Outubro 06, 2009
1º Salário
Apesar do pouco tempo disponível que tenho, hoje tenho de vir aqui dar notícias da liberdade.
Hoje recebi o meu primeiro salário em liberdade. Hoje recebi a paga pelo trabalho que fiz.
Sem ter sido insultado, sem ter sido desprezado, sem ter sido humilhado.
E sem ter sido das mãos de miseráveis sem escrúpulos e sem vergonha.
Não é muito dinheiro. Mas é infinitamente mais saboroso e digno do que aquele que tenho recebido nos últimos anos.
Para mim é muito importante, claro, a quantidade que recebo. Mas é-me muito, muito mais importante a qualidade dos indivíduos de quem eu o recebo, bem como tudo a que tenho de me sujeitar a fazer e a suportar para o receber.
Cheguei à conclusão que o dinheiro não paga tudo, isto é, não compensa a perda da dignidade nem a da integridade. E sinto-me grato por ter conseguido assumir a minha liberdade e ter recuperado ambas. Com sacrifício. Mas está a valer a pena.
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Hoje recebi o meu primeiro salário em liberdade. Hoje recebi a paga pelo trabalho que fiz.
Sem ter sido insultado, sem ter sido desprezado, sem ter sido humilhado.
E sem ter sido das mãos de miseráveis sem escrúpulos e sem vergonha.
Não é muito dinheiro. Mas é infinitamente mais saboroso e digno do que aquele que tenho recebido nos últimos anos.
Para mim é muito importante, claro, a quantidade que recebo. Mas é-me muito, muito mais importante a qualidade dos indivíduos de quem eu o recebo, bem como tudo a que tenho de me sujeitar a fazer e a suportar para o receber.
Cheguei à conclusão que o dinheiro não paga tudo, isto é, não compensa a perda da dignidade nem a da integridade. E sinto-me grato por ter conseguido assumir a minha liberdade e ter recuperado ambas. Com sacrifício. Mas está a valer a pena.
Etiquetas: Valores
Setembro 27, 2009
Um futuro negro
Confesso-me terrivelmente assustado.
O ladrão de deficientes e dos doentes que são obrigados a ir para o hospital;
para oferecer dinheiro e outras benesses aos bancos;
que fez da inveja, não da ambição, um valor;
que normalizou a mentira, a ponto de ela ser indistinguível da verdade;
que perseguiu os jornalistas que não pôde comprar,
que premiou a incompetência e a desonestidade,
que, enfim, tanto empobreceu Portugal, não só material mas também, e acima de tudo, animicamente...
... ganha as eleições?
Repito para mim vezes sem conta: já não sou professor!, já não me podem tratar como lixo!, já não sou professor!, já não sou professor e estou muito mais livre dele(s). Mas nada disto consegue afastar as sombras negras que inundam o meu espírito.
E se, aos 51 anos de idade, consegui mudar de vida, de trabalho e de cidade, também conseguirei, se isto ficar insuportável, mudar para fora deste país, cada vez mais miserável e de miseráveis!
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O ladrão de deficientes e dos doentes que são obrigados a ir para o hospital;
para oferecer dinheiro e outras benesses aos bancos;
que fez da inveja, não da ambição, um valor;
que normalizou a mentira, a ponto de ela ser indistinguível da verdade;
que perseguiu os jornalistas que não pôde comprar,
que premiou a incompetência e a desonestidade,
que, enfim, tanto empobreceu Portugal, não só material mas também, e acima de tudo, animicamente...
... ganha as eleições?
Repito para mim vezes sem conta: já não sou professor!, já não me podem tratar como lixo!, já não sou professor!, já não sou professor e estou muito mais livre dele(s). Mas nada disto consegue afastar as sombras negras que inundam o meu espírito.
E se, aos 51 anos de idade, consegui mudar de vida, de trabalho e de cidade, também conseguirei, se isto ficar insuportável, mudar para fora deste país, cada vez mais miserável e de miseráveis!
Setembro 20, 2009
Cidadania

Ontem, no Pátio das Letras em Faro, estive num encontro com a participação de Manuel Vilaverde Cabral e Luísa Schmidt, para a apresentação do livro Cidade & Cidadania.
