sábado, maio 29, 2010

Vergílio Ferreira...

“Amor de Perdição” de Camilo Castelo-Branco, “Aparição” de Vergílio Ferreira, “Dom Casmurro” de Machado Assis, “O Delfim” de José Cardoso Pires, “Esteiros” de Soeiro Pereira Gomes, “Memorial do Convento” de José Saramago”, “Os Maias” de Eça de Queiroz, “A Sibila” de Agustina Bessa-Luís, “Sinais de Fogo” de Jorge de Sena e “Terra Sonâmbula” de Mia Couto são os 10 romances eleitos.

A escolha foi efectuada por um júri constituído por escritores e por docentes da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, que elegeu uma dezena como os romances mais representativos da literatura de língua portuguesa, de entre as 30 obras mais votadas por docentes, estudantes e funcionários da Universidade. Depois da votação de docentes, funcionários e estudantes da Universidade de Coimbra, um júri escolheu, de entre as 30 obras mais votadas, a lista dos “10 mais” romances da literatura portuguesa.

Numa primeira fase do concurso “10 Paixões em Forma de Romance”, que foi promovido pela Imprensa da Universidade de Coimbra, todos os membros da comunidade universitária puderam designar os três romances que mais gostaram de ler.

Depois de apurados os 30 romances mais votados, o júri composto pela vice-reitora da Universidade de Coimbra, Cristina Robalo Cordeiro, pelos escritores José Luís Peixoto e João Tordo, pelos professores da FLUC José Cardoso Bernardes (coordenador do Centro de Literatura Portuguesa da FLUC), Maria Aparecida Ribeiro (docente de Literatura Brasileira) e José Luís Pires Laranjeira (docente de Literatura Africana) e presidido pelo director da Imprensa da Universidade, João Gouveia Monteiro, reuniu dia 20 para eleger os “10 mais”.

Para chegar a esta lista final, o júri teve em conta a diversidade e representatividade de diferentes épocas, correntes, geografia e géneros, bem como a expressão da vontade dos votantes.

O objectivo deste concurso foi tomar esta escolha como um pretexto para falar de livros e de boa literatura, na sequência de outras iniciativas levadas a cabo pela Imprensa da Universidade de Coimbra. Ao longo do ano lectivo 2010/2011, a Imprensa da Universidade de Coimbra, em parceria com a Biblioteca Geral e o Centro de Literatura Portuguesa da FLUC, irá promover diversos eventos sobre as 10 obras vencedoras, nomeadamente exposições e tertúlias.


(via De Rerum Natura)



Vergílio Ferreira iria comover-se com isto... eu comovi-me!

sexta-feira, maio 28, 2010

Ainda e, agora, sempre Os Maias

Romance fabuloso! De uma inteligência extraordinária!
Tanta coisa de que eu gostaria de falar, de discutir, de partilhar... acho, pelo menos, que consegui "infectar" os meus alunos com o meu entusiasmo.

É tão fácil começarmos por nos identificar com Carlos da Maia, embora sempre, admitamo-lo, com um certo sorriso. Mas ele é o herói do livro, no fim de contas.
Só que Eça é um perverso e põe-lhe todos os defeitos dos portugueses, açucarados pelo charme, pela beleza e pela fortuna, facilitando essa nossa identificação com ele... até que aqueles começam a ser tão evidentes que começamos a sentirmo-nos desconfortáveis por esta ligação emocional que estabelecemos com Carlos.
No fundo, Carlos é um inútil, um fraco, um indolente. O retrato feito por Afonso da Maia é curto e exacto: "O velho escutava com melancolia estas palavras do neto, em que sentia como uma decomposição da vontade, e que lhe pareciam ser apenas a glorificação da sua inércia. (...)" (Cap. XII).
Mas até o próprio Afonso da Maia, tirando a sua bondade, nada faz nem fez de significativo. Ele é bem um Maia que, por via de princípios de que não abdica facilmente (agora na velhice, porque na sua juventude não teve problemas com isso) e que lhe dão uma certa forma de integridade, parece ter mais substância do que Carlos, mas de facto não tem.

