Dezembro 30, 2009
Um dia de saia
Ontem, no cineclube de Olhão, La Journée de la jupe, de Jean-Paul Lilienfeld.
Uma professora de francês vê-se, numa aula com alunos muçulmanos, com uma arma nas mãos. Dá a sua aula e, entretanto, vai descobrindo os horrores por que passam os alunos mais fracos (e que os professores nas escolas reais procuram ignorar no seu dia a dia, porque sabem que nada podem fazer).
O filme exagera? Não, em absoluto não. Uma das pessoas com quem fui ver o filme dizia no fim: "Felizmente que aqui em Portugal as coisas ainda não chegaram a este ponto!" Fitei-a com incredulidade. Tirando a componente religiosa que, aqui em Portugal, de facto, não tem grande peso, a verdade é que reencontro tudo o que já vivi em escolas portuguesas (excepto a arma de fogo, porque armas brancas já há muitos anos que elas entram na escola portuguesa).
E ainda há três coisas que eu senti falta no filme: o aluno delinquente de sorriso na boca e olhar frio (tive-o no ano passado); o envio de alunos, agredidos por colegas, para o hospital; e a sodomização de alunos (o filme refere a violação de uma aluna).
A professora é perturbada emocionalmente, como a crítica quis fazer passar? Só no sentido em que qualquer pessoa fica perturbada emocionalmente quando é acossada como ela o foi. Só no sentido em que ela não se deixa paralisar pelo medo e confronta os alunos com a sua violência (deles).
Um aparte: não vou entrar naquele discurso de tantos professores, e que aparecem retratados no filme, de comigo nunca tive problemas, eu, eu até consigo resolver tudo a bem. Vou ser claro: não consigo resolver nada; e, face à extrema violência verbal e física dos alunos, face à minha completa vulnerabilidade e ausência de autoridade (que foi retirada aos professores) eu paraliso de medo e fico incapaz de reagir.
O director diz no filme que o papel dos professores é serem baby-sitters, o que é falso. O papel não oficial dos professores é servirem de almofada para toda a violência adolescente e mantê-la confinada dentro das escolas. Ensinar não é de todo o mais importante (por isso é que a formação dos professores nunca incide sobre os conteúdos).
O filme tocou-me principalmente porque retrata a total impossibilidade de a escola proteger os alunos mais fracos dos delinquentes. Uma das vítimas do filme quer ficar sequestrada para sempre, porque só assim sabe que fica segura; outra das vítimas pretende fugir para a Austrália com a família e acaba, aliás, por matar porque sabe que é a única maneira de proteger a irmã que foi ameaçada.
Estou a ver as coisas de uma forma primária? Estou. E estou porque gente iluminada achou que se educa crianças e jovens sem eles nunca terem de sentir as consequências do que fazem de errado. Com a originalidade portuguesa de só se poderem dar castigos se o castigado concordar - se não concordar, só resta o castigo da suspensão que não é castigo nenhum porque as faltas ficam todas justificadas, o aluno não chumba, nem pode sequer ser avaliado pela matéria a que ele não esteve a assistir: em suma, ensina-se na escola portuguesa que o crime compensa sempre. Sempre.
Post-Scriptum: Mais uma vez, e tipicamente, é a pessoa que tem uma reacção saudável e normal face a uma situação, que é ou devia ser inaceitável e intolerável, que é vista como uma doente, como uma perturbada (outro nome para "louca").
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Uma professora de francês vê-se, numa aula com alunos muçulmanos, com uma arma nas mãos. Dá a sua aula e, entretanto, vai descobrindo os horrores por que passam os alunos mais fracos (e que os professores nas escolas reais procuram ignorar no seu dia a dia, porque sabem que nada podem fazer).
