quarta-feira, novembro 16, 2016

Do que se não falou ontem no a todos os títulos estimulante debate “O que é o elitismo na cultura?”

(e em que eu teria gostado muito de ouvir a opinião dos presentes)

Poder ou falta de poder das elites culturais. O tema foi sugerido pela moderadora, Anabela Afonso, que convidou os presentes a estabelecerem ligações com a eleição de Trump nos EUA (feito conseguido com um discurso também contra as elites). Será que as elites culturais alguma vez tiveram poder? Duvido. Elas foram acarinhadas, toleradas ou simplesmente rejeitadas pelo poder. Penso que raramente lhes foi permitido participarem desse poder. Claro que décadas ou séculos depois, o que fica é o que foi produzido por essas elites, o que dá a sensação de que elas, na altura, possuíam muito mais poder do que na realidade tinham. Um tema que ficou por explorar mais aprofundadamente.

Elites dentro de elites. Dentro das próprias elites surgem hierarquias, em que as que estão acima olham para as de baixo. Mas tenho dado conta que raramente olham para cima e, por isso, cada nível vê-se a si mesmo como árbitro mais ou menos indiscutível do bom gosto e do bem saber. Um tema auto-reflexivo e, por isso, difícil de analisar e desenvolver, mas útil para pensar sobre o papel e a responsabilidade na cultura, bem como os seus limites.

Efeito benéfico de haver elites. Isto é uma experiência pessoal. Não é possível transmitir o prazer que sinto quando, face a um elemento de uma elite cultural, eu me defronto com a minha ignorância e me é proporcionada a partilha da sua forma de olhar, de saber e de usufruir. Como estou a falar do ponto de vista pessoal, atrevo-me a destacar três de muitos exemplos de contacto que me permitiram e continuam a permitir subir muito acima de mim; e, sem os quais, eu talvez tivesse ficado muito abaixo de mim. Por ordem cronológica: Vergílio Ferreira, Eduardo Prado Coelho e Frederico Lourenço. É assim, sou um fã das elites: tornam-me melhor. Note-se que este tema foi aflorado por vários dos palestrantes, com destaque para o relato de uma experiência no Brasil de que foi testemunha o Prof. Dr. António Branco.


Efeito perigoso de não haver elites. Por mais elevado que seja o nível cultural da população em geral, eu acredito na aspiração humana de mais e melhor. Por isso, o desaparecimento de elites culturais, mesmo que pelas melhores razões, parece-me que pode levar à estagnação e à morte. Sabe-se da biologia que são os meios ambientes mais heterogéneos aqueles que têm melhores capacidades de sobrevivência e de resistência. Sou a favor da heterogeneidade cultural. Em consequência, sou também a favor do estabelecimento de valores culturais (senão vale tudo o mesmo). Onde ambos existem, deverão existir necessariamente elites culturais. Um tema também possivelmente controverso, concordo.


domingo, novembro 13, 2016

Como Trump aliciou a América

Trump foi muito inteligente. Senão, vejamos.

Começou por dar voz ao medo das pessoas que se sentem cada vez mais desamparadas, solitárias e fechadas nas suas casas esvaziadas pelo desemprego, a ver uma televisão que quase só apresenta conteúdos pouco confortantes. Num mundo globalizado de cujo funcionamento compreendem cada vez menos e sobre o qual, segundo lhes é dito, não têm poder algum.

De seguida, transformou esse medo em raiva dirigida a uma variedade de objetos (sistema, imigrantes, muçulmanos, etc.) suficientemente grande para satisfazer todo o tipo de pessoas. Além disso, ele, Trump, estava ali com a possibilidade de lhes dar a voz e o poder que elas sentem que deixaram de ter. Deu, assim, a ilusão de que o desamparo podia deixar de existir.

E, principalmente, Trump ofereceu um sonho: Make America Great Again. As pessoas têm imensa fome de sonhos. Especialmente, de sonhos pelos quais se possam transcender e ir para além das suas vidas tristes, mesquinhas e assustadas. Além disso, com a palavra Again, as pessoas viram-se transformadas em portadoras de uma tradição antiga, de um valor muito maior do que elas próprias. Numa época em que elas sentem, com amargura, que as tradições e os valores que lhes davam sentido às suas vidas se estilhaçaram, Trump veio trazer-lhes a promessa ilusória de um novo alento.

Por fim, ofereceu-se ele próprio para representar, ser estandarte e liderar esse movimento em direção a este sonho.

Compreendemos que é difícil resistir. Apesar de sabermos (e de ele saber!) que não se pode voltar para trás. Mais: que não queremos voltar para trás!


sexta-feira, novembro 11, 2016

Democracia… ou não?

(…) Também não sou democrata. Acho que a política é assunto demasiado sério para que o voto de um cretino possa valer o mesmo que o voto de um cidadão esclarecido. (…)” (comentário de um respeitável comentador do Facebook).

Três aspetos.

Primeiro, eu sou democrata. Mas não vivo numa democracia real.

Vivo num país da alegada “União Europeia” onde quem manda nos países são uns todo-poderosos que nunca foram eleitos por ninguém e que não são responsabilizados pelo que fazem (a nível mais local, a única exceção é a Islândia). E vivo num país onde se considera normal ser-se eleito com um programa que, após as eleições, é pura e simplesmente deitado ao lixo.

Quanto a mim, este regime é, na sua essência, profundamente anti-democrático. Note-se que não penso que se trate aqui de uma ditadura, apenas de uma não-democracia (o que não é pouco, por que a interrogação que se segue é: estamos a caminhar para que tipo de regime?).

Em segundo lugar, admitamos que um governo possa ser escolhido só por “cidadãos esclarecidos”. A “million dollar question” é: quem os escolhe a eles? Olhando para a história, o que se pode ver é que “cretinos” escolhem cretinos, corruptos escolhem corruptos, extremistas escolhem extremistas, etc. Mais uma vez, por favor: quem escolhe os “cidadãos esclarecidos” com direito a voto? Na minha opinião, ou não há resposta, ou esta, admitamo-lo, será, no mínimo, preocupante.