De todos os defeitos expostos por Eça aos nossos olhos, do Carlos (e de quase todas as outras personagens), o que mais me impressionou foi o medo. Um medo que se traduzia por uma insidiosa cobardia nas situações que exigiam na verdade um esforço para poder manter o respeito por si próprio. Carlos é lamentavelmente falho desse tipo de esforço. A cobardia é nele uma doença, tanto mais terrível quanto nunca o aparenta ser; e ele chega ao fim sem nunca perceber o quão baixo se permitiu deixar ir.

Há, no entanto, duas personagens que escapam a este retrato impiedoso. Um em tom menor: Vilaça que, não fora a sua tacanhez, poderia vir tornar-se uma personagem digna de admiração.

Mas em tom maior, grandioso mesmo, sem dúvida alguma, é a Maria Eduarda: faz o que tem de fazer, com nobreza, discretamente e sem dramas nenhuns. E acaba com um gesto verdadeirante grandioso: recusa receber o que quer que seja da herança à qual, aliás, tem todo o direito legal e moral, pois ela é uma filha legítima e de direito de Pedro da Maia. É uma personagem verdadeiramente admirável, sem nunca deixar de ser humana, no meio de um friso mais ou menos repulsivo de entes cheios de empáfia, mas realmente sem qualidade alguma.

terça-feira, maio 11, 2010

Os Maias e... para memória futura

No centro de explicações onde trabalho, os principais critérios de avaliação do desempenho são dois:
- obter resultados;
- os pais e explicandos gostarem de nós.
Falhando num destes critérios, o explicando é-nos retirado e mudado para outro professor. Falhando nos dois é o professor que é "retirado".
Desde o início do ano que só "sobrevivemos" dois professores: o de Físico-Químicas e eu, o resto entra e sai, com a maior ou menor das velocidades.
A mim vão-me carregando mais e mais. Neste momento dou explicações de:
- 1º ciclo: todas as disciplinas;
- 2º ciclo: todas as disciplinas;
- 3º ciclo: todas as disciplinas, excepto Português e Físico-Químicas;
- Secundário: Matemática, Inglês e Português.
Acho que a directora está a testar-me, para saber onde e quando vou atingir o meu nível de incompetência!...

No âmbito do Português, ando a reler Os Maias. Que livro maravilhoso, que riqueza em todos, mas mesmo quase todos os sentidos! Exaspero-me com a minha incapacidade para transmitir este maravilhamento aos meus alunos, simpáticos, mas enfastiados e preguiçosos que eles são!
Vim escrever este post quando, ao lê-lo, cheguei a esta parte:

"(...) Craft e o marquês tinham começado uma conversa sobre a vida, soturna e desconsoladora. De que servia viver, dizia Craft, não se sendo um Livingstone ou um Bismarck?" (Cap. IX, p. 290 da minha edição dos "Livros do Brasil")

Muitas vezes me tenho perguntado sinceramente o mesmo. Além disso, como é possível eu conseguir conviver com a ideia da minha banalidade, senão mesmo mediocridade? Como consigo conciliar os meus sonhos de grandeza, a minha ânsia de absoluto, com o pouquíssimo que até agora consegui realizar? Mal, muito mal. Nada há de heróico na minha vida, por muito que eu o desejasse. Nada há que possa ser recordado 10 ou 20 anos depois de eu morrer. E é assim que acabo por não saber responder à pergunta de Craft/Eça...

sexta-feira, abril 23, 2010

25 de Abril - Um post amargo

Há 36 anos começava um periodo da vida do país durante o qual a maioria dos portugueses pôde acreditar que todos os sonhos eram possíveis. Tanta loucura que foi imaginada, que foi feita, e a maior parte até que foi bem intencionada!
A partir de Novembro de 75 os portugueses foram acusados de tudo e de mais alguma coisa, em particular de terem delapidado as finanças públicas, pondo o país "de tanga"... Soa a familiar? Pois soa. E agora, quem são os responsáveis? E por que miserável incompetência é que nos arrastaram até aqui, principalmente depois de anos e anos a imporem-nos sacrifícios, a atiçarem ódios, a promoverem mais e mais corrupção?

