sábado, agosto 12, 2017

Um livro simples

Às vezes, desejamos uma vida mais simples. Comida, casa, saúde, trabalho (com dimensão humana) e uma companhia agradável. Nada de muito exigente, nada de muito esforçado. Será que sentimos este apelo também em relação a um livro?

A minha resposta é sim. Sonho com o livro que me preenchesse o espírito, mas sem complicações de enredo ou de estilo literário. Com o qual pudesse descansar, com o qual pudesse acordar e adormecer sem convulsões de qualquer espécie. Que, nem que fosse por alguns momentos, depurasse a minha existência daqueles escolhos e imperfeições que tantas dificuldades me trazem.

Curiosamente, tenho a vaga noção de que já li esse livro, algures na juventude. Em consequência, descubro mesmo um certo impulso em mim para dizer: Ah, no meu tempo é que havia bons livros! Porém, sei que isso não passa de uma fantasia. Nunca esse livro apareceu debaixo dos meus olhos. E, todavia, não vejo maneira de me impedir de continuar a procurá-lo.

Às vezes passo horas numa biblioteca a viajar por livros. Dedico esse tempo a ler inícios de livros, até que há um que me conforta e me faz sentir bem. Estou sentado naquele momento, não me apetece mais levantar-me, desejo prolongar a sua leitura até ao infinito (enquanto sinto uma levíssima, porque ainda longínqua, angústia de que isto, também Isto terá um fim). No entanto, acho que tal nunca me aconteceu com um livro simples. Ou será que, quando encontro um livro simples, só sinto desagrado?

Por vezes imagino, desejando-o, que um livro simples poderia ser aquele em que o autor até pudesse mentir o que quisesse, mas em que nenhuma das suas personagens dissesse alguma vez uma mentira. Ou ser um poema em que as palavras fossem como pedras leves, lisas e luminosas. A claridade daí resultante poderia fazer-me aceder à simplicidade. A verdade é que já me cruzei com tentativas literárias nesse sentido, porém o resultado não foi nem a claridade nem a simplicidade.

Diz a neurociência que a evolução do cérebro tem funcionado por adição e não por substituição. Assim, o nosso cérebro foi evoluindo pelo acréscimo de novas estruturas às antigas; e que todas elas, no seu conjunto, raramente funcionam harmoniosamente entre si. Logo, talvez este conhecimento me permita concluir que o sonho da simplicidade nunca pode passar disso mesmo. Porque nada do que o nosso cérebro produz pode ser simples. Ah, exceto, quem o saberá alguma vez?, o desejar essa impossível simplicidade.

sexta-feira, julho 28, 2017

O Leitor Ideal

«Qual é, na vossa perspetiva, o Leitor Ideal para a vossa obra?» – Esta é uma pergunta que por vezes dirijo a alguns escritores.

Reconheço que a questão, posta assim de chofre, não é fácil de ser respondida. Muitas vezes, aliás, eles pensam que me estou a referir ao leitor que têm em mente quando escrevem. Mas não, o que eu pretendo saber é quais as características que eles sonham para um Leitor Ideal da sua obra (já escrita).

Por que razão isto me interessa? Em algumas áreas da minha vida, apetece-me a excelência que, naturalmente, nunca chego a encontrar. Só que o caminho até esse horizonte indefinido é-me sempre festivo. Portanto, as ideias para esse perfil de Leitor Ideal são-me sempre muito bem-vindas.

Porque a minha aspiração é na realidade libertar os múltiplos prazeres que a leitura me pode trazer, sejam eles entretenimento, aprendizagens, vivências improváveis, construção de mundos interiores, alargamento da rede de relações interiores, cumplicidades com o autor, ou experiências estéticas o mais diversas possíveis.

No entanto, talvez seja possível chegar a uma certa simplicidade: o Leitor Ideal acabará talvez por ser aquele que lê genuinamente, aquele que se coloca a si mesmo todo inteiro na experiência da leitura, de cada vez sempre única, sempre renovada.

E quanto aos escritores? Será este o Leitor que eles idealizam para a sua obra?

Imagino um escritor a desejar que o seu Leitor Ideal fosse aquele para quem a leitura da sua obra tivesse siso tão devastadora, tão profunda e tão marcante que ela o teria transformado em alguém completamente diferente a iniciar uma vida também ela completamente nova.

… ou alguém que colecionasse todos os exemplares, todas as edições e todas as traduções do livro.