Em terceiro lugar, acredito num fenómeno estatístico, que é a regressão à média: numa série de acontecimentos, os resultados tendem a aproximar-se da média. Por exemplo, se eu lançar uma moeda 5 vezes ao ar, na melhor das hipóteses pode dar 3 vezes cara e 2 vezes coroa (probabilidades de 60% e 40% respetivamente). Porém, é facílimo sair 4 vezes cara e 1 vez coroa (80% e 20&, respetivamente). Ou seja, é facílimo o desequilíbrio pronunciado.

Mas se for lançada 1000 vezes, é bem mais difícil acontecerem estas percentagens. Digamos que poderão sair, por exemplo, 480 vezes cara e 520 vezes coroa, e aí temos uma aproximação à média: 48% e 52% respetivamente, já muito próximos dos 50%. Ou seja, é mais difícil o desequilíbrio.


Então, eu prefiro que haja muita gente a votar porque, apesar dos “cretinos”, os resultados tenderão para uma média, mesmo que de vez em quando alguns deles sejam extremos.
«I´m very touched by the attention that you payed to my music over all these years. I’m growing older everyday, but you’ve kept my songs young, and I thank you for that.» (Live 1985)

(...) Now I look for her always
I'm lost in this calling
I'm tied to the threads of some prayer
Saying, When will she summon me
When will she come to me
What must I do to prepare
When she bends to my longing
Like a willow, like a fountain
She stands in the luminous air
And the night comes on
And it's very calm
I lie in her arms and she says, When I'm gone
I'll be yours, yours for a song (...)

(Night Comes On... 10/11/2016)


quarta-feira, novembro 09, 2016

Ao saberem que Trump ganhou, muitos milhões de pessoas passaram o dia de hoje em profunda aflição. Por si, pelos seus ou por outros.
A vida tem altos e baixos e podemos estar a viver um baixo que irá arrastar atrás de si ainda mais baixos.

O que podemos fazer? A minha resposta é:
Sendo sensíveis ao sofrimento dos mais fracos e dos mais injustiçados, começarmos a preocupar-nos verdadeiramente em os proteger.
Comprometermo-nos, por intenções e atos, a equilibrar a crueldade que sobre eles possa cair. 
Apoiarmo-nos uns aos outros e fazermos do nosso espaço de influência um lugar de refúgio, de paz e de esperança para todos na vida do dia-a-dia.
Para que, à nossa volta, todos, mas todos mesmo, possamos encontrar acolhimento, ajuda, consolo e forças para enfrentar o que quer que aí venha.


Isto está perfeitamente ao nosso alcance conseguir. Ninguém nos pode impedir de o fazer.


sexta-feira, outubro 28, 2016

Como se faz um assalto ao poder

Para quem quer ter um poder sem controlo e não tem escrúpulos, o processo é mais ou menos este:

1º, cria-se uma vida de completa insegurança nas pessoas (no trabalho, na saúde, na educação, etc).

2º, separam-se as pessoas umas das outras, fisicamente (por exemplo, obrigando a mais horas longe da família e da sua comunidade) ou através de mecanismos de competição.

3º, isto diminuirá as capacidades refletivas das pessoas, pois o seu cérebro fica cada vez mais em modo permanente de ameaça (o cérebro, para isto, tem um repertório curto de respostas: fuga, luta, paralisação ou submissão).

4º, favorecem-se aquelas respostas básicas, oferecendo alvos fáceis, de preferência as pessoas que, pelas suas diferenças, é fácil colocar na categoria de "outgroups" (e nunca, nunca os verdadeiros responsáveis pela situação, isto é, aqueles que sempre tiveram o poder de orientar as coisas à sua vontade).

5º, aumenta-se a necessidade de as pessoas voltarem a sentir-se seguras.

6º, oferece-se uma liderança forte e com respostas básicas, que será recebida com alívio.

Neste processo, vê-se a importância extraordinária dos meios de comunicação, nomeadamente dos tablóides.

domingo, outubro 23, 2016

O documentário "Amanhã", sobre pessoas que arranjaram soluções que não só protegem o planeta, como ainda tornam a sociedade mais cuidadora uns dos outros.


O que pudemos aprender com os exemplos mostrados no filme:


Primeiro, temos de querer verdadeiramente melhorar a sociedade e não apenas beneficiar-nos a nós mesmos. Em particular, desejarmos criar contextos sustentáveis de bem-estar para todos.


Segundo, procurarmos garantir a cooperação de um maior número de pessoas. Sozinhos, não vamos longe.

Terceiro, há que adquirir conhecimento teórico e prático. A ignorância pode acrescentar novos problemas e agravar os já existentes. Mas também podemos juntar-nos a quem sabe realmente.

Quarto, partirmos daqui para mudar os nossos comportamentos, desencadeando ações que conduzam às mudanças desejadas.

Quinto e por último, reforçarmos positivamente estas iniciativas de mudança, premiando-as com a nossa atenção, com os nossas apreciações, com a nossa participação e, claro, com as nossas compras.


segunda-feira, outubro 17, 2016

Como conseguir que as pessoas sejam mais pró-sociais?

Criando ambientes onde a pró-sociabilidade seja bem acolhida, desenvolvida e consolidada.

Quem o pode fazer? As famílias, escolas, freguesias, câmaras, movimentos juvenis, organizações não governamentais e comunidades locais têm a capacidade de promover valores e comportamentos pró-sociais, recorrendo a iniciativas grupais, leituras partilhadas, ações de solidariedade, fornecendo modelos, histórias e o reconhecimento daqueles que mais colaborarem.

Porque as pessoas aprendem mais rapidamente novos comportamentos se os efeitos positivos destes se fizerem sentir com rapidez e profundidade.

Portanto, há que proceder àquele reconhecimento sendo generosos a apreciar aqueles gestos, a dar-lhes atenção, a mostrar interesse e aprovação, a elogiá-los, a dar-lhes visibilidade pública, a mostrar o nosso reconhecimento, o nosso afeto; e até a recompensá-los!