O filme exagera? Não, em absoluto não. Uma das pessoas com quem fui ver o filme dizia no fim: "Felizmente que aqui em Portugal as coisas ainda não chegaram a este ponto!" Fitei-a com incredulidade. Tirando a componente religiosa que, aqui em Portugal, de facto, não tem grande peso, a verdade é que reencontro tudo o que já vivi em escolas portuguesas (excepto a arma de fogo, porque armas brancas já há muitos anos que elas entram na escola portuguesa).
E ainda há três coisas que eu senti falta no filme: o aluno delinquente de sorriso na boca e olhar frio (tive-o no ano passado); o envio de alunos, agredidos por colegas, para o hospital; e a sodomização de alunos (o filme refere a violação de uma aluna).
A professora é perturbada emocionalmente, como a crítica quis fazer passar? Só no sentido em que qualquer pessoa fica perturbada emocionalmente quando é acossada como ela o foi. Só no sentido em que ela não se deixa paralisar pelo medo e confronta os alunos com a sua violência (deles).
Um aparte: não vou entrar naquele discurso de tantos professores, e que aparecem retratados no filme, de comigo nunca tive problemas, eu, eu até consigo resolver tudo a bem. Vou ser claro: não consigo resolver nada; e, face à extrema violência verbal e física dos alunos, face à minha completa vulnerabilidade e ausência de autoridade (que foi retirada aos professores) eu paraliso de medo e fico incapaz de reagir.
O director diz no filme que o papel dos professores é serem baby-sitters, o que é falso. O papel não oficial dos professores é servirem de almofada para toda a violência adolescente e mantê-la confinada dentro das escolas. Ensinar não é de todo o mais importante (por isso é que a formação dos professores nunca incide sobre os conteúdos).
O filme tocou-me principalmente porque retrata a total impossibilidade de a escola proteger os alunos mais fracos dos delinquentes. Uma das vítimas do filme quer ficar sequestrada para sempre, porque só assim sabe que fica segura; outra das vítimas pretende fugir para a Austrália com a família e acaba, aliás, por matar porque sabe que é a única maneira de proteger a irmã que foi ameaçada.
Estou a ver as coisas de uma forma primária? Estou. E estou porque gente iluminada achou que se educa crianças e jovens sem eles nunca terem de sentir as consequências do que fazem de errado. Com a originalidade portuguesa de só se poderem dar castigos se o castigado concordar - se não concordar, só resta o castigo da suspensão que não é castigo nenhum porque as faltas ficam todas justificadas, o aluno não chumba, nem pode sequer ser avaliado pela matéria a que ele não esteve a assistir: em suma, ensina-se na escola portuguesa que o crime compensa sempre. Sempre.
Post-Scriptum: Mais uma vez, e tipicamente, é a pessoa que tem uma reacção saudável e normal face a uma situação, que é ou devia ser inaceitável e intolerável, que é vista como uma doente, como uma perturbada (outro nome para "louca").
Dezembro 29, 2009
Ida ao cinema em Faro
Um BMW enorme, com um casal de velhos lá dentro, mete-se no lugar que esperávamos que vagasse para estacionarmos o nosso carro. Na fila para a compra dos bilhetes, umas jovens, atrás de nós, iam entremeando as suas falas com diversos "f...-se's" e "c...lho's". Quando nos dirigíamos para os nossos lugares, o jovem atrás de mim tinha as botas (em dia de chuva intensa) apoiadas no alto do encosto da minha cadeira... com os pais ao lado.
Ontem. Exactamente assim.
Cada vez vejo menos possibilidades de comunicação com o mundo, tal como ele está a ser construído.
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Ontem. Exactamente assim.
Cada vez vejo menos possibilidades de comunicação com o mundo, tal como ele está a ser construído.
Dezembro 23, 2009
Feliz Natal
O que está dentro do que digo quando digo "Feliz Natal"?
Trata-se de um desejo; ou, talvez, de um pequeno conjunto de desejos.
Pequeno, porque sei que não é preciso muito para uma pessoa ficar feliz: um pouco de alimento e de sol, de amor, um livro, uma paisagem, e pouco mais...
