And The Waltz Goes On, de Sir Anthony Hopkins, por André Rieu
A vida. Tão pouco e tão tanto. (...) E todavia eu sei que "isto" nasceu para o silêncio sem fim... (Vergílio Ferreira)
domingo, janeiro 27, 2013
O ocaso do trabalho humano
Desde sempre, até a mais humilhada das pessoas sabia que a sua existência tinha valor económico porque possuía três características que lhe garantiam um lugar no meio dos seus semelhantes, mesmo que esse lugar fosse o mais pobre de entre os pobres: a capacidade de trabalhar, a capacidade de aprender e a capacidade de prover à sua subsistência.
Hoje em dia, e pela primeira vez na história, isso desapareceu.
A tecnologia de hoje, e de um futuro cada vez mais próximo, já consegue fornecer substitutos bem mais equipados, mais incansáveis, mais exactos, mais cumpridores, em suma, mais capazes: os computadores, a automação, a inteligência artificial. Por outras palavras, os robots.
A ideia de que eles seriam incapazes de realizar e de aprender tarefas mais exigentes cognitivamente pertence, literalmente, ao século passado.
Cada vez mais nos deparamos, no nosso dia a dia, com a ausência de seres humanos em locais de trabalho. Seja desde a atender uma chamada que façamos, ou a fabricar um carro, o factor humano no trabalho está a desaparecer porque obsoleto. Trazendo, claro, gigantescos lucros para os possuidores desses meios tecnológicos; e uma desesperada pobreza para a grande maioria dos que os não possuem.
Haverá sempre necessidade de humanos para desempenhar algumas tarefas a troco de um salário: não somos como os cavalos ou os bois que foram substituídos pelos carros e pelos tractores. Mas a maior parte do trabalho irá sem dúvida ser desempenhado por máquinas. A verdade assustadora é que os seres humanos, na sua maioria, estão a tornar-se supérfluos.
O problema é o facto de a riqueza produzida ficar concentrada nas mãos dos grandes proprietários e não ser distribuída mais equitativamente.
Evidentemente que existe a possibilidade de a tecnologia poder vir a promover a criação de mais trabalho. Só que essa não é a tendência a que se assiste.
Assim, para mim, apenas consigo imaginar como solução um Estado protector que possa garantir que todos tenham acesso à propriedade tecnológica (e não ficar só nas mãos de alguns). E também a garantir algum capital a todos que permita a criação de pequenos negócios (com a possibilidade de recurso a robots também, embora mais simples).
sábado, janeiro 26, 2013
A música mais relaxante do mundo
A banda britânica Marconi Union criou a peça musical mais relaxante do mundo: Weightless (cuidado: não pode ser ouvida enquanto se conduz o carro ou se realiza qualquer outra actividade que exija toda a nossa atenção!). Deve ser ouvida em toda a sua extensão para fazer efeito.
Mescla os sons de guitarra, piano, sons (electrónicos) da natureza e, ainda, cantos budistas, mas sem uma melodia de base para não criar expectativas perturbadoras do que virá a seguir. Confesso que, a mim, irritou-me um bocado, mas as pessoas são diferentes e pode ser que resulte para outros.
O trabalho foi feito em colaboração com terapeutas do som e, depois, testado por uma equipa de cientistas. Para pormenores, ir aqui.
Já agora, as dez peças musicais eleitas como mais relaxantes:
1. Marconi Union - Weightless
2. Airstream - Electra
3. DJ Shah - Mellomaniac (Chill Out Mix)
4. Enya - Watermark
5. Coldplay - Strawberry Swing
6. Barcelona - Please Don't Go
7. All Saints - Pure Shores
8. Adele - Someone Like You
9. Mozart - Canzonetta Sull'aria
10. Cafe Del Mar - We Can Fly
Mescla os sons de guitarra, piano, sons (electrónicos) da natureza e, ainda, cantos budistas, mas sem uma melodia de base para não criar expectativas perturbadoras do que virá a seguir. Confesso que, a mim, irritou-me um bocado, mas as pessoas são diferentes e pode ser que resulte para outros.
O trabalho foi feito em colaboração com terapeutas do som e, depois, testado por uma equipa de cientistas. Para pormenores, ir aqui.
Já agora, as dez peças musicais eleitas como mais relaxantes:
1. Marconi Union - Weightless
2. Airstream - Electra
3. DJ Shah - Mellomaniac (Chill Out Mix)
4. Enya - Watermark
5. Coldplay - Strawberry Swing
6. Barcelona - Please Don't Go
7. All Saints - Pure Shores
8. Adele - Someone Like You
9. Mozart - Canzonetta Sull'aria
10. Cafe Del Mar - We Can Fly
sábado, outubro 13, 2012
Pequena resposta a uma crítica injusta à escola pública
Respigo uns comentários no facebook de alguém a propósito da superioridade das escolas privadas (e que, provavelmente, são subscritas por algumas, espero que poucas, outras pessoas):
Entre as várias diferenças estão: Se na escola privada o professor dá sinais de não perceber muito bem o que anda ali a fazer é convidado a sair, na pública é convidado a ficar. No público os professores aproveitam os artigos todos. No privado não há artigos há trabalho.
O público só não copia os bons exemplos porque não quer ...
Também não é pelo número de alunos que as privadas funcionam melhor ... veja-se o Colégio de Vilamoura com 800 alunos e é um exemplo nacional ... às portas de Loulé... até promovo uma visita guiada com as direcções das escolas públicas que quiserem ... não sei se há quem queira claro!
Entre as várias diferenças estão: Se na escola privada o professor dá sinais de não perceber muito bem o que anda ali a fazer é convidado a sair, na pública é convidado a ficar. No público os professores aproveitam os artigos todos. No privado não há artigos há trabalho.
O público só não copia os bons exemplos porque não quer ...
Também não é pelo número de alunos que as privadas funcionam melhor ... veja-se o Colégio de Vilamoura com 800 alunos e é um exemplo nacional ... às portas de Loulé... até promovo uma visita guiada com as direcções das escolas públicas que quiserem ... não sei se há quem queira claro!
Caro senhor, aproveito este espaço para lhe dizer com todo o respeito:
O senhor está enganado, terrivelmente enganado. Provavelmente, é vítima da propaganda que quer acabar com a escola pública.
O senhor vem falar de como cuidar de um campo de flores e eu
vou falar-lhe de professores num quase teatro de guerra cuja tarefa primordial é sobreviver e tentar salvar da barbárie o maior número possível de crianças e jovens.
Na verdade, a ignorância que o senhor revela ao falar dos professores da escola pública é
tão desproporcionada que não me posso calar. E explico-lhe porquê.
