sábado, janeiro 16, 2010

Helder Macedo

(...) Em compensação, numa das últimas reuniões magnas em que participei no King´s College, o grave debate incidiu sobre o que fazer com as alunas muçulmanas de viseira coberta.
Expliquei que não havia problema, quando comecei a ensinar, no fim dos anos 60, as alunas usavam mini-saias que terminavam na virilha, uma coisa acaba por compensar a outra, a gente concentra-se e vai fazendo o que pode. Não acharam graça. (...)

JL, 16/12/2009

terça-feira, janeiro 12, 2010

O Grande Labirinto, de Fernando Savater

Do Clube de Leitura da Biblioteca Municipal de Loulé.


Os livros eram a paixão dos dois rapazes, porque lendo multiplicavam a sua vida e descobriam com a imaginação novos sentimentos, aventuras e calafrios. Para eles, abrir um volume era como beber um elixir mágico que os transformava em seres desconhecidos. (…) (p.16)

Esta foi a primeira frase deste livro que realmente me tocou. Pensei em todos aqueles que não gostam de ler livros e em como as suas vidas ficam mais pobres por isso.
Claro que ler não é só isto. Lembrei-me de Eduardo Prado Coelho

(que tanta falta faz: quem hoje me fala de autores pouco lidos?, quem hoje me dá notícia de tudo o que é novo, diferente e melhor no mundo da arte?, quem hoje me conta do prazer de usufruir de todas as formas e expressões de cultura?)

quando ele escrevia no Fio do Horizonte:

Digo “cultura” no sentido amplo do termo: tudo aquilo que nos torna mais inteligentes, que nos traz a alegria de sentir e compreender, que relança sentido para as nossa vidas. (Crónicas do Fio do Horizonte, p. 43)

Ler também é isto, é principalmente isto.

Mas o livro de Savater é dirigido aos jovens. Porque os adultos encontram-se esgotados:

(…) Qualquer coisa que, mais cedo ou mais tarde, seria necessário enfrentar. Com força, com coragem… mas ele sentia-se velho, cansado. Do seu passado vinham cadeias de susto que tolhiam o seu presente até à impotência. Deviam ser aqueles jovens… (p. 24)

Sim, é assim que me sinto: sem crença em ninguém, sem força para actuar com decisão, mesmo que inutilmente. Mal me resta a força necessária para dizer não à barbárie… E, no entanto, …

E, no entanto, era preciso que alguém… que alguém se atrevesse. É sempre preciso que alguém se atreva ou estamos todos perdidos. (p. 26)

Depois de eu ter esgotado toda a fé possível nos adultos e velhos, depois de ter visto até que profundidades do mal os jovens podem chegar, ler este livro foi uma lufada de ar fresco. Porque conviver com alguém que, já não acreditando que os velhos resolvam os problemas da sociedade actual, acredita que os jovens são bem capazes disso, fez-me reacender a chama da esperança neles que há muito eu tinha perdido.

Lembro-me também de Vera Mantero, no JL de 12 a 25 de Agosto de 2009:

P.: Como é que se renova o “voltar a acreditar” com a energia da juventude? Que processo é esse?
V.M.: Acho que é fazer o tal trabalho de estar perto dos outros, que também estão a pensar e a fazer uma série de outras coisas. Porque a impotência também tem a ver com a impressão de se estar sozinho. Sozinho é impossível.

[E há sempre a necessidade da mão de outra pessoa para nos salvarmos, (…) (Savater, p. 25)]

Sozinho é impossível. A impotência tem a ver com o não saber a quantidade de gente que está a trabalhar, reflectir e a tomar medidas para se pôr em acção. A partir do momento em que vês 10, 20, 30 individualidades, entidades, organizações, que fazem coisas extraordinárias, percebes que pode haver mudança. Basta pormo-nos todos em ligação, em contacto… Claro que isso dá alento e vontade de continuar. É por aí que sinto uma nova possibilidade…

E, por isso, termino com Savater que “testemunha” Jan Patočka a dizer:

(…) continuem a luta. Não deixem de informar, de explicar e de argumentar, não se cansem de combater a mentira. Há crimes que talvez não possamos evitar, mas tentemos impedir pelo menos o crime do silêncio… (p. 287)

quinta-feira, dezembro 31, 2009

2010

Júpiter: "(...) O doloroso segredo dos deuses e dos reis: é que os homens são livres. São livres, Egisto. Tu sabe-lo; eles é que não."

