(com introdução, tradução do grego e notas de Maria do Céu Zambujo Fialho)
A história é por demais conhecida, por isso aqui deixarei apenas algumas questões que nasceram de uma leitura apaixonada.
Édipo é sempre auto-determinado. Ele decide sempre por si próprio, não se deixa levar pelo que os outros dizem. O problema é que ele assim afunda-se na tragédia. Será que Sófocles faz aqui uma apologia da submissão e da passividade? Pelo menos à vontade dos deuses?
No entanto, Édipo responsabiliza-se sempre a si próprio pelo que faz e nunca deita as culpas para cima dos outros ou dos deuses. E Sófocles oferece-nos aqui um retrato grandioso desta personagem, com a qual não podemos nunca deixar de simpatizar e de admirar. Portanto, não parece que defenda a submissão. Ao contrário de Laio e de Jocasta, que procuram enganar os deuses com estratagemas, Sófocles constrói um Édipo corajoso e sempre pronto, por mais terrível que isso lhe pareça, a enfrentar as coisas como elas são.
Quando a boa fortuna de um poderoso começa a cair, aí surge a paranóia de que o andam a trair. Mais uma vez, repare-se que a grandeza de Édipo volta aqui a revelar-se, pois nem essa humana paranóia o faz desviar da busca implacável da verdade, não se perdendo em perseguições e castigos inúteis.
Infelizmente, é essa coragem e inteireza que vai provocar e revelar a sua desgraça. Por isso, interrogo-me sobre qual seria a posição de Sófocles sobre esta sua personagem, o que pensaria ele realmente de Édipo e do seu confronto com os deuses, ...
Uma reflexão adicional sobre Creonte. Nesta peça, Creonte mostra aqui grande sensatez, raciocínio lúcido e um saber bem como lidar com os outros. É um Creonte completamente distinto do de Antígona. Sófocles evidencia aqui algo que começamos a reconhecer hoje em dia: nós somos o que somos é certo que por factores disposicionais, mas também, e muito, devido a factores situacionais. É assim que Creonte próximo do rei é uma coisa, sendo rei é outra muito diferente.
A vida. Tão pouco e tão tanto. (...) E todavia eu sei que "isto" nasceu para o silêncio sem fim... (Vergílio Ferreira)
quarta-feira, setembro 21, 2011
segunda-feira, setembro 19, 2011
Confiar: um valor em défice
José Gil, no Jornal de Letras de 24 de Agosto de 2011:
O que eu lamento é a ausência de uma onda que possa captar essas energias, que por isso são desperdiçadas.
Nós somos bons em muitas áreas, mas actuamos como bolsas isoladas.
E isso não faz onda.
Não há comunidades.
É preciso que os muitos nichos em que somos bons, como na artes plásticas, música, dança, teatro, literatura, se cruzem e criem uma massa crítica que se mova por si própria.
Uma razão por que não há esse cruzamento (e muito menos um encontro, acrescento eu) não poderá residir no facto de ninguém confiar em ninguém? De todos sabermos que, por mais mérito que possamos ter, não haverá qualquer reconhecimento? A menos, claro, que pertençamos a um qualquer grupo que esteja próximo do poder?
Não será esta falta de confiança mútua que faz com que os realmente bons prefiram iniciativas solitárias, de modo a poderem concentrar-se no seu trabalho e a não terem que se dispersar por preocupações com políticas e intrigas?
O que eu lamento é a ausência de uma onda que possa captar essas energias, que por isso são desperdiçadas.
Nós somos bons em muitas áreas, mas actuamos como bolsas isoladas.
E isso não faz onda.
Não há comunidades.
É preciso que os muitos nichos em que somos bons, como na artes plásticas, música, dança, teatro, literatura, se cruzem e criem uma massa crítica que se mova por si própria.
Uma razão por que não há esse cruzamento (e muito menos um encontro, acrescento eu) não poderá residir no facto de ninguém confiar em ninguém? De todos sabermos que, por mais mérito que possamos ter, não haverá qualquer reconhecimento? A menos, claro, que pertençamos a um qualquer grupo que esteja próximo do poder?
Não será esta falta de confiança mútua que faz com que os realmente bons prefiram iniciativas solitárias, de modo a poderem concentrar-se no seu trabalho e a não terem que se dispersar por preocupações com políticas e intrigas?
domingo, setembro 18, 2011
Gandhi, sempre no coração
Satish Kumar, em entrevista ao i:
Muitos dizem que os seus ideais são utópicos. O que responde a isso?
Muita gente diz-me que eu sou idealista e que tenho de ser realista.
A minha resposta é: o que é que os realistas fizeram pelo mundo? O que é que alcançaram?
Por estarmos a ser governados por realistas temos uma crise económica, temos aquecimento global, temos guerra no Afeganistão, Líbia e em outros tantos países.
Os realistas criaram esta confusão toda.
É altura de os realistas saírem e de os idealistas entrarem.
Isto não é mero idealismo, é um idealismo realista.
Vamos dizer: adeus realismo, bem-vindo idealismo!
Satish Kumar também refere que Gandhi disse:
There is enough in the world for everybody's need, but not enough for anybody´s greed.
(Há no mundo o suficiente para as necessidades de todos, mas não para alimentar a ganância de todos).
Muitos dizem que os seus ideais são utópicos. O que responde a isso?
Muita gente diz-me que eu sou idealista e que tenho de ser realista.
A minha resposta é: o que é que os realistas fizeram pelo mundo? O que é que alcançaram?
Por estarmos a ser governados por realistas temos uma crise económica, temos aquecimento global, temos guerra no Afeganistão, Líbia e em outros tantos países.
Os realistas criaram esta confusão toda.
É altura de os realistas saírem e de os idealistas entrarem.
Isto não é mero idealismo, é um idealismo realista.
Vamos dizer: adeus realismo, bem-vindo idealismo!
Satish Kumar também refere que Gandhi disse:
There is enough in the world for everybody's need, but not enough for anybody´s greed.
(Há no mundo o suficiente para as necessidades de todos, mas não para alimentar a ganância de todos).
quinta-feira, agosto 04, 2011
Sistema de avaliação, agora nas universidades
Não consigo entender como é que um sistema de avaliação:
a) baseado na competição pode dar origem a trabalhadores mais preocupados com o serviço público. Como pode um funcionário público, ou um professor, habituado a atender diariamente aos factores que condicionam a sua própria carreira, a tratar do seu próprio benefício em detrimento dos outros, como pode ele, por uma transmutação mágica de personalidade, passar a empenhar as suas forças na execução do bem público, isto é, do bem dos outros?
b) baseado num sistema de recompensas externas (pontos, notas, passagens de escalão, etc) pode criar melhores trabalhadores. Sabe-se que a recompensa externa destrói a motivação interior (Ryan & Deci, 2000), pelo que a sua utilização deve ser sempre evitada. Contra a evidência científica espera-se que, com tal sistema, os funcionários públicos ou os professores se sintam autonomamente motivados para terem um bom desempenho e espírito de entreajuda.
Já começo a entender quando me apercebo que, por detrás de tudo isto, está apenas uma questão de poder, simplesmente uma questão de mais poder para os poderosos. Este sistema, na verdade, apenas promove o funcionário egoísta, nada solidário com os colegas, completamente indiferente ao bem público e, principal e fundamentalmente, obediente e submisso aos seus superiores.
Assim, tudo se torna claro.
a) baseado na competição pode dar origem a trabalhadores mais preocupados com o serviço público. Como pode um funcionário público, ou um professor, habituado a atender diariamente aos factores que condicionam a sua própria carreira, a tratar do seu próprio benefício em detrimento dos outros, como pode ele, por uma transmutação mágica de personalidade, passar a empenhar as suas forças na execução do bem público, isto é, do bem dos outros?
b) baseado num sistema de recompensas externas (pontos, notas, passagens de escalão, etc) pode criar melhores trabalhadores. Sabe-se que a recompensa externa destrói a motivação interior (Ryan & Deci, 2000), pelo que a sua utilização deve ser sempre evitada. Contra a evidência científica espera-se que, com tal sistema, os funcionários públicos ou os professores se sintam autonomamente motivados para terem um bom desempenho e espírito de entreajuda.
Já começo a entender quando me apercebo que, por detrás de tudo isto, está apenas uma questão de poder, simplesmente uma questão de mais poder para os poderosos. Este sistema, na verdade, apenas promove o funcionário egoísta, nada solidário com os colegas, completamente indiferente ao bem público e, principal e fundamentalmente, obediente e submisso aos seus superiores.
Assim, tudo se torna claro.
segunda-feira, agosto 01, 2011
Poesia, Saudade da Prosa de Manuel António Pina
Nunca tinha lido a poesia de Manuel António Pina. Gostei muito deste livro que me foi oferecido por mão amiga. Trata-se de "uma antologia pessoal".
Tendo lido outras coisas do autor (no fundo, sendo um ignorante da sua obra), esperava uma escrita permeada de humor. Descobri uma poesia discreta, sem grandiloquências, humana, digna e sóbria. Inclui, é certo, uns laivos dispersos de ironia (nunca construída à custa de..., mas mais feita com...), e, no entanto, é uma ironia para sempre reflectida sobre um fundo de melancolia.
As ideias e as emoções evocadas pelo autor ao longo destas páginas abrem no nosso espírito atmosferas indefinidas, como se elas flutuassem no limiar da nossa consciência, ficando nós à beira de as compreender e de abarcar, quase como se fossem familiares e, no entanto, estrangeiras.
O autor interroga connosco a estranheza do mundo, da palavra e da criação, não nos deixando ficar de fora... mas o que escreve e partilha connosco é também uma poesia do silêncio, da presença da morte, da reflexão sobre o que é o poema, o poeta e o leitor.
Um livro excepcional.
Tendo lido outras coisas do autor (no fundo, sendo um ignorante da sua obra), esperava uma escrita permeada de humor. Descobri uma poesia discreta, sem grandiloquências, humana, digna e sóbria. Inclui, é certo, uns laivos dispersos de ironia (nunca construída à custa de..., mas mais feita com...), e, no entanto, é uma ironia para sempre reflectida sobre um fundo de melancolia.
As ideias e as emoções evocadas pelo autor ao longo destas páginas abrem no nosso espírito atmosferas indefinidas, como se elas flutuassem no limiar da nossa consciência, ficando nós à beira de as compreender e de abarcar, quase como se fossem familiares e, no entanto, estrangeiras.
O autor interroga connosco a estranheza do mundo, da palavra e da criação, não nos deixando ficar de fora... mas o que escreve e partilha connosco é também uma poesia do silêncio, da presença da morte, da reflexão sobre o que é o poema, o poeta e o leitor.
Um livro excepcional.
sábado, julho 09, 2011
Um programa para um futuro que vale a pena
Os simplistas e fantasistas de serviço falam de competitividade e de exportações, mas a palavra certa, a palavra que envolve isso e o resto chama-se sustentabilidade: apostar na revitalização do mercado interno em todas as suas dimensões.
Diminuir as importações, comprar produtos nacionais, investir e gastar em Portugal.
Electricidade a partir do nosso vento, do nosso sol, da nossa água.
Alimentos a partir dos nossos solos e do nosso mar.
Turismo no nosso território, nas nossas paisagens.
Criação de emprego nas áreas dos serviços sociais e ecológicos.
Limpar a biomassa das nossas florestas através de campanhas preventivas de incêndios florestais, empregando mão-de-obra intensiva.
Apostar na reabilitação urbana, acabando com o cancro dos subúrbios fantasmas.
Limitar o acesso dos carros particulares às cidades, elaborando novos modelos de mobilidade sustentável.
Colocar os portugueses numa interacção electrónica plural que permita comunicação sem emisões de carbono.
Descarbonizar o poder e aumentar a transparência da vida política, aumentando o controlo mútuo dos orgãos de soberania, e sobretudo a intervenção informada dos cidadãos.
Quando li este trecho escrito por Viriato Soromenho Marques (no JL nº 1062 de Junho de 2011) senti que estava aqui um programa sensível e praticável, mas principalmente atraente e motivador para quem sente na pele a exaustão da esperança e a esterilidade das ideias que a nossa classe política e intelectual actualmente produz.
Gostei muito. Porque o seu cumprimento não passa pela vontade dos outros, mas pela minha; não depende de agências de rating, nem de empréstimos do estrangeiro, mas sim do meu esforço, da minha honestidade, da minha decência.
Gostei do uso da palavra "nosso(s)" (vento, sol, água, solos, etc). Nosso, não no sentido de posse, porque na verdade nunca possuímos nada, morremos demasiado depressa para ser proprietários do que quer que seja. Mas nosso, no sentido em que detemos ou o poder de destruir ou o de preservar e construir. Nosso, no sentido em que somos totalmente responsáveis pelo que lhe fizermos. Nosso, porque podemos fazer o que acharmos melhor para nós e não para satisfazer a vontade de uns quaisquer outros de que nem sequer o rosto conhecemos.
Talvez não seja um programa imediatamente executável em todas as suas dimensões, mas poderia constituir não só uma meta a manter diante dos nossos olhos, mas também uma forma de aferirmos se o que decidimos fazer hoje é útil e construtivo, isto é, se vai ao encontro daquele cenário de vida. Uma vida bem mais respirável do que aquela que nos andam a prometer.
Usando as palavras de Mia Couto, poderia ser uma ponte capaz de unir o desespero à esperança.
[Ver também Boaventura Sousa Santos, Para uma sociedade melhor: desmercadorizar (desmercadorizar significa impedir que a economia de mercado se transforme numa sociedade de mercado)]
Diminuir as importações, comprar produtos nacionais, investir e gastar em Portugal.
Electricidade a partir do nosso vento, do nosso sol, da nossa água.
Alimentos a partir dos nossos solos e do nosso mar.
Turismo no nosso território, nas nossas paisagens.
Criação de emprego nas áreas dos serviços sociais e ecológicos.
Limpar a biomassa das nossas florestas através de campanhas preventivas de incêndios florestais, empregando mão-de-obra intensiva.
Apostar na reabilitação urbana, acabando com o cancro dos subúrbios fantasmas.
Limitar o acesso dos carros particulares às cidades, elaborando novos modelos de mobilidade sustentável.
Colocar os portugueses numa interacção electrónica plural que permita comunicação sem emisões de carbono.
Descarbonizar o poder e aumentar a transparência da vida política, aumentando o controlo mútuo dos orgãos de soberania, e sobretudo a intervenção informada dos cidadãos.
Quando li este trecho escrito por Viriato Soromenho Marques (no JL nº 1062 de Junho de 2011) senti que estava aqui um programa sensível e praticável, mas principalmente atraente e motivador para quem sente na pele a exaustão da esperança e a esterilidade das ideias que a nossa classe política e intelectual actualmente produz.
Gostei muito. Porque o seu cumprimento não passa pela vontade dos outros, mas pela minha; não depende de agências de rating, nem de empréstimos do estrangeiro, mas sim do meu esforço, da minha honestidade, da minha decência.
Gostei do uso da palavra "nosso(s)" (vento, sol, água, solos, etc). Nosso, não no sentido de posse, porque na verdade nunca possuímos nada, morremos demasiado depressa para ser proprietários do que quer que seja. Mas nosso, no sentido em que detemos ou o poder de destruir ou o de preservar e construir. Nosso, no sentido em que somos totalmente responsáveis pelo que lhe fizermos. Nosso, porque podemos fazer o que acharmos melhor para nós e não para satisfazer a vontade de uns quaisquer outros de que nem sequer o rosto conhecemos.
