terça-feira, junho 10, 2008

Ainda Lawrence Durrell e "Clea"

"(...) e depois a Primavera apressou-se a ceder a este magnífico e último Verão, que chegou aos poucos, como se viesse de alguma latitude longamente esquecida que o Éden tivesse durante muito tempo desfrutado em sonho e maravilhosamente descoberto mais tarde entre os pensamentos dormentes da humanidade. Fundeou entre nós uma nave maravilhosa que lançou ferro diante da cidade e colheu as velas brancas como as asas de uma gaivota. Ah, procuro as metáforas capazes de evocar a felicidade penetrante raramente concedida àqueles que amam; (...)" (241)

(...) Lastimável não ser possível capturar a brilhante plumagem desse Verão, pois na velhice não teremos senão estas parcas recordações para alimentar a nossa nostálgica felicidade. Será a memória capaz de reter os quadros destes dias incomparáveis? Duvido... Na sombra lilás e espessa das velas brancas, debaixo dos sombrios cachos de figos, ao meio-dia, nas rotas lendárias dos desertos, onde progridem as caravanas de especiarias e onde as dunas afiladas sobem aos céus para captar, no seu sono deslumbrado, o palpitar das asas das gaivotas que passam como flocos de espuma? Ou as chicotadas geladas das vagas nos pontões desmantelados das ilhas esquecidas? E o sereno que tomba sobre os portos desertos, onde as velhas balizas árabes apontam os dedos enferrujados? A soma destas coisas há-de certamente subsistir algures. Contudo, ainda não assombraram a memória. Os dias sucediam-se no calendário do desejo, e as noites voltavam-se docemente no sono para repelir as trevas, inundando-nos de novo com a luminosidade real do Sol. Tudo conspirava para esta harmonia serena." (242)

"(...) as vinhas amadurecem docemente para testemunhar que, muito depois de os homens terem cessado de brincar com os instrumentos de morte por meio dos quais exprimem o seu medo de viver, os antigos deuses sombrios continuarão ali, debaixo da terra, ocultos no húmus... Estão indelevelmente enraizados no sonho dos homens. Jamais capitularão!" (301)


No Quarteto de Alexandria, para além da profunda miscigenação entre as paisagens (quentes e insuportavelmente luminosas, mesmo quando nocturnas) e os seres, existe uma permanente preocupação de não cair na vulgaridade, de não apresentar nunca personagens vulgares: eis por onde surge a minha adesão total a esta obra.

sábado, junho 07, 2008

Lawrence Durrell

A acabar de reler o Quarteto de Alexandria: Justine, Baltasar, Mountolive e Clea (que tenho agora entre mãos).
Vêm-me estes livros da distante juventude, do início do Verão para cumprir. É esse sopro ainda que eu respiro ao lê-los.
Embora sem a esperança de então.

"Baltasar dizendo: «Este mundo representa a promessa de uma felicidade única para a qual, contudo, não estamos apetrechados.»"

É disto que o Quarteto trata e que procura resolver. Bem?
Sem resposta, só a que cada um encontrar dentro de si.
Se...

domingo, junho 01, 2008

O ódio

O ódio aos professores

O ódio aos professores não se dirige a mim como pessoa, porque no fundo não me conhecem, nem sabem o que faço ou não.
Como esse ódio não tem relação com aquilo que sou, então tudo é acaso.
Faça eu o que fizer.


O ódio à Ministra da Educação e sicários

Sempre fui contra a diabolização da ministra.
Porque quanto mais se diaboliza a personagem
(e ela não é mais que uma personagem, efémera como todas)
menor é a atenção que se dedica à realidade que ela procura distorcer ou ignorar.

segunda-feira, maio 26, 2008

Pobreza e Civilização

(...) considera-se tanto mais civilizado um país quanto mais sábias e eficientes são as suas leis que impedem o miserável de ser demasiado miserável, e o poderoso de ser demasiado poderoso. (Se Isto É Um Homem, Primo Levi)

"O relatório do Eurostat, o organismo estatístico da União Europeia, sobre a situação social nos estados-membros confirma que Portugal é o país com mais desigualdade na distribuição de rendimentos entre os 25 e é o único que apresentava um desnível entre pobres e ricos superior ao dos Estados Unidos. (...)" (Público, 23-05-08)

sábado, maio 24, 2008

Sem Destino, Imre Kertész

Abre hoje a Feira do Livro de Lisboa.

Se não há dinheiro ou tempo para mais nada, pelo menos este livro:


Não vou dizer porquê, ponho aqui apenas uma nota sobre esta obra:

Um rapaz conta a sua vida de judeu húngaro em pleno nazismo.
Ele aceita tudo o que lhe acontece, procurando explicar e comprender as atitudes e comportamentos dos verdugos, alemães ou não.
Busca cumprir com o que lhe vão impondo como sendo as suas obrigações.
A dada altura percebemos que o ser humano, que nos fala e que nos vai descrevendo a sua história de boa vontade e de conformismo, está vivo mas transformou-se literalmente num moribundo.

Volto para enfatizar este ponto:
O rapaz vai arranjando sempre uma explicação razoável para o que lhe está a ser feito.
Quando a não consegue encontrar, pensa sempre que podia ser pior e conforma-se.
Vê bondade e boas intenções nas expressões mesmo dos que o tratam como se ele fosse uma coisa ou um animal.
Aquilo que o humilha, mesmo assim, ele reduz considerando que são ninharias com que será ridículo perder tempo.
Ninharias ou não, ele vai sempre aceitando tudo quanto os algozes lhe dizem que são coisas necessárias...
...E, destes diferentes modos, ele vai convertendo o intolerável em, não só aceitável, como mesmo defensável.

quinta-feira, maio 22, 2008

Dogville, de Lars von Trier


Pai de Grace: A única coisa que tu culpas são as circunstâncias. Violadores e assassinos podem ser vítimas, em tua opinião. Mas na minha são cães, e se lambem o próprio vómito só os podemos impedir a chicote.

Grace: Os cães seguem a sua natureza: não lhes devíamos perdoar por isso?

P: Os cães podem aprender muitas coisas úteis, mas não, se lhes perdoarmos sempre que eles seguirem a sua própria natureza.

G: Então, sou arrogante. Sou arrogante por perdoar às pessoas?

P: Meu Deus, não consegues ver o quão condescendente és ao dizeres isso? Tu tens esta noção pré-concebida que ninguém – ouve! – ninguém pode chegar aos mesmos padrões éticos que tu e, por isso, perdoas tudo. Não consigo imaginar nada mais arrogante que isso. Tu, minha filha, minha querida filha, tu perdoas aos outros com desculpas que nunca aceitarias para ti própria.

G: Porque é que não posso ser compassiva?

P: Não, podes ser, deves ser, quando for a altura de ser compassiva. Mas tens a obrigação de manter os teus próprios padrões, tu deves-lhes isso, tu deves-lhes isso. O castigo que tu mereces para as tuas transgressões, eles merecem para as suas transgressões.

G: Eles são seres humanos...

P: Não precisam todos os seres humanos de serem responsáveis pelas suas acções? Claro que sim, que precisam, só que tu nem lhes chegas a dar essa oportunidade. E isso é extremamente arrogante. Eu amo-te, eu amo-te, eu amo-te até à morte, mas tu és a pessoa mais arrogante que já conheci até hoje. E é a mim que achas arrogante! Não tenho mais nada a dizer.

(...)

G: As pessoas que aqui vivem fazem o melhor que conseguem dadas as circunstâncias em que vivem, circunstâncias muito duras.

P: Se tu o dizes... Mas será o melhor delas suficientemente bom? E gostam elas de ti?

(...)

Narrador: E de repente soube demasiadamente bem a resposta à sua questão, à sua dúvida.
Se ela tivesse agido como eles, ela não conseguiria encontrar uma única desculpa para as suas acções e nunca conseguiria castigar-se a si própria o suficiente.
Era como se a sua pena e a sua dor tivessem encontrado o seu lugar correcto.
Não, o que eles tinham feito não era suficientemente bom.
E, se alguém tinha o poder de corrigir as coisas, então era seu dever fazê-lo, para o bem de outras vilas, para o bem da humanidade.
E não por último, para o bem do ser humano que era Grace, ela própria...

(transcrição feita a partir do filme)

domingo, maio 18, 2008

Asco

"Cerca de 80% dos aviões que chegam a Fortaleza levam homens sozinhos, à procura de companhia, e o Brasil está no topo da lista de países com mais prostituição infantil. São, na sua maioria, portugueses, espanhóis e italianos." (Visão, 15/5/2008, p. 10)

"A barbárie não é apenas um elemento que acompanha a civilização, faz parte integrante desta." (Edgar Morin)

sábado, maio 17, 2008

"You and we are one and the same.You have shattered this image in me. How will you fix it?"



(via Gabriel Silva, Blasfémias)

"Como um judeu de outras épocas" (*)

Um dia eles vão pagá-las.
Os governantes que inventaram dezenas de leis para humilhar e destruir.
A população que, arrastada pela propaganda governamental, apoiou e expandiu essas humilhações para além dos limites minimamente aceitáveis.
Todos vão pagar.

E eu, vou ficar contente?
Não, não vou.
Porque, mesmo com o sonho achincalhado e com a devastação imposta aos mais fracos, nunca haverá pagamento suficiente para saldar as dívidas que, abertas, toda uma sociedade não tem parado de fazer crescer e engordar.