Primeiro, porque se os seus filhos e a sua família ainda
conseguem andar nas ruas em relativa segurança é porque a escola pública e os seus docentes e funcionários recebem
e tentam também educar reais e potenciais delinquentes.
Segundo, porque o senhor não sabe o que é ter o seu carro incendiado; não sabe o que é ser insultado e ameaçado
diariamente, física e psiquicamente; não sabe o que é chegar a levar uns
valentes pontapés e bofetadas; não sabe o que é ter alunos seus (que
podiam ser os seus filhos) a serem enviados para o hospital, uns em coma,
outros nem tanto, perante a impotência dos professores; não sabe o que é chamar em desespero
a polícia e esta não poder vir porque está ocupada noutras escolas
com acontecimentos similares. Que fique registado que isto é apenas uma pequena amostra de acontecimentos que foram testemunhados por mim.
E já agora, deixe-me que lhe diga que o senhor também não sabe, não
pode saber, o que é sentir o orgulho de ter alunos com Necessidades Educativas
Especiais em quase todas as turmas, miúdos e miúdas, muitos dos quais são expulsos
ou cuja entrada é recusada por escolas privadas. Sim, repito, por escolas privadas.
Apesar de eu ter conseguido sair desse inferno (sem nada nas mãos e
tendo que começar toda uma nova vida), nunca deixarei de estar ao lado dessas
centenas e milhares de professores (na verdade, professoras na sua maioria), a fazerem diariamente das tripas coração e
a trabalharem nestas martirizadas escolas públicas, sabendo esses professores que jamais obterão
da sociedade o reconhecimento, e muito menos a gratidão, que merecem.
Tendo, ainda por cima, de ouvir
pessoas, como o senhor, que estão convencidas de que sabem tudo e que na verdade pouco ou nada
sabem do que criticam.
domingo, setembro 16, 2012
E depois da manifestação?
Estive na manifestação contra a Guerra no Iraque (com
milhares de pessoas em Portugal e mais uns milhões de pessoas por todo o
mundo).
Estive nas megamanifestações dos professores.
E noutras. Sabemos a resposta que obtiveram por parte do poder.
Fazer manifestações dá-nos a ilusão de que fizemos alguma
coisa. Mas não fizemos nada, a não ser mostrar que “não estamos a gostar”. Daí
até conseguirmos demonstrar que “não aceitamos” vai uma distância considerável. E exige
de nós bastante mais do que a participação numa simples manifestação (por mais
convictamente zangada e/ou cívica que ela se revele).
Uma manifestação pode ter algum efeito numa democracia
plena. Há muito que não estamos a viver numa democracia plena.
Para enfrentar com sucesso o poder instalado (do qual o poder
político é, na maior parte das vezes, apenas um mero testa-de-ferro) outros
meios são necessários.
No regime em que estamos a viver, só nos restam dois tipos
de meios: a luta armada (foi assim que o 25 de Abril foi feito, com as armas a
liderarem a iniciativa) ou a resistência não-violenta, que eu prefiro (e que
nada tem de passiva, note-se!), embora implique grandes sacrifícios pessoais e
familiares.
Não há melhor exemplo que a clássica história dos
acontecimentos que se iniciaram com Rosa Parks, em 1955, no Sul dos EUA. Tendo
pago o seu bilhete num autocarro, mandaram-na levantar-se do seu lugar para que
um branco se sentasse. Ela recusou. Foi presa.
Foi anunciado um boicote aos autocarros pela comunidade
negra. Esse boicote durou 381 dias, tendo a maior parte das pessoas feito o
sacrifício de andar sempre a pé. Mas a lei que permitia estas iniquidades mudou. A
empresa teve de escolher entre a falência ou a justiça. Optou pela última.
É que esta linguagem (a que põe em causa os seus lucros) é a
que os empresários, banqueiros, financeiros e economistas, cuja ganância tem levado as famílias e o país à ruína,
entendem.
E nós? Perceberemos o que temos de fazer? E quereremos
fazê-lo?
sábado, setembro 08, 2012
Revelações de um discurso ao país
Quem tenha estado atento ao discurso do primeiro-ministro
ontem, e não deixe que considerações pessoais interfiram no seu julgamento,
ter-se-á apercebido que nas cerca de 2200 palavras que o constituem não se
encontra uma única ideia que confira um sentido à vida actual dos portugueses.
Penso que se pode tirar quase tudo às pessoas, mas há duas
coisas que não: a dignidade e o sonho.
Quanto à dignidade, os nossos governantes, banqueiros e
muitos patrões vivem como se ela não existisse, nem para si próprios nem para
os outros: é uma deficiência, uma incapacidade congénita, pelo que é difícil
culpabilizá-los por isso. Adiante.
No discurso do primeiro-ministro evidencia-se a completa
ausência de um sonho, de um ideal para Portugal. É grave e explica a violência
com que esse discurso está a ser recebido por todo o país. É que o que move as
pessoas não é o dinheiro (e muito menos o dinheiro dos outros) mas sim o sonho.
Já Sebastião da Gama escrevia há muitos anos, com a imensa sabedoria de um
coração puro, que “Pelo sonho é que vamos”. Roubem às pessoas os seus sonhos
individuais e colectivos e o resultado será, no mínimo, imprevisível porque as
pessoas se sentirão espoliadas no mais fundo de si.
Este discurso, em vez de motivar os portugueses para um
esforço colectivo, revela várias coisas que incitam antes à revolta das pessoas bem
formadas.
Primeiro, revela que o ideal indiscutível proposto por Abraham
Lincoln, “que o governo do povo, pelo povo e para o povo jamais desapareça da
face da terra”, desapareceu até do horizonte do actual governo. Hoje, a
preocupação revelada pelo primeiro-ministro neste discurso é de apenas obedecer
às ordens do poder financeiro, interno (beneficiando empresas e bancos) e
externo (a famigerada troika), assumindo-se
assim como um mero testa-de-ferro de outros poderes que não o do povo que o elegeu.
Segundo, para o primeiro-ministro os pobres não existem. Só
assim se explica que o sofrimento e a morte de tantos pobres (lembre-se por
exemplo o aumento de mortes por gripe sem nenhuma razão por detrás que não o
ter-se impedido o acesso à saúde aos mais desprotegidos) possa não
constituir um problema para ele e nem sequer tenha sido considerado: no discurso,
referem-se apenas aqueles que trabalham e aqueles a quem o seu trabalho foi
roubado, mais ninguém (os pensionistas e reformados são referidos de passagem
apenas para lhes lembrar o que lhes continuará a ser tirado).