Talvez não seja um programa imediatamente executável em todas as suas dimensões, mas poderia constituir não só uma meta a manter diante dos nossos olhos, mas também uma forma de aferirmos se o que decidimos fazer hoje é útil e construtivo, isto é, se vai ao encontro daquele cenário de vida. Uma vida bem mais respirável do que aquela que nos andam a prometer.
Usando as palavras de Mia Couto, poderia ser uma ponte capaz de unir o desespero à esperança.
[Ver também Boaventura Sousa Santos, Para uma sociedade melhor: desmercadorizar (desmercadorizar significa impedir que a economia de mercado se transforme numa sociedade de mercado)]
sexta-feira, maio 13, 2011
Portugal e A República, de Platão
O Problema:
"A média do crescimento económico é, em Portugal, a pior dos últimos 90 anos.
A dívida pública é a maior dos últimos 160 anos.
A dívida externa é, no mínimo, a maior dos últimos 120 anos (desde que o país declarou uma bancarrota parcial em 1892).
O desemprego é o maior dos últimos 80 anos.
Voltámos à divergência económica com a Europa, após décadas de convergência.
Vivemos a segunda maior vaga de emigração dos últimos 160 anos.
E temos a taxa de poupança mais baixa dos últimos 50 anos."
(Álvaro dos Santos Pereira, Portugal na Hora da Verdade, citado no Público, 6 de Maio de 2011, p. 43)
A Solução:
"(...) Mas a verdade é esta: na cidade em que os que têm de governar são os menos empenhados em ter o comando, essa mesma é forçoso que seja a melhor e mais pacificamente administrada, e naquela em que os que detêm o poder fazem o inverso, sucederá o contrário.
(...) Se, porém, os mendigos e os esfomeados de bens pessoais entram nos negócios públicos, pensando que é daí que devem arrebatar o seu benefício, não é possível que seja bem administrado [o Estado]. Efectivamente, gera-se a disputa pelo poder, e uma guerra dessas, doméstica e interna, deita-os a perder, a eles e ao resto da cidade."
(Platão, A República, Fundação Calouste Gulbenkian, 520d e 521a )
A minha (modesta) posição:
A ideia de que são as remunerações elevadas que atraem bons profissionais (isto aplicado, claro!, apenas aos lugares reservados às elites, porque para o trabalhador comum esta tese já não encontra defensores) sempre me pareceu completamente despropositada! Salários elevados e poder desmedido só servem para atrair tubarões e vampiros.
E verifica-se que pessoas de bem, com vontade de ir para a administração pública para cuidar verdadeiramente do bem público, jamais estarão dispostos a conviver com tubarões e vampiros e a submeter-se às suas leis impostas pela força bruta.
Portanto, eu começaria por acabar com os salários elevados. Para parar de atrair tantos predadores. Para conseguir começar a trazer para a causa pública os preocupados em realizar o bem comum; que, na medida do possível, seriam mais honestos, verdadeiros e competentes para o conseguir.
Nota: este post desapareceu do blog quando, inclusivamente, já tinha um comentário; voltei a publicá-lo e copiei o comentário.
"A média do crescimento económico é, em Portugal, a pior dos últimos 90 anos.
A dívida pública é a maior dos últimos 160 anos.
A dívida externa é, no mínimo, a maior dos últimos 120 anos (desde que o país declarou uma bancarrota parcial em 1892).
O desemprego é o maior dos últimos 80 anos.
Voltámos à divergência económica com a Europa, após décadas de convergência.
Vivemos a segunda maior vaga de emigração dos últimos 160 anos.
E temos a taxa de poupança mais baixa dos últimos 50 anos."
(Álvaro dos Santos Pereira, Portugal na Hora da Verdade, citado no Público, 6 de Maio de 2011, p. 43)
A Solução:
"(...) Mas a verdade é esta: na cidade em que os que têm de governar são os menos empenhados em ter o comando, essa mesma é forçoso que seja a melhor e mais pacificamente administrada, e naquela em que os que detêm o poder fazem o inverso, sucederá o contrário.
(...) Se, porém, os mendigos e os esfomeados de bens pessoais entram nos negócios públicos, pensando que é daí que devem arrebatar o seu benefício, não é possível que seja bem administrado [o Estado]. Efectivamente, gera-se a disputa pelo poder, e uma guerra dessas, doméstica e interna, deita-os a perder, a eles e ao resto da cidade."
(Platão, A República, Fundação Calouste Gulbenkian, 520d e 521a )
A minha (modesta) posição:
A ideia de que são as remunerações elevadas que atraem bons profissionais (isto aplicado, claro!, apenas aos lugares reservados às elites, porque para o trabalhador comum esta tese já não encontra defensores) sempre me pareceu completamente despropositada! Salários elevados e poder desmedido só servem para atrair tubarões e vampiros.
E verifica-se que pessoas de bem, com vontade de ir para a administração pública para cuidar verdadeiramente do bem público, jamais estarão dispostos a conviver com tubarões e vampiros e a submeter-se às suas leis impostas pela força bruta.
Portanto, eu começaria por acabar com os salários elevados. Para parar de atrair tantos predadores. Para conseguir começar a trazer para a causa pública os preocupados em realizar o bem comum; que, na medida do possível, seriam mais honestos, verdadeiros e competentes para o conseguir.
Nota: este post desapareceu do blog quando, inclusivamente, já tinha um comentário; voltei a publicá-lo e copiei o comentário.
segunda-feira, maio 09, 2011
Ler aos 16, carreira profissional melhor aos 33
Uma investigação recente veio revelar que a única actividade extracurricular de adolescentes com 16 anos com efeitos benéficos na sua carreira profissional é a leitura de livros, tanto para rapazes como para raparigas.
Outras actividades típicas dos 16 anos: fazer desporto, socializar, ir a museus ou a galerias ou ao cinema ou a concertos, ou quaisquer outras actividades (desde cozinhar até costurar). Que efeitos na futura carreira profissional? Nada de significativo.
E quanto aos jogos de computador? Reduzem as chances de chegar à Universidade. Pelo contrário, ler livros já implica uma maior probabilidade.
Explicações possíveis: características únicas ligadas à leitura por prazer; empregadores preferirem contratar pessoas com nível de literacia semelhante ao seu; ou então simplesmente porque adolescentes já destinados a uma melhor carreira profissional tendem a ler mais.
(University of Oxford (2011, May 9). Reading at 16 linked to better job prospects. ScienceDaily. Retrieved May 9, 2011, from http://www.sciencedaily.com /releases/2011/05/110504150539.htm)
segunda-feira, abril 25, 2011
25 de Abril
(...) Estive numa cela com Noémia Delgado e 17 camponesas, quase todas analfabetas, que lutavam por um horário de trabalho, inconformadas com a jornada de sol a sol.
Assisti ao sofrimento de mulheres sujeitas a espancamentos brutais, que mal podiam erguer-se, mas o caso que mais me impressionou foi o de uma idosa, vestida com uma saia preta furada por balas.
Era a única roupa que possuía para além da mortalha, que os filhos tinham comprado, a custo, julgando que não sobrevivesse a várias perfurações abdominais.
Tinha-a guardada debaixo da cama para quando morresse...
Recordo a tristeza cinzenta e pesada que permeava todos os nossos dias, a nossa respiração.
Recordo todos os que sofreram a perseguição, a tortura, a morte. Recordo principalmente aqueles que já nem do nome perdura a memória.
Mas sobre tudo e para além de todos, recordo os mais valorosos de entre os puros:
José Afonso
Assisti ao sofrimento de mulheres sujeitas a espancamentos brutais, que mal podiam erguer-se, mas o caso que mais me impressionou foi o de uma idosa, vestida com uma saia preta furada por balas.
Era a única roupa que possuía para além da mortalha, que os filhos tinham comprado, a custo, julgando que não sobrevivesse a várias perfurações abdominais.
Tinha-a guardada debaixo da cama para quando morresse...
(Luísa Ducla Soares, JL, nº 1027, 10-23 de Fevereiro de 2010)
Recordo a tristeza cinzenta e pesada que permeava todos os nossos dias, a nossa respiração.
Recordo todos os que sofreram a perseguição, a tortura, a morte. Recordo principalmente aqueles que já nem do nome perdura a memória.
Mas sobre tudo e para além de todos, recordo os mais valorosos de entre os puros:
José AfonsoSalgueiro Maia
O que hoje temos, a todos eles o devemos.
O que não temos, fomos nós que o estragámos, destruímos e deitámos fora...
sábado, abril 23, 2011
Jejum
Apropriadamente à época que atravessamos, surgiu um novo estudo (apresentado a 3 de Abril na sessão científica anual da American College of Cardiology, em New Orleans) que partilho aqui.
Diz ele que um jejum periódico e rotineiro é bom para a saúde e para o coração. Diminui os riscos de doença arterial coronária e de diabetes, e altera os níveis de colesterol no sangue. Também contribui para reduzir outros factores de risco cardíaco, como os triglicéridos, o peso e os níveis de açúcar no sangue.
Bom, não ponho em dúvida estes resultados.
Assim, fui experimentar fazer um jejum de umas simples 24 horas, apenas bebendo água.
Confesso com vergonha: não consegui aguentar a fome para além das 15:30 da tarde! A sensação era excruciante!
Pode parecer ingenuidade da minha parte, mas, na verdade, fiquei surpreendido. Apesar de estar a levar a minha vida normal de um dia de fim de semana (ginástica - programa 5BX -, jogging no exterior e estudo), nunca imaginei que fosse tão difícil fazer um jejum. Pode ser talvez por eu não ter uma motivação forte para o fazer, mas isso não justifica a dificuldade.
Habituamo-nos a ouvir falar da fome todos os dias e assumimos que é algo com que se lida de forma corriqueira. Pois não é nada assim. E compreendo que se cometam crimes por causa dela.
Diz ele que um jejum periódico e rotineiro é bom para a saúde e para o coração. Diminui os riscos de doença arterial coronária e de diabetes, e altera os níveis de colesterol no sangue. Também contribui para reduzir outros factores de risco cardíaco, como os triglicéridos, o peso e os níveis de açúcar no sangue.
Bom, não ponho em dúvida estes resultados.
Assim, fui experimentar fazer um jejum de umas simples 24 horas, apenas bebendo água.
Confesso com vergonha: não consegui aguentar a fome para além das 15:30 da tarde! A sensação era excruciante!
Pode parecer ingenuidade da minha parte, mas, na verdade, fiquei surpreendido. Apesar de estar a levar a minha vida normal de um dia de fim de semana (ginástica - programa 5BX -, jogging no exterior e estudo), nunca imaginei que fosse tão difícil fazer um jejum. Pode ser talvez por eu não ter uma motivação forte para o fazer, mas isso não justifica a dificuldade.
Habituamo-nos a ouvir falar da fome todos os dias e assumimos que é algo com que se lida de forma corriqueira. Pois não é nada assim. E compreendo que se cometam crimes por causa dela.
sexta-feira, abril 22, 2011
Submissão... ao dinheiro!
«Então um dos Doze, chamado Judas Iscariotes, foi ter com os sumos sacerdotes e disse-lhes: 'Quanto me dareis, se eu vo-lo entregar?' Eles garantiram-lhe trinta moedas de prata.» - Mt 26, 14-15
(Bíblia Sagrada, Difusora Bíblica, 2002)
Abril de 2011
Pergunta-se às pessoas: «Para receber dinheiro, é capaz de aplicar choques eléctricos dolorosos a seres humanos?»
64% responde que jamais (o que significa que, apesar de tudo, mais de um terço admite ser capaz de o fazer por dinheiro).
Oferece-se a oportunidade real de aplicar 20 electrochoques a outros seres humanos, para receber até um máximo de 1£ por cada um (dependendo do grau de intensidade com que os aplica).
96% fizeram-no. Por dinheiro.
Eu que sempre ouvi dizer que todos os homens têm um preço.
Eu que li milhares de páginas de História e de Filosofia para entender como o nazismo obteve a adesão maciça de um dos povos mais civilizados e cultos do mundo.
Eu, que fui professor e sou testemunha das mentiras causadoras de sofrimento moral que jornalistas, políticos e opinion-makers são capazes de dizer só para receberem mais um punhado de notas.
Eu que já assisti pessoalmente à mentira e ao roubo perpetrados sobre pessoas mais fracas.
Eu, confesso, fiquei chocado com estes resultados.
Exactamente 50 anos depois das experiências de Stanley Milgram (de que já aqui falei) e tudo continua na mesma?
Ou pior?... É que, na experiência de Milgram, os participantes estavam a obedecer a uma autoridade vista como responsável e legítima (alguém, que se mostrava com um cientista, dava indicações do que deveriam fazer).
Aqui, e em 2011, é por dinheiro, só por dinheiro. Humilhante...
Via
(Bíblia Sagrada, Difusora Bíblica, 2002)
Abril de 2011
Pergunta-se às pessoas: «Para receber dinheiro, é capaz de aplicar choques eléctricos dolorosos a seres humanos?»
64% responde que jamais (o que significa que, apesar de tudo, mais de um terço admite ser capaz de o fazer por dinheiro).
Oferece-se a oportunidade real de aplicar 20 electrochoques a outros seres humanos, para receber até um máximo de 1£ por cada um (dependendo do grau de intensidade com que os aplica).
96% fizeram-no. Por dinheiro.
Eu que sempre ouvi dizer que todos os homens têm um preço.
Eu que li milhares de páginas de História e de Filosofia para entender como o nazismo obteve a adesão maciça de um dos povos mais civilizados e cultos do mundo.
Eu, que fui professor e sou testemunha das mentiras causadoras de sofrimento moral que jornalistas, políticos e opinion-makers são capazes de dizer só para receberem mais um punhado de notas.
Eu que já assisti pessoalmente à mentira e ao roubo perpetrados sobre pessoas mais fracas.
Eu, confesso, fiquei chocado com estes resultados.
Exactamente 50 anos depois das experiências de Stanley Milgram (de que já aqui falei) e tudo continua na mesma?
Ou pior?... É que, na experiência de Milgram, os participantes estavam a obedecer a uma autoridade vista como responsável e legítima (alguém, que se mostrava com um cientista, dava indicações do que deveriam fazer).
Aqui, e em 2011, é por dinheiro, só por dinheiro. Humilhante...
Via
quarta-feira, março 09, 2011
Homens da Luta
Porque é que eu gosto destes rapazes?
Por uma grande variedade de razões.
Primeiro, sem dúvida alguma, porque pensam.
Depois, porque não falam de cor, eles não só praticam o que dizem, como sabem do que falam.
Também, porque não há arrogância - o que é natural, quem reflecte realmente nas coisas não pode ser arrogante. Pelo contrário, nao enjeitam a prudência naquilo que pode ser perigoso para a sociedade.
Adicionalmente, repare-se como Jel fala sempre em termos de "nós", raramente em termos de "eu" (apenas em afirmações sobre as quais ele se quer responsabilizar).
A entrevista que aqui incluo é absolutamente brilhante: é um manancial de reflexões, de exemplos para a nossa vida. É uma entrevista para ser levada muito, muito a sério:
Nesta entrevista pós-Festival da Canção tocou-me particularmente a cortesia e a elegância de Jel em não se ter aproveitado de uma vantagem que ganhou ao jornalista (por ingenuidade deste, é certo), e em lhe ter dado uma saída com dignidade: a situação inicia-se no minuto 5:52 e dura apenas cerca de 30 segundos... porque Jel revela-se aqui um cavalheiro. Trata-se de mais uma entrevista brilhante, veja-se:
Para finalizar, incluo também um link com o texto "Um homem que luta" do Director da Sic Radical sobre Jel, também muito esclarecedor.
Por uma grande variedade de razões.
