quinta-feira, julho 09, 2009

O despacho

"(...) que a Senhora Subdirectora-Geral, por despacho exarado em 22/06/2009, autorizou a licença sem vencimento de longa duração ao docente Rui M... (...)”


Chegou-me ontem às mãos! Desde 23 de Março que estou à espera, mas chegou!

Lanço os últimos olhares para trás. E que deixo?
Acima de tudo, muitas, muitas humilhações com origem neste governo PS.
Humilhações e também medo de alguns alunos, da sua violência, da sua cobardia, da sua ininteligibilidade.
Amigos, professores e funcionários.
Muitos alunos, excelentes pessoas, alguns maravilhosos comigo, verdadeiros companheiros no trabalho e na aprendizagem; e uns autênticos heróis por não se deixarem arrastar pelos outros!
Um trabalho (professor de Educação Tecnológica) absolutamente nada entusiasmante.

Olho agora para a frente e que vejo?
O início de uma vida com alguém que amo e que partilha comigo os mesmos gostos, necessidades e valores. O primeiro dos quais (ambos estamos de acordo) será / tem sido o cuidar do outro, de nós, da relação.
Depois, a esperança de poder fazer o que realmente gosto e melhor sei: ensinar matemática. Mas também, se tiver de ser, com uma atitude muito positiva sobre aceitar quaisquer novos desafios profissionais que surjam.

O futuro é uma incógnita, está completamente em aberto para eu o construir.

Sou livre.

quinta-feira, julho 02, 2009

Valores

(...) Eu dei um modesto contributo para a comédia, divulgando no ProfAvaliação uma mão cheia de fichas de auto-avaliação preenchidas. Em troca, recebi emails de agradecimento com este teor:"Ramiro! Obrigado pela dica. Isto é que foi fazer copy and paste! Sabes uma coisa? Demorei menos tempo a preencher a FAA do que a escrever o Relatório Crítico"." Na minha escola, optámos por entregar fichas de auto-avaliação praticamente iguais. Foi cá um copianço!" (...)

(In "De comédia a farsa. (...)", Ramiro Marques)

Se os actores da farsa são os outros, a mim não me causa particular problema.
Como são os professores, fico triste: já nem precisamos que nos rebaixem, nós fazêmo-lo sozinhos.
Não entreguei os o.i., não entreguei a ficha de auto-avaliação.
E nem entreguei qualquer justificação. Para mim isso seria ainda admitir que o Governo e o ME podiam ter razão. Não têm e eu desprezo-os.

terça-feira, junho 09, 2009

A derrota de Sócrates

Tive uma infância cinzenta e chuvosa (nasci em 1958). Da sua maior parte, não me recordo nada. Mas lembro-me de me sentir estranho a tudo e como se estivesse sempre à beira do desastre. Ainda hoje. Só que hoje consigo distrair-me mais, consigo disfarçar melhor. Lembrar-me da minha infância é sentir-me sufocado.

Serve esta introdução para dizer que, quando penso em política no Portugal de Sócrates, em formas de intervir na sociedade, sou tomado por uma sensação de irremediável impotência, ou seja, de impossibilidade de mudar o que quer que seja que o poder não deseja ver mudado. Tal como na infância.

É certo que esta sensação de sufoco começou a ser criada no tempo de Barroso quando, depois da gigantesca manifestação contra a invasão do Iraque, ele seguiu em frente sem ligar nenhuma, levando atrás de si a generalidade dos meios de comunicação. E com os resultados que se sabem (milhares e milhares de vidas destruídas).

Mas Sócrates levou esta forma totalitária de fazer política a extremos inimagináveis (enfim, inimagináveis para aqueles que desconhecem o salazarismo e o nazismo): ele impôs um torno férreo a toda a livre iniciativa das pessoas que desejam dar seguimento aos seus ideais em colaboração com todas as pessoas da sociedade.

Cada vez mais as pessoas desistem da contestação e da participação cívica, sabem que ela ínútil e que funciona como se pura e simplesmente não existisse. Acredito que é assim que a juventude desistiu da luta por uma sociedade mais justa. Aliás, não desistiu: desapareceu!

Qundo penso na derrota de Sócrates, o que aspiro é a uma sociedade enfim liberta e capaz de respirar outra vez o ar puro da liberdade de movimentos, uma sociedade que se emancipa de uma infância imposta e opressiva. Que acredita na sua capacidade de se renovar com o consenso o mais alargado e responsável possíveis. Assim seja!

terça-feira, maio 26, 2009

Não desisto

É claro que persistir no mesmo tipo de contestação (manifestações) ou optar por versões apagadas (greve só ao 1º bloco), só pode trazer desânimo, que é o que o Governo quer e os sindicatos tudo têm feito para conseguir.

Mas, por outro lado, lá diz o povo: "Água mole em pedra dura, tanto dá até que fura"!

Isto anima-me a não baixar os braços: hoje fui um dos 2 que na minha escola fizeram greve

(escola com vários sindicalistas de peso, mas em que não apareceu um único aviso ou cartaz da greve);

e no dia 30 serei um dos que sejam quantos forem vão à manifestação.


"Se não há caminhos, há que caminhar" (S. João da Cruz)

segunda-feira, maio 25, 2009

Índice de Democracia

Em 2007, The Economist publicou os resultados da sua investigação sobre o estado da democracia relativo a 2006 em 167 países do mundo: Portugal ocupou o 19º lugar.

Em 2008, segundo The Economist, Portugal passou a ocupar o 25º lugar.

Os professores, entre outros (muito poucos) combateram a tentativa de sufoco. Registe-se.

Nostalgia

Estou a ler Aprendizagem Cooperativa e Inclusão (edição do autor, Lisboa, 2006), um livro de Francisco Alberto Ramos Leitão.

Recordo-me de como trabalhei e pugnei por uma escola que desse uma resposta emancipatória a todos os aunos que a frequentassem. Apercebo-me bem de quão larga e profunda é a destruição deste tipo de escola promovida pelo Governo, em virtude do desprezo total e profundo que sente pelas pessoas das crianças e dos jovens e, consequentemente, pelo seu desenvolvimento pessoal e social.

Por outro lado, ao defraudar as expectativas dos professores, ao roubá-los, ao desprezar o seu saber e a sua experiência, ao esgotá-los com trabalho embrutecedor, o Governo tem vindo a acabar com o clima de uma Escola Pública verdadeiramente Inclusiva.

A acrescentar a tudo isto, o sistema de avaliação que quer impor, que promove a competição mais rasteira, vai enfim acabar de vez com a Escola Pública para todos. A Escola de sucesso constrói-se com uma Educação de qualidade só conseguida com a cooperação entre os educadores, nunca com a competição entre eles (como quase todos os países europeus já descobriram).

Voltando ao livro de Francisco Leitão: aqui se apresentam, se explicam e se justificam os dados da investigação que apontam para a maximização do sucesso através do trabalho cooperativo, quer entre alunos, quer entre professores. Também se descreve como se consegue promover na prática um clima de cooperação entre todos (inclusivamente, num dos anexos, propõe-se uma forma de trabalhar com os alunos a gestão de conflitos, um saber essencial para que o trabalho cooperativo se traduza num máximo de boas aprendizagens).

Leio e estou a ouvir uma voz quente, amiga e sempre lúcida, a tentar fazer-nos acreditar que as nuvens negras desta época sombria não irão afogar as crianças e os jovens de hoje num mar de mediocridade auto-complacente e suicidária.

sexta-feira, maio 15, 2009

Formação contínua

Porque é que sou obrigado a frequentar acções de formação que não preciso e em que, ainda por cima, tenho de pagar?

Porque é que a formação que realmente me faz falta para eu poder melhorar científica e tecnicamente, dada por entidades idóneas, é aceite e reconhecida pelos meus colegas e superiores hierárquicos, mas não é reconhecida pelo Governo e, portanto, não me serve para nada em termos de carreira?

Eu sei a resposta: porque a gatunagem que decide estas coisas, não satisfeita em já me ter roubado milhares de euros, é uma mafia que continua a querer sugar-me até onde puder.

Ou até onde eu a deixar.

sábado, maio 09, 2009

Amantes feios

(...) «O que é que Léo achou de mim? Achou-me ao seu gosto. A minha explicação para isso é que também ele era malfeito. Tinha tido varíola em pequeno e ficara com as marcas. Era nitidamente mais feio que um anamita normal, mas vestia-se com muito gosto.»

Tanto pior que fosse malfeito. Tanto pior para as costureirinhas e para os corações sensíveis (a cujo grupo eu pertencia) que fantasiaram a propósito da beleza sensual do amante, a sua pele de seda, as suas mãos experientes, o seu corpo perfeito. O amante é feio e malfeito. (...)

(Adler, Laure, Marguerite Duras - Uma biografia, Quetzal Editores, 1999)

Ora, farto estou eu de histórias em que os protagonistas são sempre fisicamente atraentes (ou que ficam como tal depois de um adequado período de “patinho feio”)!
Desejo mesmo um livro ou um filme em que as personagens vivam um amor arrebatado e deslumbrante, mas que sejam feias e malfeitas, realmente feias sem qualquer apelo (porque, por exemplo, há as que, sendo feias, são, no entanto, encantadoras).
Ou em que pelo menos uma delas fosse mesmo feia.
E isso não fosse sinónimo de malvadez, ou de qualquer forma menos boa de carácter.
Personagens secundárias já vão surgindo assim, embora aparecendo sempre menores e mais ou menos patéticas.
Como seria, então? Como pegaria o(a) autor(a) no assunto nestas condições? Que emoções faria ele despertar em mim (excluindo naturalmente as da piedade e as suas variações)?

quarta-feira, maio 06, 2009

O voo dos moscardos

Recebi hoje o suplemento do Escola Informação do SPGL sobre as suas eleições internas.
Vejo entre os elementos das listas indivíduos(as) que, para além de entregaram os objectivos individuais, até se movimentaram no sentido de sabotar posições de não entrega por parte dos restantes professores.
Espanta-me que estes (e outros de outros sindicatos que também fizeram o mesmo) não tenham vergonha.
Tenho eu.
Por eles.
Por nós.

terça-feira, maio 05, 2009

Conversar

My trips are always packed with a lot of business meetings.

