sexta-feira, julho 28, 2017

O Leitor Ideal

«Qual é, na vossa perspetiva, o Leitor Ideal para a vossa obra?» – Esta é uma pergunta que por vezes dirijo a alguns escritores.

Reconheço que a questão, posta assim de chofre, não é fácil de ser respondida. Muitas vezes, aliás, eles pensam que me estou a referir ao leitor que têm em mente quando escrevem. Mas não, o que eu pretendo saber é quais as características que eles sonham para um Leitor Ideal da sua obra (já escrita).

Por que razão isto me interessa? Em algumas áreas da minha vida, apetece-me a excelência que, naturalmente, nunca chego a encontrar. Só que o caminho até esse horizonte indefinido é-me sempre festivo. Portanto, as ideias para esse perfil de Leitor Ideal são-me sempre muito bem-vindas.

Porque a minha aspiração é na realidade libertar os múltiplos prazeres que a leitura me pode trazer, sejam eles entretenimento, aprendizagens, vivências improváveis, construção de mundos interiores, alargamento da rede de relações interiores, cumplicidades com o autor, ou experiências estéticas o mais diversas possíveis.

No entanto, talvez seja possível chegar a uma certa simplicidade: o Leitor Ideal acabará talvez por ser aquele que lê genuinamente, aquele que se coloca a si mesmo todo inteiro na experiência da leitura, de cada vez sempre única, sempre renovada.

E quanto aos escritores? Será este o Leitor que eles idealizam para a sua obra?

Imagino um escritor a desejar que o seu Leitor Ideal fosse aquele para quem a leitura da sua obra tivesse siso tão devastadora, tão profunda e tão marcante que ela o teria transformado em alguém completamente diferente a iniciar uma vida também ela completamente nova.

… ou alguém que colecionasse todos os exemplares, todas as edições e todas as traduções do livro.

… ou aquele cuja paixão pela obra o levasse a traduzi-la para todas as línguas onde ainda não houvesse tradução.

… ou o que não repousasse enquanto não tivesse decorado o livro todo, palavra por palavra, frase por frase (se possível, até movido pela evocação de Fahrenheit 451, de Ray Bradbury).

… ou o que, ao lê-lo vezes sem fim, palavra a palavra, fosse escrevendo e juntando outras frases, acabando por criar outros e inumeráveis livros a partir daquele.

… ou o que se apaixonasse por todas as pessoas parecidas com as personagens do livro, mas só enquanto elas não o tivessem lido. Assim, poderia viver em toda a sua pureza histórias alternativas, podendo manter-se sempre dentro da história do livro.

… ou o que, nas suas viagens, entrasse em todas as bibliotecas, requisitando essa obra, de forma a associar pelo menos uma parte do livro a cada um desses lugares visitados. Ao mesmo tempo, deixaria registado o testemunho da passagem de um leitor daquela obra.

… ou o que, nas suas múltiplas releituras, descobrisse no livro uma fonte sempre inesgotável de novos deslumbramentos.


… ou aquele que morresse, não como Ícaro apenas por ter atingido a altura mais chamejante, mas como Buda por ter alcançado, com esse livro, o nirvana e a completa abundância num outro nível de existência. Melhor: como um Bodhisattva que, podendo atingir o nirvana, resolvesse voltar ao sofrimento de ler outros livros, agora para ajudar outros escritores e leitores a encontrarem a capacidade de criar uma experiência ilimitada e infinita de leitura….

segunda-feira, julho 24, 2017

Contra o silêncio que alimenta a violência

As ideias importam.
As ideias contam.
As ideias traduzem-se muitas vezes em atos.
O silêncio que responde a ideias violentas não é um sinal de reprovação. É um sinal claro de apoio.
Num tempo em que está a deixar de ser vergonhoso defender publicamente ideias violentas contra seres humanos, textos como este de Fernanda Câncio são por demais importantes.
Subscrevo inteiramente todas as ideias aqui expressas.


Linchamentos Gentis e Outras Desventuras - Fernanda Câncio, Diário de Notícias, 24/07/2017

Não tinha qualquer intenção de escrever sobre Gentil Martins; prefiro não perder tempo com fanáticos. E assim seria, se não me tivesse dado conta de que as reações aos pronunciamentos do ex-bastonário numa entrevista ao Expresso incluem colunas de opinião em que quem os criticou é apelidado de "Gestapo", "Stasi", e "turba linchadora", ou o atual bastonário não tivesse dito coisas que não podem passar em branco.

Chamar Gestapo a alguém por se indignar com o facto de GM ter chamado anormais e doentes aos homossexuais é uma justa homenagem ao fanatismo do cirurgião pediatra: só a alguém igualmente incapaz de pensar fora da fobia ocorreria usar o nome da polícia nazi, associada à morte de milhares de homossexuais, para denominar os que se indignam por haver quem use em relação a este grupo o mesmo tipo de terminologia que os nazis usaram. E quem fala em "linchamento" de GM a propósito do que se considera ser a reação furiosa "das redes sociais" tem o mau gosto de fazer de conta que não sabe que linchamento, na acepção fatal do termo, é o que sucedeu a miríades de homossexuais ao longo da história humana - e sucede ainda hoje, como GM e os seus defensores não podem ignorar.

Porque, cabe relembrar, nunca ninguém foi exterminado ou linchado por apelidar os homossexuais de "anormais" ou "desviantes". Já quem mata e lincha homossexuais usa sempre esses termos. Estamos entendidos sobre quem cala e persegue e lincha quem e quanto ao potencial danoso das palavras de GM? Basta aliás, para perceber o que está em causa, questionar se algum dos que tanto defendem "o direito de opinião" de GM o faria se este, em vez de chamar "anomalia" à homossexualidade, tivesse dito o mesmo dos judeus - também durante séculos considerados "errados" e "doentios". Quem destas pessoas viria nesse caso a público invectivar os críticos de GM por exigirem um pronunciamento da Ordem em vez de se limitarem a "refutar" a sua "opinião"? Deixemo-nos de tergiversações: quem defende GM e aquilo que classifica como "o seu direito a expressar opiniões" apenas o faz por considerar aceitável a que expressou. Ou não se encarniçaria contra os que opinaram sobre a "opinião" de GM considerando-a ela sim anómala do ponto de vista científico e um desvio dos seus deveres enquanto médico.