Primeiro, sem dúvida alguma, porque pensam.
Depois, porque não falam de cor, eles não só praticam o que dizem, como sabem do que falam.
Também, porque não há arrogância - o que é natural, quem reflecte realmente nas coisas não pode ser arrogante. Pelo contrário, nao enjeitam a prudência naquilo que pode ser perigoso para a sociedade.
Adicionalmente, repare-se como Jel fala sempre em termos de "nós", raramente em termos de "eu" (apenas em afirmações sobre as quais ele se quer responsabilizar).
A entrevista que aqui incluo é absolutamente brilhante: é um manancial de reflexões, de exemplos para a nossa vida. É uma entrevista para ser levada muito, muito a sério:
Nesta entrevista pós-Festival da Canção tocou-me particularmente a cortesia e a elegância de Jel em não se ter aproveitado de uma vantagem que ganhou ao jornalista (por ingenuidade deste, é certo), e em lhe ter dado uma saída com dignidade: a situação inicia-se no minuto 5:52 e dura apenas cerca de 30 segundos... porque Jel revela-se aqui um cavalheiro. Trata-se de mais uma entrevista brilhante, veja-se:
Para finalizar, incluo também um link com o texto "Um homem que luta" do Director da Sic Radical sobre Jel, também muito esclarecedor.
domingo, março 06, 2011
Aaron Feuerstein - "The Right Thing To Do"
Aaron Feuerstein tornou-se um CEO famoso por duas razões:
Primeiro, porque, tendo criado o material "Polartec", abdicou dos direitos de fabrico para que pudesse ser vendido em todo o mundo a preços baratos.
Depois, quando em 1995 a sua fábrica ardeu totalmente, ele não se retirou do negócio com os 300 milhões de dólares que recebeu do seguro.
Reconstruiu a fábrica no mesmo sítio. Não a transferiu para o sul ou para a Ásia, em busca de salários mais baixos.
Além disso, durante a reconstrução, nunca deixou de pagar os salários por inteiro aos seus 3 000 (des)empregados.
Isto é tudo tão insólito, tão único e, no fundo, tão pouco habitualmente humano, que me faltam as palavras.
Aqui fica um curto vídeo:
Primeiro, porque, tendo criado o material "Polartec", abdicou dos direitos de fabrico para que pudesse ser vendido em todo o mundo a preços baratos.
Depois, quando em 1995 a sua fábrica ardeu totalmente, ele não se retirou do negócio com os 300 milhões de dólares que recebeu do seguro.
Reconstruiu a fábrica no mesmo sítio. Não a transferiu para o sul ou para a Ásia, em busca de salários mais baixos.
Além disso, durante a reconstrução, nunca deixou de pagar os salários por inteiro aos seus 3 000 (des)empregados.
Isto é tudo tão insólito, tão único e, no fundo, tão pouco habitualmente humano, que me faltam as palavras.
Aqui fica um curto vídeo:
domingo, fevereiro 27, 2011
As derrotas não existem; o que existem são novas batalhas
Quando travamos uma batalha e perdemos, faz-se uma escolha: juntarmo-nos aos vencedores ou afastarmo-nos.
Para os que se afastam há um momento épico, o do afastamento. E, depois, pouco mais.
É-se ignorado, é-se esquecido, é-se afastado e cai-se na pobreza dos dias dedicados por inteiro à luta pela simples sobrevivência (dado que não se ficou com os vencedores).
Mergulha-se na obscuridade.
É muito difícil superar este estado, pois ficou-se sozinho, ninguém vem ajudar.
A única forma de não passarmos a ser parte dessa "austera, apagada e vil tristeza" é envolvermo-nos noutra batalha. Por muitos sacrifícios que isso implique. Para nos mantermos vivos.
Para os que se afastam há um momento épico, o do afastamento. E, depois, pouco mais.
É-se ignorado, é-se esquecido, é-se afastado e cai-se na pobreza dos dias dedicados por inteiro à luta pela simples sobrevivência (dado que não se ficou com os vencedores).
Mergulha-se na obscuridade.
É muito difícil superar este estado, pois ficou-se sozinho, ninguém vem ajudar.
A única forma de não passarmos a ser parte dessa "austera, apagada e vil tristeza" é envolvermo-nos noutra batalha. Por muitos sacrifícios que isso implique. Para nos mantermos vivos.
quarta-feira, fevereiro 23, 2011
Sombras do salazarismo
Quando surge uma nova lei que é sentida como violentadora e injusta, nunca se pensa no que se pode fazer para a combater ou modificar.
Quando estive nos E.U.A. vi como os americanos reagiam e rapidamente se mobilizavam para lutar, eficazmente, contra uma lei acabada de ser aprovada.
Mas os portugueses, não, o que fazem primeiro é tentar descobrir como podem ou usar a lei a seu favor, "dando-lhe a volta", ou infringi-la sem parecer que o estão a fazer.
São sombras longas do salazarismo que se estendem ainda aos dias de hoje. Apesar de vivermos em democracia, hoje ainda é impensável a revolta clara e franca (tal como na ditadura).
Se somarmos a isso uma certa ideia prevalecente de que qualquer resistência é inútil (aí, a luta fracassada dos professores estabeleceu um padrão difícil de desaparecer do inconsciente colectivo), temos os ingredientes q.b. para uma sociedade doente, paralisada, irresponsável, sem regras e em que só ganham os chico-espertos. E os mais ricos.
Quando estive nos E.U.A. vi como os americanos reagiam e rapidamente se mobilizavam para lutar, eficazmente, contra uma lei acabada de ser aprovada.
Mas os portugueses, não, o que fazem primeiro é tentar descobrir como podem ou usar a lei a seu favor, "dando-lhe a volta", ou infringi-la sem parecer que o estão a fazer.
São sombras longas do salazarismo que se estendem ainda aos dias de hoje. Apesar de vivermos em democracia, hoje ainda é impensável a revolta clara e franca (tal como na ditadura).
Se somarmos a isso uma certa ideia prevalecente de que qualquer resistência é inútil (aí, a luta fracassada dos professores estabeleceu um padrão difícil de desaparecer do inconsciente colectivo), temos os ingredientes q.b. para uma sociedade doente, paralisada, irresponsável, sem regras e em que só ganham os chico-espertos. E os mais ricos.
domingo, fevereiro 20, 2011
Consideração... mais um exemplo
Tenho dito que sou mais bem tratado no privado do que no público.
Esta semana, no centro de explicações. Uma explicanda nova:
"Setôr, podia ..."
Interrupção imediata por uma outra miúda:
"Não é setôr, é professor!"
"Então, não é a mesma coisa!?"
"Aqui, não!"
Esta semana, no centro de explicações. Uma explicanda nova:
"Setôr, podia ..."
Interrupção imediata por uma outra miúda:
"Não é setôr, é professor!"
"Então, não é a mesma coisa!?"
"Aqui, não!"
sexta-feira, fevereiro 18, 2011
Judo verbal, versão agressiva
Técnica que consiste em aproveitar-se do ataque do adversário para o derrotar.
2 exemplos:
Bernard Shaw, depois de ter visto uma sua peça representada, enviou um telegrama à actriz principal em que dizia: "Admirável!"
A actriz respondeu-lhe, igualmente através de um telegrama: "Não merecedora de tal elogio."
Bernard Shaw, mal disposto, retorquiu: "Referia-me à peça!"
A actriz respondeu-lhe: "Eu também."
A: "Estás bonita hoje!"
B: "De ti não posso dizer o mesmo."
A: "Faz como eu: mente!"
2 exemplos:
Bernard Shaw, depois de ter visto uma sua peça representada, enviou um telegrama à actriz principal em que dizia: "Admirável!"
A actriz respondeu-lhe, igualmente através de um telegrama: "Não merecedora de tal elogio."
Bernard Shaw, mal disposto, retorquiu: "Referia-me à peça!"
A actriz respondeu-lhe: "Eu também."
A: "Estás bonita hoje!"
B: "De ti não posso dizer o mesmo."
A: "Faz como eu: mente!"
quarta-feira, fevereiro 16, 2011
Valores e traços de carácter que passaram de moda...
... como a honra e a timidez.
Junto-as porque me parece estarem próximas uma da outra.
E são ambas muito mal vistas:
Junto-as porque me parece estarem próximas uma da outra.
E são ambas muito mal vistas:
- A honra é criticada e classificada como rigidez, ausência de flexibilidade.
- A timidez é encarada como uma doença execranda (daqui a pressão para mostrarmos sempre que não somos nada tímidos).
segunda-feira, fevereiro 14, 2011
Não seguir. E não ser seguido.
Tous les suivants du monde devraient se donner la main
Voilà ce que la nuit je crie dans mon délire
Au suivant, au suivant
Et quand je ne délire pas j'en arrive à me dire
Qu'il est plus humiliant d'être suivi que suivant
Au suivant, au suivant
Parece estranho que um professor subscreva isto... É verdade, reconheço-o. Muitas vezes, junto dos meus explicandos, tenho dificuldade em mandar, há qualquer coisa de redutor, de violência, procurar a submissão dos outros e sempre me esforcei mais por convencer do que por vencer.
(Recordo Gandhi: Se venceres o teu adversário, ganhas um inimigo; se o convenceres, ganhas um aliado)
Sempre me senti desconfortável nesse papel, pelo que nunca aspirei a cargos onde tivesse que mandar noutros.
(Evoco também Guilherme Centazzi, nascido em Faro em 1808, não como regra geral, mas como símbolo de uma certa limpidez de carácter: Não estou em grandes alturas, porque sou inimigo de baixezas. Via Pedro Almeida Vieira)
Ah, mas também grito, com Jacques Brel na canção acima, que
un jour (...) je ne serai jamais plus
Le suivant, le suivant!
Voilà ce que la nuit je crie dans mon délire
Au suivant, au suivant
Et quand je ne délire pas j'en arrive à me dire
Qu'il est plus humiliant d'être suivi que suivant
Au suivant, au suivant
Parece estranho que um professor subscreva isto... É verdade, reconheço-o. Muitas vezes, junto dos meus explicandos, tenho dificuldade em mandar, há qualquer coisa de redutor, de violência, procurar a submissão dos outros e sempre me esforcei mais por convencer do que por vencer.
(Recordo Gandhi: Se venceres o teu adversário, ganhas um inimigo; se o convenceres, ganhas um aliado)
Sempre me senti desconfortável nesse papel, pelo que nunca aspirei a cargos onde tivesse que mandar noutros.
(Evoco também Guilherme Centazzi, nascido em Faro em 1808, não como regra geral, mas como símbolo de uma certa limpidez de carácter: Não estou em grandes alturas, porque sou inimigo de baixezas. Via Pedro Almeida Vieira)
Ah, mas também grito, com Jacques Brel na canção acima, que
un jour (...) je ne serai jamais plus
Le suivant, le suivant!
domingo, fevereiro 13, 2011
No pasarán!*
17% é quanto tem de passar a pagar mais à Segurança Social em 2011, relativamente a 2010, quem ganha menos que o ordenado mínimo.
17% (dezassete por cento).
Mas...
(...), venha o que vier, nunca será
Maior do que a minha alma.
(Mensagem, Fernando Pessoa)
* Divisa que expressa a determinação de defender uma posição contra o inimigo
17% (dezassete por cento).
Mas...
(...), venha o que vier, nunca será
Maior do que a minha alma.
(Mensagem, Fernando Pessoa)
* Divisa que expressa a determinação de defender uma posição contra o inimigo
domingo, fevereiro 06, 2011
Em Busca da Identidade - o desnorte, de José Gil
Uma radiografia certeira e incómoda de Portugal:
Para o salvar da destruição? Já não acredito que seja possível. O poder está cada vez mais absoluto e desavergonhado, enquanto as pessoas estão cada vez mais mergulhadas no medo. Que é alimentado, pois o medo é extraordinariamente útil para se poder governar/abusar sem resistência.
Não, apenas para cada um poder salvaguardar a sua própria dignidade (e a dos seus mais chegados), a fim de evitar mergulhar neste pântano mental e social. Mais nada.
- Os velhos traços da política salazarista que estão aí para ficar: usar o medo (da autoridade, da avaliação, da crise, etc.) para governar.
- As velhas estratégias de relacionamento dos portugueses com a sociedade onde vivem: inércia, falta de confiança, auto-complacência, queixume, inveja, desenrasque, chico-espertismo, irresponsabilidade, ausência de respeito pelo outro, corrupção.
- O quão sufocante tem sido o exercício de poder dos governos Sócrates (ao mesmo tempo que promovem todas as características referidas anteriormente).
- A usura das exigências que são feitas ao trabalho imaterial sobre a vida das pessoas, enquanto a avaliação se exerce apenas sobre os seus produtos materiais.
- A avaliação como estratégia de poder que visa produzir submissão. O caso dos professores.
Para o salvar da destruição? Já não acredito que seja possível. O poder está cada vez mais absoluto e desavergonhado, enquanto as pessoas estão cada vez mais mergulhadas no medo. Que é alimentado, pois o medo é extraordinariamente útil para se poder governar/abusar sem resistência.
Não, apenas para cada um poder salvaguardar a sua própria dignidade (e a dos seus mais chegados), a fim de evitar mergulhar neste pântano mental e social. Mais nada.
terça-feira, fevereiro 01, 2011
Festa de aniversário
Os meus amigos ficam desagradavelmene surpreendidos quando se dão conta de que não foram convidados para a minha festa de aniversário.
Têm razão. Devo-lhes uma explicação. É simples: não faço uma festa de aniversário.
Uma festa dessas é sempre uma celebração pelo nascimento da pessoa. As pessoas gostam de ser objecto dessa celebração. Eu sinto-me muito desconfortável.
Face a tanta miséria, dor e morte à minha volta e no mundo, eu vou celebrar com uma festa o meu nascimento? Eu não consigo.
Limito-me assim a algo de mais discreto e privado.
Que me desculpem os meus amigos.
Têm razão. Devo-lhes uma explicação. É simples: não faço uma festa de aniversário.
Uma festa dessas é sempre uma celebração pelo nascimento da pessoa. As pessoas gostam de ser objecto dessa celebração. Eu sinto-me muito desconfortável.
Face a tanta miséria, dor e morte à minha volta e no mundo, eu vou celebrar com uma festa o meu nascimento? Eu não consigo.
Limito-me assim a algo de mais discreto e privado.
Que me desculpem os meus amigos.
segunda-feira, janeiro 24, 2011
César dos Santos Chiquelho
Morreu um Homem.
De notável inteligência e humanidade.
Que marcou a vida de centenas, se não de milhares de pessoas.
Foi um homem de família.
Foi um político que nunca abdicou da sua consciência, como até os seus correligionários amargamente o souberam.
Mas, acima de tudo, foi um Professor (forma, aliás, como era tratado por toda a gente).
Viveu em Portugal, trabalhou em África, voltou a Portugal.
A sua actividade centrou-se sempre nos alunos, na cultura, nos livros e no campo.
Avesso a todos os tipos de ditadura foi, sobretudo, um espírito permanentemente indómito.
Foi um Homem que eu sempre admirei. Foi meu sogro.
A Morte, estúpida, irracional e injusta, veio buscá-lo.
Lembrá-lo-ei sempre com aquele seu sorriso de quem sabe que vai perturbar as consciências acomodadas.
De notável inteligência e humanidade.
Que marcou a vida de centenas, se não de milhares de pessoas.
Foi um homem de família.
Foi um político que nunca abdicou da sua consciência, como até os seus correligionários amargamente o souberam.
Mas, acima de tudo, foi um Professor (forma, aliás, como era tratado por toda a gente).
