A propósito deste texto de Fernanda Câncio:
Concordo com tudo o que diz, embora também ache que só pode ser uma coisa boa alargar a solidariedade a muitas outras áreas e não apenas à do jornalismo.
No entanto, não posso deixar de incluir aqui uma interrogação. Durante alguns meses fui leitor deste jornal e estes jornalistas pregavam claramente as leis do mercado. Então, fico perplexo por, quando elas lhes batem à porta, virem aflitos evocar as leis da solidariedade. Só espero (não estou a ironizar) que tenha sido uma aprendizagem que eles tenham feito.
A vida. Tão pouco e tão tanto. (...) E todavia eu sei que "isto" nasceu para o silêncio sem fim... (Vergílio Ferreira)
sábado, fevereiro 27, 2016
sexta-feira, fevereiro 12, 2016
A propósito do livro The Happiness Industry, de William Davies
E
se a maior ameaça ao capitalismo não for nenhuma revolução, nem nenhum
movimento colectivo de contestação, mas for simplesmente o desinteresse e a
desmotivação do trabalhador?
A
indústria da felicidade e o capitalismo (que, na sua busca cega de controlo
social, precisa de trabalhadores maximamente envolvidos, entre outras coisas,
para aceitarem com satisfação todas as violências que lhes queiram impingir,
por exemplo, salários reduzidos, horas de trabalho sem limites, exigências
absurdas de obediência canina, etc), parece que juntaram forças para responderem
a esta ameaça.
Acrescento
que, na minha opinião, para serem bem sucedidos, a indústria da felicidade e o
capitalismo têm estado a realizar um trabalho prévio de marketing, a fim de que
todos possam acabar por aceitar sem discussão alguns dogmas, a saber:
1
– Todos sem exceção podem sentir-se felizes todo o tempo que quiserem.
2
– A felicidade pode ser comprada (através de livros, DVD’s, workshops,
psicoterapias, drogas legais e ilegais, suplementos alimentares, etc.)
3
– Logo, se a pessoa não for feliz, a culpa é dela e só dela.
4
– Se a culpa é dela, então merece sem dúvida ser punida.
5
– Dada a sua culpa, a punição razoável é a pessoa ser despedida e ficar sem
quaisquer ajudas ou compreensão do Estado.
6
– São irrelevantes a história da pessoa, a sua saúde, os seus genes ou o
contexto social e laboral em que está a viver – a culpa é sempre da pessoa, de mais
ninguém e de mais nada.
Ver The Cost of Happiness e All the Happy Workers.
A questão que sobra é o que fazer para escapar a esta tentativa de controlo sobre as nossas vidas? O livro não nos dá respostas diretas a isto. Posso falar da minha experiência.
A primeira ideia a referir é que uma ação que não seja coletiva, poucos efeitos terá. Sim, a célebre frase de Gandhi, "Sê a mudança que queres ver nos outros", é útil para todos nós, sem dúvida. Mas eficaz? Ela foi-o para Gandhi que tinha os olhos de quase o mundo inteiro em cima dele e tudo o que ele fizesse obtinha uma enorme repercussão. Mas nós?... Acredito que só por uma ação coletiva podemos ter alguma esperança de obter algum resultado (e nem mesmo assim é seguro).
A segunda ideia, que partilho aqui, passa por reconhecer que o maior mal é a ignorância. Tenho percorrido a minha vida a lutar contra a sensação de verdade associada às minhas ideias, a duvidar delas e a questioná-las, e a lutar contra a minha ignorância. Ignorância de conhecimentos, mas também de sabedoria; ignorância tanto sobre o mundo exterior, como sobre o mundo interior. Isto ajuda-me a tornar-me muito céptico em relação a quaisquer ideias que me queiram vender.
A terceira ideia consiste em apostar na prevenção. Tenho procurado ficar à parte do mainstream, principalmente quando há o risco de eu ficar nas mãos de ricos e poderosos (não, não podemos confiar neles - não sou eu que sou paranóico, há múltiplos estudos e investigações científicas que demonstram à saciedade que eles não são confiáveis). Só isto: não nos deixarmos cair nas mãos deles, mesmo que isso implique um status bem desagradável para nós.