Gandhi dizia que o critério para determinar se uma lei era
boa ou má consistia em perguntar: esta lei beneficia os mais pobres de entre os
pobres? Se sim, a lei era boa; se não, era má.
Para o primeiro-ministro os pobres não são de todo a sua
prioridade. O culto assumido é apenas o do dinheiro.
quinta-feira, agosto 30, 2012
Em direcção a uma vida simples
O que o Presidente do Uruguai nos sugere é uma coisa que está ao alcance de todos nós: sermos conduzidos pela aspiração apenas a uma vida simples. Que não deixe, no entanto, de ser digna.
Digna aos nossos olhos, não por comparação com os outros. Digna para não termos de nos envergonhar perante o olhar dos nossos filhos, um olhar marcado pela fome, pela miséria, pela destuição do seu direito à felicidade. Daí que a pobreza fique excluída destas considerações.
Mas uma vida frugal, sim. O que o Presidente do Uruguai nos sugere é que não é consumindo que eu exerço o meu direito à felicidade, que eu chego a ser inteiro e livre. Não é por ter coisas e dinheiro e poder.
Voltemos então à noção de uma vida simples: uma vida em que o ser se sobreponha ao ter, uma vida em que o homem e a mulher não vendam aos bancos a sua liberdade e o respeito por si próprios.
domingo, janeiro 01, 2012
Votos para o ano de 2012
Quero incluir aqui o discurso que Leonard Cohen proferiu por ter recebido o Prémio Príncipe das Astúrias, a 21 de Outubro de 2011.
Porque desejo que o ano de 2012 nos traga esses lugares e proteja essas pessoas em que a poesia se encontra com o que de mais alto existe na natureza humana, tal como aqui exemplifica Leonard Cohen com as suas palavras e com a sua atitude. Onde a cortesia, a humildade, o reconhecimento e a verdadeira grandeza brilham de forma inesquecível.
Como disse Lou Reed noutro contexto, "We´re so lucky to be alive at the same time Leonard Cohen is!"
Porque desejo que o ano de 2012 nos traga esses lugares e proteja essas pessoas em que a poesia se encontra com o que de mais alto existe na natureza humana, tal como aqui exemplifica Leonard Cohen com as suas palavras e com a sua atitude. Onde a cortesia, a humildade, o reconhecimento e a verdadeira grandeza brilham de forma inesquecível.
Como disse Lou Reed noutro contexto, "We´re so lucky to be alive at the same time Leonard Cohen is!"
sábado, dezembro 31, 2011
Uff, finalmente a falar do Conjunto António Mafra.
É como abrir a porta e estar em casa.
Andei por tão longe, que fui adiando este encontro primeiro, vindo do som dos carrinhos de choque da minha infância e adolescência.
Sabe-se que a felicidade são momentos, inesperados e formadores - e a música deles põe-me inteiramente feliz, no tempo de uma canção e no tempo logo a seguir.
Reconheci desde miúdo na escrita do próprio António Mafra, que desapareceu cedo mas deixou bem entregues as suas muitas canções, algo que tomei por essencial, só compreendendo aos poucos porquê. (...)
Sérgio Godinho, Ora vejam lá, Conjunto António Mafra
Queria terminar o ano de 2011 com uma nota de alegria. Melhor, de uma garantia de alegria para 2012.
Para esse fim, dificilmente alguém bate o Conjunto António Mafra.
Nada a acrescentar ao que Sérgio Godinho diz.
E eis a canção que este decidiu interpretar num dos seus discos:
sexta-feira, dezembro 23, 2011
Mensagem de Natal, apesar de tudo
Como crianças entretivemo-nos com brinquedos como a Economia, o Progresso, as Tecnologias, a Ciência, a Riqueza, o Desejo de Posse, etc.
Todos esses brinquedos jazem à nossa volta.
E as suas entranhas, à nossa vista, confrontam-nos face a face com a dimensão do nosso desastre, actual e futuro.
Ora, a criança é forçoso que cresça e tal é a exigência do nosso destino nos tempos presentes.
Questão dolorosa, essa: como crescer?
Questão sem respostas definitivas, questão sempre aberta, questão com outras questões metidas dentro.
Mas para que a questão se revele fecunda e permita um real crescimento seria desejável que se verificassem alguns requesitos prévios:
O Mundo, a Natureza e os nossos Filhos precisam de nós.
Boas Festas!
Todos esses brinquedos jazem à nossa volta.
E as suas entranhas, à nossa vista, confrontam-nos face a face com a dimensão do nosso desastre, actual e futuro.
Ora, a criança é forçoso que cresça e tal é a exigência do nosso destino nos tempos presentes.
Questão dolorosa, essa: como crescer?
Questão sem respostas definitivas, questão sempre aberta, questão com outras questões metidas dentro.
Mas para que a questão se revele fecunda e permita um real crescimento seria desejável que se verificassem alguns requesitos prévios:
- Deixar de perseguir, porque nos humilha, diminui e consome energias inutilmente.
- Deixar de fugir, porque nos vitimiza e o que desejamos é uma vida real, assumida, não a fingir.
- Responsabilidade, sobretudo, responsabilidade total por nós próprios, perante nós e perante os outros...
O Mundo, a Natureza e os nossos Filhos precisam de nós.
Boas Festas!
quinta-feira, outubro 13, 2011
A (falta de) saúde mental dos portugueses
No Público de 10 de Outubro de 2011
(...) um em cada cinco portugueses já sofreu de uma doença psiquiátrica e quase metade (43%) já teve uma perturbação psicológica durante a vida. "Portugal parece ser o país da Europa com maior prevalência de perturbações mentais na população, (...)
Esta notícia assusta-me, mas não posso dizer que me surpreenda. Porquê?
Primeiro, porque os portugueses não são simpáticos uns para os outros. Não o são nas estradas, não o são nos empregos, não o são em quase lado nenhum. Os portugueses não se tratam bem uns aos outros: a dureza, a arrogância, o desprezo são vistos como qualidades, não como defeitos. E as pessoas que ostentam estas caraterísticas são as que mais sobem na vida, são as que mais conseguem obter coisas dos outros. E, naturalmente, não vêem razão para pararem de ser o que são.
Vê-se bem esta falta de simpatia nas demonstrações de gratidão, por exemplo. Quer dizer, não se vê, pois quase nunca ninguém agradece nada a ninguém. Os portugueses acham que quem lhes faz qualquer coisa em seu benefício, não fez mais do que a sua obrigação. Portanto, não merece agradecimento; nem sequer reconhecimento.
Por outro lado, os portugueses, cada vez mais tão naturalmente que já nem se dão conta, promovem entre si uma cultura de sofrimento, de queixumes, de mal-estar, de negativismo e de desânimo. Com óbvio comprazimento mútuo.