É muito simples: foi como médico que GM deu a entrevista. A Ordem dos Médicos tem um mandato legal, público, para certificar que os profissionais por ela autorizados agem de acordo com as regras deontológicas e científicas em vigor; que não praticam o charlatanismo ou difundem falsidades científicas e ideias sobre saúde contrárias às legis artis e prejudiciais para a comunidade. Não é uma opção da Ordem; é uma obrigação. E tal como abriu um procedimento em relação a Manuel Pinto Coelho por este ter dado uma entrevista (também ao Expresso) a dizer que se deve beber água do mar e que usar protetor solar é um erro, não pode não o fazer face a um médico que qualifica a homossexualidade como anomalia, portanto doença ou afeção, e "desvio de personalidade", pronunciando-se publicamente com termos que pertencem à especialidade de psiquiatria, que não é a sua, e contra o consenso científico desta. Aliás o Conselho Nacional da OM fez um comunicado público, há pouco mais de um mês, a acusar Pinto Coelho de "defender práticas que podem constituir um atentado à saúde" (curioso, não se deu por qualquer movimento de defesa da "liberdade de expressão" deste clínico), acusação que o atual bastonário, Miguel Guimarães, repetiu numa entrevista ao Expresso anteontem. Mas, questionado sobre se o que GM disse é igualmente um atentado à saúde pública, foi muito mais cauteloso: "É uma questão diferente. (...) São [declarações] más para um grupo de pessoas que podem sentir-se segregadas". Para o bastonário, pelos vistos, o facto de as afirmações do médico GM não terem fundamento científico, serem discriminatórias e validarem discriminações não é um problema de saúde pública, é "de um grupo de pessoas". Ficamos a saber que para este sucessor de GM algo que afeta "só" os homossexuais não é um problema da comunidade.


A ideia, que tantos martelam nos media, de que é "preciso" defender uma "liberdade de expressão" entendida como a liberdade de um discurso discriminatório que atente gratuitamente contra a dignidade de indivíduos ou grupos não é só uma ideia estúpida e desonesta nos tempos em que esse discurso domina, com toda a virulência, as caixas de comentários e as tais "redes sociais". É uma ideia contrariada pela própria Constituição e pela Carta Europeia dos Direitos Fundamentais, pactos escritos da nossa comunidade que valorizam mais (e bem) a dignidade humana - portanto a liberdade de ser - que a liberdade de dizer. Porque o nosso princípio básico civilizacional é o respeito mútuo, a ideia de que o outro vale tanto como eu, tem os mesmos direitos, é igual a mim. Não tenho por isso o direito de o agredir a não ser em legítima defesa; não tenho por que sentir-me agredida pela sua mera existência. Esse sentimento, o de alguém se sentir ameaçado pelo que considera outro, é que é uma anomalia. Alimentá-lo, credibilizá-lo e tentar lucrar com ele é a negação de tudo o que estamos a tentar construir desde Auschwitz.
                                                                      

sábado, julho 08, 2017

Leituras marcantes

Quando era mais novo, ao ser arrebatado por um livro, tornava-me num seu campeão. Um livro que me iluminasse tinha também de verter a sua luz sobre aquelas pessoas de quem eu mais gostava. Não descansava enquanto não explicava a um amigo ou a uma amiga do que tratava o livro, porque é que era absolutamente fundamental lê-lo; e, não satisfeito com isso, ainda perorava sobre como e onde o livro iria mudar a sua vida. Um cansaço para mim, claro, mas sobretudo uma violência para ele ou ela.

A violência é evidente e indesculpável – desafortunada a pessoa que tinha o azar de ser apanhada por mim!

Quanto ao cansaço, ele advinha de se tratar quase sempre de um esforço inglório. Inglório em várias frentes. Primeiro, porque, estranhamente para mim, a pessoa não ficava com a mínima vontade de ir ler o livro, mesmo que eu, emprestando-o, lhe poupasse o trabalho e a despesa de o adquirir. Depois, porque a pessoa não só não me agradecia o esforço, como demostrava uma certa impaciência para comigo… e, lembro-me bem, para meu espanto, muitas vezes chegava a ficar zangada comigo.

Confesso que isto me magoava. Precisei de alguns anos para deixar de ser o paladino obstinado dos livros que eu achava maravilhosos, a fim de não estragar irremediavelmente a amizade que me unia a essas pessoas. Bem… e, no fundo, para manter uma vaga esperança de que, talvez um dia, elas acabassem por pegar nessa obra que tão importante fora para mim.

E tantas foram realmente importantes! Porque a minha personalidade tem sido, em grande parte, modelada (e moderada) pelas leituras que fui fazendo ao longo da vida. Fui crescendo e modificando-me por via da extraordinária influência que essas obras foram tendo sobre mim; influência essa que, ainda hoje, persiste com uma intensa luminosidade. Por conseguinte, o meu entusiasmo por esses livros não era de todo superficial nem passageiro.

Apenas alguns exemplos: Cântico Final, de Vergílio Ferreira. O Amor em Visita, de Herberto Helder. Arco do Triunfo e Desenraizados, de Erich Maria Remarque. A Peste, de Albert Camus. O Principezinho, de Antoine de Saint-Exupéry. O Budismo Zen, de Alan Watts. E ainda muitos mais – eu tinha-os escrito aqui, mas apercebi-me que a lista se ia estendendo indefinidamente, pelo que optei por deixar estes que foram os primeiros que me vieram ao espírito.

Evoco ainda a memória da mãe de um dos meus amigos que me recebia e me apresentava a outros como sendo “um menino muito lido”! Só tardiamente percebi que, para além de uma certa ternura e de um grande sentido de humor, esta sempre amabilíssima senhora revelava uma profunda sabedoria (que, talvez, se possa estender a todos nós que somos Leitores): possivelmente não era mesmo eu que lia os livros, mas eram eles que me liam a mim, favorecendo assim o despertar de novas trajetórias na minha vida e de ignoradas sensibilidades na minha pessoa.

