terça-feira, junho 09, 2009

A derrota de Sócrates

Tive uma infância cinzenta e chuvosa (nasci em 1958). Da sua maior parte, não me recordo nada. Mas lembro-me de me sentir estranho a tudo e como se estivesse sempre à beira do desastre. Ainda hoje. Só que hoje consigo distrair-me mais, consigo disfarçar melhor. Lembrar-me da minha infância é sentir-me sufocado.

Serve esta introdução para dizer que, quando penso em política no Portugal de Sócrates, em formas de intervir na sociedade, sou tomado por uma sensação de irremediável impotência, ou seja, de impossibilidade de mudar o que quer que seja que o poder não deseja ver mudado. Tal como na infância.

É certo que esta sensação de sufoco começou a ser criada no tempo de Barroso quando, depois da gigantesca manifestação contra a invasão do Iraque, ele seguiu em frente sem ligar nenhuma, levando atrás de si a generalidade dos meios de comunicação. E com os resultados que se sabem (milhares e milhares de vidas destruídas).

Mas Sócrates levou esta forma totalitária de fazer política a extremos inimagináveis (enfim, inimagináveis para aqueles que desconhecem o salazarismo e o nazismo): ele impôs um torno férreo a toda a livre iniciativa das pessoas que desejam dar seguimento aos seus ideais em colaboração com todas as pessoas da sociedade.

Cada vez mais as pessoas desistem da contestação e da participação cívica, sabem que ela ínútil e que funciona como se pura e simplesmente não existisse. Acredito que é assim que a juventude desistiu da luta por uma sociedade mais justa. Aliás, não desistiu: desapareceu!

Qundo penso na derrota de Sócrates, o que aspiro é a uma sociedade enfim liberta e capaz de respirar outra vez o ar puro da liberdade de movimentos, uma sociedade que se emancipa de uma infância imposta e opressiva. Que acredita na sua capacidade de se renovar com o consenso o mais alargado e responsável possíveis. Assim seja!

terça-feira, maio 26, 2009

Não desisto

É claro que persistir no mesmo tipo de contestação (manifestações) ou optar por versões apagadas (greve só ao 1º bloco), só pode trazer desânimo, que é o que o Governo quer e os sindicatos tudo têm feito para conseguir.

Mas, por outro lado, lá diz o povo: "Água mole em pedra dura, tanto dá até que fura"!

Isto anima-me a não baixar os braços: hoje fui um dos 2 que na minha escola fizeram greve

(escola com vários sindicalistas de peso, mas em que não apareceu um único aviso ou cartaz da greve);

e no dia 30 serei um dos que sejam quantos forem vão à manifestação.


"Se não há caminhos, há que caminhar" (S. João da Cruz)

segunda-feira, maio 25, 2009

Índice de Democracia

Em 2007, The Economist publicou os resultados da sua investigação sobre o estado da democracia relativo a 2006 em 167 países do mundo: Portugal ocupou o 19º lugar.

Em 2008, segundo The Economist, Portugal passou a ocupar o 25º lugar.

Os professores, entre outros (muito poucos) combateram a tentativa de sufoco. Registe-se.

Nostalgia

Estou a ler Aprendizagem Cooperativa e Inclusão (edição do autor, Lisboa, 2006), um livro de Francisco Alberto Ramos Leitão.

Recordo-me de como trabalhei e pugnei por uma escola que desse uma resposta emancipatória a todos os aunos que a frequentassem. Apercebo-me bem de quão larga e profunda é a destruição deste tipo de escola promovida pelo Governo, em virtude do desprezo total e profundo que sente pelas pessoas das crianças e dos jovens e, consequentemente, pelo seu desenvolvimento pessoal e social.

Por outro lado, ao defraudar as expectativas dos professores, ao roubá-los, ao desprezar o seu saber e a sua experiência, ao esgotá-los com trabalho embrutecedor, o Governo tem vindo a acabar com o clima de uma Escola Pública verdadeiramente Inclusiva.

A acrescentar a tudo isto, o sistema de avaliação que quer impor, que promove a competição mais rasteira, vai enfim acabar de vez com a Escola Pública para todos. A Escola de sucesso constrói-se com uma Educação de qualidade só conseguida com a cooperação entre os educadores, nunca com a competição entre eles (como quase todos os países europeus já descobriram).