Eu não consigo ver filmes, nem documentários, nem ler coisas sobre o 25 de Abril. Porquê? Simplesmente, porque começo a chorar. A chorar, tomado por uma tristeza sem fundo. Mas mais: sinto uma raiva e um desprezo infinitamente desesperados contra toda aquela gente que não contente em matar o 25 de Abril, matou os sonhos que ali nasceram e, ainda não satisfeitos com isso, mataram também toda a esperança numa vida melhor. Raiva e desprezo sem fim.

quarta-feira, abril 21, 2010

Estes doentes que nos governam...

... era o título de um livro de Pierre Accoce e Pierre Rentchnick, da década de 70.

(Este post foi-me inspirado por uma crónica de Guilherme Valente saído no Público, de que tomei conhecimento no blog De Rerum Natura, donde tiro parte das citações. E que me fez recordar o título qe escolhi para aqui. A propósio do suicídio do professor Luís e das situações de bullying nas escolas.)

«Temos de nos esforçar para que estas situações possam ser ultrapassadas. Tratam-se de jovens que são na sua generalidade bons alunos e que não podem transportar na sua vida uma situação de culpa que os pode vir a condicionar pela negativa», afirmou José Joaquim Leitão, director regional de educação de Lisboa.

Arno Gruen (A Loucura da Normalidade e a Traição do Eu, ed. Assírio e Alvim) chamava a atenção para esta estranha e malfadada perversão que leva pessoas ditas "normais" e "inteligentes" a porem-se do lado dos agressores, a desculpá-los de tudo e a ter pena deles. E, além disso, a achar que eles é que são vítimas e não os que são torturados por eles.

José Joaquim Leitão disse que «é do conhecimento público» que o docente apresentava uma «fragilidade psicológica já desde há muito tempo».

Portanto, trata-se aqui até de uma completa incapacidade para identificar as verdadeiras vítimas. Mas há mais. De Daniel Sampaio:

«É que há em todas as escolas comportamentos que podem ser considerados violentos, mas que não são bullying. A escola reproduz a sociedade e esta não é serena, por isso são frequentes as piadas, as troças e até um insulto passageiro ou um empurrão, sem que isso seja muito grave.»

Como se vê, estas mesmas pessoas revelam também uma total incapacidade para empatizarem com as vítimas e os desprotegidos, esquecendo-se sempre que estes é que verdadeiramente precisam de defesa, de protecção e de segurança. Ainda Daniel Sampaio:

«Querer uma escola controlada pela polícia em que ninguém possa desobedecer ou contestar as regras, é acabar de vez com esse território de liberdade segura que caracteriza o nosso sistema educativo (…)».

Faltando-lhes a "lata" para defenderem abertamente os agressores, pugnam pela manutenção das condições necessárias para que estes continuem, impunes e à vontade, a maltratar os mais fracos.

É esta gente, profundamente doente, mas que, pelo seu número e pelo seu poder para se fazerem ouvir vezes sem conta, parece normal, é esta gente, repito, que tem ocupado o poder nos últimos anos.

Infelizmente para tantos e tantos miúdos...

domingo, abril 18, 2010

Post rápido: educação, sempre o mesmo tema! Irra, que já chateia!

No meio de imenso trabalho, arranjo aqui um pequeno intervalo só para não deixar isto abandonado e parado.

Mais uma vez, só me ocorre falar de educação (isto quando não penso na situação catastrófica para a qual o actual chefe do governo arrastou o nosso país). Nem sei para quê! As decisões foram tomadas, o comboio posto em movimento e já não acredito que alguém o consiga parar.

Leio sobre professores afastados por exigirem que os alunos aprendam, assisto ao ar de gozo dos alunos a falarem dos professores que facilitam tudo e dão altas notas (não, não estou a falar só da escola, mas também da universidade, pois o vírus já aí chegou; sim, estou a falar da universidade pública, pois também aí isto já acontece), testemunho a qualidade decrescente dos profissonais que o sistema educativo atrai para si, e, com tudo isto, uma tristeza sem fim toma conta de mim.