That’s why when I’m flying I like to unwind. One good way to relax is to strike up a conversation with seatmates. I don’t like to talk the entire flight, but sometimes casual conversations allow me to meet, for a brief while, people who are truly making a difference in the world.

Admiro as pessoas que sabem iniciar e manter uma conversação leve, útil, mutuamente satisfatória; pessoas que estabelecem um entendimento, um rapport imediato com quer que seja que lhes atraia o interesse ou a simpatia. Conheço bem uma pessoa assim... e nunca páro de me maravilhar!

Dada a minhas dificuldades de contacto, disfarço a minha falta de habilidade procurando ser um bom ouvinte e fazer perguntas interessantes. Mas trata-se de um esforço e jamais me passaria pela cabeça relaxar conversando!...

A propósito, a história acima, como talvez fosse de esperar, é bem simpática e inesperada e, por isso, ponho aqui o link (soube dela via GoodShit).

domingo, maio 03, 2009

Os intelectuais e a coragem de lutar

Num mundo ideal, as convicções e os princípios deveriam ser por si sós molas suficientemente fortes para combater a tirania e e a injustiça. E isso por vezes acontece, só que com poucos. Quando chega a hora dos arruaceiros (e chega sempre a hora deles, tal o fascínio que exercem) tudo se desmorona e o medo impera, o que é exactamente o que os arruaceiros desejam e pretendem (por isso é que são brutos e fazem ameaças).

O que é surpreendente e brilhante no caso dos professores é que começaram por nada fazer quando foram roubados ou quando lhes tornaram quase impossível realizar o seu trabalho de forma adequada; isto porque lhes disseram, e eles acreditaram, que o país precisava desse sacrifício da sua parte. Mas, tendo surgido a parte da violência inútil e sem qualquer sentido (note-se que, na maior parte dos países europeus a avaliação dos professores, que não a das escolas, ou não existe ou é extremamente simples e não conta para a progressão na carreira), e ao fim de quatro anos de guerra, ainda há um número elevadíssimo de professores que não desfaleceu. Sem contar que os que desfaleceram só o fizeram ao fim de um prolongadíssimo tempo de resistência que se conta por anos.

Sabemos que normalmente os inteletuais são cobardes. Vejam-se quase todos os que se têm encolhido no seu silêncio pequenino(1) e deixaram os professores sozinhos na sua luta e tentativa de participação cívica, até mesmo nos casos em que se pôs em jogo a vida e o futuro das crianças mais desprotegidas como é o caso das que têm dificuldades e necessidades especiais.

Mas os professores que, apesar das tentativas desenfreadas que têm vindo a ser tomadas para os proletarizar, ainda se podem assumir como trabalhadores intelectuais, e têm vindo a mostrar que a cultura e a humanidade podem ajudar de facto a conferir forças e coragem para lutar contra a barbárie (tanto das maneiras como das ideias).

(1) Com as excepções gratas, entre outros, de Joaquim Manuel Magalhães, de Santana Castilho e de Ramiro Marques.

sábado, maio 02, 2009

O que esperamos dos intelectuais?

Que pensem, que discutam, que criem.

Eu e muitos outros (é que não temos tempo, nem contactos, nem inteligência suficientes para o fazer) esperamos que nos dêem ideias de entre as quais possamos escolher aquelas de que nos vamos apropriar para fazermos delas as nossas bandeiras e os nossos ideais por que lutar.

Portanto, a frase mais estéril e traidora da sua responsabilidade que um intelectual pode proferir é: “Não há alternativas.” Porque, ainda por cima, é uma rematada mentira! Existem sempre alternativas!

As consequências de andarem a espalhar esta ideia vêem-se na juventude de hoje: acreditaram nesta vigarice que lhes transmitiram e tornaram-se numa geração de conformistas.

Ora, uma sociedade que não evolui para melhor, como a actual, está doente. Ela só evolui para melhor com a renovação das gerações, a qual deve necessariamente implicar uma renovação de ideais e de lutas. Só assim podemos sacudir este marasmo deprimente e nauseado em que vivemos hoje em dia.

Suspeito que pertenço a uma geração que traiu realmente o futuro: roubou aos jovens a esperança num mundo melhor e a convicção de que vale a pena lutar por ele.

Não vale a pena diabolizar este Governo por ter demonstrado a irrelevância da participação cívica dos cidadãos nas decisões que envolvem toda uma sociedade e o seu futuro. Porque fomos todos nós que lhe conferimos poder e o deixámos abusar dele.

Não podemos esperar, aliás, dos políticos que tragam novas ideias. Eles são executivos, não criativos. O problema é que, quando os políticos não têm ideias, os tiranos saltam para a primeira linha, agarram o poder e abusam dele.

Eis porque precisamos de intelectuais que façam verdadeiramente jus ao seu estatuto.

segunda-feira, abril 13, 2009

O que é que isto interessa?

Discute-se, com acrimónia e entusiasmo, se há o direito de dizer às funcionárias da loja do cidadão de Faro como é que se devem apresentar vestidas ao público. Fico perplexo.
Na verdade, se elas tivessem de trabalhar mais 2 ou 3 horas por dia, sem receberem horas extraordinárias, prejudicando a sua vida familiar e a educação dos seus filhos, como acontece com tanta gente, bom, isso já não seria assunto com interesse para trazer a uma discussão! No entanto, parece-me razoável pensar que este assunto é amplamente mais importante e com consequências muito mais graves para as pessoas e para a sociedade no seu todo. Ah, mas com isto não temos espectáculo, logo...

"(...) O essencial é invisível aos olhos" (Antoine de Saint-Exupéry, O Principezinho, Cap. XXI)
Esta frase tem hoje em dia um sentido tristemente irónico. Porque aquilo de que valeria mesmo a pena falar e discutir está invisível e, por isso, não se consegue que seja matéria para debate e troca de ideias, permanecendo assim cada vez mais na sua invisibilidade. E, infelizmente, a existir menos que a roupa das funcionárias da loja de Faro!...

terça-feira, abril 07, 2009

Acabou-se!

A engrenagem já não contará comigo por muito mais tempo: entreguei um pedido de licença sem vencimento de longa duração. Ou seja, vou-me embora. Espero que para sempre.

Um aluno de um CEF pontapeou a cabeça de um colega enviando-o para o hospital em estado crítico. A pena máxima que a escola pôde aplicar consistiu em 10 dias de suspensão (já se sabe, com faltas justificadas): não havia o mesmo CEF numa escola da área de residência dele, pelo que a transferência estava fora de causa.
Outro aluno, por, entre outros actos violentos (e várias penas de suspensão), ter agredido uma professora na cabeça, foi punido com transferência de escola: passam-se as semanas e nada de assinatura do director regional, pelo que ele continua na escola (imagine-se como) e diz: "Posso fazer o que quiser, o que é que me pode acontecer de pior?"

Estive no ensino 24 anos por vocação, talento, paixão e alegria. Eu gosto muito de ensinar, que é uma coisa que hoje em dia faço pouco. O que faço é reforçar a máquina destruidora que este Governo pôs em marcha. Devo dizer, pois, que saio com alegria também: já não mais humilhações violentas, nem trabalhos inúteis e esgotantes, nem sapos engolidos, nem ausências de respeito e de consideração, nem ameaças ou ataques à minha integridade física e mental.
E não mais me sentirei responsável por alimentar este imenso desastre que é hoje a Educação em Portugal no ensino público.

sábado, fevereiro 28, 2009

Ser Professor até ao fim

Sabemos hoje que Hitler nada teria conseguido sem a colaboração dos funcionários públicos.
Temos assim o pequeno funcionário, peça de uma imensa engrenagem (peça porque perfeitamente substituível), na qual cada injustiça era apresentada como um sacrifício necessário para a Alemanha sair da crise (em que cada injustiça não era vista como tal pela opinião publicada na altura, note-se).
Com a táctica dos pequenos passos a enredarem-se uns pelos outros, mais o recurso ao medo, os nazis conseguiram que as pessoas fizessem o que não aceitariam fazer em condições normais.
E, nestas condições, poucos desses funcionários conseguiram ser suficientemente lúcidos e corajosos para se oporem ao sistema ou para dele sairem.

O problema que aqui se me põe para já é este:
Como conseguir distinguir a linha que separa o que é ainda eticamente aceitável, do que configura já a prática de um crime?

Ou:
Como saber aquilo que os nossos descendentes vão identificar claramente como um crime, votando-nos a nós, que dele participámos e o alimentámos, à condenação e ao desprezo?

Mas no estado actual da Educação no nosso país este problema de identificação põe-se?
Na minha opinião, não, realmente não.
Porque sei, cada vez com mais convicção, que já está a ser cometido por este governo um Crime de proporções incalculáveis sobre esta geração de jovens e sobre o futuro deste país.

(Só o facto de o sistema não ter meios para pôr cobro aos que impedem os alunos mais pobres e mais trabalhadores de poderem estar em segurança na escola e de aí poderem aprender, para mim já é crime bastante)

Então, nestas condições, como deve actuar este "pequeno funcionário" que é o professor da escola pública?
Eu sei.

Primeiro, recusar-se a colaborar em tudo o que estiver ao seu alcance, desde que não prejudique ainda mais os alunos.
O que já é bastante.
Mas a verdade é que, no fim, não há outra alternativa, nada mais lhe resta fazer senão sair desta engrenagem, numa recusa, agora total, de alimentar este Crime, ou de sequer fazer parte dele.

sexta-feira, fevereiro 13, 2009

Objectivos Individuais (3)

Era até ao dia 10. Não entreguei: eu e mais meia dúzia de professores.

Três coisas me impressionaram até ao momento.