Voltando ao livro de Francisco Leitão: aqui se apresentam, se explicam e se justificam os dados da investigação que apontam para a maximização do sucesso através do trabalho cooperativo, quer entre alunos, quer entre professores. Também se descreve como se consegue promover na prática um clima de cooperação entre todos (inclusivamente, num dos anexos, propõe-se uma forma de trabalhar com os alunos a gestão de conflitos, um saber essencial para que o trabalho cooperativo se traduza num máximo de boas aprendizagens).

Leio e estou a ouvir uma voz quente, amiga e sempre lúcida, a tentar fazer-nos acreditar que as nuvens negras desta época sombria não irão afogar as crianças e os jovens de hoje num mar de mediocridade auto-complacente e suicidária.

sexta-feira, maio 15, 2009

Formação contínua

Porque é que sou obrigado a frequentar acções de formação que não preciso e em que, ainda por cima, tenho de pagar?

Porque é que a formação que realmente me faz falta para eu poder melhorar científica e tecnicamente, dada por entidades idóneas, é aceite e reconhecida pelos meus colegas e superiores hierárquicos, mas não é reconhecida pelo Governo e, portanto, não me serve para nada em termos de carreira?

Eu sei a resposta: porque a gatunagem que decide estas coisas, não satisfeita em já me ter roubado milhares de euros, é uma mafia que continua a querer sugar-me até onde puder.

Ou até onde eu a deixar.

sábado, maio 09, 2009

Amantes feios

(...) «O que é que Léo achou de mim? Achou-me ao seu gosto. A minha explicação para isso é que também ele era malfeito. Tinha tido varíola em pequeno e ficara com as marcas. Era nitidamente mais feio que um anamita normal, mas vestia-se com muito gosto.»

Tanto pior que fosse malfeito. Tanto pior para as costureirinhas e para os corações sensíveis (a cujo grupo eu pertencia) que fantasiaram a propósito da beleza sensual do amante, a sua pele de seda, as suas mãos experientes, o seu corpo perfeito. O amante é feio e malfeito. (...)

(Adler, Laure, Marguerite Duras - Uma biografia, Quetzal Editores, 1999)

Ora, farto estou eu de histórias em que os protagonistas são sempre fisicamente atraentes (ou que ficam como tal depois de um adequado período de “patinho feio”)!
Desejo mesmo um livro ou um filme em que as personagens vivam um amor arrebatado e deslumbrante, mas que sejam feias e malfeitas, realmente feias sem qualquer apelo (porque, por exemplo, há as que, sendo feias, são, no entanto, encantadoras).
Ou em que pelo menos uma delas fosse mesmo feia.
E isso não fosse sinónimo de malvadez, ou de qualquer forma menos boa de carácter.
Personagens secundárias já vão surgindo assim, embora aparecendo sempre menores e mais ou menos patéticas.
Como seria, então? Como pegaria o(a) autor(a) no assunto nestas condições? Que emoções faria ele despertar em mim (excluindo naturalmente as da piedade e as suas variações)?

quarta-feira, maio 06, 2009

O voo dos moscardos

Recebi hoje o suplemento do Escola Informação do SPGL sobre as suas eleições internas.
Vejo entre os elementos das listas indivíduos(as) que, para além de entregaram os objectivos individuais, até se movimentaram no sentido de sabotar posições de não entrega por parte dos restantes professores.
Espanta-me que estes (e outros de outros sindicatos que também fizeram o mesmo) não tenham vergonha.
Tenho eu.
Por eles.
Por nós.

terça-feira, maio 05, 2009

Conversar

My trips are always packed with a lot of business meetings.

That’s why when I’m flying I like to unwind. One good way to relax is to strike up a conversation with seatmates. I don’t like to talk the entire flight, but sometimes casual conversations allow me to meet, for a brief while, people who are truly making a difference in the world.

Admiro as pessoas que sabem iniciar e manter uma conversação leve, útil, mutuamente satisfatória; pessoas que estabelecem um entendimento, um rapport imediato com quer que seja que lhes atraia o interesse ou a simpatia. Conheço bem uma pessoa assim... e nunca páro de me maravilhar!

Dada a minhas dificuldades de contacto, disfarço a minha falta de habilidade procurando ser um bom ouvinte e fazer perguntas interessantes. Mas trata-se de um esforço e jamais me passaria pela cabeça relaxar conversando!...

