Julho 09, 2009
O despacho
"(...) que a Senhora Subdirectora-Geral, por despacho exarado em 22/06/2009, autorizou a licença sem vencimento de longa duração ao docente Rui M... (...)”
Chegou-me ontem às mãos! Desde 23 de Março que estou à espera, mas chegou!
Lanço os últimos olhares para trás. E que deixo?
Acima de tudo, muitas, muitas humilhações com origem neste governo PS.
Humilhações e também medo de alguns alunos, da sua violência, da sua cobardia, da sua ininteligibilidade.
Amigos, professores e funcionários.
Muitos alunos, excelentes pessoas, alguns maravilhosos comigo, verdadeiros companheiros no trabalho e na aprendizagem; e uns autênticos heróis por não se deixarem arrastar pelos outros!
Um trabalho (professor de Educação Tecnológica) absolutamente nada entusiasmante.
O início de uma vida com alguém que amo e que partilha comigo os mesmos gostos, necessidades e valores. O primeiro dos quais (ambos estamos de acordo) será / tem sido o cuidar do outro, de nós, da relação.
Depois, a esperança de poder fazer o que realmente gosto e melhor sei: ensinar matemática. Mas também, se tiver de ser, com uma atitude muito positiva sobre aceitar quaisquer novos desafios profissionais que surjam.
O futuro é uma incógnita, está completamente em aberto para eu o construir.
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Julho 02, 2009
Valores
(In "De comédia a farsa. (...)", Ramiro Marques)
Se os actores da farsa são os outros, a mim não me causa particular problema.
Como são os professores, fico triste: já nem precisamos que nos rebaixem, nós fazêmo-lo sozinhos.
Não entreguei os o.i., não entreguei a ficha de auto-avaliação.
E nem entreguei qualquer justificação. Para mim isso seria ainda admitir que o Governo e o ME podiam ter razão. Não têm e eu desprezo-os.
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Junho 09, 2009
A derrota de Sócrates
Tive uma infância cinzenta e chuvosa (nasci em 1958). Da sua maior parte, não me recordo nada. Mas lembro-me de me sentir estranho a tudo e como se estivesse sempre à beira do desastre. Ainda hoje. Só que hoje consigo distrair-me mais, consigo disfarçar melhor. Lembrar-me da minha infância é sentir-me sufocado.
Serve esta introdução para dizer que, quando penso em política no Portugal de Sócrates, em formas de intervir na sociedade, sou tomado por uma sensação de irremediável impotência, ou seja, de impossibilidade de mudar o que quer que seja que o poder não deseja ver mudado. Tal como na infância.
É certo que esta sensação de sufoco começou a ser criada no tempo de Barroso quando, depois da gigantesca manifestação contra a invasão do Iraque, ele seguiu em frente sem ligar nenhuma, levando atrás de si a generalidade dos meios de comunicação. E com os resultados que se sabem (milhares e milhares de vidas destruídas).
Mas Sócrates levou esta forma totalitária de fazer política a extremos inimagináveis (enfim, inimagináveis para aqueles que desconhecem o salazarismo e o nazismo): ele impôs um torno férreo a toda a livre iniciativa das pessoas que desejam dar seguimento aos seus ideais em colaboração com todas as pessoas da sociedade.
Cada vez mais as pessoas desistem da contestação e da participação cívica, sabem que ela ínútil e que funciona como se pura e simplesmente não existisse. Acredito que é assim que a juventude desistiu da luta por uma sociedade mais justa. Aliás, não desistiu: desapareceu!
Qundo penso na derrota de Sócrates, o que aspiro é a uma sociedade enfim liberta e capaz de respirar outra vez o ar puro da liberdade de movimentos, uma sociedade que se emancipa de uma infância imposta e opressiva. Que acredita na sua capacidade de se renovar com o consenso o mais alargado e responsável possíveis. Assim seja!
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Maio 26, 2009
Não desisto
Mas, por outro lado, lá diz o povo: "Água mole em pedra dura, tanto dá até que fura"!