A questão que sobra é o que fazer para escapar a esta tentativa de controlo sobre as nossas vidas? O livro não nos dá respostas diretas a isto. Posso falar da minha experiência.
A primeira ideia a referir é que uma ação que não seja coletiva, poucos efeitos terá. Sim, a célebre frase de Gandhi, "Sê a mudança que queres ver nos outros", é útil para todos nós, sem dúvida. Mas eficaz? Ela foi-o para Gandhi que tinha os olhos de quase o mundo inteiro em cima dele e tudo o que ele fizesse obtinha uma enorme repercussão. Mas nós?... Acredito que só por uma ação coletiva podemos ter alguma esperança de obter algum resultado (e nem mesmo assim é seguro).
A segunda ideia, que partilho aqui, passa por reconhecer que o maior mal é a ignorância. Tenho percorrido a minha vida a lutar contra a sensação de verdade associada às minhas ideias, a duvidar delas e a questioná-las, e a lutar contra a minha ignorância. Ignorância de conhecimentos, mas também de sabedoria; ignorância tanto sobre o mundo exterior, como sobre o mundo interior. Isto ajuda-me a tornar-me muito céptico em relação a quaisquer ideias que me queiram vender.
A terceira ideia consiste em apostar na prevenção. Tenho procurado ficar à parte do mainstream, principalmente quando há o risco de eu ficar nas mãos de ricos e poderosos (não, não podemos confiar neles - não sou eu que sou paranóico, há múltiplos estudos e investigações científicas que demonstram à saciedade que eles não são confiáveis). Só isto: não nos deixarmos cair nas mãos deles, mesmo que isso implique um status bem desagradável para nós.
quarta-feira, fevereiro 03, 2016
Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia
"A Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia é um documento que contém disposições
sobre os direitos humanos, "proclamada solenemente" pelo Parlamento Europeu, pelo Conselho da União Europeia e pela Comissão Europeia em 7 de dezembro de 2000. Uma versão
adaptada da Carta foi proclamada em 12 de dezembro de 2007, em Estrasburgo, à frente da assinatura do Tratado de Lisboa, que faz com que a Carta seja juridicamente vinculativa em
todos os países, exceto na Polónia e no Reino Unido. (...)" (Wikipedia)
"Artigo 1.o
Dignidade do ser humano
A dignidade do ser humano é
inviolável. Deve ser respeitada e protegida."
"do ser humano". Não diz "do dinamarquês", nem do "sueco", nem "do húngaro", nem sequer "do europeu".
Diz "do ser humano". Qualquer que ele seja e venha de onde vier.
Diz "do ser humano". Qualquer que ele seja e venha de onde vier.
quinta-feira, janeiro 28, 2016
100 anos do nascimento de Vergílio Ferreira
“(…) De que me serve todo o
fervor do que disse, agora que estou só em face de mim, simples, vivo, indiscutível
desde as minhas mais profundas raízes?
Eis que depois de toda a verdade e erro com que falei,
depois das minhas fatigantes repetições, das incoerências e enganos, das
certezas e ilusões, olho uma vez ainda, nestes muros que me cercam, este Velho Rei de Rouault, A Trança, de Resende, relembro uma página
de Malraux, de Eça, um poema de Nobre, de Antero, de Camões, versos do Rei Édipo, esse fulminante verso da Antígona contra todos os carrascos que a
voz escrava do homem não cessa de inventar:
οὔτοι
συνέχθειν, ἀλλὰ
συμφιλεῖν ἔφυν
(*)
(Em grego, consintam, para que
esta voz nada perca do seu peso milenário.)
(*) «Não nasci para compartilhar do ódio mas do amor» (Antígona,
v.523).
(…)
O adversário
da paz não é apenas a guerra e a sua ameaça: é o medo sob todas as suas formas.
E a expressão mais alta da paz é a possibilidade dada ao homem de se reconhecer
inteiro na vida pela exaltação do que mais profundamente o pode dignificar como
homem.”