Egisto: "É verdade; se o soubessem deitariam fogo ao meu palácio. Há quinze anos que represento esta comédia para lhes esconder o seu próprio poder."

Sartre, Jean-Paul, As Moscas, Ed. Presença, 1965, p.124.


Há que dizer sempre, em todas as situações: eu não tenho de fazer isto, sou livre!

Eis os meus votos para 2010.

quarta-feira, dezembro 30, 2009

Um dia de saia

Ontem, no cineclube de Olhão, La journée de la jupe, de Jean-Paul Lilienfeld.



Uma professora de francês vê-se, numa aula com alunos muçulmanos, com uma arma nas mãos. Dá a sua aula e, entretanto, vai descobrindo os horrores por que passam os alunos mais fracos (e que os professores nas escolas reais procuram ignorar no seu dia a dia, porque sabem que nada podem fazer).

O filme exagera? Não, em absoluto não. Uma das pessoas com quem fui ver o filme dizia no fim: "Felizmente que aqui em Portugal as coisas ainda não chegaram a este ponto!" Fitei-a com incredulidade. Tirando a componente religiosa que, aqui em Portugal, de facto, não tem grande peso, a verdade é que reencontro tudo o que já vivi em escolas portuguesas (excepto a arma de fogo, porque armas brancas já há muitos anos que elas entram na escola portuguesa).

E ainda há três coisas que eu senti falta no filme: o aluno delinquente de sorriso na boca e olhar frio (tive-o no ano passado); o envio de alunos, agredidos por colegas, para o hospital; e a sodomização de alunos (o filme refere a violação de uma aluna).

A professora é perturbada emocionalmente, como a crítica quis fazer passar? Só no sentido em que qualquer pessoa fica perturbada emocionalmente quando é acossada como ela o foi. Só no sentido em que ela não se deixa paralisar pelo medo e confronta os alunos com a sua violência (deles).

Um aparte: não vou entrar naquele discurso de tantos professores, e que aparecem retratados no filme, de comigo nunca tive problemas, eu, eu até consigo resolver tudo a bem. Vou ser claro: não consigo resolver nada; e, face à extrema violência verbal e física dos alunos, face à minha completa vulnerabilidade e ausência de autoridade (que foi retirada aos professores) eu paraliso de medo e fico incapaz de reagir.

O director diz no filme que o papel dos professores é serem baby-sitters, o que é falso. O papel não oficial dos professores é servirem de almofada para toda a violência adolescente e mantê-la confinada dentro das escolas. Ensinar não é de todo o mais importante (por isso é que a formação dos professores nunca incide sobre os conteúdos).

O filme tocou-me principalmente porque retrata a total impossibilidade de a escola proteger os alunos mais fracos dos delinquentes. Uma das vítimas do filme quer ficar sequestrada para sempre, porque só assim sabe que fica segura; outra das vítimas pretende fugir para a Austrália com a família e acaba, aliás, por matar porque sabe que é a única maneira de proteger a irmã que foi ameaçada.

Estou a ver as coisas de uma forma primária? Estou. E estou porque gente iluminada achou que se educa crianças e jovens sem eles nunca terem de sentir as consequências do que fazem de errado. Com a originalidade portuguesa de só se poderem dar castigos se o castigado concordar - se não concordar, só resta o castigo da suspensão que não é castigo nenhum porque as faltas ficam todas justificadas, o aluno não chumba, nem pode sequer ser avaliado pela matéria a que ele não esteve a assistir: em suma, ensina-se na escola portuguesa que o crime compensa sempre. Sempre.

