quinta-feira, maio 20, 2021

Porque é que as zebras não apanham úlceras?

 

Why Zebras Don’t Get Ulcers é um livro de 1994 (nunca traduzido em Portugal) do biólogo e neuroendocrinologista Robert M. Sapolsky.

Quando a zebra está calmamente a almoçar e ouve um barulho (que nove vezes em cada dez é um falso alarme, porém a zebra tem de assumir que não é, pois não há segundas oportunidades na selva), ela tem uma reação fisiológica de stress quase instantânea. Para a zebra, que responde fugindo, este stress só tem efeitos benéficos… porque dura segundos, no máximo poucos minutos. Rapidamente, afastada a presença física do perigo, ela volta ao seu almoço na maior das tranquilidades.

Não assim com os seres humanos, numa situação semelhante. Passada a ameaça, o ser humano continua em stress: “E se o leão volta e eu não dou conta? E se vem de noite e eu não o vejo? E se ataca os meus filhos que não conseguem fugir como eu? E se forem vários leões a cercar-me?” Etc., etc. Ao contrário das zebras, a ausência de perigo não representa para nós, humanos, a ausência de ameaça.

O problema é que a reação fisiológica de stress deixa de ter efeitos benéficos no organismo num espaço de segundos a minutos. E em nós, esta reação pode prolongar-se por horas, dias , semanas,… Por isso, nós temos úlceras e as zebras não. 

segunda-feira, maio 17, 2021

Desolação com a morte do Capitão Diniz de Almeida (16/05/2021)

Que imensa tristeza esta notícia me trouxe!

Porque, no meu imaginário, o Capitão Diniz de Almeida é um dos símbolos máximos da generosidade e da solidariedade com todos os oprimidos e deserdados da sorte.

Hoje, a morte dele também simboliza para mim a agonia crescente dos sonhos e dos ideais luminosos da juventude que ele e o 25 de Abril personificavam para tantos de nós.

Hoje, dolorosamente, morri mais um pouco.

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Importante entrevista à RTP de António Louçã, "um dos últimos jornalistas que entrevistou Diniz de Almeida", que nos dá um belo e muito humano retrato deste Capitão de Abril.

Também:

Discurso de Dinis de Almeida (Capitão de Abril) nas comemorações do 25 de Abril, CDU Mina de Água

O 11 de Março 40 anos depois: entrevista com Dinis de Almeida

https://www.dn.pt/dossiers/politica/a-revolucao-de-abril/noticias/o-fim-de-um-icone-da-revolucao-1210766.html

https://www.esquerda.net/artigo/diniz-de-almeida-1944-2021-o-capitao-de-abril-na-linha-da-frente-da-revolucao/74423

Diniz de Almeida: a derrota "vergonhosa" dos golpistas

Morreu o coronel Diniz de Almeida, vítima de covid-19


domingo, maio 16, 2021

Sobre o Assédio Sexual (artigo que talvez nunca deixe de estar em construção)

 


Há uma linha vermelha para o assédio que o distinga da sedução? Há. É quando uma das partes mostra inequivocamente que não quer e a outra continua a invadir o seu espaço íntimo. Há abuso? Há, quando, perante o não, a parte mais poderosa ameaça a outra e/ou se vinga dela. Há um verdadeiro crime de abuso? Há, quando ele é concretizado por via da força e da violência, principalmente quando há um grande diferencial de poder, por exemplo, no caso de um adulto na pessoa de uma criança.

Depois, há muitas situações menos claras. Por exemplo, entre duas crianças. Ou entre uma criança e um adolescente. Ou quando aquele que não quer sente um pavor tal que fica paralisado e não consegue sequer mostrar que não quer. Ou outras situações. Sejam elas quais forem, a prudência e a justiça mandam que talvez não devamos julgar a vítima (exceto se tivermos sido os juízes mandatados para o fazer).

 

Das muitas mulheres que amei a quem nunca cheguei a dizer ou sequer a mostrar que estava apaixonado, houve uma a quem, muitos anos depois, confessei o que tinha sentido. Ela exclamou: “Então, porque é que não disseste nada? É que eu também estava apaixonada por ti!”.

Naquela altura, esperava-se que fosse o homem a declarar-se. A mulher que o fizesse era bastante mal vista, principalmente se confessasse o seu desejo. Várias raparigas, frustradas perante a minha contenção (ainda por cima, eu era um bocado obtuso, não percebia se elas estavam ou não realmente interessadas em mim), perguntavam aos meus amigos da altura se eu era gay. Estes transmitiam-mo para ver se eu mudava de comportamento. Ora, eu tinha muito antes decidido não seguir esse código social, para grande perplexidade e incompreensão da parte delas (e deles também, diga-se a verdade). Portanto, não mudava, mas também não sabia como fazer de modo diferente (acrescento que essa decisão nasceu do terrível choque que foi para mim a leitura, em plena adolescência, do livro Escravatura Sexual, de Stephen Barlay). Creio que fui deste modo criando a pouco e pouco uma provável e errada reputação de homossexual.

Assim, por causa desta pressão social, na verdade, quantos homens poderão ser acusados de claro assédio sexual intencional e manipulador? De marialvismo, bastantes. De mulherengos, muitos. De incorretos, mal educados e boçais? Muitos mais do que seria de desejar. Mas alguém que não força, pergunta sempre, não constrange, não ameaça nem se vinga, estarei a ser injusto se puser a hipótese de que isso talvez não configure assédio sexual? Que aliás se define como:

Assédio sexual é todo o comportamento indesejado de caráter sexual, sob forma verbal, não verbal ou física, com o objetivo ou o efeito de perturbar ou constranger a pessoa, afetar a sua dignidade, ou de lhe criar um ambiente intimidativo, hostil, degradante, humilhante ou desestabilizador.


