A vida. Tão pouco e tão tanto. (...) E todavia eu sei que "isto" nasceu para o silêncio sem fim... (Vergílio Ferreira)
sexta-feira, janeiro 05, 2018
"Nova lei do financiamento dos partidos" e a técnica "porta na cara"
A técnica de rejeição seguida de recuo (ou técnica “porta na cara”) é uma manipulação que consiste em o manipulador fazer um primeiro pedido exagerado e absurdo que irá, sem dúvida, ser criticado e rejeitado.
Passado algum tempo, ele finge que refaz a proposta e apresenta um novo pedido que, por comparação com o anterior, parece resultar de várias concessões que ele fez. “Parece” apenas, porque este último pedido é o que ele desde sempre pretendeu ver realmente satisfeito.
Face a essas aparentes concessões por parte do manipulador, esse pedido encontrará do outro lado o impulso inconsciente de retribuir também com concessões, sendo agora facilmente aceite sem críticas de maior.
E o manipulador acaba por conseguir obter o que sempre quis desde o início.
Os deputados não são parvos (embora possam querer que nós pensemos isso deles). Eles sabiam perfeitamente que a sua proposta de nova lei de financiamento dos partidos era ultrajante. Na minha opinião, ao votarem a nova lei de financiamento dos partidos, eles limitaram-se a usar conscientemente a primeira parte da técnica “porta na cara” descrita acima. E o Presidente da República vetou-a.
Adenda
José Ribeiro e Castro tem um artigo muito informativo e esclarecedor sobre a vida legislativa da Assembleia da República que vale a pena ser lido:
As leis do quarto escuro
sexta-feira, dezembro 08, 2017
Sabedoria sem Certezas
«(...) exibindo a suficiência intolerável e desesperadamente densa que nada a não ser a frequência da ciência pode dar à obtusidade do comum dos mortais.»
Às vezes, fico convencido que sei algo com total segurança. É durante pouco tempo, porque percebo bem que é uma ilusão. Habitualmente, tenho a plena consciência da imensidão da minha ignorância. Mas, às vezes não.
Joseph Conrad, O Agente Secreto
Às vezes, fico convencido que sei algo com total segurança. É durante pouco tempo, porque percebo bem que é uma ilusão. Habitualmente, tenho a plena consciência da imensidão da minha ignorância. Mas, às vezes não.
Porque é que isso acontece? Em parte, porque confio no que
estou a sentir; e sentir que estou certo funciona como uma garantia para a
verdade. No entanto, basta-me recordar as vezes, imensas vezes anteriores em
que senti o mesmo e estava redondamente enganado, para ganhar um pouco de
humildade.
Por vezes, a minha experiência particular confirma a
informação que colhi. Daí até concluir que ela é generalizável a toda a gente e
que, por isso, tem de ser verdadeira, o salto é muito pequeno; e, quando estou mais
distraído, dou-o.
Mas também tendo a sobrevalorizar o que sei pela sua
novidade – tenho este preconceito a favor do que é novo; mas realmente novo,
não do que é um antigo serôdio reciclado e com roupas novas a disfarçar.
Depois, o estudo que fiz do assunto faz-me acreditar que
fiquei a saber a última palavra acerca dele. Ou ainda as leituras que fiz. Por
exemplo, os artigos de divulgação científica que apresentam as matérias de uma
forma simplificada e facilmente compreensível dão-me a ilusão de que fiquei a
dominar o tema.
Ora, mesmo que eu tivesse feito um estudo exaustivo, o que
obviamente não é possível (a menos que eu dedique a minha vida apenas a esse
assunto e consiga ir acompanhando mais ou menos o que se vai publicando sobre
ele), sabemos que a ciência avança, oscilando entre o erro e a sua correção: o que é hoje verdade pode não o ser amanhã.
Portanto, nem mesmo na ciência se pode confiar totalmente para obter certezas.
Se é assim, então porque recorro à ciência? Porque ela é o
melhor método que a humanidade encontrou para descobrir e provar que
determinada teoria, científica ou não, é falsa. Sim, quero mesmo dizer falsa, não
verdadeira. É fácil provar que uma teoria é verdadeira, enquanto ninguém
encontrar algo que a invalide.
Assim, aquilo que a ciência não consegue
demonstrar como falso vai sendo, então, provisoriamente considerado como
verdadeiro – a ênfase aqui é no “provisoriamente”, não no “verdadeiro”. Então,
disto permito-me ter uma razoável certeza: até ao momento, não existe outra
maneira melhor, mais objetiva (não dependente de idiossincrasias pessoais), mais
sistemática, mais rigorosa e mais vigiada de conseguirmos aproximarmo-nos da
verdade.
Finalmente, creio que o meu autoconvencimento vem também da
necessidade de segurança das pessoas que as leva a quererem ouvir certezas simples,
monolíticas e infalíveis, e não divagações sobre um campo de dúvidas
fragmentadas, sempre relativamente pouco iluminado. Existe aqui uma pressão
subtil para que eu verbalize certezas; de todo o modo, isso não serve de justificação
para o fazer.
Porque o sábio não é aquele que sabe o que diz, mas é aquele
que sabe como e quando o dizer (ou não), independentemente do que os outros (e
às vezes ele próprio!) desejam.
Escola de Atenas, Rafael, 1511
quinta-feira, novembro 23, 2017
Fragilidade e coragem
Hoje acordei com esta foto na minha cabeça. Ela representa a primeira rapariga negra - Dorothy Counts – a frequentar uma escola só para brancos nos Estados Unidos, em 1957.
À sua volta, as pessoas gozam com ela, miúdos e graúdos. Sei que é real, mas há algo em mim que resiste a acreditar. Esta foto evoca aquelas gravuras antigas que retratam personagens grotescas, deformadas pelos mais baixos instintos. Sinto um aperto no peito, acentuado pelo contraste entre Dorothy, uma adolescente de 15 anos, e quem a rodeia. A beleza dela emudece-me.
E ela está tão só. A cadeira vazia ao lado dela enche esta foto da sua solidão. No meio do barulho, dos gritos e das gargalhadas, a solidão dela é um soco no peito e deixa-me sem respiração.
Porém, eu vejo aqui uma rainha. Por exemplo, rainha na forma como ocupa o espaço: ela não está encolhida no seu lugar, os ombros estão direitos, os braços afastados do corpo e saem fora do seu perímetro pessoal, mas não tanto que evidencie arrogância. Não, aquele é o seu lugar e ela ocupa-o com a naturalidade possível dentro daquelas circunstâncias.