A propósito, a história acima, como talvez fosse de esperar, é bem simpática e inesperada e, por isso, ponho aqui o link (soube dela via GoodShit).

domingo, maio 03, 2009

Os intelectuais e a coragem de lutar

Num mundo ideal, as convicções e os princípios deveriam ser por si sós molas suficientemente fortes para combater a tirania e e a injustiça. E isso por vezes acontece, só que com poucos. Quando chega a hora dos arruaceiros (e chega sempre a hora deles, tal o fascínio que exercem) tudo se desmorona e o medo impera, o que é exactamente o que os arruaceiros desejam e pretendem (por isso é que são brutos e fazem ameaças).

O que é surpreendente e brilhante no caso dos professores é que começaram por nada fazer quando foram roubados ou quando lhes tornaram quase impossível realizar o seu trabalho de forma adequada; isto porque lhes disseram, e eles acreditaram, que o país precisava desse sacrifício da sua parte. Mas, tendo surgido a parte da violência inútil e sem qualquer sentido (note-se que, na maior parte dos países europeus a avaliação dos professores, que não a das escolas, ou não existe ou é extremamente simples e não conta para a progressão na carreira), e ao fim de quatro anos de guerra, ainda há um número elevadíssimo de professores que não desfaleceu. Sem contar que os que desfaleceram só o fizeram ao fim de um prolongadíssimo tempo de resistência que se conta por anos.

Sabemos que normalmente os inteletuais são cobardes. Vejam-se quase todos os que se têm encolhido no seu silêncio pequenino(1) e deixaram os professores sozinhos na sua luta e tentativa de participação cívica, até mesmo nos casos em que se pôs em jogo a vida e o futuro das crianças mais desprotegidas como é o caso das que têm dificuldades e necessidades especiais.

Mas os professores que, apesar das tentativas desenfreadas que têm vindo a ser tomadas para os proletarizar, ainda se podem assumir como trabalhadores intelectuais, e têm vindo a mostrar que a cultura e a humanidade podem ajudar de facto a conferir forças e coragem para lutar contra a barbárie (tanto das maneiras como das ideias).

(1) Com as excepções gratas, entre outros, de Joaquim Manuel Magalhães, de Santana Castilho e de Ramiro Marques.

sábado, maio 02, 2009

O que esperamos dos intelectuais?

Que pensem, que discutam, que criem.

Eu e muitos outros (é que não temos tempo, nem contactos, nem inteligência suficientes para o fazer) esperamos que nos dêem ideias de entre as quais possamos escolher aquelas de que nos vamos apropriar para fazermos delas as nossas bandeiras e os nossos ideais por que lutar.

Portanto, a frase mais estéril e traidora da sua responsabilidade que um intelectual pode proferir é: “Não há alternativas.” Porque, ainda por cima, é uma rematada mentira! Existem sempre alternativas!

As consequências de andarem a espalhar esta ideia vêem-se na juventude de hoje: acreditaram nesta vigarice que lhes transmitiram e tornaram-se numa geração de conformistas.

Ora, uma sociedade que não evolui para melhor, como a actual, está doente. Ela só evolui para melhor com a renovação das gerações, a qual deve necessariamente implicar uma renovação de ideais e de lutas. Só assim podemos sacudir este marasmo deprimente e nauseado em que vivemos hoje em dia.

Suspeito que pertenço a uma geração que traiu realmente o futuro: roubou aos jovens a esperança num mundo melhor e a convicção de que vale a pena lutar por ele.

Não vale a pena diabolizar este Governo por ter demonstrado a irrelevância da participação cívica dos cidadãos nas decisões que envolvem toda uma sociedade e o seu futuro. Porque fomos todos nós que lhe conferimos poder e o deixámos abusar dele.

Não podemos esperar, aliás, dos políticos que tragam novas ideias. Eles são executivos, não criativos. O problema é que, quando os políticos não têm ideias, os tiranos saltam para a primeira linha, agarram o poder e abusam dele.

Eis porque precisamos de intelectuais que façam verdadeiramente jus ao seu estatuto.

segunda-feira, abril 13, 2009

O que é que isto interessa?

