A vida. Tão pouco e tão tanto. (...) E todavia eu sei que "isto" nasceu para o silêncio sem fim... (Vergílio Ferreira)
sábado, junho 26, 2010
Depressão
Acredito que, a menos que se trate de uma depressão ligeira e ligada a uma altura especifica da vida, nunca se deixa de se ser tendencialmente depressivo a vida toda. Digo isto do mesmo modo que dizemos que será sempre um alcoólico aquele que, entretanto, já parou de beber. Ou seja, que cada dia será sempre uma batalha contra o álcool /a depressão, durante a vida inteira, sem descanso; porque uma distração, uma cedência, e o vício instala-se de novo; sim, acho que a depressão se pode tornar num vício também.
Por outro lado, podemos habituar-nos de tal maneira a combater a depressão que essa luta acaba por se tornar numa segunda natureza e quase já nem damos conta dessa guerra surda. Por fim, parece-nos que já nos livrámos dela para sempre... até ao momento em que, às vezes por causa de um relaxe progressivo, voltamos a cair em depressão.
Dever-se-á partir então para os químicos, para as drogas (legais, claro, mas drogas apesar de tudo) quando nos encontramos dominados pela depressão? A minha posição é negativa (a menos que se trate de depressões profundas, a provocar ideias de suicídio).
O uso de drogas levanta os seguintes problemas (sem preocupação de ordem): habituação, gastos elevados de dinheiro, efeitos secundários às vezes duros e, por vezes, poucos efeitos positivos quanto ao objectivo que se pretende atingir. E, problema não menos importante, o fazer com que nos coloquemos numa posição de vítima que não ajuda a que mudemos a situação em que vivemos, nem ajuda a que nos mudemos a nós próprios; e, ainda por cima, passamos a viver com mais um medo e mais uma dependência.
Mas qual a alternativa para as drogas? Obviamente, a psicoterapia: para aprender a lidar com a depressão; a limitar os seus efeitos e poder; e, eventualmente, a fazê-la desaparecer da nossa vida porque passamos a conduzi-la e a controlá-la melhor.
Tudo, mas mesmo tudo o que aqui escrevi baseia-se na minha experiência pessoal com a depressão. Portanto, se por um lado este testemunho não tem qualquer valor científico, é importante que se diga, por outro não é um relato académico, teórico, é um testemunho vivo.
Para terminar: hoje não a eliminei, mas consegui afastá-la para um sítio onde não me incomodasse demasiado.
terça-feira, junho 22, 2010
Viver a vida
Tempo para reflectir.
Trabalhar muito e durante muitas horas. A única desculpa que pode haver para isso é ou o desespero, ou ganhar muito dinheiro. Comigo, não se verifica nenhuma das duas condições.
Então para quê persistir nesta senda? Para quê este esforço?
Poderia a resposta ser: para daqui a uns anos poder trabalhar menos e ganhar bastante.
Bem, para começar, esses anos teriam de ser poucos, pois eu já tenho 52. Mas não será nada disso que se prevê, quaisquer que sejam esses anos. Com a extensão da escolaridade obrigatória até ao 12º ano, para que servirão as explicações? Que valor terão elas? Quanto estarão os pais dispostos a pagar? A resposta a todas estas perguntas é obviamente nada, ou quase nada.
A profissão de professor, no verdadeiro sentido da palavra, daquele que ensina e não o que apenas tem de entreter e fingir que ensina, essa profissão está em vias de extinção.
Sabendo que jamais vou conseguir ganhar para uma vida desafogada e que sou detentor de um saber cada vez mais inútil (o de saber ensinar), que pretendo eu fazer?
Não quero a vida esgotante que tenho levado. Quero aproveitar mais e melhor. Afinal vivo no Algarve e pouco tenho aproveitado disso. Apetece-me gozar um pouco a vida. E quero também uma vida que me realize profissionalmente em todas as suas dimensões. Ainda.
A morte dura tanto tempo...
sábado, junho 19, 2010
Pombos
(...)
(o destacado é meu)
Eugénio de Andrade, Uma grande, imensa fidelidade, Os Afluentes do Silêncio.
À minha frente, a um quarteirão de distância, encontra-se um pombal construído na açoteia de uma casa.
Nele dá-se um ritual diário que me tem fascinado ao longo dos últimos meses.
Todas as manhãs um homem sobe até ao pombal e começa por hastear uma bandeira de Portugal, ao que se segue a saída dos pombos em revoada.
Os pombos nunca voam para longe. Andam em círculos sobre a vizinhança ou, no máximo, fazem uns oitos. Isto durante alguns minutos.
Depois, o homem, saindo da sua imobilidade, arreia a bandeira, leva um apito aos lábios e chama-os com uns assobios curtos e contínuos. Os pombos vão pousando no pombal e vão entrando na sua gaiola, sem o homem precisar sequer de se mover.
Os pombos domésticos têm uma vida segura, têm comida a horas certas, têm um abrigo sólido? Têm.
Eu gostaria de ser pombo doméstico? Não.
sexta-feira, junho 18, 2010
José Saramago

Dói.
Uma voz nunca resignada, uma postura incorruptível, um artista no mais nobre sentido da palavra.
Lançado para "o silêncio sem fim".
Não sei se a morte é sempre injusta. Mas com José Saramago é-o para além de qualquer dúvida.
Resta-nos honrar a sua memória com a nossa revolta e a nossa fidelidade.
(foto retirada daqui)
quarta-feira, junho 16, 2010
Exame de Língua Portuguesa... e não só
Desde há pouco mais de uma semana que este exame também passou a fazer parte das minhas preocupações.
A professora de Português foi despedida (por razões que não vêm aqui ao caso), tendo os alunos e respectivos pais pedido para que eu ficasse responsável também pela preparação para este exame (a verdade é que começou a espalhar-se no centro que eu seria uma espécie de taumaturgo dos aflitos, fosse qual fosse a disciplina, o que é um absurdo).
Interessa-me, no entanto, abordar aqui o seguinte:
É dificil fazer uma comparação entre as diferentes disciplinas que fazem parte do currículo do ensino básico e secundário. É difícil, mas possível para quem tenha leccionado ou apoiado alunos a todas aquelas disciplinas. Tirando as Ciências Físico-Químicas, eu estou nessa situação: sem experiência anterior nenhuma tive, este ano, que preparar explicações e apoios a quase todas as disciplinas.
E a verdade é que, na minha opinião, há um grande fosso entre a Matemática (e, possivelmente, as Físico-Químicas, não sei) e as restantes disciplinas, incluindo a Língua Portuguesa, que são muito mais fáceis do que aquela.
Fáceis quer em termos de conteúdos, quer também em termos do que é exigido aos alunos, quer ainda em termos do trabalho necessário para as ensinar.
Em suma, a minha sensibilidade é que o grau de dificuldade dos actuais currículos de Matemática não tem paralelo com o dos de qualquer outra disciplina (com a possível excepção das CFQ, como já referi anteriormente).
sábado, maio 29, 2010
Vergílio Ferreira...
A escolha foi efectuada por um júri constituído por escritores e por docentes da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, que elegeu uma dezena como os romances mais representativos da literatura de língua portuguesa, de entre as 30 obras mais votadas por docentes, estudantes e funcionários da Universidade. Depois da votação de docentes, funcionários e estudantes da Universidade de Coimbra, um júri escolheu, de entre as 30 obras mais votadas, a lista dos “10 mais” romances da literatura portuguesa.
Numa primeira fase do concurso “10 Paixões em Forma de Romance”, que foi promovido pela Imprensa da Universidade de Coimbra, todos os membros da comunidade universitária puderam designar os três romances que mais gostaram de ler.
Depois de apurados os 30 romances mais votados, o júri composto pela vice-reitora da Universidade de Coimbra, Cristina Robalo Cordeiro, pelos escritores José Luís Peixoto e João Tordo, pelos professores da FLUC José Cardoso Bernardes (coordenador do Centro de Literatura Portuguesa da FLUC), Maria Aparecida Ribeiro (docente de Literatura Brasileira) e José Luís Pires Laranjeira (docente de Literatura Africana) e presidido pelo director da Imprensa da Universidade, João Gouveia Monteiro, reuniu dia 20 para eleger os “10 mais”.
Para chegar a esta lista final, o júri teve em conta a diversidade e representatividade de diferentes épocas, correntes, geografia e géneros, bem como a expressão da vontade dos votantes.
O objectivo deste concurso foi tomar esta escolha como um pretexto para falar de livros e de boa literatura, na sequência de outras iniciativas levadas a cabo pela Imprensa da Universidade de Coimbra. Ao longo do ano lectivo 2010/2011, a Imprensa da Universidade de Coimbra, em parceria com a Biblioteca Geral e o Centro de Literatura Portuguesa da FLUC, irá promover diversos eventos sobre as 10 obras vencedoras, nomeadamente exposições e tertúlias.
(via De Rerum Natura)
Vergílio Ferreira iria comover-se com isto... eu comovi-me!
sexta-feira, maio 28, 2010
Ainda e, agora, sempre Os Maias
Tanta coisa de que eu gostaria de falar, de discutir, de partilhar... acho, pelo menos, que consegui "infectar" os meus alunos com o meu entusiasmo.
É tão fácil começarmos por nos identificar com Carlos da Maia, embora sempre, admitamo-lo, com um certo sorriso. Mas ele é o herói do livro, no fim de contas.
