Domingo, Janeiro 01, 2012

Votos para o ano de 2012

Quero incluir aqui o discurso que Leonard Cohen proferiu por ter recebido o Prémio Príncipe das Astúrias, a 21 de Outubro de 2011.
Porque desejo que o ano de 2012 nos traga esses lugares e proteja essas pessoas em que a poesia se encontra com o que de mais alto existe na natureza humana, tal como aqui exemplifica Leonard Cohen com as suas palavras e com a sua atitude. Onde a cortesia, a humildade, o reconhecimento e a verdadeira grandeza brilham de forma inesquecível.



Como disse Lou Reed noutro contexto, "We´re so lucky to be alive at the same time Leonard Cohen is!"

Sábado, Dezembro 31, 2011

Uff, finalmente a falar do Conjunto António Mafra.
É como abrir a porta e estar a casa.
Andei por tão longe, que fui adiando este encontro primeiro, vindo do som dos carrinhos de choque da minha infância e adolescência.
Sabe-se que a felicidade são momentos, inesperados e formadores - e a música deles põe-me inteiramente feliz, no tempo de uma canção e no tempo logo a seguir.
Reconheci desde miúdo na escrita do próprio António Mafra, que desapareceu cedo mas deixou bem entregues as suas muitas canções, algo que tomei por essencial, só compreendendo aos poucos porquê. (...)

Queria terminar o ano de 2011 com uma nota de alegria. Melhor, de uma garantia de alegria para 2012.
Para esse fim, dificilmente alguém bate o Conjunto António Mafra.
Nada a acrescentar ao que Sérgio Godinho diz.
E eis a canção que este decidiu interpretar num dos seus discos:
 

Sexta-feira, Dezembro 23, 2011

Mensagem de Natal, apesar de tudo

Como crianças entretivemo-nos com brinquedos como a Economia, o Progresso, as Tecnologias, a Ciência, a Riqueza, o Desejo de Posse, etc.
Todos esses brinquedos jazem à nossa volta.
E as suas entranhas, à nossa vista, confrontam-nos face a face com a dimensão do nosso desastre, actual e futuro.
Ora, a criança é forçoso que cresça e tal é a exigência do nosso destino nos tempos presentes.

Questão dolorosa, essa: como crescer?
Questão sem respostas definitivas, questão sempre aberta, questão com outras questões metidas dentro.
Mas para que a questão se revele fecunda e permita um real crescimento seria desejável que se verificassem alguns requesitos prévios:
  • Deixar de perseguir, porque nos humilha, diminui e consome energias inutilmente.
  • Deixar de fugir, porque nos vitimiza e o que desejamos é uma vida real, assumida, não a fingir.
  • Responsabilidade, sobretudo, responsabilidade total por nós próprios, perante nós e perante os outros...
...porque sabemos definitivamente que não há deuses a nascer por nós, que morram por nós, que ressuscitem ao 3º dia e que nos venham salvar do que quer em que nos tenhamos metido!

O Mundo, a Natureza e os nossos Filhos precisam de nós.

Boas Festas!

Quinta-feira, Outubro 13, 2011

A (falta de) saúde mental dos portugueses

No Público de 10 de Outubro de 2011

(...) um em cada cinco portugueses já sofreu de uma doença psiquiátrica e quase metade (43%) já teve uma perturbação psicológica durante a vida. "Portugal parece ser o país da Europa com maior prevalência de perturbações mentais na população, (...)

Esta notícia assusta-me, mas não posso dizer que me surpreenda. Porquê?

Primeiro, porque os portugueses não são simpáticos uns para os outros. Não o são nas estradas, não o são nos empregos, não o são em quase lado nenhum. Os portugueses não se tratam bem uns aos outros: a dureza, a arrogância, o desprezo são vistos como qualidades, não como defeitos. E as pessoas que ostentam estas caraterísticas são as que mais sobem na vida, são as que mais conseguem obter coisas dos outros. E, naturalmente, não vêem razão para pararem de ser o que são.

Vê-se bem esta falta de simpatia nas demonstrações de gratidão, por exemplo. Quer dizer, não se vê, pois quase nunca ninguém agradece nada a ninguém. Os portugueses acham que quem lhes faz qualquer coisa em seu benefício, não fez mais do que a sua obrigação. Portanto, não merece agradecimento; nem sequer reconhecimento.

Por outro lado, os portugueses, cada vez mais tão naturalmente que já nem se dão conta, promovem entre si uma cultura de sofrimento, de queixumes, de mal-estar, de negativismo e de desânimo. Com óbvio comprazimento mútuo.

Neste ambiente social, as pessoas cada vez mais recebem dos outros a imagem de uma existência menor, ou mesmo de uma não-existência. As pessoas sentem-se sós e têm razão para isso. E, claro, as perturbações momentâneas que noutras circunstâncias não seriam mais do que isso mesmo, neste ambiente de ausência de suporte mútuo tornam-se permanentes e graves.

Eu espero que esta crise seja a oportunidade para as pessoas perceberem que é absolutamente necessário, no seu dia a dia, apoiarem-se umas às outras. E que os psicólogos e os futuros psicólogos sejam promotores activos dessa maneira nova de estar na vida. Nova e mais feliz.