(*) (título retirado de Ribeiro, Gabriel Mithá, A Lógica dos Burros, Pub. Europa-América, 2007, p.64)

quarta-feira, maio 14, 2008

vilanagem

Um líder que exige sacrifícios aos outros;
que não tem força de carácter suficiente para fazer, de entre eles, um dos mais insignificantes;
e que, depois, para fugir à responsabilidade, mente ao dizer "que desconhecia que estava a violar a lei"...
... Esse líder é simplesmente um cobarde.

sábado, maio 10, 2008

Mercedes Sosa, Solo Le Pido A Dios



Solo le pido a Dios
Que el dolor no me sea indiferente,
Que la reseca Muerta no me encuentre
Vacia y sola sin haber hecho lo suficiente.

Solo le pido a Dios
Que lo injusto no me sea indiferente,
Que no me abofeteen la otra mejilla
Después que una garra me araño esta suerte.

Solo le pido a Dios
Que la guerra no me sea indiferente,
Es un monstruo grande y pisa fuerte
Toda la pobre inocencia de la gente.


Solo le pido a Dios
Que el engaño no me sea indiferente
Si un traidor puede mas que unos cuantos,
Que esos cuantos no lo olviden facilmente.

Solo le pido a Dios
Que el futuro no me sea indiferente,
Desahuciado esta el que tiene que marchar
A vivir una cultura diferente.

Solo le pido a Dios
Que la guerra no me sea indiferente,
Es un monstruo grande y pisa fuerte
Toda la pobre inocencia de la gente.


(León Gieco)

quarta-feira, maio 07, 2008

He Wishes for the Cloths of Heaven

Had I the heavens’ embroidered cloths,
Enwrought with golden and silver light,
The blue and the dim and the dark cloths
Of night and light and the half light,
I would spread the cloths under your feet:
But I, being poor, have only my dreams;
I have spread my dreams under your feet;
Tread softly because you tread on my dreams.


W.B. Yeats (1865–1939)
The Wind Among the Reeds, 1899

sábado, maio 03, 2008

Tocando em frente


Almir Sater escreveu e canta (a composição foi com Renato Teixeira)










(Edição de imagens Ivanete Lilja Viamão Rs)


Ando devagar porque já tive pressa
e levo esse sorriso, porque já chorei demais
Hoje me sinto mais forte, mais feliz quem sabe
eu só levo a certeza de que muito pouco eu sei,
nada sei

Conhecer as manhas e as manhãs,
o sabor das massas e das maçãs.
É preciso o amor pra poder pulsar,
é preciso paz pra poder seguir,
é preciso a chuva para florir.

Sinto que seguir a vida seja simplesmente
conhecer a marcha, ir tocando em frente
como um velho boiadeiro levando a boiada,
eu vou tocando os dias pela longa estrada eu vou,
estrada eu sou

Conhecer as manhas e as manhãs,
o sabor das massas e das maçãs.
É preciso o amor pra poder pulsar,
é preciso paz pra poder seguir,
é preciso a chuva para florir.

Sinto que seguir a vida seja simplesmente
conhecer a marcha, ir tocando em frente
Cada um de nós compõe a sua própria história,
e cada ser em si, carrega o dom de ser capaz,
de ser feliz

Conhecer as manhas e as manhãs,
o sabor das massas e das maçãs.
É preciso o amor pra poder pulsar,
é preciso paz pra poder seguir,
é preciso a chuva para florir.

Sinto que seguir a vida seja simplesmente
conhecer a marcha, ir tocando em frente
Cada um de nós compõe a sua própria história,
e cada ser em si, carrega o dom de ser capaz,
de ser feliz

quarta-feira, abril 30, 2008

Um sistema de ensino eficaz

"(...) é verdade que o país estava num estado lastimável, do ponto de vista da ciência e da tecnologia. Mas quase metade da população era analfabeta e em número de licenciados e doutorados estávamos muito atrás de todos os países. As coisas levam tempo. O investimento na ciência começou, e muito bem, pela formação, na segunda metade dos anos 80. E tem dado frutos espectaculares do ponto de vista do número de doutorados, da produção científica no país e sobretudo no reconhecimento internacional de que Portugal produz gente que é tão boa como qualquer outra."

(António Coutinho, "um dos 100 cientistas mais citados em todo o mundo", in Jornal de Letras de 23 de Abril de 2008)

sábado, abril 26, 2008

Lluís Llach



L'estaca                                                          The stake
---------------------------------------------------------------------------
L'avi Siset em parlava(*) Grandpa Siset spoke with me
de bon matí al portal early in the morning, in the frontdoor
mentre el sol esperàvem while we were wainting for the sun
i els carros vèiem passar. and we saw passing the cars(*)
Siset que no veus l'estaca Siset, don't you see the stake
a on estem tots lligats? where we all are tied?
Si no podem desfer-la If we cannot undo it
mai no podrem caminar! we won't be able to walk!
Si estirem tots ella caurà If we all pull it, it will fall
i molt de temps no pot durar, and it can't last much time,
segur que tomba, tomba, tomba, surely it falls, falls, falls,
ben corcada deu ser ja. it must be worm-eatn by now.
Si jo l'estiro fort per aquí, If i pull hard towards here,
i tu l'estires fort per allà, and you pull it towards there,
segur que tomba, tomba, tomba, i'm sure it falls, falls, falls,
i ens podrem alliberar! and we'll be able to be free!
Però, Siset, ja fa molt temps ja! But it's been a long time, now!
Les mans se'm van escorxant! My hands are peeling!
I quan la for!a se me'n va And when my force goes
ella és més ampla i més gran. it's wider and bigger.
Ben cert sé que está podrida, Yes I know it's rotten,
però és que, Siset, pesa tant, but you know, Siset, it's so heavy,
que a cops la força m'oblida. sometimes force forgets me.
Torna'm a dir el teu cant: Say me again your singing:
Si estirem tots ella caurà If we all pull it, it will fall
i molt de temps no pot durar, and it can't last much time,
segur que tomba, tomba, tomba, surely it falls, falls, falls,
ben corcada deu ser ja. it must be worm-eatn by now.
Si jo l'estiro fort per aqu¡, If i pull hard towards here,
i tu l'estires fort per allà, and you pull it towards there,
segur que tomba, tomba, tomba, i'm sure it falls, falls, falls,
i ens podrem alliberar! and we'll be able to be free!
L'avi Siset ja no diu res Grandpa Siset doesn't speak anymore
mal vent que se'l va emportar bad wind who took him away
ell qui sap cap a quin indret he, who knows where,
i jo aqu¡ sota el portal and me, here under the door
i quan passen els nous vailets and when new boys pass by
estiro el coll per cantar i strech my neck to sing
el darrer cant d'en Siset Siset's last singing
lo darrer que em va ensenyar(*) the last thing he taught me
Si estirem tots ella caurà If we all pull it, it will fall
i molt de temps no pot durar, and it can't last much time,
segur que tomba, tomba, tomba, surely it falls, falls, falls,
ben corcada deu ser ja. it must be worm-eatn by now.
Si jo l'estiro fort per aqu¡, If i pull hard towards here,
i tu l'estires fort per allà, and you pull it towards there,
segur que tomba, tomba, tomba, i'm sure it falls, falls, falls,
i ens podrem alliberar! and we'll be able to be free!
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NOTES:
- Siset is a familiar name for "Narc¡s" (narc¡s->narciset->ciset/siset)
- CAR here with the meaning of a horse car, not a four wheeled one ;)
- "lo darrer..." that LO is only used in certain places, it's 'illegal'
in standard Catalan.

Ainda em espanhol:


LA ESTACA
______________________________________
El abuelo Siset me hablaba
al amanecer, en el portal,
mientras esperábamos la salida del sol
y veíamos pasar los carros.

Siset: ¿No ves la estaca
a la que estamos todos atados?
Si no conseguimos liberarnos de ella
nunca podremos andar.

Si tiramos fuerte, la haremos caer.
Ya no puede durar mucho tiempo.
Seguro que cae, cae, cae,
pues debe estar ya bien podrida.

Si yo tiro fuerte por aquí
y tú tiras fuerte por allí,
seguro que cae, cae, cae,
y podremos liberarnos.

Pero, Siset, hace mucho tiempo ya,
las manos se me están desollando,
y en cuanto abandono un instante,
se hace más gruesa y más grande.

Ya sé que está podrida,
pero es que, Siset, pesa tanto,
que a veces me abandonan las fuerzas.
Repíteme tu canción.

El viejo Siset ya no dice nada;
se lo llevó un mal viento.
—él sabrá hacia dónde—,
mientras yo sigo bajo el portal.

Y cuando pasan los nuevos muchachos,
alzo la voz para cantar
el último canto de Siset
el último canto que él me enseñó.


(descobri Lluís Llach no 5dias.net, post de Nuno Ramos de Almeida)

sexta-feira, abril 25, 2008

Salgueiro Maia


Aquele que na hora da vitória
Respeitou o vencido

Aquele que deu tudo e não pediu a paga

Aquele que na hora da ganância
Perdeu o apetite

Aquele que amou os outros e por isso
Não colaborou com a sua ignorância ou vício

Aquele que foi «Fiel à palavra dada à ideia tida»
Como antes dele mas também por ele
Pessoa disse

Sophia de Mello Breyner Andresen



Ficaste na pureza inicial
do gesto que liberta e se desprende
havia em ti o símbolo e o sinal
havia em ti o herói que não se rende

Outros jogaram o jogo viciado
para ti nem poder nem sua regra
Conquistador do sonho inconquistado
havia em ti o herói que não se integra

Por isso ficarás como quem vem
dar outro rosto ao rosto da cidade
Diz-se o teu nome e sais de Santarém
Trazendo a espada e a flor da liberdade.

Manuel Alegre


Num tempo e num país tão despovoado de Homens e de Liberdade,
aqui fica o testemunho da minha memória do 25 de Abril de 1974 a este
incorruptível Capitão de Abril.