Só que Eça é um perverso e põe-lhe todos os defeitos dos portugueses, açucarados pelo charme, pela beleza e pela fortuna, facilitando essa nossa identificação com ele... até que aqueles começam a ser tão evidentes que começamos a sentirmo-nos desconfortáveis por esta ligação emocional que estabelecemos com Carlos.
No fundo, Carlos é um inútil, um fraco, um indolente. O retrato feito por Afonso da Maia é curto e exacto: "O velho escutava com melancolia estas palavras do neto, em que sentia como uma decomposição da vontade, e que lhe pareciam ser apenas a glorificação da sua inércia. (...)" (Cap. XII).
Mas até o próprio Afonso da Maia, tirando a sua bondade, nada faz nem fez de significativo. Ele é bem um Maia que, por via de princípios de que não abdica facilmente (agora na velhice, porque na sua juventude não teve problemas com isso) e que lhe dão uma certa forma de integridade, parece ter mais substância do que Carlos, mas de facto não tem.
De todos os defeitos expostos por Eça aos nossos olhos, do Carlos (e de quase todas as outras personagens), o que mais me impressionou foi o medo. Um medo que se traduzia por uma insidiosa cobardia nas situações que exigiam na verdade um esforço para poder manter o respeito por si próprio. Carlos é lamentavelmente falho desse tipo de esforço. A cobardia é nele uma doença, tanto mais terrível quanto nunca o aparenta ser; e ele chega ao fim sem nunca perceber o quão baixo se permitiu deixar ir.
Há, no entanto, duas personagens que escapam a este retrato impiedoso. Um em tom menor: Vilaça que, não fora a sua tacanhez, poderia vir tornar-se uma personagem digna de admiração.
Mas em tom maior, grandioso mesmo, sem dúvida alguma, é a Maria Eduarda: faz o que tem de fazer, com nobreza, discretamente e sem dramas nenhuns. E acaba com um gesto verdadeirante grandioso: recusa receber o que quer que seja da herança à qual, aliás, tem todo o direito legal e moral, pois ela é uma filha legítima e de direito de Pedro da Maia. É uma personagem verdadeiramente admirável, sem nunca deixar de ser humana, no meio de um friso mais ou menos repulsivo de entes cheios de empáfia, mas realmente sem qualidade alguma.
terça-feira, maio 11, 2010
Os Maias e... para memória futura
- obter resultados;
- os pais e explicandos gostarem de nós.
Falhando num destes critérios, o explicando é-nos retirado e mudado para outro professor. Falhando nos dois é o professor que é "retirado".
Desde o início do ano que só "sobrevivemos" dois professores: o de Físico-Químicas e eu, o resto entra e sai, com a maior ou menor das velocidades.
A mim vão-me carregando mais e mais. Neste momento dou explicações de:
- 1º ciclo: todas as disciplinas;
- 2º ciclo: todas as disciplinas;
- 3º ciclo: todas as disciplinas, excepto Português e Físico-Químicas;
- Secundário: Matemática, Inglês e Português.
Acho que a directora está a testar-me, para saber onde e quando vou atingir o meu nível de incompetência!...
No âmbito do Português, ando a reler Os Maias. Que livro maravilhoso, que riqueza em todos, mas mesmo quase todos os sentidos! Exaspero-me com a minha incapacidade para transmitir este maravilhamento aos meus alunos, simpáticos, mas enfastiados e preguiçosos que eles são!
Vim escrever este post quando, ao lê-lo, cheguei a esta parte:
"(...) Craft e o marquês tinham começado uma conversa sobre a vida, soturna e desconsoladora. De que servia viver, dizia Craft, não se sendo um Livingstone ou um Bismarck?" (Cap. IX, p. 290 da minha edição dos "Livros do Brasil")
Muitas vezes me tenho perguntado sinceramente o mesmo. Além disso, como é possível eu conseguir conviver com a ideia da minha banalidade, senão mesmo mediocridade? Como consigo conciliar os meus sonhos de grandeza, a minha ânsia de absoluto, com o pouquíssimo que até agora consegui realizar? Mal, muito mal. Nada há de heróico na minha vida, por muito que eu o desejasse. Nada há que possa ser recordado 10 ou 20 anos depois de eu morrer. E é assim que acabo por não saber responder à pergunta de Craft/Eça...
sexta-feira, abril 23, 2010
25 de Abril - Um post amargo
A partir de Novembro de 75 os portugueses foram acusados de tudo e de mais alguma coisa, em particular de terem delapidado as finanças públicas, pondo o país "de tanga"... Soa a familiar? Pois soa. E agora, quem são os responsáveis? E por que miserável incompetência é que nos arrastaram até aqui, principalmente depois de anos e anos a imporem-nos sacrifícios, a atiçarem ódios, a promoverem mais e mais corrupção?
Eu não consigo ver filmes, nem documentários, nem ler coisas sobre o 25 de Abril. Porquê? Simplesmente, porque começo a chorar. A chorar, tomado por uma tristeza sem fundo. Mas mais: sinto uma raiva e um desprezo infinitamente desesperados contra toda aquela gente que não contente em matar o 25 de Abril, matou os sonhos que ali nasceram e, ainda não satisfeitos com isso, mataram também toda a esperança numa vida melhor. Raiva e desprezo sem fim.
quarta-feira, abril 21, 2010
Estes doentes que nos governam...
(Este post foi-me inspirado por uma crónica de Guilherme Valente saído no Público, de que tomei conhecimento no blog De Rerum Natura, donde tiro parte das citações. E que me fez recordar o título qe escolhi para aqui. A propósio do suicídio do professor Luís e das situações de bullying nas escolas.)
«Temos de nos esforçar para que estas situações possam ser ultrapassadas. Tratam-se de jovens que são na sua generalidade bons alunos e que não podem transportar na sua vida uma situação de culpa que os pode vir a condicionar pela negativa», afirmou José Joaquim Leitão, director regional de educação de Lisboa.
Arno Gruen (A Loucura da Normalidade e a Traição do Eu, ed. Assírio e Alvim) chamava a atenção para esta estranha e malfadada perversão que leva pessoas ditas "normais" e "inteligentes" a porem-se do lado dos agressores, a desculpá-los de tudo e a ter pena deles. E, além disso, a achar que eles é que são vítimas e não os que são torturados por eles.
José Joaquim Leitão disse que «é do conhecimento público» que o docente apresentava uma «fragilidade psicológica já desde há muito tempo».
Portanto, trata-se aqui até de uma completa incapacidade para identificar as verdadeiras vítimas. Mas há mais. De Daniel Sampaio:
«É que há em todas as escolas comportamentos que podem ser considerados violentos, mas que não são bullying. A escola reproduz a sociedade e esta não é serena, por isso são frequentes as piadas, as troças e até um insulto passageiro ou um empurrão, sem que isso seja muito grave.»
Como se vê, estas mesmas pessoas revelam também uma total incapacidade para empatizarem com as vítimas e os desprotegidos, esquecendo-se sempre que estes é que verdadeiramente precisam de defesa, de protecção e de segurança. Ainda Daniel Sampaio:
«Querer uma escola controlada pela polícia em que ninguém possa desobedecer ou contestar as regras, é acabar de vez com esse território de liberdade segura que caracteriza o nosso sistema educativo (…)».
Faltando-lhes a "lata" para defenderem abertamente os agressores, pugnam pela manutenção das condições necessárias para que estes continuem, impunes e à vontade, a maltratar os mais fracos.
É esta gente, profundamente doente, mas que, pelo seu número e pelo seu poder para se fazerem ouvir vezes sem conta, parece normal, é esta gente, repito, que tem ocupado o poder nos últimos anos.
Infelizmente para tantos e tantos miúdos...
domingo, abril 18, 2010
Post rápido: educação, sempre o mesmo tema! Irra, que já chateia!
Mais uma vez, só me ocorre falar de educação (isto quando não penso na situação catastrófica para a qual o actual chefe do governo arrastou o nosso país). Nem sei para quê! As decisões foram tomadas, o comboio posto em movimento e já não acredito que alguém o consiga parar.
Leio sobre professores afastados por exigirem que os alunos aprendam, assisto ao ar de gozo dos alunos a falarem dos professores que facilitam tudo e dão altas notas (não, não estou a falar só da escola, mas também da universidade, pois o vírus já aí chegou; sim, estou a falar da universidade pública, pois também aí isto já acontece), testemunho a qualidade decrescente dos profissonais que o sistema educativo atrai para si, e, com tudo isto, uma tristeza sem fim toma conta de mim.
Pronto, já desabafei. Sem alívio, claro. E volto para o trabalho!
segunda-feira, abril 12, 2010
O medo da morte
Eu também as ouço e apercebo-me que, subjacente, está o medo da morte ou de uma doença incapacitante. Não me identifico com isto, aliás nunca as digo. A morte causa-me realmente pavor, mas é a dos outros, não a minha. Por causa da perda que representa essa morte, sinto na carne o que será a falta dessas pessoas, a sua ausência. Agora, a minha...
Na verdade, acho que sei o que poderei sentir quando a minha morte começar a ficar gritantemente próxima.
Nunca tinha vivido sozinho até me separar. Nos primeiros tempos isso não me trouxe qualquer problema porque trabalhava o dia todo na escola (em Loures) e, ao fim da tarde, levava o meu filho à natação ou à música, chegando a casa (na Costa da Caparica) pelas 8 ou 9 da noite. O fim de semana passava-o com a minha família. Não dava para me sentir só, apenas me sentia liberto de um pesadelo.