Viveu em Portugal, trabalhou em África, voltou a Portugal.
A sua actividade centrou-se sempre nos alunos, na cultura, nos livros e no campo.
Avesso a todos os tipos de ditadura foi, sobretudo, um espírito permanentemente indómito.
Foi um Homem que eu sempre admirei. Foi meu sogro.
A Morte, estúpida, irracional e injusta, veio buscá-lo.
Lembrá-lo-ei sempre com aquele seu sorriso de quem sabe que vai perturbar as consciências acomodadas.
domingo, dezembro 05, 2010
"Fala Comigo"
A Peste – Associação de Pesquisa Teatral levou à cena o espectáculo “Fala Comigo” com um texto inspirado numa peça de Tennessee Williams. Fui assistir anteontem e vim de lá entusiasmadíssimo. Aqui ficam alguns apontamentos.
Início: As minhas palavras não fazem justiça à excelência do espectáculo. Portanto, peço a quem me ler que tenha sempre presente que o espectáculo é mais e melhor do que o que aqui é dito.
Um. Apesar de o espectáculo dar liberdade para escolhermos o modo como nos queremos posicionar, a fim de podermos usufruir do máximo que tem para dar, ele vai surgindo como se de uma peça musical se tratasse, como se ali em cena estivesse a ser interpretada uma espécie de Fuga.
Dois. Aqui o tema do sexo como género permeia todo o desenrolar da peça. Na verdade, não há categorias, não há masculino e feminino definidos do princípio ao fim, mas antes um continuum que vai desde a masculinidade mais grosseira até à feminilidade mais pura. Independentemente do sexo dos actores que lhes dão corpo e voz.
Três. O texto em si é fabuloso. A interpretação não fica atrás. Percorre todos os cambiantes, desde o mergulho vertiginoso à distância embrutecida; desde a fala arrebatada à exposição depurada. Em todos os casos, o texto brilha no absoluto silêncio que, do princípio ao fim, se instala entre o público.
Quatro. A simplicidade de meios e de recursos, longe de ser um obstáculo à vivência do espectáculo, pelo contrário, permite-lhe um fluir por aquele espaço que os actores partilham connosco e que preenchem soberanamente com o seu corpo e com o seu texto.
Quinto. A peça alimenta-se, entre outras coisas, de contrastes sucessivos, como já referi anteriormente. Aqui quero falar da degradação do ser humano, principalmente associada a um desejo estéril de fuga. Mas quero principalmente falar da “Cantiga de Alevantar”, uma impressionante canção, de resistência, de José Mário Branco. E dos rostos, dos olhares, limpos mas duros e questionadores, dos actores sobre nós os espectadores… à espera, para sempre à espera que nós realizemos, que nós mudemos, que nós preservemos qualquer coisa de claro e luminoso nestes tempos sombrios por onde tanta coisa boa se escoa, se esboroa.
Fim. O final fortíssimo, a fazer jus a toda a peça. Como se os actores e o encenador, eles, nos quisessem dizer, queimando a nossa alma, todos o nossos sentidos: “Não se esqueçam, não se esqueçam do que aqui viram e ouviram”.
Não esqueceremos.
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Entrada gratuita. Ainda 5ª e 6ª feira, dias 9 e 10 de Dezembro pelas 21:30, campus de Gambelas da UAlg, no Laboratório de Teatro e Artes Performativas da Faculdade de Ciências Humanas e Sociais. Reservas pelo telefone 289 800 914 (Horário: segunda a sexta-feira, 9h00-12h30 e 14h00-17h30).
Adenda: Publicado aqui
Adenda: Publicado aqui
José e Pilar, de Miguel Gonçalves Mendes
Ouvi dizer que o filme tem estado a ter pouca afluência em Portugal.
Custa-me a acreditar. Mas é possível.
É possível que haja muita gente que tenha, para já, perdido a oportunidade de assistir a um filme extraordinariamente bem feito. E bonito. E enriquecedor.
Podia não ser com José Saramago e com a paixão da sua vida, Pilar del Rio.
Porque este filme, que vive por si, é uma obra de arte do realizador Miguel Gonçalves Mendes (lembram-se de Floripes?).
Mas ainda bem que foi com Saramago e com Pilar. Seres humanos com falhas, claro. Mas que lutam para conseguirem viver com dignidade. Para passarem essa dignidade a todos os seres humanos. E isso é uma constante que atravessa o filme todo.
Como o amor que os une.
Inesquecível.
Imperdível.
Adenda: Publicado aqui
Custa-me a acreditar. Mas é possível.
É possível que haja muita gente que tenha, para já, perdido a oportunidade de assistir a um filme extraordinariamente bem feito. E bonito. E enriquecedor.
Podia não ser com José Saramago e com a paixão da sua vida, Pilar del Rio.
Porque este filme, que vive por si, é uma obra de arte do realizador Miguel Gonçalves Mendes (lembram-se de Floripes?).
Mas ainda bem que foi com Saramago e com Pilar. Seres humanos com falhas, claro. Mas que lutam para conseguirem viver com dignidade. Para passarem essa dignidade a todos os seres humanos. E isso é uma constante que atravessa o filme todo.
Como o amor que os une.
Inesquecível.
Imperdível.
Adenda: Publicado aqui
sábado, novembro 13, 2010
Miúdos com NEE's
Anteontem, quando cheguei ao centro, a dona disse-me que eu iria substituir uma professora doente. Quando ouviu isto, o Diogo (um dos "meus" pequenitos, este de 7 anos e com muitas, muitas dificuldades) levantou-se e veio abraçar-me, encostando a carita às minhas pernas.
Fez-me recordar uma outra dimensão minha como professor: o afecto profundo e duradouro que sempre suscitei nos miúdos com NEE's, sem eu nunca conseguir perceber realmente porquê.
Lembro-me do Rui, um miúdo com NEE´s muito profundas. Foi integrado nas minhas aulas de Matemática durante um ou dois anos. Depois, quando me via, parava-me e fazia sempre a mesma pergunta: "Quando é que és meu professor?". Ao que eu invariavelmente respondia: "Para o ano, Rui, para o ano." Passámos anos nisto. Depois ele saiu.
Um dia, veio visitar a escola. Estava eu no refeitório a conversar com alguém. Ali, embora afastada de mim, estava também a Sandra, a chefe do refeitório (talvez a pessoa mais amada e respeitada em toda a escola; uma excelente pessoa e uma excelente profissional, isso posso eu assegurar). O Rui vinha ao longo do corredor e viu-nos. Pára e hesita. Finalmente, decide-se: no seu andar sincopado vem direito a mim e atira-se-me ao pescoço!
Aqui fica a minha saudade desses miúdos tão especiais com quem partilhei muitos passeios, muitas aulas, muitos dias no clube da Matemática e muitos, muitos almoços em alegre convívio na cantina da escola: o Rui, claro, mas também o Pedro, a Patrícia, a Elsa, o Marco e tantos, tantos outros que eu nunca esquecerei...
Fez-me recordar uma outra dimensão minha como professor: o afecto profundo e duradouro que sempre suscitei nos miúdos com NEE's, sem eu nunca conseguir perceber realmente porquê.
Lembro-me do Rui, um miúdo com NEE´s muito profundas. Foi integrado nas minhas aulas de Matemática durante um ou dois anos. Depois, quando me via, parava-me e fazia sempre a mesma pergunta: "Quando é que és meu professor?". Ao que eu invariavelmente respondia: "Para o ano, Rui, para o ano." Passámos anos nisto. Depois ele saiu.
Um dia, veio visitar a escola. Estava eu no refeitório a conversar com alguém. Ali, embora afastada de mim, estava também a Sandra, a chefe do refeitório (talvez a pessoa mais amada e respeitada em toda a escola; uma excelente pessoa e uma excelente profissional, isso posso eu assegurar). O Rui vinha ao longo do corredor e viu-nos. Pára e hesita. Finalmente, decide-se: no seu andar sincopado vem direito a mim e atira-se-me ao pescoço!
Aqui fica a minha saudade desses miúdos tão especiais com quem partilhei muitos passeios, muitas aulas, muitos dias no clube da Matemática e muitos, muitos almoços em alegre convívio na cantina da escola: o Rui, claro, mas também o Pedro, a Patrícia, a Elsa, o Marco e tantos, tantos outros que eu nunca esquecerei...
sábado, outubro 23, 2010
Fernando Nobre para Presidente da República
5ª feira preenchi e assinei o formulário da candidatura de Fernando Nobre à Presidência da República.
Na minha opinião, um Presidente da República deve ter o seguinte perfil: deve ter ideais, estar temperado pelas lutas por esses ideais, ter enfrentado algumas derrotas, estar habituado a lidar com os grupos de pressão e de poder para lhes resistir e conseguir fintá-los, ser simpático para a população em geral para ficar imune às campanhas que os meios de comunicação social inevitavelmente farão a mando dos seus donos e, finalmente, ter a coragem de fazer o que achar que é o melhor para o país.
Fernando Nobre encaixa neste perfil? Não exactamente. Aliás, não acho que seja uma mais-valia ele não ser um político profissional - falta-lhe assim alguma da prática a que me refiro no parágrafo anterior.
Mas não é tíbio nas suas posições e está habituado a ser muito persistente. Pode residir aí boa parte da sua força e da sua resistência.
E é, sem dúvida nenhuma, infinitamente melhor que o inútil que lá está agora. Disse inútil? Perdão, queria dizer o cúmplice do criminoso que, com uma maioria absoluta, arrastou o país para a ruína. E, não satisfeito com a sua cobardia (Jorge Sampaio, esse foi um Presidente que não teve medo de demitir um governo quando viu que o país iria ficar desgraçado) bem como com o facto de ter sido o principal responsável, quando primeiro ministro, por se ter desbaratado a oportunidade de modernizar o país com os fundos da antiga CEE, ainda tem a desfaçatez de pensar em recandidatar-se!
Acedito na integridade de Fernando Nobre.
Acredito que tem qualidades para ajudar a reconstruir um país minado pelas malfeitorias promovidas e perpetradas pelo gang que nos tem governado nos últimos anos.
quinta-feira, outubro 07, 2010
18 anos...
... faz hoje o meu filho.
Fui a Lisboa almoçar com ele e voltei para o Algarve para ir trabalhar.
Sobre todos os acontecimentos marcantes da vida de uma pessoa (e aqui é tanto o filho como os pais) ou se diz muito ou não se diz nada. As emoções que me atravessam são tantas e tão boas que vou recolher-me no silêncio.
Desejo-lhe do mais profundo e intenso do meu coração as maiores felicidades e uma vida plena e inteira.
Fui a Lisboa almoçar com ele e voltei para o Algarve para ir trabalhar.
Sobre todos os acontecimentos marcantes da vida de uma pessoa (e aqui é tanto o filho como os pais) ou se diz muito ou não se diz nada. As emoções que me atravessam são tantas e tão boas que vou recolher-me no silêncio.
Desejo-lhe do mais profundo e intenso do meu coração as maiores felicidades e uma vida plena e inteira.
segunda-feira, outubro 04, 2010
Quando nos querem a trabalhar num sítio...
Tenho aulas durante a manhã e parte da tarde.
Depois, durante o resto da tarde até à noite, vou trabalhar para o centro de explicações.
Aqui, a dona já me garantiu que, quando acabar o curso, posso ali dar consultas (ainda mal comecei o 1º ano!). Claro que 5 anos é muito tempo, mas é bom saber que alguém aprecia o nosso trabalho.
Aliás, quando lhe disse que precisava de tempo para estudar, que não podia fazer o que fiz no ano passado (dar explicações a todas as disciplinas até ao 9º, excepto Físico-Químicas, além de dar também Matemática, Inglês e Português do secundário), ela propôs-me dar explicações sem precisar de gastar tempo a prepará-las, pois outra professora as prepararia.
E, assim, vou lá duas a três horas por dia, sem ter trabalho nenhum antes, o que é muito bom. Devo confessar que ela foi impecável comigo, de facto (deve ser é um bocadinho chato para a outra professora, não sei).
Depois, durante o resto da tarde até à noite, vou trabalhar para o centro de explicações.
Aqui, a dona já me garantiu que, quando acabar o curso, posso ali dar consultas (ainda mal comecei o 1º ano!). Claro que 5 anos é muito tempo, mas é bom saber que alguém aprecia o nosso trabalho.
Aliás, quando lhe disse que precisava de tempo para estudar, que não podia fazer o que fiz no ano passado (dar explicações a todas as disciplinas até ao 9º, excepto Físico-Químicas, além de dar também Matemática, Inglês e Português do secundário), ela propôs-me dar explicações sem precisar de gastar tempo a prepará-las, pois outra professora as prepararia.
E, assim, vou lá duas a três horas por dia, sem ter trabalho nenhum antes, o que é muito bom. Devo confessar que ela foi impecável comigo, de facto (deve ser é um bocadinho chato para a outra professora, não sei).
domingo, outubro 03, 2010
And now for something completely... silly!
Depois de ter passado o dia a estudar Psicologia, I want to be silly!
Quando fiz o curso de teatro, António Feio falava-nos de Rowan Atkinson com imensa admiração, pela sua capacidade de fazer sketches incrivelmente cómicos a partir de quase nada. É o caso deste aqui.
Quando fiz o curso de teatro, António Feio falava-nos de Rowan Atkinson com imensa admiração, pela sua capacidade de fazer sketches incrivelmente cómicos a partir de quase nada. É o caso deste aqui.
sexta-feira, outubro 01, 2010
Prazo e balanço
Ontem acabou o prazo para interromper a minha licença sem vencimento a fim de, no próximo ano lectivo, regressar à escola pública.
Tirando o eu adorar ensinar e dar aulas, não há razão nenhuma que me faça sequer considerar a hipótese de voltar. Portanto, não volto.
Devo, aliás, confessar: nunca, em toda a minha existência, me senti a viver tão plenamente feliz como agora! Meter a licença, vir para o Algarve (onde as pessoas se têm revelado de uma imensa simpatia e afabilidade), para esta bela casa, e estar com a Adriana (e com a nossa "família" de animaizinhos - 2 cães, 2 gatos e 2 periquitos) foi, portanto, a coisa mais iluminadamente sensata que eu alguma vez fiz.
Tirando o eu adorar ensinar e dar aulas, não há razão nenhuma que me faça sequer considerar a hipótese de voltar. Portanto, não volto.
Devo, aliás, confessar: nunca, em toda a minha existência, me senti a viver tão plenamente feliz como agora! Meter a licença, vir para o Algarve (onde as pessoas se têm revelado de uma imensa simpatia e afabilidade), para esta bela casa, e estar com a Adriana (e com a nossa "família" de animaizinhos - 2 cães, 2 gatos e 2 periquitos) foi, portanto, a coisa mais iluminadamente sensata que eu alguma vez fiz.
quarta-feira, setembro 22, 2010
Início de ano lectivo em grande!
Comecei com o curso e comecei com as explicações.
Quanto ao curso, estou entusiasmadíssimo! Com os conteúdos, com as condições que são dadas aos alunos para eles poderem aprender mais e melhor (em comparação com o meu curso de há 30 anos os alunos, hoje, são uns privilegiados na completa acepção do termo!) e com os métodos de ensino (muito mais adequados ao que é ensinado). Tenho imensa pena de, estando a trabalhar, não poder aproveitar integralmente tudo isto (vou ter, por exemplo, de fazer algumas disciplinas por exame pois não tenho tempo para fazer todos os trabalhos de grupo).
E as explicações... como eu gosto de ensinar! Uma explicação de Matemática que eu dê e fico quase no cume da plenitude! Apesar de não apreciar grandemente o ensino por explicações. Que pena. Bom, não vou perder tempo a pensar nisso.