Neste ambiente social, as pessoas cada vez mais recebem dos outros a imagem de uma existência menor, ou mesmo de uma não-existência. As pessoas sentem-se sós e têm razão para isso. E, claro, as perturbações momentâneas que noutras circunstâncias não seriam mais do que isso mesmo, neste ambiente de ausência de suporte mútuo tornam-se permanentes e graves.
Eu espero que esta crise seja a oportunidade para as pessoas perceberem que é absolutamente necessário, no seu dia a dia, apoiarem-se umas às outras. E que os psicólogos e os futuros psicólogos sejam promotores activos dessa maneira nova de estar na vida. Nova e mais feliz.
(...) um em cada cinco portugueses já sofreu de uma doença psiquiátrica e quase metade (43%) já teve uma perturbação psicológica durante a vida. "Portugal parece ser o país da Europa com maior prevalência de perturbações mentais na população, (...)
Esta notícia assusta-me, mas não posso dizer que me surpreenda. Porquê?
Primeiro, porque os portugueses não são simpáticos uns para os outros. Não o são nas estradas, não o são nos empregos, não o são em quase lado nenhum. Os portugueses não se tratam bem uns aos outros: a dureza, a arrogância, o desprezo são vistos como qualidades, não como defeitos. E as pessoas que ostentam estas caraterísticas são as que mais sobem na vida, são as que mais conseguem obter coisas dos outros. E, naturalmente, não vêem razão para pararem de ser o que são.
Vê-se bem esta falta de simpatia nas demonstrações de gratidão, por exemplo. Quer dizer, não se vê, pois quase nunca ninguém agradece nada a ninguém. Os portugueses acham que quem lhes faz qualquer coisa em seu benefício, não fez mais do que a sua obrigação. Portanto, não merece agradecimento; nem sequer reconhecimento.
Por outro lado, os portugueses, cada vez mais tão naturalmente que já nem se dão conta, promovem entre si uma cultura de sofrimento, de queixumes, de mal-estar, de negativismo e de desânimo. Com óbvio comprazimento mútuo.
Neste ambiente social, as pessoas cada vez mais recebem dos outros a imagem de uma existência menor, ou mesmo de uma não-existência. As pessoas sentem-se sós e têm razão para isso. E, claro, as perturbações momentâneas que noutras circunstâncias não seriam mais do que isso mesmo, neste ambiente de ausência de suporte mútuo tornam-se permanentes e graves.
Eu espero que esta crise seja a oportunidade para as pessoas perceberem que é absolutamente necessário, no seu dia a dia, apoiarem-se umas às outras. E que os psicólogos e os futuros psicólogos sejam promotores activos dessa maneira nova de estar na vida. Nova e mais feliz.
sábado, outubro 01, 2011
Praxes e psicólogos
Já escrevi aqui contra estas práticas aberrantes. Então, espantava-me com as atitudes dos professores face a elas. Hoje, viro-me para os psicólogos: os que o vão ser no futuro e os que ensinam a sê-lo. Na Universidade do Algarve.
Do Meta Código de Ética aprovado pela Assembleia Geral de Atenas em Julho de 1995:
Os psicólogos também se empenham em ajudar o público a desenvolver opiniões fundamentadas e escolhas no que respeita ao comportamento humano e empenham-se ainda em ajudar o público em geral a melhorar a condição humana individual e em sociedade.
Os psicólogos defendem o respeito apropriado e promovem o desenvolvimento dos direitos fundamentais, dignidade e valor de todas as pessoas. Eles respeitam o direito de (...) auto-determinação e autonomia, consistente com as outras obrigações profissionais do psicólogo e com a lei.
(...) Os psicólogos evitam prejudicar e são responsáveis pelos seus próprios actos e certificam-se, tanto quanto podem, que os seus serviços não são inadequadamente utilizados.
3.1. Respeito pelos Direitos e Dignidade do Ser Humano: (...) c) Evitamento de práticas que sejam o resultado de vieses incorrectos e que possam conduzir a discriminação injusta.
Os alunos do 1º ano (muitos deles longe da suas casas , das suas famílias, vulneráveis e assustados pela nova vida que estão a iniciar) são recebidos e tratados como "bestas" (é assim que são chamados), entram em desespero e terror perante as práticas brutais a que são sujeitos, e chegam a dizer que querem abandonar o ensino universitário por não suportarem mais a maneira como são tratados. E isto às mãos de colegas mais velhos (também do curso de Psicologia)!...
Estes indivíduos, que retiram um óbvio prazer das práticas sádicas que promovem (ainda por cima, certamente, com um conhecimento refinado pelo curso que andam a tirar), estes indivíduos: que tipo de psicólogos se irão tornar?
Porque grande parte de tudo isto é feito às claras, à frente dos olhos de toda a gente, acrescento que sinto uma enorme tristeza pela impotência e incapacidade reveladas pela minha Universidade (que aprendi a amar e a respeitar desde que para lá entrei) em conseguir proteger desta violência os seus alunos mais jovens e mais desamparados
Adenda:
A mim espanta-me que os jovens não percebam o sofrimento que infligem, nem o quanto se rebaixam ao rebaixarem os outros.
Mas, não compreendendo isto, há que arranjar maneiras de moderar a sua acção. E isso parece-me que só será conseguido através da acção de pares (já que os adultos, eu incluído, note-se, se mostram impotentes).
Já por várias vezes tenho sugerido que se deveriam organizar grupos de 2 ou 3 estudantes dos últimos anos que andariam pelo campus com a função de apoiar os alunos do 1º ano que precisassem de ajuda.
Esses grupos, sendo naturalmente constituídos por jovens em desacordo com a forma como as praxes se desenvolvem, não teriam por função entrar em confronto com os praxadores, mas apenas mostrar aos mais novos que eles têm liberdade de escolha, que não são obrigados a suportar tudo o que lhes é feito.
Teriam, assim, um papel moderador e talvez conseguissem prevenir muitos abusos, só pelo efeito da sua presença.
Do Meta Código de Ética aprovado pela Assembleia Geral de Atenas em Julho de 1995:
Os psicólogos também se empenham em ajudar o público a desenvolver opiniões fundamentadas e escolhas no que respeita ao comportamento humano e empenham-se ainda em ajudar o público em geral a melhorar a condição humana individual e em sociedade.
Os psicólogos defendem o respeito apropriado e promovem o desenvolvimento dos direitos fundamentais, dignidade e valor de todas as pessoas. Eles respeitam o direito de (...) auto-determinação e autonomia, consistente com as outras obrigações profissionais do psicólogo e com a lei.