Mas, na semana entre o Natal e o Ano Novo, o caso passou a ser outro muito diferente: o isolamento total caiu sobre mim. Sem escola, sem o meu filho, os amigos e familiares a trabalharem ou de férias longe (só começaria a namorar alguns tempos depois)... e, ainda por cima adoeço!
Tratou-se de uma simples gripe, mas foi o bastante para eu ser tomado de uma angústia enorme: cheio de febre, a ter de fazer compras e a comida para me alimentar, ter de ir à farmácia para comprar medicamentos, a pensar como conseguiria ir sozinho ao centro de saúde se as coisas piorassem, sem saber a quem podia recorrer numa emergência, tudo isso deu origem a que, num desses dias em particular, fosse invadido por uma sensação verdadeiramente horrível sobre a qual perdi todo o controlo. Soube mais tarde que tinha sido vítima de um ataque de pânico.
Fosse o que fosse, a verdade é que nunca mais esquecerei esse dia terrível por que passei.
Isto para dizer que, na pior das hipóteses, será assim, penso eu, com um pânico e uma solidão semelhantes, que provavelmente me aproximarei da morte. Portanto, apesar de ser ateu e de não acreditar em vidas para além da morte, encaro esta com distância mas também com aceitação.
Agora a morte dos outros, é que não, de todo: não consigo, nem nunca conseguirei encará-la com naturalidade, seja na vida real, nos livros ou nos filmes. Revolta-me sempre a sua existência e apavora-me, profundamente, a sua cegueira e inevitabilidade.
sábado, março 27, 2010
O dia antes da felicidade, de Erri De Luca
Hoje, venho dar testemunho de um escritor extraordinário...
Erri de Luca
... e de um livro extraordinário:
Como é possível condensar em exactamente 97 páginas tanta sabedoria, tanta beleza, tanta inteligência, tanta sensibilidade, tanto humor!!
Mas que romance é este? Uma tentativa de resposta:
Um dia antes da felicidade é um livro sobre o crescimento, isto é, da verdadeira e autêntica aprendizagem, daquela que conduz à transformação de um adolescente normal, igual a tantos outros, num ser humano mais elevado, melhor e mais forte.
Mas é também um romance sobre a felicidade, claro. E sobre esse milagre que são os livros e a cultura. E sobre a sensibilidade e a delicadeza. E sobre a amizade. E sobre a violência. E sobre a pobreza. E sobre tantas, tantas outras coisas!
Trata-se de um livro claramente masculino, isto é, quem o escreve é um homem, não há aqui uma escrita feminizada, antes uma escrita senhorial, de uma extrema nobreza e autenticidade. Num tempo em que é tão difícil saber-se o que é ser um homem, este livro constitui uma resposta clara e verdadeira a essa questão.
Lêmo-lo e mergulhamos no mundo puro e deslumbrante das palavras de Erri De Luca. O narrador é um jovem com um olhar límpido e franco sobre a realidade que o rodeia. É alguém a quem surge um mestre, Dom Gaetano, que, longe de ensinar o desencanto e a amargura, lhe mostra o que é ser um homem, verdadeiro, bom e lutador.
Erri De Luca usa uma escrita que ilumina tudo aquilo sobre que se debruça: as pessoas (com as suas pequenas e grandes misérias), os livros, a escola, o amor, a cidade de Nápoles, etc.
A dada altura (p.66), Dom Gaetano e o jovem narrador passeiam pela cidade e cruzam-se com um grupo de marinheiros norte-americanos que corriam com "camisola, calções e sapatilhas". Não percebem. Porque, diz, "Correr, para nós, é um verbo sério". E é exactamente isto que escrever é para Eri De Luca: um verbo sério. Em todos os momentos, mesmo os de humor (sempre intenso e inteligente, como em tudo o resto), tudo está lá por um motivo sério. Não há ali nada de supérfluo, de fútil. Tal como em outros livros deste autor. Mas, aqui, neste, levado a um grau extremo, quase doloroso.
Sim, já há uns anos que venho lendo com paixão os livros de Erri De Luca. Aliás, este livro fo uma sugestão minha para o Clube de Leitura (ainda não o tinha lido). E, na noite de 5ª feira, em Loulé, quase 20 pessoas perderam-se, durante horas, a falar desta obra, com emoção e fascínio. Eu...
... Eu suspeito que encontrei aqui o meu livro perfeito. Aquele pelo qual todo o leitor apaixonadamente compulsivo é capaz de lutar uma vida inteira para encontrar.
Aqui e aqui podem encontrar-se as palavras de Erri De Luca, de quando esteve recentemente em Portugal.
domingo, março 21, 2010
O Futuro
Desde o final da década de 70 que não houve nenhum governante português que não tivesse pedido sacrifícios ao povo português a fim de ele poder vir a ter um futuro melhor... Desde há mais de 30 anos portanto que oiço esta treta, repetida vezes sem conta! Malditos aldrabões!
Por isso, grito, com José Mário Branco, no FMI (de 1979!):
"Sempre a merda do futuro!! E eu que me quilhe!!! Pois, pá!! Sempre a merda do futuro, a merda do futuro!!! E eu, hem!? Que é que eu ando aqui a fazer? Digam lá! E eu!? (...) Isto é que é uma porra! Anda aqui um gajo cheio de boas intenções, (...), e, depois, é só porrada e mal viver, é? (...) Eu sou parvo, ou quê!? Quero ser feliz, porra!!! Quero ser feliz agora!!! (...)"
sábado, março 20, 2010
Liam Clancy, 2 de Setembro de 1935 – 4 de Dezembro de 2009
Para mim, que só hoje soube da sua morte, a dor de ver partir um verdadeiro e autêntico bardo do nosso tempo. A luta para que este mundo seja um lugar menos inóspito perde um participante extraordinário.
The Parting Glass
Of all the money that e'er I spent
I've spent it in good company
And all the harm that ever I've done
Alas it was to none but me
And all I've done for want of wit
To memory now I can't recall
So fill to me the parting glass
Good night and joy be with you all
Oh, all the comrades that e'er I had
They're sorry for my going away
And all the sweethearts that e'er I had
They'd wish me one more day to stay
But since it falls unto my lot
That I should rise and you should not
I'll gently rise and softly call
Good night and joy be with you all
domingo, março 14, 2010
Um outro viver
Já o disse antes. Por absurdo que pareça, tenho de confessar que devo a Jorge Pedreira o ser agora uma pessoa feliz, com uma nova vida profissional praticamente feliz. Quando ele veio para a televisão, inchado de arrogância, com ameaças contra os professores por causa da entrega dos objectivos individuais, eu percebi, naquele momento, que não queria mais pautar a minha vida pelo medo e que era a altura de dizer basta. Esse momento representou, na verdade, um gigantesco ponto de viragem na forma como passei a conduzir a minha vida. Saí (não como reformado, note-se). E ainda não me arrependi nem um bocadinho dessa minha decisão.
Tudo isto para dizer que em Portugal, por enquanto, ainda somos livres para decidir escolher uma vida melhor. Aliás, quase qualquer outra vida, garanto!, é melhor do que aquela que se leva na escola pública hoje em dia, posso testemunhá-lo.
Lamento tanto todos os meus ex-colegas que continuam a viver diariamente uma vida de desespero e de angústia nas escolas públicas deste país. Que não conseguem libertar-se do medo de arriscar. Que não acreditam que existem alernativas. Como o Luís.
Porque as pedradas contra os meus amigos
acertam sempre meu amigo em mim
Manuel Alegre, A Praça da Canção
sábado, março 13, 2010
Nocturno Indiano, de António Tabucchi

Não vi o filme, mas já li muitos livros de Tabucchi, sempre com o maior gosto, aliás. Este não constituiu excepção.
Quando terminei, procurei encontrar alguma coisa para dizer no clube. Mas nada me ocorreu. Fiquei parado, sem ideias nenhumas, apesar de ter gostado muito de o ler.
Pensei que é assim que reagimos habitualmente em relação a uma música de que gostamos: não sabemos explicar o que nos fez aderir a ela.
E, de repente, apercebi-me que este livro tem a estrutura de um vídeo musical: pequenos flashes do personagem em movimento, nada sabemos do que antecede nem do que sucede depois, uma melodia que percorre o livro do princípio ao fim.
E pensei: o título, pois claro, um Nocturno!
Portanto, para além da presença tutelar (fortíssima) de Fernando Pessoa na construção da história, será que Tabucchi quis fazer um livro que se aproximasse da forma de uma peça musical ou de um vídeo clip?
segunda-feira, março 08, 2010
Violência escolar
Esta foi uma das razões porque saí, para não ser cúmplice deste e de tantos outros crimes que se institucionalizaram na escola pública portuguesa.
domingo, fevereiro 28, 2010
A Um Deus Desconhecido, de John Steinbeck
O livro é antigo e angustiado, há um desejo fortíssimo que só prenuncia desgraça. Há aparência de domínio sobre a Natureza, sobre os outros, mas a harmonia está ausente e isso assusta.
É disto que o livro trata: ele não nos fala de pessoas, de animais, de plantas e de coisas. Fala de uma unidade que congrega isso tudo e que é mais e menos que isso tudo. Mais, porque há um fio profundo e inquebrável que une tudo; menos, porque cada ser é muito mais rico e complexo que a aparente unidade de tudo. Joseph não se dá conta disso, como Rama acusa.É daí que vem o assustador: sem essas pequenas coisas, apenas fica a desumanidade que este livro retrata.