Uma, o medo que domina actualmente tantos professores. Numa democracia alegadamente europeia. É certo que alguns utilizam o pretexto do medo para disfarçar a sua ganância, ou a sua comodidade, ou simplesmente a sua demissão de pensar pela sua própria cabeça. Mas a maioria sente inegavelmente medo. Medo. Bem como vergonha por sentirem medo, por se submeterem a ele, por enfim quebrarem perante o poder que, por todos os meios, tem tentado diminui-los e destruir-lhes a sua fibra moral. Professores, titulares, professores no último escalão e até sindicalistas: todos.

Outra, a completa ausência dos jovens. Eles são a garantia da evolução das sociedades, são eles que asseguram a sua renovação mantendo-as, portanto, vivas. São eles que, desde sempre, se colocaram na primeira linha da contestação à tirania e à prepotência. Onde estão eles? Estarão paralisados pelo medo? Estarão apáticos? Será que criámos uma geração de conformistas?

Finalmente, o esquecimento. Hoje vejo as pessoas a rirem-se, a conversarem. Como se nada tivesse acontecido, como se nada se tivesse passado. Cento e tal professores agem em perfeita contradição com aquilo que acreditam (acreditaram?). Desistem de lutar na primeira acção positiva que podiam empreender, submetem-se a um poder grosseiro e boçal. E fingem que nada aconteceu? Transformam tudo isto num simples incidente negligenciável?

terça-feira, fevereiro 03, 2009

Contra a avaliação

Razões por que estou contra:

1 - Porque acho a competição danosa para a educação (tal como o acham a esmagadora maioria dos países europeus, incluindo a Filândia). Pense-se nos pais: é bom estarem em competição ou é melhor a colaboração quando se trata de educar os seus filhos?

2 - Porque acho eticamente abominável e profundamente desmoralizador a existência de quotas para professores muito bons ou excelentes. É matar a vontade e o respeito por se tentar fazer o melhor.

3 - Porque despreza os que cumprem as suas obrigações, só não penalizando os classificados com Bom ou mais.

4 - Porque é um desastre para o país e para o seu futuro uma avaliação baseada nos resultados dos alunos (que foi abandonada temporariamente e com justificações apenas de simplificação burocrática). É como premiar os fiscais de obras pelo número de obras aprovadas, ou polícias pela ausência de multa: é um absurdo estúpido.

5 - Porque me recuso a pactuar com manobras indecentes e inescrupulosas por parte do governo: ameaças, chantagens, intimidação aos mais fracos e desprotegidos, atribuição de privilégios especiais a certos grupos de professores (mostrando assim o quão pouco acreditam no próprio modelo que dizem defender).

6 - Porque decidi recusar-me a condicionar as minhas escolhas éticas ao medo do que eles me possam fazer. Deste modo, livremente, posso desobedecer a ordens que só causam mal, o que representa agora uma tarefa de carácter cívico e de cidadania que transcende a mera esfera pessoal. Ainda por cima, sei que o Governo fica impotente se ninguém lhe obedecer - é uma luta que, ao contrário de muitas outras, tem o sucesso garantido... desde que não se obedeça ao medo.

domingo, fevereiro 01, 2009

Objectivos Individuais (2)

A partir do momento em que decidi não entregar os o.i., tornou-se-me irrelevante saber se somos muitos ou poucos.

Eu decidi agir não me submetendo ao medo e à prepotência, ou seja, decidi ser livre e coerente com a minha consciência. Em suma, decidi ser totalmente responsável pelos meus actos nesta matéria: não aceitar donos.

E como eu me sinto bem comigo mesmo por ter tomado esta decisão!

Não o esqueço: somos 120 000! Muitos podem ter medo, vacilar, desistir, etc, mas eu sei que eles não concordam com nada do que este m.e. lhes manda fazer com o sentido de destruir a Escola Pública. Isso me basta para não me sentir sozinho.

Felizmente também sei que há muitos professores que acreditam o suficiente em si próprios e no seu próprio julgamento para não cederem.

Ah, e estar em tal companhia é bom, é mesmo muito bom!


Nota: estou no 8º escalão e, provavelmente, daqui nunca sairei.

sexta-feira, janeiro 23, 2009

Greve da Fome

Na reflexão do dia 13 propus como acção a desenvolver (para a qual eu e outros colegas se disponibilizaram de imediato) uma Greve da Fome. Começaria por ser faseada, quer geograficamente (por zonas), quer temporalmente (por exemplo, primeiro durante as 7 horas do período diário de trabalho, depois durante um dia, etc).

Esta acção apresenta vantagens extraordinárias:
- Os alunos não são significativamente prejudicados pois não ficam sem aulas, ou sem avaliação, e as escolas não fecham.
- O impacto emocional sobre a sociedade é extremamente forte, nem sequer precisando os níveis de adesão serem muito elevados.
- A repercussão internacional seria imensa, aumentando a visibilidade para o absurdo das propostas do Governo e para o seu autoritarismo.
- Nós, professores, não perderíamos dinheiro (ultrapassando assim uma dificuldade grande para muitos colegas).

Acredito inclusivamente que até o simples anúncio, por parte dos sindicatos, de um Greve da Fome como um modo de luta a ser seriamente considerado já teria, por si só, um efeito devastador para este Governo em ano de eleições.

segunda-feira, janeiro 12, 2009

Objectivos Individuais

Decidi não entregar os objectivos individuais.

Votei PS porque achei que o PSD, e todos os outros, teriam de aprender que aquele tipo de campanha que fizeram contra Sócrates é eticamente abominável. Pela mesma razão tomo agora esta atitude. O PS, e todos os outros, têm de entender que ameaças e chantagens (e subornos disfarçados) são atitudes impróprias de governantes em democracia. Assim, a minha recusa já não é apenas uma simples questão de dignidade profissional, mas passou a ser também uma questão de responsabilidade cívica perante a minha consciência e perante os meus alunos, pais e sociedade portuguesa em geral.

Os nossos governantes afirmam repetidamente que não actuam em obediência à pressão de outros, que não negoceiam, isto é, que não mudam de atitude face a chantagens. Concordo com eles. É seguindo exactamente o seu exemplo que me recuso a, sob ameaças e chantagens de variada espécie, entregar os objectivos individuais.

Não se trata aqui de fazer grandes coisas, de estar com heroísmos, trata-se de fazer simplesmente uma coisa pequena, que está perfeitamente ao meu alcance, e que faço para não corromper a fidelidade à minha consciência. E havendo muitos, as coisas pequenas, individuais, tornam-se colectivas e grandes.

segunda-feira, janeiro 05, 2009

Envelhecer

"Somewhere Towards the End", de Diana Athill.

Um relato em primeira mão de como não é nada agradável envelhecer. Não li, mas sobre o livro há mais informações aqui (Michael Dirda, no Washington Post).(*)


As minhas marcas de envelhecimento.

As más:
o cansaço (físico e psicológico)
a incapacidade de recuperar ou de recuperar rapidamente
a distância que cresce em relação aos jovens (em particular, um maior retraimento face à sua violência e agressividade perante a vida)
a dificuldade de encantamento face a livros, filmes, etc
o tempo que se esvai cada vez mais rapidamente

As boas:
cada vez se tem menos a perder
capacidade de compreender cada vez mais, para condenar cada vez menos...
... mas a condenação, quando vem, mergulha no ódio e no assassínio (talvez isto não seja bom)

Outras que me lembre irei acrescentando.

Termino, citando o final do interessantíssimo artigo atrás referido:

Certainly no amount of mendacity or whining will change the facts: The end of life is hard. With luck and adequate health, you might be able to enjoy a few simple pleasures for a while longer. But that's about it. And be grateful for even the smallest of such favors. Time is not on your side. (Michael Dirda)

(*) Via GoodShit

terça-feira, novembro 18, 2008

Liam Clancy



It's not the leaving that's grieving me, but my true love who's bound to stay behind. (Bob Dylan)

domingo, novembro 16, 2008

Nós

A Amada é bela e profundamente única. Com o seu sorriso apenas põe-me a brilhar todo por dentro. E bebo nela a realização plena de todos os meus afectos.

Esta tem de ser a relação perfeita. Por isso não coloco a Amada num pedestal. Não há-de ser para mim a desilusão de descobrir na Amada o barro: eu já amo esse barro.

Aliás, como de certa forma exprimi atrás, não preciso da sua grandeza, quer a real quer a imaginada, para eu poder brilhar. Preciso de alguém que me acompanhe e a quem eu possa acompanhar. Alguém a quem olhar de igual para igual numa outra grandeza, esta agora compartilhada: a do nosso Amor.

É assim que quero continuar a viver a história deste encontro pleno e improvável.

terça-feira, novembro 04, 2008

Haiku


Uma gota de orvalho
A vida Uma gota de orvalho
E contudo...

(Primeira Neve, Issa Kobayashi, versões de Jorge Sousa Braga, Assírio & Alvim)

segunda-feira, outubro 20, 2008

A violência dos homens

"Crimes contra mulheres cada vez mais violentos.
(...)
Este ano houve 32 homicídios e 35 tentativas falhadas (...) mais onze casos do que os verificados ao longo de todo o ano de 2007.
"


Também sabemos que "Um em cada quatro jovens é vítima de violência no namoro".


E sobre as crianças então o número atinge valores inimagináveis. E não nos esqueçamos dos idosos.


Eis um retrato verdadeiramente assustador do Portugal de hoje, um retrato do qual me envergonho em absoluto. No qual a minha pena pelas vítimas sobreleva tudo. E a impotência.


Só me pergunto: se não for por mais nada (compaixão, por exemplo), onde estão a honra e a dignidade pessoal que levam a que um homem não se aproveite da sua força para violentar os mais fracos? Eu não percebo isto.

domingo, outubro 12, 2008

Anedota?

He said to her... Why are married women heavier than single women?
She said to him... Single women come home, see what's in the fridge and go to bed. Married women come home, see what's in bed and go to the fridge.

Isto é suposto ser uma piada. Ainda por cima tirei-a de um daqueles sites de pensamento positivo.

Mas acho-a tão fria e tão triste que aflige.