(biografia aqui)

quarta-feira, abril 16, 2008

"Não devemos esquecer nada" *

"O que se perdeu? Tudo, ou quase tudo. Perdeu-se a oportunidade de capitalizar a força demonstrada pelos professores, nos idos de Março. Perdeu-se o momento oportuno para reclamar a dignidade profissional longo tempo espezinhada por uma tutela sem escrúpulos. E perdeu-se sobretudo a força necessária para lutar por uma escola mais justa e de melhor qualidade."
(jcsmadureira in sabores do saber)

"(...)
A actuação política deste Governo e desta ministra produziu diplomas (estatuto de carreira, avaliação do desempenho, gestão das escolas e estatuto do aluno) que envergonham aquisições civilizacionais mínimas da nossa sociedade.
A rede propagandística que montaram procurou denegrir os professores por forma antes inimaginável.
Cortar, vergar, fechar foram desígnios que os obcecaram.
Reduziram salários e escravizaram com trabalho inútil.
Burocratizaram criminosamente.
Secaram o interior, fechando escolas aos milhares.
Manipularam estatísticas.
Abandalharam o ensino com a ânsia de diminuir o insucesso.
Chamaram profissional a uma espécie de ensino cuja missão é reter na escola, a qualquer preço, os jovens que a abandonavam precocemente.
Contrataram crianças para promover produtos inúteis.
Aliciaram pais com a mistificação da escola a tempo inteiro (que sociedade é esta em que os pais não têm tempo para estar com os filhos? Em que crianças passam 39 horas por semana encerradas numa escola e se aponta como progresso reproduzir o esquema no secundário, mas elevando a fasquia para as 50 horas?).
Foram desumanos com professores nas vascas da morte e usaram e deitaram fora milhares de professores doentes (depois de garantir no Parlamento que não o fariam).
Promoveram a maior iniquidade de que guardo recordação com o deplorável concurso de titulares.
Enganaram miseravelmente os jovens candidatos a professores e avacalharam as instituições de ensino superior com a prova de acesso à profissão.
Perseguiram.
Chamaram a polícia.
Incitaram e premiaram a bufaria.
Desrespeitaram impunemente a lei que eles próprios produziram.
Driblaram leis fundamentais do país.
Com grande despudor político, passaram sem mossa por sucessivas condenações em tribunais.
Fizeram da imposição norma e desrespeitaram continuadamente a negociação sindical.
Reduziram a metade os gastos com a Educação, por referência ao PIB.
No que era essencial, no que aumentaria a qualidade do ensino, não tocaram, a não ser, uma vez mais, para cortar e diminuir a exigência e castrar o que faz pensar e questionar.
(...)"
(Santana Castilho, Público, 16 de Abril)

(retirado do mesmo sabores do saber)

*Philip Roth

Que tristeza!

"Depois de aprovado, o entendimento será ratificado na próxima quinta-feira o que, segundo Mário Nogueira, afasta “o recurso à greve e a outras acções de protesto que colidam com o normal desenvolvimento das actividades lectivas até ao final do terceiro período de aulas”. " (Público - Última Hora)


Fiquei a saber assim que quem se "agachou" e foi "derrotada" foi a plataforma sindical.
A 4/4/08, em reunião com Conselhos Executivos, já o ME tinha dito que as escolas podiam fazer o que aparece como grande concessão neste "entendimento".

Mas o ME precisava da garantia de não haver mais manifestações. Já a tem.

Sou um ingénuo. E não é grande consolação saber que não sou só eu.

domingo, abril 13, 2008

O "recuo" da ministra

"Derrota total da Ministra da Educação." (Blasfémias - João Miranda)
"O Governo agachou-se." (Portugal dos Pequeninos - João Gonçalves)
"a plataforma sindical fala em «grande vitória dos professores». (Público)
E muitos outros...

Pessoas que vêem a vida como uma guerra e que, portanto, só são capazes de compreender as coisas em termos de vitórias ou de derrotas.
Está fora da sua compreensão coisas civilizadas como a admissão de erros, a compreensão do ponto de vista do adversário, a procura de um consenso que prejudique o menos possível os mais fracos (neste caso, os alunos).
É triste ver isto...
... e assustador.

Pessoalmente, até acho que não houve recuo nenhum naquilo que para o Governo é essencial (uma vez que não pagar aos professores o que eles têm direito já está resolvido): PASSAR TODOS OS ALUNOS A QUALQUER PREÇO!
É que nestes critérios (a tal ficha de auto-avaliação) está incluído avaliar o professor, não pelos resultados que os seus alunos obtiveram, mas pela diminuição de “negativas” a serem dadas, seja qual for o real aproveitamento dos alunos.
E sinto vergonha por todos esses hipócritas, portugueses como eu, que se aproveitam de qualquer pretexto para destilar o seu ódio sobre os professores, fugindo cobardemente a criticar o que é verdadeiramente revoltante: o estímulo à fraude legal (tornando a avaliação dos alunos numa farsa) numa área como a educação (que devia ser sagrada, pois que se trata de crianças e jovens e do seu futuro)!

domingo, abril 06, 2008

Blade Runner


"- Serás solicitado a fazer o que está errado, não importa para onde vás - disse o velho. - É a condição básica da vida, seres solicitado a violar a tua própria identidade. Em determinada altura, todas as criaturas que vivem devem actuar assim. É a sombra última, a derrota da criação; esta é a maldição em funcionamento, a maldição com que se alimenta a vida. Em toda a parte do universo."


(Philip K. Dick, Blade Runner, Perigo Iminente, p.132, PEA)

domingo, março 30, 2008

O objectivo...

Todos conhecemos, das séries policiais, a técnica do





"polícia-mau"






e do





"polícia-bom".



O objectivo é sempre o de arrancar algo a alguém...

sexta-feira, março 21, 2008

A autoridade dos professores

A questão parece-me relativamente simples.

A autoridade de um professor não pode assentar no seu estado de espírito, no seu talento ou em qualquer outra idiossincrasia pessoal.
Por duas razões: 1ª, porque com a heterogeneidade actual dos alunos, só um super-professor (que não existe) é que consegue ter autoridade sobre todos eles, sem excepção; 2ª, porque a autoridade não pode estar dependente dos caprichos de cada um, senão corre-se o risco elevadíssimo de corrupção do acto educativo (a autoridade assenta sempre numa negociação; se esta fica ao critério pessoal de cada um...).

A verdade é que a autoridade tem que emanar da instituição que o professor serve e representa. Só essa autoridade, igual para todos, é educativa, justa e livre de abusos. Ora, este governo, pelo desprezo que tem mostrado pelos professores, por ter posto a sociedade contra eles e por ter dificultado até ao absurdo o processo de castigar os alunos, minou completamente essa autoridade institucional. E o professor ficou sem poder nenhum que o sustente.

Para mim, o horror (não estou a exagerar na palavra) da situação nem são as agressões de que os professores (aliás, deve-se dizer "as professoras", pois são elas a maioria e as mais vulneráveis à violência neste país de cobardes) são vítimas.

Tendo esvaziado a escola e os professores de autoridade, aqueles deixaram de poder proteger os alunos mais fracos, os alunos que querem estudar, os alunos que são vítimas sistemáticas de colegas violentos. Esta mole imensa, cada vez maior, sem culpa nenhuma, vai aprendendo que os adultos não prestam para nada, que os colegas são perigosos e que a única coisa que ainda resulta é fazer justiça pelas próprias mãos. É isto que me causa horror.

quinta-feira, março 20, 2008

Sinais

Desde sempre (lecciono há 23 anos) que a visão da escola vazia me mergulhava na tristeza.
Não agora.
Pergunto-me porquê.
Não, não vou culpar a verdadeira responsável.
Vou só constatar um facto.
A rápida extinção, nestes três anos, da amabilidade nos alunos, quer entre eles, quer em relação aos professores.
À tristeza por todo aquele vazio, substituiu-se o alívio.
Que é uma outra forma de tristeza, no fim de contas.

quarta-feira, março 19, 2008

Arthur C Clarke (1917-2008)


O que eu sonhei na adolescência e na juventude, muito graças a este senhor!
Tenho os livros dele mesmo à frente da minha secretária.
Vou buscá-los (da velhinha Colecção Argonauta, na sua maioria) e verto aqui títulos, belos nomes, que encantaram anos difíceis:

A Idade de Ouro
Areias de Marte
Náufragos da Lua
S.O.S. Lua
A Sexta Parte do Mundo
Terra Imperial
Rendez-Vous com Rama
Os Dias Futuros
Ilhas no Céu

E outros: Anti-Crepúsculo, Expedição à Terra, Canções da Terra Distante, …
Sem esquecer “2001, A Space Odyssey”.

Também digo: Obrigado, Arthur C. Clarke!

sábado, março 15, 2008

Escolas, privadas sim, e... sobre o optimismo

(os bold são da minha responsabilidade)

"Uma investigação recente realizada pela psicóloga e autora do livro "Educar para o optimismo", Helena Marujo, envolvendo cerca de 2200 crianças e jovens portugueses de ambos os sexos, entre os oito e os dezoito anos, em escolas particulares da região de Lisboa, chegou a resultados preocupantes: os jovens portugueses apresentam taxas depressivas mais elevadas do que os jovens norte-americanos e espanhóis."

"O facto de encontrar escolas depressogénias, em que os alunos ficavam deprimidos pouco tempo depois de frequentarem essas escolas, foi outro factor que despertou a atenção desta especialista em comportamento."

"Helena Marujo observou ainda que grande parte destes jovens tinha um discurso muito desesperançado e pessimista relativamente ao futuro, fruto daquilo a que chamou uma desumanizadora pressão para o sucesso, em que os alunos sentem que o afecto que recebem é condicionado pelo sucesso escolar."