A cabeça não está levantada e, no entanto, não há submissão na sua postura. A sua boca expressa a determinação com que está ali. E o esforço para fazer frente àquela muralha de agressões à sua volta. O olhar é atento, de quem sabe que está em terreno hostil, mas não aterrorizado. E, no entanto, ela teria o direito de se sentir aterrorizada, pois não há ali ninguém a defendê-la. Eu sei que não vai haver.
Veste-se com gosto, mas discretamente. Ela sabe que é uma rainha, mas não precisa de o demonstrar. Reparo no tema do seu vestido que, no preto e branco desta foto, é semelhante ao da camisa de um dos que zombam dela. Este contraste, aqui evidenciado pela semelhança das roupas, demonstra como uma pessoa pode conferir uma infinita dignidade ao que veste.
Gosto também da fragilidade revelada pelos seus óculos pendurados ao pescoço. Fragilidade essa que me remete para as imagens dos judeus na Alemanha nazi, com os seus óculos redondos sem aros. Que me recorda a sala que visitei em Auschwitz, cheia de óculos das vítimas do extermínio. Tão deslocados, tão abandonados.
E o fundo branco do laço, testemunho de um gosto simples e claro. Como se tratasse de um pedido de paz a alvorecer no meio da escuridão.
Na procura de um alívio à dor que esta foto me produz, reparo ainda que há duas mulheres atrás dela, na 3ª fila, que estão a olhar para o lado, como se não quisessem participar e, ao mesmo tempo, mostrarem que são críticas quanto ao que se está a passar. Eu sei que a fotografia “congela” um momento, não mais do que um momento, mas eu gostaria de acreditar que aquelas mulheres brancas sentem-se mesmo oprimidas por aquele clima. Que elas sabem que o ódio àquela jovem negra tem também laivos de um ódio dos homens a todas as mulheres, brancas ou não. E, por isso, não o querem alimentar.
Gostaria de acreditar, mas é difícil. Sabemos que, naqueles quatro dias em que Dorothy aguentou todas as humilhações e violências, mulheres com responsabilidades incitaram os alunos a expulsarem Dorothy, a cuspirem-lhe, etc.
Insultos, cuspidelas, pedradas… Olho para esta foto (e para a que ganhou a World Press Photo of the Year desse ano de 1957, da autoria de Douglas Martin, e que junto abaixo) e tento imaginar que horrores vivem emboscados no espírito destas pessoas que se riem e troçam desta criança.
Não consigo. Sei que tenho a mesma arquitetura básica que eles. Sei que existirá em mim, como para todo o ser humano, o potencial para inomináveis violências. Sei que há sempre quem queira aproveitar-se deste potencial e o manipula para benefício próprio. Por isso, mais do que estes jovens agressores, sei que me horrorizam os adultos (pais, professores, autoridades) que estiveram por detrás deles, e os formaram e os incitaram.
Mas não sei muito mais.
terça-feira, outubro 17, 2017

«Devemo-nos, pois, preocupar com aquilo que cria a felicidade, já que com ela possuímos tudo e sem ela tudo fazemos para a obter.»
(Epicuro, Carta a Meneceu in Carta sobre a Felicidade e Da Vida Feliz, tradução de João Forte)
A disciplina que leciono este ano na Academia Sénior (Delegação de Faro/Loulé Cruz Vermelha Portuguesa) está ligada ao tema da felicidade. Há abertura ampla para incluir diferentes perspetivas (filosófica, política, etc.) que @s académic@s queiram introduzir, mas a que será privilegiada é a da psicologia científica (técnicas testadas em laboratório). Dentro desta, terão destaque a psicologia positiva, a psicologia evolutiva, a neuropsicologia e a psicologia social; apesar de não haver quaisquer intuitos terapêuticos, também serão consideradas algumas visões psicoterapêuticas (nomeadamente, as das chamadas de 3ª geração, também conhecidas como “terapias baseadas na aceitação”).
O objetivo é simples (embora nem sempre fácil de alcançar): aprender a tornarmo-nos mais felizes.
domingo, outubro 15, 2017
O receio de falar em público
Ao abordarmos as obras dos antigos, a sensação é de que tudo é tão novo e tão antigo ao mesmo tempo! Quantas vezes o encanto sobrevem do encontro das velhas palavras com as nossas vivências pessoais!
Vou falar perante uma assistência e sinto-me inseguro. Então, conforto-me recordando Telémaco cheio de embaraços sobre como se dirigir a Nestor, para saber notícias de Ulisses, seu pai. Aconselha-o, então, a deusa Atena “de olhos garços”:
«Telémaco, algumas coisas serás tu a pensar na tua mente;
outras coisas um deus lá porá: na verdade não julgo
que foi à revelia dos deuses que nasceste e foste criado»
(Odisseia, Canto III, 26-28, tradução de Frederico Lourenço)
Vou falar perante uma assistência e sinto-me inseguro. Então, conforto-me recordando Telémaco cheio de embaraços sobre como se dirigir a Nestor, para saber notícias de Ulisses, seu pai. Aconselha-o, então, a deusa Atena “de olhos garços”:
«Telémaco, algumas coisas serás tu a pensar na tua mente;
outras coisas um deus lá porá: na verdade não julgo
que foi à revelia dos deuses que nasceste e foste criado»
(Odisseia, Canto III, 26-28, tradução de Frederico Lourenço)
(Marc Chagall - Atena e Telémaco)
sábado, outubro 14, 2017
Mesa-redonda em Faro
"A cidade é mestra do homem", diz-nos Simónides de Ceos (Séc. VI-V a.C.), fragmento traduzido por Mª Helena da Rocha Pereira (ao qual escolheu pôr como título “Papel da Polis”).
O que que terá querido dizer Simónides? Creio, na verdade, que ninguém o pode saber com segurança. Simpatizo com a sugestão dada por Marie Carducci Bolchazy de que Simónides entendia que o conhecimento nasce quando se partilham ideias, as atuais e as dos antigos. E que o lugar privilegiado para isso acontecer é a cidade.
Ontem, na cidade de Faro, na Biblioteca Municipal Ramos Rosa, foi isso mesmo que aconteceu.
Mito, Psicologia e Literatura: Cruzamentos
Com Adriana Freire Nogueira, José Joaquim Dias Marques, Cláudio Guimarães dos Santos, uma assistência interessada e entusiasta, e eu.
O que que terá querido dizer Simónides? Creio, na verdade, que ninguém o pode saber com segurança. Simpatizo com a sugestão dada por Marie Carducci Bolchazy de que Simónides entendia que o conhecimento nasce quando se partilham ideias, as atuais e as dos antigos. E que o lugar privilegiado para isso acontecer é a cidade.