Sim, é isto tudo, no fundo, meus amigos, aquilo que vos desejo para este Natal.
Boas Festas para todos!
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Trata-se de um desejo; ou, talvez, de um pequeno conjunto de desejos.
Pequeno, porque sei que não é preciso muito para uma pessoa ficar feliz: um pouco de alimento e de sol, de amor, um livro, uma paisagem, e pouco mais...
Sim, é isto tudo, no fundo, meus amigos, aquilo que vos desejo para este Natal.
Boas Festas para todos!
Etiquetas: Relações Humanas
Dezembro 22, 2009
Balanço
Gosto do mar, da terra, do grande espaço azul do céu. Da Ria, da praia. Das árvores, dos campos, do cheiro, um cheiro forte e profundo exclusivo do Algarve.
E amo. Amo muito. E sou amado, muito bem amado.
Trabalho sem parar. Mas não recebo ordens de ninguém: quando querem alguma coisa, pedem-me. É bom. Como também é bom recuperar a dignidade no trabalho que realizo (ah, tudo o que deixei de ser obrigado a fazer e que ia contra a minha ética pessoal e profissional!) E na forma como os alunos recebem o que eu tenho para ensinar.
Tudo isto é gratuito? Não. Posso dizer que agora sou pobre. Não de sol nem de coração, claro. Mas pobre monetariamente. É o preço; e um preço justo, acrescento.
É este o balanço que faço. Um balanço feliz, sem dúvida.
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E amo. Amo muito. E sou amado, muito bem amado.
Trabalho sem parar. Mas não recebo ordens de ninguém: quando querem alguma coisa, pedem-me. É bom. Como também é bom recuperar a dignidade no trabalho que realizo (ah, tudo o que deixei de ser obrigado a fazer e que ia contra a minha ética pessoal e profissional!) E na forma como os alunos recebem o que eu tenho para ensinar.
Tudo isto é gratuito? Não. Posso dizer que agora sou pobre. Não de sol nem de coração, claro. Mas pobre monetariamente. É o preço; e um preço justo, acrescento.
É este o balanço que faço. Um balanço feliz, sem dúvida.
Etiquetas: Pessoal
Outubro 06, 2009
1º Salário
Apesar do pouco tempo disponível que tenho, hoje tenho de vir aqui dar notícias da liberdade.
Hoje recebi o meu primeiro salário em liberdade. Hoje recebi a paga pelo trabalho que fiz.
Sem ter sido insultado, sem ter sido desprezado, sem ter sido humilhado.
E sem ter sido das mãos de miseráveis sem escrúpulos e sem vergonha.
Não é muito dinheiro. Mas é infinitamente mais saboroso e digno do que aquele que tenho recebido nos últimos anos.
Para mim é muito importante, claro, a quantidade que recebo. Mas é-me muito, muito mais importante a qualidade dos indivíduos de quem eu o recebo, bem como tudo a que tenho de me sujeitar a fazer e a suportar para o receber.
Cheguei à conclusão que o dinheiro não paga tudo, isto é, não compensa a perda da dignidade nem a da integridade. E sinto-me grato por ter conseguido assumir a minha liberdade e ter recuperado ambas. Com sacrifício. Mas está a valer a pena.
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Hoje recebi o meu primeiro salário em liberdade. Hoje recebi a paga pelo trabalho que fiz.
Sem ter sido insultado, sem ter sido desprezado, sem ter sido humilhado.
E sem ter sido das mãos de miseráveis sem escrúpulos e sem vergonha.
Não é muito dinheiro. Mas é infinitamente mais saboroso e digno do que aquele que tenho recebido nos últimos anos.
Para mim é muito importante, claro, a quantidade que recebo. Mas é-me muito, muito mais importante a qualidade dos indivíduos de quem eu o recebo, bem como tudo a que tenho de me sujeitar a fazer e a suportar para o receber.