"Helena Marujo constatou, por outro lado, que a ideia da morte ou suicídio tinha já passado pela cabeça de muitos jovens."

"Também o simples contacto com professores com um discurso profundamente desanimado e pessimista, e o facto de muitos dos seus pacientes se mostrarem incapazes de enumerar aspectos positivos dos seus familiares levou Helena Marujo a interessar-se cada vez mais pelo tema."

(...)

"“Um dos principais objectivos na formação para o optimismo, tem sido levar as pessoas a fazerem um processo de auto-educação, lembrando-lhes que todos somos modelos para os outros. Ou seja, temos a obrigação moral de construir uma cultura optimista, já que se provaram os seus benefícios em termos de saúde física e mental e, ainda, de maior felicidade", explica Helena Marujo."

(...)

"O que é optimismo? Uma vez aqui chegados, importa esclarecer o que é o optimismo. Segundo a especialista em questão, é uma característica individual que, embora possa ter algumas influências genéticas, pode ser apreendida e implica sempre a capacidade de ter expectativas positivas acerca do futuro e acreditar que o que está para vir é bom. Isto para além da capacidade de ver o melhor da vida. Mesmo nas situações mais problemáticas, desafiadoras e, até, dramáticas, o optimismo traduz-se na capacidade de retirar alguma aprendizagem e algum ponto positivo. (...)"

O livro é "Educar para o Optimismo", Helena Marujo et al, Ed. Presença.

O resto do artigo está aqui.

quinta-feira, março 13, 2008

Avaliação dos professores

O politicamente correcto é dizer:
"Eu não sou contra a avaliação, sou é contra esta avaliação."

Pois bem. Eu sou contra a avaliação dos professores para progredir na carreira.
Não só por saber que em muitos países desenvolvidos ela já foi abandonada e, na maior parte dos que a têm, ela apresenta um carácter formativo e tem funções de feed-back apenas.
Mas porque sei que a competição entre professores nunca irá beneficiar os alunos, se estivermos a falar de educação.
Se acharmos que a função dos professores é a de instrução, então tudo bem, nada a opor a esta ou outra avaliação (desde que não obriguem os professores a fazer uma infinidade de coisas que nada têm a ver com instrução e que os impede de a ela se dedicarem).
Explico melhor: para um filho, a melhor educação é a que é ministrada por pais em competição um com o outro? Ou é melhor quando os pais colaboram?

O que defendo, então?
Uma avaliação formativa para os professores.
E uma avaliação da escola, esta sim, com consequências, isto é, uma avaliação com estabelecimento prévio de objectivos: se não forem atingidos e tal for imputável à escola, a escola tem uma oportunidade de resolver os problemas interna e autonomamente. Se não conseguir, faz-se uma intervenção externa, mesmo ao nível da gestão.

domingo, março 09, 2008

Que lugar para a esperança?




Pacheco Pereira:

Em democracia, quando se vai para a "rua", local nobre e legítimo do protesto, tem que se saber que não se pode continuar nela sob pena de então as coisas estarem muito mal para a democracia. Duvido que nesta luta dos professores exista um plano B. O plano A resultou, está à vista hoje. Podia haver um plano B para 2009, no voto, mas duvido que quando lá se chegar exista uma alternativa no domínio político para o materializar. Por isso temo que disto tudo resulte pouco mais do que desespero apático, ou asneira agressiva. Vamos ver.

Infelizmente, parece-me que Pacheco Pereira tem toda a razão.
Num conflito só existe um plano B se houver espaço para ele.
E já se tornou mais que evidente que, neste conflito entre professores e Governo, esse espaço não existe.
Num conflito é o mais forte que estabelece a maior parte das regras do jogo.
Os professores vieram para a rua porque aqui não há regras nenhumas; aliás, a bem dizer, não há sequer jogo.
Esta marcha foi assim, sem dúvida, uma iniciativa nascida do desespero.
Desespero é o único jogo que este Governo permite aos professores jogarem.
Por isso, planos B?...

Termino, recordando as palavras de Amos Oz, em "Contra o fanatismo":

"Digo que a semente do fanatismo brota ao adoptar-se uma atitude de superioridade moral que impeça a obtenção de consensos." (p. 17)

"No meu mundo, a expressão "chegar a um acordo, a um compromisso" é sinónimo de vida. E onde há vida há compromissos estabelecidos. O contrário de comprometer-me a chegar a um acordo não é integridade, o contrário de comprometer-me a chegar a um acordo não é idealismo, o contrário de comprometer-me a chegar a um acordo não é determinação. O contrário de comprometer-me a chegar a um acordo é fanatismo e morte." (p. 87)

(a fotografia foi retirada da versão internet do Público)


A Marcha dos 100 000

Um centésimo da população portuguesa naquele lugar!
E eu tive colegas ao meu lado que estavam grávidas (a Adelaide); que abdicaram do seu dia de aniversário (a Maria Manuel); que ali estiveram ainda atormentadas com graves doenças (a Luísa e a Júlia); que vieram com longuíssimas horas de viagem; muitas, muitas mulheres que deixaram os seus homens em casa! E que nunca tinham participado numa manifestação!
Alguém acredita que isto não significa, não vai significar nada?
Pelo menos, uma coisa: amanhã, muitos serão os professores e as professoras que vão entrar nas escolas de cabeça levantada, com um novo brilho de orgulho nos olhos a matar os meses e meses de humilhações...

sábado, março 08, 2008

Marcha dos professores

Vou estar lá.

Apesar de já ser titular (e não apenas professor, como a maior parte dos meus colegas).
Apesar de já ter vários cargos (e não estar impedido de os ter como a esmagadora maioria dos meus colegas).
Apesar de já ser do quadro de nomeação definitiva (ao contrário de tantos colegas).
Apesar de ainda ter saúde (ao contrário de alguns colegas que, por estarem doentes, são maltratados pelos alunos, pelos pais e, pasme-se!, pela tutela).
Apesar de ser professor de uma disciplina fácil (e que o Governo torna ainda mais fácil com medidas destas).
E, last but not the least, apesar de detestar manifestações/multidões.

Porque a acção deste Governo levou a que a irracionalidade na Educação ultrapassasse limites absolutamente insuportáveis.

Alguns Mitos da Avaliação de Professores

(retirado de Kenneth D. Peterson, Ph.D., Portland State University, Portland OR)

Myth 1: The central purpose of teacher evaluation is to improve teachers and teaching. The truth is that there is scarce research to suggest that evaluation causes teacher growth. Rather, teachers will improve if you give them enough TIME to work on good ideas: uninterrupted time with students, time to plan and implement what is already known, and sufficient discretionary time to be full human beings. There are other very good reasons to evaluate: to document current good practice, reassure teachers of a needed and effective job, reassure audiences, identify good teaching practices for emulation, and prevent bad evaluation practices.


Myth 2: Better teacher evaluation is just a better rating instrument or framework of teacher behaviors. The truth is that educators do not agree on what should be included in any single catalog of teacher performances or competencies, none could encompass all of what the open-ended nature of teaching should have, teachers are effective using different sets of small numbers of behaviors, and teachers work in varied contexts which call for different competency sets. Comprehensive frameworks, descriptions, systems analysis, and lists of duties (e.g., Danielson, 1996; Heath & Nelson, 1974; Scriven, 1988) help build understanding of good teaching, but they don't cause good evaluation.

Myth 3: Excellent teaching is accomplished by strong performance of 22 (or 27 or 60) components of teaching. Rather, a good teacher performs three or four components extremely well, adequately performs some others, and (to be honest) poorly or spottily performs many other things that a teacher is "supposed" to do. Doing a few things well at the moment carries the entire performances of teaching and learning; the other possible performances simply don't matter at the given time in the real human world of a classroom. It is a misleading strategy to try to assess every possible component, duty, competency, or element of a teacher performance at a point in time in order to understand the overall quality of that teaching.


Myth 4: Specific a priori goals (unique to individual or from a general framework) are needed to evaluate a teacher. Rather, good teaching can be documented after the teaching has been done by highlighting the actual specific outcomes, performances, or preparations that played a role in that specific teacher performance.


Myth 5: A uniform system of teacher evaluation is essential: all teachers should be evaluated the same way. The reality is that teachers are good for different constellations of reasons. They work in quite different settings, with different kinds of demands and criteria for quality. Also, we just cannot get all the information we might want for each instance of teacher evaluation. Fairness demands that all teachers have an equal opportunity to document their quality in the ways most appropriate to them.


Myth 6: Pupil achievement data cannot be used in teacher evaluation, or they can be used for all teachers. Rather, we can get good pupil achievement data for some but not all teachers in a district; and the teacher evaluation system should reflect the state-of-the-art of data availability.


Myth 7: Teacher quality can be objectively measured and known by using a sufficiently accurate checklist and rating scheme, or by comparing pupil achievement test scores. Rather, all evaluation is subjective. However, there is good subjectivity and bad subjectivity. Good subjectivity is (a) based on the best objective evidence available, (b) controlled for individual bias, (c) involves the interested audiences, and (d) employs some public logic.

(...)

(o que está a negrito são destaques da minha responsabilidade)

segunda-feira, março 03, 2008

Maria Gabriela Llansol 1931-2008

"(...) Nada mais doce do que
um lugar solitário, liberto do medo,
ou quando o medo o liberta."



e


"O mundo existe e o Vergílio morreu, mas
mais uma palavra me pede a escrita."


Onde, agora?