The Metropolitan Museum of Art, Annunciation Triptych (Merode Altarpiece)
 Workshop of Robert Campin (1427-1432) - Fonte

sábado, julho 01, 2017

Leituras da infância e da juventude

Causa-me perplexidade o facto de não conseguir reler hoje o que no passado li com exaltação. Como é possível que um determinado livro, que já esteve carregado de beleza, de significado e de implicações para a minha vida, hoje me diga tão pouco?

Podem ter sido as muitas releituras feitas que foram desgastando a obra? Nalguns casos talvez sim, mas não abrange todos. Há livros que continuo a reler com prazer sempre renovado; e outros que não consigo ler sequer uma segunda vez, apesar do enorme prazer da primeira leitura.

Uma hipótese plausível é a de o livro ter uma qualidade moderada. Na altura em que o li da primeira vez, talvez ele estivesse a ter um grande sucesso e que, depois, ao assentar a poeira, se revelasse ser menos bom. Ou talvez fosse de um género ou estilo que me emocionou particularmente na altura e agora já não. Ou ainda por tratar de assuntos que, então, eram uma novidade para mim mas que, atualmente, se me tornaram banais.

Curioso. Enquanto escrevo, apercebo-me que me sinto infinitamente grato a esses livros pertencentes, na sua maioria, a uma literatura mais modesta, menos prestigiada e mais simples. Porque sinto isso? Penso que possivelmente foram eles que, nesses primeiros anos de leitura, me abriram perspetivas e possibilidades de vidas insuspeitadas (a Ficção Científica), que me sensibilizaram para a complexidade das motivações humanas e para a justiça (o Policial), que me alertaram para os valores da honra e da coragem (o Western e a Aventura).

Na altura, ao ler estes livros, encontrava por vezes grandes escritores que ainda hoje releio com satisfação. Recordo na ficção científica Ray Bradbury(*), Doris Lessing, Philip K. Dick e Ursula K. Le Guin. No policial, G. K. Chesterton, Raymond Chandler, Edgar Allan Poe e Dashiel Hammett. No western, Jack Schaefer, John Steinbeck e Jack London. Na aventura, Robert Louis Stevenson, Jonathan Swift e Daniel Defoe.

Quando somos mais novos e estamos mergulhados no fluxo dos acontecimentos do dia-a-dia, há poucas possibilidades de conseguir fazer uma reflexão aprofundada sobre a vida. Aqueles livros tiveram o poder de desencadear múltiplos sentidos da vida, todos e cada um, sempre importantes para mim, para aquilo que sou hoje. Graças a eles, vivo numa liberdade mais ampla, em que o eixo central da minha vida se baseia muito mais no valor e no propósito da existência (ambos sempre a atualizarem-se, muito ainda devido aos livros) do que em ganhos materiais.

Finalmente, foi a sua leitura que, sem dúvida, me abriu as vias por onde agora respira uma literatura mais exigente, mais rica e, portanto, mais gratificante (da qual, na época, eu pouco percebia e não gostava assim tanto).


Por isso, sinto-me agradecido. Aliás, no meu espírito, ler confunde-se sempre com agradecer quando as palavras lidas se transmudam num rio interior que flui, expandindo-se para algo maior e melhor do que antes. Porque agradecer é acolher e reconhecer a dádiva. E a leitura é isto mesmo: acolher e reconhecer.


(*) A foto foi retirada deste excelente blogue sobre a saudosa Coleção Argonauta.

domingo, junho 25, 2017

Livre de lastros

Normalmente, vamos ao encontro de um novo livro sem a leveza da inocência. Ou seja, carregamos connosco toda a cultura que, implícita e explicitamente, fomos absorvendo ao longo da nossa vida. Isso é bom ou mau? Como tudo na vida, a resposta é: depende. Depende da densidade dessa carga e depende das situações.

Há livros que nos incitam a convocar tudo o que já lemos e o que aprendemos com todas as nossas leituras anteriores. Conseguem-no de duas maneiras.

A pior e mais desgraçada ocorre quando o escritor se apoia na técnica para (não há outras palavras) produzir um objeto vendável. Nós, aqueles que amamos a literatura de uma forma discreta mas absoluta, sentimo-nos então asperamente constrangidos (no sentido literal da perda de liberdade, que é o objetivo de todo o embuste, a fim de fazermos o que o impostor deseja) ao nos apercebermos que estamos diante, não de um livro, mas de um simples truque que, acima de tudo, desrespeita a nobre arte da escrita.

Mas há outra forma de o escritor convocar as nossas leituras anteriores, agora de uma forma bem mais amável. Quando o livro, pela sua arte, faz brilhar intensamente tudo o que já lemos, fazendo com que a não-inocência seja um trunfo fundamental. Lembro-me, por exemplo, de Camões, de José Saramago (principalmente, esse irradiante “O Ano da Morte de Ricardo Reis”) ou de Enrique Vila-Matas.

Sei que estes livros existem e estou sempre aberto para os encontrar mas, por regra, tento partir para cada livro com a maior inocência possível. Apenas com o objetivo, é certo que sempre falhado, mas também sempre parcialmente conseguido, de não consumir tempo e alegria a dar atenção ao já conhecido e envelhecido.

Como realizar esta intenção? Apesar da quase impossibilidade de esquecermos o que aprendemos (entendendo isto num sentido lato, não falo de tirar um curso de literatura), entro sempre num novo livro com a abertura e predisposição ao prazer de encontrar dissemelhanças, originalidades e desafios. Isto talvez não seja tão difícil de conseguir, até porque hoje em dia valoriza-se a voz única, especial e idiossincrática dos autores (ou será que não, dada a pressão do mercado?). Ajuda-me, no entanto, saber que sobre cada obra literária não existe uma interpretação única: isso confere-me uma liberdade suficiente para o florir de um olhar limpo, curioso e interessado, nesse encontro com o livro.


Finalmente, todo este esforço serve para quê, perguntar-me-ão. Muito simples. Primeiro, evidentemente, para fazer da leitura uma arte tão nobre como a da escrita. Depois para, ficando livre do desgaste das vivências medíocres, potenciar ao máximo a possibilidade de uma experiência sublime na leitura da obra literária.

quarta-feira, junho 21, 2017

Encontro os livros

Adoro ler.
Digo isto e oiço de imediato vozes antigas que saltam:
“O menino não adora nada ler. Adorar só a Deus.”
Pois. Mas e se Deus não me fala e se remete a um silêncio total?