(...) Os psicólogos evitam prejudicar e são responsáveis pelos seus próprios actos e certificam-se, tanto quanto podem, que os seus serviços não são inadequadamente utilizados.
3.1. Respeito pelos Direitos e Dignidade do Ser Humano: (...) c) Evitamento de práticas que sejam o resultado de vieses incorrectos e que possam conduzir a discriminação injusta.
Os alunos do 1º ano (muitos deles longe da suas casas , das suas famílias, vulneráveis e assustados pela nova vida que estão a iniciar) são recebidos e tratados como "bestas" (é assim que são chamados), entram em desespero e terror perante as práticas brutais a que são sujeitos, e chegam a dizer que querem abandonar o ensino universitário por não suportarem mais a maneira como são tratados. E isto às mãos de colegas mais velhos (também do curso de Psicologia)!...
Estes indivíduos, que retiram um óbvio prazer das práticas sádicas que promovem (ainda por cima, certamente, com um conhecimento refinado pelo curso que andam a tirar), estes indivíduos: que tipo de psicólogos se irão tornar?
Porque grande parte de tudo isto é feito às claras, à frente dos olhos de toda a gente, acrescento que sinto uma enorme tristeza pela impotência e incapacidade reveladas pela minha Universidade (que aprendi a amar e a respeitar desde que para lá entrei) em conseguir proteger desta violência os seus alunos mais jovens e mais desamparados
Adenda:
A mim espanta-me que os jovens não percebam o sofrimento que infligem, nem o quanto se rebaixam ao rebaixarem os outros.
Mas, não compreendendo isto, há que arranjar maneiras de moderar a sua acção. E isso parece-me que só será conseguido através da acção de pares (já que os adultos, eu incluído, note-se, se mostram impotentes).
Já por várias vezes tenho sugerido que se deveriam organizar grupos de 2 ou 3 estudantes dos últimos anos que andariam pelo campus com a função de apoiar os alunos do 1º ano que precisassem de ajuda.
Esses grupos, sendo naturalmente constituídos por jovens em desacordo com a forma como as praxes se desenvolvem, não teriam por função entrar em confronto com os praxadores, mas apenas mostrar aos mais novos que eles têm liberdade de escolha, que não são obrigados a suportar tudo o que lhes é feito.
Teriam, assim, um papel moderador e talvez conseguissem prevenir muitos abusos, só pelo efeito da sua presença.
quarta-feira, setembro 21, 2011
Rei Édipo, Sófocles
(com introdução, tradução do grego e notas de Maria do Céu Zambujo Fialho)
A história é por demais conhecida, por isso aqui deixarei apenas algumas questões que nasceram de uma leitura apaixonada.
Édipo é sempre auto-determinado. Ele decide sempre por si próprio, não se deixa levar pelo que os outros dizem. O problema é que ele assim afunda-se na tragédia. Será que Sófocles faz aqui uma apologia da submissão e da passividade? Pelo menos à vontade dos deuses?
No entanto, Édipo responsabiliza-se sempre a si próprio pelo que faz e nunca deita as culpas para cima dos outros ou dos deuses. E Sófocles oferece-nos aqui um retrato grandioso desta personagem, com a qual não podemos nunca deixar de simpatizar e de admirar. Portanto, não parece que defenda a submissão. Ao contrário de Laio e de Jocasta, que procuram enganar os deuses com estratagemas, Sófocles constrói um Édipo corajoso e sempre pronto, por mais terrível que isso lhe pareça, a enfrentar as coisas como elas são.
Quando a boa fortuna de um poderoso começa a cair, aí surge a paranóia de que o andam a trair. Mais uma vez, repare-se que a grandeza de Édipo volta aqui a revelar-se, pois nem essa humana paranóia o faz desviar da busca implacável da verdade, não se perdendo em perseguições e castigos inúteis.
Infelizmente, é essa coragem e inteireza que vai provocar e revelar a sua desgraça. Por isso, interrogo-me sobre qual seria a posição de Sófocles sobre esta sua personagem, o que pensaria ele realmente de Édipo e do seu confronto com os deuses, ...
Uma reflexão adicional sobre Creonte. Nesta peça, Creonte mostra aqui grande sensatez, raciocínio lúcido e um saber bem como lidar com os outros. É um Creonte completamente distinto do de Antígona. Sófocles evidencia aqui algo que começamos a reconhecer hoje em dia: nós somos o que somos é certo que por factores disposicionais, mas também, e muito, devido a factores situacionais. É assim que Creonte próximo do rei é uma coisa, sendo rei é outra muito diferente.
A história é por demais conhecida, por isso aqui deixarei apenas algumas questões que nasceram de uma leitura apaixonada.
Édipo é sempre auto-determinado. Ele decide sempre por si próprio, não se deixa levar pelo que os outros dizem. O problema é que ele assim afunda-se na tragédia. Será que Sófocles faz aqui uma apologia da submissão e da passividade? Pelo menos à vontade dos deuses?
No entanto, Édipo responsabiliza-se sempre a si próprio pelo que faz e nunca deita as culpas para cima dos outros ou dos deuses. E Sófocles oferece-nos aqui um retrato grandioso desta personagem, com a qual não podemos nunca deixar de simpatizar e de admirar. Portanto, não parece que defenda a submissão. Ao contrário de Laio e de Jocasta, que procuram enganar os deuses com estratagemas, Sófocles constrói um Édipo corajoso e sempre pronto, por mais terrível que isso lhe pareça, a enfrentar as coisas como elas são.
Quando a boa fortuna de um poderoso começa a cair, aí surge a paranóia de que o andam a trair. Mais uma vez, repare-se que a grandeza de Édipo volta aqui a revelar-se, pois nem essa humana paranóia o faz desviar da busca implacável da verdade, não se perdendo em perseguições e castigos inúteis.
Infelizmente, é essa coragem e inteireza que vai provocar e revelar a sua desgraça. Por isso, interrogo-me sobre qual seria a posição de Sófocles sobre esta sua personagem, o que pensaria ele realmente de Édipo e do seu confronto com os deuses, ...
Uma reflexão adicional sobre Creonte. Nesta peça, Creonte mostra aqui grande sensatez, raciocínio lúcido e um saber bem como lidar com os outros. É um Creonte completamente distinto do de Antígona. Sófocles evidencia aqui algo que começamos a reconhecer hoje em dia: nós somos o que somos é certo que por factores disposicionais, mas também, e muito, devido a factores situacionais. É assim que Creonte próximo do rei é uma coisa, sendo rei é outra muito diferente.
segunda-feira, setembro 19, 2011
Confiar: um valor em défice
José Gil, no Jornal de Letras de 24 de Agosto de 2011:
O que eu lamento é a ausência de uma onda que possa captar essas energias, que por isso são desperdiçadas.