Ao falar-se de mobilização e participação cívicas, muito maior nas cidades e maior entre a população jovem e feminina, falou-se inevitavelmente da luta dos professores (cuja esmagadora maioria é constituída realmente por mulheres).
Foi dito que os professores tinham ganho essa luta, já que o PS tinha perdido as eleições europeias e já que tinham sido introduzidas alterações ao sistema de avaliação.
Esclareçamos dois pontos:
Primeiro: os professores limitaram-se a uma vitória política parcial. Mas isso só se sabe agora.
Porque, durante quase quatro anos, e apesar da persistência da luta, politicamente, foram somando derrotas atrás de derrotas.
Quando o PS perder as eleições legislativas (e esperemos que as perca já), então os professores poderão falar de uma vitória política. Que só será plena se o novo governo desfizer o desastre em que está hoje mergulhada a escola pública.
De qualquer modo, a nível pessoal, ou profissional, ou de luta por um ideal de escola, a derrota dos professores é praticamente total; e temo que duradoura por muitos e largos anos, tal a profundidade do mal que lhes foi infligido.
Segundo: os professores lutam contra o sistema de avaliação que este governo quer impor, mas porque ele promove a destruição de uma escola pública de qualidade, promotora do sucesso cognitivo, social e emocional dos alunos. Portanto, simplificar o sistema sem o mudar, para os professores isso é o mesmo que nada, não se trata de vitória nenhuma, mas apenas da continuação da derrota por outros meios. É que não é mesmo contra a avaliação que os professores lutam, ao contrário da ideia que o poder quer fazer passar para a opinião pública.
Etiquetas: Escola
Setembro 18, 2009
O poder dos economistas
As ideias dos economistas influenciam cada vez mais as decisões políticas, cujos efeitos temos depois de suportar e amargar.
Tento entender o porquê deste poder.
Numa sociedade pobre como a nossa, se o meu principal problema é o dinheiro (isto é, a falta dele), então é natural que oiça e dê mais atenção a quem me fala desta minha preocupação. E, assim, os economistas são ouvidos. As suas ideias (certas ou erradas, a maior parte das vezes erradas - não por eles serem particularmente maus, mas apenas porque as suas ideias só são certas em condições ideais e absolutamente irreais) transformam-se em palavras e estas, mais tarde ou mais cedo, em acções.
A verdade é que eles pensam muito em termos de lucro. Ora o lucro, seja qual for o contexto em que se insere, é sempre o lucro de alguns, nunca de todos. É esse o quadro mental em que eles, na sua maioria, se movem. Então se têm esta limitação, porquê dar-lhes o poder de influenciar toda uma sociedade?
Ainda por cima, como na sua maioria são velhos (como eu) é provável que ou estejam subordinados a ideias de economistas já defuntos ou aderiram às mais recentes e selvagens (e, portanto, nunca testadas) para não serem rotulados de atrasados.
Não entendo mesmo o seu poder no dia a dia da política.
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Tento entender o porquê deste poder.
Numa sociedade pobre como a nossa, se o meu principal problema é o dinheiro (isto é, a falta dele), então é natural que oiça e dê mais atenção a quem me fala desta minha preocupação. E, assim, os economistas são ouvidos. As suas ideias (certas ou erradas, a maior parte das vezes erradas - não por eles serem particularmente maus, mas apenas porque as suas ideias só são certas em condições ideais e absolutamente irreais) transformam-se em palavras e estas, mais tarde ou mais cedo, em acções.
A verdade é que eles pensam muito em termos de lucro. Ora o lucro, seja qual for o contexto em que se insere, é sempre o lucro de alguns, nunca de todos. É esse o quadro mental em que eles, na sua maioria, se movem. Então se têm esta limitação, porquê dar-lhes o poder de influenciar toda uma sociedade?
Ainda por cima, como na sua maioria são velhos (como eu) é provável que ou estejam subordinados a ideias de economistas já defuntos ou aderiram às mais recentes e selvagens (e, portanto, nunca testadas) para não serem rotulados de atrasados.