Faz hoje cem anos que Vergílio
Ferreira nasceu, contribuindo com o seu labor literário para enobrecer a nossa vida com uma humanidade plena de
valores, alegria e beleza.
Pessoalmente, a minha dívida para com ele é imensa. Ele ensinou-me a olhar, a sentir e a atuar no mundo de uma forma que eu nunca faria se não tivesse lido as suas obras. Fico feliz por ter tido a oportunidade de o fazer feliz durante um momento da sua vida. Mas isso é uma outra história. O que aqui quero deixar como testemunho é que ele proporcionou-me eu ter podido enriquecer extraordinariamente a minha vida com a leitura dos seus livros e com os mundos que essa leitura me abriu.
Pessoalmente, a minha dívida para com ele é imensa. Ele ensinou-me a olhar, a sentir e a atuar no mundo de uma forma que eu nunca faria se não tivesse lido as suas obras. Fico feliz por ter tido a oportunidade de o fazer feliz durante um momento da sua vida. Mas isso é uma outra história. O que aqui quero deixar como testemunho é que ele proporcionou-me eu ter podido enriquecer extraordinariamente a minha vida com a leitura dos seus livros e com os mundos que essa leitura me abriu.
quarta-feira, janeiro 27, 2016
"(...) hoje que descobrimos a Arte, reconhecemos nela um dos valores humanos mais altos, para alguns decerto a reinvenção de um Absoluto, depois da morte dos outros. Um mito? Talvez que, porém, uma vida se não possa cumprir sem mitos - sem uma força que a supere e unifique. O sabermos que é um «mito» anula-a como tal - em parte ao menos. Mas se o non omnis moriar de Horácio, o «não morrerei por inteiro», é uma bela ficção, se profundamente sabemos que não sobreviveremos, compreende-se ainda assim que a arte se recupere em Força Totalizadora, ao pensarmos que ela é talvez a melhor forma de uma vivência profunda do instante que passa."
(do mundo original, Livraria Bertrand, 1979, p.101)
terça-feira, janeiro 19, 2016
A genialidade é sempre mal compreendida. Mas com a obra do VF o problema é agravado pelo facto de ela não caber num qualquer festival superbock: ela pertence antes ao domínio da intimidade, do silêncio, da fraternidade cúmplice; ela fala-nos ao mais profundo de nós e, por isso, não é popular.
"(…) À pergunta de Platão sobre a utilidade de Homero, responde a sucessão dos séculos que se comoveram com os errores de Ulisses, a despedida de Heitor, a revelação do homem a si próprio, através de Helena, Aquiles, Páris, os mitos que enformaram os sonhos, os medos dos homens, o olhar interrogador e maravilhado em face do mundo e da vida.
Assim, o para quê de uma obra de arte não cabe na dimensão do utilitarismo. (…)”
(do mundo original, Livraria Bertrand, 1979, p.57)segunda-feira, janeiro 18, 2016
"Só em liberdade se pode ser artista - repete-nos Hegel. Não apenas em liberdade «exterior», acentuemos, essa que se traduz pela ausência de uma imposição dos outros, mas ainda em liberdade «interior», essa que rejeita uma imposição de nós próprios."
(do mundo original, Livraria Bertrand, 1979, p.48)
Há muitos anos que eu não lia os ensaios de Vergílio Ferreira. Voltei então a eles, e comecei pelo seu primeiro livro de recolha (até 1957), Do Mundo Original. Desse livro deslumbrante, continuarei a selecionar alguns extractos que, para mim, são autênticas iluminações.
domingo, janeiro 17, 2016
Sobre a Arte, em Vergílio Ferreira, I
"(...) que uma obra de arte , a rigor, não se discute. Uma obra de arte ou nos mobiliza a adesão, e em tal caso ela é um absoluto de presença, uma vivência sem margens, ou não promove tal adesão e em tal caso essa obra não existe. A discussão sobre ela passa-lhe um pouco à margem, (...)"