Um grande, grande livro. E apenas uma leitura minha, das muitas que esta obra proporciona.
Nota: Uma tradução má e uma revisão inexistente. Que pena!
sábado, fevereiro 27, 2010
James Herriot

Li e tenho os livros em inglês. Houve edição em português, da Livros Horizonte, que não conheço realmente.
Há muitos anos passou na televisão o "Veterinário de Província", da qual nunca saiu um dvd em português. Mas se comprarem os dvd's na Amazon (a minha amada ofereceu-mos como prenda pelos meus anos), e souberem um pouco de inglês, vão ter oportunidade de passar muitas horas agradáveis em frente ao écran: é que existe a opção de legendas para surdos, em inglês, é certo, mas que dá perfeitamente para acompanhar as histórias. Estas, acentuo, não contêm maldade alguma, e fazem-nos estar permanentemente com um sorriso nos lábios ou dar umas boas gargalhadas.
Há autores de quem gostamos, com quem nos identificamos, que nos estimulam, etc. Mas, pela sua dádiva das coisas boas que nos transmitem, há aqueles em relação ao quais também sentimos uma imensa gratidão. James Herriot é um desses autores.
terça-feira, fevereiro 23, 2010
José Afonso
Confesso a minha imensa admiração por esta fraternidade de homens que, sem deixarem de se pôr em causa, vão questionando tudo o que de injusto encontram à sua volta.
José Afonso era assim. E era também um homem verdadeiro e enxuto de palavras, que se sabia com um lugar, um trabalho e uma missão na vida, mas que nunca atribuía a si próprio nem a grandeza que era sem dúvida a sua, nem a pequenez das modéstias hipócritas. Apenas a justa medida.
Dizia ele, citado neste excelente livro, da Assírio & Alvim:

Não tenho consideração por aí além por mim próprio. Aquilo que me constitui é uma certa hipercrítica em relação a mim, mas que considero saudável. Fui metido num barco. Meti-me e meteram-me. Não o teria feito se não me metessem. Fui fazendo coisas neste país porque as pessoas me chamavam a atenção para a importância de tal missão, que dizia respeito a todos nós. (p. 84)
À pergunta sobre se o seu trabalho valeu a pena, José Afonso respondeu, após hesitação:
Acho que sim, valeu a pena. Tenho consciência das minhas limitações e tenho sempre uma atitude de profundo "desamor" em relação àquilo que faço, isto é, não sou optimista. Só sou optimista por via indirecta: quando me dizem que aquilo que faço interessa, enfim, eu respeito a opinião das pessoas e digo que sim senhor, que interessa... (p. 67)
Em homens raros como José Afonso reconheço uma austeridade e um rigor (mesclados de um humor fino) que, na vida, me tornam claro o dever de aderir a uma ética exigente, ainda que difícil.
2 de Agosto de 1929 - 23 de Fevereiro de 1987
A ter em atenção:
80 anos de Zeca
Associação José Afonso
segunda-feira, fevereiro 22, 2010
Fazer sofrer
Ele disse-o, com 25 anos, na sua peça Calígula.
domingo, fevereiro 21, 2010
Camus no Pátio de Letras

Albert Camus, um autor que me acompanhou ao longo de toda a minha vida.
Falei da sua fidelidade à beleza, à verdade e à liberdade, como homem e como artista. Da sua permanente adesão à resistência para garantir uma intransigente solidariedade com os mais fracos e mais desprotegidos, isto é, com os mais oprimidos.
Fiz leituras de Noces, O Estrangeiro, A Peste, Estado de Sítio e terminei com este excerto tirado do seu discurso de aceitação do Prémio Nobel, em 10 de Dezembro de 1957:
(...) Todas as gerações, sem dúvida, se julgam fadadas para refazer o mundo. A minha sabe, no entanto, que não poderá refazê-lo. Mas a sua tarefa é talvez maior. Consiste ela em impedir que o mundo se desfaça.
Herdeira de uma história corrompida em que se misturam as revoluções degradadas, as técnicas que se tornaram loucas, os deuses mortos e as ideologias extenuadas, em que medíocres poderes podem hoje em dia tudo destruir mas já não sabem convencer, em que a inteligência se rebaixou ao ponto de se fazer serva do ódio e da opressão, esta geração teve que restaurar, em si mesma e à sua volta, e a partir unicamente das suas negações, um pouco daquilo que faz a dignidade de viver e de morrer.
Diante de um mundo ameaçado de desintegração, em que há o risco de os nossos grandes inquisidores estabelecerem para sempre os reinados da morte, ela sabe que deveria, numa espécie de doida corrida contra o relógio, restaurar entre as nações uma paz que não seja a da servidão, reconciliar de novo trabalho e cultura, e refazer com todos os homens uma arca da aliança.
Não é seguro que ela possa um dia levar a cabo esta tarefa imensa, mas já é seguro que, por toda a parte, ela cumpre a sua dupla aposta de verdade e de liberdade, e, em certas ocasiões, sabe por ela morrer sem ódio. É ela que merece ser encorajada por toda parte onde se encontra e, sobretudo, onde se sacrifica. (...)
Seguiu-se uma expressiva tertúlia que se prolongou pelo jantar fora...
sábado, fevereiro 13, 2010
Iracema, de José de Alencar
Uma história simples, com valores claros, sempre envolta num perfume de melancolia e de poesia.
Um livro anterior à perda da inocência; que, por isso, soube bem ler: a criança dentro de mim, aquela que gosta de se encantar com o inverosímil (a história é inverosímil), ainda está bem viva.
Sabemos hoje que quem mente, quem rouba e quem maltrata tem mais sucesso social e profissional do que aqueles que lutam por serem verdadeiros, honestos e compassivos. Não é uma característica dos tempos modernos, sempre foi assim.
Quer dizer que todos os bem sucedidos são pessoas infames? Eu não pertenço, nem provavelmente pertencerei nunca ao número dos bem sucedidos nessas duas áreas, por isso não posso responder baseado na minha própria experiência.
Mas quando penso em Gandhi, ou em Martin Luther King, ou ainda em Nelson Mandela, acredito que é possivel ser-se bem sucedido e ser-se boa pessoa. Mas deduzo, aliás sei que, para o conseguir sem concessões, é preciso uma fibra moral e uma coragem extraordinárias. E uma grande (inquebrantável, mesmo) teimosia, também, tenho quase a certeza disso... e, a propósito, vem-me ao espírito o filme de Clint Eastwood, Invictus, sobre Nelson Mandela (que eu gostei mesmo de ver):
sábado, janeiro 30, 2010
A Rapariga Que Roubava Livros, de Markus Zusak

A Alemanha hitleriana vivida numa pequena cidade sob o ponto de vista de uma criança alemã.
No Clube este livro gerou adesões fortíssimas, principalmente da parte daqueles que tinham cônjuges alemães, porque reconheceram nas descrições do livro muitas das coisas que eles contam que viveram.
Fala-se muito dos alemães que suportaram o regime, que foram a maioria certamente, senão Hitler não conseguiria o que conseguiu. Eu gostaria de saber de todos aqueles que resistiram, de todos aqueles que não só procuraram manter a decência em tempos selvagens mas que foram mesmo contra a corrente. Gostaria de saber as histórias destes alemães, dos que morreram a fazê-lo e dos que conseguiram sobreviver. É um pouco o que se lê neste livro.
Lembro-me de, há algumas dezenas de anos, ter lido os livros de Erich Maria Remarque (Arco do Triunfo, o que mais gostei, mas também A Oeste Nada de Novo, Tempo Para Amar Tempo Para Morrer, Uma noite em Lisboa, O Obelisco Negro, Desenraizados, O Céu Não Tem Favoritos e outros), mas ele tornou-se num refugiado, num exilado. Não, o que eu gostava de conhecer era quem lá tivesse ficado.
sábado, janeiro 16, 2010
Helder Macedo
Expliquei que não havia problema, quando comecei a ensinar, no fim dos anos 60, as alunas usavam mini-saias que terminavam na virilha, uma coisa acaba por compensar a outra, a gente concentra-se e vai fazendo o que pode. Não acharam graça. (...)
JL, 16/12/2009
terça-feira, janeiro 12, 2010
O Grande Labirinto, de Fernando Savater

Os livros eram a paixão dos dois rapazes, porque lendo multiplicavam a sua vida e descobriam com a imaginação novos sentimentos, aventuras e calafrios. Para eles, abrir um volume era como beber um elixir mágico que os transformava em seres desconhecidos. (…) (p.16)
Esta foi a primeira frase deste livro que realmente me tocou. Pensei em todos aqueles que não gostam de ler livros e em como as suas vidas ficam mais pobres por isso.
Claro que ler não é só isto. Lembrei-me de Eduardo Prado Coelho
(que tanta falta faz: quem hoje me fala de autores pouco lidos?, quem hoje me dá notícia de tudo o que é novo, diferente e melhor no mundo da arte?, quem hoje me conta do prazer de usufruir de todas as formas e expressões de cultura?)
quando ele escrevia no Fio do Horizonte:
Digo “cultura” no sentido amplo do termo: tudo aquilo que nos torna mais inteligentes, que nos traz a alegria de sentir e compreender, que relança sentido para as nossa vidas. (Crónicas do Fio do Horizonte, p. 43)
Ler também é isto, é principalmente isto.