Post-Scriptum: Mais uma vez, e tipicamente, é a pessoa que tem uma reacção saudável e normal face a uma situação, que é ou devia ser inaceitável e intolerável, que é vista como uma doente, como uma perturbada (outro nome para "louca").

terça-feira, dezembro 29, 2009

Ida ao cinema em Faro

Um BMW enorme, com um casal de velhos lá dentro, mete-se no lugar que esperávamos que vagasse para estacionarmos o nosso carro. Na fila para a compra dos bilhetes, umas jovens, atrás de nós, iam entremeando as suas falas com diversos "f...-se's" e "c...lho's". Quando nos dirigíamos para os nossos lugares, o jovem atrás de mim tinha as botas (em dia de chuva intensa) apoiadas no alto do encosto da minha cadeira... com os pais ao lado.
Ontem. Exactamente assim.

Cada vez vejo menos possibilidades de comunicação com o mundo, tal como ele está a ser construído.

quarta-feira, dezembro 23, 2009

Feliz Natal

O que está dentro do que digo quando digo "Feliz Natal"?

Trata-se de um desejo; ou, talvez, de um pequeno conjunto de desejos.
Pequeno, porque sei que não é preciso muito para uma pessoa ficar feliz: um pouco de alimento e de sol, de amor, um livro, uma paisagem, e pouco mais...

Sim, é isto tudo, no fundo, meus amigos, aquilo que vos desejo para este Natal.


Boas Festas para todos!

terça-feira, dezembro 22, 2009

Balanço

Gosto do mar, da terra, do grande espaço azul do céu. Da Ria, da praia. Das árvores, dos campos, do cheiro, um cheiro forte e profundo exclusivo do Algarve.

E amo. Amo muito. E sou amado, muito bem amado.

Trabalho sem parar. Mas não recebo ordens de ninguém: quando querem alguma coisa, pedem-me. É bom. Como também é bom recuperar a dignidade no trabalho que realizo (ah, tudo o que deixei de ser obrigado a fazer e que ia contra a minha ética pessoal e profissional!) E na forma como os alunos recebem o que eu tenho para ensinar.

Tudo isto é gratuito? Não. Posso dizer que agora sou pobre. Não de sol nem de coração, claro. Mas pobre monetariamente. É o preço; e um preço justo, acrescento.

É este o balanço que faço. Um balanço feliz, sem dúvida.

terça-feira, outubro 06, 2009

1º Salário

Apesar do pouco tempo disponível que tenho, hoje tenho de vir aqui dar notícias da liberdade.
Hoje recebi o meu primeiro salário em liberdade. Hoje recebi a paga pelo trabalho que fiz.
Sem ter sido insultado, sem ter sido desprezado, sem ter sido humilhado.
E sem ter sido das mãos de miseráveis sem escrúpulos e sem vergonha.
Não é muito dinheiro. Mas é infinitamente mais saboroso e digno do que aquele que tenho recebido nos últimos anos.
Para mim é muito importante, claro, a quantidade que recebo. Mas é-me muito, muito mais importante a qualidade dos indivíduos de quem eu o recebo, bem como tudo a que tenho de me sujeitar a fazer e a suportar para o receber.
Cheguei à conclusão que o dinheiro não paga tudo, isto é, não compensa a perda da dignidade nem a da integridade. E sinto-me grato por ter conseguido assumir a minha liberdade e ter recuperado ambas. Com sacrifício. Mas está a valer a pena.

domingo, setembro 27, 2009

Um futuro negro

Confesso-me terrivelmente assustado.

O ladrão de deficientes e dos doentes que são obrigados a ir para o hospital;
para oferecer dinheiro e outras benesses aos bancos;
que fez da inveja, não da ambição, um valor;
que normalizou a mentira, a ponto de ela ser indistinguível da verdade;
que perseguiu os jornalistas que não pôde comprar,
que premiou a incompetência e a desonestidade,
que, enfim, tanto empobreceu Portugal, não só material mas também, e acima de tudo, animicamente...

... ganha as eleições?

Repito para mim vezes sem conta: já não sou professor!, já não me podem tratar como lixo!, já não sou professor!, já não sou professor e estou muito mais livre dele(s). Mas nada disto consegue afastar as sombras negras que inundam o meu espírito.