Admirável Mundo Novo

Imaginemos uma pessoa, QUALQUER PESSOA, que às 8 e pouco da manhã tem de estar sentada numa desconfortável cadeira de pau durante hora e meia, ao frio ou ao calor excessivos, sem poder falar nem se mexer à vontade.
Depois levanta-se durante 20 minutos, para voltar a estar sentada mais hora e meia nas mesmas condições anteriores.
Interrupção de 10 minutos, e volta ao mesmo.
Entretanto é uma e tal da tarde e tem hora e meia para, cheia de fome, estar numa fila a fim de comer o seu almoço (às vezes a correr... e sempre na mesma cadeira de pau).
Às 3 e pouco volta a ter de sentar por mais hora e meia nas mesmas condições da manhã.
Os alunos do turno da tarde têm isto ao contrário, mas até às 6 e meia ou 7 da tarde.

Pergunto: quem aguenta?
Posso responder por mim: eu não aguento.
No entanto, é isto a que obrigamos diariamente miúdos e miúdas de pouco mais de 10 anos, exigindo ao mesmo tempo que estejam sempre calmos, atentos e que trabalhem empenhadamente!
Mas ninguém vê que isto é um monstruoso absurdo!?

Alguém consegue manter-se calmo horas seguidas numa cadeira de pau, dia após dia, durante uma semana inteira? Obviamente que a resposta a esta pergunta é não.

Então qual é a solução que a nossa sociedade está a encontrar para este absurdo?
Não, não é diminuir estas horas intermináveis em condições desumanas.
É drogá-los.
Sim, DROGÁ-LOS!

De ano para ano são cada vez mais alunos (a maioria são rapazes) a serem medicados com Ritalina (alguns efeitos secundários: perda de apetite, irritabilidade, depressão, dificuldade em dormir, dores de cabeça, ou mesmo morte), a fim de poderem estar parados e calmos nas salas de aula!
Porque "sofrem de hiperactividade", expressão aberrante da nossa modernidade! Como se naquelas condições fosse possível ser-se outra coisa saudável que não hiperactivo!

Já se chama a esta geração a Geração Ritalina.
É esta a parte mais vergonhosa da herança que deixamos para o futuro: drogar crianças...

quarta-feira, outubro 08, 2008

Um sorriso gelado

Hoje, nas minhas aulas, alunos gritaram, disseram palavrões, intimidaram e bateram noutros alunos com um sorriso nos lábios ou não, roubaram (canetas, lápis e cadeados dos armários da sala) e desobedeceram-me (verbalizando essa desobediência, olhos nos olhos).

Quando duas pessoas se encontram, mesmo quando não se conhecem, surgem pontes através das expressões faciais e corporais. Não consigo encontrar essas pontes em muitos destes adolescentes. Uns poucos inspiram-me mesmo um profundo terror.

Ontem estava no refeitório sentado a comer com o I., um rapaz maior que eu mas deficiente, que veio da Geórgia, e sinto-o a encostar-se a mim a tremer. À frente, um pouco descaído para a direita tinha-se sentado o D. (aluno famoso na escola pelos piores motivos) que o olhava friamente. "Tu não me vais fazer mal, pois não? Não me vais fazer mal?", dizia o I. com o pânico na voz. Olhei para o D. que se limitava a fixar o I. com um sorriso gelado. E eu, professor, sim, senti um medo pavoroso.

Para não perder a esperança e todo o sentido do que faço, procuro encarar estes jovens não pelo que eles são mas, nos casos mais favoráveis, pelo que eles poderão vir a ser (no que, de ano para ano, tenho apesar de tudo cada vez mais dificuldade, por já pouco conseguir ver). Nos outros casos procuro vê-los como eles quereriam ter sido se lhes tivesse sido dada uma oportunidade para isso: com professores a poderem ser honestos para com eles, isto é, a fazerem-lhes ver que eles podiam conseguir muito mais e muito melhor... em vez disso mostra-se sempre o quão baixas são as expectativas em relação a eles ao não lhes ser permitido aguentar com as consequências do que fazem.
Não consigo imaginar como se sentirá alguém sabendo que aquilo que faz vale tão pouco que, faça o que fizer, nunca terá consequências significativas, apenas receberá uma inútil compreensão que disfarça o mais profundo dos desprezos pela sua pessoa.

segunda-feira, outubro 06, 2008

Amnistia Internacional


Porque é que contribuo para esta organização?
Porque, ao contrário da maioria das outras organizações, ela apoia e combate, não por vítimas inocentes (que também precisam de defesa, não o nego), mas por lutadores que assumiram o seu destino com um máximo de responsabilidade e que tiveram a ousadia de dizer não à injustiça e à prepotência assassinas.

domingo, outubro 05, 2008

Avaliação de professores

Nunca me canso de o dizer: sou contra a avaliação de professores.
Sou há muito tempo por uma avaliação das escolas (a funcionar com uma verdadeira autonomia) a partir de contratos feitos entre escola e hierarquia, mas não dos professores tomados individualmente (a menos que haja um desempenho claramente negativo e prejudicial para a escola, caso em que esta solicita uma avaliação externa para esse professor).

Conheci um gestor que dizia: "Se eu sou avaliado, os professores também têm de o ser." Dizia também que a pressão que o seu superior exercia sobre ele levava a que, cada vez menos, ele e os outros trabalhadores levassem em conta o bem estar dos clientes. Superior esse que o ameaçava sempre com uma avaliação negativa se ele não se deixasse de escrúpulos de consciência.
Perguntei-lhe se era isso que ele desejava para os seus filhos ao defender a mesma avaliação para os professores.
Aproveitei e ocorreu-me também perguntar-lhe se ele achava que era melhor para a criança que os pais colaborassem um com o outro, ou se era melhor para ela que os pais estivessem em competição entre si. Tratando-se de educação, tem lógica que com os professores seja diferente?

Ainda não começou em força este processo de avaliação e já noto duas perdas para uma boa educação dos nossos alunos.
Por um lado acabou a partilha. Não, não falo de partilhar materiais e saberes (sim, essa também vai desaparecer), mas de partilhar dúvidas, erros e ignorâncias. Todos sabem que isso se tornou num terreno minado.

Mas o pior de tudo é que, pelas conversas entre professores já deu para perceber que a antiga preocupação com as crianças e com os jovens foi totalmente substituída pela preocupação com a carreira e com a imensidade de coisas que a podem pôr em risco. Por outras palavras, os professores estão a ficar-se nas tintas para os alunos.

Continuarei a observar o alastramento do desastre.

sábado, outubro 04, 2008

Uma semana difícil

A minha direcção de turma tem 10 alunos que vieram do 6º ano com 4's e 5's; 10 com 3’s; e 7 alunos desobedientes, malcriados e agressivos que não deixam os professores dar as suas aulas nem deixam os outros aprender.

Os professores estão desvairados, os 20 bem comportados estão desvairados e os pais de todos eles estão desvairados.

Eu penso assim:

Os meus colegas dos anos anteriores e da outra escola (um dos 7 foi expulso e veio cá calhar) tentaram o habitual: confronto verbal, faltas disciplinares, queixas aos pais (por escrito, por telefone e pessoalmente), suspensões e, num caso, até a expulsão. Sem sucesso.

Eu não sou melhor que eles nem tenho mais sorte seguramente. Portanto, parece-me inútil continuar a insistir nas mesmas estratégias que já revelaram ser um fracasso.

Então experimente-se algo de diferente: conversar, ouvir muito, fazer pequenos contratos, ter paciência e compreensão com as vezes em que eles não vão conseguir cumprir, evitar as queixas aos respectivos pais (a maior parte deles, se não todos, bate-lhes, que eu conheço bem os sinais).

Tentei explicar isto aos meus colegas. Não compreenderam, nem aceitaram. São veteranos com grande peso na escola e peso político fora dela. E foram à direcção queixar-se de mim, acusando-me de negligente. Expliquei-me. Acho que a direcção percebeu. Mas disseram-me: se continuas nessa via, como tens os professores contra ti, os teus esforços vão ser sabotados; ou então fazes simplesmente o que eles querem (subentendo-se: nós também).

Se não fosse este sistema de avaliação de professores, eu ia à luta,como já fui no passado... bom, e a verdade é que fui posto na “prateleira”. Mas agora podem fazer-me muito mais mal. Portanto, não tive alternativa.

Resultado?

Umas tantas tareias em casa, primeiro. Depois, o ambiente nas aulas (incluindo nas de Educação Física), na sala de estudo (para onde vão quando são mandados sair da aula) e no pátio, passou de mau a infernal... e eu perdi o pouco controle e respeito que estava a começar conseguir ganhar sobre aqueles alunos.

domingo, setembro 28, 2008

Sonata de Outono, Ingmar Bergman

Estive a ver Sonata de Outono, para mim o filme de Bergman de que mais gostei até agora, juntamente com Monika e o Desejo.
Em ambos aparece um olhar que nunca mais nos larga até ao fim da vida, o de Liv Ullmann no primeiro:

e o de Harriet Andersson no segundo:

A propósito da personagem Eva, interpretada precisamente por Liv Ullmann, apercebi-me de uma tragédia terrível:

Sempre que alguém não sabe a pessoa, o ser que é realmente, jamais conseguirá descobrir quando e que está a ser realmente amado.

Governo quer...

... 100% de aprovações no 9º ano!

Depois de ter conseguido tudo o que queria até ao momento, perante uma opinião publicada e pública amorfas e cúmplices, a ministra pode dar-se ao luxo de pedir o incrível: porque hão-de agora os portugueses recusar-lho?

quinta-feira, setembro 25, 2008

A Velhice... End Of The Line (Traveling Wilburys)

Este é um assunto que me interessa cada vez mais, quanto o tempo que me resta é cada vez menos.

Seleccionei estas citações das que se encontram no "Brain Candy Quotations". Escolhi-as por me serem verdadeiras e por apontarem para muitas direcções... no fundo, "old age is always an unfinished business" (e esta citação é minha)!

