quarta-feira, outubro 08, 2008

Um sorriso gelado

Hoje, nas minhas aulas, alunos gritaram, disseram palavrões, intimidaram e bateram noutros alunos com um sorriso nos lábios ou não, roubaram (canetas, lápis e cadeados dos armários da sala) e desobedeceram-me (verbalizando essa desobediência, olhos nos olhos).

Quando duas pessoas se encontram, mesmo quando não se conhecem, surgem pontes através das expressões faciais e corporais. Não consigo encontrar essas pontes em muitos destes adolescentes. Uns poucos inspiram-me mesmo um profundo terror.

Ontem estava no refeitório sentado a comer com o I., um rapaz maior que eu mas deficiente, que veio da Geórgia, e sinto-o a encostar-se a mim a tremer. À frente, um pouco descaído para a direita tinha-se sentado o D. (aluno famoso na escola pelos piores motivos) que o olhava friamente. "Tu não me vais fazer mal, pois não? Não me vais fazer mal?", dizia o I. com o pânico na voz. Olhei para o D. que se limitava a fixar o I. com um sorriso gelado. E eu, professor, sim, senti um medo pavoroso.

Para não perder a esperança e todo o sentido do que faço, procuro encarar estes jovens não pelo que eles são mas, nos casos mais favoráveis, pelo que eles poderão vir a ser (no que, de ano para ano, tenho apesar de tudo cada vez mais dificuldade, por já pouco conseguir ver). Nos outros casos procuro vê-los como eles quereriam ter sido se lhes tivesse sido dada uma oportunidade para isso: com professores a poderem ser honestos para com eles, isto é, a fazerem-lhes ver que eles podiam conseguir muito mais e muito melhor... em vez disso mostra-se sempre o quão baixas são as expectativas em relação a eles ao não lhes ser permitido aguentar com as consequências do que fazem.
Não consigo imaginar como se sentirá alguém sabendo que aquilo que faz vale tão pouco que, faça o que fizer, nunca terá consequências significativas, apenas receberá uma inútil compreensão que disfarça o mais profundo dos desprezos pela sua pessoa.

6 comentários:

Xantipa disse...

Vir a este blogue obriga-me a ver outras realidades, muitas vezes incompreensíveis para mim. Uma coisa é ver em filmes aqueles jovens sem futuro e que nada têm a perder com o que quer que façam, outra coisa é ler no blogue de uma pessoa real, uma pessoa que não conheço mas que poderia conhecer (somos todos professores), que me diz que lida com essas situações.
Nem sei o que lhe dizer.
Beijinho

Rui disse...

É engraçado falar dos filmes. Porque, na verdade, nunca consegui sentir que aquilo que via neles tinha o que quer que fosse a ver com a realidade.
Talvez porque nos filmes existe sempre uma certa teatralização dos actos e dos sentimentos. O que não acontece nas realidades que eu vivi e vivo.
É tudo banal: a violência, o mal, a destruição. Nada quer dizer nada, nada serve para nada, nada se pretende conseguir, tudo não passa de uma atroz gratuitidade. É assim que eu explico o ar sorridente com que eles fazem as coisas (mas nada de confusões: se os tratarmos com um pouco menos de consideração, é no espaço de um relâmpago que eles passam do sorriso à fúria violenta).

Xantipa disse...

Não sei se felizmente ou infelizmente, mas não conheço essas realidades a não ser por relatos...
A banalização do mal lembra-me a Hanna Arendt (que o Rui também já citou)...
Enfim, confio que conseguirá lidar com a situação (a sua escola é muito má?).
Beijinho

Méon, disse...

Bom dia!

A Xantipa lhe dirá porque vim aqui hoje...

E encontrei este texto que me comoveu profundamente!`´E isso que eu sinto! Essa estranha e inqualificável sensação de que entre nós e estes jovens há um fosso quase intransponível...
Tempos houve em que tentei perceber melhor. Daniel Sampaio ajudou com os seus livros, E há outros. Mas AO VIVO E A CORES, o Rui mostra como é a dura realidade.

Estes jovens são o produto de uma sociedade alienada atá ao âmago. E parece não terem consciência disso..

Sim, eu sei que não podemos generalizar, que temos tendência para tomar a parte pelo todo sobretudo quando essa parte ocupa demasiado espaço...

Tanto para desabafar sobre isto, não é?

Continuo solidário com os meus ex-colegas professores!
Talvez um dia nos encontremos, felizes por esta "insustentável leveza do ser" que nos aproximou pelas vias mais improváveis.
Um abraço!

Rui disse...

Obrigado pela sua visita, Méon. Sim, e custa sobretudo pelas poucas respostas que temos para ajudar estes jovens (e os também mais que desesperados pais deles). Cada vez mais vivemos no tempo retratado por Camus em O Mito de Sísifo e n'A Peste.

Méon, disse...

Exactamente!

Sabe que voltei a comprar os livros do Camus para os reler, eu que os tinha deixado pelo caminho...

Achava eu que eram decadentes, não tinham em conta o novo homem que aí vinha, enfim liberto, enfim senhor do seu destino, enfim solidário, vivendo enfim na sociedade sem classes nem exploração do homem pelo homem...
Afinal era um profeta dos tempos...

Abraço!