E se, aos 51 anos de idade, consegui mudar de vida, de trabalho e de cidade, também conseguirei, se isto ficar insuportável, mudar para fora deste país, cada vez mais miserável e de miseráveis!

domingo, setembro 20, 2009

Cidadania



Ontem, no Pátio das Letras em Faro, estive num encontro com a participação de Manuel Vilaverde Cabral e Luísa Schmidt, para a apresentação do livro Cidade & Cidadania.



Ao falar-se de mobilização e participação cívicas, muito maior nas cidades e maior entre a população jovem e feminina, falou-se inevitavelmente da luta dos professores (cuja esmagadora maioria é constituída realmente por mulheres).

Foi dito que os professores tinham ganho essa luta, já que o PS tinha perdido as eleições europeias e já que tinham sido introduzidas alterações ao sistema de avaliação.

Esclareçamos dois pontos:

Primeiro: os professores limitaram-se a uma vitória política parcial. Mas isso só se sabe agora.
Porque, durante quase quatro anos, e apesar da persistência da luta, politicamente, foram somando derrotas atrás de derrotas.
Quando o PS perder as eleições legislativas (e esperemos que as perca já), então os professores poderão falar de uma vitória política. Que só será plena se o novo governo desfizer o desastre em que está hoje mergulhada a escola pública.
De qualquer modo, a nível pessoal, ou profissional, ou de luta por um ideal de escola, a derrota dos professores é praticamente total; e temo que duradoura por muitos e largos anos, tal a profundidade do mal que lhes foi infligido.

Segundo: os professores lutam contra o sistema de avaliação que este governo quer impor, mas porque ele promove a destruição de uma escola pública de qualidade, promotora do sucesso cognitivo, social e emocional dos alunos. Portanto, simplificar o sistema sem o mudar, para os professores isso é o mesmo que nada, não se trata de vitória nenhuma, mas apenas da continuação da derrota por outros meios. É que não é mesmo contra a avaliação que os professores lutam, ao contrário da ideia que o poder quer fazer passar para a opinião pública.

sexta-feira, setembro 18, 2009

O poder dos economistas

As ideias dos economistas influenciam cada vez mais as decisões políticas, cujos efeitos temos depois de suportar e amargar.
Tento entender o porquê deste poder.
Numa sociedade pobre como a nossa, se o meu principal problema é o dinheiro (isto é, a falta dele), então é natural que oiça e dê mais atenção a quem me fala desta minha preocupação. E, assim, os economistas são ouvidos. As suas ideias (certas ou erradas, a maior parte das vezes erradas - não por eles serem particularmente maus, mas apenas porque as suas ideias só são certas em condições ideais e absolutamente irreais) transformam-se em palavras e estas, mais tarde ou mais cedo, em acções.
A verdade é que eles pensam muito em termos de lucro. Ora o lucro, seja qual for o contexto em que se insere, é sempre o lucro de alguns, nunca de todos. É esse o quadro mental em que eles, na sua maioria, se movem. Então se têm esta limitação, porquê dar-lhes o poder de influenciar toda uma sociedade?
Ainda por cima, como na sua maioria são velhos (como eu) é provável que ou estejam subordinados a ideias de economistas já defuntos ou aderiram às mais recentes e selvagens (e, portanto, nunca testadas) para não serem rotulados de atrasados.
Não entendo mesmo o seu poder no dia a dia da política.

domingo, setembro 06, 2009

Os 50

Ontem estive numa festa de aniversário de uma amiga que fazia 50 anos.
Muitas vezes fala-se dos 50 em referência a uma juventude, se não perdida, pelo menos melancolicamente distante. Há de certa forma um tom de quem sente ter uma boa parte da sua alma agarrada a esses anos de juventude cada vez mais mais perdidos.
Claro que, genericamente, sinto o mesmo.
Mas não devia sentir.

Lembro-me de ler, com 14, 15 anos os livros de Ray Bradbury na Colecção Argonauta da minha tia. E de ficar deslumbrado... como aliás ainda hoje fico, quando os releio.
Na altura rendi-me completamente à sabedoria e à simplicidade reveladas por Ray Bradbury e quis desesperadamente vir um dia a ser assim como ele, a ter também essa sabedoria. Soube que ele tinha na altura 50 anos e, então, durante muitos anos, desejei imenso chegar a essa idade.
Já cheguei.