Discute-se, com acrimónia e entusiasmo, se há o direito de dizer às funcionárias da loja do cidadão de Faro como é que se devem apresentar vestidas ao público. Fico perplexo.
Na verdade, se elas tivessem de trabalhar mais 2 ou 3 horas por dia, sem receberem horas extraordinárias, prejudicando a sua vida familiar e a educação dos seus filhos, como acontece com tanta gente, bom, isso já não seria assunto com interesse para trazer a uma discussão! No entanto, parece-me razoável pensar que este assunto é amplamente mais importante e com consequências muito mais graves para as pessoas e para a sociedade no seu todo. Ah, mas com isto não temos espectáculo, logo...

"(...) O essencial é invisível aos olhos" (Antoine de Saint-Exupéry, O Principezinho, Cap. XXI)
Esta frase tem hoje em dia um sentido tristemente irónico. Porque aquilo de que valeria mesmo a pena falar e discutir está invisível e, por isso, não se consegue que seja matéria para debate e troca de ideias, permanecendo assim cada vez mais na sua invisibilidade. E, infelizmente, a existir menos que a roupa das funcionárias da loja de Faro!...

terça-feira, abril 07, 2009

Acabou-se!

A engrenagem já não contará comigo por muito mais tempo: entreguei um pedido de licença sem vencimento de longa duração. Ou seja, vou-me embora. Espero que para sempre.

Um aluno de um CEF pontapeou a cabeça de um colega enviando-o para o hospital em estado crítico. A pena máxima que a escola pôde aplicar consistiu em 10 dias de suspensão (já se sabe, com faltas justificadas): não havia o mesmo CEF numa escola da área de residência dele, pelo que a transferência estava fora de causa.
Outro aluno, por, entre outros actos violentos (e várias penas de suspensão), ter agredido uma professora na cabeça, foi punido com transferência de escola: passam-se as semanas e nada de assinatura do director regional, pelo que ele continua na escola (imagine-se como) e diz: "Posso fazer o que quiser, o que é que me pode acontecer de pior?"

Estive no ensino 24 anos por vocação, talento, paixão e alegria. Eu gosto muito de ensinar, que é uma coisa que hoje em dia faço pouco. O que faço é reforçar a máquina destruidora que este Governo pôs em marcha. Devo dizer, pois, que saio com alegria também: já não mais humilhações violentas, nem trabalhos inúteis e esgotantes, nem sapos engolidos, nem ausências de respeito e de consideração, nem ameaças ou ataques à minha integridade física e mental.
E não mais me sentirei responsável por alimentar este imenso desastre que é hoje a Educação em Portugal no ensino público.

sábado, fevereiro 28, 2009

Ser Professor até ao fim

Sabemos hoje que Hitler nada teria conseguido sem a colaboração dos funcionários públicos.
Temos assim o pequeno funcionário, peça de uma imensa engrenagem (peça porque perfeitamente substituível), na qual cada injustiça era apresentada como um sacrifício necessário para a Alemanha sair da crise (em que cada injustiça não era vista como tal pela opinião publicada na altura, note-se).
Com a táctica dos pequenos passos a enredarem-se uns pelos outros, mais o recurso ao medo, os nazis conseguiram que as pessoas fizessem o que não aceitariam fazer em condições normais.
E, nestas condições, poucos desses funcionários conseguiram ser suficientemente lúcidos e corajosos para se oporem ao sistema ou para dele sairem.

O problema que aqui se me põe para já é este:
Como conseguir distinguir a linha que separa o que é ainda eticamente aceitável, do que configura já a prática de um crime?

Ou:
Como saber aquilo que os nossos descendentes vão identificar claramente como um crime, votando-nos a nós, que dele participámos e o alimentámos, à condenação e ao desprezo?

Mas no estado actual da Educação no nosso país este problema de identificação põe-se?
Na minha opinião, não, realmente não.
Porque sei, cada vez com mais convicção, que já está a ser cometido por este governo um Crime de proporções incalculáveis sobre esta geração de jovens e sobre o futuro deste país.

(Só o facto de o sistema não ter meios para pôr cobro aos que impedem os alunos mais pobres e mais trabalhadores de poderem estar em segurança na escola e de aí poderem aprender, para mim já é crime bastante)

Então, nestas condições, como deve actuar este "pequeno funcionário" que é o professor da escola pública?
Eu sei.