… ou aquele cuja paixão pela obra o levasse a traduzi-la para todas as línguas onde ainda não houvesse tradução.

… ou o que não repousasse enquanto não tivesse decorado o livro todo, palavra por palavra, frase por frase (se possível, até movido pela evocação de Fahrenheit 451, de Ray Bradbury).

… ou o que, ao lê-lo vezes sem fim, palavra a palavra, fosse escrevendo e juntando outras frases, acabando por criar outros e inumeráveis livros a partir daquele.

… ou o que se apaixonasse por todas as pessoas parecidas com as personagens do livro, mas só enquanto elas não o tivessem lido. Assim, poderia viver em toda a sua pureza histórias alternativas, podendo manter-se sempre dentro da história do livro.

… ou o que, nas suas viagens, entrasse em todas as bibliotecas, requisitando essa obra, de forma a associar pelo menos uma parte do livro a cada um desses lugares visitados. Ao mesmo tempo, deixaria registado o testemunho da passagem de um leitor daquela obra.

… ou o que, nas suas múltiplas releituras, descobrisse no livro uma fonte sempre inesgotável de novos deslumbramentos.


… ou aquele que morresse, não como Ícaro apenas por ter atingido a altura mais chamejante, mas como Buda por ter alcançado, com esse livro, o nirvana e a completa abundância num outro nível de existência. Melhor: como um Bodhisattva que, podendo atingir o nirvana, resolvesse voltar ao sofrimento de ler outros livros, agora para ajudar outros escritores e leitores a encontrarem a capacidade de criar uma experiência ilimitada e infinita de leitura….

segunda-feira, julho 24, 2017

Contra o silêncio que alimenta a violência

As ideias importam.
As ideias contam.
As ideias traduzem-se muitas vezes em atos.
O silêncio que responde a ideias violentas não é um sinal de reprovação. É um sinal claro de apoio.
Num tempo em que está a deixar de ser vergonhoso defender publicamente ideias violentas contra seres humanos, textos como este de Fernanda Câncio são por demais importantes.
Subscrevo inteiramente todas as ideias aqui expressas.


Linchamentos Gentis e Outras Desventuras - Fernanda Câncio, Diário de Notícias, 24/07/2017

Não tinha qualquer intenção de escrever sobre Gentil Martins; prefiro não perder tempo com fanáticos. E assim seria, se não me tivesse dado conta de que as reações aos pronunciamentos do ex-bastonário numa entrevista ao Expresso incluem colunas de opinião em que quem os criticou é apelidado de "Gestapo", "Stasi", e "turba linchadora", ou o atual bastonário não tivesse dito coisas que não podem passar em branco.

Chamar Gestapo a alguém por se indignar com o facto de GM ter chamado anormais e doentes aos homossexuais é uma justa homenagem ao fanatismo do cirurgião pediatra: só a alguém igualmente incapaz de pensar fora da fobia ocorreria usar o nome da polícia nazi, associada à morte de milhares de homossexuais, para denominar os que se indignam por haver quem use em relação a este grupo o mesmo tipo de terminologia que os nazis usaram. E quem fala em "linchamento" de GM a propósito do que se considera ser a reação furiosa "das redes sociais" tem o mau gosto de fazer de conta que não sabe que linchamento, na acepção fatal do termo, é o que sucedeu a miríades de homossexuais ao longo da história humana - e sucede ainda hoje, como GM e os seus defensores não podem ignorar.

Porque, cabe relembrar, nunca ninguém foi exterminado ou linchado por apelidar os homossexuais de "anormais" ou "desviantes". Já quem mata e lincha homossexuais usa sempre esses termos. Estamos entendidos sobre quem cala e persegue e lincha quem e quanto ao potencial danoso das palavras de GM? Basta aliás, para perceber o que está em causa, questionar se algum dos que tanto defendem "o direito de opinião" de GM o faria se este, em vez de chamar "anomalia" à homossexualidade, tivesse dito o mesmo dos judeus - também durante séculos considerados "errados" e "doentios". Quem destas pessoas viria nesse caso a público invectivar os críticos de GM por exigirem um pronunciamento da Ordem em vez de se limitarem a "refutar" a sua "opinião"? Deixemo-nos de tergiversações: quem defende GM e aquilo que classifica como "o seu direito a expressar opiniões" apenas o faz por considerar aceitável a que expressou. Ou não se encarniçaria contra os que opinaram sobre a "opinião" de GM considerando-a ela sim anómala do ponto de vista científico e um desvio dos seus deveres enquanto médico.