Ontem, na cidade de Faro, na Biblioteca Municipal Ramos Rosa, foi isso mesmo que aconteceu.
Mito, Psicologia e Literatura: Cruzamentos
Com Adriana Freire Nogueira, José Joaquim Dias Marques, Cláudio Guimarães dos Santos, uma assistência interessada e entusiasta, e eu.
segunda-feira, setembro 25, 2017
Perguntaram-me ontem porque é que eu não escrevia mais no meu blog ou no Facebook. O meu primeiro ímpeto foi para responder que não tenho tido tempo. Mas imediatamente me senti envergonhado por esse impulso. É que precisamente ontem tinha lido a Carta 106 de Séneca a Lucílio, e que começa do seguinte modo:
«Se hoje levei mais tempo antes de responder à tua carta não foi porque as minhas ocupações mo impedissem. Não temas vir a ouvir-me dar uma desculpa destas! Eu tenho todo o vagar que quero, e, aliás, só não tem vagar quem não quer. Os afazeres não andam atrás de alguém: os homens é que se agarram aos afazeres, entendendo as suas ocupações como sinónimo de felicidade. (…)»
(Trad. de J. A. Segurado e Campos).
Ok. Vou então tentar escrever sobre o que vou lendo e aprendendo. Aliás, também para poder corresponder ao apelo de comunicar a ciência, presente no vídeo do post anterior. E, se possível, fá-lo-ei no sentido da “vocação de ser mais” de que Paulo Freire tanto falava.
«Se hoje levei mais tempo antes de responder à tua carta não foi porque as minhas ocupações mo impedissem. Não temas vir a ouvir-me dar uma desculpa destas! Eu tenho todo o vagar que quero, e, aliás, só não tem vagar quem não quer. Os afazeres não andam atrás de alguém: os homens é que se agarram aos afazeres, entendendo as suas ocupações como sinónimo de felicidade. (…)»
(Trad. de J. A. Segurado e Campos).
Ok. Vou então tentar escrever sobre o que vou lendo e aprendendo. Aliás, também para poder corresponder ao apelo de comunicar a ciência, presente no vídeo do post anterior. E, se possível, fá-lo-ei no sentido da “vocação de ser mais” de que Paulo Freire tanto falava.
domingo, setembro 24, 2017
Da importância de comunicar ciência
Um excelente vídeo que nos faz arrepiar pelas consequências da inépcia de quem não sabe comunicar. Mas não só. Também encoraja muito a partilhar o nosso saber.
sábado, agosto 12, 2017
Um livro simples
Às vezes, desejamos uma vida mais simples. Comida, casa,
saúde, trabalho (com dimensão humana) e uma companhia agradável. Nada de muito
exigente, nada de muito esforçado. Será que sentimos este apelo também em
relação a um livro?
Curiosamente, tenho a vaga noção de que já li esse livro,
algures na juventude. Em consequência, descubro mesmo um certo impulso em mim para
dizer: Ah, no meu tempo é que havia bons livros! Porém, sei que isso não passa
de uma fantasia. Nunca esse livro apareceu debaixo dos meus olhos. E, todavia, não
vejo maneira de me impedir de continuar a procurá-lo.
Às vezes passo horas numa biblioteca a viajar por livros. Dedico
esse tempo a ler inícios de livros, até que há um que me conforta e me faz
sentir bem. Estou sentado naquele momento, não me apetece mais levantar-me,
desejo prolongar a sua leitura até ao infinito (enquanto sinto uma levíssima,
porque ainda longínqua, angústia de que isto, também Isto terá um fim). No
entanto, acho que tal nunca me aconteceu com um livro simples. Ou será que,
quando encontro um livro simples, só sinto desagrado?
Por vezes imagino, desejando-o, que um livro simples poderia
ser aquele em que o autor até pudesse mentir o que quisesse, mas em que nenhuma
das suas personagens dissesse alguma vez uma mentira. Ou ser um poema em que as
palavras fossem como pedras leves, lisas e luminosas. A claridade daí
resultante poderia fazer-me aceder à simplicidade. A verdade é que já me cruzei
com tentativas literárias nesse sentido, porém o resultado não foi nem a
claridade nem a simplicidade.
Diz a neurociência que a evolução do cérebro tem funcionado
por adição e não por substituição. Assim, o nosso cérebro foi evoluindo pelo
acréscimo de novas estruturas às antigas; e que todas elas, no seu conjunto,
raramente funcionam harmoniosamente entre si. Logo, talvez este conhecimento me
permita concluir que o sonho da simplicidade nunca pode passar disso mesmo.
Porque nada do que o nosso cérebro produz pode ser simples. Ah, exceto, quem o
saberá alguma vez?, o desejar essa impossível simplicidade.
sexta-feira, julho 28, 2017
O Leitor Ideal
«Qual é, na vossa perspetiva, o Leitor Ideal para a vossa
obra?» – Esta é uma pergunta que por vezes dirijo a alguns escritores.
Reconheço que a questão, posta assim de chofre, não é fácil
de ser respondida. Muitas vezes, aliás, eles pensam que me estou a referir ao
leitor que têm em mente quando escrevem. Mas não, o que eu pretendo saber é
quais as características que eles sonham para um Leitor Ideal da sua obra (já
escrita).
Por que razão isto me interessa? Em algumas áreas da minha vida,
apetece-me a excelência que, naturalmente, nunca chego a encontrar. Só que o
caminho até esse horizonte indefinido é-me sempre festivo. Portanto, as ideias
para esse perfil de Leitor Ideal são-me sempre muito bem-vindas.
Porque a minha aspiração é na realidade libertar os
múltiplos prazeres que a leitura me pode trazer, sejam eles entretenimento,
aprendizagens, vivências improváveis, construção de mundos interiores,
alargamento da rede de relações interiores, cumplicidades com o autor, ou experiências
estéticas o mais diversas possíveis.
No entanto, talvez seja possível chegar a uma certa
simplicidade: o Leitor Ideal acabará talvez por ser aquele que lê genuinamente,
aquele que se coloca a si mesmo todo inteiro na experiência da leitura, de cada
vez sempre única, sempre renovada.
E quanto aos escritores? Será este o Leitor que eles idealizam
para a sua obra?
Imagino um escritor a desejar que o seu Leitor Ideal fosse
aquele para quem a leitura da sua obra tivesse siso tão devastadora, tão profunda
e tão marcante que ela o teria transformado em alguém completamente diferente a
iniciar uma vida também ela completamente nova.