Isto anima-me a não baixar os braços: hoje fui um dos 2 que na minha escola fizeram greve
(escola com vários sindicalistas de peso, mas em que não apareceu um único aviso ou cartaz da greve);
e no dia 30 serei um dos que sejam quantos forem vão à manifestação.
"Se não há caminhos, há que caminhar" (S. João da Cruz)
Maio 25, 2009
Índice de Democracia
Em 2008, segundo The Economist, Portugal passou a ocupar o 25º lugar.
Os professores, entre outros (muito poucos) combateram a tentativa de sufoco. Registe-se.
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Nostalgia
Estou a ler Aprendizagem Cooperativa e Inclusão (edição do autor, Lisboa, 2006), um livro de Francisco Alberto Ramos Leitão.
Recordo-me de como trabalhei e pugnei por uma escola que desse uma resposta emancipatória a todos os aunos que a frequentassem. Apercebo-me bem de quão larga e profunda é a destruição deste tipo de escola promovida pelo Governo, em virtude do desprezo total e profundo que sente pelas pessoas das crianças e dos jovens e, consequentemente, pelo seu desenvolvimento pessoal e social.
Por outro lado, ao defraudar as expectativas dos professores, ao roubá-los, ao desprezar o seu saber e a sua experiência, ao esgotá-los com trabalho embrutecedor, o Governo tem vindo a acabar com o clima de uma Escola Pública verdadeiramente Inclusiva.
A acrescentar a tudo isto, o sistema de avaliação que quer impor, que promove a competição mais rasteira, vai enfim acabar de vez com a Escola Pública para todos. A Escola de sucesso constrói-se com uma Educação de qualidade só conseguida com a cooperação entre os educadores, nunca com a competição entre eles (como quase todos os países europeus já descobriram).
Voltando ao livro de Francisco Leitão: aqui se apresentam, se explicam e se justificam os dados da investigação que apontam para a maximização do sucesso através do trabalho cooperativo, quer entre alunos, quer entre professores. Também se descreve como se consegue promover na prática um clima de cooperação entre todos (inclusivamente, num dos anexos, propõe-se uma forma de trabalhar com os alunos a gestão de conflitos, um saber essencial para que o trabalho cooperativo se traduza num máximo de boas aprendizagens).
Leio e estou a ouvir uma voz quente, amiga e sempre lúcida, a tentar fazer-nos acreditar que as nuvens negras desta época sombria não irão afogar as crianças e os jovens de hoje num mar de mediocridade auto-complacente e suicidária.
Maio 15, 2009
Formação contínua
Porque é que sou obrigado a frequentar acções de formação que não preciso e em que, ainda por cima, tenho de pagar?
Porque é que a formação que realmente me faz falta para eu poder melhorar científica e tecnicamente, dada por entidades idóneas, é aceite e reconhecida pelos meus colegas e superiores hierárquicos, mas não é reconhecida pelo Governo e, portanto, não me serve para nada em termos de carreira?
Eu sei a resposta: porque a gatunagem que decide estas coisas, não satisfeita em já me ter roubado milhares de euros, é uma mafia que continua a querer sugar-me até onde puder.
Ou até onde eu a deixar.
Maio 09, 2009
Amantes feios
(...) «O que é que Léo achou de mim? Achou-me ao seu gosto. A minha explicação para isso é que também ele era malfeito. Tinha tido varíola em pequeno e ficara com as marcas. Era nitidamente mais feio que um anamita normal, mas vestia-se com muito gosto.»
Tanto pior que fosse malfeito. Tanto pior para as costureirinhas e para os corações sensíveis (a cujo grupo eu pertencia) que fantasiaram a propósito da beleza sensual do amante, a sua pele de seda, as suas mãos experientes, o seu corpo perfeito. O amante é feio e malfeito. (...)
Ora, farto estou eu de histórias em que os protagonistas são sempre fisicamente atraentes (ou que ficam como tal depois de um adequado período de “patinho feio”)!