(de "Inquérito Às Quatro Confidências")


Adenda:
Uma sensação aguda de perda. Não foi logo que soube de onde vinha essa dor.
É que Maria Gabriela Llansol foi em mim uma catalisadora de um segundo nascimento para a literatura, com a trilogia da Geografia de Rebeldes. Os nomes ainda invocam em mim espaços abertos de luz e de nitidez: O Livro das Comunidades... A Restante Vida... Na Casa de Julho e Agosto...
Depois, a intensa, incondicional e comovente amizade por Vergílio Ferreira, sobre quem eu não tenho palavras para dar uma ideia do que ele sempre representou para mim.
Sim, que mágoa súbita e triste, ao saber da sua morte.

terça-feira, fevereiro 19, 2008

A verdade

"Os professores não são potenciais falsificadores de notas dos alunos, como a oposição crê." (José Sócrates)

É verdade: José Sócrates sabe por experiência própria, Portugal inteiro sabe, que os professores efectivamente falsificam notas de alunos... ou, para sermos justos, pelo menos as notas de um aluno.

A avaliação

sábado, fevereiro 09, 2008

To be free (II)

Liberdade é não ter nada a perder.
Por exemplo: a esperança de receber.
Ou ainda: a fé na bondade do ser humano.

terça-feira, fevereiro 05, 2008

Professores (II)

Por outro lado...

Aquele que não luta pelos seu direitos, não merece tê-los.
(Rui Barbosa)

Não é sempre verdade.
Mas, para aqueles que podem lutar, isto é uma chicotada em pleno rosto.

domingo, fevereiro 03, 2008

Professores

Com a legislação que saiu sobre o Estatuto do Aluno, sobre a Avaliação de desempenho dos docentes

(sim, Aluno está lá com letra maiúscula e docente com minúscula)

e com a que está para sair sobre a Gestão os Estabelecimentos Públicos da Educação,

os professores:

- ficam praticamente impedidos de proteger os miúdos bem formados da selvajaria dos outros (selvajaria é um termo que aqui não é usado, de todo, com intenção pejorativa);

- e já não vão mais conseguir proteger o país da imbecilidade dos políticos.

segunda-feira, janeiro 28, 2008

To be free - Mike Oldfield




My wish would be...

To be free
To be wild
And to be
Just like a child
And if I get lost
I really don't mind
Cos I'm me
Doing just fine

domingo, janeiro 06, 2008

Notice of Seasonal Greetings — From Andrew Rogers Lawyers ("The Wishor") — to You ("The Wishee").

Please accept without obligation, implied or implicit, our best wishes for an environmentally conscious, socially responsible, politically correct, low stress, non-addictive, gender neutral, celebration of the winter solstice holiday, practiced within the most enjoyable traditions of the religious persuasion of your choice, or secular practices of your choice, with respect for the religious/secular persuasions and/or traditions of others, or their choice not to practice religious or secular traditions at all.

We wish You a financially successful, personally fulfilling and medically uncomplicated recognition of the onset of the generally accepted calendar year 2008, but with due respect for the calendars of choice of other cultures or sects, and having regard to the race, creed, colour, age, physical ability, religious faith, choice of computer platform or sexual preference of The Wishee.

By accepting this greeting you are bound by these terms that:

  • This greeting is subject to further clarification or withdrawal.
  • This greeting is further transferable provided that no alteration shall be made to the original greeting and that the proprietary rights of The Wishor are acknowledged.
  • This greeting implies no promise by The Wishor to actually implement any of the wishes.
  • This greeting may not be enforceable in certain jurisdictions and/or the restrictions herein may not be binding upon certain Wishees in certain jurisdictions and is revocable at the sole discretion of The Wishor.
  • This greeting is warranted to perform as reasonably may be expected within the usual application of good tidings, for a period of one year, or until the issuance of a subsequent holiday greeting, whichever comes first.

The Wishor warrants this greeting only for the limited replacement of this wish, or issuance of a new wish, at the sole discretion of The Wishor. Any references in this greeting to "the Lord", "Father Christmas", "Our Saviour", "Rudolf the Red-Nosed Reindeer", or any other festive figures, whether actual or fictitious, dead or alive, shall not imply any endorsement by or from them in respect of this greeting, and all proprietary rights in any third party names and images are hereby acknowledged.

Andrew Rogers Lawyers

quarta-feira, dezembro 26, 2007

Que preocupações ocupam aquela cabeça?

"P: Quanto é que o PSD vai pagar à Cunha Vaz (agência de comunicação, esclareço eu)?
R: Pouco (negrito meu): 25 ou 30 mil euros por mês" (Luís Filipe Meneses, Expresso de 22/12/2007)

Pouco? Será que não percebe o insulto que isto representa para os 2 milhões de pobres só no nosso país? Ou para todos aqueles que nem em 5 anos recebem isto?

sábado, dezembro 01, 2007

do mundo original

"Não, não se vê que o grande problema possa ser outro,
um dia e sempre,
senão o da conquista final de um mundo de evidente alegria,
da aparição da plenitude.
O resto é logro,
ou renúncia,
ou situação provisória."

Vergílio Ferreira

D & D (Derrota e Dignidade)

Admiro acima de tudo as pessoas «de sucesso» que mantêm a sua integridade moral (são pouquíssimas). (Pedro Mexia)

Sim, mas admiro ainda mais

(eu sei, sou suspeito porque não pertenço de todo ao grupo dos "de sucesso")

as pessoas que fizeram todas as escolhas erradas

(claro que nunca há escolhas totalmente certas; mas aqui refiro-me às realmente erradas pelas consequências desastrosas que delas resultaram)

e que, mesmo assim, defendem para si a quase impossível dignidade, contra o fracasso e contra o cansaço.

O número destas é ainda mais pequeno que o daquelas que falava o Pedro Mexia.

domingo, novembro 25, 2007

Efeitos Secundários

"Durante o uso de CODIPRONT podem manifestar-se os seguintes efeitos secundários:
(...) uma sensação exagerada de bem estar (euforia). (...)"

E voltei ao blog naqueles seis dias.

O efeito já passou.

domingo, novembro 18, 2007

Espanta a falta de inteligência dos que aderem não a um ideal, não a um sonho, não a uma transcendência, mas sim a um número. E a uma política autoritária que o defende.
E quando vemos essa falta em pessoas que, noutros domínios, já deram provas de apurada inteligência?

(Como puderam intelectuais insignes aderir ao nazismo?)

É que não se trata de falta de inteligência.
O que falta a essas pessoas é um modesto sentimento de justiça, de autêntica e verdadeira justiça.

(Sinal dessa falta é o ódio, cobarde e enviesado, que dirigem ao que lhes aparece como privilégio de todas as classes profissionais, com excepção daquela à qual pertencem)

sexta-feira, novembro 16, 2007

Os olhos, lagos líquidos,
Essa imagem tão gasta
Mas agora, agora,
Tão depurada
Até à noite de que nasceu

quinta-feira, novembro 15, 2007

Umas vezes é a solidão, outras é o silêncio.
Defendem-me de tudo o que me rodeia e que vem com o sinal da ameaça e da opressão.
Às vezes, aí, consigo encontrar-me com o meu sentir verdadeiro.
Com a clareza inicial do que eu sou. Ou do que gostaria de ser.

segunda-feira, novembro 12, 2007

O sol queima o céu até um ardor de lábios
Pálpebras pestanejam à luz num ruflar de asas
E o teu sabor desliza, límpido, pelos meus olhos fechados

sábado, novembro 03, 2007

CV de um "professor com espírito de função pública ou sindicalista"

Comecei como professor de Construção Civil, vertente teórica.
Depois de 14 anos como professor de Matemática.
Depois de ter tido vários alunos que tiraram nota máxima nos exames nacionais de Matemática.
Depois de centenas de horas de formação na área da Matemática.
Depois de ter feito a Didáctica da Matemática pela Universidade Aberta.
Depois de o Conselho Científico-Pedagógico da Formação Contínua, face ao meu currículo, me atribuir o estatuto de formador na área e domínio “C05 Didácticas Específicas (Matemática), com aplicação a Professores dos Ensinos Básico e Secundário”.
Todo este investimento (mais o dinheiro meu e dos contribuintes aqui envolvido) são desprezados pelo Governo (fiz a seu tempo um requerimento ao governo para mudar para o grupo de Matemática; a resposta foi: para mudar tem de começar a carreira do início): agora, aos 50 anos, sou professor de Educação Tecnológica, eu que nunca entrei numa oficina...

segunda-feira, setembro 18, 2006

"Je comprends ici ce qu'on appelle gloire: le droit d'aimer sans mesure."

Noces, Albert Camus

quinta-feira, setembro 07, 2006

"De nada vale dizer a um homem apaixonado por uma mulher que ela não passa de um fruto da sua imaginação."

Caminhos de Evasão de Graham Greene

domingo, julho 30, 2006

Liberdade e Justiça

Quanto mais se procura garantir a justiça (leis que tudo regulam e a uniformização de critérios, tudo a fim de garantir igual tratamento para todos os membros de uma sociedade), mais fica a perder a liberdade.
Serão mutuamente exclusivas, a liberdade e a justiça?
Não sei.
Sei que, a partir de um certo ponto de preponderância de uma delas, a outra começa a sufocar e a desaparecer.

(Já agora, uma citação do Abade Lacordaire:
"Entre o forte e o fraco, entre o rico e o pobre, entre o patrão e o empregado, é a lei que liberta, é a liberdade que escraviza.")