Não entendo mesmo o seu poder no dia a dia da política.
Etiquetas: Valores
Setembro 06, 2009
Os 50
Ontem estive numa festa de aniversário de uma amiga que fazia 50 anos.
Muitas vezes fala-se dos 50 em referência a uma juventude, se não perdida, pelo menos melancolicamente distante. Há de certa forma um tom de quem sente ter uma boa parte da sua alma agarrada a esses anos de juventude cada vez mais mais perdidos.
Claro que, genericamente, sinto o mesmo.
Mas não devia sentir.
Lembro-me de ler, com 14, 15 anos os livros de Ray Bradbury na Colecção Argonauta da minha tia. E de ficar deslumbrado... como aliás ainda hoje fico, quando os releio.
Na altura rendi-me completamente à sabedoria e à simplicidade reveladas por Ray Bradbury e quis desesperadamente vir um dia a ser assim como ele, a ter também essa sabedoria. Soube que ele tinha na altura 50 anos e, então, durante muitos anos, desejei imenso chegar a essa idade.
Já cheguei.
E obtive essa sabedoria? Acho que uma boa parte dela, sim. Talvez não tenha conseguido manter toda a inocência que, em Ray Bradbury, se lhe encontrava sempre associada. Talvez.
Mas adquiri a sabedoria suficiente para não ter qualquer nostalgia do meu passado. Para ultrapassar o sofrimento dos anos anteriores com a alegria das realizações actuais, bem como dos novos desafios que eu tenho vindo a criar para a minha vida. Para achar que pelas pessoas, pelo mundo e pela liberdade vale bem a pena estar vivo e cada vez mais sábio.
No fundo, estou muito onde sonhei uma vida inteira estar.
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Muitas vezes fala-se dos 50 em referência a uma juventude, se não perdida, pelo menos melancolicamente distante. Há de certa forma um tom de quem sente ter uma boa parte da sua alma agarrada a esses anos de juventude cada vez mais mais perdidos.
Claro que, genericamente, sinto o mesmo.
Mas não devia sentir.
Lembro-me de ler, com 14, 15 anos os livros de Ray Bradbury na Colecção Argonauta da minha tia. E de ficar deslumbrado... como aliás ainda hoje fico, quando os releio.
Na altura rendi-me completamente à sabedoria e à simplicidade reveladas por Ray Bradbury e quis desesperadamente vir um dia a ser assim como ele, a ter também essa sabedoria. Soube que ele tinha na altura 50 anos e, então, durante muitos anos, desejei imenso chegar a essa idade.
Já cheguei.
E obtive essa sabedoria? Acho que uma boa parte dela, sim. Talvez não tenha conseguido manter toda a inocência que, em Ray Bradbury, se lhe encontrava sempre associada. Talvez.
Mas adquiri a sabedoria suficiente para não ter qualquer nostalgia do meu passado. Para ultrapassar o sofrimento dos anos anteriores com a alegria das realizações actuais, bem como dos novos desafios que eu tenho vindo a criar para a minha vida. Para achar que pelas pessoas, pelo mundo e pela liberdade vale bem a pena estar vivo e cada vez mais sábio.
No fundo, estou muito onde sonhei uma vida inteira estar.
Etiquetas: Pessoal
Setembro 01, 2009
O 1º Dia
O fervor é pensar que, apesar de perdido, o paraíso continua a ser ainda aquilo de que nos lembramos, aquilo que permite que saiamos desta terra, onde aparecemos, sem ter o sentimento, ou a convicção, de que estivemos no inferno.
(Eduardo Lourenço, cit. in JL, nº 1013, p33)
Hoje, aqui, a paragem é obrigatória.
Porque hoje é o primeiro dia verdadeiramente da minha liberdade.
Hoje entrei na situação de licença sem vencimento de longa duração. Acabou-se tudo aquilo que, parafraseando Eduardo Lourenço, me dava o sentimento e a convicção de estar a viver num inferno.
Ao contrário dos últimos anos, entro por Setembro feliz, sem angústia e sem medo.