E obtive essa sabedoria? Acho que uma boa parte dela, sim. Talvez não tenha conseguido manter toda a inocência que, em Ray Bradbury, se lhe encontrava sempre associada. Talvez.
Mas adquiri a sabedoria suficiente para não ter qualquer nostalgia do meu passado. Para ultrapassar o sofrimento dos anos anteriores com a alegria das realizações actuais, bem como dos novos desafios que eu tenho vindo a criar para a minha vida. Para achar que pelas pessoas, pelo mundo e pela liberdade vale bem a pena estar vivo e cada vez mais sábio.

No fundo, estou muito onde sonhei uma vida inteira estar.

terça-feira, setembro 01, 2009

O 1º Dia

O fervor é pensar que, apesar de perdido, o paraíso continua a ser ainda aquilo de que nos lembramos, aquilo que permite que saiamos desta terra, onde aparecemos, sem ter o sentimento, ou a convicção, de que estivemos no inferno.

(Eduardo Lourenço, cit. in JL, nº 1013, p33)

Hoje, aqui, a paragem é obrigatória.
Porque hoje é o primeiro dia verdadeiramente da minha liberdade.

Hoje entrei na situação de licença sem vencimento de longa duração. Acabou-se tudo aquilo que, parafraseando Eduardo Lourenço, me dava o sentimento e a convicção de estar a viver num inferno.

Ao contrário dos últimos anos, entro por Setembro feliz, sem angústia e sem medo.

Inscrito no mestrado. Com emprego num centro de explicações, a fazer o que sei e que gosto realmente de fazer: ensinar.

Bastante mais livre do poder abusador de um governo maldoso e estúpido.

E mesmo que tenha de comer lentilhas, como Diógenes… abençoadas lentilhas!

O fervor é também tudo isto.

sexta-feira, agosto 28, 2009

Um imenso pesar ... e duas histórias!

Sempre que oiço professores a falar, o tema é recorrente: as humilhações que lhes foram infligidas ao longo destes últimos anos. E não falo das que foram infligidas à classe na sua totalidade, não, falo daquelas de que cada um foi vítima individualmente.
E sinto pena, uma pena imensa destas pessoas esforçadas, mulheres na sua maioria, generosas e lutadoras, não só na escola mas também nas suas casas. Pena pelo seu sofrimento moral e pela sua incapacidade de transformar esse sofrimento numa acção libertadora, mergulhando antes cada uma, a pouco e pouco, num mar de amargura sem esperança nem luz.

A propósito deste assunto, ocorrem-me duas histórias. Duas histórias que representam os dois lados duma mesma moeda, da situação destes(as) professores(as).
Eis a primeira:

O filósofo Aristipo cruzou-se um dia com Diógenes, que estava a comer um prato de lentilhas, e disse-lhe:
- Ai, Diógenes, se aprendesses a ser mais submisso ao imperador não terias de comer essas lentilhas!
Diógenes parou, fitou o seu abastado interlocutor, e respondeu-lhe:
- Ai de ti, Aristipo! Se aprendesses a comer lentilhas tu já não terias nunca mais de ser submisso ao imperador.

O imperador, hoje em dia, toma muitos nomes e muitas formas: ministros, direcções, inspectores... e, talvez, o mais terrível de todos, pela sua anónima implacabilidade: os bancos e as dívidas com que eles escravizam os incautos.

Mas vamos ao outro lado da moeda. Eis a 2ª história:

Uma vez, um profeta chegou a uma cidade e tentou converter os seus habitantes. No princípio, tinha muita gente a ouvi-lo mas, a pouco e pouco, foram-no deixando sozinho a falar. Um dia, alguém lhe perguntou:
- Porque continuas a pregar? Não te dás conta de que já ninguém te ouve?
Ao que o profeta lentamente respondeu:
- No princípio eu pregava na esperança de convencer as pessoas a mudar de vida. Agora, se continuo a pregar, faço-o, mas para que as pessoas não me obriguem a mim a mudar de vida...