É muito simples: foi como médico que GM deu a entrevista. A Ordem dos Médicos tem um mandato legal, público, para certificar que os profissionais por ela autorizados agem de acordo com as regras deontológicas e científicas em vigor; que não praticam o charlatanismo ou difundem falsidades científicas e ideias sobre saúde contrárias às legis artis e prejudiciais para a comunidade. Não é uma opção da Ordem; é uma obrigação. E tal como abriu um procedimento em relação a Manuel Pinto Coelho por este ter dado uma entrevista (também ao Expresso) a dizer que se deve beber água do mar e que usar protetor solar é um erro, não pode não o fazer face a um médico que qualifica a homossexualidade como anomalia, portanto doença ou afeção, e "desvio de personalidade", pronunciando-se publicamente com termos que pertencem à especialidade de psiquiatria, que não é a sua, e contra o consenso científico desta. Aliás o Conselho Nacional da OM fez um comunicado público, há pouco mais de um mês, a acusar Pinto Coelho de "defender práticas que podem constituir um atentado à saúde" (curioso, não se deu por qualquer movimento de defesa da "liberdade de expressão" deste clínico), acusação que o atual bastonário, Miguel Guimarães, repetiu numa entrevista ao Expresso anteontem. Mas, questionado sobre se o que GM disse é igualmente um atentado à saúde pública, foi muito mais cauteloso: "É uma questão diferente. (...) São [declarações] más para um grupo de pessoas que podem sentir-se segregadas". Para o bastonário, pelos vistos, o facto de as afirmações do médico GM não terem fundamento científico, serem discriminatórias e validarem discriminações não é um problema de saúde pública, é "de um grupo de pessoas". Ficamos a saber que para este sucessor de GM algo que afeta "só" os homossexuais não é um problema da comunidade.


A ideia, que tantos martelam nos media, de que é "preciso" defender uma "liberdade de expressão" entendida como a liberdade de um discurso discriminatório que atente gratuitamente contra a dignidade de indivíduos ou grupos não é só uma ideia estúpida e desonesta nos tempos em que esse discurso domina, com toda a virulência, as caixas de comentários e as tais "redes sociais". É uma ideia contrariada pela própria Constituição e pela Carta Europeia dos Direitos Fundamentais, pactos escritos da nossa comunidade que valorizam mais (e bem) a dignidade humana - portanto a liberdade de ser - que a liberdade de dizer. Porque o nosso princípio básico civilizacional é o respeito mútuo, a ideia de que o outro vale tanto como eu, tem os mesmos direitos, é igual a mim. Não tenho por isso o direito de o agredir a não ser em legítima defesa; não tenho por que sentir-me agredida pela sua mera existência. Esse sentimento, o de alguém se sentir ameaçado pelo que considera outro, é que é uma anomalia. Alimentá-lo, credibilizá-lo e tentar lucrar com ele é a negação de tudo o que estamos a tentar construir desde Auschwitz.
                                                                      

sábado, julho 08, 2017

Leituras marcantes

Quando era mais novo, ao ser arrebatado por um livro, tornava-me num seu campeão. Um livro que me iluminasse tinha também de verter a sua luz sobre aquelas pessoas de quem eu mais gostava. Não descansava enquanto não explicava a um amigo ou a uma amiga do que tratava o livro, porque é que era absolutamente fundamental lê-lo; e, não satisfeito com isso, ainda perorava sobre como e onde o livro iria mudar a sua vida. Um cansaço para mim, claro, mas sobretudo uma violência para ele ou ela.

A violência é evidente e indesculpável – desafortunada a pessoa que tinha o azar de ser apanhada por mim!

Quanto ao cansaço, ele advinha de se tratar quase sempre de um esforço inglório. Inglório em várias frentes. Primeiro, porque, estranhamente para mim, a pessoa não ficava com a mínima vontade de ir ler o livro, mesmo que eu, emprestando-o, lhe poupasse o trabalho e a despesa de o adquirir. Depois, porque a pessoa não só não me agradecia o esforço, como demostrava uma certa impaciência para comigo… e, lembro-me bem, para meu espanto, muitas vezes chegava a ficar zangada comigo.