Old age is no place for sissies. (Bette Davis)

Perhaps being old is having lighted rooms inside your head, and people in them, acting. People you know, yet can't quite name. (Philip Larkin)

At age fifty, every man has the face he deserves. (George Orwell)

We do not count a man's years until he has nothing else to count. (Ralph Waldo Emerson)

Nobody grows old merely by living a number of years. We grow old by deserting out ideals. Years may wrinkle the skin, but to give up enthusiasm wrinkles the soul. (Samuel Ullman)

Age is a question of mind over matter. If you don’t mind, it doesn’t matter. (Satchel Paige)

How old would you be if you didn't know how old you was? (Satchel Paige)

Like our shadows,
Our wishes lengthen as our sun declines.
(Edward Young “Night Thoughts”)


E agora, a música com Bob Dylan, George Harrison, Roy Orbison, Tom Petty e Jeff Lynne, ou seja, The Traveling Wilburys!



...
Well it's all right, riding around in the breeze
Well it's all right, if you live the life you please
Well it's all right, even if the sun dont shine
Well it's all right, we're going to the end of the line!

quarta-feira, setembro 24, 2008

Viver...

... mais anos!
É um método que funciona em termos de bem estar, pelo menos, posso confirmá-lo. Aliás, não é por acaso que todas as religiões prescrevem jejuns.

A questão, porém, é outra. Para que me serve a mim adiar a morte uns anos, estando deitado, sem me conseguir mexer, sem já nem sequer reconhecer ninguém, ou seja, estando cerebralmente morto (caso que conheço pessoalmente)? Aqui é que era desejável termos mais respostas.

Entretanto, à falta de melhor, aqui ficam 120 maneiras de desenvolver a capacidade do cérebro, com links muito interessantes!

segunda-feira, setembro 22, 2008

As probabilidades do amor

Alan Brogan e Irene Kinnair, depois de conviverem alguns meses no mesmo orfanato, estiveram separados 45 anos, mas conseguiram encontrar-se de novo e casaram-se. Confesso: histórias assim comovem-me mesmo.
Para todos os que não acreditam que estas coisas lhes possam acontecer, pelo menos...

Don't Be Shy!



Cat Stevens

Don't be shy just let your feelings roll on by
Don't wear fear or nobody will know you're there
Just lift your head, and let your feelings out instead
And don't be shy, just let your feeling roll on by
On by

You know love is better than a song
Love is where all of us belong
So don't be shy just let your feelings roll on by
Don't wear fear or nobody will know you're there
You're there

Don't be shy just let your feelings roll on by
Don't wear fear or nobody will know you're there
Just lift your head, and let your feelings out instead
And don't be shy, just let your feeling roll on by

Racismo (e as eleições americanas)

Seremos todos racistas? Eu acho que sim. Eu pensava que não. No tempo em que trabalhava em Lisboa e andava de metro reparei, um dia, que quando entrava um grupo de jovens negros eu ficava muito mais tenso do que se entrasse um grupo de jovens brancos. Sem razão concreta absolutamente nenhuma. Perdi um bom bocado da minha inocência aí.

Nos Estados Unidos, uma sondagem recente apresenta valores preocupantes de racismo. Que irão aliás condicionar, não tenho dúvidas nenhumas, os resultados eleitorais. Por uma simples razão: mesmo aqueles que dizem que não deixam que assuntos de cor da pele influenciem a sua decisão, na hora de votar, no anonimato da cabine, muitos irão votar em McCain porque Obama é "negro" (que em rigor, aliás, não é).

Tantas vezes que me pergunto de onde surge esta força maléfica que leva à distância, ao desprezo, ao ódio! Se houvesse só racismo dos brancos contra os pretos, eu avançaria com a explicação de que, possivelmente, na base estaria a cor negra que, na nossa cultura, associamos ao Mal e à Morte. Mas o racismo também existe no sentido contrário, embora menos, pelo menos nos EUA, como se concluiu da dita sondagem (por exemplo: "One in five whites [20%] have felt admiration for blacks "very" or "extremely" often. Seventy percent of blacks have felt the same about whites.")

Já sabemos que o conceito de raça não tem qualquer base científica consistente. E, do ponto de vista da realidade, é igualmente absurdo: o que é exactamente um "negro" ou um "branco"? Veja-se isto que me aconteceu:
X para mim é negra. X dizia-me no outro dia: "Não gosto nada do noivo da minha filha, mas o pior de tudo é que ele é negro, é mesmo preto!" E eu fiquei a olhar para ela, de boca aberta, estupefacto!

sábado, setembro 20, 2008

Um outro Paradoxo da Omnipotência

O mais conhecido é o "paradoxo da pedra".
Que, diga-se de passagem, nunca achei muito sério, pois confunde-se com um simples jogo de palavras (do género "O que acontece ao meu punho quando abro a mão?").

Mas este, que passo a expor, da autoria de J. L. Mackie, é irremediavelmente sério:

"Deus é omnipotente."
"Deus é infinitamente bom."
"O mal existe."

Três afirmações que nenhum crente razoável pode considerar falsas, penso eu.
O problema é que as três, simultaneamente, não podem ser verdadeiras.
Se Deus é omnipotente e infinitamente bom, então o mal não pode existir.
Se Deus é omnipotente e o mal existe, então Deus não é infinitamente bom.
Se Deus é infinitamente bom e o mal existe, então Deus não é omnipotente.

Considero este paradoxo dramaticamente sério porque está na base intelectual do meu ateísmo: um deus que permite que crianças sejam abusadas, feridas e mortas das formas mais cruéis, mesmo que exista, é um deus que não me interessa para nada. Na verdade, prefiro fazer a justiça de pensar que tal ser não existe.


(Uma discussão deste paradoxo vem referida na Introdução, de António de Araújo e de Miguel Nogueira de Brito, ao livro Eichmann em Jerusalém, de Hannah Arendt, p.33 e seg.)

sexta-feira, setembro 19, 2008

Eichmann em Jerusalém, ...



... Uma reportagem sobre a banalidade do mal.


Este polémico livro trata do julgamento no qual a acusação tentou mostrar Eichmann como sendo um monstro desumano e sádico. Tese com a qual Hannah Arendt, autora do livro, se mostrou em completo desacordo: para ela, Eichmann foi um pouco inteligente burocrata nazi, apenas preocupado com o cumprimento das regras e das leis, que simplesmente realizou o trabalho que lhe deram para fazer.


Eis o que diz Stanley Milgram, em Obedience to Authority:

Depois de assistir a centenas de pessoas comuns a submeterem-se à autoridade nas nossas próprias experiências, tenho de concluir que a concepção de banalidade do mal de Hannah Arendt está muito mais próxima da verdade do que nos atreveríamos a imaginar. (p. 7)


As palavras de H. Arendt:

Tenho hoje, com efeito, a opinião de que o mal nunca é "radical", que ele é apenas extremo e de que não possui nem profundidade, nem qualquer dimensão demoníaca. Ele pode invadir tudo e assolar o mundo inteiro precisamente porque se espalha como um fungo. Ele "desafia o pensamento", como disse, porque o pensamento tenta alcançar a profundidade, ir à raiz das coisas, e no momento em que se ocupa do mal sai frustrado porque nada encontra. Nisto consiste a sua "banalidade". (p. 25)

quarta-feira, setembro 17, 2008

O dilema dos adolescentes com dificuldades de aprendizagem

Quantas vezes nós, professores, nos irritamos com os alunos que, tendo dificuldades, não se esforçam absolutamente nada para as superar!
Porém, esses alunos vivem um dilema terrível.
Se se esforçam, e como naturalmente não conseguem grandes resultados, sentem que aparecem aos olhos dos colegas e amigos como burros e "mongos".
Se não se esforçam, não falham. E sentem que, aos olhos dos seus pares, até podem aparecer como fixes.

Repare-se que esta última opção tem duas vantagens irresistíveis:
Primeira, não tenho de concluir que sou burro, sou eu que escolho não estudar.
Segunda, não passo vergonhas aos olhos dos outros; pelo contrário, até posso ganhar prestígio aos olhos dos meus colegas, se souber gerir bem a minha oposição ao professor.
É muito, muito tentadora esta última opção.

segunda-feira, setembro 15, 2008

Quando os deuses querem castigar-nos, respondem às nossas orações (*)

Mas eu não acredito em deuses nenhuns, nem em orações nenhumas.
Que castigo me estará reservado?
Sim, eu sei, a solidão - tanto na vida como na morte.
Mas, a estar sozinho (e não estamos todos?), prefiro estar só a estar acompanhado.
Castigo bem singular este.


(*) (...) that when the gods wish to punish us, they answer our prayers é uma frase de Oscar Wilde, da peça Um Marido Ideal (2ºActo), e que Ana Teresa Pereira usa no seu último livro, belísssimo como sempre, O Fim de Lizzie.

domingo, setembro 14, 2008

Caros colegas...

... para a aventura!
Um bom ano, o mais centrado possível nos alunos (que são a verdadeira razão de ser do nosso empenho e realização).
Para isso, proponho o seguinte lema:

People don't care how much you know
until they know how much you care.


(As pessoas não se importam com o que sabes
até saberem o quanto tu te importas com elas)

sexta-feira, setembro 12, 2008

Oh! je voudrais tant que tu te souviennes

La Chanson de Prévert, Serge Gainsbourg



Oh! je voudrais tant que tu te souviennes
Cette chanson était la tienne
C'était ta préférée
Je crois
Qu'elle est de Prévert et Kosma

Et chaque fois les feuilles mortes
Te rappellent à mon souvenir
Jour après jour
Les amours mortes
N'en finissent pas de mourir

Avec d'autres bien sûr je m'abandonne
Mais leur chanson est monotone
Et peu à peu je m' indiffère
A cela il n'est rien
A faire

Car chaque fois les feuilles mortes
Te rappellent à mon souvenir
Jour après jour
Les amours mortes
N'en finissent pas de mourir

Peut-on jamais savoir par où commence
Et quand finit l'indifférence
Passe l'automne vienne
L'hiver
Et que la chanson de Prévert

Cette chanson
Les Feuilles Mortes
S'efface de mon souvenir
Et ce jour là
Mes amours mortes
En auront fini de mourir

Et ce jour là
Mes amours mortes
En auront fini de mourir


Les Feuilles Mortes, Yves Montand




paroles: Jacques Prévert
musique: Joseph Kosma


Oh! je voudrais tant que tu te souviennes
Des jours heureux où nous étions amis
En ce temps-là la vie était plus belle,
Et le soleil plus brûlant qu'aujourd'hui
Les feuilles mortes se ramassent à la pelle
Tu vois, je n'ai pas oublié...
Les feuilles mortes se ramassent à la pelle,
Les souvenirs et les regrets aussi
Et le vent du nord les emporte
Dans la nuit froide de l'oubli.
Tu vois, je n'ai pas oublié
La chanson que tu me chantais.