Mas o livro de Savater é dirigido aos jovens. Porque os adultos encontram-se esgotados:
(…) Qualquer coisa que, mais cedo ou mais tarde, seria necessário enfrentar. Com força, com coragem… mas ele sentia-se velho, cansado. Do seu passado vinham cadeias de susto que tolhiam o seu presente até à impotência. Deviam ser aqueles jovens… (p. 24)
Sim, é assim que me sinto: sem crença em ninguém, sem força para actuar com decisão, mesmo que inutilmente. Mal me resta a força necessária para dizer não à barbárie… E, no entanto, …
E, no entanto, era preciso que alguém… que alguém se atrevesse. É sempre preciso que alguém se atreva ou estamos todos perdidos. (p. 26)
Depois de eu ter esgotado toda a fé possível nos adultos e velhos, depois de ter visto até que profundidades do mal os jovens podem chegar, ler este livro foi uma lufada de ar fresco. Porque conviver com alguém que, já não acreditando que os velhos resolvam os problemas da sociedade actual, acredita que os jovens são bem capazes disso, fez-me reacender a chama da esperança neles que há muito eu tinha perdido.
Lembro-me também de Vera Mantero, no JL de 12 a 25 de Agosto de 2009:
P.: Como é que se renova o “voltar a acreditar” com a energia da juventude? Que processo é esse?
V.M.: Acho que é fazer o tal trabalho de estar perto dos outros, que também estão a pensar e a fazer uma série de outras coisas. Porque a impotência também tem a ver com a impressão de se estar sozinho. Sozinho é impossível.
[E há sempre a necessidade da mão de outra pessoa para nos salvarmos, (…) (Savater, p. 25)]
Sozinho é impossível. A impotência tem a ver com o não saber a quantidade de gente que está a trabalhar, reflectir e a tomar medidas para se pôr em acção. A partir do momento em que vês 10, 20, 30 individualidades, entidades, organizações, que fazem coisas extraordinárias, percebes que pode haver mudança. Basta pormo-nos todos em ligação, em contacto… Claro que isso dá alento e vontade de continuar. É por aí que sinto uma nova possibilidade…
E, por isso, termino com Savater que “testemunha” Jan Patočka a dizer:
(…) continuem a luta. Não deixem de informar, de explicar e de argumentar, não se cansem de combater a mentira. Há crimes que talvez não possamos evitar, mas tentemos impedir pelo menos o crime do silêncio… (p. 287)
quinta-feira, dezembro 31, 2009
2010
Egisto: "É verdade; se o soubessem deitariam fogo ao meu palácio. Há quinze anos que represento esta comédia para lhes esconder o seu próprio poder."
Sartre, Jean-Paul, As Moscas, Ed. Presença, 1965, p.124.
Há que dizer sempre, em todas as situações: eu não tenho de fazer isto, sou livre!
Eis os meus votos para 2010.
quarta-feira, dezembro 30, 2009
Um dia de saia

Uma professora de francês vê-se, numa aula com alunos muçulmanos, com uma arma nas mãos. Dá a sua aula e, entretanto, vai descobrindo os horrores por que passam os alunos mais fracos (e que os professores nas escolas reais procuram ignorar no seu dia a dia, porque sabem que nada podem fazer).
O filme exagera? Não, em absoluto não. Uma das pessoas com quem fui ver o filme dizia no fim: "Felizmente que aqui em Portugal as coisas ainda não chegaram a este ponto!" Fitei-a com incredulidade. Tirando a componente religiosa que, aqui em Portugal, de facto, não tem grande peso, a verdade é que reencontro tudo o que já vivi em escolas portuguesas (excepto a arma de fogo, porque armas brancas já há muitos anos que elas entram na escola portuguesa).
E ainda há três coisas que eu senti falta no filme: o aluno delinquente de sorriso na boca e olhar frio (tive-o no ano passado); o envio de alunos, agredidos por colegas, para o hospital; e a sodomização de alunos (o filme refere a violação de uma aluna).
A professora é perturbada emocionalmente, como a crítica quis fazer passar? Só no sentido em que qualquer pessoa fica perturbada emocionalmente quando é acossada como ela o foi. Só no sentido em que ela não se deixa paralisar pelo medo e confronta os alunos com a sua violência (deles).
Um aparte: não vou entrar naquele discurso de tantos professores, e que aparecem retratados no filme, de comigo nunca tive problemas, eu, eu até consigo resolver tudo a bem. Vou ser claro: não consigo resolver nada; e, face à extrema violência verbal e física dos alunos, face à minha completa vulnerabilidade e ausência de autoridade (que foi retirada aos professores) eu paraliso de medo e fico incapaz de reagir.
O director diz no filme que o papel dos professores é serem baby-sitters, o que é falso. O papel não oficial dos professores é servirem de almofada para toda a violência adolescente e mantê-la confinada dentro das escolas. Ensinar não é de todo o mais importante (por isso é que a formação dos professores nunca incide sobre os conteúdos).
O filme tocou-me principalmente porque retrata a total impossibilidade de a escola proteger os alunos mais fracos dos delinquentes. Uma das vítimas do filme quer ficar sequestrada para sempre, porque só assim sabe que fica segura; outra das vítimas pretende fugir para a Austrália com a família e acaba, aliás, por matar porque sabe que é a única maneira de proteger a irmã que foi ameaçada.
Estou a ver as coisas de uma forma primária? Estou. E estou porque gente iluminada achou que se educa crianças e jovens sem eles nunca terem de sentir as consequências do que fazem de errado. Com a originalidade portuguesa de só se poderem dar castigos se o castigado concordar - se não concordar, só resta o castigo da suspensão que não é castigo nenhum porque as faltas ficam todas justificadas, o aluno não chumba, nem pode sequer ser avaliado pela matéria a que ele não esteve a assistir: em suma, ensina-se na escola portuguesa que o crime compensa sempre. Sempre.
Post-Scriptum: Mais uma vez, e tipicamente, é a pessoa que tem uma reacção saudável e normal face a uma situação, que é ou devia ser inaceitável e intolerável, que é vista como uma doente, como uma perturbada (outro nome para "louca").
terça-feira, dezembro 29, 2009
Ida ao cinema em Faro
Ontem. Exactamente assim.
Cada vez vejo menos possibilidades de comunicação com o mundo, tal como ele está a ser construído.
quarta-feira, dezembro 23, 2009
Feliz Natal
Trata-se de um desejo; ou, talvez, de um pequeno conjunto de desejos.
Pequeno, porque sei que não é preciso muito para uma pessoa ficar feliz: um pouco de alimento e de sol, de amor, um livro, uma paisagem, e pouco mais...
Sim, é isto tudo, no fundo, meus amigos, aquilo que vos desejo para este Natal.
Boas Festas para todos!
terça-feira, dezembro 22, 2009
Balanço
E amo. Amo muito. E sou amado, muito bem amado.
Trabalho sem parar. Mas não recebo ordens de ninguém: quando querem alguma coisa, pedem-me. É bom. Como também é bom recuperar a dignidade no trabalho que realizo (ah, tudo o que deixei de ser obrigado a fazer e que ia contra a minha ética pessoal e profissional!) E na forma como os alunos recebem o que eu tenho para ensinar.
Tudo isto é gratuito? Não. Posso dizer que agora sou pobre. Não de sol nem de coração, claro. Mas pobre monetariamente. É o preço; e um preço justo, acrescento.
É este o balanço que faço. Um balanço feliz, sem dúvida.
terça-feira, outubro 06, 2009
1º Salário
Hoje recebi o meu primeiro salário em liberdade. Hoje recebi a paga pelo trabalho que fiz.
Sem ter sido insultado, sem ter sido desprezado, sem ter sido humilhado.
E sem ter sido das mãos de miseráveis sem escrúpulos e sem vergonha.
Não é muito dinheiro. Mas é infinitamente mais saboroso e digno do que aquele que tenho recebido nos últimos anos.
Para mim é muito importante, claro, a quantidade que recebo. Mas é-me muito, muito mais importante a qualidade dos indivíduos de quem eu o recebo, bem como tudo a que tenho de me sujeitar a fazer e a suportar para o receber.
Cheguei à conclusão que o dinheiro não paga tudo, isto é, não compensa a perda da dignidade nem a da integridade. E sinto-me grato por ter conseguido assumir a minha liberdade e ter recuperado ambas. Com sacrifício. Mas está a valer a pena.
domingo, setembro 27, 2009
Um futuro negro
O ladrão de deficientes e dos doentes que são obrigados a ir para o hospital;
para oferecer dinheiro e outras benesses aos bancos;
que fez da inveja, não da ambição, um valor;
que normalizou a mentira, a ponto de ela ser indistinguível da verdade;
que perseguiu os jornalistas que não pôde comprar,
que premiou a incompetência e a desonestidade,
que, enfim, tanto empobreceu Portugal, não só material mas também, e acima de tudo, animicamente...
... ganha as eleições?
Repito para mim vezes sem conta: já não sou professor!, já não me podem tratar como lixo!, já não sou professor!, já não sou professor e estou muito mais livre dele(s). Mas nada disto consegue afastar as sombras negras que inundam o meu espírito.
E se, aos 51 anos de idade, consegui mudar de vida, de trabalho e de cidade, também conseguirei, se isto ficar insuportável, mudar para fora deste país, cada vez mais miserável e de miseráveis!
domingo, setembro 20, 2009
Cidadania

Ontem, no Pátio das Letras em Faro, estive num encontro com a participação de Manuel Vilaverde Cabral e Luísa Schmidt, para a apresentação do livro Cidade & Cidadania.