Confesso que isto me magoava. Precisei de alguns anos para deixar de ser o paladino obstinado dos livros que eu achava maravilhosos, a fim de não estragar irremediavelmente a amizade que me unia a essas pessoas. Bem… e, no fundo, para manter uma vaga esperança de que, talvez um dia, elas acabassem por pegar nessa obra que tão importante fora para mim.

E tantas foram realmente importantes! Porque a minha personalidade tem sido, em grande parte, modelada (e moderada) pelas leituras que fui fazendo ao longo da vida. Fui crescendo e modificando-me por via da extraordinária influência que essas obras foram tendo sobre mim; influência essa que, ainda hoje, persiste com uma intensa luminosidade. Por conseguinte, o meu entusiasmo por esses livros não era de todo superficial nem passageiro.

Apenas alguns exemplos: Cântico Final, de Vergílio Ferreira. O Amor em Visita, de Herberto Helder. Arco do Triunfo e Desenraizados, de Erich Maria Remarque. A Peste, de Albert Camus. O Principezinho, de Antoine de Saint-Exupéry. O Budismo Zen, de Alan Watts. E ainda muitos mais – eu tinha-os escrito aqui, mas apercebi-me que a lista se ia estendendo indefinidamente, pelo que optei por deixar estes que foram os primeiros que me vieram ao espírito.

Evoco ainda a memória da mãe de um dos meus amigos que me recebia e me apresentava a outros como sendo “um menino muito lido”! Só tardiamente percebi que, para além de uma certa ternura e de um grande sentido de humor, esta sempre amabilíssima senhora revelava uma profunda sabedoria (que, talvez, se possa estender a todos nós que somos Leitores): possivelmente não era mesmo eu que lia os livros, mas eram eles que me liam a mim, favorecendo assim o despertar de novas trajetórias na minha vida e de ignoradas sensibilidades na minha pessoa.

The Metropolitan Museum of Art, Annunciation Triptych (Merode Altarpiece)
 Workshop of Robert Campin (1427-1432) - Fonte

sábado, julho 01, 2017

Leituras da infância e da juventude

Causa-me perplexidade o facto de não conseguir reler hoje o que no passado li com exaltação. Como é possível que um determinado livro, que já esteve carregado de beleza, de significado e de implicações para a minha vida, hoje me diga tão pouco?

Podem ter sido as muitas releituras feitas que foram desgastando a obra? Nalguns casos talvez sim, mas não abrange todos. Há livros que continuo a reler com prazer sempre renovado; e outros que não consigo ler sequer uma segunda vez, apesar do enorme prazer da primeira leitura.

Uma hipótese plausível é a de o livro ter uma qualidade moderada. Na altura em que o li da primeira vez, talvez ele estivesse a ter um grande sucesso e que, depois, ao assentar a poeira, se revelasse ser menos bom. Ou talvez fosse de um género ou estilo que me emocionou particularmente na altura e agora já não. Ou ainda por tratar de assuntos que, então, eram uma novidade para mim mas que, atualmente, se me tornaram banais.

Curioso. Enquanto escrevo, apercebo-me que me sinto infinitamente grato a esses livros pertencentes, na sua maioria, a uma literatura mais modesta, menos prestigiada e mais simples. Porque sinto isso? Penso que possivelmente foram eles que, nesses primeiros anos de leitura, me abriram perspetivas e possibilidades de vidas insuspeitadas (a Ficção Científica), que me sensibilizaram para a complexidade das motivações humanas e para a justiça (o Policial), que me alertaram para os valores da honra e da coragem (o Western e a Aventura).

Na altura, ao ler estes livros, encontrava por vezes grandes escritores que ainda hoje releio com satisfação. Recordo na ficção científica Ray Bradbury(*), Doris Lessing, Philip K. Dick e Ursula K. Le Guin. No policial, G. K. Chesterton, Raymond Chandler, Edgar Allan Poe e Dashiel Hammett. No western, Jack Schaefer, John Steinbeck e Jack London. Na aventura, Robert Louis Stevenson, Jonathan Swift e Daniel Defoe.

Quando somos mais novos e estamos mergulhados no fluxo dos acontecimentos do dia-a-dia, há poucas possibilidades de conseguir fazer uma reflexão aprofundada sobre a vida. Aqueles livros tiveram o poder de desencadear múltiplos sentidos da vida, todos e cada um, sempre importantes para mim, para aquilo que sou hoje. Graças a eles, vivo numa liberdade mais ampla, em que o eixo central da minha vida se baseia muito mais no valor e no propósito da existência (ambos sempre a atualizarem-se, muito ainda devido aos livros) do que em ganhos materiais.