Portanto, por outro lado, aquelas mesmas pessoas que eu lamento, elas no fundo também acabam por ser verdadeiramente dignas de admiração por não se deixarem afastar pelos que têm usado o poder para fins funestos...
Assim seja, desde que elas nunca baixem os braços, desde que nunca desistam de lutar!

quinta-feira, agosto 27, 2009

Ensinar...

Revi o filme "A Sombra de um Homem", cujo título original é "The Browning Version", de Anthony Asquith.

É, de longe, o meu filme preferido sobre ser-se professor.

Michael Redgrave desempenha magistralmente o papel de um professor a quem a usura dos anos quase derrotou os sonhos da juventude: o sonho de ser um professor excelente e o de conseguir transmitir a sua paixão pela cultura clássica e, em particular, pela peça Agamémnon de Ésquilo (de que ele próprio fez uma tradução incompleta).

O filme é de uma beleza e de uma inteligência inultrapassáveis, que quase nos mantêm sufocados todo o tempo, a nós que amamos realmente a tarefa e a missão de ensinar.

E este filme fez-me voltar à questão de qual é a minha verdadeira vocação. Questão que, a bem dizer, não se põe: a minha vocação tem sido ao longo dos anos e ainda é a de ensinar, sem dúvida alguma.

De tal tenho sido impedido nos últimos anos (de ensinar, note-se, apesar de eu bem ter tentado); além de que amo demasiado esta missão para deixar que me obriguem a participar no seu abastardamento: por isso, o meu futuro não vai passar de certeza pela escola pública, isso para mim está já fora de questão (só devido a um absoluto desespero é que eu lá voltarei, ou a um mais que improvável volte-face do que lá se está a passar).

Mas ainda não desisti completamente do sonho de... ensinar Matemática!

terça-feira, agosto 04, 2009

Que futuro?

Respondi a um anúncio da Escola Internacional de Vilamoura. Não obtive resposta... ainda? Mas não estou preocupado (embora ache que a escola deveria enviar um mail de resposta aos professores não aceites, espero que faça isso).

Confesso que a ideia do trabalho de professor por enquanto me causa um certo desgosto. Está a ser difícil esquecer-me:
a) do rancor enviesado das pessoas aos professores,
b) dos alunos malcriados e violentos (porque ia todos os dias para a escola com medo do que me pudesse acontecer, a mim e aos meus colegas), e
c) do desprezo com que o governo nos tratava a todos nós professores.
Não sei se isto é estar traumatizado, mas que anda lá perto, anda.

Daí que esteja a encarar com verdadeiro entusiasmo é mesmo uma mudança de carreira. Para isso inscrevi-me, e fui admitido, a um Mestrado em Energias Renováveis. É por aqui que eu vou investir todos os meus esforços.

E do mundo da educação, talvez apenas as explicações, numa relação pessoal com aluno a aluno, em que posso finalmente fazer aquilo que eu sei fazer bem e que gosto de fazer: ensinar.

Embora, se mudar de carreira, fique com pena de deixar a Educação. Primeiro, porque com o espírito de serviço público que é ainda o meu, me suscita horror os milhares de euros que o Estado investiu em mim e na minha formação e que vão assim ser deitados à rua. Depois, porque a minha vocação e o meu talento para esta área, capazes de beneficiar tanto o meu país, vai deixar de ser posta a uso. De certa maneira, é triste.

A área para onde pretendo redireccionar a minha vida profissional, energias renováveis, também beneficia o país. Mas agora, a minha preocupação já não é simplesmente o que é melhor para os alunos e para os pais. Não, agora, vai passar a incidir muito no que é que é melhor para mim... Claro, sem nunca deixar de fazer o meu trabalho com toda a competência necessária. Mas é diferente...

domingo, julho 26, 2009

De partida

Uma acção de formação, a arrumação e o empacotamento das minhas coisas, bem como o encerramento das últimas "contas" que tenho na escola e aqui em Lisboa, têm como consequência a falta de disponibilidade para vir aqui.

Mas hoje (que vou ficar sem o computador que vai para o "estaleiro") não posso deixar de dar testemunho da minha partida depois de amanhã, 3ª feira.

É uma vida de 25 anos de ensino que deixo para trás. Há limites para o que nos fazem e para o que nos obrigam a fazer! Mas sobre isto já escrevi muito. Não vou olhar para trás.