Cheguei à conclusão que o dinheiro não paga tudo, isto é, não compensa a perda da dignidade nem a da integridade. E sinto-me grato por ter conseguido assumir a minha liberdade e ter recuperado ambas. Com sacrifício. Mas está a valer a pena.
Etiquetas: Valores
Setembro 27, 2009
Um futuro negro
Confesso-me terrivelmente assustado.
O ladrão de deficientes e dos doentes que são obrigados a ir para o hospital;
para oferecer dinheiro e outras benesses aos bancos;
que fez da inveja, não da ambição, um valor;
que normalizou a mentira, a ponto de ela ser indistinguível da verdade;
que perseguiu os jornalistas que não pôde comprar,
que premiou a incompetência e a desonestidade,
que, enfim, tanto empobreceu Portugal, não só material mas também, e acima de tudo, animicamente...
... ganha as eleições?
Repito para mim vezes sem conta: já não sou professor!, já não me podem tratar como lixo!, já não sou professor!, já não sou professor e estou muito mais livre dele(s). Mas nada disto consegue afastar as sombras negras que inundam o meu espírito.
E se, aos 51 anos de idade, consegui mudar de vida, de trabalho e de cidade, também conseguirei, se isto ficar insuportável, mudar para fora deste país, cada vez mais miserável e de miseráveis!
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O ladrão de deficientes e dos doentes que são obrigados a ir para o hospital;
para oferecer dinheiro e outras benesses aos bancos;
que fez da inveja, não da ambição, um valor;
que normalizou a mentira, a ponto de ela ser indistinguível da verdade;
que perseguiu os jornalistas que não pôde comprar,
que premiou a incompetência e a desonestidade,
que, enfim, tanto empobreceu Portugal, não só material mas também, e acima de tudo, animicamente...
... ganha as eleições?
Repito para mim vezes sem conta: já não sou professor!, já não me podem tratar como lixo!, já não sou professor!, já não sou professor e estou muito mais livre dele(s). Mas nada disto consegue afastar as sombras negras que inundam o meu espírito.
E se, aos 51 anos de idade, consegui mudar de vida, de trabalho e de cidade, também conseguirei, se isto ficar insuportável, mudar para fora deste país, cada vez mais miserável e de miseráveis!
Setembro 20, 2009
Cidadania

Ontem, no Pátio das Letras em Faro, estive num encontro com a participação de Manuel Vilaverde Cabral e Luísa Schmidt, para a apresentação do livro Cidade & Cidadania.
Ao falar-se de mobilização e participação cívicas, muito maior nas cidades e maior entre a população jovem e feminina, falou-se inevitavelmente da luta dos professores (cuja esmagadora maioria é constituída realmente por mulheres).
Foi dito que os professores tinham ganho essa luta, já que o PS tinha perdido as eleições europeias e já que tinham sido introduzidas alterações ao sistema de avaliação.
Esclareçamos dois pontos:
Primeiro: os professores limitaram-se a uma vitória política parcial. Mas isso só se sabe agora.
Porque, durante quase quatro anos, e apesar da persistência da luta, politicamente, foram somando derrotas atrás de derrotas.
Quando o PS perder as eleições legislativas (e esperemos que as perca já), então os professores poderão falar de uma vitória política. Que só será plena se o novo governo desfizer o desastre em que está hoje mergulhada a escola pública.
De qualquer modo, a nível pessoal, ou profissional, ou de luta por um ideal de escola, a derrota dos professores é praticamente total; e temo que duradoura por muitos e largos anos, tal a profundidade do mal que lhes foi infligido.
Segundo: os professores lutam contra o sistema de avaliação que este governo quer impor, mas porque ele promove a destruição de uma escola pública de qualidade, promotora do sucesso cognitivo, social e emocional dos alunos. Portanto, simplificar o sistema sem o mudar, para os professores isso é o mesmo que nada, não se trata de vitória nenhuma, mas apenas da continuação da derrota por outros meios. É que não é mesmo contra a avaliação que os professores lutam, ao contrário da ideia que o poder quer fazer passar para a opinião pública.