(do mundo original, Livraria Bertrand, 1979, p.37)
Dia 28 de Janeiro faz 100 anos que nasceu Vergílio Ferreira, um dos maiores escritores de sempre.
Para mim, a sua obra é "um absoluto de presença". Por isso, digo: sinto no meu sangue, com uma certeza anterior a todas as razões, que Vergílio Ferreira é um autor maior de uma obra artística (que inclui o romance, o conto, o ensaio e o diário) maravilhosamente única e inesquecível.
sábado, janeiro 16, 2016
Arte Poética, de José Luís Peixoto
O meu amigo Luís Nogueira, poeta autor do blogue ENE COISAS, disponibilizou-me este texto fabuloso:
"Rui Diniz Monteiro, lembrei-me de ti ao ler este poema:
arte poética
o poema não tem mais que o som do seu sentido,
a letra p não é a primeira letra da palavra poema,
o poema é esculpido de sentidos e essa é a sua forma,
poema não se lê poema, lê-se pão ou flor, lê-se erva
fresca e os teus lábios, lê-se sorriso estendido em mil
árvores ou céu de punhais, ameaça, lê-se medo e procura
de cegos, lê-se mão de criança ou tu, mãe, que dormes
e me fizeste nascer de ti para ser palavras que não
se escrevem, Lê-se país e mar e céu esquecido e
memória, lê-se silêncio, sim tantas vezes, poema lê-se silêncio,
lugar que não se diz e que significa, silêncio do teu
olhar doce de menina, silêncio ao domingo entre as conversas,
silêncio depois de um beijo ou de uma flor desmedida, silêncio
de ti, pai, que morreste em tudo para só existires nesse poema
calado, quem o pode negar?, que escreves sempre e sempre, em
segredo, dentro de mim e dentro de todos os que te sofrem.
o poema não é esta caneta de tinta preta, não é esta voz,
a letra p não é a primeira letra da palavra poema,
o poema é quando eu podia dormir à tarde nas férias
do verão e o sol entrava pela janela, o poema é onde eu
fui feliz e onde eu morri tanto, o poema é quando eu não
conhecia a palavra poema, quando eu não conhecia a
letra p e comia torradas feitas no lume da cozinha do
quintal, o poema é aqui, quando levanto o olhar do papel
e deixo as minhas mãos tocarem-te, quando sei, sem rimas
e sem metáforas, que te amo, o poema será quando as crianças
e os pássaros se rebelarem e, até lá, irá sendo sempre tudo.
o poema sabe, o poema conhece-se e, a si próprio, nunca se chama
poema, a si próprio, nunca se escreve com p, o poema dentro de
si é perfume e é fumo, é um menino que corre num pomar para
abraçar o seu pai, é a exaustão e a liberdade sentida, é tudo
o que quero aprender se o que quero aprender é tudo,
é o teu olhar e o que imagino dele, é solidão e arrependimento,
não são bibliotecas a arder de versos contados porque isso são
bibliotecas a arder de versos contados e não é o poema, não é a
raiz de uma palavra que julgamos conhecer porque só podemos
conhecer o que possuímos e não possuímos nada, não é um
torrão de terra a cantar hinos e a estender muralhas entre
os versos e o mundo, o poema não é a palavra poema
porque a palavra poema é um palavra, o poema é a
carne salgada por dentro, é um olhar perdido na noite sobre
os telhados na hora em que todos dormem, é a última
lembrança de um afogado, é um pesadelo, uma angústia, esperança.
o poema não tem estrofes, tem corpo, o poema não tem versos,
tem sangue, o poema não se escreve com letras, escreve-se
com grãos de areia e beijos, pétalas e momentos, gritos e
incertezas, a letra p não é a primeira letra da palavra poema,
a palavra poema existe para não ser escrita como eu existo
para não ser escrito, para não ser entendido, nem sequer por
mim próprio, ainda que o meu sentido esteja em todos os lugares
onde sou, o poema sou eu, as minhas mãos nos teus cabelos,
o poema é o meu rosto, que não vejo, e que existe porque me
olhas, o poema é o teu rosto, eu, eu não sei escrever a
palavra poema, eu, eu só sei escrever o seu sentido.