Finalmente, foi a sua leitura que, sem dúvida, me abriu as vias por onde agora respira uma literatura mais exigente, mais rica e, portanto, mais gratificante (da qual, na época, eu pouco percebia e não gostava assim tanto).


Por isso, sinto-me agradecido. Aliás, no meu espírito, ler confunde-se sempre com agradecer quando as palavras lidas se transmudam num rio interior que flui, expandindo-se para algo maior e melhor do que antes. Porque agradecer é acolher e reconhecer a dádiva. E a leitura é isto mesmo: acolher e reconhecer.


(*) A foto foi retirada deste excelente blogue sobre a saudosa Coleção Argonauta.

domingo, junho 25, 2017

Livre de lastros

Normalmente, vamos ao encontro de um novo livro sem a leveza da inocência. Ou seja, carregamos connosco toda a cultura que, implícita e explicitamente, fomos absorvendo ao longo da nossa vida. Isso é bom ou mau? Como tudo na vida, a resposta é: depende. Depende da densidade dessa carga e depende das situações.

Há livros que nos incitam a convocar tudo o que já lemos e o que aprendemos com todas as nossas leituras anteriores. Conseguem-no de duas maneiras.

A pior e mais desgraçada ocorre quando o escritor se apoia na técnica para (não há outras palavras) produzir um objeto vendável. Nós, aqueles que amamos a literatura de uma forma discreta mas absoluta, sentimo-nos então asperamente constrangidos (no sentido literal da perda de liberdade, que é o objetivo de todo o embuste, a fim de fazermos o que o impostor deseja) ao nos apercebermos que estamos diante, não de um livro, mas de um simples truque que, acima de tudo, desrespeita a nobre arte da escrita.

Mas há outra forma de o escritor convocar as nossas leituras anteriores, agora de uma forma bem mais amável. Quando o livro, pela sua arte, faz brilhar intensamente tudo o que já lemos, fazendo com que a não-inocência seja um trunfo fundamental. Lembro-me, por exemplo, de Camões, de José Saramago (principalmente, esse irradiante “O Ano da Morte de Ricardo Reis”) ou de Enrique Vila-Matas.

Sei que estes livros existem e estou sempre aberto para os encontrar mas, por regra, tento partir para cada livro com a maior inocência possível. Apenas com o objetivo, é certo que sempre falhado, mas também sempre parcialmente conseguido, de não consumir tempo e alegria a dar atenção ao já conhecido e envelhecido.

Como realizar esta intenção? Apesar da quase impossibilidade de esquecermos o que aprendemos (entendendo isto num sentido lato, não falo de tirar um curso de literatura), entro sempre num novo livro com a abertura e predisposição ao prazer de encontrar dissemelhanças, originalidades e desafios. Isto talvez não seja tão difícil de conseguir, até porque hoje em dia valoriza-se a voz única, especial e idiossincrática dos autores (ou será que não, dada a pressão do mercado?). Ajuda-me, no entanto, saber que sobre cada obra literária não existe uma interpretação única: isso confere-me uma liberdade suficiente para o florir de um olhar limpo, curioso e interessado, nesse encontro com o livro.


Finalmente, todo este esforço serve para quê, perguntar-me-ão. Muito simples. Primeiro, evidentemente, para fazer da leitura uma arte tão nobre como a da escrita. Depois para, ficando livre do desgaste das vivências medíocres, potenciar ao máximo a possibilidade de uma experiência sublime na leitura da obra literária.

quarta-feira, junho 21, 2017

Encontro os livros

Adoro ler.
Digo isto e oiço de imediato vozes antigas que saltam:
“O menino não adora nada ler. Adorar só a Deus.”
Pois. Mas e se Deus não me fala e se remete a um silêncio total?

A questão é que me lembro de sempre desejar alcançar a sabedoria. Procurei Deus, mas não o encontrei. Também não tive a sorte de encontrar um mestre que me guiasse nos caminhos da sabedoria. Na realidade, até tenho dúvidas sobre aquela frase da tradição oriental: “Quando o discípulo está pronto, o mestre aparece.” Talvez eu nunca tenha estado pronto, é uma possibilidade.