Nós somos bons em muitas áreas, mas actuamos como bolsas isoladas.
E isso não faz onda.
Não há comunidades.
É preciso que os muitos nichos em que somos bons, como na artes plásticas, música, dança, teatro, literatura, se cruzem e criem uma massa crítica que se mova por si própria.
Uma razão por que não há esse cruzamento (e muito menos um encontro, acrescento eu) não poderá residir no facto de ninguém confiar em ninguém? De todos sabermos que, por mais mérito que possamos ter, não haverá qualquer reconhecimento? A menos, claro, que pertençamos a um qualquer grupo que esteja próximo do poder?
Não será esta falta de confiança mútua que faz com que os realmente bons prefiram iniciativas solitárias, de modo a poderem concentrar-se no seu trabalho e a não terem que se dispersar por preocupações com políticas e intrigas?
O que eu lamento é a ausência de uma onda que possa captar essas energias, que por isso são desperdiçadas.
Nós somos bons em muitas áreas, mas actuamos como bolsas isoladas.
E isso não faz onda.
Não há comunidades.
É preciso que os muitos nichos em que somos bons, como na artes plásticas, música, dança, teatro, literatura, se cruzem e criem uma massa crítica que se mova por si própria.
Uma razão por que não há esse cruzamento (e muito menos um encontro, acrescento eu) não poderá residir no facto de ninguém confiar em ninguém? De todos sabermos que, por mais mérito que possamos ter, não haverá qualquer reconhecimento? A menos, claro, que pertençamos a um qualquer grupo que esteja próximo do poder?
Não será esta falta de confiança mútua que faz com que os realmente bons prefiram iniciativas solitárias, de modo a poderem concentrar-se no seu trabalho e a não terem que se dispersar por preocupações com políticas e intrigas?
domingo, setembro 18, 2011
Gandhi, sempre no coração
Satish Kumar, em entrevista ao i:
Muitos dizem que os seus ideais são utópicos. O que responde a isso?
Muita gente diz-me que eu sou idealista e que tenho de ser realista.
A minha resposta é: o que é que os realistas fizeram pelo mundo? O que é que alcançaram?
Por estarmos a ser governados por realistas temos uma crise económica, temos aquecimento global, temos guerra no Afeganistão, Líbia e em outros tantos países.
Os realistas criaram esta confusão toda.
É altura de os realistas saírem e de os idealistas entrarem.
Isto não é mero idealismo, é um idealismo realista.
Vamos dizer: adeus realismo, bem-vindo idealismo!
Satish Kumar também refere que Gandhi disse:
There is enough in the world for everybody's need, but not enough for anybody´s greed.
(Há no mundo o suficiente para as necessidades de todos, mas não para alimentar a ganância de todos).
Muitos dizem que os seus ideais são utópicos. O que responde a isso?
Muita gente diz-me que eu sou idealista e que tenho de ser realista.
A minha resposta é: o que é que os realistas fizeram pelo mundo? O que é que alcançaram?
Por estarmos a ser governados por realistas temos uma crise económica, temos aquecimento global, temos guerra no Afeganistão, Líbia e em outros tantos países.
Os realistas criaram esta confusão toda.
É altura de os realistas saírem e de os idealistas entrarem.
Isto não é mero idealismo, é um idealismo realista.
Vamos dizer: adeus realismo, bem-vindo idealismo!
Satish Kumar também refere que Gandhi disse:
There is enough in the world for everybody's need, but not enough for anybody´s greed.
(Há no mundo o suficiente para as necessidades de todos, mas não para alimentar a ganância de todos).
quinta-feira, agosto 04, 2011
Sistema de avaliação, agora nas universidades
Não consigo entender como é que um sistema de avaliação:
a) baseado na competição pode dar origem a trabalhadores mais preocupados com o serviço público. Como pode um funcionário público, ou um professor, habituado a atender diariamente aos factores que condicionam a sua própria carreira, a tratar do seu próprio benefício em detrimento dos outros, como pode ele, por uma transmutação mágica de personalidade, passar a empenhar as suas forças na execução do bem público, isto é, do bem dos outros?
b) baseado num sistema de recompensas externas (pontos, notas, passagens de escalão, etc) pode criar melhores trabalhadores. Sabe-se que a recompensa externa destrói a motivação interior (Ryan & Deci, 2000), pelo que a sua utilização deve ser sempre evitada. Contra a evidência científica espera-se que, com tal sistema, os funcionários públicos ou os professores se sintam autonomamente motivados para terem um bom desempenho e espírito de entreajuda.
Já começo a entender quando me apercebo que, por detrás de tudo isto, está apenas uma questão de poder, simplesmente uma questão de mais poder para os poderosos. Este sistema, na verdade, apenas promove o funcionário egoísta, nada solidário com os colegas, completamente indiferente ao bem público e, principal e fundamentalmente, obediente e submisso aos seus superiores.
Assim, tudo se torna claro.
a) baseado na competição pode dar origem a trabalhadores mais preocupados com o serviço público. Como pode um funcionário público, ou um professor, habituado a atender diariamente aos factores que condicionam a sua própria carreira, a tratar do seu próprio benefício em detrimento dos outros, como pode ele, por uma transmutação mágica de personalidade, passar a empenhar as suas forças na execução do bem público, isto é, do bem dos outros?
b) baseado num sistema de recompensas externas (pontos, notas, passagens de escalão, etc) pode criar melhores trabalhadores. Sabe-se que a recompensa externa destrói a motivação interior (Ryan & Deci, 2000), pelo que a sua utilização deve ser sempre evitada. Contra a evidência científica espera-se que, com tal sistema, os funcionários públicos ou os professores se sintam autonomamente motivados para terem um bom desempenho e espírito de entreajuda.
Já começo a entender quando me apercebo que, por detrás de tudo isto, está apenas uma questão de poder, simplesmente uma questão de mais poder para os poderosos. Este sistema, na verdade, apenas promove o funcionário egoísta, nada solidário com os colegas, completamente indiferente ao bem público e, principal e fundamentalmente, obediente e submisso aos seus superiores.
Assim, tudo se torna claro.
segunda-feira, agosto 01, 2011
Poesia, Saudade da Prosa de Manuel António Pina
Nunca tinha lido a poesia de Manuel António Pina. Gostei muito deste livro que me foi oferecido por mão amiga. Trata-se de "uma antologia pessoal".