C'est une chanson qui nous ressemble
Toi, tu m'aimais et je t'aimais
Et nous vivions tous les deux ensemble
Toi qui m'aimais, moi qui t'aimais
Mais la vie sépare ceux qui s'aiment
Tout doucement, sans faire de bruit
Et la mer efface sur le sable
Les pas des amants désunis.

Les feuilles mortes se ramassent à la pelle,
Les souvenirs et les regrets aussi
Mais mon amour silencieux et fidèle
Sourit toujours et remercie la vie
Je t'aimais tant, tu étais si jolie,
Comment veux-tu que je t'oublie?
En ce temps-là, la vie était plus belle
Et le soleil plus brûlant qu'aujourd'hui
Tu étais ma plus douce amie
Mais je n'ai que faire des regrets
Et la chanson que tu chantais
Toujours, toujours je l'entendrai!

quinta-feira, setembro 11, 2008

Adenda ao post anterior

Eu acrescentaria a técnica da paráfrase:
"O que estás a dizer é que..." e reformulo por outras palavras o que o outro disse.
E tenho duas hipóteses:
a) Ou vou para a guerra, reformulando de maneira a expor as fraquezas e os erros de raciocínio do outro, o que será talvez adequado apenas nas situações em que ele/ela usou de um nível muito elevado de agressividade e há que travar de imediato o processo;
b) ou sou simpático e reformulo do modo mais favorável ao meu ponto de vista, levando o outro a mudar a sua opinião sem perder a face. Parece-me ser esta a linha a priviligiar.

quarta-feira, setembro 10, 2008

Como desarmar a agressividade verbal

Soube hoje nas reuniões que vou ter alunos de 7º terrivelmente malcriados para com os professores e os empregados. Fiz uma busca na net e encontrei isto que me pareceu interessante e útil:

How Verbal Self-Defense Works, por Suzette Haden Elgin.

terça-feira, setembro 09, 2008

Good Charlotte, Break Apart Her Heart

(...)
The only way you're gonna keep somebody around
Well I'm about to let you know

There's something I don't wanna understand
The only way a woman is gonna want a man
The only way you'll ever keep her in your hands
Is breaking apart her heart
Don't tell her she is the reason that you live
Don't give her everything that you got to give
If you want to keep the girl for as long as you live
Just break it apart her heart

(...)
There's truth about this, you say you want to be noticed
Well if you want to be noticed you gotta learn to break some hearts
Don't try to understand

(...)
I don't understand this cruelty
I don't understand... its just not me
I don't understand this cruelty
But now I see



segunda-feira, setembro 08, 2008

Change before you have to (Jack Welch)

O meu início de ano foi bom.
Tive boas e más novidades, mas a verdade é que a estas últimas não dou muita atenção.
Ao contrário dos meus colegas que, assustados, estão a ter bastantes dificuldades a adaptarem-se a esta nova dinâmica.
É que tenho vindo a fazer modificações no meu trabalho que tornam agora mais fácil eu adaptar-me: não dou faltas (portanto nunca me causou problemas a redução do nº de dias de faltas permitidas); nunca quis dia "livre" (logo trabalho a semana toda, aliás, muito mais descansadamente que os meus colegas com o tal dia); tirava as faltas dos alunos dia sim dia não, e avisava logo os pais; passei a trabalhar sempre na escola e nunca em casa (assim, habituei-me a fazer o meu horário de 7 horas diárias na escola)(esta mudança lembro-me de quando a fiz: desde que esta pobre ministra disse estupidamente que os professores portugueses eram os que passavam menos tempo na escola!); etc.
Quando, no outro dia, encontrei a citação acima foi encontrar em palavras aquilo que faço desde há alguns anos.
É um bom conselho.


Adenda: Também na minha escola se assiste a uma profunda "sangria" de profissionais interessados, competentes, duros trabalhadores e muito experientes: falo de professores, sim, mas também de funcionários de secretaria e de auxiliares de acção educativa. É uma coisa triste de se ver.

Ao mesmo tempo estou com curiosidade.
Porque, a História demonstra-o, a contestação nasce sempre nas camadas mais jovens, nunca entre os velhos.
Ora, são os mais velhos precisamente que estão a sair para dar entrada a malta nova.
Mesmo tendo o ME pensado em guardar os lugares de chefia e de avaliador para os mais velhos (medida que nunca deixou de me espantar que Cavaco Silva, um pretenso economista, assinasse de cruz - imagine-se empresas em que a idade fosse a principal condição para aceder a uma chefia!) a fim de exercer controlo sobre os mais novos, estou com curiosidade em saber do que é que estes serão capazes...

domingo, setembro 07, 2008

Resistir à autoridade injusta

O livro: Milgram, S. Obedience To Authority. London: Pinter & Martin Ltd, 2005.

Excertos, (1), (2), (3), (4) e (5) do 1º capítulo, “The Dilemma of Obedience”.


Fundamental a sua leitura numa época em que é cada vez mais tentador encher o nosso tempo livre com distracções, em que cada vez mais nos vemos obrigados a gastar esse tempo com mais horas de trabalho ou de formação profissional, isto tudo em vez de parar para reflectir. Simplesmente isto, reflectir. Lendo este livro, nem sequer se perde tempo à procura de modos de reflexão – cada capítulo é um desafio duro às nossas crenças e auto-ilusões.

Proponho aqui um exercício que fiz e que vou partilhar. Tendo realizado uma segunda leitura (depois de uma primeira, em que os meus estados de espírito alternaram entre a estupefacção e a perplexidade), fui retirando indicações de como resistir melhor ao poder que as diferentes autoridades do nosso dia-a-dia exercem sobre nós.

Um outro exercício, muito mais difícil (e demorado) de fazer, é questionar a nossa forma de exercer a autoridade no desempenho das nossas funções profissionais e parentais. Desde que li o livro que já não sou o mesmo, devo dizê-lo. Em que medida é que isso se irá reflectir na minha prática diária de professor é algo que estou ansioso por pôr à prova a partir de 15 de Setembro.

Aqui estão então as minhas conclusões-sugestões (que não são obviamente exaustivas, nem dispensam de todo a leitura do livro).

sábado, setembro 06, 2008

Em dia de chuva, eu, bronzeado, passo a palavra a...

... Frederico Lourenço, no JL (artigo "Palavras de Verão"), nº 988, de 13/8/08:

Não há coisa mais fisicamente repugnante do que a vista de pele bronzeada.
No nosso país, o sol é tão forte que infelizmente nem os protectores solares de factor 50 evitam essa cor hedionda.

quinta-feira, setembro 04, 2008

Perfil

Talvez saibam que esta é a fotografia que tenho usado no meu perfil.
Um uso abusivo, claro, porque não sou eu que estou ali. Não se trata do receio de ser identificado, pois sempre assinei os meus posts com o meu nome.

Mas gosto muito dela, pelo que não consigo tirá-la.
Possivelmente, porque se harmoniza com as minhas inclinações; além de que o retratado pertence ao meu círculo de vida: ei-lo longe, sentado a uma mesa, de costas e com uma viola na mão, a imagem a preto e branco, com leves tons de sépia, o silêncio à volta, um mundo de outro mundo.

A foto é da autoria de Dominique Isserman.
O fotografado é Leonard Cohen em Hydra nos inícios de 60.


(Leonard Cohen - The Literary Years)

quarta-feira, setembro 03, 2008

Porque não sorriem as modelos na passerelle?

Vejo a Fashion TV em casa alheia.
Ei-las a passar. São dezenas, centenas, milhares de modelos. Como o tic-tac de infinitos relógios, num fluxo contínuo, sem paragens.
Mas nem a mais leve sombra de um sorriso passa por aqueles rostos fúnebres. Porquê? Não pode ser por acaso; para ser traço comum a todas, tem de ser intencional. Mas porquê? Será o terror dos estilistas de que as pessoas se distraiam e não olhem para os vestidos?
Seja o que for, não consigo estar a assistir mais do que alguns minutos, aquilo incomoda-me e angustia-me: a beleza da mulher (e, sem margem para dúvidas, quase todas as mulheres podem ser belas) associo-a à vida em flor, não às máscaras de ferro da morte.

Já agora vejamos esta foto da Heidi Klum:



Aqui a vida ilumina, o sorriso e a nudez são símbolos claros e limpos de vida e de plenitude.
Gosto desta foto.
O efeito é curioso: a posição deitada, o sorriso feliz, o nosso olhar como que a debruçar-se sobre ela, a ser acolhido... mas, por outro lado, os braços cruzados; o tratar-se de apenas um momento; o sabermos que ela é casada com Seal, que tem 3 filhos; e o sentimento resultante é ambíguo: desejo e anti-desejo, ilusão de uma fotografia, provavelmente antiga, provavelmente retocada, a piscar-nos o olho, para sempre impedindo-nos de mergulhar nessa ilusão...

Vergílio Ferreira - Diário Inédito

Sim, provavelmente choca ou, pelo menos, surpreende. A verdade é que amo Vergílio Ferreira como se ele fosse (tivesse sido) da minha família mais próxima.
Tudo o que ele escreveu, e a forma como o escreveu, suscita em mim o sentimento de uma fraternidade forte e indestrutível. Mesmo quando discordo: é que essa discordância esboça-se e realiza-se sempre no interior, nunca é exterioridade.
Note-se que foi uma frase de Vergílio Ferreira que escolhi para a descrição deste blog desde o seu início. Nem sempre foi a mesma, mas foi sempre dele.