Pronto, já desabafei. Sem alívio, claro. E volto para o trabalho!

segunda-feira, abril 12, 2010

O medo da morte

"Eu não me sinto nada velho(a), sei que tenho ainda muito para fazer e viver", ou "Não sinto a idade que tenho", frases comuns, banais em pessoas a partir de uma certa idade.
Eu também as ouço e apercebo-me que, subjacente, está o medo da morte ou de uma doença incapacitante. Não me identifico com isto, aliás nunca as digo. A morte causa-me realmente pavor, mas é a dos outros, não a minha. Por causa da perda que representa essa morte, sinto na carne o que será a falta dessas pessoas, a sua ausência. Agora, a minha...

Na verdade, acho que sei o que poderei sentir quando a minha morte começar a ficar gritantemente próxima.
Nunca tinha vivido sozinho até me separar. Nos primeiros tempos isso não me trouxe qualquer problema porque trabalhava o dia todo na escola (em Loures) e, ao fim da tarde, levava o meu filho à natação ou à música, chegando a casa (na Costa da Caparica) pelas 8 ou 9 da noite. O fim de semana passava-o com a minha família. Não dava para me sentir só, apenas me sentia liberto de um pesadelo.
Mas, na semana entre o Natal e o Ano Novo, o caso passou a ser outro muito diferente: o isolamento total caiu sobre mim. Sem escola, sem o meu filho, os amigos e familiares a trabalharem ou de férias longe (só começaria a namorar alguns tempos depois)... e, ainda por cima adoeço!
Tratou-se de uma simples gripe, mas foi o bastante para eu ser tomado de uma angústia enorme: cheio de febre, a ter de fazer compras e a comida para me alimentar, ter de ir à farmácia para comprar medicamentos, a pensar como conseguiria ir sozinho ao centro de saúde se as coisas piorassem, sem saber a quem podia recorrer numa emergência, tudo isso deu origem a que, num desses dias em particular, fosse invadido por uma sensação verdadeiramente horrível sobre a qual perdi todo o controlo. Soube mais tarde que tinha sido vítima de um ataque de pânico.
Fosse o que fosse, a verdade é que nunca mais esquecerei esse dia terrível por que passei.
Isto para dizer que, na pior das hipóteses, será assim, penso eu, com um pânico e uma solidão semelhantes, que provavelmente me aproximarei da morte. Portanto, apesar de ser ateu e de não acreditar em vidas para além da morte, encaro esta com distância mas também com aceitação.

Agora a morte dos outros, é que não, de todo: não consigo, nem nunca conseguirei encará-la com naturalidade, seja na vida real, nos livros ou nos filmes. Revolta-me sempre a sua existência e apavora-me, profundamente, a sua cegueira e inevitabilidade.

sábado, março 27, 2010

O dia antes da felicidade, de Erri De Luca

Do Clube de Leitura da Biblioteca Municipal de Loulé.

Hoje, venho dar testemunho de um escritor extraordinário...



Erri de Luca

... e de um livro extraordinário:



Como é possível condensar em exactamente 97 páginas tanta sabedoria, tanta beleza, tanta inteligência, tanta sensibilidade, tanto humor!!

Mas que romance é este? Uma tentativa de resposta:

Um dia antes da felicidade é um livro sobre o crescimento, isto é, da verdadeira e autêntica aprendizagem, daquela que conduz à transformação de um adolescente normal, igual a tantos outros, num ser humano mais elevado, melhor e mais forte.

Mas é também um romance sobre a felicidade, claro. E sobre esse milagre que são os livros e a cultura. E sobre a sensibilidade e a delicadeza. E sobre a amizade. E sobre a violência. E sobre a pobreza. E sobre tantas, tantas outras coisas!

Trata-se de um livro claramente masculino, isto é, quem o escreve é um homem, não há aqui uma escrita feminizada, antes uma escrita senhorial, de uma extrema nobreza e autenticidade. Num tempo em que é tão difícil saber-se o que é ser um homem, este livro constitui uma resposta clara e verdadeira a essa questão.