José Luís Peixoto, 'A Criança em Ruínas'"
"Rui Diniz Monteiro, lembrei-me de ti ao ler este poema:
arte poética
o poema não tem mais que o som do seu sentido,
a letra p não é a primeira letra da palavra poema,
o poema é esculpido de sentidos e essa é a sua forma,
poema não se lê poema, lê-se pão ou flor, lê-se erva
fresca e os teus lábios, lê-se sorriso estendido em mil
árvores ou céu de punhais, ameaça, lê-se medo e procura
de cegos, lê-se mão de criança ou tu, mãe, que dormes
e me fizeste nascer de ti para ser palavras que não
se escrevem, Lê-se país e mar e céu esquecido e
memória, lê-se silêncio, sim tantas vezes, poema lê-se silêncio,
lugar que não se diz e que significa, silêncio do teu
olhar doce de menina, silêncio ao domingo entre as conversas,
silêncio depois de um beijo ou de uma flor desmedida, silêncio
de ti, pai, que morreste em tudo para só existires nesse poema
calado, quem o pode negar?, que escreves sempre e sempre, em
segredo, dentro de mim e dentro de todos os que te sofrem.
o poema não é esta caneta de tinta preta, não é esta voz,
a letra p não é a primeira letra da palavra poema,
o poema é quando eu podia dormir à tarde nas férias
do verão e o sol entrava pela janela, o poema é onde eu
fui feliz e onde eu morri tanto, o poema é quando eu não
conhecia a palavra poema, quando eu não conhecia a
letra p e comia torradas feitas no lume da cozinha do
quintal, o poema é aqui, quando levanto o olhar do papel
e deixo as minhas mãos tocarem-te, quando sei, sem rimas
e sem metáforas, que te amo, o poema será quando as crianças
e os pássaros se rebelarem e, até lá, irá sendo sempre tudo.
o poema sabe, o poema conhece-se e, a si próprio, nunca se chama
poema, a si próprio, nunca se escreve com p, o poema dentro de
si é perfume e é fumo, é um menino que corre num pomar para
abraçar o seu pai, é a exaustão e a liberdade sentida, é tudo
o que quero aprender se o que quero aprender é tudo,
é o teu olhar e o que imagino dele, é solidão e arrependimento,
não são bibliotecas a arder de versos contados porque isso são
bibliotecas a arder de versos contados e não é o poema, não é a
raiz de uma palavra que julgamos conhecer porque só podemos
conhecer o que possuímos e não possuímos nada, não é um
torrão de terra a cantar hinos e a estender muralhas entre
os versos e o mundo, o poema não é a palavra poema
porque a palavra poema é um palavra, o poema é a
carne salgada por dentro, é um olhar perdido na noite sobre
os telhados na hora em que todos dormem, é a última
lembrança de um afogado, é um pesadelo, uma angústia, esperança.
o poema não tem estrofes, tem corpo, o poema não tem versos,
tem sangue, o poema não se escreve com letras, escreve-se
com grãos de areia e beijos, pétalas e momentos, gritos e
incertezas, a letra p não é a primeira letra da palavra poema,
a palavra poema existe para não ser escrita como eu existo
para não ser escrito, para não ser entendido, nem sequer por
mim próprio, ainda que o meu sentido esteja em todos os lugares
onde sou, o poema sou eu, as minhas mãos nos teus cabelos,
o poema é o meu rosto, que não vejo, e que existe porque me
olhas, o poema é o teu rosto, eu, eu não sei escrever a
palavra poema, eu, eu só sei escrever o seu sentido.
José Luís Peixoto, 'A Criança em Ruínas'"
terça-feira, janeiro 12, 2016
Liberdade, uma realidade cada vez mais distante
Ser pessoa é difícil.
Ser livre é ainda mais difícil.
Por isso,
Ser livre é ainda mais difícil.