Desejo mesmo um livro ou um filme em que as personagens vivam um amor arrebatado e deslumbrante, mas que sejam feias e malfeitas, realmente feias sem qualquer apelo (porque, por exemplo, há as que, sendo feias, são, no entanto, encantadoras).
Ou em que pelo menos uma delas fosse mesmo feia.
E isso não fosse sinónimo de malvadez, ou de qualquer forma menos boa de carácter.
Personagens secundárias já vão surgindo assim, embora aparecendo sempre menores e mais ou menos patéticas.
Como seria, então? Como pegaria o(a) autor(a) no assunto nestas condições? Que emoções faria ele despertar em mim (excluindo naturalmente as da piedade e as suas variações)?
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Maio 06, 2009
O voo dos moscardos
Vejo entre os elementos das listas indivíduos(as) que, para além de entregaram os objectivos individuais, até se movimentaram no sentido de sabotar posições de não entrega por parte dos restantes professores.
Espanta-me que estes (e outros de outros sindicatos que também fizeram o mesmo) não tenham vergonha.
Tenho eu.
Por eles.
Por nós.
Maio 05, 2009
Conversar
My trips are always packed with a lot of business meetings.
Admiro as pessoas que sabem iniciar e manter uma conversação leve, útil, mutuamente satisfatória; pessoas que estabelecem um entendimento, um rapport imediato com quer que seja que lhes atraia o interesse ou a simpatia. Conheço bem uma pessoa assim... e nunca páro de me maravilhar!
Dada a minhas dificuldades de contacto, disfarço a minha falta de habilidade procurando ser um bom ouvinte e fazer perguntas interessantes. Mas trata-se de um esforço e jamais me passaria pela cabeça relaxar conversando!...
A propósito, a história acima, como talvez fosse de esperar, é bem simpática e inesperada e, por isso, ponho aqui o link (soube dela via GoodShit).
Etiquetas: Relações Humanas, Seres Especiais
Maio 03, 2009
Os intelectuais e a coragem de lutar
Num mundo ideal, as convicções e os princípios deveriam ser por si sós molas suficientemente fortes para combater a tirania e e a injustiça. E isso por vezes acontece, só que com poucos. Quando chega a hora dos arruaceiros (e chega sempre a hora deles, tal o fascínio que exercem) tudo se desmorona e o medo impera, o que é exactamente o que os arruaceiros desejam e pretendem (por isso é que são brutos e fazem ameaças).
O que é surpreendente e brilhante no caso dos professores é que começaram por nada fazer quando foram roubados ou quando lhes tornaram quase impossível realizar o seu trabalho de forma adequada; isto porque lhes disseram, e eles acreditaram, que o país precisava desse sacrifício da sua parte. Mas, tendo surgido a parte da violência inútil e sem qualquer sentido (note-se que, na maior parte dos países europeus a avaliação dos professores, que não a das escolas, ou não existe ou é extremamente simples e não conta para a progressão na carreira), e ao fim de quatro anos de guerra, ainda há um número elevadíssimo de professores que não desfaleceu. Sem contar que os que desfaleceram só o fizeram ao fim de um prolongadíssimo tempo de resistência que se conta por anos.
Sabemos que normalmente os inteletuais são cobardes. Vejam-se quase todos os que se têm encolhido no seu silêncio pequenino(1) e deixaram os professores sozinhos na sua luta e tentativa de participação cívica, até mesmo nos casos em que se pôs em jogo a vida e o futuro das crianças mais desprotegidas como é o caso das que têm dificuldades e necessidades especiais.
Mas os professores que, apesar das tentativas desenfreadas que têm vindo a ser tomadas para os proletarizar, ainda se podem assumir como trabalhadores intelectuais, e têm vindo a mostrar que a cultura e a humanidade podem ajudar de facto a conferir forças e coragem para lutar contra a barbárie (tanto das maneiras como das ideias).
(1) Com as excepções gratas, entre outros, de Joaquim Manuel Magalhães, de Santana Castilho e de Ramiro Marques.
Etiquetas: Escola, Resistir, Valores