A questão é que me lembro de sempre desejar alcançar a sabedoria. Procurei Deus, mas não o encontrei. Também não tive a sorte de encontrar um mestre que me guiasse nos caminhos da sabedoria. Na realidade, até tenho dúvidas sobre aquela frase da tradição oriental: “Quando o discípulo está pronto, o mestre aparece.” Talvez eu nunca tenha estado pronto, é uma possibilidade.

Ah, mas encontrei os livros! Quando li Oscar Wilde, apercebi-me da chuva de revelações que a palavra escrita pode trazer. Quando li Antoine de Saint-Éxupery, apercebi-me das muitas camadas por que é constituído o texto escrito. Quando li Vergílio Ferreira, apercebi-me de como a nossa vida interior se vai enriquecendo extraordinariamente com cada livro lido. E, quando li Ray Bradbury, decidi que a minha vida seria dedicada a atingir aquela sabedoria que parecia estar por detrás de todas as histórias que ele escrevia.

Era um projeto perfeitamente ao meu alcance. Seria fácil, bastava-me, para isso, entrar em contacto com pessoas mais sábias e mais inteligentes que eu. O problema que me surgiu não foi de todo elas serem poucas, claro. O problema foi essas pessoas provavelmente não terem grande interesse em estarem em contacto comigo, dado que tenho de admitir que elas, tal como eu, desejam estar com pessoas mais sábias e inteligentes do que elas próprias.

É aqui que surgem os livros. Com estes posso estar em contacto íntimo com as pessoas mais sábias e inteligentes do planeta, independentemente de onde elas estiverem e do que estiverem a fazer. Na verdade, há ainda mais, posso “ouvi-las” as vezes que quiser, durante todo o tempo que eu precisar, posso pará-las numa frase e ficar com essa ideia, tentar percebê-la com tempo, dialogar com ela, criar novos pensamentos, novas revelações sobre mim próprio e sobre o mundo. Sentindo sempre uma satisfação profunda nesse processo.

Atingi a sabedoria, como desejava quando era miúdo? Claro que não, hoje sei que a sabedoria não é um ponto de chegada, não é algo que seja possível possuir como quem tem um carro ou uma conta no banco. A sabedoria é um caminho. E esse caminho abre-se à minha frente, com as suas múltiplas possibilidades, através dos livros. Com estes, vou caminhando, fazendo o meu próprio caminho («Caminante, no hay camino, / se hace camino al andar.», diz Antonio Machado). Acima de tudo, com prazer e sem precisar de o fazer sozinho (embora possa eventualmente estar só).

sábado, abril 29, 2017

Eis uma palestra para quem se interessa por emoções, neurociências e… animais! Proferida por Jaak Panksepp, talvez o mais famoso neurocientista estudioso das emoções, infelizmente falecido apenas há uns dias.



Uma nota curiosa. Logo no início, ao minuto 0:29, Panksepp diz que «science doesn’t answer why questions, science answers how questions”.

Vergílio Ferreira, em 1969, no seu Conta-Corrente 1 (p. 27 na edição de 1981), comenta antecipadamente esta afirmação da seguinte maneira:

«A “psicologia”. Não me desagrada ler um livro (romance) em que a análise revela o “como” se é. E todavia, para meu uso, não me interessa. Estes psicólogos esquecem o que está antes (ou depois) da psicologia e é infinitamente mais importante. Que significa o estarmos no mundo? Em que assentar um comportamento? Qual a significação das nossas “ideias” (políticas, etc.)? (…) Antes de saber “como” sou, é-me muito mais perturbador querer saber “o que” sou. E “para quê”. (…)».

Esta é uma sua opinião pessoal, adstrita à literatura (embora haja indicações noutros lados de que ela também abrange a Psicologia como ciência) sem pretensões de generalização. Mas interroguemo-nos: poderá Vergílio Ferreira ter razão? Será que a Psicologia está a esquecer o que é «infinitamente mais importante»?

As dificuldades que as diferentes psicoterapias têm encontrado (e que levam ao surgimento ininterrupto e contínuo de novas propostas terapêuticas) poderiam apontar para uma resposta positiva: algo de fundamental pode andar ausente da psicoterapia e da psiquiatria. No entanto, a psicoterapia existencialista (cujo representante mais conhecido do grande público, por via da literatura, é Irvin D. Yalom) há muito que procura ir ao encontro desta necessidade, referida por Vergílio Ferreira, de algo mais importante. Porém, o seu sucesso terapêutico não tem sido nem absoluto nem definitivo.

Curiosamente, algumas das denominadas psicoterapias de 3ª geração integram no desenvolvimento do seu processo terapêutico elementos que sempre andaram mais ou menos ausentes anteriormente. Por exemplo, a terapia da aceitação e do compromisso (“ACT”, cujo livro fundador é de 1999) ajuda os pacientes a trabalhar a busca e a definição dos seus próprios valores (“o que” a pessoa é e o “para quê”). Ou seja, aqueles princípios essenciais que orientam esses pacientes no sentido de uma vida realmente bem vivida.

quarta-feira, novembro 16, 2016

Do que se não falou ontem no a todos os títulos estimulante debate “O que é o elitismo na cultura?”

(e em que eu teria gostado muito de ouvir a opinião dos presentes)

Poder ou falta de poder das elites culturais. O tema foi sugerido pela moderadora, Anabela Afonso, que convidou os presentes a estabelecerem ligações com a eleição de Trump nos EUA (feito conseguido com um discurso também contra as elites). Será que as elites culturais alguma vez tiveram poder? Duvido. Elas foram acarinhadas, toleradas ou simplesmente rejeitadas pelo poder. Penso que raramente lhes foi permitido participarem desse poder. Claro que décadas ou séculos depois, o que fica é o que foi produzido por essas elites, o que dá a sensação de que elas, na altura, possuíam muito mais poder do que na realidade tinham. Um tema que ficou por explorar mais aprofundadamente.