Quanto ao curso, estou entusiasmadíssimo! Com os conteúdos, com as condições que são dadas aos alunos para eles poderem aprender mais e melhor (em comparação com o meu curso de há 30 anos os alunos, hoje, são uns privilegiados na completa acepção do termo!) e com os métodos de ensino (muito mais adequados ao que é ensinado). Tenho imensa pena de, estando a trabalhar, não poder aproveitar integralmente tudo isto (vou ter, por exemplo, de fazer algumas disciplinas por exame pois não tenho tempo para fazer todos os trabalhos de grupo).
E as explicações... como eu gosto de ensinar! Uma explicação de Matemática que eu dê e fico quase no cume da plenitude! Apesar de não apreciar grandemente o ensino por explicações. Que pena. Bom, não vou perder tempo a pensar nisso.
domingo, setembro 19, 2010
Publicidade
Aderi ontem ao Facebook. Por razões profissionais, essencialmente. Daí que os dados que lá introduzi tenham uma componente forte de propaganda. São todos verdadeiros, evidentemente. Mas não pertencem à minha intimidade (tirando a relationship e, de certa forma, o álbum de fotos "Os meus afectos", porque ambos se referem a pessoas cujas ideias e maneiras de estar na vida me constituem referências fundamentais).
No entanto, incomodou-me um pouco fazer isto. A publicidade baseia-se essencialmente no auto-elogio, esperando-se que as pessoas acreditem no que é dito em causa própria, nem que seja à força da repetição. A mim parece-me, porém, absurda tal assunção. Só que ela está, certamente, fundada em dados incontroversos por parte dos publicitários. Seja como for, a verdade é que a credulidade das pessoas, quando dela sou testemunha, nunca deixa de me surpreender.
Assim, lá fiz publicidade a mim próprio. Mas com factos e apreciações de outros, não pondo nada do que eu penso de mim mesmo (ah, talvez apenas indirectamente, pelas escolhas que fiz!).
(imagem tirada daqui)
Adenda às 19:42:
Pensando bem, a minha própria credulidade, depois de eu ter sido vítima dela, nunca deixa também de me surpreender!
No entanto, incomodou-me um pouco fazer isto. A publicidade baseia-se essencialmente no auto-elogio, esperando-se que as pessoas acreditem no que é dito em causa própria, nem que seja à força da repetição. A mim parece-me, porém, absurda tal assunção. Só que ela está, certamente, fundada em dados incontroversos por parte dos publicitários. Seja como for, a verdade é que a credulidade das pessoas, quando dela sou testemunha, nunca deixa de me surpreender.
Assim, lá fiz publicidade a mim próprio. Mas com factos e apreciações de outros, não pondo nada do que eu penso de mim mesmo (ah, talvez apenas indirectamente, pelas escolhas que fiz!).
(imagem tirada daqui)
Adenda às 19:42:
Pensando bem, a minha própria credulidade, depois de eu ter sido vítima dela, nunca deixa também de me surpreender!
sábado, setembro 18, 2010
Indomabilidade
Ontem foi a última sessão da Universidade de Verão - Estudos Sobre o Mediterrâneo. Esta actividade consistiu num conjunto de eventos (palestras, laboratórios e visitas guiadas) com a finalidade de dar a conhecer algumas áreas trabalhadas pelos professores da Universidade do Algarve. Foram duas semanas em Loulé cheias de interesse e de entusiasmo.
Recordo a palestra "La Conformación Poliédrica de la Identidad Española: del Atlántico al Mediterráneo". A uma dada altura, a Mestre Maria de Jesus Botana Vilar perguntou à assistência qual era a primeira ideia que vinha à cabeça das pessoas quando se falava do povo espanhol. A resposta imediata foi: orgulho. E Maria de Jesus confirmou que essa era a resposta habitual que recebia.
Lembrei-me das Festas de Ayamonte, em que a Adriana e eu fomos a um espectáculo da Banda do Samouco na Casa da Cultura. Um grupo de deficientes profundos estava também a assistir ao concerto. Chamou-nos a atenção a forma como eles se deslocavam pela sala (alguns tiveram de ir várias vezes à casa de banho a meio da sessão): sem arrogância nem ridículo, mas de cabeça levantada e com uma postura a todos os títulos plena de dignidade.
Lembrei-me também de José Mendes Cabeçadas Júnior, um homem sempre inconformado, lutando sempre por um país melhor e que nunca se vergou a nenhum poder: desde 1910, em que participa na revolução republicana, até 1965, ano da sua morte, a sua vida é uma sucessão de revoltas, conspirações, batalhas pessoais, tudo em prol de um ideal de democracia. Sem nunca esmorecer, sem nunca se resignar. Esta é a foto sua (do Museu da República) que mais aprecio: parece que Mendes Cabeçadas nos interpela directamente, sem agressividade mas também sem passividade ou medo.
Há, sem dúvida, qualquer coisa que falta aos portugueses de hoje.
(Nota: A Câmara Municipal de Loulé, nas comemorações do centenário da República, promoveu a edição de um pequeno livro de banda desenhada, de José Carlos Fernandes e de Roberto Gomes, intitulado "José Mendes Cabeçadas Júnior - Um Espírito Indomável", de onde tirei o título deste post.)
Recordo a palestra "La Conformación Poliédrica de la Identidad Española: del Atlántico al Mediterráneo". A uma dada altura, a Mestre Maria de Jesus Botana Vilar perguntou à assistência qual era a primeira ideia que vinha à cabeça das pessoas quando se falava do povo espanhol. A resposta imediata foi: orgulho. E Maria de Jesus confirmou que essa era a resposta habitual que recebia.
Lembrei-me das Festas de Ayamonte, em que a Adriana e eu fomos a um espectáculo da Banda do Samouco na Casa da Cultura. Um grupo de deficientes profundos estava também a assistir ao concerto. Chamou-nos a atenção a forma como eles se deslocavam pela sala (alguns tiveram de ir várias vezes à casa de banho a meio da sessão): sem arrogância nem ridículo, mas de cabeça levantada e com uma postura a todos os títulos plena de dignidade.
Lembrei-me também de José Mendes Cabeçadas Júnior, um homem sempre inconformado, lutando sempre por um país melhor e que nunca se vergou a nenhum poder: desde 1910, em que participa na revolução republicana, até 1965, ano da sua morte, a sua vida é uma sucessão de revoltas, conspirações, batalhas pessoais, tudo em prol de um ideal de democracia. Sem nunca esmorecer, sem nunca se resignar. Esta é a foto sua (do Museu da República) que mais aprecio: parece que Mendes Cabeçadas nos interpela directamente, sem agressividade mas também sem passividade ou medo.
Há, sem dúvida, qualquer coisa que falta aos portugueses de hoje.
(Nota: A Câmara Municipal de Loulé, nas comemorações do centenário da República, promoveu a edição de um pequeno livro de banda desenhada, de José Carlos Fernandes e de Roberto Gomes, intitulado "José Mendes Cabeçadas Júnior - Um Espírito Indomável", de onde tirei o título deste post.)
sexta-feira, setembro 17, 2010
Novo visual

Quem me conhece daqui dos blogs sabe que a imagem que sempre usei no meu perfil foi esta: Leonard Cohen (May you live as long as you like, and have what you like as long as you live!) nos anos 60, na ilha de Hydra, Grécia (hoje tirada daqui). É o cantor estrangeiro mais próximo do meu coração desde a minha juventude e, como nesta foto ele está de costas, escolhi-a para me representar.
Acompanhando o início daquele que espero ser um dos últimos reajustamentos na nova direcção que a minha vida tomou, decidi mudar o visual do blog e o meu perfil.
É com pena, confesso, que me "descolo" desta fotografia que me acompanhou na web durante os últimos 7 anos. Aqui fica a sua memória.
quinta-feira, setembro 16, 2010
Novo blog... em Psicologia!
quarta-feira, setembro 15, 2010
Vergílio Ferreira - Ser Professor
A relação de Vergílio Ferreira com o ensino é uma relação de prisão, de sofrimento, de inconformismo com tudo o que é menor na Educação.
A única coisa que alivia este "peso", esta "condenação", "chatice", "degradação", "afrontosa invasão de uma vida que me nega", etc, etc, é o bom aluno: o que sente apetência pelo saber, o que tem disponibilidade dentro de si para apreciar esse saber, o que trabalha e se esforça por obter um acesso priviligiado ao núcleo, à essência desse saber.
Hoje ainda há alguns, poucos é certo, bons alunos. Mas, tirando em algumas escolas bafejadas pela sorte, a sua voz e a sua presença encontram-se abafadas em turmas onde, por imposição de sucessivos governos, a selvajaria se tem vindo a impôr cada vez mais.
Hoje Vergílio Ferreira ou não aguentaria ou nunca seria o Vergílio Ferreira que foi...
Para mim, este (Vergílio Ferreira - O Excesso da Arte num Professor por Defeito ) é um livro triste.
Fez-me lembrar outros tempos onde se podia imaginar ser o outro professor que Vergílio Ferreira invoca, por oposição ao desautorizado mensageiro, burocrata programado do saber e escravo de horários embrutecedores, em que o docente de hoje se tornou.
A única coisa que alivia este "peso", esta "condenação", "chatice", "degradação", "afrontosa invasão de uma vida que me nega", etc, etc, é o bom aluno: o que sente apetência pelo saber, o que tem disponibilidade dentro de si para apreciar esse saber, o que trabalha e se esforça por obter um acesso priviligiado ao núcleo, à essência desse saber.
Hoje ainda há alguns, poucos é certo, bons alunos. Mas, tirando em algumas escolas bafejadas pela sorte, a sua voz e a sua presença encontram-se abafadas em turmas onde, por imposição de sucessivos governos, a selvajaria se tem vindo a impôr cada vez mais.
Hoje Vergílio Ferreira ou não aguentaria ou nunca seria o Vergílio Ferreira que foi...
Para mim, este (Vergílio Ferreira - O Excesso da Arte num Professor por Defeito ) é um livro triste.
Fez-me lembrar outros tempos onde se podia imaginar ser o outro professor que Vergílio Ferreira invoca, por oposição ao desautorizado mensageiro, burocrata programado do saber e escravo de horários embrutecedores, em que o docente de hoje se tornou.
terça-feira, setembro 14, 2010
Redesenhar o futuro
Ontem formalizei uma nova direcção para a minha vida.
Tendo concorrido em Agosto aos concursos especiais para tirar uma licenciatura na universidade, consegui obter uma vaga em Psicologia. E ontem matriculei-me.
Porquê Psicologia? Porque tenho bastantes conhecimentos nessa área, porque gosto muito e porque é uma profissão que não implica necessariamente "conseguir arranjar um emprego", posso abrir um consultório.
Hoje em dia, nas áreas tenológicas, ou se se manteve actualizado ou fica-se de fora. Além disso, a idade é um factor extremamente negativo. Aliás, recomenda-se aos profissionais nestas áreas que, a partir dos 35 anos, comecem a pensar mudar para uma carreira de gestão ou comecem a pensar em montar um negócio próprio. Quem não faz isso arrisca-se a perder tudo. Deste modo, o meu curso de Engenharia Civil, tirado há mais de 30 anos, hoje em dia revela-se pouco mais que inútil.
Psicologia - uma nova direcção, um novo horizonte que se abre à minha frente: estou muito entusiasmado!
Tendo concorrido em Agosto aos concursos especiais para tirar uma licenciatura na universidade, consegui obter uma vaga em Psicologia. E ontem matriculei-me.
Porquê Psicologia? Porque tenho bastantes conhecimentos nessa área, porque gosto muito e porque é uma profissão que não implica necessariamente "conseguir arranjar um emprego", posso abrir um consultório.
Hoje em dia, nas áreas tenológicas, ou se se manteve actualizado ou fica-se de fora. Além disso, a idade é um factor extremamente negativo. Aliás, recomenda-se aos profissionais nestas áreas que, a partir dos 35 anos, comecem a pensar mudar para uma carreira de gestão ou comecem a pensar em montar um negócio próprio. Quem não faz isso arrisca-se a perder tudo. Deste modo, o meu curso de Engenharia Civil, tirado há mais de 30 anos, hoje em dia revela-se pouco mais que inútil.
Psicologia - uma nova direcção, um novo horizonte que se abre à minha frente: estou muito entusiasmado!
terça-feira, setembro 07, 2010
Vergílio Ferreira e o professor "pau para toda a obra"
Vergílio Ferreira escreveu o que se segue em 1942 (os parágrafos e os negritos são da minha responsabilidade):
"À força de voltar os olhos para a criança, esqueceu-se um pouco que o professor também existe.
Ora, se o sujeito que recebe o ensino deve ser considerado antes de mais nada, não é menos verdade que o ensino é, apesar de tudo, uma relação e que se devem encarar os dois termos dessa relação.
Além disso não se deve ter a ficçao do professor "apto para tudo". Ele tem, também, a sua individualidade.
O professor deve perguntar a si mesmo: como vou organizar o meu ensino de maneira a utilizar o melhor possível as minhas aptidões particulares?
Porque há, entre os mestres, todas as variedades: espíritos concretos, abstractos, há os que têm uma eloquência segura, os que a têm hesitante, científicas, literárias, etc.
E nem sempre se está bem adaptado ao género de ensino exigido. Eis porque é preciso encarar também o problema da individualização do ensino, a formação dos mestres. Haveria muitas reformas a fazer. [...]
O conhecimento mesmo perfeito da teoria metodológica não pode por si só assegurar a perfeição do professor, da mesma forma que a ciência médica, só, não faz os bons médicos. [...]
Porque a pedagogia, dissemo-lo ao começar e repetimo-lo ao acabar, não é somente uma ciência, mas também uma arte. E a arte é um dom fino, delicado, mas incomunicável."
A actualidade deste texto torna-o muito adequado ao ano lectivo que se inicia. Há também que reconhecer o pensador profundo e extraordinariamente lúcido que Vergílio Ferreira foi. E podemos lembrar-nos que este texto ganha novos sentidos sabendo como hoje não se liga à necessidade do saber científico do professor e, por consequência, não se tem pejo em afirmar que um professor já o não é de um saber, mas de variados e múltiplos (nem interessa bem quais, desde que se possa pô-lo a fazer qualquer coisa).
(Maria Almira Soares, Vergílio Ferreira - O Excesso da Arte num Professor por Defeito, Difel, Lisboa, 2010 pp. 115/116)
"À força de voltar os olhos para a criança, esqueceu-se um pouco que o professor também existe.
Ora, se o sujeito que recebe o ensino deve ser considerado antes de mais nada, não é menos verdade que o ensino é, apesar de tudo, uma relação e que se devem encarar os dois termos dessa relação.
Além disso não se deve ter a ficçao do professor "apto para tudo". Ele tem, também, a sua individualidade.
O professor deve perguntar a si mesmo: como vou organizar o meu ensino de maneira a utilizar o melhor possível as minhas aptidões particulares?
Porque há, entre os mestres, todas as variedades: espíritos concretos, abstractos, há os que têm uma eloquência segura, os que a têm hesitante, científicas, literárias, etc.
E nem sempre se está bem adaptado ao género de ensino exigido. Eis porque é preciso encarar também o problema da individualização do ensino, a formação dos mestres. Haveria muitas reformas a fazer. [...]
O conhecimento mesmo perfeito da teoria metodológica não pode por si só assegurar a perfeição do professor, da mesma forma que a ciência médica, só, não faz os bons médicos. [...]