Alberto Caeiro

VIII - Num meio-dia de fim de Primavera

(…)

E, porque sabe que elas não gostam

E que toda a gente acha graça,

Corre atrás das raparigas

Que vão em ranchos pelas estradas

Com as bilhas às cabeças

E levanta-lhes as saias.

(…)

Este texto de Alberto Caeiro mostra como naquele tempo era considerado "engraçado" o levantar as saias às raparigas. Por isso, pergunto-me se haverá algum homem que possa dizer-se completamente inocente de assediar as mulheres? E, sendo assim, nós homens teremos algum direito ou alguma autoridade para dizer às mulheres os termos em que elas devem partilhar as suas queixas? Suponho que não.

Falando por mim, também eu levantei as saias a uma menina minha colega de turma uma vez, na escola primária (que era mista, algures entre 1966 e 1968) e lembro-me disso com uma nitidez que a imensa vergonha e mágoa que ainda hoje sinto mais acentuam. 

Depois de 1968 (ano em que entrei no 2º ciclo, mas agora numa escola já só com rapazes), algo deve ter acontecido, não me lembro do quê, porque comecei a defender as raparigas na rua de maus-tratos verbais e físicos (desde o simples molhá-las com pistolas de água no Carnaval até coisas mais graves). Podia fazê-lo porque eu tinha um físico possante e impunha respeito aos outros. Mas a tristeza e a vergonha que ainda hoje me assombram (lembro-me perfeitamente da rapariga a quem levantei as saias e do seu primeiro nome, bem como da forma aflita como reagiu), essas ficaram para sempre.


Às vezes, pergunto-me se os muçulmanos mais radicais não estarão, na sua sabedoria (se ela é válida ou não, é outra questão), a ver as coisas com uma lucidez que nos está a faltar a nós. O facto de obrigarem as mulheres a taparem a maior parte ou a totalidade do seu corpo para não excitar os impulsos selváticos dos homens, não estarão a demonstrar a visão que têm deles como primitivos subdesenvolvidos incapazes de autocontrolo?


Em suma, seja qual for o conteúdo e a forma da denúncia que for feita por uma mulher, o que eu sei é que, na dúvida, estou sempre do lado da vítima, do mais fraco, daquele que relata as coisas com mais incongruências (principalmente, se souber perfeitamente como não o fazer).

Conhecemos alguma mulher que não tenha nunca sido assediada sexualmente na rua? Portanto, quando as mulheres se queixam é provável que estejam a dizer a verdade. Eu, pelo menos, à partida respeito todos os seus testemunhos.

E também o que sei é que, nesta matéria que tem séculos, se não houver alguma violência da parte dos tradicionalmente fracos, nada mudará na relação de poder e de abuso.

Finalmente, sei que nesta e noutras áreas, se a mulher não se comportar como soldado perdido em território inimigo, na formulação feliz de Arturo Pérez-Reverte, é destroçada pelos homens (e pelas mulheres que se identificaram com os valores masculinos):

Não sei se todas as mulheres são assim, mas queria descrever uma mulher que é um soldado perdido em território inimigo. Creio que o último herói realmente romanesco que resta à cultura ocidental é a mulher. Reúne todas as características: tem de trilhar o mundo dos homens com regras feitas pelos homens; tem de ser tão ou mais eficaz que eles; os erros delas pagam-se mais caros do que os dos homens e, ao mesmo tempo, não deixa de ser mulher, de conservar toda a sua herança biológica, aquilo a que chamo «instinto de ninho».

terça-feira, maio 11, 2021

E se os livros não nos preparam para a vida?

Não sabia como é vasto, árido e escarpado o país que o viajante da vida tem de atravessar para poder aceitar a realidade. É uma ilusão pensar que a mocidade seja feliz, uma ilusão daqueles que a perderam. Os jovens sabem que são miseráveis, pois alimentam os falsos ideais que lhes foram incutidos e todas as vezes que entram em contato com o real sentem-se magoados e contundidos. Dir-se-ia serem vítimas de uma conspiração. Os livros que lêem, livros ideais pela necessidade de seleção, e a conversa dos mais velhos, que olham para o passado através da nuvem rosada do esquecimento, preparam-nos para uma vida irreal. São obrigados a descobrir por si próprios que tudo o que leram e tudo o que lhes ensinaram é mentira, mentira, pura mentira. Cada nova descoberta é mais um prego que lhes fixa o corpo à cruz da vida. (…) (p. 111)

Esta foi mesmo a minha vivência (nasci em 1958 e na biblioteca do meu pai estavam muitos livros cuja leitura me era proibida).

Hoje, penso que é diferente. Porque, desde crianças, todos têm acesso aos aspetos mais sórdidos e doentios da realidade e da fantasia do mundo (no entanto, não esqueçamos que tudo o que possamos ler, livros realistas ou não, tudo é sempre irreal porque 1) é a perspetiva singular de quem está a escrever; e 2) as palavras não espelham a realidade nunca).

Quem fica ou ficou melhor? Não sei responder. Mas avento a hipótese de que a sociedade, essa, fica pior. Pois parece-me que uma sociedade evolui principalmente devido àqueles que não aceitam as deformidades que ela revela, isto é, àqueles que (muito provavelmente com a leitura que dá mais espaço à reflexão) criaram dentro de si um ideal e que não se resignam. 

sexta-feira, maio 07, 2021

Um filme sempre a ecoar em mim

 

Wrestling Ernest Hemingway conta a história de um beberrão e cortejador (Richard Harris), que tenta flirtar várias mulheres, incluindo de uma forma mais autêntica a sua senhoria (Shirley MacLaine) – que, aliás, não vai na conversa dele – e que tenta travar uma amizade difícil com um refugiado cubano (Robert Duvall) que ama suavemente uma empregada de restaurante (Sandra Bullock, num papel de uma inolvidável doçura que me fez ficar apaixonado por ela da primeira vez que vi o filme).