Tendo lido outras coisas do autor (no fundo, sendo um ignorante da sua obra), esperava uma escrita permeada de humor. Descobri uma poesia discreta, sem grandiloquências, humana, digna e sóbria. Inclui, é certo, uns laivos dispersos de ironia (nunca construída à custa de..., mas mais feita com...), e, no entanto, é uma ironia para sempre reflectida sobre um fundo de melancolia.
As ideias e as emoções evocadas pelo autor ao longo destas páginas abrem no nosso espírito atmosferas indefinidas, como se elas flutuassem no limiar da nossa consciência, ficando nós à beira de as compreender e de abarcar, quase como se fossem familiares e, no entanto, estrangeiras.
O autor interroga connosco a estranheza do mundo, da palavra e da criação, não nos deixando ficar de fora... mas o que escreve e partilha connosco é também uma poesia do silêncio, da presença da morte, da reflexão sobre o que é o poema, o poeta e o leitor.
Um livro excepcional.
Tendo lido outras coisas do autor (no fundo, sendo um ignorante da sua obra), esperava uma escrita permeada de humor. Descobri uma poesia discreta, sem grandiloquências, humana, digna e sóbria. Inclui, é certo, uns laivos dispersos de ironia (nunca construída à custa de..., mas mais feita com...), e, no entanto, é uma ironia para sempre reflectida sobre um fundo de melancolia.
As ideias e as emoções evocadas pelo autor ao longo destas páginas abrem no nosso espírito atmosferas indefinidas, como se elas flutuassem no limiar da nossa consciência, ficando nós à beira de as compreender e de abarcar, quase como se fossem familiares e, no entanto, estrangeiras.
O autor interroga connosco a estranheza do mundo, da palavra e da criação, não nos deixando ficar de fora... mas o que escreve e partilha connosco é também uma poesia do silêncio, da presença da morte, da reflexão sobre o que é o poema, o poeta e o leitor.
Um livro excepcional.
sábado, julho 09, 2011
Um programa para um futuro que vale a pena
Os simplistas e fantasistas de serviço falam de competitividade e de exportações, mas a palavra certa, a palavra que envolve isso e o resto chama-se sustentabilidade: apostar na revitalização do mercado interno em todas as suas dimensões.
Diminuir as importações, comprar produtos nacionais, investir e gastar em Portugal.
Electricidade a partir do nosso vento, do nosso sol, da nossa água.
Alimentos a partir dos nossos solos e do nosso mar.
Turismo no nosso território, nas nossas paisagens.
Criação de emprego nas áreas dos serviços sociais e ecológicos.
Limpar a biomassa das nossas florestas através de campanhas preventivas de incêndios florestais, empregando mão-de-obra intensiva.
Apostar na reabilitação urbana, acabando com o cancro dos subúrbios fantasmas.
Limitar o acesso dos carros particulares às cidades, elaborando novos modelos de mobilidade sustentável.
Colocar os portugueses numa interacção electrónica plural que permita comunicação sem emisões de carbono.
Descarbonizar o poder e aumentar a transparência da vida política, aumentando o controlo mútuo dos orgãos de soberania, e sobretudo a intervenção informada dos cidadãos.
Quando li este trecho escrito por Viriato Soromenho Marques (no JL nº 1062 de Junho de 2011) senti que estava aqui um programa sensível e praticável, mas principalmente atraente e motivador para quem sente na pele a exaustão da esperança e a esterilidade das ideias que a nossa classe política e intelectual actualmente produz.
Gostei muito. Porque o seu cumprimento não passa pela vontade dos outros, mas pela minha; não depende de agências de rating, nem de empréstimos do estrangeiro, mas sim do meu esforço, da minha honestidade, da minha decência.
Gostei do uso da palavra "nosso(s)" (vento, sol, água, solos, etc). Nosso, não no sentido de posse, porque na verdade nunca possuímos nada, morremos demasiado depressa para ser proprietários do que quer que seja. Mas nosso, no sentido em que detemos ou o poder de destruir ou o de preservar e construir. Nosso, no sentido em que somos totalmente responsáveis pelo que lhe fizermos. Nosso, porque podemos fazer o que acharmos melhor para nós e não para satisfazer a vontade de uns quaisquer outros de que nem sequer o rosto conhecemos.
Talvez não seja um programa imediatamente executável em todas as suas dimensões, mas poderia constituir não só uma meta a manter diante dos nossos olhos, mas também uma forma de aferirmos se o que decidimos fazer hoje é útil e construtivo, isto é, se vai ao encontro daquele cenário de vida. Uma vida bem mais respirável do que aquela que nos andam a prometer.
Usando as palavras de Mia Couto, poderia ser uma ponte capaz de unir o desespero à esperança.
[Ver também Boaventura Sousa Santos, Para uma sociedade melhor: desmercadorizar (desmercadorizar significa impedir que a economia de mercado se transforme numa sociedade de mercado)]
Diminuir as importações, comprar produtos nacionais, investir e gastar em Portugal.
Electricidade a partir do nosso vento, do nosso sol, da nossa água.
Alimentos a partir dos nossos solos e do nosso mar.
Turismo no nosso território, nas nossas paisagens.
Criação de emprego nas áreas dos serviços sociais e ecológicos.
Limpar a biomassa das nossas florestas através de campanhas preventivas de incêndios florestais, empregando mão-de-obra intensiva.
Apostar na reabilitação urbana, acabando com o cancro dos subúrbios fantasmas.
Limitar o acesso dos carros particulares às cidades, elaborando novos modelos de mobilidade sustentável.
Colocar os portugueses numa interacção electrónica plural que permita comunicação sem emisões de carbono.
Descarbonizar o poder e aumentar a transparência da vida política, aumentando o controlo mútuo dos orgãos de soberania, e sobretudo a intervenção informada dos cidadãos.
Quando li este trecho escrito por Viriato Soromenho Marques (no JL nº 1062 de Junho de 2011) senti que estava aqui um programa sensível e praticável, mas principalmente atraente e motivador para quem sente na pele a exaustão da esperança e a esterilidade das ideias que a nossa classe política e intelectual actualmente produz.
Gostei muito. Porque o seu cumprimento não passa pela vontade dos outros, mas pela minha; não depende de agências de rating, nem de empréstimos do estrangeiro, mas sim do meu esforço, da minha honestidade, da minha decência.
Gostei do uso da palavra "nosso(s)" (vento, sol, água, solos, etc). Nosso, não no sentido de posse, porque na verdade nunca possuímos nada, morremos demasiado depressa para ser proprietários do que quer que seja. Mas nosso, no sentido em que detemos ou o poder de destruir ou o de preservar e construir. Nosso, no sentido em que somos totalmente responsáveis pelo que lhe fizermos. Nosso, porque podemos fazer o que acharmos melhor para nós e não para satisfazer a vontade de uns quaisquer outros de que nem sequer o rosto conhecemos.