Arno Gruen

Se fosse um blog trabalhado seriamente e cientificamente documentado, recomendá-lo-ia vivamente. Como não é nada disso que se trata (infelizmente não tenho tempo para torná-lo melhor) aqui fica apenas a notícia da sua existência e a razão de o ter iniciado: partilhar com outros tudo o que vou aprendendo (e crescendo) com a leitura de Arno Gruen.

sábado, julho 29, 2006

Medo

Ontem tive que ir à Segurança Social a Loures.
Saí de casa e meti-me no carro.
Sempre que ando de carro fico assustado.
Porque os portugueses a guiar são duros, feios e implacáveis.
Numa zona de escola, com velocidade máxima de 40, vou com um carro escuro colado à minha traseira. Nervoso, olho para o meu velocímetro: vou a 60, portanto a exceder largamente o máximo permitido. Quando abrando ao chegar à zona da passadeira, com lombas e risco contínuo, ele ultrapassa-me. Porquê? Não sei a resposta. Para ganhar 10, 20 segundos de tempo? Para me humilhar? Para ter adrenalina? Ignoro.
Dei, apesar de tudo, um suspiro de alívio.
Entretanto chego à Segurança Social. Eram 9 e meia. Tive que esperar cerca de duas horas. Durante esse tempo todo não vi absolutamente ninguém sorrir.
Saí diversas vezes, mantive a porta aberta para pessoas passarem. Nem um sorriso.
Fui até dar uma volta pela feira. Mas confesso que o ar agressivo e feroz, com que os feirantes procuram que nós lhes compremos coisas, afugentou-me logo dali para fora.
Finalmente sou atendido. Tudo diferente. O problema, apesar de não ser da minha responsabilidade, era bastante complicado. Ficou resolvido. Sempre com uma disposição atenciosa, leve e bem disposta por parte das senhoras que me atenderam. A quem, no fim, agradeci e dei os meus parabéns por conseguirem, ao fim de uma manhã de trabalho ininterrupto e nada fácil, manter uma disposição tão afável.
Saio e mergulho na "selva" outra vez. Quando chego aqui a casa, só me apetece não sair de cá mais. Porque os portugueses estão a construir um mundo muito hostil. Desde o Governo, passando pelos jornalistas e fazedores de opinião, até ao cidadão comum.
E é mesmo os portugueses. Tenho um amigo que foi hospitalizado. As enfermeiras eram todas espanholas. Um mundo de sorrisos. Diz ele que nunca viu na vida enfermeiras tão simpáticas.
Eu confesso: cada vez tenho mais medo dos meus compatriotas, cada vez me é mais penoso e difícil viver neste país com estas pessoas.

sexta-feira, julho 28, 2006

Do amor

Cheguei agora a casa depois de uma noite muito especial.
Há 25 anos fui um dos convidados para o casamento de 2 amigos meus.
Hoje comemoraram portanto 25 anos de casados. E 32 de namoro no mesmo sítio onde, pela primeira vez, o meu amigo disse à minha amiga o quanto a amava.
Fui um dos priviligiados, juntamente com alguns amigos e com a família, a ser convidado para esta comemoração.
Pude assim partilhar um pouco da luz única que estes meus dois amigos transmitem através do amor que sentem um pelo outro. E pelo qual lutaram ao longo destes anos todos.
Disseram: “Somos uns priviligiados por podermos dar todo o nosso amor a quem realmente amamos.”
Foi um noite verdadeiramente feliz. Amanhã volto ao meu dia a dia, um tanto ou quanto pardacento.
Mas hoje foi um daqueles momentos raros que são um autêntico intervalo de alegria pura, para nós outros, entre a nossa vida passada e a nossa vida futura.
A minha gratidão é infinita.

segunda-feira, julho 24, 2006

Como perdemos um amor, afinal?

O ser amado vai-se afastando imperceptivelmente: um cansaço aqui, uma outra escolha acolá, tudo claro e justificado, às vezes com indignação.
Até ao fim respondemos com ingenuidade. Ou talvez com fingida indiferença.
E de um momento para o outro, encontramo-nos sós.
Descobrimo-nos do lado de fora de tudo, atirados para a irremediável secura do deserto.
Sós.

O homem que queria ser escritor

Tinha começado a ler livros esritos por exilados: Ovídio, Nabokov, Brodsky, Rushdie, Kundera.
Escritas estranhas, doridas, separadas, mas não isentas de humor.
Lembrou-se do quanto tinha sonhado em ser escritor.
Sentou-se à mesa, puxou de um molho de folhas - folhas que vinham com as revistas de que era assinante, com o nome e a morada de um lado, brancas do outro - escrevia nelas como se as dirigisse a si próprio - e resolvendo ser metódico, tratou de elaborar uma lista dos obstáculos que o impediam de ser escritor.
Primeiro que tudo, uma imaginação pobre. A medida da sua pobreza revelava-se-lhe quando, com a maior euforia, descobria os mundos revelados pelos escritores que lia... o que acontecia com quase todos, diga-se a verdade.
Em segundo lugar, uma vida interior lenta, pesada, asfixiada. Tudo o que escrevia (que era sempre irrisoriamente pouco) saía com dificuldade e aos tropeções, esgotando-o passado pouco tempo. Na realidade, era um homem sem narrativas.
Finalmente, a consciência de que os outros iriam sempre olhar com piedade o que ele escrevesse, associada a uma imensa preguiça, fazia com que nunca terminasse o que começava.
Olhou então para a página meio vazia, sabendo que nunca a iria conseguir preencher com o que quer que fosse de interessante. Não, pelo menos para ele próprio. E seguramente que não para os outros.
Pousou a caneta e voltou aos textos escritos por exilados: Mehmed Uzun, Bei Dao, Bashkim Shehu, Svetlana Alexievitch,...

domingo, julho 23, 2006

Guerra(s)

Abomino a violência, todos os tipos de violência: verbal ou física, pessoal ou institucional, social ou política.
Como professor sou obrigado a lidar todos os dias com a violência, com a dos outros e com a minha. E repito: abomino-a.

Sobre a guerra que Israel está a travar.

É uma guerra suja? Claro que é. Como todas. Seja no Darfur, na Tchetchénia, na antiga Jugoslávia, ou no Médio Oriente. Não há guerras limpas, nunca houve. Eu indigno-me com todas as guerras, não só com esta.

Sou simpatizante de Israel? Não, não sou. Pelo contrário, tenho tomado sempre uma posição crítica face à atitude bélica e violenta com que Israel responde a atitudes de igual tipo dos seus adversários. Porque lhe reconheço uma superioridade moral. E penso que existem maneiras mais inteligentes, mais eficazes e mais humanas de lidar com o problema que Israel vive desde o momento da sua fundação e que, é verdade, reconheço ser dramático.

(na realidade devo confessar honestamente que não sei, nenhum de nós sabe verdadeiramente o que é viver o dia a dia com a plena consciência, e quando nos distraímos a sermos lembrados de tal, de que todos os países à nossa volta estão a fazer tudo o que podem para acabarem connosco, com a nossa terra e com os nossos filhos)

Que fique claro: estou sempre do lado das vítimas, de todas as vítimas, independentemente da nacionalidade.

No entanto, há alturas em que isto não chega. Hoje sei que tenho mesmo que escolher um lado, principalmente quando a maioria das pessoas à minha volta parece escolher o lado com o qual eu não posso de todo pactuar.

Pergunto:
Qual o lado que dá mais garantias, a mim, à minha família e amigos, de conduzir a nossa vida de acordo com os valores e princípios que consideramos mais humanos, mais nobres e mais respeitadores da nossa condição?
Qual o lado que dá mais garantias de o número de vítimas não vir a ser gigantesco? Por outras palavras, o lado que mostra mais respeito pela vida humana e que não justifica nem confunde a barbárie com a Vontade de Deus?

A resposta, para mim, é clara:

O meu lado é o de Israel!

Não é o do Hezbollah, nem o do Hamas, nem o da Síria, nem o do Irão, nem o do Líbano!

quinta-feira, julho 20, 2006

La chanson des vieux amants

A distância que vai daquilo que somos ao que estamos convencidos que somos é, a maior parte das vezes, muito grande.
A partir deste auto-engano tentamos proceder de acordo com esta ideia que gostamos de fazer acerca de nós, o que nem sempre conseguimos.
Quando o amor acaba, ou o que faz com que ele acabe, é a revelação em toda a sua crueza do que nós realmente somos: homens ou mulheres sem grandeza nem bondade.
Para mim, é um choque sempre. Para os outros também deve ser.

Nesta altura, a relação tem de acabar no rancor, na amargura? Tem de acabar, sequer? Não necessariamente.
Podemos concluir que o ser que tanto amávamos (incluindo pela sua perfeição) não é o ideal.
Mas que é predominantemente desejável, comovente e amável.

Cantava Jacques Brel:
"Il nous fallut bien du talent
Pour être vieux sans être adultes"

Madrugada

Esgotado, adormeço. Quando acordo, a surpresa de estar vivo: estranho e distante.

quarta-feira, julho 19, 2006

Do amor recusado

O que é sentido como insuportável, no fim de uma relação, por aquele que ainda ama, é que todo o investimento feito, tudo o que escolheu perder, tudo o que sofreu em prol desse amor, não serve nem serviu para absolutamente nada.
Subitamente, toda essa vida de entrega se esvaziou de finalidade e de sentido.

Mas aceitar esta ordem nova na sua vida é, de uma certa forma, aceitar morrer.
Daqui, de não aceitar morrer, nasce a profunda revolta que dirigimos inevitavelmente contra o ser amado, o ódio contra aquele que rejeita o nosso amor, aquele para quem tudo foi lucro enquanto para nós foi perda.
Contra aquele que, no fundo nos traiu, porque com o abandono a que nos vota nos espoliou do destino de uma vida inteira.

Estamos tão intimamente convictos de que uma vida com sentido é um direito nosso inalienável! E não é.

sexta-feira, julho 14, 2006

Estado de Sítio, de Albert Camus

"Diego: Quero fugir, Victoria. Já não sei onde está o dever. Não compreendo.