Porque é um dos filmes da minha vida? Talvez porque, neste filme, Randa Haines trata da velhice, da solidão, da amizade possível, de amores que nunca chegam a realizar-se, com um humor e uma leveza que quase me causa um soluço de angústia sempre que o revejo.

sábado, fevereiro 20, 2021

Hipótese para a compreensão de algumas pessoas que apoiam partidos e políticos da extrema-direita radical. E uma proposta de abordagem ao problema.

 

(Francisco de Goya - Duelo a Garrotazos)

Cometemos habitualmente o erro de acreditar que, no ser humano, as razões antecipam as emoções e as decisões. A maior parte das vezes, não é verdade, tanto quanto se sabe, hoje em dia. Vergílio Ferreira alertou-nos muitas vezes: «As verdades fundamentais fulguram primeiro e depois é que se disciplinam em razões.» (em Do mundo original, 1979, Lisboa, Livraria Bertrand, p.119)

Portanto, na prática, a maior parte das pessoas não foi convencida por André Ventura. O discurso deste é que deu uma voz, uma organização e uma ação a quem estava predisposto a estas ideias ou já estava decidido sobre elas. Ou seja, acreditar em André Ventura não é mérito dele, é apenas uma consequência das emoções e ideias que as pessoas já tinham. Estas crenças e emoções já existiam, não tinham era sido publicamente mobilizadas, talvez por vergonha de opróbrio público.

 

Mas agora várias circunstâncias ajudaram a ultrapassar esta barreira.

Primeiro, a disseminação das redes sociais que levaram à descoberta de que se podia dizer aquelas coisas em público e ter muita gente a apoiá-las.

Segundo, ter surgido um ativista político a dizê-las sem ser expulso de um partido do arco do poder (quando, como candidato à Câmara de Loures, André Ventura fazia parte do PSD de Passos Coelho), nem ser travado pela Justiça.

Em terceiro lugar, a neutralidade, o silêncio e o ignorar dos poderosos.

Ficaram assim expostos os sinais claros de que se poderia dar a emergência daquelas emoções e sentimentos mais retrógrados e negativos, sem perigo nem vergonha.

Veja-se, aliás, o caso infame de Ihor Homeniuk que foi o culminar de anos de abusos e torturas a pessoas inocentes com a complacência e o encorajamento disfarçado do Governo, ignorandoas recomendações que o Mecanismo Nacional de Prevenção da Tortura fazia desde,pelo menos, 2018.

Ou de inúmeros políticos, nacionais e estrangeiros (em Portugal, Espanha, França, Itália, etc.) que têm vindo a põr em prática políticas de discriminação contra comunidades ciganas, como se fosse legal ou ético fazê-lo seja com quem for.

 

O problema vai-se tornando mais grave quando um líder começa a catalisar este caldo de emoções a fim de unir as pessoas em multidões que se sentem suficientemente organizadas para iniciarem uma ação violenta. O que até agora, mas apenas até agora, não foi o caso em Portugal.

 

A um nível individual, quando é que temos uma resposta violenta? Quando ativamos o sistema neurocomportamental de regulação de emoções focado na ameaça e na autoproteção. A resposta torna-se ainda mais violenta se, simultaneamente, se se frustrar o sistema neurocomportamental focado na busca de recursos e de incentivos.

Para estimular estes processos de ativação e de frustração nas pessoas, o líder proclama que o mundo é um lugar perigoso, que está dominado pelo mal, que só ele o conseguirá pôr bom e que, inclusivamente, só ele conseguirá proteger as pessoas de bem, mesmo que para isso precise do poder total, ou seja, de uma ditadura.

 

A um nível grupal, isto piora se estas pessoas percecionarem que o seu grupo está em conflito com outros grupos. Principalmente, se favorecerem vias mais agressivas e violentas para conseguirem o que querem, devido a privilegiarem precisamente a agressividade e a violência, e devido a se sentirem mais fortes do que os outros grupos.

Note-se, aliás, que se estas pessoas realmente acreditassem na propaganda que diz que elas não têm poder para fazer frente aos outros grupos (mensagem passada pelo líder populista), elas fugiriam, não lutariam.

Como esses outros grupos são na verdade minoritários e com menos poder, elas sentem-se à vontade para terem preconceitos contra eles e para apoiarem ações discriminatórias.

 

Uma outra característica destas pessoas consiste em elas tenderem a escolher líderes mais autoritários, mais fortes ou mesmo brutos. Porque estes são vistos como os mais capazes de acelerar a coordenação dentro do grupo, de forma a este ficar mais rapidamente organizado e capaz que o grupo inimigo.

Por isso, é natural que elas tendam também a escolher líderes que não respeitem as regras. Regras essas que, no fundo, elas acham que fizeram o outro grupo ficar mais forte. Daí que é precisamente o facto de esses líderes serem descaradamente mentirosos, oportunistas e malcriados que os torna mais atraentes para estas pessoas por assim se revelarem claramente contra o sistema em relação ao qual elas se sentem revoltadas e que desejam deitar abaixo.

 

A sustentar todos estes processos, temos a tendência da natureza para escolher as vias mais fáceis e mais “económicas”, isto é, menos consumidoras de energia. Esta tendência leva ao que alguns investigadores chamam de “preguiça cognitiva” que tem como consequência a adesão a ideias simples, fáceis e carregadas emocionalmente (que assim, nos dispensam de refletir). Ideias essas que caracterizam habitualmente as arengas destes políticos e as notícias falsas. Esta hipótese, a ser verdadeira, é um pouco desanimadora pois pouco se pode fazer para a contrariar no curto prazo (a longo prazo, só na escola, ensinando experiencialmente que o prazer e as vantagens de pensar racionalmente se sobrepõem em larga medida às dificuldades em fazê-lo).