Mas, cuidado! Que isso não seja um instrumento para manipular as pessoas para fazerem o que o poder quer que elas façam. As pessoas dão-se conta e o processo pode ficar sabotado durante anos.

Saliente-se que o efeito que mais poder exerce sobre as ações das pessoas é a atenção que lhes pudermos dar. Porque só a partir da atenção que lhes é prestada é que habitualmente todos os benefícios lhes chegam. Desde que nascemos que tudo o que recebemos dos outros começa sempre pela atenção que conseguimos que nos prestem.

Outro efeito poderoso é a satisfação que vem com a realização da própria ação. Daí que a pró-sociabilidade não se deva impor decretando o que as pessoas têm de fazer. Elas escolhem de acordo com os seus gostos e as suas inclinações, a fim de ser a realização da própria atividade a lhes trazer satisfação.

Deste modo, iremos vendo a pró-sociabilidade a expandir-se em círculos cada vez mais alargados. 

E a mudar de forma mais construtiva e solidária os fundamentos do mundo em que vivemos.

quarta-feira, outubro 12, 2016

O que promove a resiliência e a estabilidade dos grupos humanos?

A pró-sociabilidade.

Quando falamos deste construto, estamos a incluir não só comportamentos, mas também atitudes e valores, todos em conjunto a contribuírem para o benefício das pessoas. Por exemplo, cooperarmos com os outros, velarmos pelo seu bem-estar, sacrificarmo-nos por eles, etc. De forma também a promovermos o nosso crescimento pessoal.

Grupos que incluem maioritariamente pessoas com estas características sobrevivem aos grupos com indivíduos egoístas. Como dizia David Sloan Wilson, na sua célebre fórmula: "Selfishness beats altruism within groups. Altruistic groups beat selfish groups. Everything else is commentary"

Os grupos beneficiam assim da existência destas pessoas mais altruístas. Mas estas tmbém obtêm benefícios pessoais por procederem desta maneira, confirmados por abundante investigação: têm mais e melhores amigos, têm menos problemas comportamentais, obtêm melhores resultados académicos e são mais saudáveis.

Mas porque é que caímos muitas vezes na competição? Será que ela não é natural no ser humano? É. É e já se revelou útil no passado. Nomeadamente, quando os recursos eram muito escassos e existiam outros grupos a competir por esses mesmos recursos. Mas, dentro do grupo, o fator de sobrevivência mais determinante era e sempre foi a cooperação.

Há algo que temos de estar atentos. Hoje em dia, a formação e manutenção de ambientes de competição ou de cooperação está bem para lá do raio de ação dos que ocupam os lugares baixos e intermédios da organização. Assim, a evidência científica mostra que a responsabilidade pelo que acontece nas organizações a este nível não deve ser assacada aos trabalhadores; fazê-lo de nada serve para mudar o estado de coisas. Os problemas nas organizações são, na sua maioria, criados por quem tem o poder de as modelar, isto é, as chefias; não pelos subordinados.

Todos se tornam mais pró-sociais quando vivem em ambientes que estimulam valores, interesses e competências pró-sociais. Estas competências têm a sua origem quando nos interrogamos se estamos a contribuir para a segurança e sustentação dos ambientes que permitam às pessoas o seu desenvolvimento confortável e positivo. E não para aumentar artificialmente o medo e o stress a que elas são sujeitas.


Uma sociedade mais vincadamente pró-social permite a esperança numa inversão do crescimento acentuado das doenças mentais que se tem vindo a observar nas últimas décadas.

sexta-feira, outubro 07, 2016

Precisamos de novas abordagens para os problemas das pessoas na atualidade?

Nas últimas dezenas de anos, o mundo tem mudado de forma marcada. E de modo francamente visível no mundo ocidental, com avanços positivos absolutamente fantásticos ao nível das tecnologias. O que não tem mudado de forma igualmente positiva são as relações entre as pessoas, nomeadamente na família.

Na verdade, desde tempos imemoriais tem sido tão comum sabermos de conflitos, abusos e negligências em famílias que eles nos parecem praticamente inevitáveis. Poderão as tecnologias derivadas da ciência do comportamento humano fazer algo para mudar este estado de coisas?

Bom, por si sós talvez não: para fazer diminuir o stress que é colocado em tantas pessoas, famílias e escolas, não basta atuar sobre estas. É igualmente necessário promover mudanças ao nível das organizações e dos governos pois que, no fundo, estão na origem de muita dessa pressão. É verdade que os avanços no mundo tecnológico, apesar das promessas que transmitem, não têm ajudado. Sim, vivemos mais confortavelmente mas, apesar de tudo, mais infelizes.

Uma das razões talvez esteja numa perspetiva que nos faz procurar as causas do mal-estar e arranjarmos maneiras de o afastar. Talvez precisemos de uma outra perspetiva, em que olhemos para cada fenómeno, não isolando as suas causas, mas percebendo-o no seu contexto e determinando a função que desempenha nesse contexto.

Com esse olhar, já não nos interessa se uma teoria é verdadeira ou não (por mais brilhante que ela seja) mas, sim, se essa teoria aplicada na prática provoca transformações úteis ou não. Ela pode ser verdadeira e a sua aplicação, em certos contextos, ser totalmente catastrófica.

A utilidade de uma teoria, então, pressupõe que a avaliemos em função de determinados valores e objetivos claramente definidos.

Vejamos o exemplo das teorias que privilegiam a competição em detrimento da cooperação. Observa-se no mundo natural que são os sistemas que cooperam, sejam eles genes, células, pessoas ou grupos de pessoas, aqueles que maior probabilidade têm de sobreviver e de se reproduzir.

Pensemos em quem não segue esta orientação: células que se reproduzem sem consideração pelo organismo (cancro). Pessoas que perseguem a satisfação exclusivamente dos seus interesses sem consideração pelos efeitos que o seu comportamento anti-social tem sobre os outros. Organizações que procuram a maximização do seu lucro, sem consideração pelos prejuízos que provocam nas pessoas, grupos, nações e ambiente natural (é estranho: para que é que as pessoas querem lucros astronómicos num mundo destruído ou a ficar destruído para os seus descendentes?)

