quinta-feira, julho 28, 2005

Palavrões e liberdade

Quase nunca os digo.

As pessoas, que à minha volta os utilizam, querem fazer-me crer que sou menos livre do que elas por os não usar.

Suspeito aqui de um engano.
Se eu for livre, claro que dizer palavrões é um sinal dessa liberdade.
Ah, mas o inverso já não é necessariamente verdadeiro: o facto simples de eu ou outro qualquer os dizermos não implica que sejamos ou fiquemos mais livres!

Não digo palavrões porque eles traçam um retrato da realidade mais feio e/ou mais risível (refiro-me aqui a um riso "por baixo" que, na verdade, pouco me interessa).

Por outro lado: a minha decisão de não os dizer, num mundo em que quase todos os dizem, é que pode passar a ser assim um sinal de maior liberdade.

Cito Óscar Lopes: "Ser diferente é ter a oportunidade de ser superior."
Porque não? É certo, não substitui a liberdade, mas pode ser um dos caminhos que a ela vai dar.

6 comentários:

Didas disse...

E eu concordo sem reservas com o princípio aqui exposto, na sua essência.
Já no que toca ao pormenor, digamos que há subtilezas linguísticas que não se conseguem atingir sem o recurso às palavras que não vêm no "Porto Editora".

Um abraço

MaDi disse...

Essas palavras continua a vir no "Porto Editora", didas!

Acho que a nossa liberdade vai até onde começa a do outro. O que torna a liberdade bastante restrita.
Se não sente necessidade de os dizer, acho que faz muito bem em esquivar-se de o fazer.

Anónimo disse...

ás Xz é mais uma questão de hedonismo, sabe tão bem...

Rui disse...

MaDi,
E é tão difícil (re)conhecer até onde vai, ou deve ir, a liberdade do outro na sua relação connosco - para que a nossa liberdade também não fique humilhantemente restrita!
Por isso acredito ser fundamental esse (re)conhecimento porque dele é que nasce um respeito autêntico pelo outro... e o dele por nós!

Rui disse...

Didas,
se calhar tens razão. Digo se calhar porque a ideia que eu tenho é um pouco diferente: quando as pessoas não estão para explicitar melhor o seu pensamento/sentimento um dos recursos que usam é o palavrão, ou seja, através deste fogem à exigência da subtileza.
(Sem arrastar teias de aranha nesta frase, devo dizer que) Sou do tempo em que, por alturas do 25 de Abril, se usava a palavra m... em todas as situações, até eu, até na televisão (e não apenas em filmes ou programas de humor)! Era uma palavra cheia de tudo o que quiséssemos lá pôr, de bom ou de mau, e que dava, apenas pelo seu uso, um fortíssimo sentido de comunidade. Nessa altura era uma boa palavra, mas num discurso pobre... o que não era tão mau assim porque o que se perdia em comunicação ganhava-se em proximidade. Hoje penso que já não será assim. Um abraço.

Rui disse...

Anónimo(a),
sabe bem como?
Quando às vezes me esforço por fazer sair um palavrão parece que tenho uma data de pedras ou de ovos cozidos na boca, daí não compreender o saber bem.
Para descarregar uma fúria? A mim as palavra coléricas em geral aumentam, não aliviam a fúria.
Não percebo.