Inscrito no mestrado. Com emprego num centro de explicações, a fazer o que sei e que gosto realmente de fazer: ensinar.
Bastante mais livre do poder abusador de um governo maldoso e estúpido.
E mesmo que tenha de comer lentilhas, como Diógenes… abençoadas lentilhas!
O fervor é também tudo isto.
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(Eduardo Lourenço, cit. in JL, nº 1013, p33)
Hoje, aqui, a paragem é obrigatória.
Porque hoje é o primeiro dia verdadeiramente da minha liberdade.
Hoje entrei na situação de licença sem vencimento de longa duração. Acabou-se tudo aquilo que, parafraseando Eduardo Lourenço, me dava o sentimento e a convicção de estar a viver num inferno.
Ao contrário dos últimos anos, entro por Setembro feliz, sem angústia e sem medo.
Inscrito no mestrado. Com emprego num centro de explicações, a fazer o que sei e que gosto realmente de fazer: ensinar.
Bastante mais livre do poder abusador de um governo maldoso e estúpido.
E mesmo que tenha de comer lentilhas, como Diógenes… abençoadas lentilhas!
O fervor é também tudo isto.
Etiquetas: Pessoal
Agosto 28, 2009
Um imenso pesar ... e duas histórias!
Sempre que oiço professores a falar, o tema é recorrente: as humilhações que lhes foram infligidas ao longo destes últimos anos. E não falo das que foram infligidas à classe na sua totalidade, não, falo daquelas de que cada um foi vítima individualmente.
E sinto pena, uma pena imensa destas pessoas esforçadas, mulheres na sua maioria, generosas e lutadoras, não só na escola mas também nas suas casas. Pena pelo seu sofrimento moral e pela sua incapacidade de transformar esse sofrimento numa acção libertadora, mergulhando antes cada uma, a pouco e pouco, num mar de amargura sem esperança nem luz.
A propósito deste assunto, ocorrem-me duas histórias. Duas histórias que representam os dois lados duma mesma moeda, da situação destes(as) professores(as).
Eis a primeira:
O filósofo Aristipo cruzou-se um dia com Diógenes, que estava a comer um prato de lentilhas, e disse-lhe:
- Ai, Diógenes, se aprendesses a ser mais submisso ao imperador não terias de comer essas lentilhas!
Diógenes parou, fitou o seu abastado interlocutor, e respondeu-lhe:
- Ai de ti, Aristipo! Se aprendesses a comer lentilhas tu já não terias nunca mais de ser submisso ao imperador.
O imperador, hoje em dia, toma muitos nomes e muitas formas: ministros, direcções, inspectores... e, talvez, o mais terrível de todos, pela sua anónima implacabilidade: os bancos e as dívidas com que eles escravizam os incautos.
Mas vamos ao outro lado da moeda. Eis a 2ª história:
Uma vez, um profeta chegou a uma cidade e tentou converter os seus habitantes. No princípio, tinha muita gente a ouvi-lo mas, a pouco e pouco, foram-no deixando sozinho a falar. Um dia, alguém lhe perguntou:
- Porque continuas a pregar? Não te dás conta de que já ninguém te ouve?
Ao que o profeta lentamente respondeu:
- No princípio eu pregava na esperança de convencer as pessoas a mudar de vida. Agora, se continuo a pregar, faço-o, mas para que as pessoas não me obriguem a mim a mudar de vida...
Portanto, por outro lado, aquelas mesmas pessoas que eu lamento, elas no fundo também acabam por ser verdadeiramente dignas de admiração por não se deixarem afastar pelos que têm usado o poder para fins funestos...
Assim seja, desde que elas nunca baixem os braços, desde que nunca desistam de lutar!
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E sinto pena, uma pena imensa destas pessoas esforçadas, mulheres na sua maioria, generosas e lutadoras, não só na escola mas também nas suas casas. Pena pelo seu sofrimento moral e pela sua incapacidade de transformar esse sofrimento numa acção libertadora, mergulhando antes cada uma, a pouco e pouco, num mar de amargura sem esperança nem luz.