A competição é natural no ser humano? Pode-se discutir. Mas sabe-se que os bebés, na ausência de pressões, escolhem a cooperação, para si e nos outros, e não a competição…

Sim, o mundo de hoje exige uma outra forma de abordar os problemas. E a ciência do comportamento humano já tem dados suficientemente sólidos e comprovados para poder oferecer essa visão alternativa.

sábado, outubro 01, 2016

Uma possibilidade de mudar efetivamente o Mundo, o nosso Mundo

O que há de comum nas intervenções bem sucedidas ao nível da prevenção pública de problemas psicológicos e comportamentais?

Acima de tudo, a preocupação de tornar os ambientes em que as pessoas se movem mais enriquecedores e benéficos. Pois são estes ambientes que criam sociedades mais saudáveis e mais felizes. E é a ausência destes ambientes que estão na origem daqueles problemas.

Como o conseguir? Começando por minimizar o conflito nesses ambientes, ensinando-se as pessoas a favorecerem o bem-estar e o desenvolvimento pessoal umas das outras.

E de que ambientes estamos a falar? Quais são queles que mais contribuem para a construção de um mundo prossocial (onde os comportamentos das pessoas visam beneficiar os outros de modo voluntário)? A resposta é: as famílias e as escolas.

Procura-se, então, convencer as escolas e as famílias a reforçarem convictamente as crianças que se ajudam mutuamente e que participam na melhoria das suas escolas e comunidades. A estabelecerem limites às oportunidades das crianças receberem influências que as possam envolver em comportamentos problemáticos. A encorajar as crianças a seguirem os valores que elas mais prezam, mesmo face a obstáculos significativos, que incluem aqueles que são mais de natureza psicológica.

E, assim, talvez em breve seja tão impensável uma criança ser maltratada como é hoje impensável alguém fumar dentro de um edifício público. Fomos capazes de mudar isto, seremos capazes de mudar aquilo.

Depois, podemos esperar que uma sociedade, onde as pessoas cooperem e cuidem umas das outras, dê origem a empresas, organizações e governos que trabalhem eficazmente para o bem comum. Que defendam as políticas que sejam efetivamente úteis para a maioria das pessoas – se não forem úteis, devem ser rejeitadas, pura e simplesmente, mesmo que pareçam verdadeiras. Porque a “verdade”, no nosso país, deu origem à sociedade europeia com mais elevado nível de desigualdade económica – dentro das sociedades desenvolvidas apenas somos ultrapassados pelos EUA.

Finalmente, para nos ajudarem e acompanharem, aí estão as ciências biológicas e comportamentais a convergir nas suas descobertas acerca do que os seres humanos necessitam para prosperarem; e no que leva tantas pessoas a desenvolver problemas psicológicos, comportamentais e de saúde, a fim de lhe fazer frente de modo eficaz.

sábado, junho 04, 2016

Marcas da Grécia

Passados alguns dias sobre a viagem à Grécia, que memórias comovidas persistem em regressar, atravessando de surpresa os meus dias?



  • Primeiro que tudo, a companhia doce, alegre, afetuosa, sempre disponível e paciente da Adriana!


  • Depois, a forma maravilhosa como fomos acolhidos pela nossa amiga Ana Maria Soares. Inesquecível!

  • Também o acolhimento dos nossos amigos gregos. Recordo com saudade o Constantinos e outros. Mas, em particular, do Christo que nos acompanhou em vários passeios e se despediu de nós com várias prendas lindas que nos ofereceu.

  • A simpatia extremamente afável dos gregos: nos táxis (quase sempre com música do folclore grego na rádio), nos restaurantes (oferecendo sempre uma sobremesa e uma bebida forte no fim da refeição, por exemplo), no aluguer dos carros, nas lojas (dando pequenas ofertas; um íman, dois donuts,), nos museus (baixando preços), etc.

  • Dimitris Christoulas que, em 2012, se suicidou em frente ao Parlamento na Praça Syntagma, não só a fim de não perder a sua dignidade, mas também para apelar à coragem e honra dos gregos contra os políticos corruptos.

  • A Biblioteca de Pantainos; depois da Acrópole turística, a solidão destas ruínas. Tudo pode cair e desaparecer, mas os livros, uma biblioteca? É como se uma força maior que a morte tenha atuado aqui, um vento terrível que derrubou os edifícios e a arrancou as páginas dos livros, lançando-os no espaço.





  • Num restaurante de Creta, em Heraklion, depois de um almoço regado com retsina, a conta vem com um folheto onde surgem alguns versos do poema Ithaca, de Cavafy, exatamente nesta tradução:

Hope that your journey is a long one. 
Many will be the summer mornings 
upon which, with boundless pleasure and joy, 
you will find yourself entering new ports of call.

E, naquele lugar, naquele momento, começo a ouvir a voz de Sean Connery, com a música de Vangelis... e as lágrimas subiram-me aos olhos.


  • O trânsito desorganizado de Atenas, mas sem agressividade, tolerante e com espaço para todos. Na estrada, mal nos aproximamos de um carro, este afasta-se para a berma para nos dar passagem.

  • A cidade de Atenas, sempre com surpresas a surgirem aos nossos passos: ruínas pouco conhecidas; cafés deslumbrantes escondidos para lá de portas perfeitamente anónimas; as varandas sempre a transbordar de plantas e de vegetação; mercados de rua com as bancas arranjadas com preocupações estéticas (as batatas empilhadas em pirâmides perfeitas, flores espalhadas por cima da fruta, dos morangos, por exemplo, etc.).

  • Palácio de Knossos: luminoso e cheio de belíssimas energias!






  • Delfos: os deuses mortos nos templos em ruínas são o reflexo do nosso vazio espiritual - reflexo ou promessa? Novos deuses, novos mortos? No fim, a poeira estelar a vogar no silêncio sem fim.