Ao falar-se de mobilização e participação cívicas, muito maior nas cidades e maior entre a população jovem e feminina, falou-se inevitavelmente da luta dos professores (cuja esmagadora maioria é constituída realmente por mulheres).
Foi dito que os professores tinham ganho essa luta, já que o PS tinha perdido as eleições europeias e já que tinham sido introduzidas alterações ao sistema de avaliação.
Esclareçamos dois pontos:
Primeiro: os professores limitaram-se a uma vitória política parcial. Mas isso só se sabe agora.
Porque, durante quase quatro anos, e apesar da persistência da luta, politicamente, foram somando derrotas atrás de derrotas.
Quando o PS perder as eleições legislativas (e esperemos que as perca já), então os professores poderão falar de uma vitória política. Que só será plena se o novo governo desfizer o desastre em que está hoje mergulhada a escola pública.
De qualquer modo, a nível pessoal, ou profissional, ou de luta por um ideal de escola, a derrota dos professores é praticamente total; e temo que duradoura por muitos e largos anos, tal a profundidade do mal que lhes foi infligido.
Segundo: os professores lutam contra o sistema de avaliação que este governo quer impor, mas porque ele promove a destruição de uma escola pública de qualidade, promotora do sucesso cognitivo, social e emocional dos alunos. Portanto, simplificar o sistema sem o mudar, para os professores isso é o mesmo que nada, não se trata de vitória nenhuma, mas apenas da continuação da derrota por outros meios. É que não é mesmo contra a avaliação que os professores lutam, ao contrário da ideia que o poder quer fazer passar para a opinião pública.
sexta-feira, setembro 18, 2009
O poder dos economistas
Tento entender o porquê deste poder.
Numa sociedade pobre como a nossa, se o meu principal problema é o dinheiro (isto é, a falta dele), então é natural que oiça e dê mais atenção a quem me fala desta minha preocupação. E, assim, os economistas são ouvidos. As suas ideias (certas ou erradas, a maior parte das vezes erradas - não por eles serem particularmente maus, mas apenas porque as suas ideias só são certas em condições ideais e absolutamente irreais) transformam-se em palavras e estas, mais tarde ou mais cedo, em acções.
A verdade é que eles pensam muito em termos de lucro. Ora o lucro, seja qual for o contexto em que se insere, é sempre o lucro de alguns, nunca de todos. É esse o quadro mental em que eles, na sua maioria, se movem. Então se têm esta limitação, porquê dar-lhes o poder de influenciar toda uma sociedade?
Ainda por cima, como na sua maioria são velhos (como eu) é provável que ou estejam subordinados a ideias de economistas já defuntos ou aderiram às mais recentes e selvagens (e, portanto, nunca testadas) para não serem rotulados de atrasados.
Não entendo mesmo o seu poder no dia a dia da política.
domingo, setembro 06, 2009
Os 50
Muitas vezes fala-se dos 50 em referência a uma juventude, se não perdida, pelo menos melancolicamente distante. Há de certa forma um tom de quem sente ter uma boa parte da sua alma agarrada a esses anos de juventude cada vez mais mais perdidos.
Claro que, genericamente, sinto o mesmo.
Mas não devia sentir.
Lembro-me de ler, com 14, 15 anos os livros de Ray Bradbury na Colecção Argonauta da minha tia. E de ficar deslumbrado... como aliás ainda hoje fico, quando os releio.
Na altura rendi-me completamente à sabedoria e à simplicidade reveladas por Ray Bradbury e quis desesperadamente vir um dia a ser assim como ele, a ter também essa sabedoria. Soube que ele tinha na altura 50 anos e, então, durante muitos anos, desejei imenso chegar a essa idade.
Já cheguei.
E obtive essa sabedoria? Acho que uma boa parte dela, sim. Talvez não tenha conseguido manter toda a inocência que, em Ray Bradbury, se lhe encontrava sempre associada. Talvez.
Mas adquiri a sabedoria suficiente para não ter qualquer nostalgia do meu passado. Para ultrapassar o sofrimento dos anos anteriores com a alegria das realizações actuais, bem como dos novos desafios que eu tenho vindo a criar para a minha vida. Para achar que pelas pessoas, pelo mundo e pela liberdade vale bem a pena estar vivo e cada vez mais sábio.
No fundo, estou muito onde sonhei uma vida inteira estar.
terça-feira, setembro 01, 2009
O 1º Dia
(Eduardo Lourenço, cit. in JL, nº 1013, p33)
Hoje, aqui, a paragem é obrigatória.
Porque hoje é o primeiro dia verdadeiramente da minha liberdade.
Hoje entrei na situação de licença sem vencimento de longa duração. Acabou-se tudo aquilo que, parafraseando Eduardo Lourenço, me dava o sentimento e a convicção de estar a viver num inferno.
Ao contrário dos últimos anos, entro por Setembro feliz, sem angústia e sem medo.
Inscrito no mestrado. Com emprego num centro de explicações, a fazer o que sei e que gosto realmente de fazer: ensinar.
Bastante mais livre do poder abusador de um governo maldoso e estúpido.
E mesmo que tenha de comer lentilhas, como Diógenes… abençoadas lentilhas!
O fervor é também tudo isto.
sexta-feira, agosto 28, 2009
Um imenso pesar ... e duas histórias!
E sinto pena, uma pena imensa destas pessoas esforçadas, mulheres na sua maioria, generosas e lutadoras, não só na escola mas também nas suas casas. Pena pelo seu sofrimento moral e pela sua incapacidade de transformar esse sofrimento numa acção libertadora, mergulhando antes cada uma, a pouco e pouco, num mar de amargura sem esperança nem luz.
A propósito deste assunto, ocorrem-me duas histórias. Duas histórias que representam os dois lados duma mesma moeda, da situação destes(as) professores(as).
Eis a primeira:
O filósofo Aristipo cruzou-se um dia com Diógenes, que estava a comer um prato de lentilhas, e disse-lhe:
- Ai, Diógenes, se aprendesses a ser mais submisso ao imperador não terias de comer essas lentilhas!
Diógenes parou, fitou o seu abastado interlocutor, e respondeu-lhe:
- Ai de ti, Aristipo! Se aprendesses a comer lentilhas tu já não terias nunca mais de ser submisso ao imperador.
O imperador, hoje em dia, toma muitos nomes e muitas formas: ministros, direcções, inspectores... e, talvez, o mais terrível de todos, pela sua anónima implacabilidade: os bancos e as dívidas com que eles escravizam os incautos.
Mas vamos ao outro lado da moeda. Eis a 2ª história:
Uma vez, um profeta chegou a uma cidade e tentou converter os seus habitantes. No princípio, tinha muita gente a ouvi-lo mas, a pouco e pouco, foram-no deixando sozinho a falar. Um dia, alguém lhe perguntou:
- Porque continuas a pregar? Não te dás conta de que já ninguém te ouve?
Ao que o profeta lentamente respondeu:
- No princípio eu pregava na esperança de convencer as pessoas a mudar de vida. Agora, se continuo a pregar, faço-o, mas para que as pessoas não me obriguem a mim a mudar de vida...
Portanto, por outro lado, aquelas mesmas pessoas que eu lamento, elas no fundo também acabam por ser verdadeiramente dignas de admiração por não se deixarem afastar pelos que têm usado o poder para fins funestos...
Assim seja, desde que elas nunca baixem os braços, desde que nunca desistam de lutar!
quinta-feira, agosto 27, 2009
Ensinar...
É, de longe, o meu filme preferido sobre ser-se professor.
Michael Redgrave desempenha magistralmente o papel de um professor a quem a usura dos anos quase derrotou os sonhos da juventude: o sonho de ser um professor excelente e o de conseguir transmitir a sua paixão pela cultura clássica e, em particular, pela peça Agamémnon de Ésquilo (de que ele próprio fez uma tradução incompleta).
O filme é de uma beleza e de uma inteligência inultrapassáveis, que quase nos mantêm sufocados todo o tempo, a nós que amamos realmente a tarefa e a missão de ensinar.
E este filme fez-me voltar à questão de qual é a minha verdadeira vocação. Questão que, a bem dizer, não se põe: a minha vocação tem sido ao longo dos anos e ainda é a de ensinar, sem dúvida alguma.
De tal tenho sido impedido nos últimos anos (de ensinar, note-se, apesar de eu bem ter tentado); além de que amo demasiado esta missão para deixar que me obriguem a participar no seu abastardamento: por isso, o meu futuro não vai passar de certeza pela escola pública, isso para mim está já fora de questão (só devido a um absoluto desespero é que eu lá voltarei, ou a um mais que improvável volte-face do que lá se está a passar).
Mas ainda não desisti completamente do sonho de... ensinar Matemática!
terça-feira, agosto 04, 2009
Que futuro?
Confesso que a ideia do trabalho de professor por enquanto me causa um certo desgosto. Está a ser difícil esquecer-me:
a) do rancor enviesado das pessoas aos professores,
b) dos alunos malcriados e violentos (porque ia todos os dias para a escola com medo do que me pudesse acontecer, a mim e aos meus colegas), e
c) do desprezo com que o governo nos tratava a todos nós professores.
Não sei se isto é estar traumatizado, mas que anda lá perto, anda.