A propósito deste assunto, ocorrem-me duas histórias. Duas histórias que representam os dois lados duma mesma moeda, da situação destes(as) professores(as).
Eis a primeira:
O filósofo Aristipo cruzou-se um dia com Diógenes, que estava a comer um prato de lentilhas, e disse-lhe:
- Ai, Diógenes, se aprendesses a ser mais submisso ao imperador não terias de comer essas lentilhas!
Diógenes parou, fitou o seu abastado interlocutor, e respondeu-lhe:
- Ai de ti, Aristipo! Se aprendesses a comer lentilhas tu já não terias nunca mais de ser submisso ao imperador.
O imperador, hoje em dia, toma muitos nomes e muitas formas: ministros, direcções, inspectores... e, talvez, o mais terrível de todos, pela sua anónima implacabilidade: os bancos e as dívidas com que eles escravizam os incautos.
Mas vamos ao outro lado da moeda. Eis a 2ª história:
Uma vez, um profeta chegou a uma cidade e tentou converter os seus habitantes. No princípio, tinha muita gente a ouvi-lo mas, a pouco e pouco, foram-no deixando sozinho a falar. Um dia, alguém lhe perguntou:
- Porque continuas a pregar? Não te dás conta de que já ninguém te ouve?
Ao que o profeta lentamente respondeu:
- No princípio eu pregava na esperança de convencer as pessoas a mudar de vida. Agora, se continuo a pregar, faço-o, mas para que as pessoas não me obriguem a mim a mudar de vida...
Portanto, por outro lado, aquelas mesmas pessoas que eu lamento, elas no fundo também acabam por ser verdadeiramente dignas de admiração por não se deixarem afastar pelos que têm usado o poder para fins funestos...
Assim seja, desde que elas nunca baixem os braços, desde que nunca desistam de lutar!
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Agosto 27, 2009
Ensinar...
Revi o filme "A Sombra de um Homem", cujo título original é "The Browning Version", de Anthony Asquith.
É, de longe, o meu filme preferido sobre ser-se professor.
Michael Redgrave desempenha magistralmente o papel de um professor a quem a usura dos anos quase derrotou os sonhos da juventude: o sonho de ser um professor excelente e o de conseguir transmitir a sua paixão pela cultura clássica e, em particular, pela peça Agamémnon de Ésquilo (de que ele próprio fez uma tradução incompleta).
O filme é de uma beleza e de uma inteligência inultrapassáveis, que quase nos mantêm sufocados todo o tempo, a nós que amamos realmente a tarefa e a missão de ensinar.
E este filme fez-me voltar à questão de qual é a minha verdadeira vocação. Questão que, a bem dizer, não se põe: a minha vocação tem sido ao longo dos anos e ainda é a de ensinar, sem dúvida alguma.
De tal tenho sido impedido nos últimos anos (de ensinar, note-se, apesar de eu bem ter tentado); além de que amo demasiado esta missão para deixar que me obriguem a participar no seu abastardamento: por isso, o meu futuro não vai passar de certeza pela escola pública, isso para mim está já fora de questão (só devido a um absoluto desespero é que eu lá voltarei, ou a um mais que improvável volte-face do que lá se está a passar).
Mas ainda não desisti completamente do sonho de... ensinar Matemática!
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É, de longe, o meu filme preferido sobre ser-se professor.
Michael Redgrave desempenha magistralmente o papel de um professor a quem a usura dos anos quase derrotou os sonhos da juventude: o sonho de ser um professor excelente e o de conseguir transmitir a sua paixão pela cultura clássica e, em particular, pela peça Agamémnon de Ésquilo (de que ele próprio fez uma tradução incompleta).
O filme é de uma beleza e de uma inteligência inultrapassáveis, que quase nos mantêm sufocados todo o tempo, a nós que amamos realmente a tarefa e a missão de ensinar.
E este filme fez-me voltar à questão de qual é a minha verdadeira vocação. Questão que, a bem dizer, não se põe: a minha vocação tem sido ao longo dos anos e ainda é a de ensinar, sem dúvida alguma.