Primeiro, recusar-se a colaborar em tudo o que estiver ao seu alcance, desde que não prejudique ainda mais os alunos.
O que já é bastante.
Mas a verdade é que, no fim, não há outra alternativa, nada mais lhe resta fazer senão sair desta engrenagem, numa recusa, agora total, de alimentar este Crime, ou de sequer fazer parte dele.

sexta-feira, fevereiro 13, 2009

Objectivos Individuais (3)

Era até ao dia 10. Não entreguei: eu e mais meia dúzia de professores.

Três coisas me impressionaram até ao momento.

Uma, o medo que domina actualmente tantos professores. Numa democracia alegadamente europeia. É certo que alguns utilizam o pretexto do medo para disfarçar a sua ganância, ou a sua comodidade, ou simplesmente a sua demissão de pensar pela sua própria cabeça. Mas a maioria sente inegavelmente medo. Medo. Bem como vergonha por sentirem medo, por se submeterem a ele, por enfim quebrarem perante o poder que, por todos os meios, tem tentado diminui-los e destruir-lhes a sua fibra moral. Professores, titulares, professores no último escalão e até sindicalistas: todos.

Outra, a completa ausência dos jovens. Eles são a garantia da evolução das sociedades, são eles que asseguram a sua renovação mantendo-as, portanto, vivas. São eles que, desde sempre, se colocaram na primeira linha da contestação à tirania e à prepotência. Onde estão eles? Estarão paralisados pelo medo? Estarão apáticos? Será que criámos uma geração de conformistas?

Finalmente, o esquecimento. Hoje vejo as pessoas a rirem-se, a conversarem. Como se nada tivesse acontecido, como se nada se tivesse passado. Cento e tal professores agem em perfeita contradição com aquilo que acreditam (acreditaram?). Desistem de lutar na primeira acção positiva que podiam empreender, submetem-se a um poder grosseiro e boçal. E fingem que nada aconteceu? Transformam tudo isto num simples incidente negligenciável?

terça-feira, fevereiro 03, 2009

Contra a avaliação

Razões por que estou contra:

1 - Porque acho a competição danosa para a educação (tal como o acham a esmagadora maioria dos países europeus, incluindo a Filândia). Pense-se nos pais: é bom estarem em competição ou é melhor a colaboração quando se trata de educar os seus filhos?

2 - Porque acho eticamente abominável e profundamente desmoralizador a existência de quotas para professores muito bons ou excelentes. É matar a vontade e o respeito por se tentar fazer o melhor.

3 - Porque despreza os que cumprem as suas obrigações, só não penalizando os classificados com Bom ou mais.

4 - Porque é um desastre para o país e para o seu futuro uma avaliação baseada nos resultados dos alunos (que foi abandonada temporariamente e com justificações apenas de simplificação burocrática). É como premiar os fiscais de obras pelo número de obras aprovadas, ou polícias pela ausência de multa: é um absurdo estúpido.

5 - Porque me recuso a pactuar com manobras indecentes e inescrupulosas por parte do governo: ameaças, chantagens, intimidação aos mais fracos e desprotegidos, atribuição de privilégios especiais a certos grupos de professores (mostrando assim o quão pouco acreditam no próprio modelo que dizem defender).

6 - Porque decidi recusar-me a condicionar as minhas escolhas éticas ao medo do que eles me possam fazer. Deste modo, livremente, posso desobedecer a ordens que só causam mal, o que representa agora uma tarefa de carácter cívico e de cidadania que transcende a mera esfera pessoal. Ainda por cima, sei que o Governo fica impotente se ninguém lhe obedecer - é uma luta que, ao contrário de muitas outras, tem o sucesso garantido... desde que não se obedeça ao medo.

domingo, fevereiro 01, 2009

Objectivos Individuais (2)

A partir do momento em que decidi não entregar os o.i., tornou-se-me irrelevante saber se somos muitos ou poucos.

Eu decidi agir não me submetendo ao medo e à prepotência, ou seja, decidi ser livre e coerente com a minha consciência. Em suma, decidi ser totalmente responsável pelos meus actos nesta matéria: não aceitar donos.

E como eu me sinto bem comigo mesmo por ter tomado esta decisão!