Sábado, Outubro 01, 2011

Praxes e psicólogos

Já escrevi aqui contra estas práticas aberrantes. Então, espantava-me com as atitudes dos professores face a elas. Hoje, viro-me para os psicólogos: os que o vão ser no futuro e os que ensinam a sê-lo. Na Universidade do Algarve.


Do Meta Código de Ética aprovado pela Assembleia Geral de Atenas em Julho de 1995:

Os psicólogos também se empenham  em ajudar o público a desenvolver opiniões fundamentadas e escolhas no que respeita ao comportamento humano e empenham-se ainda em ajudar o público em geral a melhorar a condição humana individual e em sociedade.


Os psicólogos defendem o respeito apropriado e promovem o desenvolvimento dos direitos fundamentais, dignidade e valor de todas as pessoas. Eles respeitam o direito de (...) auto-determinação e autonomia, consistente com as outras obrigações profissionais do psicólogo e com a lei.


(...) Os psicólogos evitam prejudicar e são responsáveis pelos seus próprios actos e certificam-se, tanto quanto podem, que os seus serviços não são inadequadamente utilizados.


3.1. Respeito pelos Direitos e Dignidade do Ser Humano: (...) c) Evitamento de práticas que sejam o resultado de vieses incorrectos e que possam conduzir a discriminação injusta.


Os alunos do 1º ano (muitos deles longe da suas casas , das suas famílias, vulneráveis e assustados pela nova vida que estão a iniciar) são recebidos e tratados como "bestas" (é assim que são chamados), entram em desespero e terror perante as práticas brutais a que são sujeitos, e chegam a dizer que querem abandonar o ensino universitário por não suportarem mais a maneira como são tratados. E isto às mãos de colegas mais velhos (também do curso de Psicologia)!...

Estes indivíduos, que retiram um óbvio prazer das práticas sádicas que promovem (ainda por cima, certamente, com um conhecimento refinado pelo curso que andam a tirar), estes indivíduos: que tipo de psicólogos se irão tornar?

Porque grande parte de tudo isto é feito às claras, à frente dos olhos de toda a gente, acrescento que sinto uma enorme tristeza pela impotência e incapacidade reveladas pela minha Universidade (que aprendi a amar e a respeitar desde que para lá entrei) em conseguir proteger desta violência os seus alunos mais jovens e mais desamparados


Adenda:
A mim espanta-me que os jovens não percebam o sofrimento que infligem, nem o quanto se rebaixam ao rebaixarem os outros.
Mas, não compreendendo isto, há que arranjar maneiras de moderar a sua acção. E isso parece-me que só será conseguido através da acção de pares (já que os adultos, eu incluído, note-se, se mostram impotentes).
Já por várias vezes tenho sugerido que se deveriam organizar grupos de 2 ou 3 estudantes dos últimos anos que andariam pelo campus com a função de apoiar os alunos do 1º ano que precisassem de ajuda.
Esses grupos, sendo naturalmente constituídos por jovens em desacordo com a forma como as praxes se desenvolvem, não teriam por função entrar em confronto com os praxadores, mas apenas mostrar aos mais novos que eles têm liberdade de escolha, que não são obrigados a suportar tudo o que lhes é feito.
Teriam, assim, um papel moderador e talvez conseguissem prevenir muitos abusos, só pelo efeito da sua presença.

Quarta-feira, Setembro 21, 2011

Rei Édipo, Sófocles

(com introdução, tradução do grego e notas de Maria do Céu Zambujo Fialho)

A história é por demais conhecida, por isso aqui deixarei apenas algumas questões que nasceram de uma leitura apaixonada.

Édipo é sempre auto-determinado. Ele decide sempre por si próprio, não se deixa levar pelo que os outros dizem. O problema é que ele assim afunda-se na tragédia. Será que Sófocles faz aqui uma apologia da submissão e da passividade? Pelo menos à vontade dos deuses?
No entanto, Édipo responsabiliza-se sempre a si próprio pelo que faz e nunca deita as culpas para cima dos outros ou dos deuses. E Sófocles oferece-nos aqui um retrato grandioso desta personagem, com a qual não podemos nunca deixar de simpatizar e de admirar. Portanto, não parece que defenda a submissão. Ao contrário de Laio e de Jocasta, que procuram enganar os deuses com estratagemas, Sófocles constrói um Édipo corajoso e sempre pronto, por mais terrível que isso lhe pareça, a enfrentar as coisas como elas são.
Quando a boa fortuna de um poderoso começa a cair, aí surge a paranóia de que o andam a trair. Mais uma vez, repare-se que a grandeza de Édipo volta aqui a revelar-se, pois nem essa humana paranóia o faz desviar da busca implacável da verdade, não se perdendo em perseguições e castigos inúteis.
Infelizmente, é essa coragem e inteireza que vai provocar e revelar a sua desgraça. Por isso, interrogo-me sobre qual seria a posição de Sófocles sobre esta sua personagem, o que pensaria ele realmente de Édipo e do seu confronto com os deuses, ...

