terça-feira, agosto 30, 2005

Viajar

“Um dia li num livro: «Viajar cura a melancolia».
Creio que, na altura, acreditei no que lia. (...)”
É assim que Al Berto inicia o seu texto Aprendiz de Viajante em O Anjo Mudo (pode-se ler este texto aqui, é o último da página do site Uma Homenagem à Escrita)
E a mim, curou-me? Por um lado, a melancolia estava a sufocar-me. A viagem parou isso. Embora a paragem ocorresse apenas enquanto eu andava... por isso, andei, andei, de carro ou a pé, mas sempre “on the road”.


Primeiro, pensei que o prazer de viajar era ir a um sítio e visitá-lo.
Depois descobri que o verdadeiro gozo estava em ir passando pelos diferentes lugares:
- de acordo com a minha inclinação da altura (houve vezes em que parti de um parque de campismo sem ter decidido ainda para onde seguiria),
- ou por via de enganos fortuitos (em certos momentos, tornei-me num viajante de enganos),
- ou por indicações na estrada, ou vindas de pessoas que ia encontrando, ou por pequenos lampejos de paisagens entrevistas.


Às vezes sinto que levei o futuro a fechar-me as suas portas.
Sento-me. Estou a chegar ao fim de qualquer coisa (um dia há-de ser da vida).
Quando não me resigno, corro, ando de bicicleta, ou, experimentei agora, viajo.
Porque viajar verdadeiramente é atravessar momentos sem perspectivar qualquer futuro. Por isso não fotografo nem filmo.
Cada momento é único e é uma passagem, um movimento: no ar parado, é fazer bater o vento de encontro ao rosto.

6 comentários:

Lyra disse...

ás vezes sinto que fechei as portas ao futuro.
costumo passar. Em silêncio.

Palavra disse...

Eu não filmo, verdade, mas fotografo porque recordar também é viver e recordar os momentos mais pacíficos da minha vida ajuda-me a relaxar naqueles momentos de maior violência.

Palavra disse...

Gosto imenso da forma como escreves.. é bastante libertadora até para quem te lê :) parabéns. Um abraço.

Rui disse...

Lyra, eu é cada vez menos em silêncio (como aliás se pode ver neste blog). Muitas vezes atabalhoadamente. Não sei porquê (porquê menos em silêncio e porquê atabalhoadamente).

Rui disse...

Palavra, sim, é verdade, a fotografia pode trazer-nos uma certa forma de paz.
Obrigado pelo elogio :)

caiacaina disse...

Ando, ando, ando...não vejo ninguém, não olho as montras e vou sempre a andar... como me sinto eu!
ou à beira-mar, de olhos naquela imensidão...que bom é pensar.Gostei do que li, porque uso o sistema como terapia. Atá um dia destes.