  • O livro cuja leitura me acompanhou nesta viagem (graças à simpatia da Ana Maria Soares) e que deixou em mim um rasto prolongado: Diário da Abuxarda, de Marcello Duarte Mathias.





terça-feira, maio 03, 2016

Punição física



Se queremos que a criança associe aquilo que fez a consequências dolorosas, a um intenso e conflituoso conjunto de emoções negativas, e à consciência de ser inferior e merecedora de uma auto-estima baixa, sem perceber porquê ou para quê, então a opção pela punição física é a adequada. Estes são os efeitos no seu cérebro. Ah, e a memória permanente desse tipo de punição, claro (nunca conheci ninguém que se tivesse esquecido de ter sido castigado fisicamente, nem nos casos em que o foi só uma vez).

Se queremos que a criança aprenda; que ela cresça e se desenvolva num ambiente de respeito, de segurança e de afeto; que ela perceba quais as maneiras mais adequadas de convencer os outros sem ter de os vencer pela força bruta; se queremos dar-lhe o exemplo do que é viver não na selva mas na civilização; que ela perceba que há consequências desagradáveis muito razoáveis e lógicas para os seus maus comportamentos. Então há outras alternativas que, ainda por cima, são muito mais eficazes que a punição física.


Como dizia Gandhi: «Se venceres o teu adversário, ganhas um inimigo. Se o convenceres, ganhas um aliado.» Parece evidente, não é?

quinta-feira, abril 07, 2016

Ganância

Um dia, o famoso rabi Chofetz Haim (1839-1933) recebeu em sua casa a visita de um viajante abastado. Este ficou surpreendido com a austeridade dos aposentos do rabi e perguntou-lhe:
- Rabi, onde está a sua mobília?
Ao que Chofetz Haim respondeu, também com uma pergunta:
- E a sua? Não a vejo consigo.
- A minha? - respondeu o perplexo viajante. – Mas eu sou uma visita, estou aqui apenas de passagem!
- Também eu estou de passagem – respondeu Chofetz Haim.

Serve esta história para introduzir este post sobre os Panama Papers. Este e todos os outros casos relacionados com esta área são relatados pela comunicação social, e comentados pelas redes sociais, falando-se sempre de corrupção. Mas normalmente não vejo ninguém referir o que está por detrás dela: a ganância.
O Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea diz que a ganância se trata de «Ambição desmedida, em geral por dinheiro ou bens materiais. (…) Ganho ou lucro ilícito.» Eu defino-a como aquela sede que leva, quem tem muito, a querer ter sempre mais e mais e mais, seja à custa do que for.
O que não aparece na definição é o grau incomensurável de destruição que a ganância arrasta atrás de si. A destruição de pessoas, famílias, nações e planeta, inclusive. Nada está a salvo da ganância. Podemos também acrescentar, sem medo de exagerar, que ela mata, e mata muita gente.
Procuro compreender, mas é difícil. No entanto, imagino que o sentimento de ganância tenha a sua origem num desejo alucinado de segurança, acompanhado de um terror, profundo e nunca aplacado, de a perder.

Na minha já longínqua juventude, li a história acima relatada. Desde então, tenho procurado viajar leve, nesta minha passagem pela terra. Não me tenho arrependido.

quarta-feira, março 23, 2016

Bombas, do céu e da terra - Raquel Varela

«Sou das que acha que um trabalhador que resiste não é igual a um que desiste. Que fazer mal o trabalho em resposta às condições laborais más não é o mesmo que fazer bem e organizar uma greve. Olhar pela janela e parar de trabalhar não é boicote activo e consciente, como gostam os que citam Rancière. Tem valor quem junta as peças, não quem actua só, morto de pena de si próprio. Há desistentes, há mesmo, e há incansáveis, há mesmo; há quem fale muito e há quem olhe a vida com responsabilidade e acção, juntando o ser e o fazer, a palavra e o gesto. Há quem viva deprimido – desculpa contemporânea para tudo – , e quem se faz à vida conquistando o futuro. Não tenho simpatia por auto-vitimização dos mais pobres. Pena têm os patos. Não há desemprego, pobreza, ignorância que perdoe fazer-se explodir matando inocentes. São umas bestas humanas. Mas não compro a propaganda ocidental que passa em horário nobre imagens de corpos em Bruxelas e no mesmo horário nobre jamais, jamais, passou as mesmas imagens de crianças, corpos inocentes esventrados palas bombas ocidentais. As imagens que nos chegam das guerras dos nossos países são sempre uns pilotos cleans, umas luzes nos cockpits e depois uns prédios destruídos e, claro, os «nossos» homens de Estado, impecáveis, com a bandeira azul e amarela atrás, explicando ao povo como levam a democracia ao mundo. Esta guerra não é minha, nem são meus os «nossos» governantes nem choro um segundo pelo destino do Estado Islâmico. Por mim, caíam ambos com a força da civilização dos de baixo, ao som das minhas lágrimas de felicidade. Bombas, do céu ou da terra, são bombas. Se me perguntam o que fazer não sei. Sozinha não sei. Sei que não é com muros e um polícia em cima de cada um de nós que se vai resolver nada; sei que não se pode bloquear os meios de sobrevivência e produção dos povos; sei que o mundo nunca produziu tanto e tanta pobreza. Sei também que temos que voltar a reorganizar o movimento social – e para isso precisamos dos tais, que organizam e não olham pela janela. Mas o resto está por inventar. Não é por não ter a fórmula certa que apoio a errada – nenhum terrorismo de Estado resolverá o estado actual do terrorismo.»

in Raquel Varela

sábado, fevereiro 27, 2016

As leis do mercado... para os outros?

A propósito deste texto de Fernanda Câncio:

Concordo com tudo o que diz, embora também ache que só pode ser uma coisa boa alargar a solidariedade a muitas outras áreas e não apenas à do jornalismo.