 

A acrescentar a tudo isto, muitas destas pessoas já não acreditam nas instituições e desejam uma revolução que permita começar tudo do zero. Essas pessoas, há umas décadas, seriam de esquerda, hoje são de direita. É irresistível pensar que a nossa matriz cultural judaico-cristã tem aqui uma influência extraordinária: a ideia emocionalmente apelativa de um dilúvio que destrua e apague tudo, mas que permita um novo recomeço; acompanhada, claro, da ilusão de que lhe sobreviveremos porque estaremos cada um de nós dentro da Arca de Noé.

Podem-se apresentar várias causas possíveis para a raiva das pessoas contra as instituições: a desigualdade social que tem vindo a aumentar de modo ostensivo; a corrupção com a cumplicidade dos grandes poderes; o uso da força com quem é fraco e as manifestações de fraqueza com quem é poderoso; a sensação de absoluta impotência face aos poderosos; o sentirem-se remetidas para uma solidão cada vez maior; e a constatação de que a sua voz não é ouvida por nenhum decisor com poder.

Peguemos, a título de exemplo, no caso da desigualdade. Os protestos destas pessoas são sempre contra um determinado tipo de desigualdade, real ou imaginária, mas não contra onde ela é maior e causa verdadeiramente o seu mal-estar. Explicando melhor, as pessoas pegam nessa raiva contra os poderosos (que sabem ser sem esperança, visto que as instituições que deviam regular o poder falharam) e desviam-na para grupos minoritários e mais inofensivos.

 

E aqui, surge um outro problema. Os conflitos de opiniões são inevitáveis numa democracia e não a põem em perigo, pelo contrário. Mas quando ficamos convencidos de que o benefício de outro grupo é um prejuízo para nós, quando não sentimos que estamos todos no mesmo barco, que há gente que deve ir borda fora (e que podemos fazê-lo sem custos), que não há qualquer interesse em trabalhar em conjunto para resolver os problemas, então estamos em território muito perigoso (que pode chegar à guerra mesmo).

 

Além disso, um novo fator a ter em conta, hoje em dia, é o facto de as redes sociais terem um papel extraordinariamente importante na comunicação, coordenação e afunilamento de crenças e de esforços em tempo real. O problema é que elas nunca incentivam a manter as pessoas e as ideias calmas, pois não é isso que lhes faz gerar tráfego nem dinheiro. Ou seja, elas tendem a fornecer mais combustível para incendiar as mentes das pessoas.

Portanto, nas redes sociais, temos um dilema: como é que a nossa sociedade consegue proteger uma maioria relativamente calma de uma minoria relativamente violenta? Por autorregulação das próprias redes? Quando o fazem, elas são criticadas por fazerem censura. Por imposição do poder político? Outra vez críticas de censura. Não se vê uma saída fácil para a complexidade desta situação.

 

Porém, pelo menos ao nível do contacto direto com estas pessoas, o que podemos nós fazer para contrariar estes movimentos disruptores da nossa democracia, tanto no que se refere à emergência de ideias, crenças e sentimentos retrógrados e agressivos, como no que se refere à sua coordenação e à sua posterior transformação em ações violentas?

 

A primeira sugestão é claramente começarmos por ouvir as frustrações destas pessoas. Não só para perceber e validar as suas emoções, mas também para descobrirmos com que circunstâncias elas se sentem exatamente revoltadas. E não, não serve absolutamente para nada confrontá-las com argumentos, ou com julgamentos ou com condenações. Elas sentirão tudo isto como um ataque pessoal e irão entrincheirar-se mais solidamente nas suas ideias e nas suas emoções negativas (que serão, por este processo, ainda mais exacerbadas).

A seguir, tentarmos saber que benefícios concretos (não os vagos e abstratos para a sociedade em geral, dado que não são esses que movem verdadeiramente as pessoas a um nível individual) elas esperam obter por meio de uma mudança de políticas.

Depois, procurarmos encontrar soluções abrangentes e satisfatórias para todos, tendo o cuidado de, no processo, e sem tentar enganá-las, esforçarmo-nos por conseguir acender e alimentar a esperança de uma vida melhor para todas estas pessoas.

Encontradas as soluções mais inclusivas para a satisfação das necessidades de todos, o passo seguinte é unir e canalizar os esforços das pessoas para pressionar efetivamente os poderes a porem em prática estas soluções, dando assim a elas benefícios concretos (por exemplo, garantindo uma melhor distribuição da riqueza a fim de se gerar menos desigualdade).

Finalmente, e não menos importante do que tudo o resto, lutar pela reconciliação, a fim de levar as pessoas a sentirem-se suficientemente seguras para poderem deixar de ser tribais. Nomeadamente, para porem de lado a noção de que a tribo dos outros está contra a minha e a pô-la em perigo .

E podermos passar todos, dentro deste território, a viver em paz e com bem-estar, como uma só comunidade e um só povo.


quarta-feira, fevereiro 03, 2021

sexta-feira, janeiro 29, 2021

Como escolho em quem votar?

A minha posição política face a todas as eleições define-se através da resposta a duas perguntas que considero determinantes para a minha decisão.

1º, qual o principal problema-raiz do nosso país, origem de todos os outros, a que se deve dar a máxima atenção? A CORRUPÇÃO, não dos pobres e desprotegidos que essa a polícia dá bem conta dela; mas a dos ricos e poderosos que é muito mais terrível, destruidora e impune, e que lançou tantos milhares de famílias na miséria nos últimos anos.

2º, quais são os VALORES a que eu dou mais importância na política? Compaixão pelos injustiçados. Coragem para enfrentar os poderosos (todos os poderosos, incluindo os do seu próprio partido, e não os fracos e indefesos, pois isso apenas revela cobardia). Decência. Honestidade. Fidelidade a valores democráticos. E simples boa educação.

Porque houve uma candidata que sempre revelou em toda a sua vida que preenche estes requisitos no mais elevado grau, todos sem exceção, eu votei em Ana Gomes para Presidente da República Portuguesa, em 2021.