Etiquetas: Escola
Setembro 18, 2009
O poder dos economistas
As ideias dos economistas influenciam cada vez mais as decisões políticas, cujos efeitos temos depois de suportar e amargar.
Tento entender o porquê deste poder.
Numa sociedade pobre como a nossa, se o meu principal problema é o dinheiro (isto é, a falta dele), então é natural que oiça e dê mais atenção a quem me fala desta minha preocupação. E, assim, os economistas são ouvidos. As suas ideias (certas ou erradas, a maior parte das vezes erradas - não por eles serem particularmente maus, mas apenas porque as suas ideias só são certas em condições ideais e absolutamente irreais) transformam-se em palavras e estas, mais tarde ou mais cedo, em acções.
A verdade é que eles pensam muito em termos de lucro. Ora o lucro, seja qual for o contexto em que se insere, é sempre o lucro de alguns, nunca de todos. É esse o quadro mental em que eles, na sua maioria, se movem. Então se têm esta limitação, porquê dar-lhes o poder de influenciar toda uma sociedade?
Ainda por cima, como na sua maioria são velhos (como eu) é provável que ou estejam subordinados a ideias de economistas já defuntos ou aderiram às mais recentes e selvagens (e, portanto, nunca testadas) para não serem rotulados de atrasados.
Não entendo mesmo o seu poder no dia a dia da política.
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Tento entender o porquê deste poder.
Numa sociedade pobre como a nossa, se o meu principal problema é o dinheiro (isto é, a falta dele), então é natural que oiça e dê mais atenção a quem me fala desta minha preocupação. E, assim, os economistas são ouvidos. As suas ideias (certas ou erradas, a maior parte das vezes erradas - não por eles serem particularmente maus, mas apenas porque as suas ideias só são certas em condições ideais e absolutamente irreais) transformam-se em palavras e estas, mais tarde ou mais cedo, em acções.
A verdade é que eles pensam muito em termos de lucro. Ora o lucro, seja qual for o contexto em que se insere, é sempre o lucro de alguns, nunca de todos. É esse o quadro mental em que eles, na sua maioria, se movem. Então se têm esta limitação, porquê dar-lhes o poder de influenciar toda uma sociedade?
Ainda por cima, como na sua maioria são velhos (como eu) é provável que ou estejam subordinados a ideias de economistas já defuntos ou aderiram às mais recentes e selvagens (e, portanto, nunca testadas) para não serem rotulados de atrasados.
Não entendo mesmo o seu poder no dia a dia da política.
Etiquetas: Valores
Setembro 06, 2009
Os 50
Ontem estive numa festa de aniversário de uma amiga que fazia 50 anos.
Muitas vezes fala-se dos 50 em referência a uma juventude, se não perdida, pelo menos melancolicamente distante. Há de certa forma um tom de quem sente ter uma boa parte da sua alma agarrada a esses anos de juventude cada vez mais mais perdidos.
Claro que, genericamente, sinto o mesmo.
Mas não devia sentir.
Lembro-me de ler, com 14, 15 anos os livros de Ray Bradbury na Colecção Argonauta da minha tia. E de ficar deslumbrado... como aliás ainda hoje fico, quando os releio.
Na altura rendi-me completamente à sabedoria e à simplicidade reveladas por Ray Bradbury e quis desesperadamente vir um dia a ser assim como ele, a ter também essa sabedoria. Soube que ele tinha na altura 50 anos e, então, durante muitos anos, desejei imenso chegar a essa idade.
Já cheguei.
E obtive essa sabedoria? Acho que uma boa parte dela, sim. Talvez não tenha conseguido manter toda a inocência que, em Ray Bradbury, se lhe encontrava sempre associada. Talvez.