Lêmo-lo e mergulhamos no mundo puro e deslumbrante das palavras de Erri De Luca. O narrador é um jovem com um olhar límpido e franco sobre a realidade que o rodeia. É alguém a quem surge um mestre, Dom Gaetano, que, longe de ensinar o desencanto e a amargura, lhe mostra o que é ser um homem, verdadeiro, bom e lutador.

Erri De Luca usa uma escrita que ilumina tudo aquilo sobre que se debruça: as pessoas (com as suas pequenas e grandes misérias), os livros, a escola, o amor, a cidade de Nápoles, etc.

A dada altura (p.66), Dom Gaetano e o jovem narrador passeiam pela cidade e cruzam-se com um grupo de marinheiros norte-americanos que corriam com "camisola, calções e sapatilhas". Não percebem. Porque, diz, "Correr, para nós, é um verbo sério". E é exactamente isto que escrever é para Eri De Luca: um verbo sério. Em todos os momentos, mesmo os de humor (sempre intenso e inteligente, como em tudo o resto), tudo está lá por um motivo sério. Não há ali nada de supérfluo, de fútil. Tal como em outros livros deste autor. Mas, aqui, neste, levado a um grau extremo, quase doloroso.

Sim, já há uns anos que venho lendo com paixão os livros de Erri De Luca. Aliás, este livro fo uma sugestão minha para o Clube de Leitura (ainda não o tinha lido). E, na noite de 5ª feira, em Loulé, quase 20 pessoas perderam-se, durante horas, a falar desta obra, com emoção e fascínio. Eu...

... Eu suspeito que encontrei aqui o meu livro perfeito. Aquele pelo qual todo o leitor apaixonadamente compulsivo é capaz de lutar uma vida inteira para encontrar.



Aqui e aqui podem encontrar-se as palavras de Erri De Luca, de quando esteve recentemente em Portugal.

domingo, março 21, 2010

O Futuro

"José Sócrates: PEC deve ser assumido pelo país"Público, 21/3/10


Desde o final da década de 70 que não houve nenhum governante português que não tivesse pedido sacrifícios ao povo português a fim de ele poder vir a ter um futuro melhor... Desde há mais de 30 anos portanto que oiço esta treta, repetida vezes sem conta! Malditos aldrabões!

Por isso, grito, com José Mário Branco, no FMI (de 1979!):

"Sempre a merda do futuro!! E eu que me quilhe!!! Pois, pá!! Sempre a merda do futuro, a merda do futuro!!! E eu, hem!? Que é que eu ando aqui a fazer? Digam lá! E eu!? (...) Isto é que é uma porra! Anda aqui um gajo cheio de boas intenções, (...), e, depois, é só porrada e mal viver, é? (...) Eu sou parvo, ou quê!? Quero ser feliz, porra!!! Quero ser feliz agora!!! (...)"

sábado, março 20, 2010

Liam Clancy, 2 de Setembro de 1935 – 4 de Dezembro de 2009

Para outros as descrições da sua obra, da sua importância na vida e na história da música.

Para mim, que só hoje soube da sua morte, a dor de ver partir um verdadeiro e autêntico bardo do nosso tempo. A luta para que este mundo seja um lugar menos inóspito perde um participante extraordinário.

The Parting Glass



Of all the money that e'er I spent

I've spent it in good company

And all the harm that ever I've done
Alas it was to none but me
And all I've done for want of wit
To memory now I can't recall
So fill to me the parting glass
Good night and joy be with you all

Oh, all the comrades that e'er I had

They're sorry for my going away

And all the sweethearts that e'er I had

They'd wish me one more day to stay

But since it falls unto my lot

That I should rise and you should not

I'll gently rise and softly call

Good night and joy be with you all

domingo, março 14, 2010

Um outro viver

Na escola do professor que se matou os casos de violência são constantes

Já o disse antes. Por absurdo que pareça, tenho de confessar que devo a Jorge Pedreira o ser agora uma pessoa feliz, com uma nova vida profissional praticamente feliz. Quando ele veio para a televisão, inchado de arrogância, com ameaças contra os professores por causa da entrega dos objectivos individuais, eu percebi, naquele momento, que não queria mais pautar a minha vida pelo medo e que era a altura de dizer basta. Esse momento representou, na verdade, um gigantesco ponto de viragem na forma como passei a conduzir a minha vida. Saí (não como reformado, note-se). E ainda não me arrependi nem um bocadinho dessa minha decisão.