Por isso,
- encerramo-nos bebés e crianças em infantários (a formatação começa logo aos primeiros meses de vida);
- encerramo-nos crianças e adolescentes em escolas;
- encerramo-nos jovens e adultos em ambientes virtuais uns mais doentios que outros;
- encerramo-nos trabalhadores em ambientes laborais onde deixamos que não exista respeito por um horário humano de trabalho e nos permitimos sujeitar ao torniquete de uma avaliação feroz;
- encerramo-nos em hospitais psiquiátricos pessoais com as nossas caixas de comprimidos;
- encerramo-nos criminosos em prisões cada vez mais medicalizadas;
- encerramo-nos velhos em asilos...
sábado, janeiro 09, 2016
Cada vez mais a comparação com os outros
Até há umas décadas, as pessoas sabiam que a sua vida não seria muito diferente da da sua família. Com o sonho da mobilidade social, promete-se às pessoas que elas podem ser o que desejarem: astronauta, presidente, artista, etc.
(O que não é verdade, pois somos todos condicionados pelos nossos genes, pela nossa família, pela nossa educação e pelo contexto económico, social e cultural em que vivemos - nada disto foi nossa escolha!)
Para manter essa promessa, o que a sociedade atual nos exige é que entremos em competição com os outros. Mesmo aqueles que não querem fazê-lo, são obrigados a isso, através dos sistemas de avaliação individuais (que foram impostos de forma forçada em praticamente todo o mundo laboral).
O mundo torna-se um lugar cada vez menos seguro. O nosso cérebro tem um mecanismo para nos proteger neste caso concreto: a comparação. Comparação, claro está, com os melhores do que nós, pois é desses que pode vir o perigo.
Compararmo-nos com aqueles que são melhores que nós não nos ajuda a sentirmo-nos bem. Além disso, experimentamos a obrigação de ser como eles, ou a culpa de não sermos como eles (já que não culpamos nem Deus nem a sociedade). E temos aí mais uma sobrecarga para os nossos sistemas de stress.
Porque, como é fácil encontrar sempre alguém melhor do que nós, passamos a viver com a sensação permanente de que não somos suficientemente bons. Nem aos nosso olhos, nem aos olhos dos outros. E passamos a viver com o medo de não nos quererem, de nos dispensarem, de nos rejeitarem, de nos marginalizarem e de nos expulsarem. Que é um medo terrível!
(O que não é verdade, pois somos todos condicionados pelos nossos genes, pela nossa família, pela nossa educação e pelo contexto económico, social e cultural em que vivemos - nada disto foi nossa escolha!)
Para manter essa promessa, o que a sociedade atual nos exige é que entremos em competição com os outros. Mesmo aqueles que não querem fazê-lo, são obrigados a isso, através dos sistemas de avaliação individuais (que foram impostos de forma forçada em praticamente todo o mundo laboral).
O mundo torna-se um lugar cada vez menos seguro. O nosso cérebro tem um mecanismo para nos proteger neste caso concreto: a comparação. Comparação, claro está, com os melhores do que nós, pois é desses que pode vir o perigo.
Compararmo-nos com aqueles que são melhores que nós não nos ajuda a sentirmo-nos bem. Além disso, experimentamos a obrigação de ser como eles, ou a culpa de não sermos como eles (já que não culpamos nem Deus nem a sociedade). E temos aí mais uma sobrecarga para os nossos sistemas de stress.
Porque, como é fácil encontrar sempre alguém melhor do que nós, passamos a viver com a sensação permanente de que não somos suficientemente bons. Nem aos nosso olhos, nem aos olhos dos outros. E passamos a viver com o medo de não nos quererem, de nos dispensarem, de nos rejeitarem, de nos marginalizarem e de nos expulsarem. Que é um medo terrível!
domingo, janeiro 03, 2016
O que eu desejo para 2016?
Que a vida, e tudo o que há de bom nela, continue a aparecer-me como novidade, como permanente surpresa e como plenitude, fora de todas as palavras para a descrever. Ou seja, que eu não deixe desgastar em mim a atenção aos instantes do milagre.