(foto de Eduardo Gageiro)


terça-feira, dezembro 15, 2020

 


Sobre o assassínio de Ihor Homenyuk, gostaria de saber a resposta para as seguintes interrogações que não vi ainda respondidas e que me parecem essenciais para um crime destes nunca mais se repetir:


Porque é que os abusos e a tortura (sem assassínio) sobre prisioneiros iraquianos em Abu Grhaib, pelos militares americanos, causou choque e revolta em todo o mundo, enquanto o assassínio de um cidadão estrangeiro, livre e inocente, por um órgão de polícia criminal europeu, o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras de Portugal não pareceu causar pelo menos o mesmo horror ao longo dos últimos meses? Só por não haver, ao contrário de em Abu Grhaib, fotos das sevícias e do posterior assassinato?


Que critérios e métodos de seleção existem para entrar nesta força policial que favorecem a presença de características abusadoras e, em alguns casos, assassinas nos seus agentes?


Sendo agentes de um órgão de polícia criminal, «sob a direção e em dependência funcional da autoridade judiciária competente», portanto treinados para obedecer a ordens, com uma Lei Orgânica (Decreto-Lei n.º 240/2012, Artº 61) que impede o uso da força, exceto em dois casos extremos, que ordens não escritas receberam para se sentirem no direito de tratarem continuadamente com violência cidadãos estrangeiros?


Que instrumentos de trabalho, que tipo de instalações, que tipo de pressões sofrem e que tipo de treino recebem os agentes deste órgão policial que acabam a facilitar a presumível prática continuada de crimes de violência sobre cidadãos estrangeiros inocentes?


Que direitos não são permitidos a quem é cidadão estrangeiro a querer entrar em Portugal, por lei ou pela prática aceite no S.E.F., e que favorecem uma extensão de mais violência sobre pessoas inocentes?


Que medidas concretas tomaram as chefias para prevenir, controlar, punir e evitar a repetição de atos injustificados de violência sobre cidadãos estrangeiros?

Mais geralmente, sabendo pela investigação científica que existem fatores disposicionais, situacionais e sistémicos que contribuem para a ocorrência de abusos, quais as medidas concretas e práticas que foram ordenadas ao abrigo do Artº 16 da mesma Lei Orgânica?

Quais as consequências que os dirigentes tiraram da ineficácia das inspeções ordinárias anuais (Artº 16)? Ou nunca se deram conta dessa ineficácia?


Lei Orgânica do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras





quinta-feira, dezembro 03, 2020

Dia Internacional das Pessoas com "Discapacidades"

 
(sim, eu sei que esta palavra não existe e que, em português se usa habitualmente "Deficiência", mas opto por este neologismo por representar melhor a realidade),

gostaria de divulgar a organização Special Books by Special Kids, fundada em 2016, publicando aqui o vídeo seguinte (de entre centenas já realizados).

Chris Ulmer entrevista pessoas com qualquer tipo de “discapacidade” (incluindo, naturalmente, pessoas com oscilações de saúde mental) que lhe pediram para comunicar e partilhar com todos os que as quiserem ouvir não só a sua história, mas também quem verdadeiramente são.

Todas as entrevistas são verdadeiramente maravilhosas e constituem experiências absolutamente transformadoras. Neste vídeo, deliciem-se a conhecer a Michelle:


Note-se que os comentários no Youtube estão desativados por decisão imposta pelo próprio Youtube, nunca tendo consultado a organização (que, aliás, não concordou com essa decisão).

sexta-feira, agosto 02, 2019

O massacre das crianças continua

De tempos a tempos, vamos tendo (poucas) informações acerca do que as crianças passam no seu dia-a-dia. Foi agora com a notícia desta sua exposição em casa ao fumo de tabaco dos adultos.

Como foi há uns meses a sua sujeição a maus tratos, segundo o projeto Geração XXI
Recordo: 75% por cento sofre de maus tratos; 10% sofre de maus tratos violentos… que se traduzem no serem chicoteadas com um cinto, no serem espancadas com um objeto duro e no serem queimadas – sim, com cigarros, com fogões acesos e com água a ferver, só para dar alguns exemplos que os hospitais conhecem.

Porque na nossa sociedade as crianças quase nunca têm voz nem têm quem fale por elas suficientemente alto (como, por exemplo, os animais têm). Por baixo do silêncio que lhes impomos (como querem muitos, as crianças são para serem vistas, não para serem ouvidas), corre um imenso rumor de sofrimento invisível que nos recusamos a reconhecer e sobre o qual nem sequer desejamos falar ou discutir.

Na verdade, apenas uma lei frágil (que quase toda a gente ignora) as defende da barbárie, mas pouco faz (ou pode fazer?) para as proteger da violência física e psicológica das famílias.

E os políticos? Vejam-se as Grandes Opções do Plano para 2019, em que a palavra criança aparece 16 vezes - juntamente com a palavra idosos e referindo genericamente a proteção social: 1 vez. Com questões económicas: 11 vezes. Com saúde visual: 4 vezes. E mais nada. Como se a infância se reduzisse a isto.

Acredito que, tal como nós agora pensamos o que pensamos das sociedades esclavagistas, daqui a 500 anos (quem me dera que fosse menos, muito menos) as pessoas irão julgar a sociedade atual como incompreensivelmente selvagem e bárbara pela forma como estamos a tratar hoje as crianças.

sábado, julho 20, 2019

Exames e crueldade

«“Uma das provas mais difíceis de que há memória.” É deste modo que a Sociedade Portuguesa de Física (SPF) classifica o exame da 2.ª fase de Física e Química A do 11.º ano, realizado nesta quinta-feira por 21.258 alunos. (…)» (Público, 20/07/2019)
(Repare-se que não é uma associação de professores que vem dizer isto, é uma sociedade de físicos, de cientistas.)
Interrogo-me que espécie de satisfação ou de felicidade tirarão os anónimos autores desta prova (e doutras semelhantes) por assim darem largas à sua crueldade. Porque eles sabem como os exames decidem da vida futura dos jovens. E que quanto mais difíceis forem, mais excluem aqueles que não pertencem às elites endinheiradas.
Na verdade, sinto-me crescentemente assustado com esta sociedade cada vez mais fria e desumana.