No entanto, não posso deixar de incluir aqui uma interrogação. Durante alguns meses fui leitor deste jornal e estes jornalistas pregavam claramente as leis do mercado. Então, fico perplexo por, quando elas lhes batem à porta, virem aflitos evocar as leis da solidariedade. Só espero (não estou a ironizar) que tenha sido uma aprendizagem que eles tenham feito.

sexta-feira, fevereiro 12, 2016

A propósito do livro The Happiness Industry, de William Davies

E se a maior ameaça ao capitalismo não for nenhuma revolução, nem nenhum movimento colectivo de contestação, mas for simplesmente o desinteresse e a desmotivação do trabalhador?

A indústria da felicidade e o capitalismo (que, na sua busca cega de controlo social, precisa de trabalhadores maximamente envolvidos, entre outras coisas, para aceitarem com satisfação todas as violências que lhes queiram impingir, por exemplo, salários reduzidos, horas de trabalho sem limites, exigências absurdas de obediência canina, etc), parece que juntaram forças para responderem a esta ameaça.

Acrescento que, na minha opinião, para serem bem sucedidos, a indústria da felicidade e o capitalismo têm estado a realizar um trabalho prévio de marketing, a fim de que todos possam acabar por aceitar sem discussão alguns dogmas, a saber:
1 – Todos sem exceção podem sentir-se felizes todo o tempo que quiserem.
2 – A felicidade pode ser comprada (através de livros, DVD’s, workshops, psicoterapias, drogas legais e ilegais, suplementos alimentares, etc.)
3 – Logo, se a pessoa não for feliz, a culpa é dela e só dela.
4 – Se a culpa é dela, então merece sem dúvida ser punida.
5 – Dada a sua culpa, a punição razoável é a pessoa ser despedida e ficar sem quaisquer ajudas ou compreensão do Estado.
6 – São irrelevantes a história da pessoa, a sua saúde, os seus genes ou o contexto social e laboral em que está a viver – a culpa é sempre da pessoa, de mais ninguém e de mais nada.

Ver The Cost of Happiness e All the Happy Workers.

A questão que sobra é o que fazer para escapar a esta tentativa de controlo sobre as nossas vidas? O livro não nos dá respostas diretas a isto. Posso falar da  minha experiência.

A primeira ideia a referir é que uma ação que não seja coletiva, poucos efeitos terá. Sim, a célebre frase de Gandhi, "Sê a mudança que queres ver nos outros", é útil para todos nós, sem dúvida. Mas eficaz? Ela foi-o para Gandhi que tinha os olhos de quase o mundo inteiro em cima dele e tudo o que ele fizesse obtinha uma enorme repercussão. Mas nós?... Acredito que só por uma ação coletiva podemos ter alguma esperança de obter algum resultado (e nem mesmo assim é seguro).

A segunda ideia, que partilho aqui, passa por reconhecer que o maior mal é a ignorância. Tenho percorrido a minha vida a lutar contra a sensação de verdade associada às minhas ideias, a duvidar delas e a questioná-las, e a lutar contra a minha ignorância. Ignorância de conhecimentos, mas também de sabedoria; ignorância tanto sobre o mundo exterior, como sobre o mundo interior. Isto ajuda-me a tornar-me muito céptico em relação a quaisquer ideias que me queiram vender.

A terceira ideia consiste em apostar na prevenção. Tenho procurado ficar à parte do mainstream, principalmente quando há o risco de eu ficar nas mãos de ricos e poderosos (não, não podemos confiar neles - não sou eu que sou paranóico, há múltiplos estudos e investigações científicas que demonstram à saciedade que eles não são confiáveis). Só isto: não nos deixarmos cair nas mãos deles, mesmo que isso implique um status bem desagradável para nós.

quarta-feira, fevereiro 03, 2016

Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia

"A Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia é um documento que contém disposições sobre os direitos humanos, "proclamada solenemente" pelo Parlamento Europeu, pelo Conselho da União Europeia e pela Comissão Europeia em 7 de dezembro de 2000. Uma versão adaptada da Carta foi proclamada em 12 de dezembro de 2007, em Estrasburgo, à frente da assinatura do Tratado de Lisboa, que faz com que a Carta seja juridicamente vinculativa em todos os países, exceto na Polónia e no Reino Unido. (...)" (Wikipedia)

"Artigo 1.o
Dignidade do ser humano
A dignidade do ser humano é inviolável. Deve ser respeitada e protegida."

"do ser humano". Não diz "do dinamarquês", nem do "sueco", nem "do húngaro", nem sequer "do europeu".

Diz "do ser humano". Qualquer que ele seja e venha de onde vier.

quinta-feira, janeiro 28, 2016

100 anos do nascimento de Vergílio Ferreira

“(…) De que me serve todo o fervor do que disse, agora que estou só em face de mim, simples, vivo, indiscutível desde as minhas mais profundas raízes?
Eis que depois de toda a verdade e erro com que falei, depois das minhas fatigantes repetições, das incoerências e enganos, das certezas e ilusões, olho uma vez ainda, nestes muros que me cercam, este Velho Rei de Rouault, A Trança, de Resende, relembro uma página de Malraux, de Eça, um poema de Nobre, de Antero, de Camões, versos do Rei Édipo, esse fulminante verso da Antígona contra todos os carrascos que a voz escrava do homem não cessa de inventar:

οτοι συνέχθειν, λλ συμφιλεν φυν (*)

(Em grego, consintam, para que esta voz nada perca do seu peso milenário.)

(*) «Não nasci para compartilhar do ódio mas do amor» (Antígona, v.523).

(…)

            O adversário da paz não é apenas a guerra e a sua ameaça: é o medo sob todas as suas formas. E a expressão mais alta da paz é a possibilidade dada ao homem de se reconhecer inteiro na vida pela exaltação do que mais profundamente o pode dignificar como homem.”

(do mundo original, Livraria Bertrand, 1979, pp.251 e 115)


Faz hoje cem anos que Vergílio Ferreira nasceu, contribuindo com o seu labor literário para enobrecer a nossa vida com uma humanidade plena de valores, alegria e beleza.