Uma reflexão adicional sobre Creonte. Nesta peça, Creonte mostra aqui grande sensatez, raciocínio lúcido e um saber bem como lidar com os outros. É um Creonte completamente distinto do de Antígona. Sófocles evidencia aqui algo que começamos a reconhecer hoje em dia: nós somos o que somos é certo que por factores disposicionais, mas também, e muito, devido a factores situacionais. É assim que Creonte próximo do rei é uma coisa, sendo rei é outra muito diferente.

Segunda-feira, Setembro 19, 2011

Confiar: um valor em défice

José Gil, no Jornal de Letras de 24 de Agosto de 2011:

O que eu lamento é a ausência de uma onda que possa captar essas energias, que por isso são desperdiçadas.
Nós somos bons em muitas áreas, mas actuamos como bolsas isoladas.
E isso não faz onda.
Não há comunidades.
É preciso que os muitos nichos em que somos bons, como na artes plásticas, música, dança, teatro, literatura, se cruzem e criem uma massa crítica que se mova por si própria.


Uma razão por que não há esse cruzamento (e muito menos um encontro, acrescento eu) não poderá residir no facto de ninguém confiar em ninguém? De todos sabermos que, por mais mérito que possamos ter, não haverá qualquer reconhecimento? A menos, claro, que pertençamos a um qualquer grupo que esteja próximo do poder?

Não será esta falta de confiança mútua que faz com que os realmente bons prefiram iniciativas solitárias, de modo a poderem concentrar-se no seu trabalho e a não terem que se dispersar por preocupações com políticas e intrigas?

Domingo, Setembro 18, 2011

Gandhi, sempre no coração

Satish Kumar, em entrevista ao i:

Muitos dizem que os seus ideais são utópicos. O que responde a isso?

Muita gente diz-me que eu sou idealista e que tenho de ser realista.

A minha resposta é: o que é que os realistas fizeram pelo mundo? O que é que alcançaram?
Por estarmos a ser governados por realistas temos uma crise económica, temos aquecimento global, temos guerra no Afeganistão, Líbia e em outros tantos países.
Os realistas criaram esta confusão toda. 
É altura de os realistas saírem e de os idealistas entrarem.
Isto não é mero idealismo, é um idealismo realista.
Vamos dizer: adeus realismo, bem-vindo idealismo!

Satish Kumar também refere que Gandhi disse:

There is enough in the world for everybody's need, but not enough for anybody´s greed.
(Há no mundo o suficiente para as necessidades de todos, mas não para alimentar a ganância de todos).

Quinta-feira, Agosto 04, 2011

Sistema de avaliação, agora nas universidades

Não consigo entender como é que um sistema de avaliação:

a) baseado na competição pode dar origem a trabalhadores mais preocupados com o serviço público. Como pode um funcionário público, ou um professor, habituado a atender diariamente aos factores que condicionam a sua própria carreira, a tratar do seu próprio benefício em detrimento dos outros, como pode ele, por uma transmutação mágica de personalidade, passar a empenhar as suas forças na execução do bem público, isto é, do bem dos outros?

b) baseado num sistema de recompensas externas (pontos, notas, passagens de escalão, etc) pode criar melhores trabalhadores. Sabe-se que a recompensa externa destrói a motivação interior (Ryan & Deci, 2000), pelo que a sua utilização deve ser sempre evitada. Contra a evidência científica espera-se que, com tal sistema, os funcionários públicos ou os professores se sintam autonomamente motivados para terem um bom desempenho e espírito de entreajuda.

Já começo a entender quando me apercebo que, por detrás de tudo isto, está apenas uma questão de poder, simplesmente uma questão de mais poder para os poderosos. Este sistema, na verdade, apenas promove o funcionário egoísta, nada solidário com os colegas, completamente indiferente ao bem público e, principal e fundamentalmente, obediente e submisso aos seus superiores.

Assim, tudo se torna claro.

Segunda-feira, Agosto 01, 2011

Poesia, Saudade da Prosa de Manuel António Pina

Nunca tinha lido a poesia de Manuel António Pina. Gostei muito deste livro que me foi oferecido por mão amiga. Trata-se de "uma antologia pessoal".
Tendo lido outras coisas do autor (no fundo, sendo um ignorante da sua obra), esperava uma escrita permeada de humor. Descobri uma poesia discreta, sem grandiloquências, humana, digna e sóbria. Inclui, é certo, uns laivos dispersos de ironia (nunca construída à custa de..., mas mais feita com...), e, no entanto, é uma ironia para sempre reflectida sobre um fundo de melancolia.
As ideias e as emoções evocadas pelo autor ao longo destas páginas abrem no nosso espírito atmosferas indefinidas, como se elas flutuassem no limiar da nossa consciência, ficando nós à beira de as compreender e de abarcar, quase como se fossem familiares e, no entanto, estrangeiras.
O autor interroga connosco a estranheza do mundo, da palavra e da criação, não nos deixando ficar de fora... mas o que escreve e partilha connosco é também uma poesia do silêncio, da presença da morte, da reflexão sobre o que é o poema, o poeta e o leitor.
Um livro excepcional.