quinta-feira, novembro 29, 2018

Leitura(s) de «Parábola do Cágado Velho», de Pepetela (D. Quixote)



A leitura que fiz deste livro passou por três momentos distintos:

1º, vai até ¾ do livro. Foi-me difícil manter a leitura porque não senti haver alegria, mas sim o peso constante da ameaça dos soldados aparecerem para executarem as atrocidades que todos os soldados fazem em guerra.
Aliás, fui logo ao fim do livro para saber como acabava, com a esperança de que acabasse em bem, para eu poder ler o livro mais descansadamente.
Entretanto, nem a serenidade de Ulume me permitiu ter prazer na leitura, prazer esse que esteve ausente nesta parte.
A verdade é que, nos livros, eu não suporto a violência. Além disso, preciso de um pouco de fantasia e, aqui, o que lia era a realidade.
Foi neste 1º momento que me apercebi que Pepetela, com esta história, mostra como a guerra é encarada do ponto de vista dos civis. Mostra como a guerra lhes é incompreensível, tanto ao nível de acontecimento geral como ao nível mais individual das relações com e entre soldados. Esta história exemplifica uma convicção minha de que a guerra raramente é desejada pelo povo que a abomina: são os políticos e os militares que a desejam, a impõem e a levam por diante (aliás, muitas vezes beneficiando com ela).

2º, corresponde à parte final, a partir do retorno de Munakazi. Foi a parte mais bonita e a mais profunda (a guerra não deixa aprofundar nada do que é humano, obriga-nos a ficar pela superficialidade da sobrevivência, que temos em comum com os outros animais) do livro e a que me deu mais prazer ler. Também contribuiu para isso o abrir-se a promessa de paz nesta parte.

3º, depois da leitura finalizada, durante os dias seguintes e até hoje. Ficou-me viva a figura de Ulume, a sua simplicidade, a sua sabedoria e a sua resistência à força bruta que vem com as armas.
Armas que são capazes de ganhar todas as batalhas, mas nunca a guerra. Nesta ninguém ganha verdadeiramente e todos perdem – nem que seja só a dignidade ou, os mais afortunados, só as ilusões.
Todo o ser de Ulume me envolveu e impregnou o meu espírito nos dias seguintes à leitura do livro. A ameaça da presença/ausência dos soldados e da guerra não desapareceu, mas saiu da boca de cena da minha memória para ficar apenas como seu pano de fundo.

Uma interrogação se foi corporizando no meu espírito à medida que passavam os dias: quem seria o cágado, o que quereria Pepetela simbolizar com ele ao ponto de lhe dar uma centralidade com o título que, no romance, ele não tem?
Aos poucos foi-se definindo uma série de outras interrogações-respostas.
O cágado poderia simbolizar-nos a todos nós, leitores deste seu romance?
Na verdade, não vivemos nós nas cavernas seguras e protegidas das nossas vidas, das quais saímos pouco e sem prestar muita atenção à vida verdadeira que se desenrola à nossa volta?
Não fazemos uma vida sempre mais ou menos igual? “Comendo” o que nos é oferecido (aqui pela natureza e por Ulume) e só parando para sair dos nossos mundozinhos privados quando a aflição dos outros (Ulume) trespassa o nosso egoísmo? E, mesmo assim, apenas para lhe dar a essa aflição uma atenção momentânea?
Poderei dizer, então, que o cágado é a forma de Pepetela nos alertar para a vida que nos passa ao lado desapercebida? Aquela que poderia ser vivida em plenitude?
Claro, com as suas derrotas mas também com as suas vitórias; com as suas perdas mas também com os seus ganhos; com os seus sofrimentos mas também com as suas alegrias. E, no entanto, esta não será talvez a vida autêntica?
Em suma, o que Pepetela nos confrontaria seria com a questão: poderemos deixar de ser o cágado desta história (acabada) e tornarmo-nos o Ulume das nossas histórias por/que podemos construir?

Adenda – Citações a assinalar:
p. 140, li. 6 – «Os antigos diziam as palavras eram tudo, eram força. Pode ser, no passado. Quando se usavam as palavras exactamente para se dizer o que se pensava e não como armas para confundir os outros. (…)»

p. 151, li. 1-2 – Muari: «(…) Se esquecer não podemos, nunca pudemos, será tão difícil perdoar a quem tanto sofreu?»
A refletir: Muari desempenha nesta história um papel que requer uma reflexão mais aprofundada, talvez uma releitura do livro. Papel de submissão, de bondade, de aceitação e de compaixão? Ou de tudo ao mesmo tempo, a revelar uma sabedoria que acompanha a do marido, embora sendo diferente da dele?

domingo, outubro 14, 2018

Continuo genuinamente a interrogar-me, sem conseguir compreender:

Como pode um cristão votar num candidato que defende a pena de morte, pena essa que serviu para assassinar Jesus Cristo, a maior parte dos apóstolos e um número incontável de cristãos inocentes por todo o mundo?

Contra a pena de morte, sempre!

“Você quer como seu representante político máximo um homem que defende publicamente a pena de morte.

Você sabe que, se eu for condenado injustamente (eu não sou criminoso e erros judiciários existem), esse seu representante vai querer que eu seja morto.

Como pode então você ser meu amigo ou minha amiga?

Jamais apoiarei alguém que defenda um sistema que, em nome do Estado e da lei, permite matar você ou a sua família por engano ou por ódio.”