Victoria: Não me deixes. O dever é estar junto de quem se ama. Mantém-te firme.

Diego: Mas sou demasiado orgulhoso para te amar sem me estimar.

Victoria: Quem te impede de te estimares?

Diego: Tu, que eu vejo sem desfalecimentos.

(...)"




"Coro das mulheres:
Nós somos as guardiãs! Esta história ultrapassa-nos e esperamos que ela tenha o seu fim.
Guardaremos o nosso segredo até ao Inverno, até à hora das liberdades, quando os brados dos homens se tiverem calado e eles voltarem para nós reclamando aquilo que lhes é indispensável: a recordação dos mares livres, o céu deserto do Verão, o perfume eterno do amor.
Aqui estamos, esperando, como folhas mortas no aguaceiro de Setembro. Pairam no ar por um momento, depois o peso da água que transportam fá-las cair por terra.
Também nós estamos agora por terra.
Curvando o dorso, esperando que cessem os gritos de todos os combates, ouvimos no fundo de nós gemer docemente a lenta ressaca dos mares felizes. Quando as amendoeiras nuas se cobrirem de flores de gelo, então reerguer-nos-emos um pouco, sensíveis ao primeiro vento de esperança, em breve aprumadas nessa segunda Primavera.
E aqueles que amamos virão ao nosso encontro e, à medida que avançarem, nós seremos como as pesadas barcas que o fluxo da maré levanta pouco a pouco, viscosas de sal e de água, ricas de cheiros, até flutuarem no mar espesso.
Ah! Levante-se o vento, levante-se o vento..."




"O Coro: Mas encontraremos a esperança ao cabo do nosso caminho? Ou teremos de morrer desesperados?"





(mais n'Os (In)Docentes)

segunda-feira, julho 10, 2006

Conhecer através dos actos

A propósito deste meu post: O não-amor recebi o seguinte comentário:

"Só se sabe como ele é... apreciando o que ele faz! Através dos actos se conhece a pessoa interna, para a externa basta olhar."

Não é sempre verdade.
Porque os actos permitem muitas leituras.
Se nos limitamos a "apreciar o que ele faz" e mais nada, falhamos o conhecimento pela certa, dada a quantidade de possíveis interpretações que se podem fazer.

(Quantas vezes os professores se enganam acerca dos seus alunos, precisamente porque não conseguem a disponibilidade necessária para ir além dos actos!)

A empatia com o outro é aqui a palavra-chave. É ela que nos permite chegar ao ser, é ela que consegue englobar no seu campo de conhecimento não só os actos, mas as palavras, os gestos, os olhares, as atitudes, as emoções do outro.

Separados de fresco / The Break-Up


Pensamos que este filme é uma comédia e, a pouco e pouco, começamos a perceber que se trata realmente de uma história triste.
Quem quiser saber de várias maneiras de como destruir uma relação, encontra aqui algumas ideias.
Eu, que já estou a ficar velho, vivi uma boa quantidade delas.
Por exemplo, fazer o que queremos, mas sem dar hipóteses ao parceiro de também poder fazer alguma coisa que deseje.
Ou pensar que se conquista o amor e a consideração do outro, humilhando-o. Isto é, fazendo-lhe coisas de modo a obrigá-lo a "vir comer à nossa mão".
No fundo, para destruir a relação só há que encará-la como um campo de batalha, como uma luta de vontades (a disfarçar uma luta pelo poder).
Mostramos que temos personalidade e mostramos que somos determinados e teimosos: a mitologia reinante garante-nos o sucesso automático.
Na realidade, ganhamos qualquer coisa.
Não sei é se somos bem sucedidos.
Mas lá que acabamos sós, acabamos.

domingo, julho 09, 2006

De certa maneira, a felicidade

Ele tinha um defeito: não sabia o que fazer com a felicidade.
Alguma serenidade lhe era trazida, no entanto, pela fruição da melancolia.
A chuva, as grandes árvores, as pequenas derrotas, os amores sem continuação, o convívio dos outros, o espaço lá fora, a beleza quase alcançada, a esperança de algo,...

Sartre e Camus

Sartre fica-nos na memória pelas ideias

(voltei a reler As Mãos Sujas, por causa de uma ideia),

Camus pelas ideias e pelas emoções.

Tudo o que em Sartre é apenas cerebral e frio, em Camus é visceral e irredutivelmente humano.

Sartre problematiza, Camus interroga-me e questiona-me.

O que é evidente: Sartre interessa-me, mas Camus apaixona-me.

Da paixão dos outros

Comove-me sempre aquela pessoa que é amada com paixão por outrém.
Por isso, mesmo que crivada de defeitos, não consigo pensar mal dela.
Acho que sou um incurável romântico.

sexta-feira, julho 07, 2006

quinta-feira, julho 06, 2006

No amor

1. O corpo: o olhar, o sorriso, a voz, o gesto - isto é, o espírito a atravessar a matéria.
2. O corpo nu: ou seja, a pele, já não apenas (entre)vista, mas sentida e tacteada.
3. O corpo que se possui: a sede infindável do outro.

quarta-feira, julho 05, 2006

Ainda a propósito do post anterior...

... É que me lembrei de uma passagem de "As mãos sujas" de Jean-Paul Sartre:

"Como tu prezas a tua pureza, meu filho! Que medo que tens de sujar as mãos! Pois bem, fica puro! Quem é que aproveitará com isso, e porque é que vens então meter-te connosco? A pureza é uma ideia de faquir e de monge. Vocês, os intelectuais, os anarquistas, utilizam-na como um pretexto para não fazer nada. Não fazer nada, ficar imóvel, apertar os cotovelos ao corpo, usar luvas. Pois eu tenho as mãos sujas. Até aos cotovelos. Mergulhei-as na merda e no sangue. E depois? Imaginas que se pode governar inocentemente?" (Quinto quadro, cena III)

Mas, apesar de tudo, não se pode tentar? Mesmo perdendo em suposta eficácia?

Se calhar, neste mundo, não... e lá voltamos ao mesmo.

terça-feira, julho 04, 2006

A feira das traições

Choca-me a crescente falta de pudor que as pessoas revelam não só a executar, mas também a publicitar todas as pequenas patifarias, traições ou vinganças de que se lembram. Antes nunca dava conta delas. Agora vou sabendo de algumas. E nunca deixa de me espantar que as pessoas achem sempre justificados estes seus actos.

Quanto às pessoas que são vítimas destas acções andam, depois, completamente enganadas sobre o que se passou. Constroem um mundo de ilusões ao procurarem descobrir um sentido para aquilo que lhes aconteceu. Só que tal não é possível porque, onde a falsidade e a traição são generalizadas, deixa de haver um sentido global. Passa então a haver apenas sentidos locais, específicos e particulares a cada indivíduo. E aí tudo se baralha.

Neste ambiente, esforço-me com desespero e angústia por manter uma conduta impoluta (o que nem sempre consigo), por não me envolver em nenhuma tramóia, por procurar chegar ao fim do dia e conseguir que os meus actos tenham sido, se nem sempre impecavelmente dignos, pelo menos minimamente honrosos.

Digo bem: com desespero e angústia. Porque este em que vivo não é de todo o meu mundo. E é, de todas as maneiras, um mundo bem solitário...

segunda-feira, julho 03, 2006

O não-amor

Ela diz: Só os actos é que contam. As palavras e as prendas materiais pouco significado têm ao pé das acções. Por isso, estou a deixar de te amar.
Ele responde: Então também vou avaliar o teu amor por tudo o que de errado fizeste, ou que simplesmente não fizeste, independentemente do que me tenhas dito.

Assim se constrói o afastamento, o fim do amor.
Porque, no fundo
(e tirando casos limite de violência),
é sempre horrível amar o outro pelo que ele fez e não pelo que ele é.



Decoryah, Once

I never thought my voice was weak
lost in the ruins of agony
They told me I was the one
who veiled the stars and the sun

I am trembling and I bleed
Only silence could see my pain and agony

I never thought I ought to run
I never seen the things you've done
I never wanted to feel growing misery

I never thought my life was weak
sunk in the rivers of agony
They told me I am not the one
who shines like the bursting Sun

I see voices rising from silence

domingo, julho 02, 2006

O namoro e a morte

Conhecem-se. Seduzem-se. Às vezes à custa de destruição e de sofrimento de outros. Apesar disso, tudo funciona como uma espécie de jogo. Às vezes aproximam-se, às vezes afastam-se. Mas nada parece definitivo.
Até que um dia há uma fractura em que a morte se introduz. A leveza anterior acabou, tudo se tornou sério de repente. O amor, o futuro, a solidão, deixaram de ser possibilidades hipotéticas.
E eis a paixão que volta. Só que já fora do tempo. Inútil, pois perdeu o corpo com o qual se poderia corresponder. Apenas a memória vive, dolorosa.
Por fim, apenas a dor. Que nunca, mas nunca desaparece. Apenas se distancia.

Das vitórias no futebol

Coisa singular, esta do futebol!

Nem Portugal, nem os portugueses ganham o que quer que seja com as vitórias (nem, já agora, com as derrotas) da Selecção.

(E não me venham com a história da auto-estima: já tivemos exemplos da ineficácia desse tipo de coisas - Expo 98, Euro 2004, etc - para a dita auto-estima. É que esta só cresce se for devido a conquistas nossas, não às de outros.)

Os únicos que ganham com essa vitórias são os próprios jogadores e o treinador, dado que elas lhes permitem prémios fabulosos e contratos ainda mais milionários do que os que já têm. Além de um reconhecimento que, nem por ser efémero, deixa de ser sumamente agradável.