De tal tenho sido impedido nos últimos anos (de ensinar, note-se, apesar de eu bem ter tentado); além de que amo demasiado esta missão para deixar que me obriguem a participar no seu abastardamento: por isso, o meu futuro não vai passar de certeza pela escola pública, isso para mim está já fora de questão (só devido a um absoluto desespero é que eu lá voltarei, ou a um mais que improvável volte-face do que lá se está a passar).
Mas ainda não desisti completamente do sonho de... ensinar Matemática!
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Agosto 04, 2009
Que futuro?
Respondi a um anúncio da Escola Internacional de Vilamoura. Não obtive resposta... ainda? Mas não estou preocupado (embora ache que a escola deveria enviar um mail de resposta aos professores não aceites, espero que faça isso).
Confesso que a ideia do trabalho de professor por enquanto me causa um certo desgosto. Está a ser difícil esquecer-me:
a) do rancor enviesado das pessoas aos professores,
b) dos alunos malcriados e violentos (porque ia todos os dias para a escola com medo do que me pudesse acontecer, a mim e aos meus colegas), e
c) do desprezo com que o governo nos tratava a todos nós professores.
Não sei se isto é estar traumatizado, mas que anda lá perto, anda.
Daí que esteja a encarar com verdadeiro entusiasmo é mesmo uma mudança de carreira. Para isso inscrevi-me, e fui admitido, a um Mestrado em Energias Renováveis. É por aqui que eu vou investir todos os meus esforços.
E do mundo da educação, talvez apenas as explicações, numa relação pessoal com aluno a aluno, em que posso finalmente fazer aquilo que eu sei fazer bem e que gosto de fazer: ensinar.
Embora, se mudar de carreira, fique com pena de deixar a Educação. Primeiro, porque com o espírito de serviço público que é ainda o meu, me suscita horror os milhares de euros que o Estado investiu em mim e na minha formação e que vão assim ser deitados à rua. Depois, porque a minha vocação e o meu talento para esta área, capazes de beneficiar tanto o meu país, vai deixar de ser posta a uso. De certa maneira, é triste.
A área para onde pretendo redireccionar a minha vida profissional, energias renováveis, também beneficia o país. Mas agora, a minha preocupação já não é simplesmente o que é melhor para os alunos e para os pais. Não, agora, vai passar a incidir muito no que é que é melhor para mim... Claro, sem nunca deixar de fazer o meu trabalho com toda a competência necessária. Mas é diferente...
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Confesso que a ideia do trabalho de professor por enquanto me causa um certo desgosto. Está a ser difícil esquecer-me:
a) do rancor enviesado das pessoas aos professores,
b) dos alunos malcriados e violentos (porque ia todos os dias para a escola com medo do que me pudesse acontecer, a mim e aos meus colegas), e
c) do desprezo com que o governo nos tratava a todos nós professores.
Não sei se isto é estar traumatizado, mas que anda lá perto, anda.
Daí que esteja a encarar com verdadeiro entusiasmo é mesmo uma mudança de carreira. Para isso inscrevi-me, e fui admitido, a um Mestrado em Energias Renováveis. É por aqui que eu vou investir todos os meus esforços.
E do mundo da educação, talvez apenas as explicações, numa relação pessoal com aluno a aluno, em que posso finalmente fazer aquilo que eu sei fazer bem e que gosto de fazer: ensinar.
Embora, se mudar de carreira, fique com pena de deixar a Educação. Primeiro, porque com o espírito de serviço público que é ainda o meu, me suscita horror os milhares de euros que o Estado investiu em mim e na minha formação e que vão assim ser deitados à rua. Depois, porque a minha vocação e o meu talento para esta área, capazes de beneficiar tanto o meu país, vai deixar de ser posta a uso. De certa maneira, é triste.
A área para onde pretendo redireccionar a minha vida profissional, energias renováveis, também beneficia o país. Mas agora, a minha preocupação já não é simplesmente o que é melhor para os alunos e para os pais. Não, agora, vai passar a incidir muito no que é que é melhor para mim... Claro, sem nunca deixar de fazer o meu trabalho com toda a competência necessária. Mas é diferente...