Por isso, a defesa da pena de morte é a minha linha vermelha absoluta.

segunda-feira, julho 30, 2018

«Tu és só a tua vida» (Jean-Paul Sartre)


Como dizia Vergílio Ferreira, não basta ler, é sempre preciso ler um pouco mais (Conta-Corrente 3, 22 de Dezembro de 1980). A minha sugestão de leitura para Ricardo Robles e Catarina Martins é Huis-Clos, de Jean-Paul Sartre (À Porta Fechada, na tradução portuguesa de Virgínia e Jacinto Ramos, Livros Cotovia, 2013). Assim, perceberiam melhor o que lhes está a acontecer. Mas eu vou dar uma ajuda.

Nesta peça de teatro, Garcin está no inferno depois de, num contexto de guerra e sendo um pacifista, ter resolvido fugir para outro país (México) para fundar um jornal pacifista e não permitir que a sua voz fosse silenciada. Foi apanhado, julgado e fuzilado, e a opinião generalizada entre os vivos é a de que ele fugiu e foi, portanto, um cobarde. Este é o dilema de Garcin e do qual só ele pode decidir (apesar de pedir aos outros que o façam por ele): foi ou não realmente um cobarde?

Ele analisa as razões que o levaram a fugir, mas «O ato lá estava. Eu… Eu parti no comboio, aí está uma coisa certa.» (p. 45). Os outros «Pensam: Garcin é um cobarde. Eis o que decidiram os meus companheiros. Daqui a seis meses dirão: cobarde como Garcin.» (p. 46)

Ricardo e Catarina não entendem qua a opinião pública, mais até do que a publicada, já decidiu também. Além de pensar como Inês:
«Sonhaste trinta anos que eras corajoso e passavas por cima de mil fraquezas, porque aos heróis tudo é permitido. Como isso era cómodo! Depois, na hora do perigo, encostaram-te à parede e… apanhaste o comboio para o México. (…) Só os atos decidem aquilo que quisemos. (…) Ah! Como tu agora vais pagar! És um cobarde, Garcin, um cobarde, porque eu quero que sejas um cobarde. Eu quero, ouves, eu quero! E no entanto vê como sou fraca, um sopro; não sou nada para lá do olhar que te vê, para lá deste pensamento incolor que te pensa. (…)» (p. 51)

Infelizmente, ao que indicam as suas declarações, Ricardo Robles acabará, se é que não o fez já, por concluir, como Garcin: «[No inferno] Não são precisas grelhas [para tortura]: o inferno são os Outros.» (p. 53)

sábado, julho 21, 2018

Luta(s) dos professores


Dado: manifestações e greves são úteis para demonstrar descontentamento, mas ineficazes para conseguir reparar o erro e a injustiça.

Solução: Há que subir um patamar na luta contra o poder abusivo.

Eis as minhas propostas, por ordem crescente de sacrifício e de risco pessoal.

Solução A: Ocupação da escola a tempo integral
Quando Lurdes Rodrigues foi ministra da educação, uma das coisas de que acusou os professores foi de que eram os da Europa que menos tempo passavam na escola. Isso, na altura, deu-me a ideia desta forma de luta. Talvez não se saiba que as escolas não têm nem espaços nem equipamentos suficientes para os professores fazerem delas o seu local de trabalho (por exemplo, a escola onde eu estava tinha apenas duas salas, uma com um computador e outra com quatro computadores e uma impressora para cerca de 100 professores). Por esta razão, todos os professores têm que “queimar” uma divisão da sua casa transformando-a em escritório. Ora, nesta forma de luta, os professores param de aceitar que o seu espaço familiar seja invadido pelo trabalho e passam as horas todas de trabalho na escola. O sistema entope, bloqueia e paralisa? Naturalmente, mas é essa a ideia.

Solução B: Desobediência
É simples, esta forma de luta, basta desobedecer. Então e o grande terror dos professores de serem sujeitos a um processo disciplinar? A essa pergunta respondo com outra: quem faz os processos disciplinares dos professores? Resposta: são professores. E se estes se recusarem a fazê-lo? O Governo não pode fazer nada. Em 2017, o sistema público não superior englobava mais de 125 mil docentes. Nunca haverá advogados suficientes para levantarem processos a 125 mil pessoas.

Solução C: Greve da fome
Dentro das soluções pacíficas, é a mais radical. A questão que cada um tem de se pôr é a seguinte: a injustiça contra a qual estou a lutar é tal que justifica o sacrifício a fazer? Se a resposta for não, então só resta a submissão e dá-se a vitória ao Governo. Porém, se essa injustiça é de tal dimensão que merece o combate e o sacrifício pessoal, então a escolha está feita. Mais uma vez, não exigiria muito. Em 2017, existiam mais de 2600 estabelecimentos de ensino não superior. Com um só professor a fazer greve da fome por cada estabelecimento de ensino, o total já seria um número estarrecedor e surgiria nos noticiários do mundo inteiro, provavelmente. O seu impacto seria tremendo.

Reflexão final
Há a garantia de a luta ser bem sucedida? Como qualquer luta contra o poder, a resposta é evidentemente negativa. Mas uma vida de impotência e de submissão à opressão e à injustiça não será uma alternativa muito pior?

quinta-feira, fevereiro 08, 2018

A reação do espectador à intensidade do ator


Diz Gonçalo M. Tavares (GMT), no Jornal de Letras de 31 de Janeiro de 2018:

«Como medir a intensidade de um ator? (…)
(…) Uma hipótese de resposta: pela reação do espectador, pelo impacto provocado no espectador, eis a pista. (…)»

Pergunto-me: há linearidade entre a reação do espectador e a intensidade do ator que a provoca?

(Aliás, uma outra questão interessante seria determinar se a intensidade, tal como aqui é entendida por GMT, tem só a dimensão quantitativa, ou também tem uma dimensão qualitativa? Isto é, por hipótese também, uma intensidade poderia ser forte e, no entanto, desajustada, inadequada? Não irei discutir isto aqui e assumirei que inclui ambas  em sintonia.)