Elites dentro de elites. Dentro das próprias elites surgem hierarquias, em que as que estão acima olham para as de baixo. Mas tenho dado conta que raramente olham para cima e, por isso, cada nível vê-se a si mesmo como árbitro mais ou menos indiscutível do bom gosto e do bem saber. Um tema auto-reflexivo e, por isso, difícil de analisar e desenvolver, mas útil para pensar sobre o papel e a responsabilidade na cultura, bem como os seus limites.

Efeito benéfico de haver elites. Isto é uma experiência pessoal. Não é possível transmitir o prazer que sinto quando, face a um elemento de uma elite cultural, eu me defronto com a minha ignorância e me é proporcionada a partilha da sua forma de olhar, de saber e de usufruir. Como estou a falar do ponto de vista pessoal, atrevo-me a destacar três de muitos exemplos de contacto que me permitiram e continuam a permitir subir muito acima de mim; e, sem os quais, eu talvez tivesse ficado muito abaixo de mim. Por ordem cronológica: Vergílio Ferreira, Eduardo Prado Coelho e Frederico Lourenço. É assim, sou um fã das elites: tornam-me melhor. Note-se que este tema foi aflorado por vários dos palestrantes, com destaque para o relato de uma experiência no Brasil de que foi testemunha o Prof. Dr. António Branco.


Efeito perigoso de não haver elites. Por mais elevado que seja o nível cultural da população em geral, eu acredito na aspiração humana de mais e melhor. Por isso, o desaparecimento de elites culturais, mesmo que pelas melhores razões, parece-me que pode levar à estagnação e à morte. Sabe-se da biologia que são os meios ambientes mais heterogéneos aqueles que têm melhores capacidades de sobrevivência e de resistência. Sou a favor da heterogeneidade cultural. Em consequência, sou também a favor do estabelecimento de valores culturais (senão vale tudo o mesmo). Onde ambos existem, deverão existir necessariamente elites culturais. Um tema também possivelmente controverso, concordo.


domingo, novembro 13, 2016

Como Trump aliciou a América

Trump foi muito inteligente. Senão, vejamos.

Começou por dar voz ao medo das pessoas que se sentem cada vez mais desamparadas, solitárias e fechadas nas suas casas esvaziadas pelo desemprego, a ver uma televisão que quase só apresenta conteúdos pouco confortantes. Num mundo globalizado de cujo funcionamento compreendem cada vez menos e sobre o qual, segundo lhes é dito, não têm poder algum.

De seguida, transformou esse medo em raiva dirigida a uma variedade de objetos (sistema, imigrantes, muçulmanos, etc.) suficientemente grande para satisfazer todo o tipo de pessoas. Além disso, ele, Trump, estava ali com a possibilidade de lhes dar a voz e o poder que elas sentem que deixaram de ter. Deu, assim, a ilusão de que o desamparo podia deixar de existir.

E, principalmente, Trump ofereceu um sonho: Make America Great Again. As pessoas têm imensa fome de sonhos. Especialmente, de sonhos pelos quais se possam transcender e ir para além das suas vidas tristes, mesquinhas e assustadas. Além disso, com a palavra Again, as pessoas viram-se transformadas em portadoras de uma tradição antiga, de um valor muito maior do que elas próprias. Numa época em que elas sentem, com amargura, que as tradições e os valores que lhes davam sentido às suas vidas se estilhaçaram, Trump veio trazer-lhes a promessa ilusória de um novo alento.

Por fim, ofereceu-se ele próprio para representar, ser estandarte e liderar esse movimento em direção a este sonho.

Compreendemos que é difícil resistir. Apesar de sabermos (e de ele saber!) que não se pode voltar para trás. Mais: que não queremos voltar para trás!


sexta-feira, novembro 11, 2016

Democracia… ou não?

(…) Também não sou democrata. Acho que a política é assunto demasiado sério para que o voto de um cretino possa valer o mesmo que o voto de um cidadão esclarecido. (…)” (comentário de um respeitável comentador do Facebook).

Três aspetos.

Primeiro, eu sou democrata. Mas não vivo numa democracia real.

Vivo num país da alegada “União Europeia” onde quem manda nos países são uns todo-poderosos que nunca foram eleitos por ninguém e que não são responsabilizados pelo que fazem (a nível mais local, a única exceção é a Islândia). E vivo num país onde se considera normal ser-se eleito com um programa que, após as eleições, é pura e simplesmente deitado ao lixo.

Quanto a mim, este regime é, na sua essência, profundamente anti-democrático. Note-se que não penso que se trate aqui de uma ditadura, apenas de uma não-democracia (o que não é pouco, por que a interrogação que se segue é: estamos a caminhar para que tipo de regime?).

Em segundo lugar, admitamos que um governo possa ser escolhido só por “cidadãos esclarecidos”. A “million dollar question” é: quem os escolhe a eles? Olhando para a história, o que se pode ver é que “cretinos” escolhem cretinos, corruptos escolhem corruptos, extremistas escolhem extremistas, etc. Mais uma vez, por favor: quem escolhe os “cidadãos esclarecidos” com direito a voto? Na minha opinião, ou não há resposta, ou esta, admitamo-lo, será, no mínimo, preocupante.

Em terceiro lugar, acredito num fenómeno estatístico, que é a regressão à média: numa série de acontecimentos, os resultados tendem a aproximar-se da média. Por exemplo, se eu lançar uma moeda 5 vezes ao ar, na melhor das hipóteses pode dar 3 vezes cara e 2 vezes coroa (probabilidades de 60% e 40% respetivamente). Porém, é facílimo sair 4 vezes cara e 1 vez coroa (80% e 20&, respetivamente). Ou seja, é facílimo o desequilíbrio pronunciado.

Mas se for lançada 1000 vezes, é bem mais difícil acontecerem estas percentagens. Digamos que poderão sair, por exemplo, 480 vezes cara e 520 vezes coroa, e aí temos uma aproximação à média: 48% e 52% respetivamente, já muito próximos dos 50%. Ou seja, é mais difícil o desequilíbrio.


Então, eu prefiro que haja muita gente a votar porque, apesar dos “cretinos”, os resultados tenderão para uma média, mesmo que de vez em quando alguns deles sejam extremos.