Que possam mudar as minhas conceções sobre a vida, ou sobre as relações, ou sobre a beleza, mas que não mude nem esmoreça a minha aspiração a tudo o que vá bem para lá da usura da rotina do dia a dia.
Que nessa vida eu vá conseguindo exprimir as mais profundas harmonias, capazes de surgirem como possibilidades de resolução da aflição daqueles que me procuram. E que a eles lhes permita conquistar finalmente a alegria (não a dos mercenários da boa disposição, mas a que está antes dessa e de outras igualmente artificiais), bem como a plenitude que tanto merecem.
Que possam mudar as minhas conceções sobre a vida, ou sobre as relações, ou sobre a beleza, mas que não mude nem esmoreça a minha aspiração a tudo o que vá bem para lá da usura da rotina do dia a dia.
Que nessa vida eu vá conseguindo exprimir as mais profundas harmonias, capazes de surgirem como possibilidades de resolução da aflição daqueles que me procuram. E que a eles lhes permita conquistar finalmente a alegria (não a dos mercenários da boa disposição, mas a que está antes dessa e de outras igualmente artificiais), bem como a plenitude que tanto merecem.
sexta-feira, janeiro 01, 2016
Escrever
Escrevo sempre a partir de outros escritores.
Por isso, para mim, ler é respirar. Para poder escrever, depois, como amo; ou, pelo menos, como vivo.
Não o sei fazer senão em forma de fragmentos, porque também são múltiplas as margens para as quais a vida me atrai.
Por isso, para mim, ler é respirar. Para poder escrever, depois, como amo; ou, pelo menos, como vivo.
Não o sei fazer senão em forma de fragmentos, porque também são múltiplas as margens para as quais a vida me atrai.
Sonhar com o amor
Estando sempre à beira da morte, ou melhor, sempre com as inumeráveis mortes a correr à nossa beira como ventos que cruzam a nossa caminhada, sonhar com o amor é ter a esperança de encontrar a janela que finalmente se abrirá para o jardim proibido.
Sonhamos com o amor, e aquilo que intuímos que tem de existir em algum lado, que parece que sentimos caminhar para nós, jamais nos chegará, como há muito Zenão profetizou, a essa janela habitada pela nossa busca solitária.
Sonhamos com o amor, e aquilo que intuímos que tem de existir em algum lado, que parece que sentimos caminhar para nós, jamais nos chegará, como há muito Zenão profetizou, a essa janela habitada pela nossa busca solitária.
quarta-feira, dezembro 30, 2015
Ítaca, Cavafy e Jorge de Sena - Votos para 2016
ÍTACA - Constantino
Cavafy
(Tradução: Jorge de Sena
in "90 e mais quatro poemas", Centelha, Coimbra, 1986)
Quando partires de
regresso a Ítaca,
Deves orar por uma viagem longa,
Deves orar por uma viagem longa,
Plena de aventuras e de
experiências.
Ciclopes, Lestrogónios, e mais monstros,
Um Poseidon irado - não os temas,
Jamais encontrarás tais coisas no caminho,
Se o teu pensar for puro, e se um sentir sublime
Teu corpo toca e o espírito te habita.
Ciclopes, Lestrogónios, e outros monstros,
Poseidon em fúria - nunca encontrarás,
Se não é na tua alma que os transportes,
Ou ela os não erguer perante ti.
Deves orar por uma viagem longa.
Que sejam muitas as manhãs de Verão,
Quando, com que prazer, com que deleite,
Entrares em portos jamais antes vistos!
Em colónias fenícias deverás deter-te
Para comprar mercadorias raras:
Ciclopes, Lestrogónios, e mais monstros,
Um Poseidon irado - não os temas,
Jamais encontrarás tais coisas no caminho,
Se o teu pensar for puro, e se um sentir sublime
Teu corpo toca e o espírito te habita.
Ciclopes, Lestrogónios, e outros monstros,
Poseidon em fúria - nunca encontrarás,
Se não é na tua alma que os transportes,
Ou ela os não erguer perante ti.
Deves orar por uma viagem longa.