Penso que nos níveis baixos e médios se pode aceitar a correspondência. Assim:

Se a intensidade for má, surgem protestos, verbais ou não (como, por exemplo, abandonar a sala antes de terminado o espetáculo).

Se for medíocre, o espectador distrai-se, boceja, perde-se no telemóvel, comenta para o lado.

Se for suficiente, ele aplaude brevemente e sai.

Se for boa, aplaude convicta e demoradamente, como se não quisesse abandonar a sala, como se desta maneira alcançasse prolongar a experiência da intensidade.

E se for muito boa ou excecional? Que meios excecionais pode usar o espectador para mostrar que assistiu a algo de excecional?

Penso que encontro a resposta num velho livro sobre Coimbra, lido há largos anos na Biblioteca Nacional, e cujo nome já perdi.

Segundo relatado aí, há muitos, muitos anos, a forma que o público tinha de mostrar a sua total rendição à excelência de uma serenata de fados era acolhê-la com o mais absoluto e reverencial silêncio.

Parece-me perfeito.

Pois não é assim que permanecemos quando ficamos maravilhados e assombrados por uma experiência artística e estética ímpar: em completo silêncio?

sexta-feira, janeiro 05, 2018

"Nova lei do financiamento dos partidos" e a técnica "porta na cara"


A técnica de rejeição seguida de recuo (ou técnica “porta na cara”) é uma manipulação que consiste em o manipulador fazer um primeiro pedido exagerado e absurdo que irá, sem dúvida, ser criticado e rejeitado.

Passado algum tempo, ele finge que refaz a proposta e apresenta um novo pedido que, por comparação com o anterior, parece resultar de várias concessões que ele fez. “Parece” apenas, porque este último pedido é o que ele desde sempre pretendeu ver realmente satisfeito.

Face a essas aparentes concessões por parte do manipulador, esse pedido encontrará do outro lado o impulso inconsciente de retribuir também com concessões, sendo agora facilmente aceite sem críticas de maior.

E o manipulador acaba por conseguir obter o que sempre quis desde o início.

Os deputados não são parvos (embora possam querer que nós pensemos isso deles). Eles sabiam perfeitamente que a sua proposta de nova lei de financiamento dos partidos era ultrajante. Na minha opinião, ao votarem a nova lei de financiamento dos partidos, eles limitaram-se a usar conscientemente a primeira parte da técnica “porta na cara” descrita acima. E o Presidente da República vetou-a.


Adenda

José Ribeiro e Castro tem um artigo muito informativo e esclarecedor sobre a vida legislativa da Assembleia da República que vale a pena ser lido:

As leis do quarto escuro

sexta-feira, dezembro 08, 2017

Sabedoria sem Certezas

«(...) exibindo a suficiência intolerável e desesperadamente densa que nada a não ser a frequência da ciência pode dar à obtusidade do comum dos mortais.»
Joseph Conrad, O Agente Secreto

Às vezes, fico convencido que sei algo com total segurança. É durante pouco tempo, porque percebo bem que é uma ilusão. Habitualmente, tenho a plena consciência da imensidão da minha ignorância. Mas, às vezes não.

Porque é que isso acontece? Em parte, porque confio no que estou a sentir; e sentir que estou certo funciona como uma garantia para a verdade. No entanto, basta-me recordar as vezes, imensas vezes anteriores em que senti o mesmo e estava redondamente enganado, para ganhar um pouco de humildade.

Por vezes, a minha experiência particular confirma a informação que colhi. Daí até concluir que ela é generalizável a toda a gente e que, por isso, tem de ser verdadeira, o salto é muito pequeno; e, quando estou mais distraído, dou-o.

Mas também tendo a sobrevalorizar o que sei pela sua novidade – tenho este preconceito a favor do que é novo; mas realmente novo, não do que é um antigo serôdio reciclado e com roupas novas a disfarçar.

Depois, o estudo que fiz do assunto faz-me acreditar que fiquei a saber a última palavra acerca dele. Ou ainda as leituras que fiz. Por exemplo, os artigos de divulgação científica que apresentam as matérias de uma forma simplificada e facilmente compreensível dão-me a ilusão de que fiquei a dominar o tema.

Ora, mesmo que eu tivesse feito um estudo exaustivo, o que obviamente não é possível (a menos que eu dedique a minha vida apenas a esse assunto e consiga ir acompanhando mais ou menos o que se vai publicando sobre ele), sabemos que a ciência avança, oscilando entre o erro e a sua correção: o que é hoje verdade pode não o ser amanhã. Portanto, nem mesmo na ciência se pode confiar totalmente para obter certezas.

Se é assim, então porque recorro à ciência? Porque ela é o melhor método que a humanidade encontrou para descobrir e provar que determinada teoria, científica ou não, é falsa. Sim, quero mesmo dizer falsa, não verdadeira. É fácil provar que uma teoria é verdadeira, enquanto ninguém encontrar algo que a invalide.

Assim, aquilo que a ciência não consegue demonstrar como falso vai sendo, então, provisoriamente considerado como verdadeiro – a ênfase aqui é no “provisoriamente”, não no “verdadeiro”. Então, disto permito-me ter uma razoável certeza: até ao momento, não existe outra maneira melhor, mais objetiva (não dependente de idiossincrasias pessoais), mais sistemática, mais rigorosa e mais vigiada de conseguirmos aproximarmo-nos da verdade.

Finalmente, creio que o meu autoconvencimento vem também da necessidade de segurança das pessoas que as leva a quererem ouvir certezas simples, monolíticas e infalíveis, e não divagações sobre um campo de dúvidas fragmentadas, sempre relativamente pouco iluminado. Existe aqui uma pressão subtil para que eu verbalize certezas; de todo o modo, isso não serve de justificação para o fazer.

Porque o sábio não é aquele que sabe o que diz, mas é aquele que sabe como e quando o dizer (ou não), independentemente do que os outros (e às vezes ele próprio!) desejam.

Escola de Atenas, Rafael, 1511