Como com todos os livros de V.F., peguei neste seu Diário meses depois de ter sido publicado, após ter terminado todo o burburinho (desta vez, maioritariamente positivo, diga-se de passagem) que ele suscitou à sua volta. Assim, li-o no silêncio e na solidão, o livro e eu, sem ninguém a meter-se de permeio. Acabei a sua leitura agora. E, mais uma vez, uma emoção forte que nasce de uma comuhão de sentires, de um mesmo gosto pelo que intelectualmente nos desafia, de um modo comum de olhar o mundo-natureza. Mas tudo isto fica aquém daquilo que realmente senti ao lê-lo (e falta-me a arte para o definir com verdade).
Apesar de ser muito mais interessante a 2ª parte, confesso que me comoveu profundamente a juventude, a ingenuidade e a insegurança de V.F. a revelarem-se nas entrelinhas da 1ª parte deste Diário.

Mil vezes obrigado à Professora Fernanda Irene Fonseca que edita superiormente este livro. Mil vezes obrigado à esposa de Vergílio Ferreira, Sra. D.Regina Kasprzykowski, por nos ter permitido o prazer da sua leitura.

terça-feira, setembro 02, 2008

Metabloguismo, e não só... também vencer o mal

Venho, pelo 2º dia, da escola.
Ambiente carregado, tensão, inquietação, tristeza, expectativas mais baixas que já alguma vez me foi dado ver.
Tudo tão profundamente negativo que, chegado aqui, todas as ideias sobre as quais me apetece escrever só me parecem fúteis e frívolas.
E, no entanto, eu recuso embarcar neste estado de espírito: não quero dar àqueles brutos da 5 de Outubro o poder de comandar o meu espírito!

Portanto, reflictamos sobre a maldade (e o seu contrário).
Na vida os maus ganham quase sempre, é da sabedoria das nações.
Os bons não lhes conseguem fazer frente porque, é verdade, são bons, mas são-no de forma medíocre - isto em resultado do medo que têm dos maus.
Só que, às vezes, aparece um bom verdadeiro. E aí ele ganha (a menos que seja assassinado) porque os maus, também eles, são cobardes, medíocres e mesquinhos. Não constituem concorrência para uma autêntica bondade.

Há exemplos ilustres - Gandhi, Luther King, Cristo -, que passaram pela luz da ribalta. Mas outros há, mais discretos, dos quais pouco se vai sabendo. Alguns comovem-me.

Por exemplo, Toni Ruttimann, o construtor de pontes. Aos 19 anos abandona a Suíça e inicia uma vida, desde 1987, a ajudar os povos da América Latina e do Sudoeste Asiático. Como? Construindo pontes (mais de 350). Usando apenas o que os outros deitam fora (especialmente companhias petrolíferas e mineiras) e a força braçal dos aldeões. Não aceita dinheiro de governos e não recebe salário nenhum. A sua casa é a mochila, onde leva alguma roupa, um computador e um telemóvel: nos últimos 20 anos nunca dormiu mais de 3 noites seguidas na mesma cama.
Construindo pontes. É um vencedor.

segunda-feira, setembro 01, 2008

Voltar ao trabalho

Rivka goes to her rabbi for advice.
"Rabbi", she says. "Both Abe and Sol are in love with me. Both want to marry me, and I have to pick... Who will the lucky one be?"
The rabbi looked at her and replied, "Abe will marry you and Sol will be the lucky one."

Kenneth Polin, IL, USA


(Tinha uma data de coisas para escrever. Mas prefiro começar este ano lectivo com humor.)

terça-feira, agosto 26, 2008

O que torna desinteressante tanta opinião

Para Marco Fortes, de Rui Tavares. Brilhante. No 5dias.

E percebo aquilo que me cansa na esmagadora maioria da opinião publicada, na net ou nos jornais: uma certeza sem falhas, a posse absoluta da razão, a ironia que esconde a fraqueza dos raciocínios (muitas vezes recorrendo ao insulto desnecessário e injustificado), a incapacidade de escrever pensando (não de ter ideias, aí, desde o governo até ao mais humilde adepto de futebol, todos estão cheios de ideias).
Em suma, sinto muita falta de uma discussão que se torne encontro e procura de um pensamento e de uma construção, ambos melhores do que aquilo que cada um trouxe para ela.

terça-feira, agosto 19, 2008

Obedience To Authority (5)

"Muitas das pessoas estudadas na experiência estavam em certo sentido contra o que faziam ao aprendiz, e muitas protestaram mesmo enquanto obedeciam. Mas entre pensamentos, palavras, e o passo crítico de desobedecer a uma autoridade malévola, reside um outro ingrediente, a capacidade de transformar crenças e valores em acção. Alguns sujeitos estavam totalmente convencidos do mal que estavam a fazer mas não conseguiram arranjar coragem para provocarem uma ruptura com a autoridade. Alguns tiraram satisfação dos pensamentos que tiveram, e sentiram que - no seu interior, pelo menos - assim ficavam do lado dos anjos. O que eles fracassaram em se aperceber é que os sentimentos subjectivos são largamente irrelevantes para o problema moral ali em jogo enquanto não forem transformados em acção. (...) As tiranias são perpetuadas por homens tímidos, inseguros, hesitantes, que não possuem a coragem necessária para actuarem de acordo com as suas crenças."

Milgram, S. Obedience To Authority. London: Pinter & Martin Ltd, 2005. (pp 11-12)

segunda-feira, agosto 18, 2008

Obedience To Authority (4)

"Pelo menos um aspecto fulcral da situação na Alemanha não foi estudado aqui - nomeadamente, a intensa desvalorização da vítima antes de actuar contra ela. (...)

De considerável interesse, porém, é o facto de muitos sujeitos desvalorizarem asperamente a vítima como uma consequência de actuarem contra ela. Comentários como, 'Ele era tão estúpido e teimoso que merecia receber os choques', foram comuns. Uma vez tendo actuado contra a vítima, estes sujeitos acharam necessário vê-la como uma pessoa desprezível, (...)"

Milgram, S. Obedience To Authority. London: Pinter & Martin Ltd, 2005. (p. 11)


Nota: Professores, perceberam a técnica que este Governo usou convosco? E perceberam as reacções das pessoas em relação a vocês, que se estendem ainda até aos dias de hoje?

domingo, agosto 17, 2008

Obedience To Authority (3)

(2) aqui.

"(...) Depois de testemunhar a submissão à autoridade, nas nossas próprias experiências, de centenas de pessoas vulgares , tenho de concluir que a concepção de Arendt da «banalidade do mal» aproxima-se mais da verdade do que qualquer um se atreveria a imaginar. A pessoa comum que deu choques eléctricos à vítima fê-lo por um sentido de obrigação - uma concepção dos seus deveres como sujeito - e não por causa de quaisquer tendências agressivas.

Esta é, talvez, a lição mais fundamental do nosso estudo: pessoas comuns, a fazerem simplesmente o seu trabalho, e sem qualquer hostilidade particular da sua parte, podem tornar-se agentes de um terrível processo de destruição. Além disso, mesmo quando os efeitos destrutivos do seu trabalho se tornam patentemente claros, e é-lhes pedido que desempenhem acções incompatíveis com normas fundamentais de moralidade, relativamente poucas pessoas têm os recursos necessários para resistir à autoridade(*). Uma gama variada de inibições para desobedecer à autoridade começa a actuar e consegue manter a pessoa no seu lugar."

Milgram, S. Obedience To Authority. London: Pinter & Martin Ltd, 2005. (pp 7 - 8)


(*) Mais: nunca nenhuma das pessoas estudadas mostrou vontade de pôr fim à realização da experiência, por exemplo, revelando a intenção de se queixar às autoridades competentes.

sexta-feira, agosto 15, 2008

Este aqui sou eu, hoje, a divertir-me no mar...



(foto tirada da daqui, da National Geographic)

Mulheres vítimas de violência

7 terrible abuses suffered by women around the world

(via 5dias.net)

Para começar a parar com isto: não ensinar as crianças a resolverem problemas recorrendo à violência.
Como? Não usando de violência com elas. Não usando de violência com quer que seja, na casa ou na rua.
Parece claro.

Mas, se depois, quando vão para a escola elas começam a ser vítimas da violência dos outros e não lhe sabem responder (como aconteceu com o meu filho)?

Não me venham com a treta de apelar para a escola, porque a escola hoje em dia
NÃO TEM MEIOS ABSOLUTAMENTE NENHUNS DE GARANTIR A INTEGRIDADE FÍSICA E PSICOLÓGICA DOS SEUS ALUNOS CUMPRIDORES E BEM COMPORTADOS! (eu sei do que estou aqui a falar, sou professor e pai)

E já não sei responder.

Mas sei que a responsabilidade dos homens (ajudados, admitamo-lo, por algumas mulheres que ajudam a perpetuar esta cultura e tradição - atente-se nas fotos do link acima) no sofrimento das mulheres é gigantesca e infinita. E isso causa-me uma infindável vergonha.


Adenda: repare-se que, em 3 das fotos, mulheres participam activamente nos abusos. Sim, todos sabemos que as mulheres têm sido responsáveis pela aplicação e manutenção de práticas abusivas e cruéis sobre elas próprias. É triste.
Terá isto alguma coisa a ver com o que as minhas colegas nunca se cansam de referir, que não há pior inimigo da mulher do que a própria mulher?

quinta-feira, agosto 14, 2008

Do Amor: algumas anotações

A maior diferença que encontro entre a pessoa em que me tornei hoje e o adolescente que fui é que, então, eu sonhava com o Amor, e agora não consigo deixar de sonhar com ele (pode-se aprender a não ser amado?).

Sempre tive a maior curiosidade em me informar sobre o Amor. Não percebi que, ao contrário, devia ter-me antes educado.

Apesar de reconhecer que o tratamento por "tu" é mais sensual e excitante, aprecio um tratamento por "você" que mantenha o mais tempo possível o mistério que somos um para o outro.