Ah, mas encontrei os livros! Quando li Oscar Wilde, apercebi-me da chuva de revelações que a palavra escrita pode trazer. Quando li Antoine de Saint-Éxupery, apercebi-me das muitas camadas por que é constituído o texto escrito. Quando li Vergílio Ferreira, apercebi-me de como a nossa vida interior se vai enriquecendo extraordinariamente com cada livro lido. E, quando li Ray Bradbury, decidi que a minha vida seria dedicada a atingir aquela sabedoria que parecia estar por detrás de todas as histórias que ele escrevia.

Era um projeto perfeitamente ao meu alcance. Seria fácil, bastava-me, para isso, entrar em contacto com pessoas mais sábias e mais inteligentes que eu. O problema que me surgiu não foi de todo elas serem poucas, claro. O problema foi essas pessoas provavelmente não terem grande interesse em estarem em contacto comigo, dado que tenho de admitir que elas, tal como eu, desejam estar com pessoas mais sábias e inteligentes do que elas próprias.

É aqui que surgem os livros. Com estes posso estar em contacto íntimo com as pessoas mais sábias e inteligentes do planeta, independentemente de onde elas estiverem e do que estiverem a fazer. Na verdade, há ainda mais, posso “ouvi-las” as vezes que quiser, durante todo o tempo que eu precisar, posso pará-las numa frase e ficar com essa ideia, tentar percebê-la com tempo, dialogar com ela, criar novos pensamentos, novas revelações sobre mim próprio e sobre o mundo. Sentindo sempre uma satisfação profunda nesse processo.

Atingi a sabedoria, como desejava quando era miúdo? Claro que não, hoje sei que a sabedoria não é um ponto de chegada, não é algo que seja possível possuir como quem tem um carro ou uma conta no banco. A sabedoria é um caminho. E esse caminho abre-se à minha frente, com as suas múltiplas possibilidades, através dos livros. Com estes, vou caminhando, fazendo o meu próprio caminho («Caminante, no hay camino, / se hace camino al andar.», diz Antonio Machado). Acima de tudo, com prazer e sem precisar de o fazer sozinho (embora possa eventualmente estar só).

sábado, abril 29, 2017

Eis uma palestra para quem se interessa por emoções, neurociências e… animais! Proferida por Jaak Panksepp, talvez o mais famoso neurocientista estudioso das emoções, infelizmente falecido apenas há uns dias.



Uma nota curiosa. Logo no início, ao minuto 0:29, Panksepp diz que «science doesn’t answer why questions, science answers how questions”.

Vergílio Ferreira, em 1969, no seu Conta-Corrente 1 (p. 27 na edição de 1981), comenta antecipadamente esta afirmação da seguinte maneira:

«A “psicologia”. Não me desagrada ler um livro (romance) em que a análise revela o “como” se é. E todavia, para meu uso, não me interessa. Estes psicólogos esquecem o que está antes (ou depois) da psicologia e é infinitamente mais importante. Que significa o estarmos no mundo? Em que assentar um comportamento? Qual a significação das nossas “ideias” (políticas, etc.)? (…) Antes de saber “como” sou, é-me muito mais perturbador querer saber “o que” sou. E “para quê”. (…)».

Esta é uma sua opinião pessoal, adstrita à literatura (embora haja indicações noutros lados de que ela também abrange a Psicologia como ciência) sem pretensões de generalização. Mas interroguemo-nos: poderá Vergílio Ferreira ter razão? Será que a Psicologia está a esquecer o que é «infinitamente mais importante»?

As dificuldades que as diferentes psicoterapias têm encontrado (e que levam ao surgimento ininterrupto e contínuo de novas propostas terapêuticas) poderiam apontar para uma resposta positiva: algo de fundamental pode andar ausente da psicoterapia e da psiquiatria. No entanto, a psicoterapia existencialista (cujo representante mais conhecido do grande público, por via da literatura, é Irvin D. Yalom) há muito que procura ir ao encontro desta necessidade, referida por Vergílio Ferreira, de algo mais importante. Porém, o seu sucesso terapêutico não tem sido nem absoluto nem definitivo.

Curiosamente, algumas das denominadas psicoterapias de 3ª geração integram no desenvolvimento do seu processo terapêutico elementos que sempre andaram mais ou menos ausentes anteriormente. Por exemplo, a terapia da aceitação e do compromisso (“ACT”, cujo livro fundador é de 1999) ajuda os pacientes a trabalhar a busca e a definição dos seus próprios valores (“o que” a pessoa é e o “para quê”). Ou seja, aqueles princípios essenciais que orientam esses pacientes no sentido de uma vida realmente bem vivida.