guitarra, piano, sons (electrónicos) da natureza e, ainda, cantos budistas, mas sem uma melodia de base para não criar expectativas perturbadoras do que virá a seguir. Confesso que, a mim, irritou-me um bocado, mas as pessoas são diferentes e pode ser que resulte para outros.

O trabalho foi feito em colaboração com terapeutas do som e, depois, testado por uma equipa de cientistas. Para pormenores, ir aqui.

Já agora, as dez peças musicais eleitas como mais relaxantes:
1. Marconi Union - Weightless
2. Airstream - Electra
3. DJ Shah - Mellomaniac (Chill Out Mix)
4. Enya - Watermark
5. Coldplay - Strawberry Swing
6. Barcelona - Please Don't Go
7. All Saints - Pure Shores
8. Adele - Someone Like You
9. Mozart - Canzonetta Sull'aria
10. Cafe Del Mar - We Can Fly

sábado, outubro 13, 2012

Pequena resposta a uma crítica injusta à escola pública

Respigo uns comentários no facebook de alguém a propósito da superioridade das escolas privadas (e que, provavelmente, são subscritas por algumas, espero que poucas, outras pessoas):
Entre as várias diferenças estão: Se na escola privada o professor dá sinais de não perceber muito bem o que anda ali a fazer é convidado a sair, na pública é convidado a ficar. No público os professores aproveitam os artigos todos. No privado não há artigos há trabalho.
O público só não copia os bons exemplos porque não quer ...
Também não é pelo número de alunos que as privadas funcionam melhor ... veja-se o Colégio de Vilamoura com 800 alunos e é um exemplo nacional ... às portas de Loulé... até promovo uma visita guiada com as direcções das escolas públicas que quiserem ... não sei se há quem queira claro!

Caro senhor, aproveito este espaço para lhe dizer com todo o respeito:

O senhor está enganado, terrivelmente enganado. Provavelmente, é vítima da propaganda que quer acabar com a escola pública.


O senhor vem falar de como cuidar de um campo de flores e eu vou falar-lhe de professores num quase teatro de guerra cuja tarefa primordial é sobreviver e tentar salvar da barbárie o maior número possível de crianças e jovens.

Na verdade, a ignorância que o senhor revela ao falar dos professores da escola pública é tão desproporcionada que não me posso calar. E explico-lhe porquê.

Primeiro, porque se os seus filhos e a sua família ainda conseguem andar nas ruas em relativa segurança é porque a escola pública e os seus docentes e funcionários recebem e tentam também educar reais e potenciais delinquentes.

Segundo, porque o senhor não sabe o que é ter o seu carro incendiado; não sabe o que é ser insultado e ameaçado diariamente, física e psiquicamente; não sabe o que é chegar a levar uns valentes pontapés e bofetadas; não sabe o que é ter alunos seus (que podiam ser os seus filhos) a serem enviados para o hospital, uns em coma, outros nem tanto, perante a impotência dos professores; não sabe o que é chamar em desespero a polícia e esta não poder vir porque está ocupada noutras escolas com acontecimentos similares. Que fique registado que isto é apenas uma pequena amostra de acontecimentos que foram testemunhados por mim.

E já agora, deixe-me que lhe diga que o senhor também não sabe, não pode saber, o que é sentir o orgulho de ter alunos com Necessidades Educativas Especiais em quase todas as turmas, miúdos e miúdas, muitos dos quais são expulsos ou cuja entrada é recusada por escolas privadas. Sim, repito, por escolas privadas.

Apesar de eu ter conseguido sair desse inferno (sem nada nas mãos e tendo que começar toda uma nova vida), nunca deixarei de estar ao lado dessas centenas e milhares de professores (na verdade, professoras na sua maioria), a fazerem diariamente das tripas coração e a trabalharem nestas martirizadas escolas públicas, sabendo esses professores que jamais obterão da sociedade o reconhecimento, e muito menos a gratidão, que merecem.

Tendo, ainda por cima, de ouvir pessoas, como o senhor, que estão convencidas de que sabem tudo e que na verdade pouco ou nada sabem do que criticam.

domingo, setembro 16, 2012

E depois da manifestação?

Estive na manifestação contra a Guerra no Iraque (com milhares de pessoas em Portugal e mais uns milhões de pessoas por todo o mundo).
Estive nas megamanifestações dos professores.
E noutras. Sabemos a resposta que obtiveram por parte do poder.


Fazer manifestações dá-nos a ilusão de que fizemos alguma coisa. Mas não fizemos nada, a não ser mostrar que “não estamos a gostar”. Daí até conseguirmos demonstrar que “não aceitamos” vai uma distância considerável. E exige de nós bastante mais do que a participação numa simples manifestação (por mais convictamente zangada e/ou cívica que ela se revele).

Uma manifestação pode ter algum efeito numa democracia plena. Há muito que não estamos a viver numa democracia plena.
Para enfrentar com sucesso o poder instalado (do qual o poder político é, na maior parte das vezes, apenas um mero testa-de-ferro) outros meios são necessários.

No regime em que estamos a viver, só nos restam dois tipos de meios: a luta armada (foi assim que o 25 de Abril foi feito, com as armas a liderarem a iniciativa) ou a resistência não-violenta, que eu prefiro (e que nada tem de passiva, note-se!), embora implique grandes sacrifícios pessoais e familiares.