Acho a boa educação e a suavidade de maneiras altamente desejável quando me relaciono com uma mulher. No jogo de aproximações entre um homem e uma mulher, uma palavra grosseira, uma piada pesada, um beijo invasivo, etc, são como pedradas num charco: de certa maneira sentimo-nos salpicados de lama... mesmo quando conseguimos por fora um (sor)riso tolerante.

É aos cinquenta anos que eu fico a saber que falhei a minha vida. Para me salvar procuro reconhecer os meus limites: muitos deles têm a realidade apenas da imaginação. Vou-me descobrindo no alto-mar sem terra à vista. Mas é um começo. Um dia, talvez um dia, a encontre.

O primeiro inimigo do(a) tímido(a) no Jogo do Amor é o orgulho, a inaptidão para o ridículo. O segundo é a solidão, o aquário em que se meteu para fugir à dor inesperada: é que não é fácil sair dele (onde aliás já ninguém consegue verdadeiramente tocar-lhe).

Sonho amar uma mulher bonita. Mas só encontro raparigas velhas (dos 13, 14 anos aos 60, 65).

quarta-feira, agosto 13, 2008

Randy Pausch, Professor

Esta é a sua famosa última aula dada em 18 de Setembro de 2007, na Universidade de Carnegie Mellon, antes de morrer.
Vale cada minuto que utilizemos da nossa vida a ouvi-la.



Aqui a indicação do livro a que deu origem.

Aqui a notícia do Público, com um curtíssimo excerto legendado do vídeo (tirado do início e do fim da aula)

I think the only advice I can give you on how to live life well is ... - um curto vídeo do seu discurso na cerimónia de formatura na sua Universidade em 18 de Maio de 2008.

Faleceu a 25 de Julho de 2008.

terça-feira, agosto 12, 2008

Mark Twain


It is by the goodness of God that in our country we have those three unspeakably precious things: freedom of speech, freedom of conscience, and the prudence never to practice either.




(via Success Soul)

segunda-feira, agosto 11, 2008

Obedience To Authority (2)

(1) aqui.

"(...) O objectivo da experiência é determinar até onde vai uma pessoa, numa situação concreta e mensurável, em que lhe é ordenado que inflija sofrimento e dor crescentes [através de electrochoques] numa vítima que protesta e se queixa. Em que ponto é que o sujeito se recusa a obedecer ao experimentador?
(...)
A reacção inicial do leitor à experiência poderá ser perguntar-se porque é que alguém no seu juízo perfeito haveria de administrar até mesmo os primeiros choques. Não seria de recusar simplesmente e sair do laboratório? Mas o facto é que ninguém jamais o faz. Desde o momento em que entra no laboratório para ajudar o experimentador, o sujeito está mais do que disposto a iniciar os procedimentos. (...)
(...)
Muitos sujeitos obedecerão ao experimentador independentemente do quão fortes ou veementes sejam os pedidos da pessoa a sofrer os choques eléctricos, independentemente de quão dolorosos os choques pareçam ser, e independentemente de quanto a vítima suplica para a deixarem sair. Isto foi visto vezes sem conta nos nossos estudos e foi observado em várias universidades onde a experiência foi repetida [nos Estados Unidos, Alemanha, Itália, África do Sul e Austrália (p. 171)(*)]. É a extrema boa vontade e disponibilidade de adultos para irem a quase qualquer extremo sob as ordens de uma autoridade que constitui a principal descoberta do estudo e o facto a exigir mais urgentemente uma explicação.
(...)"

Milgram, S. Obedience To Authority. London: Pinter & Martin Ltd, 2005. (pp 5 - 7)

(*) Aqui referem-se também os seguintes países: Reino Unido, Jordânia, Espanha, Áustria e Holanda.

domingo, agosto 10, 2008

Museu Nacional de Etnologia


Excelente museu!
Modesto, mas muito bonito e com funcionários muito simpáticos.

Obrigatório ver a exposição "Pinturas cantadas: arte e performance das mulheres de Naya" e o respectivo documentário: das doces, corajosas e sorridentes mulheres de Naya, acrescento eu.

Também comovente a exposição "Drôty.sk: a arte do arame": da Eslováquia, um país que conquistou a minha simpatia quando lá estive, o trabalho delicado, inventivo, muitas vezes útil e sempre belo de se ver dos artesãos de antigamente e dos artistas de hoje.

Depois as visitas amigavelmente guiadas ao "Mundo rural português" e aos "Índios Wauja da Amazónia".

Comprados os catálogos das exposições, beber uma bebida fresca na esplanada e ou comer qualquer coisa, conversar simpaticamente com outros visitantes do museu sobre o que se viu e ouviu, ou ler um pouco, e assim se completa um domingo bem passado.

Pena de morte?

Há uns dias escrevi isto a propósito do pai que abandonou os filhos na estrada:

"Gostaria de poder dizer que a culpa é de Sócrates que instituiu um clima de falsidade, de crueldade e de inveja, e erigiu tudo isto a valores do regime.
Gostaria de poder dizer que a culpa é das pessoas que acham que ser-se bom não dá "pica".
Gostaria de poder dizer que a culpa é do dito pai. Mas sobre isto nada sei dizer, porque tudo o que se diga é dizer pouco.
Posso dizer que a culpa é minha por todas as vezes em que fui cruel, ou em que deixei passar em silêncio a crueldade dos outros. Isto, eu sei."

Assisti por vídeo à execução de um criminoso. A razão apresentada para tal acto foi ele estar a ameaçar de morte uma vítima inocente.
Toda a gente mostrou uma desmesurada alegria pelo acto.
Mas eu questiono-me.
A pena de morte foi legalizada em Portugal? Ou já se pode matar para prevenir crimes de morte? Ou seja, sempre que alguém apontar uma arma à cabeça de outra, o assassínio fica automaticamente justificado? Isto sempre sem passar pelos tribunais, claro.
Se eu fosse um dos reféns como estaria a sentir-me agora? Aliviado, sim, sem dúvida. Mas o facto de toda a gente dizer, sem o dizerem explicitamente, que eu fui a causa da morte de um ser humano, isso deixar-me-ia indiferente? Ou agoniado?
E, finalmente, se o executado fosse português, sem cadastro tal como eles, e a execução fosse no Brasil, por um sniper brasileiro, o gáudio geral seria o mesmo (como João Marcelino e Ferreira Fernandes)?
Sinto-me inquieto. Não sei se este é o país com que me identifico. Além disso, estarei alguma vez a salvo no meio deste ódio todo, no meio desta miserável alegria?

Nota: JoãoMarcelino no DN: "(...)
Solidarizo-me com a dor deles. (...)" Com a das vítimas? Com a da família das vítimas? Com a da comunidade brasileira em Portugal? Com a dos reféns, por se poderem sentir a causa da execução? Não, não, não e não. A solidariedade (a identificação?) é com os carrascos... A Loucura da Normalidade (Arno Gruen)

sexta-feira, agosto 08, 2008

Quadrilha de malfeitores

A minha amiga, paraplégica, filha única, pai falecido, mãe com Alzheimer (num lar privado, que os da Segurança Social não têm lugar), recebia do IRS cerca de 600€.
Este ano teve de pagar 500€.
O roubo é de cerca de 1100€.

Ainda não há muito tempo, gente desta seria corrida à chicotada.
Hoje chegam a governantes.
Sinal dos tempos.

quinta-feira, agosto 07, 2008

Só

Simplesmente. Não contra nada nem ninguém. Apenas aceitar. Sem resignação.

O que se ganha: uma vida muito, muito intensa, para o bem e para o mal. Sem distracções.
Por exemplo, um banho no mar - e é a felicidade absoluta, total.

O que se exige para o conseguir: uma disciplina mental e física, não direi férrea, mas espartana, sem dúvida.

A saber, sem preocupação de ordem:

- Não olhar para o passado, seja com nostalgia, com piedade, ou com revolta... E nunca perder tempo a imaginar que teria sido melhor "Se eu tivesse feito de maneira diferente..."

- Nunca recriminar nada nem ninguém pelo que se viveu de menos bom.

- Manter uma actividade mental exigente, para não ficar estúpido: por exemplo, preferir a leitura de ensaios à de ficção; e, dentro desta, optar pelas biografias não autorizadas (autobiografias é que nunca, pois são demasiado falsas e complacentes).

- Não ter dependências: de pessoas, cigarros, álcool ou drogas (nem das legais nem das outras).

- Evitar devaneios com o lado amoroso, bom e doce das mulheres, dado que é apenas um lado entre muitos e, hoje em dia, de acordo com a moda (elas pensam que assim não dão "pica"), um dos mais efémeros e menos valorizados.

(Aliás, quando alguém se refere a uma pessoa do outro sexo, as palavras ditas vêm de um fundo que se estende desde a amargura até à ironia, sem passar pela doçura. Tempos ásperos, estes. E as pessoas vivem resignadas a esta indigênia emocional.)

- Não ver TV e fechar-se a qualquer tipo de publicidade, pois ambas instilam desejos e expectativas ilusórias e, muitas vezes, antagónicas com a realidade.

- Manter uma actividade física exigente, senão fica-se mole.

- Para evitar o entorpecimento intelectual e dos sentidos, levar uma vida frugal, comer pouco mas variado (doces estão totalmente fora de questão).

- Ter um objectivo, pelo menos, em mente que possa ser alcançado na actualidade; não adiar para um futuro vago a luta por o conseguir.

- Manter uma higiene pessoal rigorosa e intransigente, o sentido da dignidade começa aqui.

- Nunca gastar forças a ruminar no que falta, mas viver e aproveitar conscientemente o que se tem.

sábado, agosto 02, 2008

Enfim, ...



Dr. David Erneman para Susanne Verin:
- Não, eu não a amo. Mas quero tocá-la, quero que o seu fogo alivie o meu entorpecimento. (...)




(Uma Lição de Amor, Ingmar Bergman, 1954)

sexta-feira, agosto 01, 2008

Princípio

Amar genuinamente as mulheres em geral. Mas não amar verdadeiramente nenhuma mulher real, concreta.

Ser consequente: viver só (sem fazer ninguém infeliz) e sem se queixar. Assim, talvez não se deixe de ser Homem.