Tudo isto para dizer que em Portugal, por enquanto, ainda somos livres para decidir escolher uma vida melhor. Aliás, quase qualquer outra vida, garanto!, é melhor do que aquela que se leva na escola pública hoje em dia, posso testemunhá-lo.

Lamento tanto todos os meus ex-colegas que continuam a viver diariamente uma vida de desespero e de angústia nas escolas públicas deste país. Que não conseguem libertar-se do medo de arriscar. Que não acreditam que existem alernativas. Como o Luís.

Porque as pedradas contra os meus amigos
acertam sempre meu amigo em mim

Manuel Alegre, A Praça da Canção

sábado, março 13, 2010

Nocturno Indiano, de António Tabucchi

Do Clube de Leitura da Biblioteca Municipal de Loulé.


Não vi o filme, mas já li muitos livros de Tabucchi, sempre com o maior gosto, aliás. Este não constituiu excepção.
Quando terminei, procurei encontrar alguma coisa para dizer no clube. Mas nada me ocorreu. Fiquei parado, sem ideias nenhumas, apesar de ter gostado muito de o ler.
Pensei que é assim que reagimos habitualmente em relação a uma música de que gostamos: não sabemos explicar o que nos fez aderir a ela.
E, de repente, apercebi-me que este livro tem a estrutura de um vídeo musical: pequenos flashes do personagem em movimento, nada sabemos do que antecede nem do que sucede depois, uma melodia que percorre o livro do princípio ao fim.
E pensei: o título, pois claro, um Nocturno!
Portanto, para além da presença tutelar (fortíssima) de Fernando Pessoa na construção da história, será que Tabucchi quis fazer um livro que se aproximasse da forma de uma peça musical ou de um vídeo clip?

segunda-feira, março 08, 2010

Violência escolar

Há anos que reitero a minha queixa mais angustiada relativamente ao que este, principalmente este, e outros governos têm feito (ainda recentemente escrevi sobre isto): esvaziando os professores de autoridade, estes ficam incapazes de proteger os mais fracos.

Esta foi uma das razões porque saí, para não ser cúmplice deste e de tantos outros crimes que se institucionalizaram na escola pública portuguesa.

domingo, fevereiro 28, 2010

A Um Deus Desconhecido, de John Steinbeck

Do Clube de Leitura da Biblioteca Municipal de Loulé.


O livro é antigo e angustiado, há um desejo fortíssimo que só prenuncia desgraça. Há aparência de domínio sobre a Natureza, sobre os outros, mas a harmonia está ausente e isso assusta.
É disto que o livro trata: ele não nos fala de pessoas, de animais, de plantas e de coisas. Fala de uma unidade que congrega isso tudo e que é mais e menos que isso tudo. Mais, porque há um fio profundo e inquebrável que une tudo; menos, porque cada ser é muito mais rico e complexo que a aparente unidade de tudo. Joseph não se dá conta disso, como Rama acusa.É daí que vem o assustador: sem essas pequenas coisas, apenas fica a desumanidade que este livro retrata.

Um grande, grande livro. E apenas uma leitura minha, das muitas que esta obra proporciona.

Nota: Uma tradução má e uma revisão inexistente. Que pena!

sábado, fevereiro 27, 2010

James Herriot

Fez a 23 de Fevereiro 15 anos que morreu o autor das mais amáveis, divertidas e inteligentes histórias a envolver veterinários da história da literatura.