Não o esqueço: somos 120 000! Muitos podem ter medo, vacilar, desistir, etc, mas eu sei que eles não concordam com nada do que este m.e. lhes manda fazer com o sentido de destruir a Escola Pública. Isso me basta para não me sentir sozinho.

Felizmente também sei que há muitos professores que acreditam o suficiente em si próprios e no seu próprio julgamento para não cederem.

Ah, e estar em tal companhia é bom, é mesmo muito bom!


Nota: estou no 8º escalão e, provavelmente, daqui nunca sairei.

sexta-feira, janeiro 23, 2009

Greve da Fome

Na reflexão do dia 13 propus como acção a desenvolver (para a qual eu e outros colegas se disponibilizaram de imediato) uma Greve da Fome. Começaria por ser faseada, quer geograficamente (por zonas), quer temporalmente (por exemplo, primeiro durante as 7 horas do período diário de trabalho, depois durante um dia, etc).

Esta acção apresenta vantagens extraordinárias:
- Os alunos não são significativamente prejudicados pois não ficam sem aulas, ou sem avaliação, e as escolas não fecham.
- O impacto emocional sobre a sociedade é extremamente forte, nem sequer precisando os níveis de adesão serem muito elevados.
- A repercussão internacional seria imensa, aumentando a visibilidade para o absurdo das propostas do Governo e para o seu autoritarismo.
- Nós, professores, não perderíamos dinheiro (ultrapassando assim uma dificuldade grande para muitos colegas).

Acredito inclusivamente que até o simples anúncio, por parte dos sindicatos, de um Greve da Fome como um modo de luta a ser seriamente considerado já teria, por si só, um efeito devastador para este Governo em ano de eleições.

segunda-feira, janeiro 12, 2009

Objectivos Individuais

Decidi não entregar os objectivos individuais.

Votei PS porque achei que o PSD, e todos os outros, teriam de aprender que aquele tipo de campanha que fizeram contra Sócrates é eticamente abominável. Pela mesma razão tomo agora esta atitude. O PS, e todos os outros, têm de entender que ameaças e chantagens (e subornos disfarçados) são atitudes impróprias de governantes em democracia. Assim, a minha recusa já não é apenas uma simples questão de dignidade profissional, mas passou a ser também uma questão de responsabilidade cívica perante a minha consciência e perante os meus alunos, pais e sociedade portuguesa em geral.

Os nossos governantes afirmam repetidamente que não actuam em obediência à pressão de outros, que não negoceiam, isto é, que não mudam de atitude face a chantagens. Concordo com eles. É seguindo exactamente o seu exemplo que me recuso a, sob ameaças e chantagens de variada espécie, entregar os objectivos individuais.

Não se trata aqui de fazer grandes coisas, de estar com heroísmos, trata-se de fazer simplesmente uma coisa pequena, que está perfeitamente ao meu alcance, e que faço para não corromper a fidelidade à minha consciência. E havendo muitos, as coisas pequenas, individuais, tornam-se colectivas e grandes.

segunda-feira, janeiro 05, 2009

Envelhecer

"Somewhere Towards the End", de Diana Athill.

Um relato em primeira mão de como não é nada agradável envelhecer. Não li, mas sobre o livro há mais informações aqui (Michael Dirda, no Washington Post).(*)


As minhas marcas de envelhecimento.

As más:
o cansaço (físico e psicológico)
a incapacidade de recuperar ou de recuperar rapidamente
a distância que cresce em relação aos jovens (em particular, um maior retraimento face à sua violência e agressividade perante a vida)
a dificuldade de encantamento face a livros, filmes, etc
o tempo que se esvai cada vez mais rapidamente

As boas:
cada vez se tem menos a perder
capacidade de compreender cada vez mais, para condenar cada vez menos...
... mas a condenação, quando vem, mergulha no ódio e no assassínio (talvez isto não seja bom)

Outras que me lembre irei acrescentando.

Termino, citando o final do interessantíssimo artigo atrás referido:

Certainly no amount of mendacity or whining will change the facts: The end of life is hard. With luck and adequate health, you might be able to enjoy a few simple pleasures for a while longer. But that's about it. And be grateful for even the smallest of such favors. Time is not on your side. (Michael Dirda)

(*) Via GoodShit

terça-feira, novembro 18, 2008

Liam Clancy



It's not the leaving that's grieving me, but my true love who's bound to stay behind. (Bob Dylan)