(Principalmente, quando se chega ao extremo de lhes chamar heróis... Heróis!? Será que já perdemos de todo o sentido das proporções?)

Daí que, ao olhar para os milhares de portugueses que se entregam a estes delírios de alegria, não posso deixar de me comover.

Porque olho para estas pessoas que pagam os tais ordenados e prémios milionários a esses jogadores (e a mais uns abutres do futebol), cujo futuro está a ser destruído pelas actuais chefias deste país (ausência de reformas, mais horas de trabalho, menos apoios sociais, perseguições por serem competentes e não terem "amigos" bem colocados, etc, etc) e que, apesar disso, aderem sem reservas a uma felicidade e a uma alegria enormes. Por feitos de cujos lucros nem uma delas vai beneficiar minimamente, como já disse atrás.

Acho isto estúpido. Mas comovente.

(Eu alegro-me com o treinador e com os jogadores que construíram estas vitórias, claro.
Não deixo nunca de lamentar os que perdem, em particular esta Inglaterra que contribuiu de forma assinalável para que a equipa portuguesa jogasse da forma admirável como o fez.
E admiro sem reservas o Ricardo, a sua discrição e o seu brilhantismo!)

domingo, junho 25, 2006

A Peste, de Camus

Acabado de reler. O livro de Camus que mais tinha falado à minha sensibilidade na minha juventude. Hoje pergunto-me: foi o livro que me fez, ou fui eu que caminhei sempre a par dele, mesmo que sem consciência disso?

Alguém um dia disse que uma literatura de boas intenções é uma má literatura. Quem leia este livro tentando ser razoável, conclui que é disto que se trata. Quem lê com os olhos do espírito, percebe que há aqui muito mais do que isso. Há a morte, a amizade, a memória, a solidão, ou seja, a vida sempre ameaçada. E há os que lutam porque têm de lutar para que a injustiça não tenha razão, em suma lutam para serem homens.

Gostaria muito de falar deste livro como ele merece, mas não estou de todo à altura dele e, por isso, calo-me. Mas o meu silêncio vem de uma adesão profunda a este homem, Camus, que soube escrever sobre o que é tentar ser verdadeiramente humano.

"Mas, no entanto, sabia que esta crónica não podia ser a da vitória definitiva. Podia apenas ser o testemunho do que tinha sido necessário realizar e que, sem dúvida, deveriam realizar ainda, contra o terror e a sua arma infatigável, a despeito das suas dores pessoais, todos os homens que, não podendo ser santos e recusando-se a admitir os flagelos, se esforçam, no entanto, por ser médicos."

Ou enfermeiros, ou bombeiros, ou voluntários, ou professores...

sábado, junho 24, 2006

O dilema

Por um lado querer afastar o sintoma, desfazendo o «nó» que o provoca.
Por outro, sentir-se satisfeito por ter resolvido o problema (ainda que tendo pago o preço de ter um sintoma não desejado) e a relutância ou medo em voltar à situação anterior.

terça-feira, junho 20, 2006

Que direito?...

O contraste entre as minhas imperfeições e as minhas exigências de felicidade!
A imodéstia: convicto de um direito à felicidade! (1)
Apesar de tudo, certos momentos de consciência desse abismo rasgado à minha volta.
E o desejo de dormir, longamente dormir.
Para harmonizar a leveza com a esperança.

(1) Não fosse essa arrogância e saberia que apenas me é permitido conquistar a alegria... e, mesmo assim, sem nunca nela me poder instalar e descansar!

domingo, junho 18, 2006

A minha opção

O meu lado é o dos fracos.
Mas sou consequente: há-de ser sempre o lado oposto ao e longe do poder.
Que não ambiciono nem desprezo, apenas receio.
E que, lamentavelmente, não combato: pois que tenho eu para lhe fazer frente?

sexta-feira, junho 16, 2006

Cegueira

Um mistério rodeia todos os seres.
Depois, não há mistério nenhum.
São as infinitas faces do sofrimento que não somos capazes de aceitar.
Ou as da alegria que não conseguimos reconhecer.
Mais nada.

Dever

Para ser generoso com o amor que alguns me dedicam, e não ingrato, tenho a obrigação moral de não me desconsiderar seja de que forma for.

Morte

Abomino-a pela devastação para a qual arrasta os vivos.
Por isso, ser-me-á sempre impossível o suicídio, embora condescenda a pensá-lo com brandura. Como se de um alívio se tratasse.

quinta-feira, junho 15, 2006

Greve

Antes de passar às reflexões que pretendo fazer, que fique claro:

Fiz greve porque quis mostrar que não estou no lado onde a sra. ministra me quer colocar!

E que não estou, nem estarei nunca, ao lado de alguém que não percebe que vencer o adversário do modo como a sra. minstra o procura fazer, isto é, recorrendo à razão do ódio e da força bruta, acaba por gerar uma humilhação tal que torna a sua equívoca vitória tão esquálida e amarga como se fosse uma derrota.



Porque faço quase sempre greve?

Primeiro, sem dúvida nenhuma, porque me sinto mais irmanado com os que lutam do que com os que não lutam - penso que se trata de uma fidelidade do coração.

Segundo, por causa da minha invencível simpatia pelas causas perdidas. Além de que aceito melhor o sabor da derrota com luta, do que sem ela (lembram-se os mais antigos da Palmira Bastos: "... porque as árvores morrem de pé!"?)



O que sinto em relação aos que não fazem greve?

Um medo quase infantil de fazer algo que é sempre objecto de reprovação social (a greve),
uma certa pobreza humilde,
uma fraqueza feminilmente submissa,
um esforço, heróico por vezes, de manter uma postura digna (sabendo no seu íntimo que estão a trair),
são traços que encontro nos que não fazem greve e que, se não os desculpam completamente, fazem com que, pelo menos, eu não os condene!
(para mais que acabo por partilhar com eles alguns destes traços, só que faço a greve)

quarta-feira, junho 14, 2006

Da decisão sobre o Bem e o Mal

Na infância, o meu pai (era principalmente o meu pai) dizia-me o que estava bem e o que estava mal. Quando percebi que o que para uns era mal, para outros era bem, e vice-versa, foi um choque!
Há tanta gente que, por exercício de poder, pretende impor-me a sua visão do bem e do mal que, aí, iniciei uma longa luta para conseguir eu discernir por mim próprio alguma coisa sobre o assunto.

Actualmente luto contra:
- a nostalgia fortíssima do conforto infantil que representa ter alguém a dizer-me o que devo decidir; defendo-me, fechando-me (não vejo tv, leio poucos jornais e nos blogs leio opiniões de quadrantes contrários).
- a tendência de decidir sempre e cegamente contra a maioria, da qual desconfio visceralmente.
- a dificuldade em, pessoalmente e face a face, encarar a possível perda de estima dos que me rodeiam.
- a propensão para levar a sério quem não tem nada para dizer mas que, mesmo assim, o diz.

sábado, junho 10, 2006

Uma pena na tempestade

A este país tenho que agradecer todo o lado escuro da minha experiência.”

(Cruzeiro Seixas, JL, 10-23 de Maio de 2006)


A proposta de Estatuto da Carreira Docente apresentada por este Governo assenta em duas ideias-chave:
1ª, Quanto mais se humilhar e se assustar o professor mais cumpridor ele se torna.
2ª, O que motiva verdadeiramente um professor é a ganância e a sede de poder.

Ambas as ideias me passam ao lado.

A 1ª porque não preciso disto para ser cumpridor. Até tenho sido entusiasta das reformas que o Ministério da Eucação tem entendido aplicar ao ensino: porque sempre estive aberto à novidade e à procura de soluções para os problemas.

Quanto à 2ª, se eu fosse sensível a ela, não estaria a dar aulas; com o curso de engenharia civil (média de 14 no IST), teria hipóteses a esse nível muito mais interessantes. Mas mesmo assim analisemo-la:

- Ganância: Ao longo da vida tenho vindo a descobrir que não só o essencial de uma vida, mas também o simplesmente importante, não passa pelos bens materiais (para além de não os poder levar comigo quando morrer). Por isso, apenas preciso do mínimo necessário a uma vida digna. O meu actual ordenado (correspondente ao 7º escalão) é mais do que suficiente para isso. Não vou lutar por mais.

- Sede de poder: Cargos de chefia só os aceitei quando não havia nenhuma outra alternativa. É que sou avesso ao poder, a todas as formas de poder. Apenas uma vez aceitei chefiar o departamento de Matemática, porque a direcção da escola da altura proporcionava um tal clima de abertura, de liberdade e de respeito que eu me senti entusiasmado para avançar. Além de que o departamento tinha professores muito participativos e interessados. Acabou como acabam sempre estas coisas. Fiquei radicalmente alérgico a qualquer cargo de chefia. Não posso deixar de sentir simpatia pela actual proposta que me faz o favor de eu nunca mais ter de me preocupar com a possibilidade de me atribuirem um desses cargos.


Gostaria que as coisas fossem diferentes? Claro que sim, às vezes ainda chego a sonhar. Mas sei que tal não é possível dado o grau de desenvolvimento cívico da maioria dos portugueses... de quem a ministra, aliás, se tem vindo a revelar uma perfeita representante (daí a imensidão de adesões entusiastas que o seu discurso tem suscitado).

Faço minhas as palavras de Cruzeiro Seixas.

terça-feira, junho 06, 2006

Quando chego à janela...

... de manhã levanto o olhar para o céu, de tarde baixo-o para a rua.

De manhã, espero a ascensão.

De tarde, procuro uma consolação nas pessoas que passam.

sexta-feira, junho 02, 2006

Desamparo

(A partir deste post do Plan(o)Alto)




Por vezes toca-se o desamparo através da nudez.
Que, por isso, se torna comovente.