Li e tenho os livros em inglês. Houve edição em português, da Livros Horizonte, que não conheço realmente.
Há muitos anos passou na televisão o "Veterinário de Província", da qual nunca saiu um dvd em português. Mas se comprarem os dvd's na Amazon (a minha amada ofereceu-mos como prenda pelos meus anos), e souberem um pouco de inglês, vão ter oportunidade de passar muitas horas agradáveis em frente ao écran: é que existe a opção de legendas para surdos, em inglês, é certo, mas que dá perfeitamente para acompanhar as histórias. Estas, acentuo, não contêm maldade alguma, e fazem-nos estar permanentemente com um sorriso nos lábios ou dar umas boas gargalhadas.
Há autores de quem gostamos, com quem nos identificamos, que nos estimulam, etc. Mas, pela sua dádiva das coisas boas que nos transmitem, há aqueles em relação ao quais também sentimos uma imensa gratidão. James Herriot é um desses autores.

terça-feira, fevereiro 23, 2010

José Afonso

É difícil dizer como vejo José Afonso pois, para mim, a sua dimensão humana é de uma autenticidade tal que torna impossível a submissão da sua figura a uma qualquer classificação.

Confesso a minha imensa admiração por esta fraternidade de homens que, sem deixarem de se pôr em causa, vão questionando tudo o que de injusto encontram à sua volta.

José Afonso era assim. E era também um homem verdadeiro e enxuto de palavras, que se sabia com um lugar, um trabalho e uma missão na vida, mas que nunca atribuía a si próprio nem a grandeza que era sem dúvida a sua, nem a pequenez das modéstias hipócritas. Apenas a justa medida.

Dizia ele, citado neste excelente livro, da Assírio & Alvim:



Não tenho consideração por aí além por mim próprio. Aquilo que me constitui é uma certa hipercrítica em relação a mim, mas que considero saudável. Fui metido num barco. Meti-me e meteram-me. Não o teria feito se não me metessem. Fui fazendo coisas neste país porque as pessoas me chamavam a atenção para a importância de tal missão, que dizia respeito a todos nós. (p. 84)

À pergunta sobre se o seu trabalho valeu a pena, José Afonso respondeu, após hesitação:
Acho que sim, valeu a pena. Tenho consciência das minhas limitações e tenho sempre uma atitude de profundo "desamor" em relação àquilo que faço, isto é, não sou optimista. Só sou optimista por via indirecta: quando me dizem que aquilo que faço interessa, enfim, eu respeito a opinião das pessoas e digo que sim senhor, que interessa... (p. 67)

Em homens raros como José Afonso reconheço uma austeridade e um rigor (mesclados de um humor fino) que, na vida, me tornam claro o dever de aderir a uma ética exigente, ainda que difícil.

2 de Agosto de 1929 - 23 de Fevereiro de 1987


A ter em atenção:

80 anos de Zeca

Associação José Afonso

segunda-feira, fevereiro 22, 2010

Fazer sofrer

Acho, com Camus, que fazer sofrer (quando há alternativas), mesmo que com a melhor das intenções, é a unica maneira absolutamente certa de nos enganarmos.

Ele disse-o, com 25 anos, na sua peça Calígula.

domingo, fevereiro 21, 2010

Camus no Pátio de Letras

Ontem, no Pátio de Letras - Espaço de Memória, com mais de 30 pessoas presentes:



Albert Camus, um autor que me acompanhou ao longo de toda a minha vida.

Falei da sua fidelidade à beleza, à verdade e à liberdade, como homem e como artista. Da sua permanente adesão à resistência para garantir uma intransigente solidariedade com os mais fracos e mais desprotegidos, isto é, com os mais oprimidos.