Importa agora é a vida nova que me espera, a vida que eu escolhi, a vida que eu vou construir.

Mas não sozinho. Vou viver com uma pessoa maravilhosa, acabando finalmente com uma solidão de 50 anos (há sonhos que se realizam mesmo!).

Volto à Universidade como aluno para consolidar a reorientação que pretendo dar à minha vida.

E vou estar aberto a todas as oportunidades que me surjam de viver coisas boas, de aprender com tudo o que me aconteça e de me envolver em novos e entusiasmantes desafios!

Assim será!

O que os bons professores podem fazer

Escrevi isto hoje n'A Educação do Meu Umbigo, a propósito de uma entrevista da ministra:

Eu sou um bom professor – as notas mais altas obtidas por alunos da minha escola nos exames foram de alunos meus.
Recusei esta avaliação – não entreguei os objectivos individuais, não fui a acções para avaliadores, não fui avaliador e não entreguei a ficha de auto-avaliação.
Não tenho medo de avaliação nenhuma. Simplesmente acho este sistema profundamente lesivo para o ensino relativamente ao ideal de escola pública que tenho.
Sei que o governo não tem razão porque, se a tivesse, não precisaria de mentir como o faz.
Os bons professores são bons em qualquer outro trabalho. Acredito nisto e, por isso, com 51 anos e 24 de ensino, vou-me embora (sem reforma).
Sim, porque há e tem de haver um limite para o que nos fazem e para o que nos obrigam a fazer.

Esclarecimento: As notas referem-se à disciplina de Matemática que leccionei durante muitos anos.

quinta-feira, julho 09, 2009

O despacho

"(...) que a Senhora Subdirectora-Geral, por despacho exarado em 22/06/2009, autorizou a licença sem vencimento de longa duração ao docente Rui M... (...)”


Chegou-me ontem às mãos! Desde 23 de Março que estou à espera, mas chegou!

Lanço os últimos olhares para trás. E que deixo?
Acima de tudo, muitas, muitas humilhações com origem neste governo PS.
Humilhações e também medo de alguns alunos, da sua violência, da sua cobardia, da sua ininteligibilidade.
Amigos, professores e funcionários.
Muitos alunos, excelentes pessoas, alguns maravilhosos comigo, verdadeiros companheiros no trabalho e na aprendizagem; e uns autênticos heróis por não se deixarem arrastar pelos outros!
Um trabalho (professor de Educação Tecnológica) absolutamente nada entusiasmante.

Olho agora para a frente e que vejo?
O início de uma vida com alguém que amo e que partilha comigo os mesmos gostos, necessidades e valores. O primeiro dos quais (ambos estamos de acordo) será / tem sido o cuidar do outro, de nós, da relação.
Depois, a esperança de poder fazer o que realmente gosto e melhor sei: ensinar matemática. Mas também, se tiver de ser, com uma atitude muito positiva sobre aceitar quaisquer novos desafios profissionais que surjam.

O futuro é uma incógnita, está completamente em aberto para eu o construir.

Sou livre.

quinta-feira, julho 02, 2009

Valores

(...) Eu dei um modesto contributo para a comédia, divulgando no ProfAvaliação uma mão cheia de fichas de auto-avaliação preenchidas. Em troca, recebi emails de agradecimento com este teor:"Ramiro! Obrigado pela dica. Isto é que foi fazer copy and paste! Sabes uma coisa? Demorei menos tempo a preencher a FAA do que a escrever o Relatório Crítico"." Na minha escola, optámos por entregar fichas de auto-avaliação praticamente iguais. Foi cá um copianço!" (...)

(In "De comédia a farsa. (...)", Ramiro Marques)

Se os actores da farsa são os outros, a mim não me causa particular problema.
Como são os professores, fico triste: já nem precisamos que nos rebaixem, nós fazêmo-lo sozinhos.
Não entreguei os o.i., não entreguei a ficha de auto-avaliação.
E nem entreguei qualquer justificação. Para mim isso seria ainda admitir que o Governo e o ME podiam ter razão. Não têm e eu desprezo-os.