Que sejam muitas as manhãs de Verão,
Quando, com que prazer, com que deleite,
Entrares em portos jamais antes vistos!
Em colónias fenícias deverás deter-te
Para comprar mercadorias raras:
Coral e madrepérola, âmbar e marfim,
E perfumes subtis de toda a
espécie:
compra desses perfumes o quanto possas.
E vai ver as cidades do Egipto,
compra desses perfumes o quanto possas.
E vai ver as cidades do Egipto,
Para aprenderes com os que
sabem muito.
Terás sempre Ítaca no teu
espírito,
Que lá chegar é o teu destino
último.
Mas não te apresses nunca na viagem.
É melhor que ela dure muitos anos,
Que sejas velho já ao ancorar na ilha,
Mas não te apresses nunca na viagem.
É melhor que ela dure muitos anos,
Que sejas velho já ao ancorar na ilha,
Rico do que foi teu pelo
caminho,
E sem esperar que Ítaca te dê riquezas.
E sem esperar que Ítaca te dê riquezas.
Ítaca deu-te essa viagem
esplêndida.
Sem Ítaca, não terias partido.
Mas Ítaca não tem mais nada para dar-te.
Sem Ítaca, não terias partido.
Mas Ítaca não tem mais nada para dar-te.
Por pobre que a descubras,
Ítaca não te traiu.
Sábio como és agora, senhor de tanta experiência,
Terás compreendido o sentido de Ítaca.
Sábio como és agora, senhor de tanta experiência,
Terás compreendido o sentido de Ítaca.
quarta-feira, dezembro 16, 2015
A Poesia e os possíveis
A poesia pode gerar uma revelação vital que se decide no silêncio do livro. Ou da voz humana.
A poesia pode ser um apelo a que recuperemos a infância longínqua das emoções.
A poesia tem a capacidade de fazer despertar para a luz do dia o que mais profundamente nos afeta, aquilo que mais profundamente somos.
A poesia pode ser uma forma iluminada de pontuar a nossa relação com o mundo.
Os outros géneros literários têm atributos. A poesia atinge-nos, simplesmente.
A poesia tem a faculdade de permitir a reelaboração de vários mundos de vivências com um leitor - se é que há só um leitor dentro do leitor!
A poesia possibilita um caleidoscópio de ângulos de visão sobre realidades fundamentalmente inapreensíveis.
A poesia pode permitir aproximações fulgurantes ao centro do nosso próprio destino de seres humanos.
Não é possível existir uma poesia falsa. Porque ela, a existir, nunca seria sentida como poesia.
A poesia acrescenta novas realidades à realidade de se ser humano.
quinta-feira, dezembro 10, 2015
Justiça versus Liberdade
Penso que a Justiça e a Liberdade são utopias: jamais existirá uma sociedade justa ou livre.
Além disso, acredito que elas são pelo menos moderadamente incompatíveis: o excesso de uma implica o défice da outra.
Por isso, muitas vezes, exige-se uma escolha, qual a que se irá privilegiar como resultado de um determinado curso de ação. Essa escolha é habitualmente feita sem reflexão.
Eu adianto aqui uma reflexão possível, ao explicitar a minha preferência.
A minha inclinação vai para a justiça. Porque estou sempre do lado dos mais fracos e desprotegidos. Numa sociedade livre (de homens ou de animais), o mais forte tende a ganhar, a dominar, a explorar. Em detrimento dos mais fracos. Como acho que é um sofisma a teoria de que, numa sociedade livre, é-se fraco por escolha própria, aquilo, para mim, é-me intolerável. No coração, eu escolho a justiça.
sábado, dezembro 05, 2015
O homem e a Natureza
Por mais alto que consigamos subir, continuamos sempre a ser uma modesta parte do grande mundo da Natureza.

Foto de Max Rive

Foto de Max Rive
Montesquieu
"Si je savais une chose utile à ma nation qui fût ruineuse à une autre, je ne la proposerais pas à mon prince, parce que je suis homme avant d'être français, ou bien parce que je suis nécéssairement homme, et que je ne suis français que par hasard."
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