Talvez não seja um programa imediatamente executável em todas as suas dimensões, mas poderia constituir não só uma meta a manter diante dos nossos olhos, mas também uma forma de aferirmos se o que decidimos fazer hoje é útil e construtivo, isto é, se vai ao encontro daquele cenário de vida. Uma vida bem mais respirável do que aquela que nos andam a prometer.
Usando as palavras de Mia Couto, poderia ser uma ponte capaz de unir o desespero à esperança.
[Ver também Boaventura Sousa Santos, Para uma sociedade melhor: desmercadorizar (desmercadorizar significa impedir que a economia de mercado se transforme numa sociedade de mercado)]
sexta-feira, maio 13, 2011
Portugal e A República, de Platão
O Problema:
"A média do crescimento económico é, em Portugal, a pior dos últimos 90 anos.
A dívida pública é a maior dos últimos 160 anos.
A dívida externa é, no mínimo, a maior dos últimos 120 anos (desde que o país declarou uma bancarrota parcial em 1892).
O desemprego é o maior dos últimos 80 anos.
Voltámos à divergência económica com a Europa, após décadas de convergência.
Vivemos a segunda maior vaga de emigração dos últimos 160 anos.
E temos a taxa de poupança mais baixa dos últimos 50 anos."
(Álvaro dos Santos Pereira, Portugal na Hora da Verdade, citado no Público, 6 de Maio de 2011, p. 43)
A Solução:
"(...) Mas a verdade é esta: na cidade em que os que têm de governar são os menos empenhados em ter o comando, essa mesma é forçoso que seja a melhor e mais pacificamente administrada, e naquela em que os que detêm o poder fazem o inverso, sucederá o contrário.
(...) Se, porém, os mendigos e os esfomeados de bens pessoais entram nos negócios públicos, pensando que é daí que devem arrebatar o seu benefício, não é possível que seja bem administrado [o Estado]. Efectivamente, gera-se a disputa pelo poder, e uma guerra dessas, doméstica e interna, deita-os a perder, a eles e ao resto da cidade."
(Platão, A República, Fundação Calouste Gulbenkian, 520d e 521a )
A minha (modesta) posição:
A ideia de que são as remunerações elevadas que atraem bons profissionais (isto aplicado, claro!, apenas aos lugares reservados às elites, porque para o trabalhador comum esta tese já não encontra defensores) sempre me pareceu completamente despropositada! Salários elevados e poder desmedido só servem para atrair tubarões e vampiros.
E verifica-se que pessoas de bem, com vontade de ir para a administração pública para cuidar verdadeiramente do bem público, jamais estarão dispostos a conviver com tubarões e vampiros e a submeter-se às suas leis impostas pela força bruta.
Portanto, eu começaria por acabar com os salários elevados. Para parar de atrair tantos predadores. Para conseguir começar a trazer para a causa pública os preocupados em realizar o bem comum; que, na medida do possível, seriam mais honestos, verdadeiros e competentes para o conseguir.
Nota: este post desapareceu do blog quando, inclusivamente, já tinha um comentário; voltei a publicá-lo e copiei o comentário.
"A média do crescimento económico é, em Portugal, a pior dos últimos 90 anos.
A dívida pública é a maior dos últimos 160 anos.
A dívida externa é, no mínimo, a maior dos últimos 120 anos (desde que o país declarou uma bancarrota parcial em 1892).
O desemprego é o maior dos últimos 80 anos.
Voltámos à divergência económica com a Europa, após décadas de convergência.
Vivemos a segunda maior vaga de emigração dos últimos 160 anos.
E temos a taxa de poupança mais baixa dos últimos 50 anos."
(Álvaro dos Santos Pereira, Portugal na Hora da Verdade, citado no Público, 6 de Maio de 2011, p. 43)
A Solução:
"(...) Mas a verdade é esta: na cidade em que os que têm de governar são os menos empenhados em ter o comando, essa mesma é forçoso que seja a melhor e mais pacificamente administrada, e naquela em que os que detêm o poder fazem o inverso, sucederá o contrário.
(...) Se, porém, os mendigos e os esfomeados de bens pessoais entram nos negócios públicos, pensando que é daí que devem arrebatar o seu benefício, não é possível que seja bem administrado [o Estado]. Efectivamente, gera-se a disputa pelo poder, e uma guerra dessas, doméstica e interna, deita-os a perder, a eles e ao resto da cidade."
(Platão, A República, Fundação Calouste Gulbenkian, 520d e 521a )
A minha (modesta) posição:
A ideia de que são as remunerações elevadas que atraem bons profissionais (isto aplicado, claro!, apenas aos lugares reservados às elites, porque para o trabalhador comum esta tese já não encontra defensores) sempre me pareceu completamente despropositada! Salários elevados e poder desmedido só servem para atrair tubarões e vampiros.
E verifica-se que pessoas de bem, com vontade de ir para a administração pública para cuidar verdadeiramente do bem público, jamais estarão dispostos a conviver com tubarões e vampiros e a submeter-se às suas leis impostas pela força bruta.
Portanto, eu começaria por acabar com os salários elevados. Para parar de atrair tantos predadores. Para conseguir começar a trazer para a causa pública os preocupados em realizar o bem comum; que, na medida do possível, seriam mais honestos, verdadeiros e competentes para o conseguir.
Nota: este post desapareceu do blog quando, inclusivamente, já tinha um comentário; voltei a publicá-lo e copiei o comentário.
segunda-feira, maio 09, 2011
Ler aos 16, carreira profissional melhor aos 33
Uma investigação recente veio revelar que a única actividade extracurricular de adolescentes com 16 anos com efeitos benéficos na sua carreira profissional é a leitura de livros, tanto para rapazes como para raparigas.
Outras actividades típicas dos 16 anos: fazer desporto, socializar, ir a museus ou a galerias ou ao cinema ou a concertos, ou quaisquer outras actividades (desde cozinhar até costurar). Que efeitos na futura carreira profissional? Nada de significativo.
E quanto aos jogos de computador? Reduzem as chances de chegar à Universidade. Pelo contrário, ler livros já implica uma maior probabilidade.
Explicações possíveis: características únicas ligadas à leitura por prazer; empregadores preferirem contratar pessoas com nível de literacia semelhante ao seu; ou então simplesmente porque adolescentes já destinados a uma melhor carreira profissional tendem a ler mais.
(University of Oxford (2011, May 9). Reading at 16 linked to better job prospects. ScienceDaily. Retrieved May 9, 2011, from http://www.sciencedaily.com /releases/2011/05/110504150539.htm)
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