Pessoalmente, a minha dívida para com ele é imensa. Ele ensinou-me a olhar, a sentir e a atuar no mundo de uma forma que eu nunca faria se não tivesse lido as suas obras. Fico feliz por ter tido a oportunidade de o fazer feliz durante um momento da sua vida. Mas isso é uma outra história. O que aqui quero deixar como testemunho é que ele proporcionou-me eu ter podido enriquecer extraordinariamente a minha vida com a leitura dos seus livros e com os mundos que essa leitura me abriu.

quarta-feira, janeiro 27, 2016


"(...) hoje que descobrimos a Arte, reconhecemos nela um dos valores humanos mais altos, para alguns decerto a reinvenção de um Absoluto, depois da morte dos outros. Um mito? Talvez que, porém, uma vida se não possa cumprir sem mitos - sem uma força que a supere e unifique. O sabermos que é um «mito» anula-a como tal - em parte ao menos. Mas se o non omnis moriar de Horácio, o «não morrerei por inteiro», é uma bela ficção, se profundamente sabemos que não sobreviveremos, compreende-se ainda assim que a arte se recupere em Força Totalizadora, ao pensarmos que ela é talvez a melhor forma de uma vivência profunda do instante que passa."
(do mundo original, Livraria Bertrand, 1979, p.101)


terça-feira, janeiro 19, 2016


A genialidade é sempre mal compreendida. Mas com a obra do VF o problema é agravado pelo facto de ela não caber num qualquer festival superbock: ela pertence antes ao domínio da intimidade, do silêncio, da fraternidade cúmplice; ela fala-nos ao mais profundo de nós e, por isso, não é popular.


"(…) À pergunta de Platão sobre a utilidade de Homero, responde a sucessão dos séculos que se comoveram com os errores de Ulisses, a despedida de Heitor, a revelação do homem a si próprio, através de Helena, Aquiles, Páris, os mitos que enformaram os sonhos, os medos dos homens, o olhar interrogador e maravilhado em face do mundo e da vida.
Assim, o para quê de uma obra de arte não cabe na dimensão do utilitarismo. (…)”
(do mundo original, Livraria Bertrand, 1979, p.57)

segunda-feira, janeiro 18, 2016

"Só em liberdade se pode ser artista - repete-nos Hegel. Não apenas em liberdade «exterior», acentuemos, essa que se traduz pela ausência de uma imposição dos outros, mas ainda em liberdade «interior», essa que rejeita uma imposição de nós próprios."
(do mundo original, Livraria Bertrand, 1979, p.48)



Onésimo Teotónio de Almeida, na sua mais recente obra, "Despenteando Parágrafos" (2015), instala-se num registo que não é propriamente adulador ou celebratório. No entanto, quando se refere à obra ensaística de Vergílio Ferreira, ele é francamente elogioso.

Há muitos anos que eu não lia os ensaios de Vergílio Ferreira. Voltei então a eles, e comecei pelo seu primeiro livro de recolha (até 1957), Do Mundo Original. Desse livro deslumbrante, continuarei a selecionar alguns extractos que, para mim, são autênticas iluminações.

domingo, janeiro 17, 2016

Sobre a Arte, em Vergílio Ferreira, I

"(...) que uma obra de arte , a rigor, não se discute. Uma obra de arte ou nos mobiliza a adesão, e em tal caso ela é um absoluto de presença, uma vivência sem margens, ou não promove tal adesão e em tal caso essa obra não existe. A discussão sobre ela passa-lhe um pouco à margem, (...)"

(do mundo original, Livraria Bertrand, 1979, p.37)


Dia 28 de Janeiro faz 100 anos que nasceu Vergílio Ferreira, um dos maiores escritores de sempre.

Para mim, a sua obra é "um absoluto de presença". Por isso, digo: sinto no meu sangue, com uma certeza anterior a todas as razões, que Vergílio Ferreira é um autor maior de uma obra artística (que inclui o romance, o conto, o ensaio e o diário) maravilhosamente única e inesquecível.

sábado, janeiro 16, 2016

Arte Poética, de José Luís Peixoto

O meu amigo Luís Nogueira, poeta autor do blogue ENE COISAS, disponibilizou-me este texto fabuloso:

"Rui Diniz Monteiro, lembrei-me de ti ao ler este poema:

arte poética

o poema não tem mais que o som do seu sentido,

a letra p não é a primeira letra da palavra poema,

o poema é esculpido de sentidos e essa é a sua forma,

poema não se lê poema, lê-se pão ou flor, lê-se erva

fresca e os teus lábios, lê-se sorriso estendido em mil

árvores ou céu de punhais, ameaça, lê-se medo e procura

de cegos, lê-se mão de criança ou tu, mãe, que dormes

e me fizeste nascer de ti para ser palavras que não

se escrevem, Lê-se país e mar e céu esquecido e

memória, lê-se silêncio, sim tantas vezes, poema lê-se silêncio,

lugar que não se diz e que significa, silêncio do teu

olhar doce de menina, silêncio ao domingo entre as conversas,

silêncio depois de um beijo ou de uma flor desmedida, silêncio

de ti, pai, que morreste em tudo para só existires nesse poema

calado, quem o pode negar?, que escreves sempre e sempre, em

segredo, dentro de mim e dentro de todos os que te sofrem.

o poema não é esta caneta de tinta preta, não é esta voz,

a letra p não é a primeira letra da palavra poema,

o poema é quando eu podia dormir à tarde nas férias

do verão e o sol entrava pela janela, o poema é onde eu

fui feliz e onde eu morri tanto, o poema é quando eu não

conhecia a palavra poema, quando eu não conhecia a

letra p e comia torradas feitas no lume da cozinha do

quintal, o poema é aqui, quando levanto o olhar do papel

e deixo as minhas mãos tocarem-te, quando sei, sem rimas

e sem metáforas, que te amo, o poema será quando as crianças

e os pássaros se rebelarem e, até lá, irá sendo sempre tudo.