Porque a pedagogia, dissemo-lo ao começar e repetimo-lo ao acabar, não é somente uma ciência, mas também uma arte. E a arte é um dom fino, delicado, mas incomunicável."
A actualidade deste texto torna-o muito adequado ao ano lectivo que se inicia. Há também que reconhecer o pensador profundo e extraordinariamente lúcido que Vergílio Ferreira foi. E podemos lembrar-nos que este texto ganha novos sentidos sabendo como hoje não se liga à necessidade do saber científico do professor e, por consequência, não se tem pejo em afirmar que um professor já o não é de um saber, mas de variados e múltiplos (nem interessa bem quais, desde que se possa pô-lo a fazer qualquer coisa).
(Maria Almira Soares, Vergílio Ferreira - O Excesso da Arte num Professor por Defeito, Difel, Lisboa, 2010 pp. 115/116)
sexta-feira, setembro 03, 2010
Vergílio Ferreira - Professor, apesar de...

O meu amigo Méon, sabendo que Vergílio Ferreira é o meu escritor preferido (na verdade, é muito, muito mais do que uma simples preferência), ofereceu-me este livro interessantíssimo.
A capa é fabulosa. A imagem aqui não lhe faz a devida justiça. A fotografia perfeita de um Vergílio Ferreira sereno e pensativo; uma antiga caneta de tinta permanente aberta sobre uma página, presumivelmente escrita pelo próprio; tudo isto compondo uma imagem que suscita uma enorme comoção. Tudo nimbado por um tom a meio caminho entre o sépia e o rosa. A contracapa é o natural complemento: livros. De tal maneira tudo isto está perfeito que olho para este livro como contemplo uma obra de arte; há muito tempo que isto não me acontecia.
Vou a meio da sua leitura. É um livro para múltiplas leituras. Relevo aqui duas:
- Para mim esta tem sido a mais marcante: o reencontro com o escritor com quem estava habituado a "dialogar" durante a sua vida, obra após obra.
- Mas, igualmente estimulante, acompanhando a forma sofrida e reflectida como Vergílio Ferreira viveu a profissão de professor (que ele não amou), e o modo como Maria Almira Soares nos guia nessa descoberta e nesse conhecimento, somos levados a (re)pensar esta profissão, e a repensarmo-nos nela.
Tenho tomado imensas notas, em resposta a tanta coisa que é referida por Maria Almira Soares neste seu trabalho, que inclui numerosos inéditos do escritor. Se achar que algumas dessas notas poderão ser interessantes de registo, voltarei aqui.
Mas não tenho dúvidas em afirmar: trata-se de um excelente livro - para ser manuseado, para ser contemplado, para ser lido, para ser relido. Obrigado, Méon!
quarta-feira, setembro 01, 2010
Ferida
Dia 1 de Setembro. Início do ano lectivo nas escolas. Vou-me distanciando a pouco e pouco. Mas muito pouco.
A minha decisão de abandonar uma carreira de 24 anos de professor, ditada por um conjunto esmagador de condições, nomeadamente,
- impedirem-me de ensinar o que sei;
- obrigarem-me a ensinar o que não sei;
- recusarem-me a formação necessária à adaptação;
- submeterem-me a uma avaliação rigorosamente pormenorizada nestas condições;
- estar sujeito a todo o tipo de indignidades (palavrões, insultos, ameaças e agressões);
- ser objecto de desprezo de toda uma sociedade, a começar no governo e a acabar nos alunos;
- sentir-me impotente face à arbitrariedade e à tirania (Não sou só eu. E ainda continua actualmente. Recordo as palavras do Provedor de Justiça: "Perante a insuficiente resposta da Ministra da Educação, considerou o provedor de justiça, (...), não poder haver lugar a outra intervenção útil", informa. Por isso, o processo foi arquivado., Público, 13/8/2010);
- ser suposto eu ter de obedecer a regras e a leis criminosamente absurdas (como, por exemplo, as que me impedem de proteger , cuidar e ajudar os alunos mais fracos e vulneráveis),
abriram uma ferida que eu acho que nunca conseguirei vir a fechar.
A minha decisão de abandonar uma carreira de 24 anos de professor, ditada por um conjunto esmagador de condições, nomeadamente,
- impedirem-me de ensinar o que sei;
- obrigarem-me a ensinar o que não sei;
- recusarem-me a formação necessária à adaptação;
- submeterem-me a uma avaliação rigorosamente pormenorizada nestas condições;
- estar sujeito a todo o tipo de indignidades (palavrões, insultos, ameaças e agressões);
- ser objecto de desprezo de toda uma sociedade, a começar no governo e a acabar nos alunos;
- sentir-me impotente face à arbitrariedade e à tirania (Não sou só eu. E ainda continua actualmente. Recordo as palavras do Provedor de Justiça: "Perante a insuficiente resposta da Ministra da Educação, considerou o provedor de justiça, (...), não poder haver lugar a outra intervenção útil", informa. Por isso, o processo foi arquivado., Público, 13/8/2010);
- ser suposto eu ter de obedecer a regras e a leis criminosamente absurdas (como, por exemplo, as que me impedem de proteger , cuidar e ajudar os alunos mais fracos e vulneráveis),
abriram uma ferida que eu acho que nunca conseguirei vir a fechar.
sábado, agosto 28, 2010
Bob Dylan Covers
Daqui a 200 anos Bob Dylan será ouvido e tocado e cantado como hoje o é Beethoven, disso não tenho dúvidas quase nenhumas (apesar de ele não ser o meu cantor/autor preferido).
Um critério possível da perenidade de uma canção ou de um cantor poderá ser o número de covers que gerou.
De acordo com o registo feito (e em permanente actualização) em DylanCover.com, até 23 de Agosto de 2010 foram contabilizados 30.910 covers de canções de Bob Dylan!
Talvez a minha canção preferida de Bob Dylan seja Visions of Johanna, na interpretação que ele faz no conhecido por "The Royal Albert Hall Concert" e que aparece no 4º volume das Bootleg Series. Algumas imagens aparecem no documentário de Scorsese, "No Direction Home":
Uma versão cover desta canção muito, muito do meu agrado é a de Marianne Faithful:
A terminar, talvez a minha versão cover preferida de uma canção de Bob Dylan: It's All Over Now, Baby Blue, cantada por Eric Burdon and The Animals:
Uma nota final acerca destas duas canções: terão em comum o poderem referir-se ao fim da relação de Bob Dylan com Joan Baez. Tal nunca foi confirmado por Bob Dylan.
Um critério possível da perenidade de uma canção ou de um cantor poderá ser o número de covers que gerou.
De acordo com o registo feito (e em permanente actualização) em DylanCover.com, até 23 de Agosto de 2010 foram contabilizados 30.910 covers de canções de Bob Dylan!
Talvez a minha canção preferida de Bob Dylan seja Visions of Johanna, na interpretação que ele faz no conhecido por "The Royal Albert Hall Concert" e que aparece no 4º volume das Bootleg Series. Algumas imagens aparecem no documentário de Scorsese, "No Direction Home":
Visions of Johanna from ramonramon on Vimeo.
Uma versão cover desta canção muito, muito do meu agrado é a de Marianne Faithful:
A terminar, talvez a minha versão cover preferida de uma canção de Bob Dylan: It's All Over Now, Baby Blue, cantada por Eric Burdon and The Animals:
Uma nota final acerca destas duas canções: terão em comum o poderem referir-se ao fim da relação de Bob Dylan com Joan Baez. Tal nunca foi confirmado por Bob Dylan.
domingo, agosto 22, 2010
Explicação da história triste de uma (quase) revolta
A primeira greve de professores da era Sócrates/Lurdes teve uma adesão ínfima. Foi uma informação preciosa para estes governantes, pois ficaram a saber que tudo lhes era permitido, que tudo se poderia fazer e dizer dos professores, que tudo se poderia pôr os professores a fazer. Mas desde que não se tocasse no ordenado destes (por mais baixo e sem evolução que eles o pusessem) e, consequentemente, na segurança e no futuro das suas famílias.
Os professores impunham, no entanto, uma condição que aqueles responsáveis não tiveram a sensibilidade de perceber. Essa condição era que não os responsabilizassem, de facto, pelos actos que executariam em obediência às fantasias delirantes desses mesmos governantes.
Animados pela apatia dos professores e depois de terem congelado ordenados, aumentado brutalmente o horário de trabalho na escola, destruído a carreira docente, Sócrates e Lurdes vão tentar impor-lhes um sistema de avaliação muito mais exigente. Isto é, um sistema que obriga os docentes a responsabilizarem-se e a serem responsabilizados por esses mesmos actos que ficaram obrigados a executar.
É nesta altura, e apenas nesta altura, que a contestação dos professores explode: executar actos que vão contra toda a sensibilidade ética e todo o bom senso era uma coisa; outra, completamente diferente, era tornar os professores responsáveis por esses mesmos actos. Na verdade, se até aí todas as medidas tomadas não fizeram mais do que agitar levemente a grande massa dos docentes, é com este sistema de avaliação absurdo (que, por exemplo, em cada ano obriga a dar mais notas positivas do que no ano anterior) que surge a revolta generalizada que, aliás, vai procurar pôr, tardiamente, tudo em causa.
Numa sociedade sem valores, sem solidariedade, fraca, individualista, realmente a única fidelidade que ainda sobra (sendo, de facto, a mais invocada por todos os que recuaram na luta que se seguiu, incluindo pelos dirigentes sindicais que traíram colegas e sindicatos) é a que se refere à sua própria família.
Trair, mentir, fechar os olhos, falsificar resultados, etc., não constituem (ainda, pelo menos) uma segunda natureza de pessoas que, até pelo tipo de profissão que abraçaram, são habitualmente honestas e verdadeiras. Tornaram-se, no entanto, numa competência profissional, afinada e posta em jogo nas escolas com eficácia por pressão dos governantes. Que manipulam os docentes jogando subliminarmente com esse reduto sagrado para a generalidade das pessoas que é a protecção da família.
E quase todos caíram nesta armadilha perversa: eu testemunhei casos de, como já disse, dirigentes sindicais, mas também de conselhos directivos (recordo que bastou um, um Conselho Directivo apresentar a sua demissão para Lurdes vir, assustada, para os jornais dizer que tinha sido mal interpretada), de docentes em topo de carreira, tudo pessoas que pouco teriam a temer. Mas que, apesar disso, também eles optaram por abandonar a luta. Em nome da segurança familiar.
Nota final. Onde me situo eu nesta triste história? Exactamente no meio. Esta também foi a minha experiência. Apesar de fazer todas as greves, de ir a todas as manifestações, eu também fui engolindo até à náusea tudo o que o par Sócrates/Lurdes foi-nos obrigando a fazer (incluindo concorrer e tornar-me professor "titular"). A minha revolta também só nasceu com a tentativa de imposição daquele sistema de avaliação. A única pequena (digo-o com vergonha e sem ironia) diferença é que levei a luta até ao fim, bati-me inclusivamente pela sua radicalização (defendi que ela deveria começar por incluir greves da fome), mas acabei por, não sei bem... fugir?, recusar-me a ser cúmplice comprado? Talvez ambas as coisas.
Os professores impunham, no entanto, uma condição que aqueles responsáveis não tiveram a sensibilidade de perceber. Essa condição era que não os responsabilizassem, de facto, pelos actos que executariam em obediência às fantasias delirantes desses mesmos governantes.
Animados pela apatia dos professores e depois de terem congelado ordenados, aumentado brutalmente o horário de trabalho na escola, destruído a carreira docente, Sócrates e Lurdes vão tentar impor-lhes um sistema de avaliação muito mais exigente. Isto é, um sistema que obriga os docentes a responsabilizarem-se e a serem responsabilizados por esses mesmos actos que ficaram obrigados a executar.
É nesta altura, e apenas nesta altura, que a contestação dos professores explode: executar actos que vão contra toda a sensibilidade ética e todo o bom senso era uma coisa; outra, completamente diferente, era tornar os professores responsáveis por esses mesmos actos. Na verdade, se até aí todas as medidas tomadas não fizeram mais do que agitar levemente a grande massa dos docentes, é com este sistema de avaliação absurdo (que, por exemplo, em cada ano obriga a dar mais notas positivas do que no ano anterior) que surge a revolta generalizada que, aliás, vai procurar pôr, tardiamente, tudo em causa.
Numa sociedade sem valores, sem solidariedade, fraca, individualista, realmente a única fidelidade que ainda sobra (sendo, de facto, a mais invocada por todos os que recuaram na luta que se seguiu, incluindo pelos dirigentes sindicais que traíram colegas e sindicatos) é a que se refere à sua própria família.
Trair, mentir, fechar os olhos, falsificar resultados, etc., não constituem (ainda, pelo menos) uma segunda natureza de pessoas que, até pelo tipo de profissão que abraçaram, são habitualmente honestas e verdadeiras. Tornaram-se, no entanto, numa competência profissional, afinada e posta em jogo nas escolas com eficácia por pressão dos governantes. Que manipulam os docentes jogando subliminarmente com esse reduto sagrado para a generalidade das pessoas que é a protecção da família.
E quase todos caíram nesta armadilha perversa: eu testemunhei casos de, como já disse, dirigentes sindicais, mas também de conselhos directivos (recordo que bastou um, um Conselho Directivo apresentar a sua demissão para Lurdes vir, assustada, para os jornais dizer que tinha sido mal interpretada), de docentes em topo de carreira, tudo pessoas que pouco teriam a temer. Mas que, apesar disso, também eles optaram por abandonar a luta. Em nome da segurança familiar.
Nota final. Onde me situo eu nesta triste história? Exactamente no meio. Esta também foi a minha experiência. Apesar de fazer todas as greves, de ir a todas as manifestações, eu também fui engolindo até à náusea tudo o que o par Sócrates/Lurdes foi-nos obrigando a fazer (incluindo concorrer e tornar-me professor "titular"). A minha revolta também só nasceu com a tentativa de imposição daquele sistema de avaliação. A única pequena (digo-o com vergonha e sem ironia) diferença é que levei a luta até ao fim, bati-me inclusivamente pela sua radicalização (defendi que ela deveria começar por incluir greves da fome), mas acabei por, não sei bem... fugir?, recusar-me a ser cúmplice comprado? Talvez ambas as coisas.
terça-feira, agosto 17, 2010
Promessa, de Vergílio Ferreira

Comecei agora a ler este livro de 1947, nunca antes publicado. Da Introdução de Fernanda Irene Fonseca e de Helder Godinho respigo este pedaço:
"É o seu primeiro romance «de ideias», para que escolheu um epígrafe de Hegel, reveladora do influxo das leituras de obras filosóficas que tinha começado a fazer nessa época."
Trabalho de leitura, de estudo e de investigação que Vergílio Ferreira nunca mais deixou de fazer desde então. E do qual, nós leitores, fomos dando conta através dos romances, diários e ensaios que foi escrevendo, pois era neles e através deles que Vergílio Ferreira elaborava a sua reflexão sobre essas leituras.
De repente, dou-me conta em toda a sua dimensão que toda a obra de Vergílio Ferreira se baseou num profundo saber filosófico e artístico. Veja-se: 22 volumes de ficção, 12 de diário e... 13 de ensaios!
Pergunto-me: que escritor português apresenta uma obra, dividida deste modo, com tal extensão, profundidade e beleza, sim, Beleza, entre o Pensar e o Sentir?
Não cometo a injustiça de aplicar esta pergunta aos contemporâneos, pois hoje mal lhes sobra tempo para escrever bem (digo isto sinceramente, não com ironia, mas com muita pena, deles e de nós, sociedade que tanto perde com esta ausência de tempo) e para não serem completamente ignorantes.