Daí que esteja a encarar com verdadeiro entusiasmo é mesmo uma mudança de carreira. Para isso inscrevi-me, e fui admitido, a um Mestrado em Energias Renováveis. É por aqui que eu vou investir todos os meus esforços.
E do mundo da educação, talvez apenas as explicações, numa relação pessoal com aluno a aluno, em que posso finalmente fazer aquilo que eu sei fazer bem e que gosto de fazer: ensinar.
Embora, se mudar de carreira, fique com pena de deixar a Educação. Primeiro, porque com o espírito de serviço público que é ainda o meu, me suscita horror os milhares de euros que o Estado investiu em mim e na minha formação e que vão assim ser deitados à rua. Depois, porque a minha vocação e o meu talento para esta área, capazes de beneficiar tanto o meu país, vai deixar de ser posta a uso. De certa maneira, é triste.
A área para onde pretendo redireccionar a minha vida profissional, energias renováveis, também beneficia o país. Mas agora, a minha preocupação já não é simplesmente o que é melhor para os alunos e para os pais. Não, agora, vai passar a incidir muito no que é que é melhor para mim... Claro, sem nunca deixar de fazer o meu trabalho com toda a competência necessária. Mas é diferente...
domingo, julho 26, 2009
De partida
Mas hoje (que vou ficar sem o computador que vai para o "estaleiro") não posso deixar de dar testemunho da minha partida depois de amanhã, 3ª feira.
É uma vida de 25 anos de ensino que deixo para trás. Há limites para o que nos fazem e para o que nos obrigam a fazer! Mas sobre isto já escrevi muito. Não vou olhar para trás.
Importa agora é a vida nova que me espera, a vida que eu escolhi, a vida que eu vou construir.
Mas não sozinho. Vou viver com uma pessoa maravilhosa, acabando finalmente com uma solidão de 50 anos (há sonhos que se realizam mesmo!).
Volto à Universidade como aluno para consolidar a reorientação que pretendo dar à minha vida.
E vou estar aberto a todas as oportunidades que me surjam de viver coisas boas, de aprender com tudo o que me aconteça e de me envolver em novos e entusiasmantes desafios!
Assim será!
O que os bons professores podem fazer
Eu sou um bom professor – as notas mais altas obtidas por alunos da minha escola nos exames foram de alunos meus.
Recusei esta avaliação – não entreguei os objectivos individuais, não fui a acções para avaliadores, não fui avaliador e não entreguei a ficha de auto-avaliação.
Não tenho medo de avaliação nenhuma. Simplesmente acho este sistema profundamente lesivo para o ensino relativamente ao ideal de escola pública que tenho.
Sei que o governo não tem razão porque, se a tivesse, não precisaria de mentir como o faz.
Os bons professores são bons em qualquer outro trabalho. Acredito nisto e, por isso, com 51 anos e 24 de ensino, vou-me embora (sem reforma).
Sim, porque há e tem de haver um limite para o que nos fazem e para o que nos obrigam a fazer.
Esclarecimento: As notas referem-se à disciplina de Matemática que leccionei durante muitos anos.
quinta-feira, julho 09, 2009
O despacho
"(...) que a Senhora Subdirectora-Geral, por despacho exarado em 22/06/2009, autorizou a licença sem vencimento de longa duração ao docente Rui M... (...)”
Chegou-me ontem às mãos! Desde 23 de Março que estou à espera, mas chegou!
Lanço os últimos olhares para trás. E que deixo?
Acima de tudo, muitas, muitas humilhações com origem neste governo PS.
Humilhações e também medo de alguns alunos, da sua violência, da sua cobardia, da sua ininteligibilidade.
Amigos, professores e funcionários.
Muitos alunos, excelentes pessoas, alguns maravilhosos comigo, verdadeiros companheiros no trabalho e na aprendizagem; e uns autênticos heróis por não se deixarem arrastar pelos outros!
Um trabalho (professor de Educação Tecnológica) absolutamente nada entusiasmante.
O início de uma vida com alguém que amo e que partilha comigo os mesmos gostos, necessidades e valores. O primeiro dos quais (ambos estamos de acordo) será / tem sido o cuidar do outro, de nós, da relação.
Depois, a esperança de poder fazer o que realmente gosto e melhor sei: ensinar matemática. Mas também, se tiver de ser, com uma atitude muito positiva sobre aceitar quaisquer novos desafios profissionais que surjam.
O futuro é uma incógnita, está completamente em aberto para eu o construir.
quinta-feira, julho 02, 2009
Valores
(In "De comédia a farsa. (...)", Ramiro Marques)
Se os actores da farsa são os outros, a mim não me causa particular problema.
Como são os professores, fico triste: já nem precisamos que nos rebaixem, nós fazêmo-lo sozinhos.
Não entreguei os o.i., não entreguei a ficha de auto-avaliação.
E nem entreguei qualquer justificação. Para mim isso seria ainda admitir que o Governo e o ME podiam ter razão. Não têm e eu desprezo-os.
terça-feira, junho 09, 2009
A derrota de Sócrates
Tive uma infância cinzenta e chuvosa (nasci em 1958). Da sua maior parte, não me recordo nada. Mas lembro-me de me sentir estranho a tudo e como se estivesse sempre à beira do desastre. Ainda hoje. Só que hoje consigo distrair-me mais, consigo disfarçar melhor. Lembrar-me da minha infância é sentir-me sufocado.
Serve esta introdução para dizer que, quando penso em política no Portugal de Sócrates, em formas de intervir na sociedade, sou tomado por uma sensação de irremediável impotência, ou seja, de impossibilidade de mudar o que quer que seja que o poder não deseja ver mudado. Tal como na infância.
É certo que esta sensação de sufoco começou a ser criada no tempo de Barroso quando, depois da gigantesca manifestação contra a invasão do Iraque, ele seguiu em frente sem ligar nenhuma, levando atrás de si a generalidade dos meios de comunicação. E com os resultados que se sabem (milhares e milhares de vidas destruídas).
Mas Sócrates levou esta forma totalitária de fazer política a extremos inimagináveis (enfim, inimagináveis para aqueles que desconhecem o salazarismo e o nazismo): ele impôs um torno férreo a toda a livre iniciativa das pessoas que desejam dar seguimento aos seus ideais em colaboração com todas as pessoas da sociedade.
Cada vez mais as pessoas desistem da contestação e da participação cívica, sabem que ela ínútil e que funciona como se pura e simplesmente não existisse. Acredito que é assim que a juventude desistiu da luta por uma sociedade mais justa. Aliás, não desistiu: desapareceu!
Qundo penso na derrota de Sócrates, o que aspiro é a uma sociedade enfim liberta e capaz de respirar outra vez o ar puro da liberdade de movimentos, uma sociedade que se emancipa de uma infância imposta e opressiva. Que acredita na sua capacidade de se renovar com o consenso o mais alargado e responsável possíveis. Assim seja!
terça-feira, maio 26, 2009
Não desisto
Mas, por outro lado, lá diz o povo: "Água mole em pedra dura, tanto dá até que fura"!
Isto anima-me a não baixar os braços: hoje fui um dos 2 que na minha escola fizeram greve
(escola com vários sindicalistas de peso, mas em que não apareceu um único aviso ou cartaz da greve);
e no dia 30 serei um dos que sejam quantos forem vão à manifestação.
"Se não há caminhos, há que caminhar" (S. João da Cruz)
segunda-feira, maio 25, 2009
Índice de Democracia
Em 2008, segundo The Economist, Portugal passou a ocupar o 25º lugar.
Os professores, entre outros (muito poucos) combateram a tentativa de sufoco. Registe-se.
Nostalgia
Estou a ler Aprendizagem Cooperativa e Inclusão (edição do autor, Lisboa, 2006), um livro de Francisco Alberto Ramos Leitão.
Recordo-me de como trabalhei e pugnei por uma escola que desse uma resposta emancipatória a todos os aunos que a frequentassem. Apercebo-me bem de quão larga e profunda é a destruição deste tipo de escola promovida pelo Governo, em virtude do desprezo total e profundo que sente pelas pessoas das crianças e dos jovens e, consequentemente, pelo seu desenvolvimento pessoal e social.
Por outro lado, ao defraudar as expectativas dos professores, ao roubá-los, ao desprezar o seu saber e a sua experiência, ao esgotá-los com trabalho embrutecedor, o Governo tem vindo a acabar com o clima de uma Escola Pública verdadeiramente Inclusiva.
A acrescentar a tudo isto, o sistema de avaliação que quer impor, que promove a competição mais rasteira, vai enfim acabar de vez com a Escola Pública para todos. A Escola de sucesso constrói-se com uma Educação de qualidade só conseguida com a cooperação entre os educadores, nunca com a competição entre eles (como quase todos os países europeus já descobriram).
Voltando ao livro de Francisco Leitão: aqui se apresentam, se explicam e se justificam os dados da investigação que apontam para a maximização do sucesso através do trabalho cooperativo, quer entre alunos, quer entre professores. Também se descreve como se consegue promover na prática um clima de cooperação entre todos (inclusivamente, num dos anexos, propõe-se uma forma de trabalhar com os alunos a gestão de conflitos, um saber essencial para que o trabalho cooperativo se traduza num máximo de boas aprendizagens).
Leio e estou a ouvir uma voz quente, amiga e sempre lúcida, a tentar fazer-nos acreditar que as nuvens negras desta época sombria não irão afogar as crianças e os jovens de hoje num mar de mediocridade auto-complacente e suicidária.
sexta-feira, maio 15, 2009
Formação contínua
Porque é que sou obrigado a frequentar acções de formação que não preciso e em que, ainda por cima, tenho de pagar?