… ou alguém que colecionasse todos os exemplares, todas as
edições e todas as traduções do livro.
… ou aquele cuja paixão pela obra o levasse a traduzi-la
para todas as línguas onde ainda não houvesse tradução.
… ou o que não repousasse enquanto não tivesse decorado o
livro todo, palavra por palavra, frase por frase (se possível, até movido pela
evocação de Fahrenheit 451, de Ray
Bradbury).
… ou o que, ao lê-lo vezes sem fim, palavra a palavra, fosse
escrevendo e juntando outras frases, acabando por criar outros e inumeráveis
livros a partir daquele.
… ou o que se apaixonasse por todas as pessoas parecidas com
as personagens do livro, mas só enquanto elas não o tivessem lido. Assim,
poderia viver em toda a sua pureza histórias alternativas, podendo manter-se
sempre dentro da história do livro.
… ou o que, nas suas viagens, entrasse em todas as
bibliotecas, requisitando essa obra, de forma a associar pelo menos uma parte
do livro a cada um desses lugares visitados. Ao mesmo tempo, deixaria registado
o testemunho da passagem de um leitor daquela obra.
… ou o que, nas suas múltiplas releituras, descobrisse no
livro uma fonte sempre inesgotável de novos deslumbramentos.
… ou aquele que morresse, não como Ícaro apenas por ter
atingido a altura mais chamejante, mas como Buda por ter alcançado, com esse
livro, o nirvana e a completa abundância num outro nível de existência. Melhor:
como um Bodhisattva que, podendo atingir o nirvana, resolvesse voltar ao
sofrimento de ler outros livros, agora para ajudar outros escritores e leitores
a encontrarem a capacidade de criar uma experiência ilimitada e infinita de
leitura….
segunda-feira, julho 24, 2017
Contra o silêncio que alimenta a violência
As ideias importam.
As ideias contam.
As ideias traduzem-se muitas vezes em atos.
O silêncio que responde a ideias violentas não é um sinal de
reprovação. É um sinal claro de apoio.
Num tempo em que está a deixar de ser vergonhoso defender
publicamente ideias violentas contra seres humanos, textos como este de
Fernanda Câncio são por demais importantes.
Subscrevo inteiramente todas as ideias aqui expressas.
Linchamentos Gentis e Outras Desventuras - Fernanda Câncio, Diário de Notícias, 24/07/2017
Não tinha qualquer intenção de escrever sobre Gentil
Martins; prefiro não perder tempo com fanáticos. E assim seria, se não me
tivesse dado conta de que as reações aos pronunciamentos do ex-bastonário numa
entrevista ao Expresso incluem colunas de opinião em que quem os criticou é
apelidado de "Gestapo", "Stasi", e "turba
linchadora", ou o atual bastonário não tivesse dito coisas que não podem
passar em branco.
Chamar Gestapo a alguém por se indignar com o facto de GM
ter chamado anormais e doentes aos homossexuais é uma justa homenagem ao
fanatismo do cirurgião pediatra: só a alguém igualmente incapaz de pensar fora
da fobia ocorreria usar o nome da polícia nazi, associada à morte de milhares
de homossexuais, para denominar os que se indignam por haver quem use em
relação a este grupo o mesmo tipo de terminologia que os nazis usaram. E quem
fala em "linchamento" de GM a propósito do que se considera ser a
reação furiosa "das redes sociais" tem o mau gosto de fazer de conta
que não sabe que linchamento, na acepção fatal do termo, é o que sucedeu a
miríades de homossexuais ao longo da história humana - e sucede ainda hoje,
como GM e os seus defensores não podem ignorar.
Porque, cabe relembrar, nunca ninguém foi exterminado ou
linchado por apelidar os homossexuais de "anormais" ou
"desviantes". Já quem mata e lincha homossexuais usa sempre esses
termos. Estamos entendidos sobre quem cala e persegue e lincha quem e quanto ao
potencial danoso das palavras de GM? Basta aliás, para perceber o que está em
causa, questionar se algum dos que tanto defendem "o direito de
opinião" de GM o faria se este, em vez de chamar "anomalia" à
homossexualidade, tivesse dito o mesmo dos judeus - também durante séculos
considerados "errados" e "doentios". Quem destas pessoas
viria nesse caso a público invectivar os críticos de GM por exigirem um
pronunciamento da Ordem em vez de se limitarem a "refutar" a sua
"opinião"? Deixemo-nos de tergiversações: quem defende GM e aquilo
que classifica como "o seu direito a expressar opiniões" apenas o faz
por considerar aceitável a que expressou. Ou não se encarniçaria contra os que
opinaram sobre a "opinião" de GM considerando-a ela sim anómala do
ponto de vista científico e um desvio dos seus deveres enquanto médico.
É muito simples: foi como médico que GM deu a entrevista. A
Ordem dos Médicos tem um mandato legal, público, para certificar que os
profissionais por ela autorizados agem de acordo com as regras deontológicas e
científicas em vigor; que não praticam o charlatanismo ou difundem falsidades
científicas e ideias sobre saúde contrárias às legis artis e prejudiciais para a comunidade. Não é uma opção da
Ordem; é uma obrigação. E tal como abriu um procedimento em relação a Manuel
Pinto Coelho por este ter dado uma entrevista (também ao Expresso) a dizer que
se deve beber água do mar e que usar protetor solar é um erro, não pode não o
fazer face a um médico que qualifica a homossexualidade como anomalia, portanto
doença ou afeção, e "desvio de personalidade", pronunciando-se
publicamente com termos que pertencem à especialidade de psiquiatria, que não é
a sua, e contra o consenso científico desta. Aliás o Conselho Nacional da OM
fez um comunicado público, há pouco mais de um mês, a acusar Pinto Coelho de
"defender práticas que podem constituir um atentado à saúde"
(curioso, não se deu por qualquer movimento de defesa da "liberdade de
expressão" deste clínico), acusação que o atual bastonário, Miguel Guimarães,
repetiu numa entrevista ao Expresso anteontem. Mas, questionado sobre se o que
GM disse é igualmente um atentado à saúde pública, foi muito mais cauteloso:
"É uma questão diferente. (...) São [declarações] más para um grupo de
pessoas que podem sentir-se segregadas". Para o bastonário, pelos vistos,
o facto de as afirmações do médico GM não terem fundamento científico, serem
discriminatórias e validarem discriminações não é um problema de saúde pública,
é "de um grupo de pessoas". Ficamos a saber que para este sucessor de
GM algo que afeta "só" os homossexuais não é um problema da
comunidade.