Leonard Cohen

«I´m very touched by the attention that you payed to my music over all these years. I’m growing older everyday, but you’ve kept my songs young, and I thank you for that.» (Live 1985)

(...) Now I look for her always
I'm lost in this calling
I'm tied to the threads of some prayer
Saying, When will she summon me
When will she come to me
What must I do to prepare
When she bends to my longing
Like a willow, like a fountain
She stands in the luminous air
And the night comes on
And it's very calm
I lie in her arms and she says, When I'm gone
I'll be yours, yours for a song (...)

(Night Comes On... 10/11/2016)


quarta-feira, novembro 09, 2016

O que podemos fazer

Ao saberem que Trump ganhou, muitos milhões de pessoas passaram o dia de hoje em profunda aflição. Por si, pelos seus ou por outros.
A vida tem altos e baixos e podemos estar a viver um baixo que irá arrastar atrás de si ainda mais baixos.

O que podemos fazer? A minha resposta é:
Sendo sensíveis ao sofrimento dos mais fracos e dos mais injustiçados, começarmos a preocupar-nos verdadeiramente em os proteger.
Comprometermo-nos, por intenções e atos, a equilibrar a crueldade que sobre eles possa cair. 
Apoiarmo-nos uns aos outros e fazermos do nosso espaço de influência um lugar de refúgio, de paz e de esperança para todos na vida do dia-a-dia.
Para que, à nossa volta, todos, mas todos mesmo, possamos encontrar acolhimento, ajuda, consolo e forças para enfrentar o que quer que aí venha.


Isto está perfeitamente ao nosso alcance conseguir. Ninguém nos pode impedir de o fazer.


sexta-feira, outubro 28, 2016

Como se faz um assalto ao poder

Para quem quer ter um poder sem controlo e não tem escrúpulos, o processo é mais ou menos este:

1º, cria-se uma vida de completa insegurança nas pessoas (no trabalho, na saúde, na educação, etc).

2º, separam-se as pessoas umas das outras, fisicamente (por exemplo, obrigando a mais horas longe da família e da sua comunidade) ou através de mecanismos de competição.

3º, isto diminuirá as capacidades refletivas das pessoas, pois o seu cérebro fica cada vez mais em modo permanente de ameaça (o cérebro, para isto, tem um repertório curto de respostas: fuga, luta, paralisação ou submissão).

4º, favorecem-se aquelas respostas básicas, oferecendo alvos fáceis, de preferência as pessoas que, pelas suas diferenças, é fácil colocar na categoria de "outgroups" (e nunca, nunca os verdadeiros responsáveis pela situação, isto é, aqueles que sempre tiveram o poder de orientar as coisas à sua vontade).

5º, aumenta-se a necessidade de as pessoas voltarem a sentir-se seguras.

6º, oferece-se uma liderança forte e com respostas básicas, que será recebida com alívio.

Neste processo, vê-se a importância extraordinária dos meios de comunicação, nomeadamente dos tablóides.

domingo, outubro 23, 2016

Amanhã

O documentário "Amanhã", sobre pessoas que arranjaram soluções que não só protegem o planeta, como ainda tornam a sociedade mais cuidadora uns dos outros.

O que pudemos aprender com os exemplos mostrados no filme:

Primeiro, temos de querer verdadeiramente melhorar a sociedade e não apenas beneficiar-nos a nós mesmos. Em particular, desejarmos criar contextos sustentáveis de bem-estar para todos.

Segundo, procurarmos garantir a cooperação de um maior número de pessoas. Sozinhos, não vamos longe.
Terceiro, há que adquirir conhecimento teórico e prático. A ignorância pode acrescentar novos problemas e agravar os já existentes. Mas também podemos juntar-nos a quem sabe realmente.
Quarto, partirmos daqui para mudar os nossos comportamentos, desencadeando ações que conduzam às mudanças desejadas.
Quinto e por último, reforçarmos positivamente estas iniciativas de mudança, premiando-as com a nossa atenção, com os nossas apreciações, com a nossa participação e, claro, com as nossas compras.



segunda-feira, outubro 17, 2016

Como conseguir que as pessoas sejam mais pró-sociais?

Criando ambientes onde a pró-sociabilidade seja bem acolhida, desenvolvida e consolidada.

Quem o pode fazer? As famílias, escolas, freguesias, câmaras, movimentos juvenis, organizações não governamentais e comunidades locais têm a capacidade de promover valores e comportamentos pró-sociais, recorrendo a iniciativas grupais, leituras partilhadas, ações de solidariedade, fornecendo modelos, histórias e o reconhecimento daqueles que mais colaborarem.

Porque as pessoas aprendem mais rapidamente novos comportamentos se os efeitos positivos destes se fizerem sentir com rapidez e profundidade.

Portanto, há que proceder àquele reconhecimento sendo generosos a apreciar aqueles gestos, a dar-lhes atenção, a mostrar interesse e aprovação, a elogiá-los, a dar-lhes visibilidade pública, a mostrar o nosso reconhecimento, o nosso afeto; e até a recompensá-los!

Mas, cuidado! Que isso não seja um instrumento para manipular as pessoas para fazerem o que o poder quer que elas façam. As pessoas dão-se conta e o processo pode ficar sabotado durante anos.

Saliente-se que o efeito que mais poder exerce sobre as ações das pessoas é a atenção que lhes pudermos dar. Porque só a partir da atenção que lhes é prestada é que habitualmente todos os benefícios lhes chegam. Desde que nascemos que tudo o que recebemos dos outros começa sempre pela atenção que conseguimos que nos prestem.

Outro efeito poderoso é a satisfação que vem com a realização da própria ação. Daí que a pró-sociabilidade não se deva impor decretando o que as pessoas têm de fazer. Elas escolhem de acordo com os seus gostos e as suas inclinações, a fim de ser a realização da própria atividade a lhes trazer satisfação.

Deste modo, iremos vendo a pró-sociabilidade a expandir-se em círculos cada vez mais alargados. 

E a mudar de forma mais construtiva e solidária os fundamentos do mundo em que vivemos.

quarta-feira, outubro 12, 2016

O que promove a resiliência e a estabilidade dos grupos humanos?