Não, atenho-me até a um passado recente. Eduardo Prado Coelho poderia aproximar-se, se não se distribuísse por tantas formas de arte e de filosofia e se tivesse escrito ficção (o que não fez) - aliás, é curioso que Vergílio Ferreira se sentia feliz quando conseguia ler uma novidade no campo das ideias antes de EPC o ter feito, e disso dava conta no seu Conta-Corrente.
Alexandre Herculano? Almeida Garrett? Oliveira Martins? A verdade é que, como Vergílio Ferreira, não há muitos mais.
sábado, agosto 14, 2010
Tal Ben-Shahar - My Best Career Advice
Tal Ben-Shahar
Question: What is the best career advice you've ever received?
Tal Ben Shahar: The best advice that I got was from my philosophy teacher, Ohad Kamin.
After graduating from college and feeling very lost, I went to him, and his advice was:
"Tal, think about the things that you want to do and write them down. Then look at these things and identify the things that you really want to do, and write these down. And from those things, identify the things that you really, really want to do, and then go ahead and do it".
You know, life is short. We don't have that much time. And it's too short to do what we feel that we have to do; it's barely long enough to do what we want to do.
(via)
Vivi quase toda a minha vida dominado pelo medo dos outros, procurando não ir muito contra o que os outros queriam de mim; quando não correspondia ao esperado era por ter ainda mais medo de outra coisa qualquer. Em suma, fui sempre aceitando o que os outros decidiam muito mais do que fui impondo a minha vontade ou as minhas preferências.
Confesso que tenho de agradecer a Jorge Pedreira, secretário de estado da educação, o início de uma orientação diferente para a minha vida. Em Dezembro de 2008, ele apareceu na televisão com ameaças aos professores. Para mim, era a gota de água numa vida mergulhada no medo, numa vida delineada pelo medo, numa vida controlada pelo medo. O que aconteceu naquele momento foi ter percebido que, com aquelas ameaças, Jorge Pedreira me estava a impedir de escolher em liberdade e que eu não podia, dum ponto de vista ético, fazer mais nada senão desobedecer-lhe. A verdade é que, logo a seguir, agonizei com o medo. Só que de repente fiquei farto de toda uma vida "agonizada" no medo. E, silenciosamente, com uma raiva absoluta, tomei a decisão de lutar com todas as minhas forças para que nunca mais as escolhas da minha vida viessem a ser condicionadas pelo medo.
Tem sido um caminho difícil, construído com muitas inseguranças e com muita ansiedade. Mas tenho alguém ao meu lado que me apoia a cem por cento neste meu crescimento, pelo que também tem sido um caminho extremamente compensador, não há palavras para o descrever. Sei que já tenho 52 anos e que é um pouco tarde para recomeçar tudo de novo, para eu começar a fazer as coisas que realmente quero fazer no tempo de vida que me resta... ah, mas só o estar neste caminho, só o tentar já vale tanto a pena que jamais irei recuar neste meu propósito.
Ontem, ao dar com o site onde Tal Ben-Shahar aparece a dizer o que pus no início, acabei a concordar com ele com toda a força da minha alma!
Question: What is the best career advice you've ever received?
Tal Ben Shahar: The best advice that I got was from my philosophy teacher, Ohad Kamin.
After graduating from college and feeling very lost, I went to him, and his advice was:
"Tal, think about the things that you want to do and write them down. Then look at these things and identify the things that you really want to do, and write these down. And from those things, identify the things that you really, really want to do, and then go ahead and do it".
You know, life is short. We don't have that much time. And it's too short to do what we feel that we have to do; it's barely long enough to do what we want to do.
(via)
Vivi quase toda a minha vida dominado pelo medo dos outros, procurando não ir muito contra o que os outros queriam de mim; quando não correspondia ao esperado era por ter ainda mais medo de outra coisa qualquer. Em suma, fui sempre aceitando o que os outros decidiam muito mais do que fui impondo a minha vontade ou as minhas preferências.
Confesso que tenho de agradecer a Jorge Pedreira, secretário de estado da educação, o início de uma orientação diferente para a minha vida. Em Dezembro de 2008, ele apareceu na televisão com ameaças aos professores. Para mim, era a gota de água numa vida mergulhada no medo, numa vida delineada pelo medo, numa vida controlada pelo medo. O que aconteceu naquele momento foi ter percebido que, com aquelas ameaças, Jorge Pedreira me estava a impedir de escolher em liberdade e que eu não podia, dum ponto de vista ético, fazer mais nada senão desobedecer-lhe. A verdade é que, logo a seguir, agonizei com o medo. Só que de repente fiquei farto de toda uma vida "agonizada" no medo. E, silenciosamente, com uma raiva absoluta, tomei a decisão de lutar com todas as minhas forças para que nunca mais as escolhas da minha vida viessem a ser condicionadas pelo medo.
Tem sido um caminho difícil, construído com muitas inseguranças e com muita ansiedade. Mas tenho alguém ao meu lado que me apoia a cem por cento neste meu crescimento, pelo que também tem sido um caminho extremamente compensador, não há palavras para o descrever. Sei que já tenho 52 anos e que é um pouco tarde para recomeçar tudo de novo, para eu começar a fazer as coisas que realmente quero fazer no tempo de vida que me resta... ah, mas só o estar neste caminho, só o tentar já vale tanto a pena que jamais irei recuar neste meu propósito.
Ontem, ao dar com o site onde Tal Ben-Shahar aparece a dizer o que pus no início, acabei a concordar com ele com toda a força da minha alma!
quarta-feira, agosto 11, 2010
Tortura e médicos da CIA
The Journal of American Medical Association publicou um relatório que denuncia o facto de médicos da CIA terem participado em programas que visam aumentar a eficácia das torturas sobre prisioneiros suspeitos de terrorismo. O mesmo já havia sido revelado pelos Physicians For Human Rights.
(via)
O repúdio e o asco são a resposta imediata e natural. Mas se nos abrirmos à lógica de quem defende este tipo de opções, conseguimos identificar as suas (e as nossas?) vozes. Todos nós já as ouvimos de outros; ou, já numa ou noutra altura das nossas vidas, elas foram nossas. E aquele repúdio não passa então, no fundo, de uma forma de auto-ilusão. Porque, depois, na prática, paralisamos. Essas vozes poderiam ser assim:
Reparem, isso não é assim tão mau como querem fazer parecer. Aliás, se não fossemos nós, os actos praticados nos interrogatórios seriam muito mais brutais, nós até funcionamos como uma forma de travão possível face à decisão de torturar, ajudamos a estabelecer limites aceitáveis (ao contrário do que acontece nos países de onde esses terroristas são originários).
Eu penso: o meu filho ou a minha filha estão em risco de morrerem ou de ficarem mutilados num ataque terrorista. Então o que, no fundo, eu estou a fazer é construir uma garantia para que esses ataques nunca mais possam ocorrer. Contemplações com terroristas? Que não têm quaisquer escrúpulos em matar indiscriminadamente? Isso é que seria verdadeiramente estúpido.
Além disso, a verdade é que se trataram de ordens, não era algo que pudéssemos escolher fazer ou não. As ordens são para se cumprirem, sem obediência é a sociedade toda que se desmorona. Temos o dever, moral e legal, de obedecer. Mesmo quando algumas dessas ordens nos parecem pouco lógicas ou humanas.
E é preciso não esquecer que eu tenho filhos para criar, uma família para sustentar. Não posso dar-me ao luxo de perder este emprego. Ainda por cima, se não fosse eu, outro qualquer faria o mesmo: de que valeria a minha recusa? Só arranjaria sarilhos para mim e para a minha família.
Etc.
Perceber que isto não é de todo aceitável, que os meios nunca podem justificar os fins (porque são os meios que fazem os fins), ter a coragem de ser consequente, para evitar o alastrar da banalidade do mal, tudo isto é uma tarefa sempre urgente e necessária, embora seja também uma tarefa imensamente espinhosa e difícil. E que nunca tem um fim.
(via)
O repúdio e o asco são a resposta imediata e natural. Mas se nos abrirmos à lógica de quem defende este tipo de opções, conseguimos identificar as suas (e as nossas?) vozes. Todos nós já as ouvimos de outros; ou, já numa ou noutra altura das nossas vidas, elas foram nossas. E aquele repúdio não passa então, no fundo, de uma forma de auto-ilusão. Porque, depois, na prática, paralisamos. Essas vozes poderiam ser assim:
Reparem, isso não é assim tão mau como querem fazer parecer. Aliás, se não fossemos nós, os actos praticados nos interrogatórios seriam muito mais brutais, nós até funcionamos como uma forma de travão possível face à decisão de torturar, ajudamos a estabelecer limites aceitáveis (ao contrário do que acontece nos países de onde esses terroristas são originários).
Eu penso: o meu filho ou a minha filha estão em risco de morrerem ou de ficarem mutilados num ataque terrorista. Então o que, no fundo, eu estou a fazer é construir uma garantia para que esses ataques nunca mais possam ocorrer. Contemplações com terroristas? Que não têm quaisquer escrúpulos em matar indiscriminadamente? Isso é que seria verdadeiramente estúpido.
Além disso, a verdade é que se trataram de ordens, não era algo que pudéssemos escolher fazer ou não. As ordens são para se cumprirem, sem obediência é a sociedade toda que se desmorona. Temos o dever, moral e legal, de obedecer. Mesmo quando algumas dessas ordens nos parecem pouco lógicas ou humanas.
E é preciso não esquecer que eu tenho filhos para criar, uma família para sustentar. Não posso dar-me ao luxo de perder este emprego. Ainda por cima, se não fosse eu, outro qualquer faria o mesmo: de que valeria a minha recusa? Só arranjaria sarilhos para mim e para a minha família.
Etc.
Perceber que isto não é de todo aceitável, que os meios nunca podem justificar os fins (porque são os meios que fazem os fins), ter a coragem de ser consequente, para evitar o alastrar da banalidade do mal, tudo isto é uma tarefa sempre urgente e necessária, embora seja também uma tarefa imensamente espinhosa e difícil. E que nunca tem um fim.
quinta-feira, agosto 05, 2010
The Devil In You
A propósito do lançamento do último livro de Bret Easton Ellis, Imperial Bedrooms, foi colocado este site na internet. Serve para, muito perversamente, termos uma ideia de quanto de mal temos em nós. Para explicações mais completas em português, ir ao site do Jornal de Letras. Depois, decidir o que fazer.
Sem desculpas: eu fui e "The devil in me" foi de 6% - "You made the moral choice... eventually." E fiquei-me por aqui. Porque sou bonzinho? Não sei. Como isto é um jogo e eu sei o que esperam de mim, não o faço. Não é porque possa fazer realmente mal a alguém, visto que está tudo gravado. Não, é só por mim; por isso, mesmo não havendo ninguém a saber o que eu fizesse, não o faço, nem farei.
terça-feira, agosto 03, 2010
O fim das reprovações: algumas reflexões
À primeira reprovação de um aluno, seguem-se muitas vezes novas retenções ou até o abandono escolar. A constatação é de Álvaro dos Santos, presidente cessante do Conselho de Escolas, e é um dos argumentos que levou este órgão consultivo do Ministério da Educação a defender, antes mesmo da ministra lançar o debate, que "em regra não deve haver retenção de alunos" no ensino primário nem secundário geral.
Este é o argumento que vem das Ciências da Educação para justificar a medida de acabar com as reprovações.
É claro que, dum ponto de vista estatístico, a reprovação atrai a reprovação! O número dos que reprovam hoje em dia é tão reduzido que os poucos a quem isso acontece são casos verdadeiramente desesperados e, normalmente, após anos e anos de passagens sem saber o suficiente. Logo, são alunos que sabem tão pouco e que foram reprovados tão tardiamente, que já não têm grandes hipóteses de passar de ano dado o seu quase irremediável atraso. Não admira que continuem a chumbar nos anos seguintes.
Mas peguemos apenas no raciocínio feito e verifiquemos a sua validade. Um raciocínio paralelo que se poderia fazer seria o seguinte: como todos sabemos que, à primeira pena de prisão de um criminoso, se seguem novas penas ou até o mergulho prolongado numa carreira do crime (com o que aprendem nas prisões e com os contactos que lá fazem), logo a conclusão deveria ser a de acabar com as prisões...
Um outro erro de raciocínio é que só nos centramos na escassa minoria que reprova. E quanto à extensíssima maioria que passa? É que eu atrevo-me a pensar que a esmagadora maioria dos alunos que passam só estuda porque tem medo de reprovar.
Atente-se na estrada onde nem sequer a forte probabilidade de matar e/ou morrer - não estamos a falar de simples chumbos - é travão suficiente para adultos "responsáveis" cumprirem o que se espera deles. Não, apenas o medo da polícia à vista os faz ser um pouco mais cumpridores.
Na minha opinião (e lembremo-nos dos nossos tempos de estudantes em que, tal como os alunos de hoje, não percebíamos para que é que era preciso estudar a maior parte das matérias) é o medo de reprovar o principal estimulante do estudo. Sem esse medo, tudo o que o aluno achar desinteressante ou inútil não será estudado.
Mas suponhamos mesmo assim que a reprovação só faz mal. Será que alguém acredita que um aluno que não reprovou, isto é, que passou sem saber o suficiente, no ano seguinte vai passar a estudar muito mais para recuperar a matéria passada e para aprender a desse novo ano? Eu não acredito.
Voltemos ainda à minoria que, apesar do perigo de chumbar, não estuda o suficiente. É verdade que um primeiro chumbo como que abre caminho a posteriores chumbos. Ou seja, quem já chumbou uma vez passa a considerar que chumbar nem é tão mau assim; ou que, face ao fracasso, o desânimo começa a ganhar à esperança; ou que, passado um primeiro estremecimento, passar ou não passar é tudo indiferente. Já vi ocorrerem estes três casos. Mas a minha experiência diz-me que estes alunos são uma minoria dentro da minoria dos que chumbam. O resto não quer voltar a passar pela experiência. E aqueles que tiveram a sorte de serem avaliados com honestidade têm muito boas hipóteses de, com o seu próprio esforço e com a ajuda dos professores (que só funciona quando os alunos querem ser ajudados), passarem no ano seguinte.
Finalmente, para os professores o fim dos chumbos é uma faca de dois gumes. Se, por um lado, perdem mais uma parcela do ínfimo poder que ainda detêm na escola (o que é assustador), por outro lado, na verdade podem começar a levar uma vida muito mais honesta.
E esta última hipótese atrai-me muito: os professores ficariam livres de dar as notas/avaliações que entendessem seriamente atribuir, sem o medo e sem as coacções que hoje em dia os torturam. No final, todos os alunos obteriam os mesmos diplomas, mas uns teriam as notas, verdadeiras e autênticas, de que se poderiam legitimamente orgulhar (ao contrário de hoje em dia em que as notas pouco ou nada significam).
Este é o argumento que vem das Ciências da Educação para justificar a medida de acabar com as reprovações.
É claro que, dum ponto de vista estatístico, a reprovação atrai a reprovação! O número dos que reprovam hoje em dia é tão reduzido que os poucos a quem isso acontece são casos verdadeiramente desesperados e, normalmente, após anos e anos de passagens sem saber o suficiente. Logo, são alunos que sabem tão pouco e que foram reprovados tão tardiamente, que já não têm grandes hipóteses de passar de ano dado o seu quase irremediável atraso. Não admira que continuem a chumbar nos anos seguintes.
Mas peguemos apenas no raciocínio feito e verifiquemos a sua validade. Um raciocínio paralelo que se poderia fazer seria o seguinte: como todos sabemos que, à primeira pena de prisão de um criminoso, se seguem novas penas ou até o mergulho prolongado numa carreira do crime (com o que aprendem nas prisões e com os contactos que lá fazem), logo a conclusão deveria ser a de acabar com as prisões...