o poema sabe, o poema conhece-se e, a si próprio, nunca se chama

poema, a si próprio, nunca se escreve com p, o poema dentro de

si é perfume e é fumo, é um menino que corre num pomar para

abraçar o seu pai, é a exaustão e a liberdade sentida, é tudo

o que quero aprender se o que quero aprender é tudo,

é o teu olhar e o que imagino dele, é solidão e arrependimento,

não são bibliotecas a arder de versos contados porque isso são

bibliotecas a arder de versos contados e não é o poema, não é a

raiz de uma palavra que julgamos conhecer porque só podemos

conhecer o que possuímos e não possuímos nada, não é um

torrão de terra a cantar hinos e a estender muralhas entre

os versos e o mundo, o poema não é a palavra poema

porque a palavra poema é um palavra, o poema é a

carne salgada por dentro, é um olhar perdido na noite sobre

os telhados na hora em que todos dormem, é a última

lembrança de um afogado, é um pesadelo, uma angústia, esperança.

o poema não tem estrofes, tem corpo, o poema não tem versos,

tem sangue, o poema não se escreve com letras, escreve-se

com grãos de areia e beijos, pétalas e momentos, gritos e

incertezas, a letra p não é a primeira letra da palavra poema,

a palavra poema existe para não ser escrita como eu existo

para não ser escrito, para não ser entendido, nem sequer por

mim próprio, ainda que o meu sentido esteja em todos os lugares

onde sou, o poema sou eu, as minhas mãos nos teus cabelos,

o poema é o meu rosto, que não vejo, e que existe porque me

olhas, o poema é o teu rosto, eu, eu não sei escrever a

palavra poema, eu, eu só sei escrever o seu sentido.


José Luís Peixoto, 'A Criança em Ruínas'"

terça-feira, janeiro 12, 2016

Liberdade, uma realidade cada vez mais distante

Ser pessoa é difícil.
Ser livre é ainda mais difícil.
Por isso,

  • encerramo-nos bebés e crianças em infantários (a formatação começa logo aos primeiros meses de vida);
  • encerramo-nos crianças e adolescentes em escolas;
  • encerramo-nos jovens e adultos em ambientes virtuais uns mais doentios que outros;
  • encerramo-nos trabalhadores em ambientes laborais onde deixamos que não exista respeito por um horário humano de trabalho e nos permitimos sujeitar ao torniquete de uma avaliação feroz;
  • encerramo-nos em hospitais psiquiátricos pessoais com as nossas caixas de comprimidos;
  • encerramo-nos criminosos em prisões cada vez mais medicalizadas;
  • encerramo-nos velhos em asilos...
... até que a morte nos encerre definitivamente no nada.

sábado, janeiro 09, 2016

Cada vez mais a comparação com os outros

Até há umas décadas, as pessoas sabiam que a sua vida não seria muito diferente da da sua família. Com o sonho da mobilidade social, promete-se às pessoas que elas podem ser o que desejarem: astronauta, presidente, artista, etc.

(O que não é verdade, pois somos todos condicionados pelos nossos genes, pela nossa família, pela nossa educação e pelo contexto económico, social e cultural em que vivemos - nada disto foi nossa escolha!)

Para manter essa promessa, o que a sociedade atual nos exige é que entremos em competição com os outros. Mesmo aqueles que não querem fazê-lo, são obrigados a isso, através dos sistemas de avaliação individuais (que foram impostos de forma forçada em praticamente todo o mundo laboral).

O mundo torna-se um lugar cada vez menos seguro. O nosso cérebro tem um mecanismo para nos proteger neste caso concreto: a comparação. Comparação, claro está, com os melhores do que nós, pois é desses que pode vir o perigo.

Compararmo-nos com aqueles que são melhores que nós não nos ajuda a sentirmo-nos bem. Além disso, experimentamos a obrigação de ser como eles, ou a culpa de não sermos como eles (já que não culpamos nem Deus nem a sociedade). E temos aí mais uma sobrecarga para os nossos sistemas de stress.

Porque, como é fácil encontrar sempre alguém melhor do que nós, passamos a viver com a sensação permanente de que não somos suficientemente bons. Nem aos nosso olhos, nem aos olhos dos outros. E passamos a viver com o medo de não nos quererem, de nos dispensarem, de nos rejeitarem, de nos marginalizarem e de nos expulsarem. Que é um medo terrível!

domingo, janeiro 03, 2016

O que eu desejo para 2016?

Que a vida, e tudo o que há de bom nela, continue a aparecer-me como novidade, como permanente surpresa e como plenitude, fora de todas as palavras para a descrever. Ou seja, que eu não deixe desgastar em mim a atenção aos instantes do milagre.

Que possam mudar as minhas conceções sobre a vida, ou sobre as relações, ou sobre a beleza, mas que não mude nem esmoreça a minha aspiração a tudo o que vá bem para lá da usura da rotina do dia a dia.

Que nessa vida eu vá conseguindo exprimir as mais profundas harmonias, capazes de surgirem como possibilidades de resolução da aflição daqueles que me procuram. E que a eles lhes permita conquistar finalmente a alegria (não a dos mercenários da boa disposição, mas a que está antes dessa e de outras igualmente artificiais), bem como a plenitude que tanto merecem.


sexta-feira, janeiro 01, 2016

Escrever

Escrevo sempre a partir de outros escritores.

Por isso, para mim, ler é respirar. Para poder escrever, depois, como amo; ou, pelo menos, como vivo.

Não o sei fazer senão em forma de fragmentos, porque também são múltiplas as margens para as quais a vida me atrai.

Sonhar com o amor

Estando sempre à beira da morte, ou melhor, sempre com as inumeráveis mortes a correr à nossa beira como ventos que cruzam a nossa caminhada, sonhar com o amor é ter a esperança de encontrar a janela que finalmente se abrirá para o jardim proibido.

Sonhamos com o amor, e aquilo que intuímos que tem de existir em algum lado, que parece que sentimos caminhar para nós, jamais nos chegará, como há muito Zenão profetizou, a essa janela habitada pela nossa busca solitária.