A pró-sociabilidade.

Quando falamos deste construto, estamos a incluir não só comportamentos, mas também atitudes e valores, todos em conjunto a contribuírem para o benefício das pessoas. Por exemplo, cooperarmos com os outros, velarmos pelo seu bem-estar, sacrificarmo-nos por eles, etc. De forma também a promovermos o nosso crescimento pessoal.

Grupos que incluem maioritariamente pessoas com estas características sobrevivem aos grupos com indivíduos egoístas. Como dizia David Sloan Wilson, na sua célebre fórmula: "Selfishness beats altruism within groups. Altruistic groups beat selfish groups. Everything else is commentary"

Os grupos beneficiam assim da existência destas pessoas mais altruístas. Mas estas tmbém obtêm benefícios pessoais por procederem desta maneira, confirmados por abundante investigação: têm mais e melhores amigos, têm menos problemas comportamentais, obtêm melhores resultados académicos e são mais saudáveis.

Mas porque é que caímos muitas vezes na competição? Será que ela não é natural no ser humano? É. É e já se revelou útil no passado. Nomeadamente, quando os recursos eram muito escassos e existiam outros grupos a competir por esses mesmos recursos. Mas, dentro do grupo, o fator de sobrevivência mais determinante era e sempre foi a cooperação.

Há algo que temos de estar atentos. Hoje em dia, a formação e manutenção de ambientes de competição ou de cooperação está bem para lá do raio de ação dos que ocupam os lugares baixos e intermédios da organização. Assim, a evidência científica mostra que a responsabilidade pelo que acontece nas organizações a este nível não deve ser assacada aos trabalhadores; fazê-lo de nada serve para mudar o estado de coisas. Os problemas nas organizações são, na sua maioria, criados por quem tem o poder de as modelar, isto é, as chefias; não pelos subordinados.

Todos se tornam mais pró-sociais quando vivem em ambientes que estimulam valores, interesses e competências pró-sociais. Estas competências têm a sua origem quando nos interrogamos se estamos a contribuir para a segurança e sustentação dos ambientes que permitam às pessoas o seu desenvolvimento confortável e positivo. E não para aumentar artificialmente o medo e o stress a que elas são sujeitas.


Uma sociedade mais vincadamente pró-social permite a esperança numa inversão do crescimento acentuado das doenças mentais que se tem vindo a observar nas últimas décadas.

sexta-feira, outubro 07, 2016

Precisamos de novas abordagens para os problemas das pessoas na atualidade?

Nas últimas dezenas de anos, o mundo tem mudado de forma marcada. E de modo francamente visível no mundo ocidental, com avanços positivos absolutamente fantásticos ao nível das tecnologias. O que não tem mudado de forma igualmente positiva são as relações entre as pessoas, nomeadamente na família.

Na verdade, desde tempos imemoriais tem sido tão comum sabermos de conflitos, abusos e negligências em famílias que eles nos parecem praticamente inevitáveis. Poderão as tecnologias derivadas da ciência do comportamento humano fazer algo para mudar este estado de coisas?

Bom, por si sós talvez não: para fazer diminuir o stress que é colocado em tantas pessoas, famílias e escolas, não basta atuar sobre estas. É igualmente necessário promover mudanças ao nível das organizações e dos governos pois que, no fundo, estão na origem de muita dessa pressão. É verdade que os avanços no mundo tecnológico, apesar das promessas que transmitem, não têm ajudado. Sim, vivemos mais confortavelmente mas, apesar de tudo, mais infelizes.

Uma das razões talvez esteja numa perspetiva que nos faz procurar as causas do mal-estar e arranjarmos maneiras de o afastar. Talvez precisemos de uma outra perspetiva, em que olhemos para cada fenómeno, não isolando as suas causas, mas percebendo-o no seu contexto e determinando a função que desempenha nesse contexto.

Com esse olhar, já não nos interessa se uma teoria é verdadeira ou não (por mais brilhante que ela seja) mas, sim, se essa teoria aplicada na prática provoca transformações úteis ou não. Ela pode ser verdadeira e a sua aplicação, em certos contextos, ser totalmente catastrófica.

A utilidade de uma teoria, então, pressupõe que a avaliemos em função de determinados valores e objetivos claramente definidos.

Vejamos o exemplo das teorias que privilegiam a competição em detrimento da cooperação. Observa-se no mundo natural que são os sistemas que cooperam, sejam eles genes, células, pessoas ou grupos de pessoas, aqueles que maior probabilidade têm de sobreviver e de se reproduzir.

Pensemos em quem não segue esta orientação: células que se reproduzem sem consideração pelo organismo (cancro). Pessoas que perseguem a satisfação exclusivamente dos seus interesses sem consideração pelos efeitos que o seu comportamento anti-social tem sobre os outros. Organizações que procuram a maximização do seu lucro, sem consideração pelos prejuízos que provocam nas pessoas, grupos, nações e ambiente natural (é estranho: para que é que as pessoas querem lucros astronómicos num mundo destruído ou a ficar destruído para os seus descendentes?)

A competição é natural no ser humano? Pode-se discutir. Mas sabe-se que os bebés, na ausência de pressões, escolhem a cooperação, para si e nos outros, e não a competição…

Sim, o mundo de hoje exige uma outra forma de abordar os problemas. E a ciência do comportamento humano já tem dados suficientemente sólidos e comprovados para poder oferecer essa visão alternativa.

sábado, outubro 01, 2016

Uma possibilidade de mudar efetivamente o Mundo, o nosso Mundo

O que há de comum nas intervenções bem sucedidas ao nível da prevenção pública de problemas psicológicos e comportamentais?

Acima de tudo, a preocupação de tornar os ambientes em que as pessoas se movem mais enriquecedores e benéficos. Pois são estes ambientes que criam sociedades mais saudáveis e mais felizes. E é a ausência destes ambientes que estão na origem daqueles problemas.

Como o conseguir? Começando por minimizar o conflito nesses ambientes, ensinando-se as pessoas a favorecerem o bem-estar e o desenvolvimento pessoal umas das outras.