A ideia, que tantos martelam nos media, de que é "preciso" defender uma "liberdade de
expressão" entendida como a liberdade de um discurso discriminatório que
atente gratuitamente contra a dignidade de indivíduos ou grupos não é só uma
ideia estúpida e desonesta nos tempos em que esse discurso domina, com toda a
virulência, as caixas de comentários e as tais "redes sociais". É uma
ideia contrariada pela própria Constituição e pela Carta Europeia dos Direitos
Fundamentais, pactos escritos da nossa comunidade que valorizam mais (e bem) a
dignidade humana - portanto a liberdade de ser - que a liberdade de dizer.
Porque o nosso princípio básico civilizacional é o respeito mútuo, a ideia de
que o outro vale tanto como eu, tem os mesmos direitos, é igual a mim. Não
tenho por isso o direito de o agredir a não ser em legítima defesa; não tenho
por que sentir-me agredida pela sua mera existência. Esse sentimento, o de alguém
se sentir ameaçado pelo que considera outro, é que é uma anomalia. Alimentá-lo,
credibilizá-lo e tentar lucrar com ele é a negação de tudo o que estamos a
tentar construir desde Auschwitz.
sábado, julho 08, 2017
Leituras marcantes
Quando era mais novo, ao ser arrebatado por um livro,
tornava-me num seu campeão. Um livro que me iluminasse tinha também de verter a
sua luz sobre aquelas pessoas de quem eu mais gostava. Não descansava enquanto
não explicava a um amigo ou a uma amiga do que tratava o livro, porque é que
era absolutamente fundamental lê-lo; e, não satisfeito com isso, ainda perorava
sobre como e onde o livro iria mudar a sua vida. Um cansaço para mim, claro,
mas sobretudo uma violência para ele ou ela.
A violência é evidente e indesculpável – desafortunada a
pessoa que tinha o azar de ser apanhada por mim!
Quanto ao cansaço, ele advinha de se tratar quase sempre de
um esforço inglório. Inglório em várias frentes. Primeiro, porque,
estranhamente para mim, a pessoa não ficava com a mínima vontade de ir ler o
livro, mesmo que eu, emprestando-o, lhe poupasse o trabalho e a despesa de o
adquirir. Depois, porque a pessoa não só não me agradecia o esforço, como
demostrava uma certa impaciência para comigo… e, lembro-me bem, para meu
espanto, muitas vezes chegava a ficar zangada comigo.
Confesso que isto me magoava. Precisei de alguns anos para
deixar de ser o paladino obstinado dos livros que eu achava maravilhosos, a fim
de não estragar irremediavelmente a amizade que me unia a essas pessoas. Bem… e,
no fundo, para manter uma vaga esperança de que, talvez um dia, elas acabassem
por pegar nessa obra que tão importante fora para mim.
E tantas foram realmente importantes! Porque a minha personalidade
tem sido, em grande parte, modelada (e moderada) pelas leituras que fui fazendo
ao longo da vida. Fui crescendo e modificando-me por via da extraordinária
influência que essas obras foram tendo sobre mim; influência essa que, ainda
hoje, persiste com uma intensa luminosidade. Por conseguinte, o meu entusiasmo
por esses livros não era de todo superficial nem passageiro.
Apenas alguns exemplos: Cântico Final, de Vergílio
Ferreira. O Amor em Visita, de Herberto Helder. Arco do Triunfo e Desenraizados,
de Erich Maria Remarque. A Peste, de Albert Camus. O Principezinho, de
Antoine de Saint-Exupéry. O Budismo Zen, de Alan Watts. E ainda muitos mais –
eu tinha-os escrito aqui, mas apercebi-me que a lista se ia estendendo
indefinidamente, pelo que optei por deixar estes que foram os primeiros que me
vieram ao espírito.
Evoco ainda a memória da mãe de um dos meus amigos que me
recebia e me apresentava a outros como sendo “um menino muito lido”! Só tardiamente
percebi que, para além de uma certa ternura e de um grande sentido de humor,
esta sempre amabilíssima senhora revelava uma profunda sabedoria (que, talvez,
se possa estender a todos nós que somos Leitores): possivelmente não era mesmo eu
que lia os livros, mas eram eles que me liam a mim, favorecendo assim o despertar
de novas trajetórias na minha vida e de ignoradas sensibilidades na minha
pessoa.
The Metropolitan Museum of Art, Annunciation Triptych (Merode Altarpiece)
Workshop of Robert Campin (1427-1432)
- Fonte
sábado, julho 01, 2017
Leituras da infância e da juventude
Causa-me perplexidade o facto de não conseguir reler hoje o
que no passado li com exaltação. Como é possível que um determinado livro, que
já esteve carregado de beleza, de significado e de implicações para a minha
vida, hoje me diga tão pouco?
Podem ter sido as muitas releituras feitas que foram desgastando
a obra? Nalguns casos talvez sim, mas não abrange todos. Há livros que continuo
a reler com prazer sempre renovado; e outros que não consigo ler sequer uma
segunda vez, apesar do enorme prazer da primeira leitura.
Uma hipótese plausível é a de o livro ter uma qualidade moderada.
Na altura em que o li da primeira vez, talvez ele estivesse a ter um grande
sucesso e que, depois, ao assentar a poeira, se revelasse ser menos bom. Ou talvez
fosse de um género ou estilo que me emocionou particularmente na altura e agora
já não. Ou ainda por tratar de assuntos que, então, eram uma novidade para mim
mas que, atualmente, se me tornaram banais.
Curioso. Enquanto escrevo, apercebo-me que me sinto infinitamente
grato a esses livros pertencentes, na sua maioria, a uma literatura mais
modesta, menos prestigiada e mais simples. Porque sinto isso? Penso que possivelmente
foram eles que, nesses primeiros anos de leitura, me abriram perspetivas e
possibilidades de vidas insuspeitadas (a Ficção Científica), que me
sensibilizaram para a complexidade das motivações humanas e para a justiça (o
Policial), que me alertaram para os valores da honra e da coragem (o Western e
a Aventura).
Na altura, ao ler estes livros, encontrava por vezes grandes
escritores que ainda hoje releio com satisfação. Recordo na ficção científica Ray
Bradbury(*), Doris Lessing, Philip K. Dick e Ursula K. Le Guin. No policial, G. K. Chesterton, Raymond Chandler,
Edgar Allan Poe e Dashiel Hammett. No western, Jack Schaefer, John Steinbeck e
Jack London. Na aventura, Robert Louis Stevenson, Jonathan Swift e Daniel Defoe.