Porque é que a formação que realmente me faz falta para eu poder melhorar científica e tecnicamente, dada por entidades idóneas, é aceite e reconhecida pelos meus colegas e superiores hierárquicos, mas não é reconhecida pelo Governo e, portanto, não me serve para nada em termos de carreira?
Eu sei a resposta: porque a gatunagem que decide estas coisas, não satisfeita em já me ter roubado milhares de euros, é uma mafia que continua a querer sugar-me até onde puder.
Ou até onde eu a deixar.
sábado, maio 09, 2009
Amantes feios
(...) «O que é que Léo achou de mim? Achou-me ao seu gosto. A minha explicação para isso é que também ele era malfeito. Tinha tido varíola em pequeno e ficara com as marcas. Era nitidamente mais feio que um anamita normal, mas vestia-se com muito gosto.»
Tanto pior que fosse malfeito. Tanto pior para as costureirinhas e para os corações sensíveis (a cujo grupo eu pertencia) que fantasiaram a propósito da beleza sensual do amante, a sua pele de seda, as suas mãos experientes, o seu corpo perfeito. O amante é feio e malfeito. (...)
Ora, farto estou eu de histórias em que os protagonistas são sempre fisicamente atraentes (ou que ficam como tal depois de um adequado período de “patinho feio”)!
Desejo mesmo um livro ou um filme em que as personagens vivam um amor arrebatado e deslumbrante, mas que sejam feias e malfeitas, realmente feias sem qualquer apelo (porque, por exemplo, há as que, sendo feias, são, no entanto, encantadoras).
Ou em que pelo menos uma delas fosse mesmo feia.
E isso não fosse sinónimo de malvadez, ou de qualquer forma menos boa de carácter.
Personagens secundárias já vão surgindo assim, embora aparecendo sempre menores e mais ou menos patéticas.
Como seria, então? Como pegaria o(a) autor(a) no assunto nestas condições? Que emoções faria ele despertar em mim (excluindo naturalmente as da piedade e as suas variações)?
quarta-feira, maio 06, 2009
O voo dos moscardos
Vejo entre os elementos das listas indivíduos(as) que, para além de entregaram os objectivos individuais, até se movimentaram no sentido de sabotar posições de não entrega por parte dos restantes professores.
Espanta-me que estes (e outros de outros sindicatos que também fizeram o mesmo) não tenham vergonha.
Tenho eu.
Por eles.
Por nós.
terça-feira, maio 05, 2009
Conversar
My trips are always packed with a lot of business meetings.
Admiro as pessoas que sabem iniciar e manter uma conversação leve, útil, mutuamente satisfatória; pessoas que estabelecem um entendimento, um rapport imediato com quer que seja que lhes atraia o interesse ou a simpatia. Conheço bem uma pessoa assim... e nunca páro de me maravilhar!
Dada a minhas dificuldades de contacto, disfarço a minha falta de habilidade procurando ser um bom ouvinte e fazer perguntas interessantes. Mas trata-se de um esforço e jamais me passaria pela cabeça relaxar conversando!...
A propósito, a história acima, como talvez fosse de esperar, é bem simpática e inesperada e, por isso, ponho aqui o link (soube dela via GoodShit).
domingo, maio 03, 2009
Os intelectuais e a coragem de lutar
Num mundo ideal, as convicções e os princípios deveriam ser por si sós molas suficientemente fortes para combater a tirania e e a injustiça. E isso por vezes acontece, só que com poucos. Quando chega a hora dos arruaceiros (e chega sempre a hora deles, tal o fascínio que exercem) tudo se desmorona e o medo impera, o que é exactamente o que os arruaceiros desejam e pretendem (por isso é que são brutos e fazem ameaças).
O que é surpreendente e brilhante no caso dos professores é que começaram por nada fazer quando foram roubados ou quando lhes tornaram quase impossível realizar o seu trabalho de forma adequada; isto porque lhes disseram, e eles acreditaram, que o país precisava desse sacrifício da sua parte. Mas, tendo surgido a parte da violência inútil e sem qualquer sentido (note-se que, na maior parte dos países europeus a avaliação dos professores, que não a das escolas, ou não existe ou é extremamente simples e não conta para a progressão na carreira), e ao fim de quatro anos de guerra, ainda há um número elevadíssimo de professores que não desfaleceu. Sem contar que os que desfaleceram só o fizeram ao fim de um prolongadíssimo tempo de resistência que se conta por anos.
Sabemos que normalmente os inteletuais são cobardes. Vejam-se quase todos os que se têm encolhido no seu silêncio pequenino(1) e deixaram os professores sozinhos na sua luta e tentativa de participação cívica, até mesmo nos casos em que se pôs em jogo a vida e o futuro das crianças mais desprotegidas como é o caso das que têm dificuldades e necessidades especiais.
Mas os professores que, apesar das tentativas desenfreadas que têm vindo a ser tomadas para os proletarizar, ainda se podem assumir como trabalhadores intelectuais, e têm vindo a mostrar que a cultura e a humanidade podem ajudar de facto a conferir forças e coragem para lutar contra a barbárie (tanto das maneiras como das ideias).
(1) Com as excepções gratas, entre outros, de Joaquim Manuel Magalhães, de Santana Castilho e de Ramiro Marques.
sábado, maio 02, 2009
O que esperamos dos intelectuais?
Que pensem, que discutam, que criem.
Eu e muitos outros (é que não temos tempo, nem contactos, nem inteligência suficientes para o fazer) esperamos que nos dêem ideias de entre as quais possamos escolher aquelas de que nos vamos apropriar para fazermos delas as nossas bandeiras e os nossos ideais por que lutar.
Portanto, a frase mais estéril e traidora da sua responsabilidade que um intelectual pode proferir é: “Não há alternativas.” Porque, ainda por cima, é uma rematada mentira! Existem sempre alternativas!
As consequências de andarem a espalhar esta ideia vêem-se na juventude de hoje: acreditaram nesta vigarice que lhes transmitiram e tornaram-se numa geração de conformistas.
Ora, uma sociedade que não evolui para melhor, como a actual, está doente. Ela só evolui para melhor com a renovação das gerações, a qual deve necessariamente implicar uma renovação de ideais e de lutas. Só assim podemos sacudir este marasmo deprimente e nauseado em que vivemos hoje em dia.
Suspeito que pertenço a uma geração que traiu realmente o futuro: roubou aos jovens a esperança num mundo melhor e a convicção de que vale a pena lutar por ele.
Não vale a pena diabolizar este Governo por ter demonstrado a irrelevância da participação cívica dos cidadãos nas decisões que envolvem toda uma sociedade e o seu futuro. Porque fomos todos nós que lhe conferimos poder e o deixámos abusar dele.
Não podemos esperar, aliás, dos políticos que tragam novas ideias. Eles são executivos, não criativos. O problema é que, quando os políticos não têm ideias, os tiranos saltam para a primeira linha, agarram o poder e abusam dele.
Eis porque precisamos de intelectuais que façam verdadeiramente jus ao seu estatuto.
segunda-feira, abril 13, 2009
O que é que isto interessa?
Na verdade, se elas tivessem de trabalhar mais 2 ou 3 horas por dia, sem receberem horas extraordinárias, prejudicando a sua vida familiar e a educação dos seus filhos, como acontece com tanta gente, bom, isso já não seria assunto com interesse para trazer a uma discussão! No entanto, parece-me razoável pensar que este assunto é amplamente mais importante e com consequências muito mais graves para as pessoas e para a sociedade no seu todo. Ah, mas com isto não temos espectáculo, logo...
"(...) O essencial é invisível aos olhos" (Antoine de Saint-Exupéry, O Principezinho, Cap. XXI)
Esta frase tem hoje em dia um sentido tristemente irónico. Porque aquilo de que valeria mesmo a pena falar e discutir está invisível e, por isso, não se consegue que seja matéria para debate e troca de ideias, permanecendo assim cada vez mais na sua invisibilidade. E, infelizmente, a existir menos que a roupa das funcionárias da loja de Faro!...
terça-feira, abril 07, 2009
Acabou-se!
Um aluno de um CEF pontapeou a cabeça de um colega enviando-o para o hospital em estado crítico. A pena máxima que a escola pôde aplicar consistiu em 10 dias de suspensão (já se sabe, com faltas justificadas): não havia o mesmo CEF numa escola da área de residência dele, pelo que a transferência estava fora de causa.
Outro aluno, por, entre outros actos violentos (e várias penas de suspensão), ter agredido uma professora na cabeça, foi punido com transferência de escola: passam-se as semanas e nada de assinatura do director regional, pelo que ele continua na escola (imagine-se como) e diz: "Posso fazer o que quiser, o que é que me pode acontecer de pior?"
Estive no ensino 24 anos por vocação, talento, paixão e alegria. Eu gosto muito de ensinar, que é uma coisa que hoje em dia faço pouco. O que faço é reforçar a máquina destruidora que este Governo pôs em marcha. Devo dizer, pois, que saio com alegria também: já não mais humilhações violentas, nem trabalhos inúteis e esgotantes, nem sapos engolidos, nem ausências de respeito e de consideração, nem ameaças ou ataques à minha integridade física e mental.
E não mais me sentirei responsável por alimentar este imenso desastre que é hoje a Educação em Portugal no ensino público.