E de que ambientes estamos a falar? Quais são queles que mais contribuem para a construção de um mundo prossocial (onde os comportamentos das pessoas visam beneficiar os outros de modo voluntário)? A resposta é: as famílias e as escolas.

Procura-se, então, convencer as escolas e as famílias a reforçarem convictamente as crianças que se ajudam mutuamente e que participam na melhoria das suas escolas e comunidades. A estabelecerem limites às oportunidades das crianças receberem influências que as possam envolver em comportamentos problemáticos. A encorajar as crianças a seguirem os valores que elas mais prezam, mesmo face a obstáculos significativos, que incluem aqueles que são mais de natureza psicológica.

E, assim, talvez em breve seja tão impensável uma criança ser maltratada como é hoje impensável alguém fumar dentro de um edifício público. Fomos capazes de mudar isto, seremos capazes de mudar aquilo.

Depois, podemos esperar que uma sociedade, onde as pessoas cooperem e cuidem umas das outras, dê origem a empresas, organizações e governos que trabalhem eficazmente para o bem comum. Que defendam as políticas que sejam efetivamente úteis para a maioria das pessoas – se não forem úteis, devem ser rejeitadas, pura e simplesmente, mesmo que pareçam verdadeiras. Porque a “verdade”, no nosso país, deu origem à sociedade europeia com mais elevado nível de desigualdade económica – dentro das sociedades desenvolvidas apenas somos ultrapassados pelos EUA.

Finalmente, para nos ajudarem e acompanharem, aí estão as ciências biológicas e comportamentais a convergir nas suas descobertas acerca do que os seres humanos necessitam para prosperarem; e no que leva tantas pessoas a desenvolver problemas psicológicos, comportamentais e de saúde, a fim de lhe fazer frente de modo eficaz.

sábado, junho 04, 2016

Marcas da Grécia

Passados alguns dias sobre a viagem à Grécia, que memórias comovidas persistem em regressar, atravessando de surpresa os meus dias?



  • Primeiro que tudo, a companhia doce, alegre, afetuosa, sempre disponível e paciente da Adriana!


  • Depois, a forma maravilhosa como fomos acolhidos pela nossa amiga Ana Maria Soares. Inesquecível!

  • Também o acolhimento dos nossos amigos gregos. Recordo com saudade o Constantinos e outros. Mas, em particular, do Christo que nos acompanhou em vários passeios e se despediu de nós com várias prendas lindas que nos ofereceu.

  • A simpatia extremamente afável dos gregos: nos táxis (quase sempre com música do folclore grego na rádio), nos restaurantes (oferecendo sempre uma sobremesa e uma bebida forte no fim da refeição, por exemplo), no aluguer dos carros, nas lojas (dando pequenas ofertas; um íman, dois donuts,), nos museus (baixando preços), etc.

  • Dimitris Christoulas que, em 2012, se suicidou em frente ao Parlamento na Praça Syntagma, não só a fim de não perder a sua dignidade, mas também para apelar à coragem e honra dos gregos contra os políticos corruptos.

  • A Biblioteca de Pantainos; depois da Acrópole turística, a solidão destas ruínas. Tudo pode cair e desaparecer, mas os livros, uma biblioteca? É como se uma força maior que a morte tenha atuado aqui, um vento terrível que derrubou os edifícios e a arrancou as páginas dos livros, lançando-os no espaço.





  • Num restaurante de Creta, em Heraklion, depois de um almoço regado com retsina, a conta vem com um folheto onde surgem alguns versos do poema Ithaca, de Cavafy, exatamente nesta tradução:

Hope that your journey is a long one. 
Many will be the summer mornings 
upon which, with boundless pleasure and joy, 
you will find yourself entering new ports of call.

E, naquele lugar, naquele momento, começo a ouvir a voz de Sean Connery, com a música de Vangelis... e as lágrimas subiram-me aos olhos.


  • O trânsito desorganizado de Atenas, mas sem agressividade, tolerante e com espaço para todos. Na estrada, mal nos aproximamos de um carro, este afasta-se para a berma para nos dar passagem.

  • A cidade de Atenas, sempre com surpresas a surgirem aos nossos passos: ruínas pouco conhecidas; cafés deslumbrantes escondidos para lá de portas perfeitamente anónimas; as varandas sempre a transbordar de plantas e de vegetação; mercados de rua com as bancas arranjadas com preocupações estéticas (as batatas empilhadas em pirâmides perfeitas, flores espalhadas por cima da fruta, dos morangos, por exemplo, etc.).

  • Palácio de Knossos: luminoso e cheio de belíssimas energias!






  • Delfos: os deuses mortos nos templos em ruínas são o reflexo do nosso vazio espiritual - reflexo ou promessa? Novos deuses, novos mortos? No fim, a poeira estelar a vogar no silêncio sem fim.



  • O livro cuja leitura me acompanhou nesta viagem (graças à simpatia da Ana Maria Soares) e que deixou em mim um rasto prolongado: Diário da Abuxarda, de Marcello Duarte Mathias.





terça-feira, maio 03, 2016

Punição física



Se queremos que a criança associe aquilo que fez a consequências dolorosas, a um intenso e conflituoso conjunto de emoções negativas, e à consciência de ser inferior e merecedora de uma auto-estima baixa, sem perceber porquê ou para quê, então a opção pela punição física é a adequada. Estes são os efeitos no seu cérebro. Ah, e a memória permanente desse tipo de punição, claro (nunca conheci ninguém que se tivesse esquecido de ter sido castigado fisicamente, nem nos casos em que o foi só uma vez).

Se queremos que a criança aprenda; que ela cresça e se desenvolva num ambiente de respeito, de segurança e de afeto; que ela perceba quais as maneiras mais adequadas de convencer os outros sem ter de os vencer pela força bruta; se queremos dar-lhe o exemplo do que é viver não na selva mas na civilização; que ela perceba que há consequências desagradáveis muito razoáveis e lógicas para os seus maus comportamentos. Então há outras alternativas que, ainda por cima, são muito mais eficazes que a punição física.


Como dizia Gandhi: «Se venceres o teu adversário, ganhas um inimigo. Se o convenceres, ganhas um aliado.» Parece evidente, não é?