Um outro erro de raciocínio é que só nos centramos na escassa minoria que reprova. E quanto à extensíssima maioria que passa? É que eu atrevo-me a pensar que a esmagadora maioria dos alunos que passam só estuda porque tem medo de reprovar.
Atente-se na estrada onde nem sequer a forte probabilidade de matar e/ou morrer - não estamos a falar de simples chumbos - é travão suficiente para adultos "responsáveis" cumprirem o que se espera deles. Não, apenas o medo da polícia à vista os faz ser um pouco mais cumpridores.
Na minha opinião (e lembremo-nos dos nossos tempos de estudantes em que, tal como os alunos de hoje, não percebíamos para que é que era preciso estudar a maior parte das matérias) é o medo de reprovar o principal estimulante do estudo. Sem esse medo, tudo o que o aluno achar desinteressante ou inútil não será estudado.
Mas suponhamos mesmo assim que a reprovação só faz mal. Será que alguém acredita que um aluno que não reprovou, isto é, que passou sem saber o suficiente, no ano seguinte vai passar a estudar muito mais para recuperar a matéria passada e para aprender a desse novo ano? Eu não acredito.
Voltemos ainda à minoria que, apesar do perigo de chumbar, não estuda o suficiente. É verdade que um primeiro chumbo como que abre caminho a posteriores chumbos. Ou seja, quem já chumbou uma vez passa a considerar que chumbar nem é tão mau assim; ou que, face ao fracasso, o desânimo começa a ganhar à esperança; ou que, passado um primeiro estremecimento, passar ou não passar é tudo indiferente. Já vi ocorrerem estes três casos. Mas a minha experiência diz-me que estes alunos são uma minoria dentro da minoria dos que chumbam. O resto não quer voltar a passar pela experiência. E aqueles que tiveram a sorte de serem avaliados com honestidade têm muito boas hipóteses de, com o seu próprio esforço e com a ajuda dos professores (que só funciona quando os alunos querem ser ajudados), passarem no ano seguinte.
Finalmente, para os professores o fim dos chumbos é uma faca de dois gumes. Se, por um lado, perdem mais uma parcela do ínfimo poder que ainda detêm na escola (o que é assustador), por outro lado, na verdade podem começar a levar uma vida muito mais honesta.
E esta última hipótese atrai-me muito: os professores ficariam livres de dar as notas/avaliações que entendessem seriamente atribuir, sem o medo e sem as coacções que hoje em dia os torturam. No final, todos os alunos obteriam os mesmos diplomas, mas uns teriam as notas, verdadeiras e autênticas, de que se poderiam legitimamente orgulhar (ao contrário de hoje em dia em que as notas pouco ou nada significam).
domingo, agosto 01, 2010
Antígona, de Sófocles
Do Clube de Leitura da Biblioteca Municipal de Loulé...

...mas eu li esta versão de Helena Rocha Pereira, edição da Gulbenkian.
Sejamos francos: que posso eu dizer aqui que não tenha já sido dito milhares de vezes e de milhares de maneiras diferentes? A resposta é simples: nada! Ressalvado isto, adiante.
Trata-se de uma absoluta obra-prima, de poucas páginas e com milhares de leituras possíveis e provavelmente todas legítimas. Veja-se, por exemplo, que, sobre qual o tema ou o significado desta tragédia os especialistas ainda não chegaram a um consenso.
Assim, sinto-me à vontade para dizer que, primeiro que tudo, gostei de ler nesta peça o tema da inflexibilidade face à possível desonra, pois Antígona é drástica e intransigente perante aquilo que considera ser o seu dever em relação à sua consciência (Ismena também sabe qual o seu dever, mas abstém-se de se opor ao poder que a impede de o realizar). Secundariamente, o tema do lugar das mulheres no que se refere ao poder que é, muitas vezes (e Creonte fá-lo frequentemente), identificado com a masculinidade.
Vejo também Antígona (que aparece pouco) como o centro de toda a acção, visto que a sua postura inquebrantável põe todos os outros em causa. Além disso, apesar da sua intransigéncia e aparente posição rígida e unilateral, Antígona parece-me ser a personagem mais complexa e multifacetada da peça. Ela surge-nos como a voz não só da paixão pela justiça e pela verdade; mas também da beleza da acção boa e correcta; da responsabilidade perante a sua própria consciência (mesmo quando invoca os deuses); da coragem publicamente assumida; da recusa em curvar-se não só perante o poder, mas também às suas próprias desgraças; do império do amor sobre o ódio ("Não nasci para odiar, mas sim para amar"); da recusa de uma solidariedade feita mais de palavras do que de acções; e da de alguém que treme face ao suplício (por se sentir abandonada pelos deuses, um pouco como Cristo, aliás), mas que, logo a seguir, se recompõe e assume o seu destino.
Ismena é, no início, a voz da sensatez, lúcida, porém resignada e conformista. Depois, consegue vencer a sua fraqueza e exigir um castigo igual ao de Antígona, que esta aliás recusa.
Creonte é a voz do poder autoritário e inseguro, que à sua volta só vê fraqueza, cupidez e ânsia de poder como todos os que se habituaram a vencer pela força e pelo medo. E, claro, apenas mal se sente amedrontado é a derrocada total, revelando então a sua essencial mediocridade.
Hémon é a voz da razão adulta e ponderada, que domina completamente a paixão para melhor conseguir convencer seu pai (sem sucesso, claro, pelas razões que apresentei no parágrafo anterior). Depois, arrastado pelo desespero, liberta toda a violência do seu amor apaixonado, dirigindo-a contra si próprio.
O Coro é a voz de quem procura estar sempre consciente do que é melhor para a comunidade e, talvez por isso, é o melhor ouvinte, despreconceituado e objectivo, de toda a peça. Destaque-se a Ode ao Homem.
Tirésias é a voz daquele que conhece o passado e o futuro, é a voz do sábio. Que, note-se, é o único a conseguir vencer Creonte; para tal, usa apenas a sua sabedoria e a sua inteligência, e são estas que conseguem derrotar a mediocridade arrogante de Creonte.
Eurídice é a voz, silenciosa e digna, da dor e do desepero.
O Guarda. Faço aqui uma pausa. Sim, custa-me admiti-lo, mas esta é a voz de todos nós: a do medo do sofrimento e a da esperança de se safar custe o que custar. Mas nada melhor do que deixar aqui as suas próprias palavras, quando entrega Antígona a Creonte, que revelam toda uma vida, as nossas, no fundo:
"Acusámo-la das acções passadas e presentes; não negou coisa alguma, com prazer e pena minha, ao mesmo tempo. Porque isto de uma pessoa escapar de uma calamidade [o guarda tinha sido ameaçado de morte terrível se não encontrasse o culpado] é o melhor que há; mas é penoso levar à ruína aqueles que se estimam. Porém, tudo isto vale menos para mim do que a minha própria salvação." (434-441)
Sim, todos sonhamos ser Antígona. Mas não somos nunca (apesar de haver exemplos, Gandhi é um deles, sem dúvida). Se ao menos conseguíssemos ser Ismena, nem que fosse uma vez na vida, já não teríamos que nos envergonhar completamente. Lamentavelmente, porém, passamos toda a nossa vida a ser o Guarda; e, na maior parte do tempo, revelamos ser muito menos lúcidos do que ele...
Uma livro fantástico, absolutamente imperdível.

...mas eu li esta versão de Helena Rocha Pereira, edição da Gulbenkian.
Sejamos francos: que posso eu dizer aqui que não tenha já sido dito milhares de vezes e de milhares de maneiras diferentes? A resposta é simples: nada! Ressalvado isto, adiante.
Trata-se de uma absoluta obra-prima, de poucas páginas e com milhares de leituras possíveis e provavelmente todas legítimas. Veja-se, por exemplo, que, sobre qual o tema ou o significado desta tragédia os especialistas ainda não chegaram a um consenso.
Assim, sinto-me à vontade para dizer que, primeiro que tudo, gostei de ler nesta peça o tema da inflexibilidade face à possível desonra, pois Antígona é drástica e intransigente perante aquilo que considera ser o seu dever em relação à sua consciência (Ismena também sabe qual o seu dever, mas abstém-se de se opor ao poder que a impede de o realizar). Secundariamente, o tema do lugar das mulheres no que se refere ao poder que é, muitas vezes (e Creonte fá-lo frequentemente), identificado com a masculinidade.
Vejo também Antígona (que aparece pouco) como o centro de toda a acção, visto que a sua postura inquebrantável põe todos os outros em causa. Além disso, apesar da sua intransigéncia e aparente posição rígida e unilateral, Antígona parece-me ser a personagem mais complexa e multifacetada da peça. Ela surge-nos como a voz não só da paixão pela justiça e pela verdade; mas também da beleza da acção boa e correcta; da responsabilidade perante a sua própria consciência (mesmo quando invoca os deuses); da coragem publicamente assumida; da recusa em curvar-se não só perante o poder, mas também às suas próprias desgraças; do império do amor sobre o ódio ("Não nasci para odiar, mas sim para amar"); da recusa de uma solidariedade feita mais de palavras do que de acções; e da de alguém que treme face ao suplício (por se sentir abandonada pelos deuses, um pouco como Cristo, aliás), mas que, logo a seguir, se recompõe e assume o seu destino.
Ismena é, no início, a voz da sensatez, lúcida, porém resignada e conformista. Depois, consegue vencer a sua fraqueza e exigir um castigo igual ao de Antígona, que esta aliás recusa.
Creonte é a voz do poder autoritário e inseguro, que à sua volta só vê fraqueza, cupidez e ânsia de poder como todos os que se habituaram a vencer pela força e pelo medo. E, claro, apenas mal se sente amedrontado é a derrocada total, revelando então a sua essencial mediocridade.
Hémon é a voz da razão adulta e ponderada, que domina completamente a paixão para melhor conseguir convencer seu pai (sem sucesso, claro, pelas razões que apresentei no parágrafo anterior). Depois, arrastado pelo desespero, liberta toda a violência do seu amor apaixonado, dirigindo-a contra si próprio.
O Coro é a voz de quem procura estar sempre consciente do que é melhor para a comunidade e, talvez por isso, é o melhor ouvinte, despreconceituado e objectivo, de toda a peça. Destaque-se a Ode ao Homem.
Tirésias é a voz daquele que conhece o passado e o futuro, é a voz do sábio. Que, note-se, é o único a conseguir vencer Creonte; para tal, usa apenas a sua sabedoria e a sua inteligência, e são estas que conseguem derrotar a mediocridade arrogante de Creonte.
Eurídice é a voz, silenciosa e digna, da dor e do desepero.
O Guarda. Faço aqui uma pausa. Sim, custa-me admiti-lo, mas esta é a voz de todos nós: a do medo do sofrimento e a da esperança de se safar custe o que custar. Mas nada melhor do que deixar aqui as suas próprias palavras, quando entrega Antígona a Creonte, que revelam toda uma vida, as nossas, no fundo:
"Acusámo-la das acções passadas e presentes; não negou coisa alguma, com prazer e pena minha, ao mesmo tempo. Porque isto de uma pessoa escapar de uma calamidade [o guarda tinha sido ameaçado de morte terrível se não encontrasse o culpado] é o melhor que há; mas é penoso levar à ruína aqueles que se estimam. Porém, tudo isto vale menos para mim do que a minha própria salvação." (434-441)
Sim, todos sonhamos ser Antígona. Mas não somos nunca (apesar de haver exemplos, Gandhi é um deles, sem dúvida). Se ao menos conseguíssemos ser Ismena, nem que fosse uma vez na vida, já não teríamos que nos envergonhar completamente. Lamentavelmente, porém, passamos toda a nossa vida a ser o Guarda; e, na maior parte do tempo, revelamos ser muito menos lúcidos do que ele...
Uma livro fantástico, absolutamente imperdível.
sexta-feira, julho 30, 2010
A Vida Em Surdina, de David Lodge
Do Clube de Leitura da Biblioteca Municipal de Loulé.

O tema principal é óbvio: a surdez, experimentada pelo autor. Tinha de ser. Há coisas que aqui são descritas que implicam um conhecimento pessoal e íntimo deste tipo de aflição. Mas também a velhice é aqui retratada nos seus múltiplos aspectos.
Sendo assim, o que impede este livro de causar uma depressão ou de se tornar numa leitura penosa? O humor, claro. Com largas doses do self-deprecating humour, de que falo no post anterior.
Não se trata de um humor jocoso, destruidor, mas um humor que nos inclui, tolerante e amigável (raramente chega a ser ácido). Repare-se que David Lodge descreve a procura de uma dignidade para a surdez, empreendimento parcialmente conseguido. E elabora um retrato muito completo de uma humanidade simples, relativamente fraca, mas que procura fazer o melhor sem ceder excessivamente à tentação de fazer o mal. O tom usado é, portanto, de um humor suave, que nos mantém a sorrir ao longo de quase toda a leitura.
Sub-temas aqui presentes, entre outros: a universidade, com os seus professores e alunos cada vez mais problemáticos (nada diferente de Portugal); o sistema de saúde (também igual ao nosso país, o que é um mau sinal...); a morte, nas suas diferentes vertentes (suicídio, eutanásia, assassínio, doença); e destaco uma referência a Auschwitz porque, depois de já tudo parecer ter sido dito, David Lodge consegue ser simples e não repetitivo.
Em suma, um livro que pode parecer de literatura light (ouvi essa apreciação), mas não o é. Trata-se de um livro brilhante, mas escondido atrás de uma modéstia que nasce da simplicidade.
Uma última palavra para a tradução que é muito boa. David Lodge, consciente das dificuldades de tradução deste livro, dedica-o a todos seus tradutores. Tânia Ganho merece-o.

O tema principal é óbvio: a surdez, experimentada pelo autor. Tinha de ser. Há coisas que aqui são descritas que implicam um conhecimento pessoal e íntimo deste tipo de aflição. Mas também a velhice é aqui retratada nos seus múltiplos aspectos.
Sendo assim, o que impede este livro de causar uma depressão ou de se tornar numa leitura penosa? O humor, claro. Com largas doses do self-deprecating humour, de que falo no post anterior.
Não se trata de um humor jocoso, destruidor, mas um humor que nos inclui, tolerante e amigável (raramente chega a ser ácido). Repare-se que David Lodge descreve a procura de uma dignidade para a surdez, empreendimento parcialmente conseguido. E elabora um retrato muito completo de uma humanidade simples, relativamente fraca, mas que procura fazer o melhor sem ceder excessivamente à tentação de fazer o mal. O tom usado é, portanto, de um humor suave, que nos mantém a sorrir ao longo de quase toda a leitura.
Sub-temas aqui presentes, entre outros: a universidade, com os seus professores e alunos cada vez mais problemáticos (nada diferente de Portugal); o sistema de saúde (também igual ao nosso país, o que é um mau sinal...); a morte, nas suas diferentes vertentes (suicídio, eutanásia, assassínio, doença); e destaco uma referência a Auschwitz porque, depois de já tudo parecer ter sido dito, David Lodge consegue ser simples e não repetitivo.
Em suma, um livro que pode parecer de literatura light (ouvi essa apreciação), mas não o é. Trata-se de um livro brilhante, mas escondido atrás de uma modéstia que nasce da simplicidade.
Uma última palavra para a tradução que é muito boa. David Lodge, consciente das dificuldades de tradução deste livro, dedica-o a todos seus tradutores. Tânia Ganho merece-o.
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