Fiz leituras de Noces, O Estrangeiro, A Peste, Estado de Sítio e terminei com este excerto tirado do seu discurso de aceitação do Prémio Nobel, em 10 de Dezembro de 1957:

(...) Todas as gerações, sem dúvida, se julgam fadadas para refazer o mundo. A minha sabe, no entanto, que não poderá refazê-lo. Mas a sua tarefa é talvez maior. Consiste ela em impedir que o mundo se desfaça.
Herdeira de uma história corrompida em que se misturam as revoluções degradadas, as técnicas que se tornaram loucas, os deuses mortos e as ideologias extenuadas, em que medíocres poderes podem hoje em dia tudo destruir mas já não sabem convencer, em que a inteligência se rebaixou ao ponto de se fazer serva do ódio e da opressão, esta geração teve que restaurar, em si mesma e à sua volta, e a partir unicamente das suas negações, um pouco daquilo que faz a dignidade de viver e de morrer.
Diante de um mundo ameaçado de desintegração, em que há o risco de os nossos grandes inquisidores estabelecerem para sempre os reinados da morte, ela sabe que deveria, numa espécie de doida corrida contra o relógio, restaurar entre as nações uma paz que não seja a da servidão, reconciliar de novo trabalho e cultura, e refazer com todos os homens uma arca da aliança.
Não é seguro que ela possa um dia levar a cabo esta tarefa imensa, mas já é seguro que, por toda a parte, ela cumpre a sua dupla aposta de verdade e de liberdade, e, em certas ocasiões, sabe por ela morrer sem ódio. É ela que merece ser encorajada por toda parte onde se encontra e, sobretudo, onde se sacrifica. (...)


Seguiu-se uma expressiva tertúlia que se prolongou pelo jantar fora...

sábado, fevereiro 13, 2010

Iracema, de José de Alencar

Do Clube de Leitura da Biblioteca Municipal de Loulé.

Uma história simples, com valores claros, sempre envolta num perfume de melancolia e de poesia.

Um livro anterior à perda da inocência; que, por isso, soube bem ler: a criança dentro de mim, aquela que gosta de se encantar com o inverosímil (a história é inverosímil), ainda está bem viva.

Sabemos hoje que quem mente, quem rouba e quem maltrata tem mais sucesso social e profissional do que aqueles que lutam por serem verdadeiros, honestos e compassivos. Não é uma característica dos tempos modernos, sempre foi assim.
Quer dizer que todos os bem sucedidos são pessoas infames? Eu não pertenço, nem provavelmente pertencerei nunca ao número dos bem sucedidos nessas duas áreas, por isso não posso responder baseado na minha própria experiência.
Mas quando penso em Gandhi, ou em Martin Luther King, ou ainda em Nelson Mandela, acredito que é possivel ser-se bem sucedido e ser-se boa pessoa. Mas deduzo, aliás sei que, para o conseguir sem concessões, é preciso uma fibra moral e uma coragem extraordinárias. E uma grande (inquebrantável, mesmo) teimosia, também, tenho quase a certeza disso... e, a propósito, vem-me ao espírito o filme de Clint Eastwood, Invictus, sobre Nelson Mandela (que eu gostei mesmo de ver):

sábado, janeiro 30, 2010

A Rapariga Que Roubava Livros, de Markus Zusak

Do Clube de Leitura da Biblioteca Municipal de Loulé.


A Alemanha hitleriana vivida numa pequena cidade sob o ponto de vista de uma criança alemã.

No Clube este livro gerou adesões fortíssimas, principalmente da parte daqueles que tinham cônjuges alemães, porque reconheceram nas descrições do livro muitas das coisas que eles contam que viveram.

Fala-se muito dos alemães que suportaram o regime, que foram a maioria certamente, senão Hitler não conseguiria o que conseguiu. Eu gostaria de saber de todos aqueles que resistiram, de todos aqueles que não só procuraram manter a decência em tempos selvagens mas que foram mesmo contra a corrente. Gostaria de saber as histórias destes alemães, dos que morreram a fazê-lo e dos que conseguiram sobreviver. É um pouco o que se lê neste livro.

Lembro-me de, há algumas dezenas de anos, ter lido os livros de Erich Maria Remarque (Arco do Triunfo, o que mais gostei, mas também A Oeste Nada de Novo, Tempo Para Amar Tempo Para Morrer, Uma noite em Lisboa, O Obelisco Negro, Desenraizados, O Céu Não Tem Favoritos e outros), mas ele tornou-se num refugiado, num exilado. Não, o que eu gostava de conhecer era quem lá tivesse ficado.