Quando somos mais novos e estamos mergulhados no fluxo dos
acontecimentos do dia-a-dia, há poucas possibilidades de conseguir fazer uma
reflexão aprofundada sobre a vida. Aqueles livros tiveram o poder de
desencadear múltiplos sentidos da vida, todos e cada um, sempre importantes
para mim, para aquilo que sou hoje. Graças a eles, vivo numa liberdade mais
ampla, em que o eixo central da minha vida se baseia muito mais no valor e no
propósito da existência (ambos sempre a atualizarem-se, muito ainda devido aos
livros) do que em ganhos materiais.
Finalmente, foi a sua leitura que, sem dúvida, me abriu as
vias por onde agora respira uma literatura mais exigente, mais rica e,
portanto, mais gratificante (da qual, na época, eu pouco percebia e não gostava
assim tanto).
Por isso, sinto-me agradecido. Aliás, no meu espírito, ler confunde-se
sempre com agradecer quando as palavras lidas se transmudam num rio interior
que flui, expandindo-se para algo maior e melhor do que antes. Porque agradecer
é acolher e reconhecer a dádiva. E a leitura é isto mesmo: acolher e
reconhecer.
(*) A foto foi retirada deste excelente blogue sobre a saudosa Coleção Argonauta.
domingo, junho 25, 2017
Livre de lastros
Normalmente, vamos ao encontro de um novo livro sem a leveza
da inocência. Ou seja, carregamos connosco toda a cultura que, implícita e
explicitamente, fomos absorvendo ao longo da nossa vida. Isso é bom ou mau?
Como tudo na vida, a resposta é: depende. Depende da densidade dessa carga e
depende das situações.
Há livros que nos incitam a convocar tudo o que já lemos e o
que aprendemos com todas as nossas leituras anteriores. Conseguem-no de duas
maneiras.
A pior e mais desgraçada ocorre quando o escritor se apoia
na técnica para (não há outras palavras) produzir um objeto vendável. Nós, aqueles
que amamos a literatura de uma forma discreta mas absoluta, sentimo-nos então
asperamente constrangidos (no sentido literal da perda de liberdade, que é o
objetivo de todo o embuste, a fim de fazermos o que o impostor deseja) ao nos
apercebermos que estamos diante, não de um livro, mas de um simples truque que,
acima de tudo, desrespeita a nobre arte da escrita.
Mas há outra forma de o escritor convocar as nossas leituras
anteriores, agora de uma forma bem mais amável. Quando o livro, pela sua arte,
faz brilhar intensamente tudo o que já lemos, fazendo com que a não-inocência
seja um trunfo fundamental. Lembro-me, por exemplo, de Camões, de José Saramago
(principalmente, esse irradiante “O Ano da Morte de Ricardo Reis”) ou de Enrique
Vila-Matas.
Sei que estes livros existem e estou sempre aberto para os
encontrar mas, por regra, tento partir para cada livro com a maior inocência
possível. Apenas com o objetivo, é certo que sempre falhado, mas também sempre
parcialmente conseguido, de não consumir tempo e alegria a dar atenção ao já
conhecido e envelhecido.
Como realizar esta intenção? Apesar da quase impossibilidade
de esquecermos o que aprendemos (entendendo isto num sentido lato, não falo de
tirar um curso de literatura), entro sempre num novo livro com a abertura e
predisposição ao prazer de encontrar dissemelhanças, originalidades e desafios.
Isto talvez não seja tão difícil de conseguir, até porque hoje em dia valoriza-se
a voz única, especial e idiossincrática dos autores (ou será que não, dada a
pressão do mercado?). Ajuda-me, no entanto, saber que sobre cada obra literária
não existe uma interpretação única: isso confere-me uma liberdade suficiente
para o florir de um olhar limpo, curioso e interessado, nesse encontro com o
livro.
Finalmente, todo este esforço serve para quê,
perguntar-me-ão. Muito simples. Primeiro, evidentemente, para fazer da leitura
uma arte tão nobre como a da escrita. Depois para, ficando livre do desgaste
das vivências medíocres, potenciar ao máximo a possibilidade de uma experiência
sublime na leitura da obra literária.
quarta-feira, junho 21, 2017
Encontro os livros
Adoro ler.
Digo isto e oiço de imediato vozes
antigas que saltam:
“O menino não adora nada ler.
Adorar só a Deus.”
Pois. Mas e se Deus não me fala e
se remete a um silêncio total?
A questão é que me lembro de sempre
desejar alcançar a sabedoria. Procurei Deus, mas não o encontrei. Também não
tive a sorte de encontrar um mestre que me guiasse nos caminhos da sabedoria. Na
realidade, até tenho dúvidas sobre aquela frase da tradição oriental: “Quando o
discípulo está pronto, o mestre aparece.” Talvez eu nunca tenha estado pronto,
é uma possibilidade.
Ah, mas encontrei os livros! Quando
li Oscar Wilde, apercebi-me da chuva de revelações que a palavra escrita pode
trazer. Quando li Antoine de Saint-Éxupery, apercebi-me das muitas camadas por
que é constituído o texto escrito. Quando li Vergílio Ferreira, apercebi-me de como
a nossa vida interior se vai enriquecendo extraordinariamente com cada livro
lido. E, quando li Ray Bradbury, decidi que a minha vida seria dedicada a
atingir aquela sabedoria que parecia estar por detrás de todas as histórias que
ele escrevia.
Era um projeto perfeitamente ao meu alcance. Seria fácil, bastava-me, para isso, entrar em contacto com pessoas mais sábias e mais inteligentes que eu. O problema que me surgiu não foi de todo elas serem poucas, claro. O problema foi essas pessoas provavelmente não terem grande interesse em estarem em contacto comigo, dado que tenho de admitir que elas, tal como eu, desejam estar com pessoas mais sábias e inteligentes do que elas próprias.
É aqui que surgem os livros. Com
estes posso estar em contacto íntimo com as pessoas mais sábias e inteligentes
do planeta, independentemente de onde elas estiverem e do que estiverem a
fazer. Na verdade, há ainda mais, posso “ouvi-las” as vezes que quiser, durante
todo o tempo que eu precisar, posso pará-las numa frase e ficar com essa ideia,
tentar percebê-la com tempo, dialogar com ela, criar novos pensamentos, novas
revelações sobre mim próprio e sobre o mundo. Sentindo sempre uma satisfação profunda nesse processo.