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Julho 26, 2009
De partida
Uma acção de formação, a arrumação e o empacotamento das minhas coisas, bem como o encerramento das últimas "contas" que tenho na escola e aqui em Lisboa, têm como consequência a falta de disponibilidade para vir aqui.
Mas hoje (que vou ficar sem o computador que vai para o "estaleiro") não posso deixar de dar testemunho da minha partida depois de amanhã, 3ª feira.
É uma vida de 25 anos de ensino que deixo para trás. Há limites para o que nos fazem e para o que nos obrigam a fazer! Mas sobre isto já escrevi muito. Não vou olhar para trás.
Importa agora é a vida nova que me espera, a vida que eu escolhi, a vida que eu vou construir.
Mas não sozinho. Vou viver com uma pessoa maravilhosa, acabando finalmente com uma solidão de 50 anos (há sonhos que se realizam mesmo!).
Volto à Universidade como aluno para consolidar a reorientação que pretendo dar à minha vida.
E vou estar aberto a todas as oportunidades que me surjam de viver coisas boas, de aprender com tudo o que me aconteça e de me envolver em novos e entusiasmantes desafios!
Assim será!
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Mas hoje (que vou ficar sem o computador que vai para o "estaleiro") não posso deixar de dar testemunho da minha partida depois de amanhã, 3ª feira.
É uma vida de 25 anos de ensino que deixo para trás. Há limites para o que nos fazem e para o que nos obrigam a fazer! Mas sobre isto já escrevi muito. Não vou olhar para trás.
Importa agora é a vida nova que me espera, a vida que eu escolhi, a vida que eu vou construir.
Mas não sozinho. Vou viver com uma pessoa maravilhosa, acabando finalmente com uma solidão de 50 anos (há sonhos que se realizam mesmo!).
Volto à Universidade como aluno para consolidar a reorientação que pretendo dar à minha vida.
E vou estar aberto a todas as oportunidades que me surjam de viver coisas boas, de aprender com tudo o que me aconteça e de me envolver em novos e entusiasmantes desafios!
Assim será!
Etiquetas: Pessoal
O que os bons professores podem fazer
Escrevi isto hoje n'A Educação do Meu Umbigo, a propósito de uma entrevista da ministra:
Eu sou um bom professor – as notas mais altas obtidas por alunos da minha escola nos exames foram de alunos meus.
Recusei esta avaliação – não entreguei os objectivos individuais, não fui a acções para avaliadores, não fui avaliador e não entreguei a ficha de auto-avaliação.
Não tenho medo de avaliação nenhuma. Simplesmente acho este sistema profundamente lesivo para o ensino relativamente ao ideal de escola pública que tenho.
Sei que o governo não tem razão porque, se a tivesse, não precisaria de mentir como o faz.
Os bons professores são bons em qualquer outro trabalho. Acredito nisto e, por isso, com 51 anos e 24 de ensino, vou-me embora (sem reforma).
Sim, porque há e tem de haver um limite para o que nos fazem e para o que nos obrigam a fazer.
Esclarecimento: As notas referem-se à disciplina de Matemática que leccionei durante muitos anos.
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Eu sou um bom professor – as notas mais altas obtidas por alunos da minha escola nos exames foram de alunos meus.
Recusei esta avaliação – não entreguei os objectivos individuais, não fui a acções para avaliadores, não fui avaliador e não entreguei a ficha de auto-avaliação.
Não tenho medo de avaliação nenhuma. Simplesmente acho este sistema profundamente lesivo para o ensino relativamente ao ideal de escola pública que tenho.
Sei que o governo não tem razão porque, se a tivesse, não precisaria de mentir como o faz.
Os bons professores são bons em qualquer outro trabalho. Acredito nisto e, por isso, com 51 anos e 24 de ensino, vou-me embora (sem reforma).
Sim, porque há e tem de haver um limite para o que nos fazem e para o que nos obrigam a fazer.
Esclarecimento: As notas referem-se à disciplina de Matemática que leccionei durante muitos anos.
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