Mas adquiri a sabedoria suficiente para não ter qualquer nostalgia do meu passado. Para ultrapassar o sofrimento dos anos anteriores com a alegria das realizações actuais, bem como dos novos desafios que eu tenho vindo a criar para a minha vida. Para achar que pelas pessoas, pelo mundo e pela liberdade vale bem a pena estar vivo e cada vez mais sábio.
No fundo, estou muito onde sonhei uma vida inteira estar.
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Muitas vezes fala-se dos 50 em referência a uma juventude, se não perdida, pelo menos melancolicamente distante. Há de certa forma um tom de quem sente ter uma boa parte da sua alma agarrada a esses anos de juventude cada vez mais mais perdidos.
Claro que, genericamente, sinto o mesmo.
Mas não devia sentir.
Lembro-me de ler, com 14, 15 anos os livros de Ray Bradbury na Colecção Argonauta da minha tia. E de ficar deslumbrado... como aliás ainda hoje fico, quando os releio.
Na altura rendi-me completamente à sabedoria e à simplicidade reveladas por Ray Bradbury e quis desesperadamente vir um dia a ser assim como ele, a ter também essa sabedoria. Soube que ele tinha na altura 50 anos e, então, durante muitos anos, desejei imenso chegar a essa idade.
Já cheguei.
E obtive essa sabedoria? Acho que uma boa parte dela, sim. Talvez não tenha conseguido manter toda a inocência que, em Ray Bradbury, se lhe encontrava sempre associada. Talvez.
Mas adquiri a sabedoria suficiente para não ter qualquer nostalgia do meu passado. Para ultrapassar o sofrimento dos anos anteriores com a alegria das realizações actuais, bem como dos novos desafios que eu tenho vindo a criar para a minha vida. Para achar que pelas pessoas, pelo mundo e pela liberdade vale bem a pena estar vivo e cada vez mais sábio.
No fundo, estou muito onde sonhei uma vida inteira estar.
Etiquetas: Pessoal
Setembro 01, 2009
O 1º Dia
O fervor é pensar que, apesar de perdido, o paraíso continua a ser ainda aquilo de que nos lembramos, aquilo que permite que saiamos desta terra, onde aparecemos, sem ter o sentimento, ou a convicção, de que estivemos no inferno.
(Eduardo Lourenço, cit. in JL, nº 1013, p33)
Hoje, aqui, a paragem é obrigatória.
Porque hoje é o primeiro dia verdadeiramente da minha liberdade.
Hoje entrei na situação de licença sem vencimento de longa duração. Acabou-se tudo aquilo que, parafraseando Eduardo Lourenço, me dava o sentimento e a convicção de estar a viver num inferno.
Ao contrário dos últimos anos, entro por Setembro feliz, sem angústia e sem medo.
Inscrito no mestrado. Com emprego num centro de explicações, a fazer o que sei e que gosto realmente de fazer: ensinar.
Bastante mais livre do poder abusador de um governo maldoso e estúpido.
E mesmo que tenha de comer lentilhas, como Diógenes… abençoadas lentilhas!
O fervor é também tudo isto.
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(Eduardo Lourenço, cit. in JL, nº 1013, p33)
Hoje, aqui, a paragem é obrigatória.
Porque hoje é o primeiro dia verdadeiramente da minha liberdade.
Hoje entrei na situação de licença sem vencimento de longa duração. Acabou-se tudo aquilo que, parafraseando Eduardo Lourenço, me dava o sentimento e a convicção de estar a viver num inferno.
Ao contrário dos últimos anos, entro por Setembro feliz, sem angústia e sem medo.
Inscrito no mestrado. Com emprego num centro de explicações, a fazer o que sei e que gosto realmente de fazer: ensinar.
Bastante mais livre do poder abusador de um governo maldoso e estúpido.
E mesmo que tenha de comer lentilhas, como Diógenes… abençoadas lentilhas!
O fervor é também tudo isto.
Etiquetas: Pessoal