Atingi a sabedoria, como desejava
quando era miúdo? Claro que não, hoje sei que a sabedoria não é um ponto de
chegada, não é algo que seja possível possuir como quem tem um carro ou uma
conta no banco. A sabedoria é um caminho. E esse caminho abre-se à minha
frente, com as suas múltiplas possibilidades, através dos livros. Com estes,
vou caminhando, fazendo o meu próprio caminho («Caminante, no hay camino, / se
hace camino al andar.», diz Antonio Machado). Acima de tudo, com prazer e sem precisar de
o fazer sozinho (embora possa eventualmente estar só).
sábado, abril 29, 2017
Eis uma palestra para quem se interessa por emoções, neurociências e… animais! Proferida por Jaak Panksepp, talvez o mais famoso neurocientista estudioso das emoções, infelizmente falecido apenas há uns dias.
Uma nota curiosa. Logo no início, ao minuto 0:29, Panksepp diz que «science doesn’t answer why questions, science answers how questions”.
Vergílio Ferreira, em 1969, no seu Conta-Corrente 1 (p. 27 na edição de 1981), comenta antecipadamente esta afirmação da seguinte maneira:
«A “psicologia”. Não me desagrada ler um livro (romance) em que a análise revela o “como” se é. E todavia, para meu uso, não me interessa. Estes psicólogos esquecem o que está antes (ou depois) da psicologia e é infinitamente mais importante. Que significa o estarmos no mundo? Em que assentar um comportamento? Qual a significação das nossas “ideias” (políticas, etc.)? (…) Antes de saber “como” sou, é-me muito mais perturbador querer saber “o que” sou. E “para quê”. (…)».
Esta é uma sua opinião pessoal, adstrita à literatura (embora haja indicações noutros lados de que ela também abrange a Psicologia como ciência) sem pretensões de generalização. Mas interroguemo-nos: poderá Vergílio Ferreira ter razão? Será que a Psicologia está a esquecer o que é «infinitamente mais importante»?
As dificuldades que as diferentes psicoterapias têm encontrado (e que levam ao surgimento ininterrupto e contínuo de novas propostas terapêuticas) poderiam apontar para uma resposta positiva: algo de fundamental pode andar ausente da psicoterapia e da psiquiatria. No entanto, a psicoterapia existencialista (cujo representante mais conhecido do grande público, por via da literatura, é Irvin D. Yalom) há muito que procura ir ao encontro desta necessidade, referida por Vergílio Ferreira, de algo mais importante. Porém, o seu sucesso terapêutico não tem sido nem absoluto nem definitivo.
Curiosamente, algumas das denominadas psicoterapias de 3ª geração integram no desenvolvimento do seu processo terapêutico elementos que sempre andaram mais ou menos ausentes anteriormente. Por exemplo, a terapia da aceitação e do compromisso (“ACT”, cujo livro fundador é de 1999) ajuda os pacientes a trabalhar a busca e a definição dos seus próprios valores (“o que” a pessoa é e o “para quê”). Ou seja, aqueles princípios essenciais que orientam esses pacientes no sentido de uma vida realmente bem vivida.
Uma nota curiosa. Logo no início, ao minuto 0:29, Panksepp diz que «science doesn’t answer why questions, science answers how questions”.
Vergílio Ferreira, em 1969, no seu Conta-Corrente 1 (p. 27 na edição de 1981), comenta antecipadamente esta afirmação da seguinte maneira:
«A “psicologia”. Não me desagrada ler um livro (romance) em que a análise revela o “como” se é. E todavia, para meu uso, não me interessa. Estes psicólogos esquecem o que está antes (ou depois) da psicologia e é infinitamente mais importante. Que significa o estarmos no mundo? Em que assentar um comportamento? Qual a significação das nossas “ideias” (políticas, etc.)? (…) Antes de saber “como” sou, é-me muito mais perturbador querer saber “o que” sou. E “para quê”. (…)».
Esta é uma sua opinião pessoal, adstrita à literatura (embora haja indicações noutros lados de que ela também abrange a Psicologia como ciência) sem pretensões de generalização. Mas interroguemo-nos: poderá Vergílio Ferreira ter razão? Será que a Psicologia está a esquecer o que é «infinitamente mais importante»?
As dificuldades que as diferentes psicoterapias têm encontrado (e que levam ao surgimento ininterrupto e contínuo de novas propostas terapêuticas) poderiam apontar para uma resposta positiva: algo de fundamental pode andar ausente da psicoterapia e da psiquiatria. No entanto, a psicoterapia existencialista (cujo representante mais conhecido do grande público, por via da literatura, é Irvin D. Yalom) há muito que procura ir ao encontro desta necessidade, referida por Vergílio Ferreira, de algo mais importante. Porém, o seu sucesso terapêutico não tem sido nem absoluto nem definitivo.
Curiosamente, algumas das denominadas psicoterapias de 3ª geração integram no desenvolvimento do seu processo terapêutico elementos que sempre andaram mais ou menos ausentes anteriormente. Por exemplo, a terapia da aceitação e do compromisso (“ACT”, cujo livro fundador é de 1999) ajuda os pacientes a trabalhar a busca e a definição dos seus próprios valores (“o que” a pessoa é e o “para quê”). Ou seja, aqueles princípios essenciais que orientam esses pacientes no sentido de uma vida realmente bem vivida.
quarta-feira, novembro 16, 2016
Do que se não falou ontem no a todos os títulos estimulante debate “O que é o elitismo na cultura?”
(e em que eu teria gostado muito de ouvir a
opinião dos presentes)
Poder ou falta de poder das elites culturais. O tema foi
sugerido pela moderadora, Anabela Afonso, que convidou os presentes a
estabelecerem ligações com a eleição de Trump nos EUA (feito conseguido com um
discurso também contra as elites). Será que as elites culturais alguma vez
tiveram poder? Duvido. Elas foram acarinhadas, toleradas ou simplesmente
rejeitadas pelo poder. Penso que raramente lhes foi permitido participarem
desse poder. Claro que décadas ou séculos depois, o que fica é o que foi
produzido por essas elites, o que dá a sensação de que elas, na altura, possuíam
muito mais poder do que na realidade tinham. Um tema que ficou por explorar
mais aprofundadamente.
Elites dentro de elites. Dentro das próprias elites surgem
hierarquias, em que as que estão acima olham para as de baixo. Mas tenho dado
conta que raramente olham para cima e, por isso, cada nível vê-se a si mesmo
como árbitro mais ou menos indiscutível do bom gosto e do bem saber. Um tema
auto-reflexivo e, por isso, difícil de analisar e desenvolver, mas útil para
pensar sobre o papel e a responsabilidade na cultura, bem como os seus limites.