Não há melhor exemplo que a clássica história dos acontecimentos que se iniciaram com Rosa Parks, em 1955, no Sul dos EUA. Tendo pago o seu bilhete num autocarro, mandaram-na levantar-se do seu lugar para que um branco se sentasse. Ela recusou. Foi presa.
Foi anunciado um boicote aos autocarros pela comunidade negra. Esse boicote durou 381 dias, tendo a maior parte das pessoas feito o sacrifício de andar sempre a pé. Mas a lei que permitia estas iniquidades mudou. A empresa teve de escolher entre a falência ou a justiça. Optou pela última.

É que esta linguagem (a que põe em causa os seus lucros) é a que os empresários, banqueiros, financeiros e economistas, cuja ganância tem levado as famílias e o país à ruína, entendem.

E nós? Perceberemos o que temos de fazer? E quereremos fazê-lo?

sábado, setembro 08, 2012

Revelações de um discurso ao país



Quem tenha estado atento ao discurso do primeiro-ministro ontem, e não deixe que considerações pessoais interfiram no seu julgamento, ter-se-á apercebido que nas cerca de 2200 palavras que o constituem não se encontra uma única ideia que confira um sentido à vida actual dos portugueses.

Penso que se pode tirar quase tudo às pessoas, mas há duas coisas que não: a dignidade e o sonho.

Quanto à dignidade, os nossos governantes, banqueiros e muitos patrões vivem como se ela não existisse, nem para si próprios nem para os outros: é uma deficiência, uma incapacidade congénita, pelo que é difícil culpabilizá-los por isso. Adiante.

No discurso do primeiro-ministro evidencia-se a completa ausência de um sonho, de um ideal para Portugal. É grave e explica a violência com que esse discurso está a ser recebido por todo o país. É que o que move as pessoas não é o dinheiro (e muito menos o dinheiro dos outros) mas sim o sonho. Já Sebastião da Gama escrevia há muitos anos, com a imensa sabedoria de um coração puro, que “Pelo sonho é que vamos”. Roubem às pessoas os seus sonhos individuais e colectivos e o resultado será, no mínimo, imprevisível porque as pessoas se sentirão espoliadas no mais fundo de si.

Este discurso, em vez de motivar os portugueses para um esforço colectivo, revela várias coisas que incitam antes à revolta das pessoas bem formadas.

Primeiro, revela que o ideal indiscutível proposto por Abraham Lincoln, “que o governo do povo, pelo povo e para o povo jamais desapareça da face da terra”, desapareceu até do horizonte do actual governo. Hoje, a preocupação revelada pelo primeiro-ministro neste discurso é de apenas obedecer às ordens do poder financeiro, interno (beneficiando empresas e bancos) e externo (a famigerada troika), assumindo-se assim como um mero testa-de-ferro de outros poderes que não o do povo que o elegeu.

Segundo, para o primeiro-ministro os pobres não existem. Só assim se explica que o sofrimento e a morte de tantos pobres (lembre-se por exemplo o aumento de mortes por gripe sem nenhuma razão por detrás que não o ter-se impedido o acesso à saúde aos mais desprotegidos) possa não constituir um problema para ele e nem sequer tenha sido considerado: no discurso, referem-se apenas aqueles que trabalham e aqueles a quem o seu trabalho foi roubado, mais ninguém (os pensionistas e reformados são referidos de passagem apenas para lhes lembrar o que lhes continuará a ser tirado).

Gandhi dizia que o critério para determinar se uma lei era boa ou má consistia em perguntar: esta lei beneficia os mais pobres de entre os pobres? Se sim, a lei era boa; se não, era má.

Para o primeiro-ministro os pobres não são de todo a sua prioridade. O culto assumido é apenas o do dinheiro.

quinta-feira, agosto 30, 2012

Em direcção a uma vida simples



O que o Presidente do Uruguai nos sugere é uma coisa que está ao alcance de todos nós: sermos conduzidos pela aspiração apenas a uma vida simples. Que não deixe, no entanto,  de ser digna.
Digna aos nossos olhos, não por comparação com os outros. Digna para não termos de nos envergonhar perante o olhar dos nossos filhos, um olhar marcado pela fome, pela miséria, pela destuição do seu direito à felicidade. Daí que a pobreza fique excluída destas considerações.
Mas uma vida frugal, sim. O que o Presidente do Uruguai nos sugere é que não é consumindo que eu exerço o meu direito à felicidade, que eu chego a ser inteiro e livre. Não é por ter coisas e dinheiro e poder.
Voltemos então à noção de uma vida simples: uma vida em que o ser se sobreponha ao ter, uma vida em que o homem e a mulher não vendam aos bancos a sua liberdade e o respeito por si próprios.

domingo, janeiro 01, 2012

Votos para o ano de 2012

Quero incluir aqui o discurso que Leonard Cohen proferiu por ter recebido o Prémio Príncipe das Astúrias, a 21 de Outubro de 2011.
Porque desejo que o ano de 2012 nos traga esses lugares e proteja essas pessoas em que a poesia se encontra com o que de mais alto existe na natureza humana, tal como aqui exemplifica Leonard Cohen com as suas palavras e com a sua atitude. Onde a cortesia, a humildade, o reconhecimento e a verdadeira grandeza brilham de forma inesquecível.



Como disse Lou Reed noutro contexto, "We´re so lucky to be alive at the same time Leonard Cohen is!"