Efeito benéfico de haver elites. Isto é uma experiência
pessoal. Não é possível transmitir o prazer que sinto quando, face a um
elemento de uma elite cultural, eu me defronto com a minha ignorância e me é
proporcionada a partilha da sua forma de olhar, de saber e de usufruir. Como estou
a falar do ponto de vista pessoal, atrevo-me a destacar três de muitos exemplos
de contacto que me permitiram e continuam a permitir subir muito acima de mim;
e, sem os quais, eu talvez tivesse ficado muito abaixo de mim. Por ordem
cronológica: Vergílio Ferreira, Eduardo Prado Coelho e Frederico Lourenço. É
assim, sou um fã das elites: tornam-me melhor. Note-se que este tema foi aflorado
por vários dos palestrantes, com destaque para o relato de uma experiência no
Brasil de que foi testemunha o Prof. Dr. António Branco.
Efeito perigoso de não haver elites. Por mais elevado que
seja o nível cultural da população em geral, eu acredito na aspiração humana de
mais e melhor. Por isso, o desaparecimento de elites culturais, mesmo que pelas
melhores razões, parece-me que pode levar à estagnação e à morte. Sabe-se da biologia
que são os meios ambientes mais heterogéneos aqueles que têm melhores
capacidades de sobrevivência e de resistência. Sou a favor da heterogeneidade
cultural. Em consequência, sou também a favor do estabelecimento de valores
culturais (senão vale tudo o mesmo). Onde ambos existem, deverão existir
necessariamente elites culturais. Um tema também possivelmente controverso,
concordo.
domingo, novembro 13, 2016
Como Trump aliciou a América
Trump foi muito inteligente. Senão, vejamos.
Começou por dar voz ao medo das pessoas que se sentem cada
vez mais desamparadas, solitárias e fechadas nas suas casas esvaziadas pelo desemprego, a ver uma televisão
que quase só apresenta conteúdos pouco confortantes. Num mundo globalizado de cujo funcionamento
compreendem cada vez menos e sobre o qual, segundo lhes é dito, não têm poder
algum.
De seguida, transformou esse medo em raiva dirigida a uma variedade de objetos (sistema, imigrantes, muçulmanos, etc.) suficientemente grande para satisfazer todo o tipo de pessoas. Além disso, ele, Trump,
estava ali com a possibilidade de lhes dar a voz e o poder que elas sentem que
deixaram de ter. Deu, assim, a ilusão de que o desamparo podia deixar de existir.
E, principalmente, Trump ofereceu um sonho: Make America Great Again. As pessoas têm imensa fome de sonhos.
Especialmente, de sonhos pelos quais se possam transcender e ir para além das
suas vidas tristes, mesquinhas e assustadas. Além disso, com a palavra Again, as pessoas viram-se transformadas em
portadoras de uma tradição antiga, de um valor muito maior do que elas próprias. Numa época em que elas sentem, com amargura, que as tradições e os valores que lhes davam sentido às suas vidas se estilhaçaram, Trump veio trazer-lhes a promessa ilusória de um novo alento.
Por fim, ofereceu-se ele próprio para representar, ser
estandarte e liderar esse movimento em direção a este sonho.
Compreendemos que é difícil resistir. Apesar de sabermos (e de
ele saber!) que não se pode voltar para trás. Mais: que não queremos voltar para
trás!
sexta-feira, novembro 11, 2016
Democracia… ou não?
“(…) Também não sou democrata. Acho que a política é
assunto demasiado sério para que o voto de um cretino possa valer o mesmo que o
voto de um cidadão esclarecido. (…)” (comentário de um respeitável comentador do
Facebook).
Três aspetos.
Primeiro, eu sou democrata. Mas não vivo numa democracia real.
Vivo num país da alegada “União Europeia” onde quem manda nos países são uns
todo-poderosos que nunca foram eleitos por ninguém e que não são responsabilizados
pelo que fazem (a nível mais local, a única exceção é a Islândia). E vivo num
país onde se considera normal ser-se eleito com um programa que, após as
eleições, é pura e simplesmente deitado ao lixo.
Quanto a mim, este regime é,
na sua essência, profundamente anti-democrático. Note-se que não penso que se
trate aqui de uma ditadura, apenas de uma não-democracia (o que não é pouco,
por que a interrogação que se segue é: estamos a caminhar para que tipo de regime?).
Em segundo lugar, admitamos que um governo possa ser
escolhido só por “cidadãos esclarecidos”. A “million dollar question” é: quem
os escolhe a eles? Olhando para a história, o que se pode ver é que “cretinos”
escolhem cretinos, corruptos escolhem corruptos, extremistas escolhem
extremistas, etc. Mais uma vez, por favor: quem escolhe os “cidadãos esclarecidos” com
direito a voto? Na minha opinião, ou não há resposta, ou esta, admitamo-lo, será, no mínimo, preocupante.
Em terceiro lugar, acredito num fenómeno estatístico, que é
a regressão à média: numa série de acontecimentos, os resultados tendem a
aproximar-se da média. Por exemplo, se eu lançar uma moeda 5 vezes ao ar, na
melhor das hipóteses pode dar 3 vezes cara e 2 vezes coroa (probabilidades de
60% e 40% respetivamente). Porém, é facílimo sair 4 vezes cara e 1 vez coroa
(80% e 20&, respetivamente). Ou seja, é facílimo o desequilíbrio
pronunciado.
Mas se for lançada 1000 vezes, é bem mais difícil acontecerem
estas percentagens. Digamos que poderão sair, por exemplo, 480 vezes cara e 520
vezes coroa, e aí temos uma aproximação à média: 48% e 52% respetivamente, já
muito próximos dos 50%. Ou seja, é mais difícil o desequilíbrio.
Então, eu prefiro que haja muita gente a votar porque,
apesar dos “cretinos”, os resultados tenderão para uma média, mesmo que de vez
em quando alguns deles sejam extremos.
Leonard Cohen
«I´m very touched by the attention
that you payed to my music over all these years. I’m growing older everyday,
but you’ve kept my songs young, and I thank you for that.» (Live 1985)
(...) Now I look for her always
I'm lost in this calling
I'm tied to the threads of some prayer
Saying, When will she summon me
When will she come to me
What must I do to prepare
When she bends to my longing
Like a willow, like a fountain
She stands in the luminous air
And the night comes on
And it's very calm
I lie in her arms and she says, When I'm gone
I'll be yours, yours for a song (...)
(Night Comes On... 10/11/2016)
Subscrever:
Mensagens (Atom)













